quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17875: Tabanca Grande (449): José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART /BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74, escritor, natural de Penafiel, a residir agora em Amarante... Passa a ser o novo grã-tabanqueiro nº 756


Foto nº 1


Foto nº 2



José Claudino da Silva, fotos de hoje (nº 1) e de ontem (nº 2), ex-1º cabo condutor auto, 3ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74), novo membro da Tabanca Grande, com o nº 756 (*).

Foto (e legenda): © José Claudino da Silva (2017), Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É autor de dois livros, um de ficção, parcialmente inspirtado na guerra colonial (2016), e outro de poesia (2007). Está a preparar um terceiro livro, memorialístico, com base na sua correspondência do tempo da vida militar (1972/74).



UM CERTO JEITO DE MIM

por José Claudino da Silva



Nasci no tempo das flores,

Fruto de falsos amores,
Esse foi o meu dilema.
Vim ao mundo sem cuidado,
Surgi pelo lado errado
Da vida dita suprema.

Descalço me fiz criança,
Comendo frutos de esperança.
Na escola desabrochei,
Voguei num mar de bonança.
Era rica a minha herança
Que ao sonho me entreguei.

Pela vida apaixonado,
Espalhei por todo lado
Meu poder de adolescente.
Fui escravo, fui soldado,
Pela Pátria amordaçado,
Meu poder ficou ausente.

Começo tudo de novo,
Já pertenço a outro povo.
Sou hoje um fruto maduro,
Todos meus sonhos renovo.
Faço planos e aprovo
O meu caminho futuro.

Tropecei, tombei, caí
Nas estradas que percorri.
Fiz coisas boas e más,
Altos castelos ergui.
Alguns sonhos destruí,
Que ficaram para trás.

Formei-me na utopia,
Mas a vida dia a dia
Deu-me lições de rigor.
Mais tarde,  compreenderia
Que viver em fantasia
Não era viver melhor.

Com armas tão desiguais
Lutei sempre muito mais,
A vida me foi madrasta;
Nunca culpei os meus pais,
Afinal tenho ideais
Mais puros que qualquer casta.

Se às vezes o desalento
Me invade um momento,
Logo volto a reagir,
Meus poemas dão alento.
Breve, esqueço o tormento,
Sem precisar de fugir.

Se hoje sou quem eu sou,
Nada troco, nada dou,
Em quase tudo errei;
Sou este que aqui estou,
Que pela vida se formou.
Sou assim. Assim serei.

Se ao longo deste caminho
For caminhando sozinho,
Numa agonia fatal,
Com cicuta, adoço o vinho.
Bebo goles, de mansinho,
Na bebedeira final.

José Claudino da Silva





Título: Desertor 6520
Autor: José Claudino Silva
Data de publicação: Setembro de 2016
Número de páginas: 408
ISBN: 978-989-51-8120-9
Edição: Chiado Editora, Lisboa
Colecção: Viagens na Ficção

Género: Ficção

Idioma: Pt

Preço: 13 € (papel); 3€ (ebook)

Sinopse

“A partir daquele momento, era irreversível a sua partida e tinham a consciência da transformação radical que as suas vidas iriam sentir.” José C. Silva


2. Nota biográfica:





(i) José Claudino da Silva nasceu no lugar das Figuras Marecos Penafiel em 19 de maio de 1950;

(ii) filho de pai incógnito e de Mabilde da Silva;

(iii) foi criado pela sua avó materna. Emilia Queirós da Silva;

(iv) fez a escola primária na freguesia de Marecos, Penafiel, de 1957 até 1961;

(v) fez a comunhão solene na igreja matriz de Penafiel;

(vi) omeçou a trabalhar aos 11 anos na construção civil e posteriormente como chapeiro, na indústria automóvel, onde trabalhou cerca de 50 anos;

(vii)  através do seu professor primário, o professor Cunha, e do reverendo padre Albano,  adquire o gosto pela escrita e pela leitura; para ter acesso gratuíto aos livros inscreve-se na biblioteca  da Fundação Calouste Gulbenkian de Penafiel com o número de sócio  490;

(viii) ingressou nas fileiras das Forças Armadas em 3 de janeiro de 1972 e embarcou para a então colónia da Guiné em 26 de junho de 1972,  regressando à vida civil em 26 de setembro de 1974;

(ix) neste periodo escreveu centenas de cartas;  possui a maioria delas pois pediu que as guardassem (mas com a intenção de  jamais as reler);

(x) casou com Maria Amélia Moreira Mendes em 6 de setembro de 1975;

(xi) têm dois filhos do sexo masculino e uma neta;

(xii) no ano lectivo 1989/90 fez o 6º ano nas aulas noturnas; em 2005 completou o 9º ano através das Novas Oportunidades; em 2009 concluiu o 12º ano;

(xiii) ganhou o primeiro prémio dum concurso televisivo da SIC (Paródia Nacional);

(xiv) em 2007 publicou um livro de poesia e em 2016 um livro de ficção ("Desertor 6520", Chiado Editora, Lisboa); a sessão de lançamento do "Desertor 6520", em Amarante, teve como apresentador o antigo primeiro ministro José Sácrates;

(xv) escreveu dezenas de poemas e artigos de opinião para o jornal da Lixa;

(xvi) está aposentado, vive em Amarante;

(xvii) tem página no Facebook:

(xviii) faz parte de 2 grupos do Facebook:

GUINÉ - Capicuas de Fulacunda-CART 2772 Ano 1970/1972

Antigos combatentes da Guiné

[Fonte: adapt. livre de Chiado Editora, Lisboa, com a devida vénia +  conversa ao telefone + pesquisa adicional na Net]


3. Comentário do editor LG:

José Claudino, sê bem vindo!... Aprecio a tua franqueza e frontalidade, tão nortenhas... Como sabes, tratamo-nos por tu, como camaradas de armas que fomos (e continuamos a ser para  o resto da vida...). É uma das nossas regras básicas: facilita a comunicação, esbate eventuais diferenças que nos separaram no passado e podem separar no presente: por exemplo, postos, especialidades, habilitações académicas, história de vida, etc....

No blogue  Luís Graça & Camaradas da Guiné, partilhamos memórias (e afetos). Temos uma Tabanca Grande onde todos cabem com tudo aquilo que nos une e até com aquilo que nos pode separar (política, religião, futebol...). Tens aqui as 10 regras editoriais do blogue, que por certo subscreverás inteiramente.

Recebi ontem a tua última mensagem: "Envio então ainda por corrigir, o texto que denominei "EM NOME DA PÁTRIA" baseado no que escrevi há cerca de 45 anos. Sendo a guerra vista por um soldado, a minha maior surpresa, relendo os meus escritos, é a espantosa alteração da minha forma de pensar após aqueles dois anos. Saboreiem um certo romantismo intercalado de dor. Um grande abraço para o Jorge Pinto e todos os camaradas."

