sexta-feira, 26 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17397: Meu pai, meu velho, meu camarada (55): Artilharia de defesa de costa e antiaérea no Mindelo, na II Guerra Mundial: fotos do álbum fotográfico de Luís Henriques (1920-2012), natural da Lourinhã, ex-1º cabo at inf, nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha], que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, entre julho de 1941 e setembro de 1943


Foto nº 1 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >"As peças anti-aéreas do Monte Sossego; fotografia oferecida pelo meu amigo [e conterrâneo, da Lourinhã] Boaventura [Horta] em 21/3/43."

Foto nº 2 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > "Oficiais do Exército e da Marinha nas peças do Monte Sossego. Ao fundo a linda Baía com o [NPR] Pedro Nunes à vista. Fotografia oferecida pelo meu amigo Boaventura em 21/3/43. Mindelo. [O Monte Sossego fica a nordeste da cidade do Mindelo, sobranceiro à Ponta de João Ribeiro].




Foto nº 3 >  Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo  >"Oficiais do Exército e da Marinha nas posições da Anti-Aérea no Monte Sossego, S. Vicente. Fotografia oferecida pelo meu amigo Boaventura, em Mindelo, 21/3/43". [O Monte Sossego fica a nordeste da cidade do Mindelo, sobranceiro à Ponta de João Ribeiro].



Foto nº 4 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo  > "Posição das peças anti-áereas no Monte Sossego, São Vicente, Cabo Verde. Fotografia oferecida pelo meu amigo Boaventura em 21/3/43." [O José Boaventura  Horta, natural da Lourinhã, já falecido, era pai dos meus amigos de infância Carlos, Olga e Elisa. Éramos vizinhos da mesma rua ] 


Foto nº 4  > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > "4 metralhadoras pesadas fazendo fogo anti-aéreo para balões de papel. No dia da festa de aniversário. 23 de Julho de 1942. No Lazareto, S. Vicente, Cabo Verde" [O 1º Batalhão Expedicionário do R.I. 5 tinha chegado ao Mindelo há precisamente um ano, e estava aquartelado no Lazareto ]


Foto nº 5 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > "Aspeto da cidade do Mindelo tirada do Oeste. Vê-se os importantes depósitos de óleos da Shell. Outubro de 1941" [A II Guerra Mundial, com a drástica redução do trâfego marítimo da Europa para a África e a América Latina, teve dramáticas consequências no movimento do Porto Grande e na socioeconomia da ilha,]



Fotos (e legendas): © Luís Henriques (1920-2014) / Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].





1. Fotos do álbum de Luís Henriques (1920-2012), natural da Lourinhã, ex-1º cabo at inf, nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha], que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, Mindelo, no Lazareto, entre julho de 1941 e setembro de 1943, em missão de soberania; este e outros batalhões foram entretanto integrados mais tarde no RI 23].  (*)


[Foto  à direita, Luís Henriques > 19 de agosto de 1942 > "No dia em que fiz 22 anos, em S. Vicente, C. Verde. 19/8/1942. Luís Henriques ".]



Escreveu o nosso camarada, natural do Mindelo (1943), Adriano Miranda Lima (cor inf ref, com duas comissões de serviço em Angola e Moçambique, no tempo da guerra colonial), e que tem escrito sobre as tropas expedicionárias portuguesas em Cabo Verde durante  a II Guerrra Mundial

(...) "As unidades desembarcaram e rumaram logo para os locais de destino previstos. No que respeita ao dispositivo da ilha de São Vicente, o Batalhão de Infantaria 5 (proveniente das Caldas da Rainha) ficou sediado na zona do Lazareto, o Batalhão de Infantaria 7 (proveniente de Leiria) na zona de Chã de Alecrim, e o Batalhão de Infantaria 15 (proveniente de Tomar) foi logo para [a  ilha de] Santo Antão, sediando-se no Porto Novo, com excepção da 3.ª Companhia de Atiradores e de um pelotão da Companhia de Acompanhamento, que ficaram em São Vicente, mesmo dentro da área urbana do Mindelo.

"A artilharia de defesa de costa ficou instalada no Morro Branco e em João Ribeiro, enquanto a artilharia antiaérea não poderia ter encontrado posição tecnicamente mais adequada que o cimo do Monte de Sossego, que lhe conferia visão simultânea sobre o Porto Grande e sobre os pontos críticos da cidade do Mindelo."

(...) "Sei que, tanto quanto as possibilidades locais o permitiram, recorreu-se ao aboletamento (...) de oficiais e sargentos em casas particulares e pensões, pelo menos em parte e numa fase inicial, ao mesmo tempo que se utilizaram instalações de campanha (tendas e barracas), enquanto não eram construídos aquartelamentos!. (...)
(**)
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Notas do editor;



(**) Blog Praia de Bote > 15 de outubro de 2012 > [0264] Adriano Miranda Lima: a continuação (ver posts 256, 257 e 259): Tropas expedicionárias portuguesas a Cabo Verde no período da segunda Guerra  Mundial: 4 - A Actividade Militar e o Meio Físico Envolvente 

Guiné 61/74 - P17396: Notas de leitura (961): “Arcanjos e Bons Demónios, Crónicas da Guerra de África 1961-75”, por Daniel Gouveia, 4.ª edição, DG Edições, 2011 (2) (Mário Beja Santos)




1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Maio de 2017:
Queridos amigos,
Não se devem poupar encómios a processos literários que ganharam por mérito próprio lugar ao sol, direito à intemporalidade da leitura e da consulta. São crónicas avulsas de um septuagenário, com lago e diversificado currículo, até com pergaminhos de escritor, que desvia as suas memórias de acontecimentos que experimentou em Angola. Usa habilmente a terceira pessoa do singular, o que provoca uma agradável aproximação, ele encarrega-se de animar tudo quanto viu e sentiu com uma prosa vivacíssima, sem enxúndia, ali se vão encruzilhar muitas dores, muito rocambolesco, muito tédio, até medo - estão ali os sentidos, as matas, os gritos medonhos de tudo quanto vivemos e jamais esqueceremos.
É um livro excecional, de leitura obrigatória.

