quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Guiné 63/74 - P10702: Tabanca de Candoz: Há a bazuca e a... mazurca; ou aqui não há festa sem música, sem dança no terreiro, sem contradança, valsa, fado, baile mandado..., ou seja, sem as velhas, novas, tunas rurais de Entre Douro e Minho...



Marco de Canaveses > Uma tuna rural dos anos 40 do séc. XX... (Fonte: AGUIAR, P. M. Vieira de - Descrição Histórica, Corográfica e Folclórica de Marco de Canaveses. Porto: Esc Tip Oficina de S. José. 1947). (Reproduzido com a devida vénia...)




Vídeo (2' 10'): © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados. (Clicar aqui para visualizar o vídeo, alojado no You Tube > Nhabijões)

 Quinta de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, 20 de outubro de 2012... Festa de família, festa nortenha, festa portuguesa!... Esta é uma mazurca, daquelas que o povo de Candoz adora dançar!... Músicos: João e Júlio (violinos) + Nelo e Tiago (violas). O 1º violino é o nosso camarada Júlio Vieira Marques, que esteve na Guiné em meados dos anos 60 (O segundo a contar da esquerda). O 2º violino é o João Graça,  nosso grã-tabanqueiro (O primeiro  contar da esquerda)... (O Júlio e o João nunca ensaiaram juntos, e é a segunda vez que tocam juntos; a última foi também numa festa de família, há ano e meio).


1. A Tabanca de Candoz pode não ter ainda direito(s) de cidadania... no âmbito da Federação das Tabancas da Tabanca Grande (Matosinhos,  Melros, Centro, Linha,  Guilamilo, São Martinho do Porto, Lapónia ...) mas de tempos a tempos gosta de dar notícia de si, evidenciar-se, enfim, mostrar-se um bocadinho na montra do blogue. 

Até há pouco tempo, havia dois gatos pingados da Guiné, associados  a esta modesta Tabanca que fica lá para as bandas do Douro, com vistas para o rio Douro e  as serras do Marão, Aboboreira e Montemuro: o fundador deste blogue (e  um  dos seus editores), Luís Graça, e um tal Manuel Carneiro de quem o primeiro escreveu o seguinte no blogue A Nossa Quinta de Candoz, em 7 de outubro de 2007:

Foto à esquerda:  Manuel Carneiro, festa de N. Sra. Socorro, Paredes de Viadores, 27 de julho de 2008. (Crédito fotográfico: L.G.)


"Costuma-se dizer que o mundo é pequeno quando encontramos alguém, em circunstâncias, inesperadas ou insólitas. Alguém que já não vemos há muito, alguém de quem ouvimos falar mas que não conhecemos, enfim, alguém que gostaríamos de (re)encontrar.

Foi o que aconteceu com o Manuel Carneiro, ex-pára-quedista da CCP 121/BCP 12, que esteve na Guiné entre 1972 e 1974. Quem, primeiro, me falou do Manuel Carneiro foi o Victor Tavares, à mesa do Restaurante Vidal, em Aguada de Cima, Águeda, em 2 de Março último, tendo a nosso lado o Paulo Santiago, que jogava em casa…

"Como então tive ocasião de escrever, o Victor é um digno representante dessa escola de virtudes humanas e militares que foram (e são) os paraquedistas. Ele foi sobretudo um valoroso elemento da CCP 121 /BCP 12 que, na Guiné, entre 1972 e 1974, sofreu nove baixas mortais: seis na Operação Pato Azul (Gampará, Março de 1972) e três na valorosa 5ª coluna que, entre 23 e 29 de Maio de 1973, rompeu o cerco a Guidaje. Estes espisódios já aqui foram evocados pelo Victor, com dramatismo, autenticidade e rigor (*). (...)

"À mesa, na conversa que com ele tive, ao almoço, deu também para perceber que ele é também um grande homem, um grande português e um grande camarada, que foi um notável operacional mas que não se envaidecia pelo seu brilhante currículo como combatente e pelo facto de ainda hoje privar com os seus antigos oficiais, incluindo aquele que foi seu comandante e que atingiu o posto de major-general (se não erro, Bação da Costa Lemos, hoje na reforma), posto esse que é dificilmente alcançável entre as tropas pára-quedistas... O Victor foi e continua a ser muito respeitado pela família paraquedista, camaradas e superiores hierárquicos... A sua presença, na nossa Tabanca Grande, também nos honra, sobretudo pela sua grande experiência, camaragem e lealdade.