O teu manuscrito, ainda sem imagens, tem mais de 70 pequenos capítulos e pouco mais de 80 páginas. A partir das tuas memórias e das cartas que escrevestes à tua futura esposa (e das que recebeste dela), reconstituis a tua passagem pela tropa e pela guerra...

Vou ler com cuidado o manuscrito e dar-te o meu "feedback", mas desde já te digo que é um documento autobiográfico notável. Creio que estás a pensar em publicá-lo em livro (em papel e/ou em suporte digital, o chamado eBook). Mas, ainda antes disso, gostaria de poder publicar alguns dos capítulos mais interessantes no blogue que, como eu te disse,  forma  um grande auditório de camaradas e amigos da Guiné, os quais seriam os teus primeiros e devotados leitores. Pensa nisso!

Para já senta-te sob o poilão da Tabanca Grande, no teu lugar, que passará a ser o nº 756. O teu nome passa, a partir de agora, a constar da lista alfabética, de A a Z, dos membros, formalmente registados, da Tabanca Grande, e disponível na coluna do lado esquerdo do blogue.

Sê bem vindo e traz mais... cinco!
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Notas do editor:

Guiné 61/74 - P17874: Parabéns a você (1329). Luís Nascimento, ex-1.º Cabo Operador Cripto da CCAÇ 2533 (Guiné, 1969/71)


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Nota do editor

Último poste da série >  13 de outubro de  2017 > Guiné 61/74 - P17857: Parabéns a você (1328): Mário Ferreira de Oliveira, ex-1.º Cabo Condutor de Máquinas Reformado, Marinha (Guiné, 1961/63)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Guiné 61//74 - P17873: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (2): Os meus passeios pelos Bijagós: ilha de Caravela


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4



Foto nº 5

Fotos (e legenda): © Patrício Ribeiro (2017) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso querido amigo e camarada Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas" (como é conhecido na Guiné-Bissau):



Data - 14/10/2017

Assunto - Os meus passeios  - Parte

Luís:

Os meus passeios nos Bijagós… que agora estão na moda…

Como dizia no anterior post P16818 (*),  por lá ando a passar férias, para festejar os 70 anos. Sou de 1947. Grandes e bons passeios de 7h para cada lado, com muito conforto… como podem ver nas 9 fotos e no filme, tiradas no final de julho deste ano. Aqui vão as cinco primeiras fotos, as restantes seguem nputro mail.


Patrício Ribeiro, Orango, 2008
[O Patrício Ribeiro  nasceu em Águeda, em 1947; viveu desde tenra idade em Nova Lisboa / Huambo, Angola, vivido, onde casou e fez o serviço militar, como fuzileiro naval;: retornou ao "Puto" depois da descolonização, fixando-se entretanto na Guiné-Bissau, há 3 décadas, país onde fundou a empresa Impar Lda, líder na área das energias alternativas; trabalha com o filho,; passa agora mais algum tempo em Portugal, na época do verão]

Legendas (das cinco primeiras imagens):

Foto nº  1- Viagem de Bissau, para a Ilha da Caravela, na canoa de carreira semanal, 7 horas;

Foto nº 2- Nossos trabalhos; radar, rádios e energia solar, na ilha da Caravela em Betelhe, junto ao antigo aeroporto;

Foto nº 3- Porto de Betelhe, na Caravela, a preparar a saída para o Ilhéu de Caió [, a sudoeste da Ilha de Jeta, região de Cacheu];

Fotos nºs 4,5 - Viagem entre a Caravela e Ilhéu de Caió, 7 horas, muito agradável (não é só nas Caraíbas)-

[...] Para quem gosta de passar férias nos Bijagós, é ótimo em outras épocas do ano…

Aqui perto existe um pequeno hotel no ilhéu de Queré, que recomendo. É muito agradável e com muito qualidade, é gerido pela Sónia, uma Portuguesa, agora quase Bijagó. Podem ver a página na Net , Keré - 00245 966943547-  

Vd. aqui o sitío Keré, Bijagós.

Abraço
Patrício Ribeiro (**)

www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.com



Mapa da região de Bolama / Bijagós. Cortesia da Wikipédia. Orango é a mais distante das ilhas, a 100 km de Bissau, 7 h de viagem.  A ilha Caravela, por sua vez, fica a 37 km da costa continental e  tem 128 km². É a a ilha mais a norte do  arquipélago: tem densas florestas, vastos mangais e praias de areia branca.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 9 de dezembro de  2016 > Guiné 63/74 - P16818: Memória dos lugares (352): Ilhéu de Caió, a sudoeste da Ilha de Jeta, região do Cacheu: um local muito bonito onde, para o ano, quero vir passar umas férias (Patrício Ribeiro, Bissau)


Guiné 61/74 - P17872: Agenda cultural (594): Lançamento do livro "Isabel Minha Mãe", da autoria do nosso camarada Guilherme Costa Ganança, dia 21 de Outubro de 2017, pelas 16,30 horas, no Auditório do Centro Cultural John dos Passos, Ponta do Sol, Ilha da Madeira


C O N V I  T E

Lançamento do livro "Isabel Minha Mãe", da autoria do nosso camarada Guilherme Costa Ganança, (ex-Alf Mil da CCAÇ 1788/BCAÇ 1932, Cabedú, Catió e Farim, 1967/69), no próximo dia 21 de Outubro de 2017, pelas 16,30 horas, no Auditório do Centro Cultural John dos Passos, Ponta do Sol, Ilha da Madeira

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Sobre o autor:

Guilherme da Costa Ganança nasceu no Funchal em 1945.
Concluiu o Ensino Secundário no Liceu de Jaime Moniz, do Funchal.

Licenciou-se em Engenharia Electrotécnica, pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa e fez o Bacharelato em Engenharia Civil, pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco.
Foi professor no Ensino Secundário e no Politécnico, Vereador e Director do Departamento de Desenvolvimento, Educação e Cultura, da Câmara Municipal de Castelo Branco.
Foi Director de Produção da empresa Cablesa, hoje, Delphi.
É também autor dos livros: "Do Cacine ao Cumbijã" e "O CORREDOR DE LAMEL - 68 GUINÉ 69".