Um abraço do
Mário


Arcanjos e bons demónios: histórias de cuidado, de fraternidade e horror (2)

Beja Santos

“Arcanjos e Bons Demónios, Crónicas da Guerra de África 1961-75”, por Daniel Gouveia, 4.ª edição, DG Edições, 2011, é um livro notável, seja qual o prisma com que encararmos estas crónicas em que um alferes descobre um continente, novas dimensões da solicitude, impensáveis usos e costumes, mas também o medo, a camaradagem e o amor ao próximo. Digamos que são memórias a partir da senectude de alguém que se temperou em múltiplos ofícios, desde velejador oceânico, passando por gestor comercial à tradução e edição de livros. Percebe-se que houve uma laboriosa congeminação para ter chegado a este documento ímpar. É timbre da melhor literatura de guerra pôr o homem perante os seus desafios, por caminhos em que se vê que ele está a crescer e que pela vida fora nada superará o que ali aconteceu, de armas na mão ou a ajudar os outros. Daniel Gouveia concebe as suas crónicas naquele saboroso estilo da narrativa das mil e uma noites, do tipo na sequência do capítulo anterior até chegarmos a um derradeiro episódio que nos deixa com vontade de saber mais.

O talento da escrita, em literatura da guerra, é pôr de forma compreensiva e impressiva os homens no meio, meio que significa populações amigas ou colaboradoras com inimigo, um inimigo à espreita, uma natureza tropical, o recurso a guias para explorar a imensidão das matas e procurar as bases de guerrilha… E embevecer-se com os prodígios dessa mesma natureza, estar de olhar atento às singularidades e vicissitudes do meio que podem ser os diamantes; apurar as insuficiências e até as pesporrências de oficiais mais graduados que teciam as suas guerras em gabinetes climatizados em frente a mapas onde se marcavam posicionamentos das nossas tropas e dos nossos inimigos. Naquele vastíssimo teatro de guerra angolano, algo se passava um tanto comum aos outros teatros, como Daniel Gouveia observa:
“Mandava-se combater sem a noção de como estava instalado e armado o inimigo. Essa era a origem da velha querela entre a infantaria de linha e os comandos ou os paraquedistas. Os infantes viviam abarracados em destacamentos infectos no meio do sertão, andavam em pelotões de 20 e poucos indivíduos. Os comandos e paraquedistas aquartelavam-se nas grandes cidades, no ar condicionado e a rancho melhorado, eram chamados por rádio, transportados de helicóptero, e à chegada eram informados de onde estava o inimigo, quantos eram e de que armamento dispunha”. O que podia dar fiascos, quando os infantes desconheciam na íntegra o contingente que tinham pela frente.

Raras vezes se encontra um texto tão acutilante sobre a delicadeza e a atividade nevrálgica do guia, sobre o qual espirravam todas as acusações, tantas vezes descabidas, quando não se atingia o objetivo. Quem era este homem? “O guia era uma entidade curiosa, simultaneamente respeitada e marginalizada. Era um civil, sujeito à disciplina militar porque integrado na tropa, no entanto, liberto de outros serviços, a não ser o de a conduzir. Era natural dali, ali tinha a família, casa, filhos. Os batalhões iam e vinham, no remoinho das rendições, o guia ficava. O comandante de pelotão dava-lhe ordens, objetivos de percurso, mas na prática subordinava-se-lhe, na medida em que o pelotão ia por onde o guia quisesse. A soldadesca tratava-o com à-vontade, sentindo-se acima como militares de linha, pois o guia não tinha posto ou, quando muito, teria o de soldado raso. Contudo, nem sobre o mais humilde dos soldados tinha o guia qualquer autoridade, ficando muitas vezes impunes as piadas a ele dirigidas, por muito que se irritasse”.

E há aquela operação em que toda a tropa do nosso alferes conheceu o inferno da sede, com todas as suas chamas. É este o condão do autor, ir compassando uma dor que cresce e se enovela, os corpos exaustos, as passadas cada vez mais lentas, os carros que vêm buscar os homens extenuados e desidratados, então, o animalesco da sobrevivência impôs-se:
“Quando o pó, elevando-se do horizonte, anunciou a coluna, o pessoal começou a movimentar-se. Mas não da forma habitual, preparando o material para o embarque. Puseram-se de pé, espreitando a estrada, deixando a arma encostada à mochila. No pelotão guarnecendo as viaturas, ninguém trazia cantil, dado a viagem ser curta. E ficaram admirados de ver os camaradas precipitarem-se de mãos nuas estendidas, deixando o equipamento no chão, rostos ansiosos, olhar desvairado, correndo de carro para carro, pedindo água insistentemente. À frente de um dos veículos, gerou-se um tumulto estranho. O condutor e quem vinha ao lado saltaram dos lugares e atiraram-se a um soldado, derrubando-o.
Foi ver o que se passava. Já era um magote agitado, aglomerando-se à frente do carro, os que queriam ver não deixando ver o que se não via. O alferes comandante da coluna estava lá. Quando avistou o seu congénere, desabafou: 
- Eh pá, eu nunca vi uma coisa assim! Um dos teus gajos atirou-se ao radiador para beber água. Está com as mãos todas queimadas.
Sentado no chão, olhando as mãos cheias de bolhas, o soldado chorava convulsivamente, na mais completa confusão mental. O condutor explicou-se, também ele aturdido: 
- Tivemos de o tirar dali à força! É que ele era bem capaz de beber água a ferver, se lá chegasse…”.

