sábado, 2 de julho de 2005

Guiné 63/74 - P94: Um alfa bravo para os nossos Op TRMS (1) (Afonso Sousa)

1. O Afonso Sousa [exz-furriel miliciano de transmissões da CART 2412, Bigene, Binta, Guidage, Barro, 1968/70) vem trazer para nossa tertúlia o tema dos "nossos rádios na Guiné". Teve, além disso, a gentileza de nos mandar imagens desses equipamentos de cuja existência e importância só dávamos conta em momentos de grande aflição: (i) quando, no mato, debaixo de fogo do IN, chamávamos pela mãezinha e pelo apoio da Força Aérea; ou (ii) quando tínhamos um camarada gravemente ferido, e era preciso uma evacuação Y para o hospital militar de Bissau...

Diz o Afonso Sousa: "Quanto do nosso isolamento foi atenuado e protegido com estes aparelhos de resistência singular, em terreno e flora tão adversos" ! (28 de Junho de 2005).

O Rádio AN_PRC 10 © Afonso Sousa (2005)

Além disso, "quem não se lembra daqueles livrinhos (secretos) de descodificação criptográfica (chaves periódicas de decifração de mensagens - criptografia de substituição de palavras) ? Com que expectativa e alguma sofreguidão, iniciávamos, por vezes, eu e o cabo cripto, a decifração de certas mensagens !

"... E saber que, hoje, tudo é tão simples com a criptografia computacional !... Coisa dos tempos !...


2.O Marques Lopes também se lembra bem "do AN-PRC 10, que o radiotelegrafista do meu grupo de combate levava às costas. Mas usávamos também em Geba um pequeno rádio para comunicação entre as secções do grupo de combate a que chamávamos SHARP. Era uma espécie de walkie-talkie. Conhecem ?"


3. O Humberto Reis diz que se lembra bem desse rádio: "Usei-o enquanto estive em Lamego pois cabia no bolso do dolman camuflado. Na Guiné não me lembro de o ter visto. Julgo que na minha CCAÇ 12 nunca houve desses luxos. Enfim, não se podia ter tudo".


4. O Sousa de Castro (29 de Junho de 2005), esse, também fala de cátedra, acerca das nossas transmissões e dos seus operadores:

"O AN-GRC 9 foi o rádio com que trabalhei durante toda a comissão na Guiné em grafia... Não é para me gabar, mas eu achava-me um craque nesta matéria, trabalhar em código morse era comigo, ou não tivesse na minha caderneta a menção de TE (telegrafista especial).

"Convém dizer que o [Luís] Carvalhido da APVG [Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra] não ficava atrás, antes pelo contrário, era um bom adversário.

"Aproveito para dizer que aquilo a que chamam de Banana é o AVP-1 que era usado no meu tempo nas operações para comunicação entre pelotões e nomeadamente com o Quartel, mas o rádio com mais alcance que os OP (operadores] de TRMS [transmissões] de Infantaria levavam às costas era o conhecido RACAL (TR-28)... Conheceram este? Vou procurar nos meus papéis e digitalizar este rádio para mandar para a tertúlia".

Nota de L.G. - As imagens enviadas pelo Afonso Sousa estão, para já, na página de Barro / Cacheu.

Guiné 63/74 - P93: Barro, trinta anos depois (1968-1998) (Afonso Sousa)

Texto de Afonso M. F. Sousa, ex-furriel miliciano de transmissões da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70), a propósito do post Guiné 69/71 - LIV: Cacuto Seidi, chefe da tabanca de Barro (15 de Junho de 2005)


Caro António Marques Lopes:

Recordo-me muito bem dele [o Cacuto Seidi]. As cinco mulheres !... Falávamos nisso. Alternavam a dormir com o Seidi.

Quanto à pequena e rudimentar pista de meios aéreos pequenos, ficava aí a 100m da fachada Norte do edifício do comando e secretaria. Havia um pequeno carreiro descendente, para Leste, que entroncava no caminho Barro-Bigene, próximo da cozinha do aquartelamento. De certeza que conhece.

Neste mesmo edifício ficava também o aquartelamento dos oficiais e o centro cripto.
Uma vez (era meia-noite), eu e o cabo cripto (que estávamos a descodificar umas mensagens) fomos surpreendidos com forte ataque vindo de zona próxima do arame farpado junto à referida pista. Como estávamos em posição frontal e a uns escassos 150/200 metros, a nossa primeira reacção foi atirar-nos para baixo da nossa mesa de trabalho.

Logo ao lado, do abrigo contíguo ao edifício, sentimos a pronta reacção do nosso morteiro, de imediato acompanhada por toda a companhia. Foi quase meia hora de intenso tiroteio, felizmente sem consequências. Apenas a lamentar a perda de uma perna por parte de um nativo, na manhã seguinte, quando se procedia ao reconhecimento da zona imediatamente a Norte da pista. Deixaram minas anti-pessoais e foi uma delas que o vitimou.

Já agora permita perguntar-lhe: e em frente ao edifício de comando/secretaria onde funcionava o depósito de géneros, a área dos mecânicos-auto e o dormitório dos praças, isso já não existia [em 1998, quando lá voltou, trinta anos depois] ?

E aquelas duas altas mangueiras, logo a seguir (para Sul), entre as quais tínhamos instalada a antena horizontal dípolo (elas funcionavam como mastro) ? Ao lado ficava o posto rádio e a enfermaria.

A sua constatação foi a de que aquela terra, tal como quase todas, não sofreu ainda os ventos da libertação, da democracia e do progresso. É assim ?

Um abraço (mais sentido por termos, longe da pátria, calcorreado os mesmos caminhos, algures na Guiné)

Afonso Sousa

Guiné 63/74 - P92: A zona tampão de Barro, Bigene, Binta, Guidage e Farim Afonso Sousa)

Texto de Afonso M. F. Sousa , ex-furriel miliciano de transmissões da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70)


1. A nossa Companhia chegou a Bigene, vinda de Bisssau, em 31 de Agosto de 1968, para fazer o treino operacional (com a CART 1745, e integrada no COP3, cujo comandante era o major de cavalaria Correia de Campos).

Nos primeiros contactos com o IN apanhámos uma emboscada num trilho à saída de uma bolanha. Aí faleceu (com tiro de bazooka) o nosso 1º cabo enfermeiro João Batista da Silva (talvez reconhecido pelo IN pela sua saca de medicamentios, a tiracolo) (1).

