quinta-feira, 30 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17189: Tabanca Grande (430): António Salvada, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2854/BCAÇ 2884, Có, 1969/71, nosso 738.º amigo tertuliano

1. Mensagem do nosso camarada e novo amigo tertuliano António Salvada, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2584/BCAÇ 2884, , 1969/71, com data de 20 de Março de 2017:

Caros amigos,

Há bastante tempo que pensei tornar-me também mais um da "nossa" Tabanca.
Como não sou grande especialista nesta área, tenho vindo a adiar a minha entrada.
Estou agora, finalmente a tentar fazê-lo. Se alguma coisa não chegar ok, agradeço que ajudem. 

Chamo-me António Francisco Limpo Salvada, tenho 69 anos e estive na Guiné entre Maio de 69 e Fev71, fazendo parte da Companhia de Caçadores 2584 do Batalhão de Caçadores 2884.

Estivemos durante toda a comissão no Chão Manjaco.
A minha companhia estacionou em Có, sendo a sede do Batalhão em Teixeira Pinto.

Fui Furriel Miliciano Atirador de Infantaria.

Como concerteza quase todos, não me canso de seguir toda a malta que lá andou e as suas aventuras. 
Estou reformado, e durante mais de 30 anos fui bancário de profissão.

Um abraço a todos 
A. Salvada

João Landim - António Salvada, Bernardo e Silva


António Salvada na actualidade

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2. Comentário do editor

Caro António Salvada, bem-vindo à Tabanca Grande, a este espaço de partilha e discussão destinado essencialmente aos combatentes da Guiné.
Aqui se depositam as nossas memórias escritas e fotográficas, aqui se documenta a história da guerra naquele pequeno território africano.

Une-nos as horas amargas longe da família e dos amigos, as precárias condições em que lutámos e o clima pouco propício a quem, de um clima temperado como o nosso, de repente enfrentava um calor e uma humidade no mínimo desconfortável. Com o nosso suor fizemos lama, muitos deixaram a sua vida e outros voltaram estropiados ou doentes até ao fim dos dias.

Se quiseres e puderes, contribui com a tua parte para este espólio histórico, a que muitos estudiosos recorrem quando precisam de informação sobre a guerra travada em solo africano.

Hoje, e desde há muito, respeitamos o direito inalienável daqueles povos à sua independência, sentimo-los como irmãos e continuámos sentimentalmente ligados aos locais por onde passámos. Não haverá ninguém que não recorde a(s) sua(s) lavadeira(s), um ou outro menino que cirandava pelos aquartelamentos, sempre prestável, a troco de alguma comida e amizade.

Memórias das horas boas e más, fotografias, papéis daquele tempo, tudo pode e deve ser aqui publicado.

Antes de terminar, não posso esquecer de te deixar um abraço em nome da tertúlia e dos editores deste Blogue, que te acolhem simbolicamente. Como diria o Luís, escolhe um bom lugar na base deste poilão e que os bons irãos te acompanhem.

CV
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17100: Tabanca Grande (429): Francisco Feijão, ex-alf mil, PA - Polícia Aérea, BA 12, Bissalanca, 1973/74... Novo grã-tabanqueiro n.º 737

Guiné 61/74 - P17188: Parabéns a você (1229): António Graça de Abreu, ex-Alf Mil Inf do CAOP 1 (Guiné, 1972/74); Benjamim Durães, ex-Fur Mil Op Especiais do BART 2917 (Guiné, 1970/72) e Rosa Serra, ex-Alferes Enfermeira Paraquedista da BA 12 (Guiné, 1969)



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Nota do editor

Último poste da série de 27 de Março de 2017 > Guiné 61/74 - P17181: Parabéns a você (1228): Armando Pires, ex-Fur Mil Enf do BCAÇ 2861 (Guiné, 1969/71); Carlos Vinhal, ex-Fur Mil Art MA da CART 2732 (Guiné, 1970/72); Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-Fur Mil Op Especiais do BCAÇ 4612/74 (Guiné, 1974) e Maria Dulcínea (Ni), Amiga Grã-Tanbanqueira

quarta-feira, 29 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17187: Os nossos seres, saberes e lazeres (205): De Pedrógão Pequeno a Tomar, com mala-posta e azémolas (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 10 de Novembro de 2016:

Queridos amigos,
Advertiu o profeta José Saramago que o que se vê na Primavera não é o mesmo que se vê no Outono, uma miríade de detalhes, situações e comportamentos fazem divergir o olhar ou a tomada de atenção: a luz, a hora do dia, o frio ou o calor, os solos gretados ou lamacentos, o uivar do vento ou o braseiro do estio.
Em 60 quilómetros de viagem, de Pedrógão Pequeno a Tomar, quanta dissemelhança, quão pouca aproximação neste Portugal tão versátil, em que tantas vezes descremos dos seus esplendores intrínsecos. O que dói no passeio dá por dois nomes: o abandono e a fuga das gentes, temos aqui a fronteira na zona centro da interioridade desolada; e a incaraterística da arquitetura, passe por aqui um minhoto ou um alentejano e tem que se assombrar com a falta de caráter do casario.
E quanta beleza natural e que deslumbramento florestal...

Um abraço do
Mário


De Pedrógão Pequeno a Tomar, com mala-posta e azémolas

Beja Santos

São escassas dezenas de quilómetros e que substanciais diferenças entre a partida e a chegada. Logo à partida os solos ácidos, a aspereza florestal, mas uma luz de encandeamento. José Malhoa, o grande pintor que se acolheu a Figueiró dos Vinhos, não se cansava de exaltar o sol, a luminosidade, o cíclame vegetal. O turista afoita-se ao caminho neste tempo estranho de um Verão de S. Martinho, entre a glorificação dos santos e a homenagem aos mortos. Já chegou o tapete verde que esconde feridas e terrunho solto, o que fascina o viandante é aquele azul quase elétrico que culmina no sombreado das oliveiras, estão em amadurecimento.



Um grande contista vernacular, João de Araújo Correia, homem da região do Douro, de entre a sua prosa inesquecível retém o viandante a seguinte passagem: “No Outono, quando as vinhas se empurpuram e doiram de baixo de uma luz coada por um velário”. Pode ser tudo verdade, mas entre o que se vê e o que chega ao lagar é abissal a distância. Será ano de pouco vinho, mas quem não se fascina com estas vinhas que se empurpuram?


Os grandes poetas gregos e latinos exultaram com a flor dos campos, o inebriante dos seus olores, são o grande aprovisionamento de uma sinfonia pastoral, cantam as giestas, não esquecendo as acácias e os lírios do vale. A terra vai adormecendo, atapeta-se de um castanho que é bendita matéria orgânica, se o homem em pó se torna a natureza ao fenecer revigora a sua matriz, será o cântico da primavera.


É tempo de rosas, de margaridas, a lavanda está olorosa mas que dizer das dálias, orientam-se para a luz do sol, são flores femininas, talvez pela postura, por esperarem sabendo que são admiradas, ninguém lhes fica indiferente à coquetaria daquelas pétalas que parecem asas a voar.



Mudou a paisagem, mudou a luz, estamos agora em terrenos úberes. Já te trotou até à cidade, dezenas de quilómetros se fizeram até terras de lezíria, de aluvião e paul. Mil vezes se passou por este convento da Contra-Reforma, de aprumo austero. Nunca se dera pelo facto da dissemelhança existente na fachada, o arquiteto, a páginas tantas, lembrou-se da torre sineira e remendou airosamente, com sino de campanário e uma quase sineta, para dar um fio de música. E regista-se o que avulta na lápide, aquela pedra que foi botada ainda no tempo filipino. Como o viandante é septuagenário, aquela palavra botar é-lhe bem familiar, está hoje em desuso com as regras da sociedade de consumo que trucida tudo o que vem do mundo campestre, da vida aldeã, que cheira a córregos ou amanhos da terra.


Tem o viajante cismado como as glicínias concorrem com as buganvílias, ao tornar mimoso a frontaria das casas e as entradas com jardins. Àquela hora, Tomar estava em recolhimento, deu tempo que o viandante andasse calmamente entre a Várzea Grande e a Várzea Pequena à procura da glicínia mais exuberante. Aqui encontrou foi esta, e regista-a com indisfarçável alegria, Tomar com cores tem mais ternura.


Vens do passado, daquele tempo irrefragável em que houve Descobrimentos e aqui se fazia fortuna em nome da Ordem de Cristo. És memória, e sinal das fazendas prósperas, de sabões e azeites, de campos cultivados, de mantimentos que partiam nos navios. Bendita memória, ainda por cima num dia em que recebes a calorosa saudação dos céus.