Daniel Gouveia parece ter tido o dom de encontrar capelães caçadores, participar na construção de novas povoações para onde foi arrastada a população à força, assistiu a atos heróicos de pilotos da Força Aérea que não se escusavam, mesmo face a enormes riscos, a ir buscar feridos. Também lhe coube na rifa um soldado doente que de G3 em punho queria matar tudo e todos. É um retrato espantoso, de humanidade e de transe num quase salve-se quem puder, o que se passou com o “Panóias”:
“Soldado raso, ensimesmado e tristonho, sofria de epilepsia e crises de nervos. A reclusão no arame farpado, alternada com o atabafo da mata e a angústia das minas e emboscadas na picada, opunham-se à largueza plácida do seu Alentejo natal, de onde trouxera a alcunha e a misantropia. Várias vezes recambiado para o hospital do setor, como lá nunca tinha ataques, regressava com pareceres vagos de que talvez não fosse nada de cuidado”.

Sofre porque lhe tiraram a arma, uma inútil medida de precaução, armas é o que não falta nas casernas. No regresso de uma coluna, o capitão descobre que o quartel vive em estado de sítio. Ninguém sabe como descalçar a bota até que um amigo do Panóias se oferece para evitar desastres. “Também alentejano, pegador de toiros, possuía um arcaboiço invejável e o destemor gerado nas lides da arena”. Lá se foi aproximando do Panóias, contou-lhe umas lérias e convenceu-o a irem até ao Paiol, disse-lhe que era ali que estava o capitão. “Colocou-se atrás do amigo, marchando a passo certo com ele. Tirou as mãos dos bolsos. Juntou uma à outra. Levantou-as, como num gesto de triunfo, mas foi com a força bruta de quem assenta o batoque num tonel que as descarregou na cabeça do conterrâneo”. O Panóias foi metido num avião, a evacuação era inescapável. “O piloto estupefacto viu meterem-lhe no aparelho um homem de olhar parado, sem uma gota de sangue, amarrado como um salpicão porque, à falta de colete-de-forças, usou-se a corda suficiente para embalar o Panóias como encomenda garantidamente inofensiva a bordo de um avião, na viagem que foi, para ele, o adeus às armas”.

(Continua)
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Nota do editor

Poste anterior de 22 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17387: Notas de leitura (960): “Arcanjos e Bons Demónios, Crónicas da Guerra de África 1961-75”, por Daniel Gouveia, 4.ª edição, DG Edições, 2011 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17395: Parabéns a você (1259): Carlos Alberto Cruz, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 617 (Guiné, 1964/66); Carlos Nery, ex-Cap Mil, CMDT da CCAÇ 2382 (Guiné, 1968/70); Gabriel Gonçalves, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 12 (Guiné, 1969/71); Jorge Narciso, ex-1.º Cabo MMA da BA 12 (Guiné, 1970/72) e João Santiago, Amigo Grã-Tabanqueiro





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Nota do editor

Último poste da série de 24 de Maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17389: Parabéns a você (1258): Rui G. Santos, ex-Alf Mil da 4.ª CCAÇ (Guiné, 1963/65)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17394: Agenda Cultural (562): Juvenal Amado ("A tropa vai fazer de ti um homem") na Feira do Livro de Lisboa, no Espaço Chiado, 5 de junho, pelas 18h00,,,E os jacarandás vão estar em flor!



A Feira do Livro de Lisboa 2017 está aí!... E os jacarandás vão estsr em flor!... Aliás, já estão!

E com ela, a Feira, vão estar no Parque Eduardo VII no os escritores da Tabanca Grande!...

Vamos  apoiar o nosso Juvenal  [Sacadura] Amado, que vai estar no Espaço Chiado (pavilhões D25, D27, D29, D38, D40, D42), no próximo dia 5 de junho, 2ª feira, às 18h00, no Parque Eduardo VII, em Lisboa.



Lisboa > Parque Eduardo VII, junto à praça Marquês de Pombal e à av Joaquim António de Aguiar > 7 de junho de 2014 > Os jacarandás em flor

Foto:  © Luís Graça (2014). Todos os direitos reservados.

Sinopse sobre o livro e o autor, Juvenal Sacadura Amado:

"Nascido em 1950 na localidade de Fervença, Maiorga, concelho de Alcobaça, findo a escola primária, o seu destino imediato foi ir trabalhar - como acontecia com a maioria das famílias de operários.

Passou por diversos empregos e aprendizagens até que se fixou na Crisal Cristais de Alcobaça onde aprendeu pintura e desenho.

À semelhança do que aconteceu a milhares de jovens em 1961, também Juvenal Sacadura Amado, prestes a fazer os seus 22 anos, deu entrada na vida militar contribuindo assim para encher os comboios especiais e porões dos navios, que o levou para combater além-mar. Estas gerações já nasceram soldados.

A expressão 'Atropa vai fazer de ti um homem' era uma premonição de que só seriam verdadeiros homens quem passasse pelas vicissitudes que a vida militar e a guerra impunha, como se fosse impossível alcançar esse estádio sem esses sacrifícios.

É com ironia que hoje recorda estas palavras. O título deste livro é, de certa forma, uma pequena provocação."


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Nota do editor:

Últiomo poste da série >  18 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17374: Agenda cultural (561): Os nossos amigos da banda musical "Melech Mechaya" vão tocar, ao vivo, no 8º Festival de Telheiras, na praça do metro de Telheiras, Lumiar, Lisboa, sábado, dia 20, às 22h00. Entrada gratuita.