Na reacção as NT conseguiram (também como descreve o coronel A. Marques Lopes) neutralizar um guerrilheiro (talvez o que terá abatido o nosso militar) que estava empoleirado numa árvore. Levou uma rajada no baixo ventre e ficou com os testículos praticamente desfeitos. Foi trazido para o aquartelamento. Estava vivo, mas não sei se, posteriormente, veio a safar-se. Pelo seu estado, julgo que não.

Até chego a pensar se desta tão grande coincidência, entre o meu relato e o do coronel, na neutralização deste turra, não estamos a falar do mesmo. Era sinal de que a CCAÇ 3 estava, na ocasião, em Bigene, juntamente com a minha companhia.

Mas talvez não, porque na altura o Correia de Campos era major e o António Marques Lopes reporta-se a ele como sendo tenente-coronel, o que indicia ter este caso ocorrido posteriormente.

2. Esta Zona (Barro - Bigene - Binta - Guidage - Farim) correspondia como que a uma zona-tampão, visando neutralizar os corredores de Tanaf e Samine (Senegal), de grande importância nos abastecimentos do PAIGC e na estratégia de conquista territorial a partir do Senegal.

Repare-se que estes corredores estabeleciam a ligação Senegal-Morés (Óio) (2). Por isso esta zona era vital tanto para as nossas pretensões como para as do PAIGC. O futuro haveria de demonstar isso (leia-se o que ocorreu em Guidage em Maio de 1973).

Por exemplo, o percurso Binta-Guidage era frequentemente emboscado por grupos itinerantes apeados ao longo do trajecto (sobretudo no baixo do Cufeu, alagado por cursos de água superficiais). O objectivo era isolar a tabanca de Guidage que ficava mesmo em cima da fronteira com o Senegal.

Toda esta zona era assim, percorrida frequentemente por estes barrotes queimados do e para o Senegal. Este país quase funcionava como rectaguarda do PAIGC (embora algumas vezes negasse esse apoio, por estratégia concertada com eles).

Foi por isso que, a partir de Barro, bombardeámos o Senegal com potentes obuses. Resultado: este país apresentou queixa na ONU contra Portugal por violação do seu território. Vocês devem-se lembrar disso (1969), pois, na altura, foi noticiado na rádio.

Depois, nos dias seguintes recebemos, dos habituais informadores (nativos) as mais interessantes informações sobre os resultados destes bombardeamentos.
____

(1) Quando mais tarde (trocando com a CCAÇ 3), viemos de Guidage para Barro (onde cumprimos a parte final da nossa missão), aqui erigimos um memorial a este nosso companheiro, morto em Bigene, logo no início da nossa missão.

Hei-de perguntar ao coronel A. Marques Lopes se em 1998, quando voltou a visitar Barro, ainda viu por lá esse memorial (em betão), mesmo em frente ao então depósito de géneros. Penso que não. Pelo menos não o vislumbro naquela fotografia que, gentilmente, me enviou o ano-passado - a Este do edífício do comando, secretaria e centro cripto, logo a seguir àquela enorme mangueira, à face do caminho Barro-Bigene.

(2) Morés: Grande base de comando do PAIGC, para a zona Centro-Norte.

Guiné 63/74 - P91: Antologia (6): A batalha de Guileje e Gadamael (Afonso Sousa)

Texto de Afonso M. F. Sousa , ex-furriel miliciano de transmissões da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70)

A minha companhia fazia parte integrante do COP 3 (com sede em Bigene, onde fizemos o treino operacional entre 31/8/68 e 14/10/68; depois foi a partida para Binta e Guidage).

Entrámos em Guidage em 17/10/1968, a substituir a CART 1648. Mais tarde referirei os dados cronológicos respeitantes à minha CART 2412, que inclui também a sua permanência (até ao termo de missão) em Barro (que o sr. Coronel A. Marques Lopes bem conhece e aonde voltou em 1998).

Porque aqui se fala de COP 3, Guidage e Barro, achei interessante esta crónica, que vocês já conhecem, dos "relatórios secretos sobre a Guiné colonial".

Guidage tinha uma importância extrema tanto para nós como para o IN. Já tínhamos consciência disso quando lá entrámos. E aí está o que se veio a passar em 1973... com a ofensiva do PAIGC contra Guidage (no Norte)e Guileje e Gadamael (no Sul)... Os três G que, na opinião do historiador guineense, Leopoldo Amada, terão decidido "o final do império colonial"...

Publica-se a seguir um texto, do jornalista Serafim Lobato, em que se divulgam pela primeira vez os relatórios secretos sobre a batalha de Guileje e Gadamael, uma peça importante para a compreensão da história da guerra colonial e do seu fim. O texto esteve originalmente disponível no sítio do Publico.pt. Está também publicado no blogue História e Ciência > Relatórios secretos sobre a Guiné colonial. Algumas das noats, em parêntesis rectos, são da nossa responsabilidade (A.S., Afonso Sousa).
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"Estamos Cercados por Todos Os Lados"
Por SERAFIM LOBATO
Público. Domingo, 28 de Dezembro de 2003

As Forças Armadas portuguesas começaram, há 30 anos, a sofrer os primeiros efeitos visíveis de desagregação na Guiné-Bissau, quando quartéis de fronteira estiveram cercados em combates prolongados e alguns foram abandonados (definitiva ou temporariamente) por efeito directo de assédios bem sucedidos de unidades guerrilheiras do PAIGC. Pela primeira vez são divulgados relatórios que permitem reconstruir a batalha de Guileje e Gadamael, que antecedeu a saída de Spínola da Guiné e o reconhecimento deste país pela ONU.

No mês de Maio de 1973, a guerrilha guineense efectuou 220 acções militares em todo o território operacional da Guiné-Bissau e concentrou os seus esforços militares em quartéis de fronteira, visando, em primeiro lugar, a desmoralização dos soldados e, em paralelo ou posteriormente, a conquista territorial.

A 8 de Maio, o PAIGC lançou uma ofensiva concentrada de envergadura contra Guidage, unidade situada mesmo junto à linha de fronteira com o Senegal, fazendo parte de uma quadrícula militar de vários agrupamentos a norte do rio Cacheu que ia, a oeste, até Barro, sob um comando operacional único (COP 3) com sede em Bijene. Comportava unidades do Exército e da Marinha, estas estabelecidas na base fluvial de Ganturé [comandada por Alpoim Galvão; junto ao Rio Cacheu e em cujo ancoradouro se sai para ir para Bigene que fica a 2,8 Km para Norte. Nota de A.S.]