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Nota do editor

Último poste da série de 17 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17871: Agenda cultural (593): Lançamento do livro "Os Silêncios da Guerra Colonial", da autoria da antropóloga Sara Primo Roque, filha de um DFA, combatente em Moçambique, dia 9 de Novembro, quinta-feira, às 18:30 h, na Av. Padre Cruz, na ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas

Guiné 61/74 - P17871: Agenda cultural (593): Lançamento do livro "Os Silêncios da Guerra Colonial", da autoria da antropóloga Sara Primo Roque, filha de um DFA, combatente em Moçambique, dia 9 de Novembro, quinta-feira, às 18:30 h, na Av. Padre Cruz, na ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas


C O N V I T E

Mensagem de Sara Roque

Data: 11 de outubro de 2017 

Assunto: A guerra colonial e os seus silêncios


Boa noite,

Começo por me apresentar.

Chamo-me Sara Primo Roque e sou filha de um ex-combatente ferido em Moçambique com uma mina antipessoal.

Sempre vivi com a Guerra Colonial. 

Como forma de honrar e homenagear o meu pai, em 2005 defendi uma tese de mestrado científico no ISCTE com o tema "A guerra colonial e os seus silêncios".

Dia 9 de novembro pelas 18:30h irei lançar a obra agora em livro.

A obra traz à tona as vozes daqueles que estiveram nos teatros de guerra e que nunca viram as suas vozes ouvidas como deveria ter sido feito. Os silêncios que envolveram o antes, o durante e o pós-Guerra Colonial são a tónica deste ensaio.

Foi através das memórias e das representações de vida daqueles que viveram direta ou indiretamente este conflito que foi possível reconstruir a realidade de um tempo que se quer fazer desacontecer.

Gostaria que me ajudasse a divulgar o meu livro, que não é só meu, mas de todos os ex-combatentes que deram o seu testemunho e partilharam as suas memórias.

Cumprimentos
Sara Primo Roque


Sobre o livro "Os Silêncios da Guerra Colonial", da autoria da antropóloga Sara Primo Roque, consultar o facebook em Edições Pásargada.

A obra será apresentada no próximo dia 9 de Novembro, quinta-feira, às 18:30 h, na Av. Padre Cruz – Edifício ADFA, e só estará à venda no lançamento ou por reserva no mail: 

pasargada.edicoes@gmail.com

Preço: 22,00€
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Nota do editor

Último poste da série de 17 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17869: Agenda cultural (592): Colóquio Internacional "O Ano de 1917", Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, 4ª feira, dia 18, das 10h00 às 18h30... Um ano que mudou o mundo, da revolução russa às aparições de Fátima e ao envio do 1º corpo expedicionário português para a Flandres, na I Grande Guerra...

Guiné 61/74 - P17870: As memórias revividas com a visita à Guiné-Bissau, que efectuei entre os dias 30 de Março e 7 de Abril de 2017 (9): 7.º Dia: Bissau, Safim, Nhacra, Jugudul, Mansoa, Mansabá e Farim (António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil)


1. Continuação da publicação das "Memórias Revividas" com a recente visita do nosso camarada António Acílio Azevedo (ex-Cap Mil, CMDT da 1.ª CCAV/BCAV 8320/72, Bula e da CCAÇ 17, Binar, 1973/74) à Guiné-Bissau, trabalho que relata os momentos mais importantes dessa jornada de saudade àquele país irmão.

AS MINHAS MEMÓRIAS, REVIVIDAS COM A VISITA QUE EFECTUEI À GUINÉ-BISSAU ENTRE OS DIAS 30 DE MARÇO E 7 DE ABRIL DE 2017

AS DESLOCAÇÕES PELO INTERIOR DA GUINÉ-BISSAU (9)

7.º DIA: DIA 05 DE ABRIL 2017 - BISSAU, SAFIM, NHACRA, JUGUDUL, MANSOA, MANSABÁ E FARIM

Depois de concluída a visita a terras de Bafatá e de Gabú e após uma calma viagem, regressarmos à nossa base, (Aparthotel Machado, em Bissau), para um bom necessário e refrescante banho, um bom jantar e mais uma boa dormida), acordámos no dia seguinte bem dispostos para nova aventura guineense, que neste sexto dia nos esperava.

Como pessoas conscientes que somos, não podíamos porém esquecer outros compromissos que o nosso grupo tinha assumido, antes da partida de Portugal, e que se relacionava com o já constante a folhas 10 do presente texto.
Assim e embora nos parecesse tudo já previamente combinado, e na presença dos nossos colegas Moutinho e Leite Rodrigues, o responsável da Alfândega de Bissau mandou chamar, na manhã dessa quarta-feira, dia 05 de Abril, esse tal agente (?!) que, logo de imediato apresentou a documentação em falta, afirmando que a mesma se encontrava numa das gavetas da sua secretária, mas que não tinha aparecido ninguém para levantar o contentor, o que se provou não ser verdade, porque ele próprio seria o representante legal do destinatário desse material escolar.

Antes de sairmos para mais um dia de visitas, fomos informados pelo nosso amigo, Dr. João Maria Goudiaby, médico no Hospital Padre Américo, em Penafiel e cunhado de sua Ex.ª o Senhor Presidente da República da Guiné-Bissau, Dr. José Mário Vaz, mas também amigo da maioria dos membros da Tabanca Pequena de Matosinhos, a que pertencemos e que prestaram serviço militar na Guiné-Bissau entre os anos de 1963 e 1974 que nos informou que pelas 11 horas da manhã do dia seguinte e em puro acto de cortesia, o Senhor Presidente da República ia ter a atenção de nos receber no seu Gabinete da Presidência, em Bissau.

Ficámos a aguardar a boa-vontade expressa pelo Senhor Presidente da República da Guiné-Bissau, em nos receber, pois para além dessa muito honrosa cortesia, nos permitiria, talvez, tentar expor a situação sobre um contentor que se encontra retido no Porto de Bissau, desde princípios de Novembro de 2016, visando a sua justa e oportuna intervenção, já que no interior do já referido contentor existem materiais e equipamentos oferecidos por entidades e muita gente anónima de Portugal, para ser entregue a escolas e outros serviços da área do ensino da Guiné-Bissau.

Assim e procurando manter o nosso programa de visitas, e com um bom pequeno almoço ingerido, cada grupo tomou lugar no seu habitual jeep, com destino às terras ou zonas que pretendiam visitar.
Neste dia e para o meu grupo de quatro colegas, no qual eu me integrava, iniciou a deslocação para a zona de Mansoa, para a partir daí seguir viagem até às localidades de Mansabá e Farim, localizadas na parte nordeste do território da Guiné- Bissau, com esta última a não ficar já não muito longe do território vizinho do Senegal.

Estrada plana, com longas rectas e um óptimo pavimento, que segundo nos informaram foi custeado pelo Senegal, visando um melhor escoamento das mercadorias produzidos naquela zona de fronteira, através do Porto guineense de Bissau.