Guiné 61/74 - P17393: Dossiê LAMETA - Movimento Luso-Americano para a Autodeterminação de Timor-Leste - Parte II: Hoje, cerimónia solene, em Dili, no Museu da Resistência, lançamento do livro e entrega da documentação original, na presença do 1.º ministro, Rui Maria Araújo, e outros líderes históricos como Xanana Gusmão e Mari Alkatiri; (ii) missa de sufrágio em memória de todos os que tombaram na luta pela independência, domingo, dia 28, na igreja de Motael e, se possível, nas muitas igrejas das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo (João Crisóstomo, em Dili)


Fonte: João Crisóstomo - LAMETA - Movimento Luso-Americano para a Autodeterminação de Timor-Leste, edição de autor, Nova Iorque, 2017, p. 13 (com a devida vénia...)


1. Mensagem de João Crisóstomo,  que está esta semana em Dili, no âmbito das celebrações do 15.º aniversário da independência de Timor Leste

Data: 22 de maio de 2017 às 22:32

Assunto:  LAMETA
 

Caros Senhores António Matinho, Luís Pires, Maria do Carmo e Henrique Mano,

São agora 05.30 em Dili...

Envio este para todos, na esperança de que assim terá mais probabilidade de não passar despercebido o que segue, já que
gostaria que as comunidades portuguesas desta iniciativa tenham
conhecimento o mais cedo possível. Além disso eu estou, mesmo
pessoalmente , em débito para cada um por acontecimentos ainda bem  recentes :

Ao senhor António Matinho pela simpática maneira como nos recebeu, quando aí fui entregar o livro LAMETA. Não esqueci o seu pedido de escrever algo para o Luso-americano daqui,  o que tenho intenção de  fazer. Este hoje é apenas para dar a conhecer o que segue; depois  farei mais e melhor.

Ao Senhor Luís Pires pelo tempo que me dispensou mesmo na véspera da  minha partida, (em entrevista sobre o livro na BRC-Productions  com o Sr. Carlos Brito;

À Sra Maria da Carmo, não só de publicar a notícia, como ainda a
sua amabilidade em ma enviar directamente .

E ao Sr. Henrique Mano, a quem nem sei como dizer obrigado pela sua  constante ajuda e amabilidade mesmo no Facebook (de cujo conteúdo  graças à Vilma eu chego a ter conhecimento).

A todos um abraço com a minha antecipada gratidão, 

João Crisóstomo 
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E agora o fim primeiro deste email:

No domingo, resolvi ir à missa à histórica Igreja de Motael aqui em Dili. Como de se devem lembrar foi nesta Igreja que houve uma missa por alma dum herói abatido/falecido em Novembro de 1991. Depois da missa os participantes decidiram ir ao cemitério de Santa Cruz, que também já fui visitar, para prestar as suas homenagens a esse herói recentemente sepultado e aí sucedeu então o tristemente célebre "massacre de Santa Cruz" .

Foi difícil controlar a minha emoção durante essa missa, ao lembrar
os muitos que, nesse fatídico dia, aí ouviram a missa pela última vez  antes de serem metralhados pelas forças indonésias. A participação é mesmo entusiasta e grande número de pessoas acompanha a missa na parte de fora por não caberem dentro da Igreja.

Num impulso que não pude controlar nem resistir, decidi em nome da LAMETA- movimento das comunidades portuguesas dos Estados Unidos para a autodeterminação de Timor Leste, que, como presidente, liderei e neste momento represento - organizar uma missa de sufrágio por todos os que pela independência de Timor  Leste, nas montanhas, em campos de concentração, pela fome e outras causas deram a sua vida na luta pela independência de Timor Leste, no  próximo domingo, dia 28 de Maio (único domingo que ainda estou em Timor, antes de voltar aos Estados Unidos. )

Acabada a missa fui falar com o pároco da igreja, Pe. David Alves da Conceição, que imediatamente acedeu ao meu pedido, manifestando mesmo o seu muito apreço e gratidão pelo facto de hoje como ontem Portugal e as comunidades continuarem a manifestar este grau de irmandade e fraternidade com o povo de Timor.

Ontem, durante uma recepção patrocinada pelo Sr. Primeiro Ministro, Dr. Rui Maria Araújo, tive ocasião de lhe dar a conhecer a iniciativa. Sua Ex.ª manifestou desejo que esta missa fosse em
português; vou ainda fazer contactos nesse sentido, mas como se trata duma missa/hora que já está programada para ser dita em tetum, não sei se vai ser possível; mas se eu conseguir falar com o Sr. Bispo de Dili vai ser possível com certeza.

Tenciono dar a conhecer esta iniciativa aqui a tantos quantos puder
contactar nos próximos dias e estou esperançado de, apesar do
"aviso de último minuto" poder ainda convencer e conseguir uma
participação muito significativa a este acontecimento. 


Mas, independentemente da participação fora de vulgar, ou não, que esta  possa vir a ter, esta missa de sufrágio por todos os que deram a sua vida ou foram vítimas nesta luta pela independência de Timor Leste, está confirmada para DOMINGO DIA 28 DE MAIO NA IGREJA DE MOTAEL, ÀS 16.00 PM. Por isso eu me apresso a dar a notícia.

Eu gostaria que as comunidades portuguesas se associassem nesse dia a esta missa de sufrágio que vai ter lugar aqui, não só espiritualmente como repetindo aí o mesmo. 


Como não tenho outro meio de o fazer agora pessoalmente, como gostaria, eu sugiro que quem puder (e por  isso eu vou endereçar esta mensagem com CC para quem eu me lembrar e tenha o E-mail comigo),  faça um contacto telefónico para os párocos das comunidades portuguesas das respectivas comunidades (Elisabeth, Newark, Kearney, Long Branch, Jamaica, Mount Vernon, Mineola,  Farmingville, Yonkers… e outras que poderiam participar). 