Na defesa de Guidage, o comando chefe da Guiné teve de enviar para a zona um conjunto elevado de grupos e destacamentos de tropas especiais, comandos, pára-quedistas e fuzileiros, bem como unidades de artilharia e mesmo de cavalaria. A guarnição local, quando começou o cerco, era constituída por uma companhia de Caçadores e por um pelotão de artilharia, equipado com obuses de 10,5 mm - logo, cerca de 200 homens.

Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou de 8 de Maio a 8 de Junho de 1973, estiveram envolvidos mais de mil homens (na maioria tropas especiais) das Forças Armadas portuguesas, em terra, mar e ar, conforme assinalam os coronéis Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, no seu livro Guerra Colonial.

As forças portuguesas tiveram 39 mortos e 122 feridos. Pelo menos seis viaturas militares de vários tipos foram destruídas e foram abatidos três aviões (um T6 e dois DO27). Só a unidade de Guidage contabilizou sete mortos e 30 feridos, todos militares. Nos cerca de 20 dias que ficou cercada, Guidage esteve sujeita a 43 ataques com foguetões de 122 m/m, artilharia e morteiros.

Todos os edifícios do quartel foram danificados. A unidade, que, no conjunto, teve mais mortos foi o Batalhão de Comandos: dez. Sofreu ainda 22 feridos, quase todos graves, e três desaparecidos.


Restrições ao apoio aéreo

A 18 de Maio, a sul, junto à raia com a Guiné-Conacri, verificou-se que havia uma concentração de forças guerrilheiras em redor de Guileje que apontava para uma tentativa de tomada do quartel.

Refere um relatório do comando chefe das Forças Armadas da Guiné (Repartição de Operações), assinada pelo seu chefe, tenente-coronel Pinto de Almeida, agora tornado público, que sintetiza a actividade do COP 5 (área militar que enquadrava Guileje) entre 18 de Maio e 21 Maio de 1973, que, no primeiro dia, "durante a execução duma coluna de reabastecimento, as NT [nossas tropas] foram fortemente emboscadas por duas vezes, a cerca de dois km de Guileje, tendo sofrido um morto (comandante do pelotão de milícias de Guileje), sete feridos graves (cinco milícias do Pel Mil Guileje) e quatro feridos ligeiros (um miliciano do Pel Mil Guileje). Por falta de evacuação aérea, um dos feridos graves (soldado metropolitano) faleceu quatro horas depois da emboscada".

A falta de movimentação aérea não resultava de qualquer contratempo momentâneo. Eis a confissão do próprio comando chefe: "A partir de 06Abr73, o apoio aéreo no TO [território operacional] da Guiné sofreu grandes limitações impostas pelo aparecimento de foguetes antiaéreos eficazes, utilizados pelo inimigo, pelo que, no que se refere ao COP 5, foi determinado, em 27Abr73, o cancelamento de evacuações a partir de Guileje e Gadamael. O apoio de fogos aéreos às forças terrestres sofreu também, a partir da mesma altura, fortes restrições". (Os mísseis terra-ar Strella foram utilizados, pela primeira vez, a 5 de Abril, tendo sido atingido um avião Fiat G 91, pilotado pelo tenente Pessoa).

O comandante do COP 5, major Coutinho e Lima, enviou mensagens a alertar para a gravidade da situação. Informou que "a não satisfação do pedido de apoio de fogos, (...) bem como a não execução das evacuações" tinha causado "mal-estar no pessoal".

Às 20h desse dia 18, o PAIGC "iniciou as flagelações a Guileje". Horas depois, às 02h20, o COP 5 solicita apoio urgente, pois estava debaixo de fogo contínuo. "Foi-lhe respondido em 19 00h30 - assinala o relatório do comando chefe - que a força aérea se encontrava totalmente empenhada noutra área do TO e que seria efectuado o apoio aéreo logo que possível."


Cercados

O major Coutinho e Lima pede para expor directamente o assunto ao general Spínola. Reticente, este aceita recebê-lo em Bissau ao fim da tarde do dia 20. "Não foi satisfeito o seu pedido de [apoio] de uma companhia, tendo-lhe sido determinado que regressasse ao COP 5, onde seria substituído no comando", acrescenta o relatório.

Coutinho Lima envia uma mensagem às companhias de Cacine, Gadamael e Guileje,
"preparando a sua ida de Cacine para Guileje".

"Em 21 07h40, a Companhia de Cavalaria 8350 [Guileje] respondeu [ser] impossível cumprir o determinado no que se referia à sua colaboração no transporte do major Coutinho Lima de Cacine para Guileje. Foi-lhe dito em 21 10h26 que o comandante da companhia seria responsabilizado pelo não cumprimento dessa ordem", pode ler-se no relatório do comando chefe.

Igualmente a Companhia de Gadamael se opõe a destacar homens para levar o comandante de COP5 para Guileje.

Às 14h15 do dia 21, é recebida, em Gadamael, a última mensagem de Guileje: "Estamos cercados de todos os lados." Seguiu-se o silenciamento das comunicações de e com o quartel. Às 05h30 do dia 22, Guileje foi evacuada.

Uma mensagem, enviada dois dias depois de Gadamael, informava que de Guileje não foi "recolhida qualquer viatura", e especificou: um camião Mercedes, quatro Berliet, três Unimog 404, 1 Unimog 411, 1 jipe, um veículo de cavalaria Fox, dois White, que teriam sido "destruídos parcialmente". Ficaram ainda no terreno, segundo a mensagem, três morteiros 81, um morteiro 10,7 cm, bem como duas bazucas de 8,9, dois morteiros de 60, três metralhadoras Breda e sete G3, que foram danificadas ou destruídas, mas sete pistolas-metralhadoras FBP ficaram para trás "não destruídas" e pelo menos quatro G3 desaparecidas.

Uma mensagem-relâmpago do comando chefe dirigida à Companhia 4734, com data do dia 22, ressaltava o seguinte: "Solicito que informe comandante CAOP 3, coronel Ferreira Durão, que sua excelência o general comandante-chefe determinou que seja retirado imediatamente do comando do COP5 o major de artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima e mandado apresentar QG/CCFAG para efeito de auto de corpo de delito."