Com uma breve paragem no posto de abastecimento de Jugudul, para abastecimento de combustível, avançamos em direcção à Vila de Mansabá, onde nos detivemos algum tempo antes de nos dirigirmos para Farim, pois pretendíamos ficar com uma ideia em como se encontrava esta povoação localizada num ponto importante de ligação rodoviária entre Bissau, o leste e o nordeste da Guiné-Bissau.
Ficámos muito impressionados, pela negativa, pelo aspecto de quase total abandono em que se encontra Mansabá, chamando-nos particular atenção o estado totalmente arruinado em que se encontram as instalações do nosso antigo aquartelamento sediado naquela antiga Vila da Guiné, mas o mesmo se pode afirmar das habitações locais e dos próprios arruamentos que serviam a localidade, apenas escapando a esse “tornado”, a nova e boa estrada que de Mansoa se dirige a Farim e que num itinerário novo, contorna a antiga povoação.

Para uma melhor demonstração do que exponho, junto duas fotos, uma antiga e outra actual do que existia e do que agora nos ainda oferece a antiga Vila de Mansabá. Sem mais comentários, porque não se compreende como as autoridades locais e nacionais deixaram cair Mansabá para um estado de quase total abandono, como tivemos oportunidade de confirmar, mas o mesmo, ou pouco melhor, se pode afirmar da antiga cidade de Farim.

Foto 94 - Mansabá (Guiné-Bissau): Antiga imagem da Vila, com as instalações militares na parte superior da fotografia 
Foto: © Carlos Vinhal  

Foto 95 - Mansabá (Guiné-Bissau): Imagem da talvez melhor rua e zona habitacional que encontramos em Mansabá http://mapio.net/pic/p-3525451/ 

Concluída a passagem por esta pobre e muito abandonada povoação, deixámos para trás a antiga vila de Mansabá, continuando a percorrer a bem asfaltada e ampla estrada que nos iria conduzir a Farim, situada na margem direita do Rio com o mesmo nome e que por inexistência de uma ponte, teríamos que atravessar a bordo de uma pequena jangada.
Durante o trajecto que liga Mansabá a Farim, despertou-nos a atenção o facto de vermos à margem da estrada e em locais mais abertos de vegetação, uns pequenos montículos que, em princípio me pareciam pequenas pedras, mas que, depois de efectuarmos uma breve paragem, constatámos serem montículos de terra, construídos pelas formigas bagabaga.

Antes de atingirmos as margens do Rio Farim e numa recta bastante grande, passamos no lugar mítico e muito perigoso, do tempo da guerra colonial, designado por K3, assim conhecido por se localizar a 3 quilómetros de Farim, e que era um local onde, além deste itinerário principal, se cruzavam outros, como era o caso do “corredor” do Olossato e Bissorã, bem como o da mata do Morés, ocupada pelo PAIGC, logo zona de interesses estratégicos comuns às duas partes envolvidas nessa guerra.
Percorridos esses três quilómetros, chegámos à margem esquerda do Rio Farim, onde aguardámos que chegasse a pequena barcaça/jangada que fazia a ligação entre as duas margens do rio, que ali tem uma largura de cerca de 150 metros, mas que apenas tem capacidade para o transporte de uma viatura de cada vez e mais ou menos 20 pessoas. Tivemos “sorte” quando ali chegámos, porque passámos para Farim logo de seguida, embora houvesse no local outros veículos para também fazerem a travessia do rio.

Como apontamento adicional, refiro que a maioria da população que faz a travessia de uma para a outra margem, utiliza pirogas que são embarcações estreitas, mas compridas e apetrechadas com motores fora de borda e com coletes de salvação, conforme o demonstra uma das fotos seguintes e que são construídas a partir de troncos de madeira, que são escavados e que têm uma capacidade entre 8 a 10 passageiros, mas que também transporta bicicletas, motorizadas e pequenas bagagens.

Foto 96 - Estrada Mansoa–Mansabá (Guiné Bissau): Terrenos junto à estrada, onde se vêm pequenos montes de terra, construídos pelas formigas bagabaga pretas (termiteiras em cogumelo)  
Foto: https://1.bp.blogspot.com/-y7AoF-IerJY/To7cHS8iEjI/AAAAAAAAh2o/2IlAFZ-WxlM/s1600/Guine_2006_Mansaba_HC_12+189.jpg 

Foto 97 - Farim (Guiné-Bissau): Os colegas Barbosa, Monteiro e Angelino na zona do famoso K3, que comigo estavam a aguardar embarque de jangada para Farim

Foto 98 - Farim (Guiné-Bissau): Piroga, transporte típico na travessia do Rio Farim entre K3 e Farim, que até motorizadas leva

Foto 99 - Farim (Guiné-Bissau): Chefe da Alfândega de Farim 

Foto 100 - Farim (Guiné-Bissau): Travessia em jangada de Farim para o K3, vendo-se o nosso jeep a meu lado 

Desembarcados em Farim, ficámos de imediato decepcionados com a degradação que a antiga cidade do leste da Guiné apresentava, pois além das ruas se apresentarem sem sinais de asfalto, todas em terra, poeirentas e cheias de buracos, mostrava um conjunto de antigos edifícios coloniais, todos eles muito degradados, que nos mostravam uma realidade de pobreza e abandono, daquela gente que ali vive.
A pé percorremos algumas dessas ruas, começando por atravessar o antigo parque público, onde ainda são ainda visíveis, bancos em cimento para descanso das pessoas e vestígios do que terá sido um belo jardim, com diversos canteiros onde terão existido bonitas flores e pequenos arbustos que o embelezavam.
Vimos um espaço cimentado e ainda, em parte, vedado, que terá sido um local onde se terão praticado algumas modalidades desportivas, como o futsal, naquele tempo designado por futebol de cinco, o voleibol, o andebol e o ténis, mas que actualmente são apenas vestígios de equipamentos de uma época, que as autoridades de Farim e/ou os seus habitantes, não conseguiram conservar e manter.
Um edifício ao lado deste parque mostra-se ainda o que terá sido um hotel e onde é também bem visível uma antiga piscina, completamente abandonada.

Não vimos um único restaurante e lojas comerciais, apenas nos foi despertada a atenção para um edifício, relativamente moderno, onde funciona um talho e duas pequenas lojas de comércio local. No largo central e nas ruas que para lá convergem, ainda tivemos oportunidade de verificar a existência de pequenos armazéns e de algumas lojas destinadas à alfaiataria e à reparação e venda de bicicletas e respectivos acessórios, muito pouco para uma cidade que na época colonial chegou a viver com algum conforto, em que os habitantes se sentiam bem e onde havia espaços de divertimento e de lazer, mas tudo mudou e para pior.
Algumas ruas largas, tipo avenidas e com postes de iluminação na sua zona central, mas que, ao que nos disseram, não dão luz há muitos anos, são outros pontos que referenciam, pela negativa, a cidade de Farim, levando ao ponto de alguns dos actuais residentes nos afirmarem, com toda a convicção, que estão muito piores agora do que quando estavam lá as tropas portuguesas.