Não é coisa inédita, pois já fiz isso várias vezes: basta pedir aos celebrantes que, (sem necessidade de alterarem nada do que já está programado para essa missa de domingo), juntem/incluam essa intenção na intenção da missa desse dia…

Assim estaremos todos,  portugueses, luso-americanos e timorenses,  em comunhão  nesse dia, Domingo, 28 de Maio.

O "lançamento do livro LAMETA" em Timor Leste vai ter lugar no dia 25, no Museu da Resistência em Dili. É o gabinete do sr. Primeiro Ministro que está organizando o acontecimento. Ainda não sei todos os pormenores a não ser que o Sr. Primeiro Ministro (com quem estive já em duas ocasiões diferentes para as quais Sua Ex.ª convidou a LAMETA e em que estavam também presentes Xanana Gusmão, Mari Alkatiri etc) faz questão de ser ele mesmo a presidir a esse acontecimento ao qual parece estar a dar excepcional importância, considerando-o dentro do contexto das cerimónias do 15.º aniversário da  Independência. 

Porque é o Gabinete do sr. Primeiro Ministro que está a organizar e, assim me informam, estão sendo enviados convites a ministros, colégios, escolas, todos os que na educação, movimentos  de solidariedade que estão envolvidos etc., espera-se uma participação relevante. E nesse momento eu darei a conhecer a todos os presentes convidando-os a irem a essa missa nesse domingo nessa igreja.

2. Comentário e sugestão do nosso editor LG:

Camaradas e amigos, é mais do que uma sugestão, é quase uma ordem, a do nosso camarada e amigo João Crisóstomo:  

no domingo, dia 28, onde quer que estejamos, associemo-nos  a esta iniciativa, proposta por ele,  de celebrar a memória de todos aqueles e todas aquelas que lutaram (e tombaram) pela nobre causa da independência de Timor Leste.  

Os que forem católicos, cristãos ou praticantes de outras confissões religiosas, podem eventualmente lembrar-se, no domingo, desta intenção e inclusive integrá-la em cerimónias de culto... Falem com os vossos párocos, pastores, rabinos, imãs, etc. Aqueles de nós, que não são crentes, podem também associar-se, espiritualmente, a esta causa, e inclusive escrever algumas palavras para o nosso blogue. 

Obrigado, João, transmite ao povo timorense e aos seus dirigentes o nosso apreço e solidariedade...  E votos de bons augúrios para o futuro. (LG)
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Nota do editor:

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17392: Ser solidário (202): A ONG portuguesa VIDA há 25 a trabalhar na Guiné-Bissau: conheçam alguns dos seus projetos (Armando Tavares da Silva)



Foto nº 1 > Projeto "Kópóti pa cuidji nô futuro" (sediado em Suzana, e abragendo tabancas como Eossor,  Djufunco, Edjim e Elalab)



Foto nº 2 > Projeto "Kópóti pa cuidji nô futuro"



Foto nº 3 > Projeto "Reforço das estruturas de saúde de iniciativa comunitária na região de Cacheu"




Foto nº 4 > Projeto "Reforço das estruturas de saúde de iniciativa comunitária na região de Cacheu"



Foto nº 5 > O programa da RTP "Príncipes do Nada", com a Catarina Furtada (embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, Unfpa há 18 anos), foi também conhecer o prrograma da ONG Vida "Tabanka ku saudi" nas regiões de Cacheu e Biombo, Este episódio, o nº 9,  passou na RTP1 em 16/3/2017. Ver aqui a segunda parte do episódio , a partir de 19' 53'' (a primeira parte é dedicada à São Tomé e Prímcipe).


Fonte: Vida, trimestral, janeiro-março de 2017 [Com a devida vénia...] [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem de Armando Tavares da Silva, membro nº 734 da nossa Tabanca Grandeautor de “A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)” (Porto, Caminhos Romanos, 2016)


Data: 22 de maio de 2017 às 13:21
Assunto: Projectos VIDA na Guiné-Bissau

Caro Luís Graça,


Os Grã-Tabanqueiros talvez tenham interesse em conhecer alguns projectos que  a ONG (Organização não-governamental)  VIDA (que este ano completa 25 anos de actividade), tem desenvolvido na Guiné-Bissau. 

As suas actividades iniciaram-se, por isso, em 1992, e por elas se reconhece as grandes necessidades que têm vindo a ser sentidas pelos povos da Guiné-Bissau. Mas é reconfortante saber que organizações portuguesas estão empenhadas em reduzir as carências que aí são sentidas, nos casos que a seguir se mencionam, no domínio agrícola e da saúde.

A última "newsletter"  daquela organização fala-nos de três projectos em curso na Guiné-Bissau: 

(i) O primeiro é um projecto de natureza agrícola na região de Suzana, tendo em vista minorar as carências das populações – ou melhor, das mulheres agricultoras, pois são elas que se dedicam à actividade agrícola … – através da existência de hortas comunitárias e de uma criteriosa utilização dos fundos delas provenientes para pagamentos vários, entre os quais se destaca o pagamento a professores para leccionarem nas escolas do ensino básico. [Fotos nºs 1 e 2]


(ii) Um outro projecto tem como objectivo o "Reforço das estruturas de saúde de iniciativa comunitária na região de Cacheu", em particular visando a "Mutualidade de Saúde" e o "Centro de Saúde Materno-infantil de S. Domingos". A ênfase é na saúde da criança, a que a mãe dá particulares cuidados!