O viandante atém-se a pormenores. Por exemplo, um prédio expetante, com janelas abandonadas, mas o edifício está pintado e permite ver o donaire da varanda, graciosa, e mais graciosa ficará quando se fizerem obras naquela casa que está um esconso. E depois procurou-se o Outono no Nabão, mas o destino troca-nos as voltas, o que se encontrou foi este encanto da água a escorripichar para o rio e lá no cimo uma nesga de castelo com o céu limpo.


E aqui finda o passeio que o viandante encetou a partir da barragem do Cabril, em Pedrógão Pequeno na mansidão outonal. Sempre que vê flores e mão de jardineiro, o viandante vai coscuvilhar. São begónias pequenas, flamantes, a caminho de uma ponte das mais importantes de Tomar. Queridas begónias que nos enchem a alma, são juventude e uma eterna fé no futuro nos ciclos da Terra.
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17170: Os nossos seres, saberes e lazeres (204): Central London, em viagem low-cost (6) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17186: "Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp) - Parte IX: o comandante do RI 11, o cor inf Florentino Coelho Martins


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1. Continuação da publicação da brochura "Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE ref José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp. inumeradas, il.) [, imagem da capa, à direita].(*)

José Rebelo, capitão SGE reformado, foi em plena II Guerra Mundial um dos jovens expedicionários do RI I1, que partiu para Cabo Verde, em missão de soberania, então com o posto de furriel (1º batalhão, RI 11, Ilha de São Vicente, ilha do Sal e ilha de Santo Antão, junho de 1941/ dezembro de 1943).

O nosso camarada Manuel Amaro diz do José Rebelo:

(...) "Por volta de 1960, fez a Escola de Sargentos, em Águeda e, após promoção a alferes, comandou a Guarda Nacional Republicana em Tavira, até 1968. Como homem de cultura, colaborava semanalmente, no jornal "Povo Algarvio", onde o conheci, pessoalmente. Em 1969, já capitão, era o Comandante da Companhia da Formação no Hospital Militar da Estrela, em Lisboa." (...).

Não temos informações atualizadas sobre este nosso velho camarada que é credor de toda a nossa simpatia, apreço e gratidão. É pouco provável que ainda hoje seja  vivo, mas oxalá que sim, tendo então a bonita idade de 96 ou 97 anos. No caso de já ter morrido, estamos a honrar a sua memória e a dos seus camaradas, onde se incluiram os pais de alguns de nós.

A brochura, de grande interesse documental, e que estamos a reproduzir, é uma cópia, digitalizada, em formato pdf, de um exemplar que fazia parte do espólio do Feliciano Delfim Santos (1922-1989), que foi 1.º cabo da 1.ª companhia do 1.º batalhão expedicionário do RI 11, pai do nosso camarada e grã-tabanqueiro Augusto Silva dos Santos (que reside em Almada e foi fur mil da CCAÇ 3306 / BCAÇ 3833, Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73).

[Foto do então furriel José Rebelo, expedicionário do 1º batalhão do RI 11]

Trata-se de um conjunto de crónicas publicadas originalmente no jornal "O Distrito de Setúbal", e depois editadas em livro, por iniciativa da Assembleia Distrital de Setúbal, em 1983, ao tempo do Governador Civil Victor Manuel Quintão Caldeira. A brochura, ilustrada com diversas fotos, dos antigos expedicionários ainda vivos, tem 76 páginas, inumeradas.

O batalhão expedicionário do RI 11, Setúbal, com pessoal basicamente originário do distrito, partiu de Lisboa em 16 de junho de 1941 e desembarcou na Praia, ilha de Santiago, no dia 23. Esteve em missão de soberania na ilha do Sal cerca de 20 meses (até 15 de março de 1943), cumprindo o resto da comissão de serviço (até dezembro de 1943) na ilha de Santo Antão.

Era comandante do RI 11, na altura, o coronel inf Florentino Coelho Martins, combatente em Moçambique, na I Guerra Mundial, e que, ao que parece, não escondia as suas simpatias republicanas, o que na época, no auge do Estado Novo de Salazar,  pagava-se caro. Pouco tempo depois foi substituído.
As páginas que publicamos hoje  [de 38 a 41] não vêm numeradas no livro.
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Nota do editor:

(*) Último poste da série de 24 de Março de 2017 > Guiné 61/74 - P17174: "Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp) - Parte VIII: A estafeta "Chama da Pátria", em 9 de abril de 1942, ligando Pedra Lume até Vila Maria, na ilha do Sal

terça-feira, 28 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17185: Agenda cultural (550): Livro "Escravos em Portugal, Das Origens ao Século XIX", da autoria de Arlindo Manuel Caldeira, A Esfera dos Livros, 2017