Entre 18 e 22 de Maio, Guileje foi bombardeada 36 vezes. Uma mensagem de 21 de Maio descreve que o interior do aquartelamento tinha sido atingido durante uma flagelação com 200 impactos de granadas, que causaram "grandes danos materiais". Indica, nomeadamente, que foram destruídos todas as antenas de transmissões, dois depósitos de géneros, o forno da cozinha, tabancas, celeiros, arroz da população, havendo abrigos atingidos e danificados, bem como a secretaria, depósitos de artigos da cantina. Impactos houve que acertaram mesmo em valas-abrigos.


"Pessoal fugiu para o mato"

Após a retirada das tropas portuguesas de Guileje para Gadamael, este quartel ficou com um dispositivo de duas companhias (Caçadores 4743 e Cavalaria 8350) e ainda dois grupos da Companhia de Caçadores 3520, um pelotão de canhões sem recuo com cinco peças, um pelotão de reconhecimento, com apenas um veículo com autometralhadora White, mais um pelotão de artilharia com cinco obuses de 14 e um pelotão de milícias. Um outro pelotão de milícias estava reduzido a uma secção.

Depois do afastamento do major Coutinho e Lima, assumiu o comando do COP 5 o capitão Ferreira da Silva.

Gadamael, entre o meio-dia de 31 de Maio e o fim da tarde de 2 de Junho, esteve debaixo de fogo de armas pesadas e ligeiras continuadamente, tendo sido referenciados disparos de morteiros de 120 m/m, canhões sem recuo e lança-granadas foguete, com um número de rebentamentos estimado "em cerca de 700", conforme mensagens enviados pelo COP 5 para o quartel-general em Bissau. Os soldados tiveram cinco mortos e 14 feridos e os prejuízos materiais foram avultados.

No dia 1 de Junho, a Companhia de Caçadores 3520, de Cacine, transmitiu a seguinte mensagem: "Informo Gadamael Porto destruído. Feridos e mortos confirmados. Pessoal daquele fugiu para o mato. Solicito providências e instruções concretas acerca procedimento desta."

De imediato, Bissau determinou que tropas pára-quedistas, que se encontravam em Cufar, seguissem para Gadamael.

Ao final do dia 1 de Junho, uma mensagem vinda de Gadamael referia que, apesar da debandada, um grupo de tropas ainda se mantinha no quartel, mas que "centro cripto tinha sido destruído". A mensagem especificava ainda que "aquartelamento estava parcialmente destruído", com transmissões "deficientes" e que a "rede de arame [farpado] fora destruída parcialmente" e terminava com um apelo lancinante:
"situação gravíssima".

A 2 de Junho, Bissau mandava mais uma companhia de pára-quedistas de reforço, juntamente com um pelotão de artilharia com obuses de 14 cm. O comando do COP 5 passou para o major pára-quedista Pessoa.

Entretanto, nesse dia, a companhia de Cacine mudava de comando, que era atribuído ao capitão Manuel Monge, e a lancha de fiscalização grande (LFG) Orion informava que meios navais recolhiam "militares e elementos da população refugiados no tarrafo, na região da confluência do rio Cacine com o rio Cachina, num total de 300 indivíduos (alguns feridos ligeiros)".


"Pessoal fortemente traumatizado"

Nos dias 3 e 4 de Junho, Gadamael esteve sujeita a flagelações continuadas (mais de 200 rebentamentos) do PAIGC, com morteiros de 120 e canhões sem recuo. As mensagens consultadas assinalam, pelos menos, a existência de seis mortos e oito feridos nesses dias e a perda de três espingardas G3 e um rádio AVP 1.

O capitão Manuel Monge, no dia 4, pede ao quartel-general a "presença imediata" em Cacine de "entidade desse, fim estudar situação Gadamael Porto".

O general Spínola responde-lhe que "o estudo da situação já tinha sido apresentado pelo coronel Durão e que eram impossíveis os contactos pessoais diários". Duas horas depois, uma nova mensagem de Monge ressalta que "situação Gadamael Porto agrava-se aceleradamente" e pede: "Contacto, fim capitão Monge expor a situação e parecer comandante de COP."

O capitão Manuel Monge seguiu para Bissau no dia seguinte, mas ao final do dia 4 uma mensagem do comandante do COP 5 enfatizava: "Situação em Gadamael Porto é insustentável." E solicitava autorização "para se efectuar retirada ordenada" nos meios navais existentes neste. "Ou então - frisava - a minha imediata substituição no comando do COP 5." No final, uma confissão: "Nem tenho conseguido encontrar soluções que me permitam prosseguir."

À meia-noite desse dia, o quartel-general respondia: "Enquanto não for substituído, continua cumprimento da sua missão de defesa a todo o custo, incutindo moral aos seus soldados."

Além de todo o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas no terreno, estavam no local várias unidades da Marinha de Guerra e um grupo de assalto de fuzileiros africanos. O comando do Task Group 6 referia, em mensagem, no dia 5, que quatro botes do Destacamento de Fuzileiros Especiais 22, embarcações do Exército e meios das unidades navais tinham efectuado as evacuações de mortos e feridos e ainda de um "número incontrolável" de fugitivos (civis e militares) encontrados à entrada do rio para Gadamael.

"Pessoal encontrado fortemente traumatizado psicologicamente devido situação alarmante Gadamael", terminava a mensagem.

Nesse dia, o comandante do COP 4, tenente-coronel Araújo e Sá, assumiu o comando do COP 5, ficando o major Pessoa como adjunto.

As unidades militares portuguesas sofreram, neste assédio a Gadamael, 24 mortos e 147 feridos.


Spínola deixa Bissau

O general António de Spínola, que assumira, em 1968, os cargos de governador e comandante-chefe das Forças Armadas portuguesas na Guiné-Bissau, com o objectivo de evitar que o "processo subversivo" guineense se alastrasse e contaminasse, numa "atitude irreversível", as situações em Angola e Moçambique, abandonou aquelas funções em 8 de Agosto de 1973, com a Guiné-Bissau, reconhecida pela ONU em Novembro. Foi substituído a 25 de Agosto pelo general Bettencourt Rodrigues.

No TO da Guiné, o efectivo castrense português atingia os 42 mil homens e o PAIGC enquadrava, segundo os serviços de informação militar, sete mil guerrilheiros.