(iii) Uma outra acção visa a criação de "Agentes Comunitários de Saúde (ACSs) na região de Bissau", os quais se pretende constituam a primeira linha de cuidados de saúde num contexto de financiamentos limitados para o sistema de saúde. Esta acção desenvolve-se no âmbito do projecto "Estratégia para aceleração da redução da mortalidade materna, neonatal e infanto-juvenil na Guiné-Bissau – Sector Autónomo de Bissau".

Para estes projectos a ONG  VIDA tem obtido apoio do Instituto Camões, Fundação Gulbenkian, Unicef e União Europeia.

Armando Tavares da Silva

 PS - Segue o link para a página da VIDA que contém a Newsletter. Era bom intercalar no texto as partes da Newsletter respeitantes a cada projecto. Não sei se isso é possível, mas se não for posso solicitar à Organização que me envie um ficheiro da Newsletter em formato apropriado.

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Nota do editor:

Último poste da série > 31 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17192: Ser solidário (201): A ONG Ajuda Amiga lança um livro solidário com contos da Guiné-Bissau para distribuição gratuita pelas escolas, associados e doadores da ONG presidida pelo Carlos Fortunato

Guiné 61/74 - P17391: Os nossos seres, saberes e lazeres (213): São Miguel: vai para cinquenta anos, deu-se-me o achamento (3) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 16 de Fevereiro de 2017:
Queridos amigos,
Quando vos ocorrer organizar uma estadia nos Açores, lembrem-se de São Miguel e do Vale das Furnas. O casario do Vale é mimoso, a autarquia é infatigável a ajardinar, o Parque Terra Nostra está esmeradamente cuidado, a Poça de Dona Beija é uma permanente atração turística, nada mais desafiador no Inverno que estar dentro de uma água a 39 graus, com hipóteses de saltar de piscina em piscina, e um passeio pela lagoa é imprescindível, depois de ver as caldeiras é impossível não ficar rendido à planície extensa de águas espelhadas, à mata jardim José do Canto e o ao património construído que ele legou para bem do legado cultural micaelense, como tesouro artístico português de que nos devemos orgulhar.

Um abraço do
Mário


São Miguel: vai para cinquenta anos, deu-se-me o achamento (3)

Beja Santos

O viandante acordou determinado: a direção é a Lagoa das Furnas, prova de resistência, ida e volta a pé algo como 14 quilómetros, com visita a pontos de referência obrigatória: a mata jardim José do Canto; e a capela de Nossa Senhora das Vitórias, nesta estão sepultados Maria Guilhermina Taveira Brum da Silveira e o seu marido, o incansável desenvolvimentista agrário, José do Canto. Nada com apresentar o local. A lagoa situa-se na cratera de um vulcão, é uma planície extensa de águas espelhadas, rodeada de montes arborizados, guarda na sua margem sul a vasta e bela propriedade de José do Canto. O viandante começa-se por entreter com um campo de inhames ainda no parque Terra Nostra, mete-se ao caminho, há muito a palmilhar, não há sol nem chuva, nem calor nem frio, segue-se por veredas firmes, as passadas esmagam a bagacina, a paisagem abre-se e súbito avista-se a lagoa e as fumarolas, sente-se que há desvelos próprios de parque natural, e deambula-se pelas caldeiras, algumas delas ao serviço da restauração.




Recomenda-se, a quem queira conhecer a personalidade extraordinária de José do Canto o livro “Os Cantos”, de Maria Filomena Mónica, Alêtheia Editores, 2010. Desde a primeira hora do povoamento que a ilha suscitou a atração pelas imensas potencialidades que o solo oferece: as madeiras como a faia; o pastel, as pastagens. António Feliciano de Castilho viveu três anos em São Miguel, coadjuvando José do Canto, “um dos homens de mais saber e gosto daquele arquipélago e que perfeitamente justifica a parcialidade que a fortuna tem para com ele. É o rico mais benéfico e de melhor gosto de quantos tem conhecido”, escreveu o poeta, que fundou uma sociedade dos Amigos das Letras e Artes em São Miguel. Entre 1852 e 1863, em terrenos de autêntica pedra-pomes, criou uma das mais belas propriedades dos Açores. Tem mata jardim, chalé franco-suíço, situado perto de outro edifício, construído pouco antes, e de estilo completamente diferente (flamengo), que é atualmente a Casa dos Barcos, a capela de Nossa Senhora das Vitórias iniciou-se em 1864.


O viandante não resistiu ao jogo da representação sobre a representação, havia na mata jardim uma exposição fotográfica e esta fotografia da casa dos barcos pareceu-lhe inexcedível. O que a mata oferece é um estadear de espécies: camélias, macieiras, fetos, tudo decorado a preceito dentro de alamedas, é um projeto original francês que serve para deslumbrar o visitante.




A ermida é um belo edifício neogótico, manifestação artística que floresceu na segunda metade do século XIX, principalmente em França e Inglaterra, e que hoje tem grandes apreciações cáusticas, os puristas entendem que tudo não passa de uma cenografia sem originalidade. Entra-se na capela, hoje usada para certos eventos, e depara-se-nos uma sobriedade tocante nos vitrais, nos altares, no púlpito, no lajedo. Sentiu-se o viandante muito bem e curvou-se respeitosamente junto dos túmulos daquele casal que se envolveu num espantoso projeto agrícola. Agora que se anda à procura de empreendedores devia-se estudar a preceito o dinamismo e a ousadia de José do Canto. Quando o viandante se despede da sua entusiasta cicerone, alegando que tem umas horas de marcha pelo caminho, a bondosa senhora prontamente atalhou conversa, tinha que vir até as Furnas, contasse com a boleia. E lá vieram a tagarelar, deu tempo ao viandante comer uma boa sopa de grão e um hambúrguer, prato típico para turistas e sinal de que a colónia açoriana nas américas deixou aqui legado. E não se resistiu a tirar fotografias a uma bela montra de casa comercial, exibindo cestos de fruta e legumes. Se já se vinha de uma originalidade, agradeceu-se mais esta. E o passeio no Vale das Furnas vai prosseguir.