Mensagem de: 
Claudia Silveira  
Data: 16 de março de 2017
Assunto: Escravos em Portugal, de Arlindo Manuel Caldeira

Boa tarde,

“No dia 6 de Agosto, fugiu uma escrava preta muito baixa, olhos medianos, nariz chato e largo, boca grande e beiçuda, mal feita de corpo e mãos grandes e mal feitas. Levava capa de baetão muito comprida, cor de flor de pessegueiro e saia de chita escura. Na loja da Gazeta de Lisboa se dirá quem é seu senhor, o qual dá de alvíssaras 19$200 réis a quem lha descobrir”.

“Quem quiser comprar três escravas, duas pardas e uma preta, fale na loja de Paulo Conrado, na rua dos Capelistas.”

Por incrível que possa parecer, ainda no início do século XIX, mais propriamente em 1801 e 1809, os jornais de Lisboa publicavam anúncios como estes.

"Escravos em Portugal", do historiador Arlindo Manuel Caldeira, é uma obra inovadora sobre um tema que continua ainda muito ignorado no nosso país e que temos obrigação de conhecer. Esta não é uma história da escravatura em Portugal, mas sim uma história dos escravos, uma obra única que nos fala da história de Lourenço, João, Florinda, Grácia, João de Sá e de muitos outros milhares de escravos, protagonistas involuntários de um regime social injusto, excluídos entre os excluídos, e que viveram em Portugal. Calcula-se que só nos séculos XV a XVIII, o período de maior concentração de mão-de-obra não-livre, tenha havido, no continente e ilhas, um milhão de pessoas sujeitas a cativeiro.

Ao longo do livro ficamos, a saber, como era feita a compra e venda de escravos, qual era a relação entre o senhor e o escravo, como era utilizada a mão-de-obra cativa, qual a diferença entre escravos da cidade, do campo ou do paço? E depois da abolição legal como se transformou a vida destas pessoas?


À venda desde 17 de Março.



Arlindo Manuel Caldeira. 
Licenciado em História, é investigador do Centro de História de Além-Mar (Universidade Nova de Lisboa). 
As suas principais áreas de pesquisa são a história de África (particularmente Angola e golfo da Guiné) e a escravidão, sobre as quais tem publicado vários livros e dezenas de artigos. 
Em 2013, publicou o livro "Escravos e Traficantes no Império Português". O comércio negreiro português no Atlântico durante os séculos XV a XIX, editado por A Esfera dos Livros.


Cláudia Silveira | Comunicação | A Esfera dos Livros 
R. Professor Reinaldo dos Santos Nº 42 R/C 1500-507 Lisboa 
Tel. 21 340 40 64 
Tlm: 925 487 990
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17179: Agenda cultural (549): Integrada no 17.º Ciclo das Tertúlias Fim do Império, dia 29 de Março de 2017, pelas 15 horas, apresentação dos livro "Além do Bojador" e "O Malinké", da autoria de Manuel Fialho, editora 100 Luz, no Palácio da Independência, em Lisboa (Manuel Barão da Cunha)

Guiné 61/74 - P17184: Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte VI: Cartagena das Índias, Colômbia









Parte VI  (pp. 18-20)


Texto, fotos e legendas: © António Graça de Abreu (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação das crónicas da "viagem à volta ao mundo em 100 dias",  do nosso camarada António Graça de Abreu, escritor, poeta, sinólogo, ex-alf mil, CAOP 1 [Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74], membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com mais de 175 referências. 

É casado com a médica chinesa Hai Yuan e tem dois filhos, João e Pedro. Vive no concelho de Cascais.