A 21 de Agosto, um grupo de oficiais reuniu-se em Bissau para aprovar uma exposição contestando um decreto-lei publicado a 13, relativo à carreira de oficiais do Exército.

Cerca de três semanas depois, a 9 de Setembro, começou, em Évora, com uma reunião o Movimento dos Capitães, e o PAIGC, a 21 desse mês, proclamava unilateralmente a independência em Madina de Boé, região abandonada pelas Forças Armadas portuguesas desde Fevereiro de 1969.

O Movimento de Capitães reúne-se em Lisboa a 6 de Outubro e ali se coloca, pela primeira vez, a hipótese de usar a força para derrubar o regime de Marcelo Caetano.

Este está em crise no mês de Novembro e realiza uma remodelação ministerial - substitui o general Sá Viana Rebelo pelo académico Silva Cunha no Ministério da Defesa Nacional, assumindo Baltazar Rebelo de Sousa o departamento governamental do Ultramar - procurando esfriar a agitação entre a baixa oficialagem.

Mas a crise castrense está incontrolável: a 5 de Dezembro realiza-se, na Costa da Caparica, a primeira reunião da Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães, eleita em Óbidos, onde é escolhida a sua direcção executiva: Vasco Lourenço, Otelo Saraiva de Carvalho e Vítor Alves. O golpe de Estado que veio a culminar em 25 de Abril de 1974 estava em marcha.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

Guiné 63/74 - P90: Quem não tinha um pouco de poeta e de louco? A. Marques Lopes)

Texto de Marques Lopes (ex-Alferes miliciano da CART 1690, Geba, 1967; e da CCAÇ 3, Barro, 1968). Enviado, em 30 de Junho de 2005, na véspera da sua partida para banhos, para a Nazaré:

Caros amigos, amanhã vou partir: de 1 a 15 de Julho vou estar pela Nazaré. Se algum de vós por lá passar ligue para o meu telemóvel (938013725). Ou, então, vá até à minha morança, sita na Rua 25 de Abril (sempre!!), n.º 18, no Sítio da Nazaré. Terei imenso gosto em comer umas ameijoas convosco no Manel ao pé do elevador... ou outros bons manjares que por lá há..

(...) Mas, antes de me ir embora, não vos quero deixar sem mais uma recordação minha da Guiné.

Já em Março de 1968, não me recordo em que dia, estava eu à espera de embarque para o regresso, conheci lá um camarada, o alferes Almeida Santos (não, não é o Presidente do PS!), que estivera numa companhia do sul, também não me recordo qual nem o sítio dela.

Andávamos em Bissau dentro da normalidade, isto é, bebendo muita cerveja e whisky e comendo muito camarão. Nesse tal dia, o Almeida Santos desafiou-me para fazermos uma viagem para fora de Bissau. Ele requisitou um jipe ao QG [Quartel-General], metemo-nos os dois nele e fomos até Nhacra, onde bebemos mais uma cervejas e comemos mais uns camarões numa baiúca que lá havia.

Depois de bem bebidos, decidimos que queríamos andar mais e continuámos pela estrada fora até... Mansoa. Aí, assistimos a um jogo de futebol dos elementos da companhia que lá estava, e comemorámos com mais cerveja no final do jogo.

Depois disso, o sol já estava a desaparecer e lá decidimos que era melhor voltar a Bissau. Estava lá um fuzileiro, não sei porquê (nem deu para essas perguntas, é claro...), que nos pediu boleia. Muito bem, lá fomos os três até Bissau.

O Almeida Santos ia a conduzir, eu ia ao lado dele em pé... a cantar (que besana!), o fuzileiro ia no banco de trás. Tudo na maior até perto da base aérea [em Bissalanca, nos arredores de Bissau]. Mas aí, o Almeida Santos, que estava pior que eu, saíu a toda a velocidade para fora da estrada (à volta estava tudo capinado e as árvores serradas) e foi chocar contra um tronco de árvore. Eu, que ia em pé, fui projectado e aterrei bastante mais à frente do local do embate. Quando dei por mim, tinha-me passado a bebedeira, olhei para o lado e vi o jipe a arder, com clarões que iluminavam a escuridão já existente, apalpei-me e não tinha nada partido.

Fui ao pé do jipe e ouvi o fuzileiro a gemer, o Almeida Santos estava desmaiado e não dizia nada. Peguei-lhe na cabeça e fiquei com as mãos cheias de sangue, ouvi-lhe o coração e vi que não estava morto. Fiquei à rasca, como calculam. Ali fiquei uns minutos a pensar o que fazer. Às tantas, vejo uma luzes avançarem do lado da base: era um grupo em viaturas que vira as chamas e queria ver o que se passava. E foram eles que nos levaram para o hospital.

Resultado: o fuzileiro tinha costelas partidas porque batera no banco da frente; o Almeida Santos tinha um lanho na cabeça porque batera com ela não sei aonde, e ficara sem um bocado da barriga da perna esquerda, também não sei porquê. E eu fui mandado embora, porque não tinha nada, a não ser a cara e a roupa tisnadas de preto.

Fui até ao QG, onde estava de Oficial de Dia o alferes Moreira, da CART 1690, que também esperava embarque de regresso. Ficou de boca aberta. No dia seguinte fui responder a um major que ficou encarregue do auto de averiguações. O Almeida Santos era o arguido, porque requisitara o jipe, porque ia a conduzir e porque... era mais antigo do que eu. Eu era testemunha! Claro que eu disse que íamos devagar, que tinha havido uma avaria no volante...
- Está bem, está bem, disse o major a sorrir.- Mas o Almeida Campos levou dez dias de prisão e teve de pagar o jipe, cerca de 300 contos, na altura. Poucos dias depois, antes de embarcar, fui vê-lo ao hospital e lá estava ela de perna engessada e cabeça ligada, todo sorridente a sorver uma cerveja.

Eu nunca fui santo, mas de louco sempre tive um pouco. E creio que mais fiquei depois de tudo o que vi e passei naquela terra da Guiné.

...E com esta me despeço.

Um abraço.
Marques Lopes

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Guiné 63/74 - P89: Recordando Geba, Banjara, Camamudo, Cantacunda, Bafatá (CCAÇ 1426) (Marques Lopes)

1. Mensagem enviada ontem ao Marques Lopes (ex-Alf. Mil. da CART 1690, Geba, 1967):

Ex-Furriel Miliciano Chapouto da CCAÇ 1426 [1965/67], com sede em Geba,com passagem por Banjara, Camamudo e Cantacunda, quero felicitá-lo pela sua coragem demonstrada depois de ser ferido.