"Foi também nessa ocasião que eu vim a saber que um grande camarada e amigo do Victor foi um tal Manuel Carneiro, conterrâneo da minha mulher, Maria Alice Ferreira Carneiro, natural de Paredes de Viadores, concelho do Marco de Canaveses… Não têm qualquer parentesco entre si, apesar do apelido Carneiro…

"No dia 2 de Setembro de 2007, seis meses depois, acabo por conhecer o Manuel Carneiro. Estava eu a acabar as minhas férias de Verão, passando os últimos dias na pacatez e frescura de Candoz, com vista para a albufeira da barragem do Carrapatelo… No dia 2 era a festa do São Romão, orago da freguesia, Paredes de Viadores. Por volta das 16h, decidimos ir dar uma volta até ao sítio onde se realizava a festa do São Romão que não se compara, nem de longe nem de perto, com a grande festa anual da freguesia e do concelho, que é a Senhora do Socorro, na última semana do mês de Junho de cada ano…

"São Romão resume-se, em boa verdade, a um pequena procissão e pouco mais. Mas nesse dia actuava o Rancho Folclórico da Associação Juvenil de Paredes de Viadores…. Assisti  à (e filmei a) segunda parte deste simpático e jovem rancho, fundado em 1997. No final, entendi dever dar uma palavrinha reconhecimento e de estímulo ao respectivo director, que eu não sabia quem era…

"Levaram-me até ele e, qual não é a minha surpresa, quando lá chegado ele dispara, rápido, a seguinte exclamação:
- Mas... é o Dr. Luís Graça!
- Já nos conhecemos de algum lado ?
- Do blogue, pois, claro! Do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné! Sou camarada do Victor Tavares, paraquedista da 121…
- Podes então dispensar o doutor… Dá-me cá um abraço, que os camaradas da Guiné tratam-se todos por tu!

"Fiquei então a saber que o Manuel Carneiro, de 55 anos, pai de três filhas, era nosso vizinho, conhecia muito bem a família da minha mulher, os Carneiro de Candoz, que era refomado da CP, que residia no Juncal, mesmo junto à estação do Juncal (Linha do Douro, entre Marco de Canaveses e Mosteiró) e que assumira há pouco tempo funções de director do Rancho Folclórico da Associação Juvenil de Paredes de Viadores

"A conversa inevitavelmente foi parar ao blogue, à Guiné e aos paraquedistas. O Manuel Carneiro está amiúdas vezes com o Victor, nos convívios periódicos da Companhia (CCP 121) e do Batalhão (BCP 12). Prometi-lhe apadrinhar a sua entrada na nossa Tabanca Grande. Disse-me que ainda não tinha email mas que ía com frequência visitar o nosso blogue, a partir do computador da filha mais nova…

"Prometi-lhe também divulgar o rancho por quem ele tem muito amor e a que dedica um boa parte do seu tempo, tanto no nosso blogue como no blogue da família, a Nossa Quinta de Candoz… Aqui fica, hoje, e com o atraso de mais de um mês, uma parte do prometido… A voz que se ouve no vídeo [ A Nossa Quinta de Candoz, poste de  7 de outubro de 2007 é do Manuel Carneiro a quem eu saúdo, como novo membro da nossa tertúlia". 

Na realidade, o Manuel Carneiro nunca chegou a ingressar, formalmente, na nossa Tabanca Grande, por falta de endereço de email e da foto da praxe, do tempo dos páras, mais a história que faz parte da joia de entrada; mas ainda estamos a tempo de corrigir essa anomalia, se ele continuar hoje a interessar-se pelo nosso blogue. Ultimamente não nos temos visto.

2. Outros dois são tabanqueiros, por direito próprio, jogam em casa, são da família Carneiro, foram ex-combatentes, mas não passaram pela Guiné:  os meus cunhados António Carneiro (o irmão mais velho da Alice) e o Zé Carneiro, o caçula, o mais novo. Há um, terceiro mancebo, o Manuel, hoje com 69 anos, que ficou livre da tropa.

O António, o mais velho, depois de regressar do Brasil, aos 24 anos, teve de cumprir o serviço militar. Era refratário... Estamos em meados dos anos sessenta. Com a especialidade de 1º cabo magarefe, da Manutenção Militar, foi mobilizado para Moçambique.