Partida do porto de Barcelona em 1 de setembro de 2016. Duas semanas depois o navio Costa está nas Caraíbas.  Antes de entrar no canal do Panamá e depois no Oceano Pacífico, ainda há uma paragem em Cartagena de las Indias. norte da Colômbia.
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Nota do editor:

Último poste da série de 21 de Março de 2017 > Guiné 61/74 - P17163: Notícias (extravagantes) de uma Volta ao Mundo em 100 dias (António Graça de Abreu) - Parte V: Caraíbas: Granada e Aruba... Já ouviram falar?

segunda-feira, 27 de março de 2017

Guiné 61/74 - P17183: FAP (100): Um DO no charco do Como, história inserta no livro "Nos, Enfermeiras Paraquedistas" (Miguel Pessoa / Giselda Pessoa)



1. Mensagem do nosso camarada Miguel Pessoa, Cor PilAv Ref (ex-Ten PilAv, BA 12, Bissalanca, 1972/74), com data de 14 de Setembro de 2016:

No Poste 17160 do blogue o nosso camarada Alberto Branquinho "refila" com o facto de as dicas que lhe enviei remeterem para um texto "menor" da história da queda do DO-27 junto à ilha de Como.
Na verdade ele tem razão pois, quando da preparação do livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas", que reunia textos de todas as enfermeiras paraquedistas que nele quisessem colaborar, acabou por ser incluído um texto revisto deste episódio, passado para a primeira pessoa e reforçado com mais alguns pormenores extra.
Embora correndo o risco de ser repetitivo, e dado que o livro em questão já foi publicado há uns tempos, não vejo inconveniente na sua publicação no blogue, assim o entendam os editores.
Incluo algumas fotos alusivas, das quais poderão incluir algumas para "abonecar" a apresentação.

Ao vosso critério.
Abraço.
Miguel Pessoa

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UM DO-27 NO CHARCO DO COMO[1]

Na manhã do dia 17 de Novembro de 1973 o Centro de Operações do GO1201, na BA12, recebe um pedido de evacuação, vindo de Catió, tendo de imediato destacado um avião DO-27 para efectuar essa missão. A equipa de alerta era constituída pelo Fur. Ivo Mota, da Esq. 121, e por mim, Enfª Paraquedista Giselda Antunes, juntando-se a nós a Enfermeira Paraquedista Natália Santos, acabada de chegar à Guiné e que, por ser "pira", acompanhava as "veteranas" nas evacuações, para "ganhar calo".

Estava-se já na época pós-Strela, que tinha trazido diversas restrições à navegação aérea. Entre a opção de subir para 10.000', descendo depois à vertical do destino, o piloto optou pela outra opção possível, que era a de efectuar todo o voo a baixa altitude (50' a 100' sobre o terreno - o correspondente a 15 a 35 metros), o que implica um risco acrescido no caso de uma falha no motor.

Para evitar zonas mais perigosas o piloto decidiu então seguir ao longo da linha de costa, sobre a água, contornar a ilha de Como (refúgio do PAIGC), subir o rio Cumbijã e, atingido Cufar, dirigir-se em linha recta para Catió.

O voo decorria normalmente a baixa altitude; à passagem por Bolama tivemos a oportunidade de ver o navio que fazia o transporte de víveres e material, que se dirigia para sul. O DO-27 não parecia ressentir-se de qualquer problema resultante do incidente da véspera. O avião sofrera um choque com um pássaro que lhe tinha acertado no hélice, mas a inspecção feita ao avião no intervalo dos dois voos não tinha detectado qualquer anomalia.

Quando sobrevoávamos os tarrafos ao lado da ilha de Como, o avião resolveu "apagar-se" - o motor parou repentinamente, obrigando o piloto a uma reacção rápida para preparar uma aterragem de emergência. Dada a baixa altitude a que seguiam, a única solução era "poisar o estojo" na direcção em que seguiam, em pleno tarrafo, o que o piloto fez - diga-se - com bastante êxito, pois o avião ficou atolado no lodo, mais ou menos direito, tendo os ocupantes saído ilesos desta aterragem (ou mais propriamente "alodagem").

Quem esteve na Guiné sabe bem as diferenças no contorno das margens (no mar ou nos rios) entre a maré cheia e a maré vazia. Neste caso era hora da maré baixa e a água, tendo descido, deixara o tarrafo coberto de uma espessa camada de lodo.
Rapidamente abandonámos o avião procurando, atascados no lodo, alcançar uma zona de águas mais profundas, onde pudéssemos, mergulhados, ficar menos expostos a olhares da margem e ser eventualmente "pescados" pelo navio que pouco antes tinham visto a navegar naquela direcção.

Na realidade era grande a nossa preocupação com a nossa segurança pois a zona em que tínhamos caído era completamente dominada pelos guerrilheiros do PAIGC e a população existente totalmente controlada por aqueles.