(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17366: Os nossos seres, saberes e lazeres (212): São Miguel: vai para cinquenta anos, deu-se-me o achamento (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17390: Meu pai, meu velho, meu camarada (54): Navios, do álbum fotográfico de Luís Henriques (1920-2012), natural da Lourinhã, ex-1º cabo at inf, nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha], que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, Mindelo, no Lazareto, entre julho de 1941 e setembro de 1943, em missão de soberania, juntamente com, entre outros militares, o fur mil e futuro cap SGE e escritor Manuel Ferreira (1917-1992), o autor de "Hora di Bai", de quem Leiria está a celebrar os 100 anos de nascimento


Foto nº 1



Foto nº 1A >  > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > 23 de julho de 19141 > Chegada do 1º batalhão expedicionário do RI 5 (Caldas da Rainha)...  "Na foto [, do batelão que nos levou para terra,] estou eu com mais alguns camaradas da minha companhia. No porto do Mindelo [fotos nº 2 e 3 ] fomos entusiasticamente recebidos"]. Luís Henriques está assinalado com um rectângulo a amarelo.

Os portugueses desconhecem ou subestimam o enorme esforço militar que o país fez, na época da II Guerra Mundial, para garantir a soberania portuguesa nos territórios ultrmarinos. Cerca de 180 mil homens foram mobilizados nessa época. Em Cabo Verde chegou a temer-se a invasão dos alemães, dado o valor estratégico do arquipélago, à semelhança do arquipélago dos Açores, cobiçado pelos aliados.  Quantas vezes me falava disso, o meu pai, o meu velho, o meu camarada... No Mindelo, tal como em Lisboa, havia espiões de um lado e do outro,  alemães, italianos, ingleses, portugueses... E terá sido nesta época de fome, de guerra e de desgraça que se começou a desenvolver o nacionalismo cabo-verdiano que estará na origem do futuro PAIGC, fundado e liderado por Amílcar Cabral.



Foto nº 2 >  Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Outubro de 1941 > "O belo porto de mar de São Vicente; ao centro o ilhéu que se confunde com um barco [, o ilhéu dos Pássaros]",



Foto nº 3 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Maio de 1943 >  "A cidade do Mindelo e ao fundo o Monte Verde. Vê-se parte da baía da Galé". [A cidade na altura deveria ter 15 mil habitantes. O nº de expedicionários desembarcados em meados de 1941 chegou aos 3300,o que dava um rácio de 220:1000 (220 militares por mil habitantes)


Forto nº 4 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >  O navio da marinha mercante "Serpa Pinto. Não há legenda no verso. Possivelmente Foto Melo. [Para mostrar aos beligerantes da II Guerra Mundial, que pertencia a um país neutral, o navio era pintado de negro, o caso, e com o nome de Portugal, bem visível, pintado a branco,  tal o nome do navio. Toda as as tripulações da nossa marinha mercante, bem como da nossa frota bacalhoeira,  sem esquecer a marinha de guerra, foram verdadeiros heróis, naquela época. E não poucos, bravos marinheiros e pescadores, perderam a vida, engrossando a lista de vítimas da nossa história trágico-marítima.

Embora com pavilhão de um país neutral, os nossos navios eram frequentemente intercetados tanto pelos Aliados como pelas potências do Eixo (e em especial pelos alemães, cujos submarinos "infestavam" o Atlântico...) e alguns foram atacados e afundados. Por exemplo, o  barco de pesca "Exportador primeiro" foi cobardemente atacado a tiro de canhão por um submarino italiano. a sul do Cabo de São Vicente, em 1/6/1941....Ou o navio de carga  e passageiros, da CCN, o "Ganda" afundado, "por engano", por um submarino alemão, ao largo da costa de Marrocos, em 22/6/1941... Estes são apenas 2 dos 11 navios, de pavilhão português,  afundados durante a II Guerra Mundial. 


Foi uma das glórias da nossa marinha mercante e a sua história (1914-1954) merece ser conhecida:

(...) "O N/T Serpa Pinto foi um navio de passageiros que foi operado pela Companhia Colonial de Navegação na Carreira da América do Norte (Lisboa–Nova Iorque), na "Rota do Ouro e Prata" (Lisboa–Rio de Janeiro–Buenos Aires) e na "Rota das Caraíbas" (Lisboa–Havana), entre 1940 e 1955.

"Foi o navio de passageiros que, durante a Segunda Guerra Mundial mais viagens transatlânticas realizou entre Lisboa, Nova Iorque e Rio de Janeiro, transportando refugiados da guerra em geral, e particularmente judeus em fuga do nazismo, trazendo de volta à Europa, cidadãos de origem germânica expulsos dos países americanos. Adquiriu assim popularidade, ficando conhecido pelos epítetos de 'Navio da Amizade', 'Navio Herói' e 'Navio do Destino' "  (,,,)
 

Fonte: Wikipédia


Foto nº 5 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >  Março de 1942 > "A escola Sagres em São Vicente durante o seu cruzeiro  no Atlântico"

[Atenção: este não é o navio-escola Sagres atual... Este é o antigo veleiro, de 3 mastros, Rickmer Rickmers, ao serviço da Marinha Portugues, como navio-escola Sagres, entre 1927 e 1962...Também conhecido por Sagres II. Foi substituído, em 1962, como navio-escola da Marinha Portuguesa, pelo Sagres III (antigo NE Guanabara da Marinha do Brasil). ]


Foto nº 6 >  Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >  29 de setembro de 1942 (?) > Navio inglês, não é indicado o nome no verso... "Esteve em S. Vicente no dia 29 de setembro com diplomatas. [Eu] estava no hospital quando ele cá esteve".