Em Tete, o António sofreu um grave acidente com uma pistola-metralhadora ligeira, uma UZI, disparada acidentalmente por um camarada... Milagrosamente salvou-se. tem um fecho "éclair", de alto a abaixo, do peito à barriga... O tiro perfurou-lhe sete órgãos. Hoje é um DFA - Deficiente das Forças Armadas (com cerca de 2/3 de incapacidade).

O mais novo, o Zé, por seu turno, foi parar a Angola... Foi 1º cabo trms inf, de rendição individual. Já  não se lembra a que companhia esteve ligado. Nem nunca encontrei ninguém desse tempo. Só se lembra de assentar arraiais em Camabatela, e andar a guardar cafezais lá para os lados de Negage e Quitexe. Não tem saudades nem da tropa nem de Angola.

Sobre a família, mesmo sendo suspeito, o que eu posso dizer é que  é gente danada para trabalhar, em casa e no campo, arrumar, lavar, cozinhar, organizar, fazer bolinhos, enfeitar, pôr os melhores panos na mesa, mesmo que no melhor pano às vezes caia a nódoa; é gente gregária, solidária, com valores cristãos; é, enfim, gente danada para a festa, a folia,  a brincadeira, a brejeirice, a dança, a música... Tanto elas como eles, ou ainda mais elas do que eles...

3. Agora junta-se à  pequena Tabanca de Candoz mais um camarada, esse, sim,  da Guiné, nada mais nada menos do que um corneteiro, de uma companhia que eu só fixei ser qualquer coisa como mil quatrocentos ou mil quinhentos e tal. e que terá andado por Madina do Boé... Tudo isto passa-se em meados da década de 60. Tenho que saber mais pormenores, mas ontem à noite não consegui apanhá-lo em casa (Mora em Matosinhos e tem oficina na Maia).



Quinta de Candoz, 20 de outubro de 2012 . Júlio Vieira Marques, violino (da tuna rural  Os Baiões)

Vídeo (2' 01''): Luís Graça (2012)

O Júlio faz parte do grupo musical Os Baiões, e é um entusiástico representante da tradição das tunas rurais que tiveram, nomeadamente na região do Marão, o seu apogeu nos anos 50. Até por volta dos seus 40 anos, o Júlio  também era um excelente tocador de violão. Um acidente com uma máquina de cortar madeira (ele é marceneiro de profissão), levou-lhe a falange do indicador da mão direita, obrigando-o a trocar o violão pelo violino (Repare-se na mão que segura o arco do violino,  no vídeo que aqui pode ser visualizado )... 

O Júlio é um exemplo extraordinário de força de vontade, talento, sensibilidade, coragem, disciplina e persistência. É, além disso, um homem afável e amigo do seu amigo. A morte, há uns anos atrás, de um companheiro e amigo, tocador de violão, levou-o a fazer um prolongado processo de luto, de vários anos, em que deixou pura e simplesmente de tocar. Para felicidade dele e nossa, acabou o luto, e hoje é capaz de estar um dia ou uma noite a tocar violino, sozinho ou acompanhado. 


O seu reportório é impressionante. Autodidata, também é construtor de violinos. Tem afinidades com a família de Candoz, é cunhado da Rosa, a irmã mais velha da Alice. A sua atuação em Candoz, em 20/10/2012, juntamente com outros músicos (tudo prata da casa!, tudo primos: João, Tiago, Luís Filipe, Miguel, Nelo, Joãozinho, violas, violões, bandolins, cavaquinhos, etc.), foi no âmbito das Bodas de Ouro de Casamento da Rosa & do Quim (, que é também, ele, um excelente "mandador de baile mandado", como se comprova neste outro vídeo disponível na nossa conta You Tube > Nhabijoes).

Espero, entretanto,  que o meu (e nosso) camarada Júlio aceite o meu convite para integrar formalmente a Tabanca de Candoz e a tabanca-mãe, a Tabanca Grande. Ficamos seguramente mais ricos com a sua presença humana e o seu talento musical.
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Nota do editor:


(*) Vd. postes  de:

9 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1260: Guidaje, de má memória para os paraquedistas (Victor Tavares, CCP 121) (2): o dia mais triste da minha vida

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