Sequência de fotos da recuperação da avioneta DO-27, acidentada na Ilha do Como, em 17 de Novembro de 1973... Caídos em território inimigo, o Fur Mil Pilav Ivo Mota, e as enfermeiras pára-quedistas Giselda Antunes e Natália Santos, tiveram a sorte de serem socorridos, com rapidez, por uma unidade da Marinha que passava ali perto, a LDG 102..

Para além da eternidade que demora a passar o tempo naquelas condições, não dá a esta distância para especificar o que senti. Claro que a aproximação do navio por que tínhamos passado e o facto de sabermos que a Base detectaria a nossa ausência nos transmitia algum optimismo. Nem por isso deixava eu de empurrar a “pira” Natália para dentro de água quando ela, ainda inexperiente e não se apercebendo da gravidade da situação, se tentava levantar para ver melhor à volta... Tentávamos mesmo não lhe dar a entender o perigo que corríamos, pois não ganhávamos nada em pô-la ainda mais nervosa.

E ainda me ressoava na cabeça a reacção do Ivo Mota quando nos afastávamos do avião, depois da queda, que me dizia com uma franqueza ingénua: - “Ó Giselda, ainda bem que foi contigo!”. Claro que respinguei com ele embora tivesse compreendido o alcance das suas palavras – já tínhamos um ano de convívio na Guiné e tínhamos confiança um no outro. Por isso ele sentia-se mais à vontade comigo ali.

O piloto tinha decidido entretanto regressar ao avião para recolher a arma que o DO-27 transportava dentro de uma caixa que servia de banco ao pessoal que era transportado na parte de trás. Dada a dificuldade de progressão, tive que o acompanhar para o ajudar, pois já evidenciava algumas dificuldades em regressar ao local em que tínhamos deixado a Natália.

Ter-se-iam passado duas horas desde a aterragem forçada no local quando começámos a ouvir o barulho de um motor. Detectámos então uma embarcação do tipo Zebro que se aproximava do local, atraída pela silhueta do DO-27 atolado. Desconfiados, continuámos metidos na água pois a distância não permitia uma identificação eficaz do pessoal que se aproximava. Sofremos uma grande desilusão quando vimos o zebro afastar-se da margem.

Passados uns largos minutos ouvimos novamente o barulho do motor. Com o regresso do zebro, chegando agora a uma distância mais curta, pudemos verificar que os tripulantes eram brancos, o que nos levou a chamar a sua atenção. Rapidamente fomos recolhidos e levados para o navio de guerra a que o zebro pertencia e que se aproximara entretanto do local.

Na BA12, entretanto, alertados pela falta de reportes do DO-27, tinham mandado descolar um Fiat G-91 que, seguindo o percurso mais provável voado pelo DO veio rapidamente a localizá-lo no tarrafo.
Imediatamente a Força Aérea pediu a colaboração da Armada, que deslocou uma segunda embarcação para o local.
Terá então havido aqui alguma falta de comunicação pois o segundo navio atarefava-se na busca do piloto no local quando este já se encontrava no primeiro navio. Mas mais vale a mais do que a menos...

O facto é que, depois de recuperada pela Armada, mesmo sem dispor de material (perdido no acidente) ainda fui fazer a evacuação a Catió, num outro avião entretanto disponibilizado, que "serviço é serviço"... Não tendo comido nada durante todo o dia, fui salva por umas castanhas que transportava no meu camuflado e que tinham resistido ao banho…

Podemos imaginar que o fim feliz deste acontecimento se deveu a um conjunto de factores favoráveis que podiam muito bem não ter acontecido:
- O facto de o avião voar bastante baixo, não sendo observável das tabancas existentes;
- A aproximação final do avião ao ponto de queda com o motor parado, não tendo, pelo seu silêncio, alertado ninguém próximo (detectou-se depois uma tabanca com população presumivelmente hostil a cerca de 700 metros);
- A existência de um navio da Armada, em missão de vigilância próximo do local, o que permitiu a rápida recuperação dos ocupantes do DO-27.




Fotos da recuperação do DO 27


Regresso do DO-27, n.º 3458, à Base - Bissalanca, BA12

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Nota do editor

[1] - Esta história pode ser lida na página 295 do livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas", Coordenação de Rosa Serra e Prefácio de Adriano Moreira.
Também no nosso Blogue a história foi já publicada em 14 de Fevereiro de 2009 - Ver Poste 3892.
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Nota do editor

Último poste da série de 9 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17036: FAP (99): Alerta aos FIATs (António Martins de Matos, Ten Gen Pilav)