Foto 101 - Farim (Guiné-Bissau): Foto antiga da marginal da cidade, vendo-se à direita da imagem o tal antigo parque público de lazer e passeio e onde nos anos 70, se passeava e praticava desporto 
Foto: http://trip-suggest.com/guinea-bissau/guinea-bissau-general/bissilao/ 

Foto 102 - Farim (Guiné-Bissau): A travessia na jangada, com a actual Farim já ali próxima  
Foto: http://www.odemocratagb.com/duas-novas-pontes-e-estrada-para-sul-sao-prioridade-do-governo-da-guine-bissau/ 

Foto 103 - Farim (Guiné-Bissau): Antiga foto do parque público, vendo-se, a meio, o recinto desportivo e por trás dele o edifício do cinema, com a piscina a localizar-se entre estes dois espaços 

Foto 104 - Farim (Guiné-Bissau): Foto actual do monumento colonial, alusivo ao V Centenário da morte do Infante D. Henrique e que ainda se apresenta em bom estado de conservação. Ao lado e espalhados pelo antigo parque público, podem ver-se, pintados de azul, alguns dos bancos de cimento, ainda ali existentes 
Foto: © Fernando Inácio (2007). Direitos reservados. 

Foto 105 - Farim (Guiné-Bissau): Embora designada como Rua dos Alfaiates, nela só encontramos esta pequena amostra 
Foto: © Patrício Ribeiro (2014). Todos os direitos reservados. [Edição: L.G.]

Foto 106 - Farim (Guiné-Bissau): Imagem actual das instalações do nosso antigo quartel

Embora tivéssemos connosco o jeep que nos havia transportado até Farim, decidimos fazer um passeio a pé por algumas das ruas desta pobre cidade, ficando com a desagradável sensação de sentir as carências da sua população, apoiado no meu conhecimento que tinha sobre Farim, há cerca de 43/44 anos, e das realidades que agora se observavam e sentiam.
Passámos pelo pequeno edifício da Alfândega local, onde encontramos à porta o responsável daquele posto aduaneiro e com o qual eu troquei alguns minutos de conversa, sobretudo inquirindo sobre o movimento de mercadorias que actualmente são ali controladas.
Talvez não esperando a questão que apresentei, este responsável defendeu-se o melhor que pôde, procurando explicar-me que faziam o controlo das mercadorias que vinham do vizinho Senegal, para serem exportadas pelo Porto de Bissau.
Foi evidente um certo nervosismo quando, de seguida, também lhe perguntei:
- Mas se não existe aqui nenhuma ponte para atravessar o rio e a jangada ser pequena e só levar uma viatura ligeira em cada travessia, como é possível dar resposta a esse movimento de mercadorias que me fala?!
Riu-se e não fez qualquer comentário.

Como não víamos qualquer local para almoçarmos, decidimos telefonar aos colegas de outros dois jeeps que tinham ficado pela zona de Mansoa, a fim de algum deles num indicar uma casa para esse fim.
Em boa hora telefonámos, porque esse grupo que se fazia acompanhar do senhor Djalló, proprietário da empresa dos jeeps em que andávamos, encontrava-se num Hotel Rural, na localidade de Uaque, próximo de Mansoa, onde iriam almoçar e convidaram-nos para esse mesmo almoço.
Estávamos porém a cerca de 120 quilómetros para leste de Mansoa, mas mesmo assim e como a estrada entre Farim e Mansoa era sempre plana e se apresentava com bom piso, decidimos vir para Uaque, onde chegámos cerca das 13,30 horas, mas ainda a tempo de participarmos na churrascada que tinham mandado preparar e que depois comemos à sombra de um redondel coberto com paus e ramos de palmeira.

Terminada a refeição, tivemos oportunidade de efectuarmos uma visita pelo espaço, onde além dos edifícios tradicionais também ali se localizavam salas de jantar e bares, existindo no exterior e isoladas umas das outras, cerca de 15 construções redondas, do tipo “bungalows”, cada um com duas camas e casa de banho privativa.
Na zona central do empreendimento, num grande edifício, funciona a zona da recepção, mas também possui áreas para a realização de conferências e seminários, tudo isto envolvido numa grande mancha verde de vegetação, com muitas palmeiras e outras árvores.

Foto 107 - Hotel Rural “Uaque”: Espaço turístico, localizado entre Mansoa e Jugudul, onde almoçámos, no regresso a Bissau. Começando pelo Djalló, proprietário dos jeeps, vêm-se, sentados à mesa, os colegas Barbosa, Angelino, Leite Rodrigues Rebola, Isidro e Ferreira

Foto 108 - Hotel Rural “Uaque” (Guiné-Bissau): Outra foto do mesmo local onde almoçámos, em que apareço eu, vendo-se de frente o Djalló e de costas os colegas Samouco e Vitorino e um pouco da careca do Moutinho

Foto 109 - Hotel Rural “Uaque” (Guiné-Bissau): Outra foto do almoço, onde à direita aparece o Isidro, o Rebola, o Leite Rodrigues, o Barbosa, o Djalló e ao fundo eu e o Moutinho e do lado esquerdo, o Cancela e o Rodrigo

Foto 110 - Hotel Rural “Uaque” (Guiné-Bissau): “Bungalows” existentes no interior do espaço do empreendimento

Depois de uma manhã bem preenchida por terras do interior leste da Guiné-Bissau, que apesar da evidente pobreza que verificámos existir, principalmente em Mansabá e Farim, gostámos de visitar, a manhã terminou com um bom almoço e um salutar convívio no empreendimento turístico Hotel Rural de Uaque, onde depois passámos uma parte da tarde, conversando, descansando e protegendo-nos um pouco do forte calor que se fazia sentir a esta hora do dia, não sem que antes de partir em direcção a Bissau, fizéssemos uma visita guiada às óptimas instalações deste novo empreendimento, que, pelo que vimos continua a expandir-se.
No decorrer da conversa, ficamos a saber que a sociedade que explora este espaço é também proprietária do agradável complexo da Pousada do Saltinho, situado junto à ponte com o mesmo nome, construída sobre o Rio Corubal, já a caminho da fronteira sul com a Guiné-Conakry, local que desta vez não me foi possível visitar por falta de tempo, e que desenvolve diversas actividades de entretenimento, como jornadas dedicadas à caça e à pesca, bem como caminhadas.