Quero agradecer-lhe por me proporcionar a possibilidade de reviver o passado, ao ler os seus escritos sobre os locais que eu tão bem conhecia e especialmente Banjara onde o sofrimento era grande, não só pelo isolamento como pela fome que se passava.

Um grande abraço. Fernando Chapouto.

2. Resposta do Marques Lopes

Caro camarada ex-combatente:

Grande satisfação a minha! Há dias contactou-me o Belmiro Vaqueiro, também da CCAÇ 1426, que deve conhecer, é claro.

É bom saber que estamos vivos, apesar de passarmos as dificuldades que todos sabemos ter havido naquelas terras de Geba e naqueles anos da nossa juventude, que devíamos ter passado de forma mais agradável.

Certamente viu o que escrevi no blogue-fora-nada, que está constituído numa tertúlia de ex-combatentes da Guiné , dinamizada pelo amigo Luís Graça, também ex-combatente.

Creio que todos estes amigos gostarão que se junte a este nosso grupo para lembrarmos os tempos passados e trocarmos experiências e opiniões sobre esse tempo passado.

Bem vindo, caro ex-conterrâneo de Geba, Banjara e Cantacunda.

Um abraço. Marques Lopes


3. O Fernando Chapouto, como é conhecido (e não Fernando Silvério) prometeu-nos enviar fotografias para o nosso álbum da Guiné: "Quando o meu filho vier cá ajuda-me a enviar fotografias, que tenho muitas. Eu dessas coisas não percebo, ele é que é engenheiro de informática e computadores". Refere ainda, na sua mensagem que enviou hoje, que "é com tristesa e mágoa que vejo várias vezes as fotografias de Bafatá, mete dó e pena". Apraz-nos também registar que é um "combatente com cruz de guerra".Ficamos a aguardar as suas fotos digitalizadas.

4. O Marques Lopes vai estar de férias de
1 a 15 de Julho. Pede aos amigos da tertúlia para falarem com o Fernando Cachoupo! "Ele, como todos nós, precisa disso".

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Guiné 63/74 - P88: O baptismo de fogo da CCAÇ 12, em farda n.º 3, em Madina Xaquili (Julho de 1969) (Luís Graça)

Extractos de: História da CCAÇ 12: Guiné 69/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores nº 12. 1971. Cap. II. 6-8.

Nota de L.G.:

Como já tive ocasião de o dizer aqui, a história da CCAÇ 12 foi escrita por mim, embora com a cumplicidade e a colaboração de vários camaradas, milicianos, incluindo um sargento do quadro. Já não está no activo, posso dizer o seu nome: o Sargento Piça, o Grande Piça, para os amigos!Oficialmente, o documento não tem autor nem sequer a sua versão final chegou a ser autorizada pelo comandante da companhia, o afável Capitão Brito, hoje coronel na reforma (e muito menos pelo comando do batalhão de quem estávamos hierarquicamente dependentes, o BART 2917, a partir de Junho de 1970 até Fevereiro de 1971).

Um versão, escrita e impressa à luz do dia, a stencil, na secretaria da companhia, foi discretamente distribuída aos alferes e furriéis milicianos (mesmo assim, não sei se a todos...), na véspera da partida (Os quadros metropolitanos da CCAÇ 12 eram de rendição individual). Gostaria que este documento tivesse podido chegar às mãos de todos os meus camaradas, incluindo os nossos soldados e cabos metropolitanos. E até aos africanos, embora muito poucos (dois ou três) soubessem ler e escrever. Infelizmente, não chegou.

A sua divulgação, nestas páginas, pretende atingir um público mais vasto, incluindo os amigos e os camaradas que fazem parte da tertúlia de ex-combatentes da Guiné (uma tertúlia que vai crescendo lentamente). Quero começar por dizer que a nossa actuação na Guiné não teve nada de heróico. E a leitura da história da CCAÇ 12 vem confirmar, à distância de trinta e tal anos, essa primeira impressão de quem, como eu, tendo sido actor, não pode ser advogado em causa própria. Procurei, mesmo assim, ser o mais possível objectivo, ou pelo menos factual, e distanciar-me dos acontecimentos que, muitos dos quais, eu próprio vivi como combatente sui generis (não levava granadas à cintura, andava com a G3 em posição de segurança...).

Cumprimos a nossa missão, com sangue, suor e lágrimas (um dos slogans preferidos dos nossos camaradas que fizeram tattuagens no corpo). Recordo-me de algumas tatuagens: Guine 69/71: Amor de mãe ou Guiné 69/71: Sangue, suor e lágrimas (Seria interessante estar esta forma de comunicação...).

Partimos tal como chegámos: discretamente. Na Guiné fomos amigos e solidários uns dos outros. Honrámos a Pátria, mesmo discordando (alguns, como eu) daquela guerra. Batemo-nos com dignidade e até coragem. Fomos uma das primeiras unidades da nova força africana, criada por Spínola. Deixámos lá a nossa juventude... Em contrapartida, nunca mais soube nada dos meus, dos nossos, soldados africanos. Portugal abandonou-os à sua sorte em 1974. Nós abandonámo-los à sua sorte. E isso dói-me...

A partir de 18 de Julho de 1969, finda a instrução de especialidade, a CCAÇ 12 foi dada como operacional, sendo colocada em Bambadinca (Sector L1), como unidade de intervenção, ficando pronta a actuar às ordens de qualquer um dos sectores da Zona Leste da Guiné (em especial dos Sectores L1, L3 e L5). Durante a sua primeira comissão (1969/71), actou sobretudo no Sector L1 (Bambadinca, correspondente ao triângulo Bambadinca-Xime-Xitole, mas incluindo também, a norte do Rio Geba, o regulado Cuor onde começava o famoso corredor do Morès...).