Foto nº 7 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > " No dia 11 de Abril [de 1942] chegaram estes dois barcos hospitais italianos ao porto de S. Vicente para irem fazer troca de prisioneiros e doentes com os ingleses. 1942"



Foto nº 8 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > "No dia 23 de dezembro [de 1942] 
os barcos hospitais italianos Vulcania e Saturnia em São Vicente  pela 2ª vez",

Durante a II Guerra Mundial, a Itália viu afundar-se 12 dos 18 navios-hospitais.  Na realidade, estes dois não eram navios hospitais mas 4 dos navios transatlânticos  (incluindo o Duilio e o Giulio Cesare que, com mais 2 petroleiros, Arcole e Taigete, conseguiram, numa operação cohecida, resgatar e repatriar cerca de 28 mil pessoas, entre crianças, mulheres e homens, da África Oriental, sob a égide da Cruz Vermelha Internacional em três viagens de circumnavegação do continente africamo, entre 2 de abril de 1942 e agosto de 1943. O Duilio e o Guilo Cesare serão afundados no bombardeamento aéreo dos Aliados na baía de Muggia em julho de 1944, Num total de 25 mil tripulantes inscritos, a Marinha Mercante italianam na II Guerra Mundial, perdeu cerca de 1/3 (7164).



Foto nº  9 > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >  Navio hospital italano "Duilio" [No verso, pode ler-se a legenda, muito sumida: "Hospital de diplomatas (sic) italiano que esteve em São Vicente em 1/6/194 (?). Foto Melo"...

[Segundo a imaginação, algo delirante, dos nossos  expedicionários, 3300 acantonados num apequena ilha de 15 mil habitantes, os passageiros, que não terão desembarcado, travavam uma luta atroz contra a falta de álcool a bordo... Constava-se que, à falta de bebibas no bar, bebiam álcool puro!...Recordo-me do meu pai contar esta história... O navio de passageiros "Duilio" tinha 23 636 toneladas, foi afundado em julho de 1944]



Foto nº 10 >  Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Junho de 1942 > "Paquete Colonial que tantas as vezes esteve em S. Vicente". Possivelmente Foto Melo.




Foto nº 11 >   Ilha da Madeira >  Funchal > s/d > "O Paquete Mouzinho. Oferecido pelo meu amigo [e conterrâneo, da Lourinhã] José B[oaventura]  Lourenço [Horta]  no dia em que o fui visitar ao Hospital em São Vicente. 26 de Julho de 1942." É provável que o José Boaventura Horta tivesse adquirido a foto a bordo. E, se não erro, o amigo do meu pai, meu conterrâneo e meu vizinho (no tempo em que vivi na Lourinhã, menino e moço) era da arma de artilharia (6ª Bateria Antiaérea do Grupo de Artilharia Contra Aeronaves).

[O "Colonial" e o "Mouzinho" eram paquetes gémeos, adquiridos pela Companhia Colonial de Navegação (CCN) no final da década de 1920. Faziam a carreira de África.  Foi no T/T "Mouzinho que o 1º cabo inf Luís Henriques e outros expedicionários do RI 5, das Caldas da Rainha, rumaram para Cabo Verde, em julho de 1941]




Foto nº 12 >  Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Novenmbro  de 1941. "(Ao fundo, navio italiano)  Para as refeições [ilegível] nos juntávamos todos os 30 [do pelotão]". [Ao lado esquerdo, um grupo de miúdos, à espera dos restos...]


Fotos (e legendas): © Luís Henriques (1920-2014) / Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




1. Fotos do álbum de Luís Henriques (1920-2012), natural da Lourinhã, ex-1º cabo at inf, nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha], que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, Mindelo, no Lazareto, entre junho de 1941 e setembro de 1943, em missão de soberania;  este e outros batalhões foram entretanto integrados RI 23].


[Foto `*a esquerda, Luís Henriques > 19 de agosto de 1942 > "No dia em que fiz 22 anos, em S. Vicente, C. Verde. 19/8/1942. Luís Henriques ".]


Estas e outras foram gentilmente cedidas ao prof João B. Serra, da Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha /Instituto Politécnico de Leiria, a quem a Câmara Municipal de Leiria incumbiu de  organizar  uma exposição comemorativa do 1º centenário do escritor Manuel Ferreira (1917-1992), que também foi expedicionário em São Vicente, neste período, com o posto de furriel miliciano, mais tarde cap SGE e professor universitário.  O autor de "Hora di Bai" (1958) era natural da Gândara dos Olivais, Leiria, onde tenho amigos e familiares que o conheceram em vida.  Morreu em Linda a Velha, Oeiras. Era casado com uma mindelense.

Recorde-se aqui, também mais uma vez, o excelente trabalho do nosso colaborador permanente José Martins (com raízes familiares em Leiria) sobre o nosso  dispositivo militar em Cabo Verde durante a II Guerra Mundial (**).

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 20 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17064: Meu pai, meu velho, meu camarada (53): Feliciano Delfim dos Santos (1922-1989), ex-1.º cabo, 1.ª Comp /1.º Bat Exp do RI 11, Cabo Verde (Ilhas de Santiago, Santo Antão e Sal, 1941/43) (Augusto Silva Santos) - Parte V: Restos de espólio: o orgulho de ter pertencido ao Onze... E mais duas fotos de Pedra de Lume

(**) Vd. poste de 20 de agosto de  2012 > Guiné 63/74 - P10282: Meu pai, meu velho, meu camarada (30): Dispositivo militar metropolitano em Cabo Verde (Ilhas de São Vicente, Santo Antão e Sal) durante a II Grande Guerra (José Martins)