Ficará para uma próxima oportunidade, já que é um lugar muito bonito e aprazível, referenciado positivamente pelas designadas “corredeiras”, que mais não são que pequenas quedas de água existentes junto à ponte sobre o Rio Corubal, mas que toda a gente conhece como os “Rápidos do Saltinho“, nome este que tem origem no facto de as diferenças entre os diversos níveis de água serem pequenas, e que é um local onde, mesmo no tempo da guerra colonial, o pessoal militar gostava de tomar umas boas banhocas, já que apesar da corrente do rio, a profundidade das águas, é relativamente baixa.
Pelo que eu conheci e pelo que me transmitiram os colegas que agora lá foram, o Saltinho continua a ser um lugar paradisíaco, com o mesmo encanto, sendo um espaço que valerá bem a pena visitar.

Passados estes mais que 40 anos, a sensação de o visitar é naturalmente bem diferente, a segurança é total e sentimo-nos perfeitamente à vontade aqui, como em qualquer outra zona da Guiné-Bissau, onde como já foi por mim referido, fomos sempre bem acolhidos.

Depois de um dia bem passado e já com o final da tarde a aproximar-se, regressámos à nossa base em Bissau, sediada no Aparthotel Machado, para tomarmos um refrescante duche e depois jantarmos, desta vez com a companhia das 5 médicas e a enfermeira italianas, que “desenrascámos” dias antes na Praia Varela e que tinham mostrado vontade em vir confraternizar connosco.

Foto 111 - Saltinho (Guiné-Bissau): Uma das imagens de marca de quem se desloca ao Saltinho e aproveita este espectacular cenário para tomar uma banhoca, nas águas do Rio Corubal. Para mim, a visita ficará para uma próxima oportunidade, já que é um lugar lindo e encantador 
Foto: © Hugo Costa / Albano Costa (2006). Todos os direitos reservados

Foto 112 - Saltinho (Guiné-Bissau): Como lembrança do local, cá fica uma bela imagem da ponte em betão sobre o Rio Corubal  
Foto: http://www.povonalu.com/gbterradeoportunidades/

Foto 113 - Saltinho (Guiné-Bissau): Foto dum local já mais perigoso dos “Rápidos do Saltinho”, pois a corrente era mais forte  
Foto: https://www.youtube.com/watch?v=J_nfDEPhOBE

Foto 114 - Bissau: Sentados à mesa do Aparthotel Machado, ao fim da tarde, e bebendo umas cervejas, encontra-se o Azevedo, o Vitorino, o Barbosa, o Angelino, o Rodrigo, o Isidro e de costas o Samouco

Foto 115 - Bissau: À mesa do Restaurante do Aparthotel Machado, no início do jantar com as cinco médicas italianas de Udine, que se encontravam a fazer voluntariado numa clínica hospitalar de Bissau. Recordo que as encontrámos e safámos de ficar com a carrinha Toyota em que se faziam transportar, presas nas areias da Praia Varela

Fotos: © A. Acílio Azevedo, excepto as cujos autores e proveniência foram devidamente indicados

(Continua)
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Nota do editor CV

Último poste da série de 12 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17855: As memórias revividas com a visita à Guiné-Bissau, que efectuei entre os dias 30 de Março e 7 de Abril de 2017 (8): 6.º Dia: Bissau, Safim, Nhacra, Jugudul, Bambadinca, Bafatá e Gabu (António Acílio Azevedo, ex-Cap Mil)

Guiné 61/74 - P17869: Agenda cultural (592): Colóquio Internacional "O Ano de 1917", Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, 4ª feira, dia 18, das 10h00 às 18h30... Um ano que mudou o mundo, da revolução russa às aparições de Fátima e ao envio do 1º corpo expedicionário português para a Flandres, na I Grande Guerra...







1. Cartaz promocional do Colóquio Internacional "O Ano de 1917", Faculdade de Letras da Universidade denCoimbra, Anfiteatro II, 4º piso, amanhã, 4ª feira, dia 18 de outubro de 2018, das 10 às 18h30.

Organização de Clara Isabel Serrano e Sérgio Neto, do CEIS20/UC (Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX)

Conferencistas:

Nicolas Werth (IHTP/CNRS) 
Josep Cervelló (DHHA/URV) 
Manuel Loff (FLUP e IHC/FCSH/UNL) 
Francisco Assis (PE) 
Fernando Pimenta (CEIS20/UC) 
Sérgio Branco (IFILNOVA/FCSH/UNL, CEIS20/UC) 
João Madeira (IHC/FCSH/UNL) 

A conferência de abertura estará a cargo de Nicolas Worth (IHTP/CNRS), historiador francês especialista na história da União Soviética, que proferirá a conferência “Débats et controverses historiographiques autour de 1917”. 

No mesmo painel, moderado por João Paulo Avelãs Nunes, intervirá Josep Cervelló, historiador espanhol, já nosso conhecido, com o tema “De Barcelona a Fátima passando por Madrid”.

Recorde-se que em 2017, celebram-se vários primeiros centenários, desde a revolução russa às aparições de Fátima... Em 1917, é de lembrar, Portugal entrava na I Grande Guerra, com o envio de um corpo expedicionário para a Flandres. Mutos dos acontecimentos desse ano são desconhecidos dos nossos leitores. Por exemplo, em novembro de 1917,  "colunas militares alemãs, comandadas pelo general von Lettow, penetram profundamente no território de Moçambique, a partir da fronteira norte.",,, A 25 de novembro de 1917, em Negomano, morre o herói das "campanhas de pacificação" na  Guiné (1913-1915), Teixeira Pinto:

Domingo, 25 de Novembro de 1917 > Combate de Negomano, Moçambique

"Os portugueses são surpreendidos pelas forças alemãs em Negomano, Cabo Delgado, Moçambique. O resultado é um verdadeiro desatre para os portugueses. O ataque alemão fez vários mortos, oficiais, soldados europeus e africanos e o comandante Teixeira Pinto, abatido a tiro. Foram, ainda, feitos prisioneiros."..
.

É também de finais de 1917, o triunfo do sidonismo e o início da grave crise que levará, em 1926, ao derrube da I República, com a instauração da Ditadura Militar e depois a institucionalização do Estado Novo...