Pelas informações posteriores que recolhi (graças ao Sousa de Castro, da CART 3494 / BART 3873, 1972/74), em Abril de 1973 a CCAÇ 12 passou a unidade de quadrícula, aquartelada no Xime, e por lá terá ficado até ao fim da guerra. Tal significou que os nossos soldados africanos, ou uma boa parte deles (exceptuando os mortos, os feridos graves, os inoperacionais...), fizeram três anos e nove meses como força de intervanção (andaram no mato com a canhota...) e mais um ano e tal, aquartelados no Xime (de Abril de 1973 até provavelmente a Setembro de 1974). No mínimo, cinco anos de tropa, ao serviço dos tugas. A esse tempo deveria acrescentar-se os meses e os anos em que foram milícias nas suas pobres tabancas do Cossé e de outros regulados, organizadas em autodefesa...

Em Julho de 1969 (e até Junho de 1970), o dispositivo das NT no Sector L1 era o seguinte:

(i) Comando e Companhia de Comando e Serviços do BCAÇ 2852 (Bamdabinca, 1968/70);
(ii) Forças de intervenção (Bambadinca): CCAÇ 12 (1969/71); Pelotão de Caçadores Nativos 53;
(iii) Subunidades em quadrícula do BCAÇ 2852: CCAÇ 2520 (Xime), 2339 (Mansambo) e 2413 (Xitole)

Havia ainda a considerar o Pelotão de Cavalaria Daimler (Bambadinca), o PEL CAÇ NAT 52 (Missirá) e 53 (Fá Mandinga), além das forças militarizadas (pelotões de milícias aquarteladas em Taibatá, Dembataco e Finete). Se excluirmos a população fula armada (nas tabancas em autodefesa), no Sector L1 (mais ou menos equivalente à Região do Xitole, para o PAIGC), as NT poderiam ser estimadas em cerca de 1250 homens, o que nos dava uma vantagem , em relação ao IN, de talvez cinco ou seis para um. De resto, estimava-se que, no final da guerra, o PAIGG em todas as frentes não tivesse mais do que 10 mil homens em armas, quatro vezes menos do que as NT.

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(l) Julho/69: Baptismo de fogo em Madina Xaquili

Ainda não haviam sido distribuídos os camuflados às praças africanas quando a CCAÇ 12 fez a sua primeira saída para o mato. A 21, três Gr Comb (2º, 3º e 4º) seguiam em farda nº 3 para Madina Xaquili a fim de reforçar temporariamente o sub- sector de Galomaro,[a sul de Bafatá].

Entretanto, o 1º Gr Comb efectuaria à tarde uma patrulha de segurança ao Mato Cão, [no chamado Rio Geba Estreito], tendo detectado vestígios muito recentes do IN que fizera uma tentativa de sabotagam da ponte sobre o Rio Gambana, provavelmente na altura do último ataque a Missirá (a 15).

Este afluente do Rio Geba está referenciado como um ponto de cambança [travessia] do IN. Depois de se ter mostrado particularmente activo, durante o mês anterior na zona oeste do Sector L1 (triângulo Xime-Bambadinca-Xitole), o IN procurava agora abrir uma nova frente a leste, utilizando as linhas de infiltração do Boé [Madina do Boé tinha sido abandonada pelas NT em 8 de Fevereiro último e logo ocupada pelo IN] e visando especialmente as tabancas de Cossé, Cabomba e Binafa.

Dias antes IN tinha atacado três tabancas do regulado de Cossé [donde era oriunda a maior parte das nossas praças africanas]e reagido a uma emboscada das NT.


Sori Jau, a primeira vítima em combate

Seria, aliás, em Madina Xaquili que a CCAÇ 12 teria o seu baptismo de fogo. Os três Gr Comb haviam regressado, em 24, à tarde, dum patrulhamento ofensivo na região de Padada, tendo ficado dois dias emboscados no mato (Op Elmo Torneado), quando Madina Xaquili foi atacada ao anoitecer por um grupo IN que muito provavelmente veio no seu encalce.

0 ataque deu-se no momento em que dois Gr Comb da CCAÇ 2446 que vinha render a CCAÇ 12, saíram da tabanca a fim de se emboscarem. [Esta companhia madeirense teve dois mortos e vários feridos].

0 IN utilizou mort 60, lança-rockets e armas ligeiras, tendo danificado uma viatura e causado vári¬os feridos às NT. O primeiro ferido da CCAÇ 12 foi o soldado Sori Jau, do 3º GR Comb, evacuado no dia seguinte para o HM [Hospital Militar] 241 [Bissau].

A 25, os três Gr Comb regressam a Bambadinca com a sua primeira experiência de combate. Nesse mesmo dia, o 1º Gr Comb participava numa operação, a nível de Batalhão no sub-sector do Xime. Foram detectados vestígios recentes do IN na área do Poindon mas não houve contacto (Op Hipopótamo).

No dia seguinte à tarde, depois das NT terem regressado ao Xime, o aquartelamento seria flagelado com canhão s/r e mort 82 durante 10 minutos.

A 26, o 4º Gr Comb segue para Missirá [, a norte do Rio Geba,] a fim de realizar com o PEL CAÇ NAT 52 uma patrulha de nomadização na região de Sancorlã/ Salá até à margem esquerda do RPassa (limite a partir do qual começa a ZI do Com-Chefe), com emboscada entre Salá e Cossarandin onde o IN vinha com frequência reabastecer-se de vacas.

Verificou-se que os trilhos referenciados não eram utilizados durante o tempo das chuvas (Op Gaúcho).

Entretanto, uma secção da CCAÇ 12 passava a ficar permanentemente destacada (…), [falta aqui um bocado de texto, presumo que fosse em Sansacutà ], na sequência de informações de que o IN se instalava de novo no regulado do Corubal, e na previsão duma acção de força contra o eixo de tabancas em auto-defesa a sudeste de Bambadinca.


Novo ataque, de 1 hora, a (e abandono de) Madina Xaquili

Por outro lado, o 1º e o 2a Gr Comb seguiam para o sub-sector de Galomaro a fim de reforçar temporariamente Dulombi e Madina Xaquili.

A 28, por volta das 22.30h , Madina Xaquili sofria um ataque de 1 hora por parte dum grupo IN estimado em 60 elementos, tendo sido gravemente atingidos por estilhaços de mort 82 os soldados do 2º Gr Comb Braima Bá (hoje inoperacional) e Udi Baldé (que foi evacuado para o HMP/Lisboa, passando posteriormente à disponibilidade com 35% de incapacidade física).

Na reacção ao ataque, o apontador de mort 60 Mamadu Úri ficou com as mãos queimadas devido ao intenso ritmo de fogo que executou.