2. Mensagem, com data de 15 do corrente, de Sérgio Neto, historiador, autor de
"Do Minho ao Mandovi: um estudo do pensamento colonial de Norton de Matos" (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016) (*)



Caro Luís Graça

Espero que esteja tudo bem. Vinha por este meio convidá-lo a estar presente no Colóquio "O Ano de 1917", sobre as revoluções russas (com uma comunicação versando a questão colonial portuguesa), que se vai realizar no próximo dia 18 de Outubro, pelas 10.00, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Envio o cartaz e o folheto contendo o programa. Pedia, se estiver de acordo, a publicitação no vosso blog.(**)

Melhores cumprimentos
S. Neto

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Notas do editor

(*) Vd. poste de 6 de abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17213: Agenda cultural (552): Lançamento do livro de Sérgio Neto, "Do Minho ao Mandovi: um estudo do pensamento colonial de Norton de Matos" (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2016): 10 de abril, 2ª feira, às 17h00, Casa Municipal da Cultura, Coimbra. Apresentação: professores doutores Luís Reis Torgal e Armando Malheiro da Silva

Guiné 61/74 - P17868: O nosso livro de visitas (195): José Claudino da Silva, ex-1º cabo condutor auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74, autor do livro de ficção "Desertor 6520" (Lisboa, Chiado Editora, 2016, 418 pp.)


Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3ª CCAÇ / BART 6520/72 (1972/74) > O 1º cabo condutor auto José Claudino da Silva, junto a um memorial de uma companhia que passou por ali em 1966/68. (Tudo indica que seja a CCAÇ 1624 que, segundo a ficha da unidade,  esteve em Fulacunda, Catió, Fulacunda, Bolama, Mejo, Porto Gole, Fulacunda, entre novembro de 1966 e agosto de 1968: vd. verso do memorial, na foto a seguir, de 2015).

Foto (e legenda): © José Claudino da Silva (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Região de Quínara > Fulacunda > 24 de outubro de 2015 >  O que resta do memorial da CCAÇ 1624 / BART 1896, assinalando a morte de dois militares portugueses: sold nº 17765, Saliu Djassi, natural de Fulacunda,  morto em combate, em 13/1/67, sepultado em Bissau; e sold nº 9028766, Guilherme [Alberto] Moreira, natural de Mirandela, morto em combate, em 21/1/68, sepultado em Milhais, Mirandela.... Ambos pertenciam *a CCAÇ 1624.

Sobre o sítio escreveu a nossa amiga Adelaide Barata Carrêlo, turista acidental que passou por aqui a caminho de Bafatá: " (...) Fulacunda, local inóspito onde a Guiné é mais dela, o tempo parou, as crianças quase não existem e... os mais velhos falam dos portugueses de outros tempos"...

Foto (e legenda): © Adelaide Barata Carrêlo (2016), Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. M
ensagem de José Claudino da Silva com data de 3 do corrente:

Sou o ex-combatente, 1º cabo condutor, José Claudino da Silva.

Em 2016 publiquei um romance de ficção, com partes reais da Guerra Colonial. Em homenagem ao meu Batalhão dei-lhe o titulo "DESERTOR 6520" [Lisboa, Chiado Editora, 2016, 418 pp.].

Durante os cerca de dois anos que permaneci em Fulacunda, escrevi todos os dias. Penso ter em meu poder cerca de meio milhão de palavras escritas à minha namorada, que se transformou em minha esposa e que guardamos até hoje.

Após 45 anos, decidi reler o que escrevi e honestamente, parece-me que a minha guerra, não teve nada a ver com as variadíssimas histórias de guerra, que li escritas por camaradas nossos.

Não quero publicar a minha visão da guerra aos 22/ 23/24 anos, sem ter o aval de alguém,  como o senhor,  que penso ser das pessoas mais esclarecidas pelas publicações que tenho lido. Por isso o meu apelo, é se estaria disposto a dar-me a sua opinião,  mesmo antes das correcções que terei de fazer no texto a publicar.

Nesse sentido,  se concordar, enviarei o texto original para este mail,  informo que terá cerca de 30.000 palavras.

Um abraço. José Claudino da Silva


2. Resposta do nosso editor, na volta do correiro:

Camarada, teremos muito gosto em ler o teu manuscrito e dar-te a nossa opinião de amigos e camaradas mas também de críticos literários...

Conta com a nossa boa vontade, colaboração ativa e sigilo... Poderás, depois, se assim o entenderes, publicar alguns excertos no nosso blogue...Ficas desde já convidado para integrar a nossa Tabanca Grande: somos já 755 camaradas e amigos da Guiné...

Uma dúvida... És do BART 6520/72 ou do BART 6520/73 ?

Um abraço do Luís Graça

3. O José Claudino mandou-me 2 textos para apreciação, a título confidencial, do seu manuscrito, correspondente a dois pequenos capítulos: 40º. 16 horas no mato;  44º. O Fnado. E respondeu aos meus pedidos de esclarecimento, em mensagem de 4 do corrente:

Obrigado pelo vossa resposta.

Envio dois capítulos para terem uma ideia do meu estilo de escrita. O que está entre aspas, foi o que escrevi na Guiné há 45 anos Em breve enviarei o texto completo.

Pertenci ao BART 6520/72 (que tinha a CCS em Tite, a 1ª Cart em Jabaadá; e 2ª Cart em Nova Sintra. e nós, 3ª Cart,  em Fulacunda entre 1972/74).

A companhia que fomos render foi a CART 2772,  conhecida como "Os Capicuas".

Terei gosto em colaborar no blogue.

Retribuo o abraço,  José Claudino


4. Resposta do editor, no mesmo dia:

José, pela amostra, temos escrita e escritor, tens garra, o que escreves e escreveste tem interesse documental... Falas sobre ti e a nossa geração, sacrificada e desprezada... Depois dirás o que publicar (ou não) no blogue... A tua ideia é publicar em livro ? É isso ? E,  se sim, já tens contactos com editoras ?

Acho que não vale a pena hoje fazer "autocensura"... Sei que há temas delicados, como a nossa sexualidade (, porra, tínhamos 21/22 anos, e as esposas ou as namoradas ficaram longe, a milhares de quilómetros!)... Por outro lado, há questões sobre as quais estávamos mal informados: caso da Mutilação Genital Feminina, a poligamia, o casamento, as diferenças étnicas e linguísticas... Atenção, o "fanado" é mais antigo que o Islão e a islamização...

Acho intelectualmenet honesto, da tua parte, discriminares os textos de há 45 anos e os textos de hoje... Quanto às fotos, deves legendá-las e atribuir-lhes os respetivos créditos autorais (no caso de não serem tuas)...

Diz-me onde moras... tens aqui o meu nº de telemóvel (...) 

Um Alfabravo (ABraço)... Luís Graça

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17867: (Ex)citações (324): os memoriais de Buruntuma (CART 1742, 1967/69) e Ponte Caium (3º Gr Comb, CCAÇ 3546, Piche, 1972/74): Abel Rosa, António Rosinha, Carlos Alexandre e Valdemar Queiroz



Guiné > Região de Gabu > Buruntuma > CART 1742, "Os Panteras" (1967/69) > Guiné > Região de Gabu > Buruntuma > Memorial, sob a forma de lua em quarto crescente, desenhado por João Fernando Lemos dos Santos, ex-Soldado Condutor Auto> "Que os vivos mereçam os nossos mortos"... Ao fundo, à esquerda a capelinha, cujo desenho é da  autoria do José Mota Tavares, ex-alferes mil capelão, CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/67) (*)

Foto (e legenda): © Abel Santos (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Gabú > Piche > Destacamento de Caium > CCAÇ 3546 (Piche, Ponte Caium e Camajabá, 1972 / 1974) > 1973: monumento construído pelo pessoal destacado na ponte, do 3º Gr Comb, localizado no tabuleiro da ponte, no lado esquerdo, no sentido Piche-Buruntuma. O desenho é da autoria de Carlos Alexandre e, originalmente, tinha a forma de lua em quarto minguante.

Na foto, vê-se em primeiro plano, sentado na base do monumento, o Teixeira, de barbas; em segundo plano, e da esquerda para a direita, o Florimundo Rocha (condutor, natural da Praia da Rocha, Portimão); o Carlos Alexandre (radiotelefonista, natural de Peniche, que estava e está ligado à construção naval, com a profissão de carpinteiro naval), do qual só se vê a cara; e o Manuel da Conceição Sobral (natural de Cercal do Alentejo, Santiago do Cacém, ajudante de padeiro do Jacinto Cristina no destacamento). Ao lado do Rocha, à sua esquerda, vê-se o pequeno oratório tendo, na sua base, inscrita a legenda "Nem só de pão vive o homem"...

Foto (e legenda): © Carlos Alexandre (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]. 



Guiné-Bissau > Região de Gabú  > Ponte Caium > Abril de 2010 > Monumento de homenagem aos bravos de Caium, os mortos do 3º Gr Comb da CCAÇ 3546 (1972/74): "Honra e Glória: Fur Mil Cardoso, 1º Cabo Torrão, Sold Gonçalves, Fernandes, Santos, Sold Ap Can [Apontador de Canhão s/r ] Silva. 3º Gr Comb, Fantasmas do Leste, Guiné, 72/74".

É espantoso como, 37 anos depois, o nosso camarada Eduardo Campos, ao passar por lá, tenha conseguido captar esta imagem do memorial ainda quase intacto (falta-lhe a cruz que o encimava) e em razoável estado de conservação... Noutros sítios, estes monumentos funerários deixados pelas tropa portuguesa foram vandalizados ou destruídos (pela ação humana, incúria, inclemência do tempo, etc.).

O memorial da Ponte Caium é mais recente (1973) do que o de Buruntuma, da CART 1742 (1967/69). À primeira vista, parece haver  algumas semelhanças na forma e elementos decorativos (a meia lua, o sol...) dos dois monumentos. Não sabemos se o Carlos Alexandre, que desenhou o monumento da ponte de Caium,  conhecia o de Buruntuma, de visita ou de fotografia. É um pormenor um dia a esclarecer por ele. O de Buruntuma é seguramente mais antigo, são quatro anos de diferença.

Em tempos o Carlos Alexandre deu-nos a seguinte a informação sobre o desenho e a construção do memorial: 

 "O monumento foi desenhado e realizado com a participação de quase todo o grupo [,3º  Gr Comb, da CCç 3546, sediada em Piche] e todo ele foi construído com areia, cimento e ferro. Foi desenhado e recortado no chão, forrado a papel para não colar e cheio de cimento, ferro e pedras. Ao ser levado para o sítio onde ainda hoje está, partiu-se a ponta que fazia o seguimento da meia lua. Como não podia ser reparado, optamos por fazer uma pequena escadaria e uma cruz." (**)

Foto (e legenda): © Eduardo Campos (2010) .Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].




Guiné > Zona Leste > Região de Gabú > Setor de Piche > Carta de Piche > Localização (assinalada a amarelo) da Ponte do Rio Caium, na estrada Piche (a sudoeste)-Buruntuma (a nordeste, junto à fronteira com a Guiné-Conacri), sensivelmente a meio entre as duas localidades. O Rio Caium corre para sul, sendo um afluente do Rio Coli (que separa os dois países, num largo troço da fronteira leste).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)

1. Comentários ao poste P17862 (***)

(i) Abel Santos:

O memorial da Ponte Caium terá sido a peça "mais artística" que nós deixámos na Guiné, de homenagem aos nossos mortos ?

Há uma mais acima da Ponte Caium, em Buruntuma, que é uma peça arquitectónica que pede meças com qualquer outra deixada por nós na Guiné Portuguesa.

(ii) António Rosinha:

Já se passaram vários anos, palmilhei de jipe, pelo menos duas vezes, aquele percurso desértico da Ponde Caium até Buruntuma [, na fronteira,]  e lembro-me que os restos das instalações lá continuavam e não estavam totalmente abandonadas.

Tenho ideia que nalguma das instalações ou ao redor delas, fazia-se a feira à maneira dos muçulmanos...tabaco, limões, mancarra, óleo, etc.

Corri aquilo tudo numa altura em que não era nadinha simpático, aos olhos de Luís Cabral e de 'Nino' Vieira, andar de máquina a tiracolo,  de maneira que tudo o que guardo, é de memória.

No meio daquela tristeza de terras e gente semi-abandonadas, por volta de 1991/92/93, até davam nas vistas aqueles restos de instalações junto à fronteira, mas não me lembro que o que restava, chamasse tanto atenção como a ponte de Caium.


(iii) Valdemar Queiroz:

Só de ouvir falar, neste caso de ler, sobre a Ponte Caium me arrepio todo. Vejam as várias fotos publicadas no nosso blogue. É de arrepiar.

Um quartel, ou um destacamento edificado em cima de uma ponte não lembra ao diabo. O meu Pelotão, agora não me lembro quando e porquê, foi ao destacamento da Ponte Caium, talvez levar mantimentos e munições.

Julgo que seriam mais ou menos 40 homens dentro duns pequenos casebres de bidões com brita nos lados laterais da Ponte e em todo o seu comprimento. Quase todos em tronco nu, com um olhar turvo, magros e com cara e corpo de cor amarelada. Quase todos tinham este aspecto. Fiquei muito impressionado e nunca mais me vou esquecer.

Este memorial é duma grande nota artística e felizmente que ainda permanece em pé e de boa saúde. Valha-nos isso, todos aqueles homens que estiveram destacados na Ponte Caium bem o merecem. (****)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16049: Na festa dos 12 anos, "manga de tempo", do nosso blogue (8): A bonita e original capelinha de Buruntuma, de estética modernista (José Mota Tavares, ex-alferes mil capelão, CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/67)