A partir de Agosto, Madina Xaquili passaria à responsabilidade do COP 7 [Bafatá] e, em Outubro, seria retirada pelas NT depois de totalmente abandonada pela população.

A 23, pelas 10h, em Dulombi, um grupo IN reagiu com armas automáticas a uma patrulha do 1º Gr Comb que havia saído em virtude do accionamento duma mina antipessoal por parte dum elemento pop [abreviatura de população], a escassa distância do arame farpado, tendo simultaneamente flagelado o destacamento durante 10 minutos.

Ataque de duas horas a Candamã

E finalmente a 30, o 3º e 4º Gr Comb seguiram para Candamã a fim de levar a efeito um patrulhamento ofensivo na região de Camará, juntamente com forças da CART 2339 [Mansambo](Op Guita).

Ao chegar-se a Afiá, pelas 7.30, soube-se que Candamã tinha sido atacada durante mais de duas horas até ao amanhecer.

Em Candamã, os dois Gr Comb da CCAÇ 12 procederam imediatamente ao reconhecimento das posições de fogo do IN, tendo estimado os seus efectivos em 60/100 elementos [1 bigrupo reforçado], armado de canhão s/r, mort 82, LGFog, metralhadora pesada 12.7, armas ligeiras automáticas.

Havia abrigos individuais junto ao arame farpado que fora cortado em vários pontos, tendo o grupo de assalto utilizado granadas de mão.

Em consequência da reacção das NT e da população organizada em autodefesa, o IN sofrera várias baixas, a avaliar por duas poças de sangue e sinais de arrastamento de dois corpos, além de dólmen ensanguentado que foi encontrado já num dos trilhos de retirada. Foram recolhidas várias granadas de canhão s/r e RPG-2.

Do lado das NT houve 5 feridos (1 dos quais grave) e da população dois mortos e vários feridos graves, além de danos materiais (moranças destruídas, etc.].

O facto do IN ter retirado ao amanhecer indicava que deveria ter um ou mais acampamentos a escassas horas de Candamã. A corroborar esta hipótese, o aquartelamento de Mansambo seria flagelado na tarde desse mesmo dia.

A Op Guita não forneceu, porém, qualquer pista que levasse a detecção do IN na região de Camará.

terça-feira, 28 de junho de 2005

Guiné 63/74 - P87: A caminho da Guiné, no "Ana Mafalda" (1967) (Marques Lopes)

Texto do Marques Lopes (ex-alferes miliciano da CART 1690, Geba, 1967):

Falam muito no Niassa e no Uíge, por razões óbvias. Mas já ouviram falar no Ana Mafalda? Se calhar, não.
 

Pois o Ana Mafalda é (ou era, porque já foi abatido) este barquito que aqui vos mostro:

Tinha 103 metros de comprimento e 14 metros de largura, em linguagem de pescador de canoa em água doce, e tinha uma velocidade máxima de 13,5 nós, isto é, em linguagem de velho motorista de fim-de-semana, dava no máximo 25km por hora.

Tinha 16 alojamentos em primeira classe, 24 em segunda e 12 em terceira. Tinha 47 tripulantes (estou muito agradecido a um deles, um que me vendeu a máquina fotográfica com a qual tirei as fotografias que vocês conhecem). Alguns dos modernos "cacilheiros" que atravessam o rio Tejo não serão tão "grandes", mas aproximam-se.

Pois é verdade, meus amigos, foi neste transatlântico que a CART 1690 [Geba, 1967/69] largou do cais de Alcântara até à Guiné. Era a única unidade que lá ia, porque não cabia mesmo mais ninguém, penso eu.

Como alguns meses antes de embarcarmos nos tinham dito que íamos para Timor, ficámos satisfeitos por decidirem mandar-nos para a Guiné, pois pensámos que seria terrível ir num barco daqueles até à Oceânia...

Os alferes, sargentos e furriéis foram distribuídos pelos beliches dos "camarotes" de segunda e terceira classe. Em primeira classe ficou o capitão da companhia, o comandante do navio, o imediato, o oficial das máquinas, certamente, e uns mangas que se penduraram em nós à boleia, que eu não sei quem eram nem procurei saber.

O Zé Soldado, sempre o mais fodido nestas situações, foi para o porão onde estavam montados uns beliches de ferro com umas enxergas em cima, e onde casa de banho não havia.

Largámos às 12h00 do dia 8 de Abril de 1967. Foi uma bela viagem, como devem calcular, com os baldes dos dejectos do porão a serem despejados borda fora de manhã e ao fim da tarde (ao menos haja regras). Mas os "despejos" começaram logo à saída da barra do Tejo. Eu, pessoalmente, nunca tinha chamado tantas vezes pelo Gregório.

Mas deixem-me contar o que aconteceu antes do embarque. No dia 3 de Abril houve a cerimónia de despedida, assim lhe chamaram, no RAC (Regimento de Artilharia de Costa) de Oeiras, que era onde estávamos à espera de embarque. Houve missa na parada celebrada pelo padre Nazário, perdão, o senhor Major-Capelão Nazário, que, ainda por cima tinha sido meu "superior" quando eu fiz a instrução primária nas Oficinas de S. José, em Lisboa!

Não fui à missa nem ouvi o sermão que ele fez, e que me disseram que foi uma bela dissertação sobre o amor à pátria e a defesa do património nacional. Mas tive que o gramar mais tarde, porque ele, um dia, apareceu em Geba para ver como estava a guerra.
- Nós por cá todos bem, é claro, disse-lhe eu.

O homem é (ou era, não sei se já morreu) este:

© A. Marques Lopes (2005)

Depois, no dia 8 de Abril, então, seguimos de comboio especial para a gare marítima. Fizemos um belíssimo e aprumadíssimo desfile, com a nossa mascote Morena à frente (vai a fotografia com ela a falar com um macaco; coitada, não vem na lista, mas estava em Sare Banda, aquando do ataque, e foi morta durante ele; morreu em combate também; era uma cadela muito porreira) perante um representante de Sua Ex.ª o Ministro do Exército.

As senhoras do Movimento Nacional Feminino deram muitos santinhos, calendários e bolachas a todos. O representante de Sua Ex.ª o Ministro do Exército ainda fez uma prelecção aos sargentos e oficiais dentro do navio. Aos soldados não deu trela. E lá embarcámos com as lágrimas dos familiares presentes.

Às 16h00 do dia 15 de Abril de 1967 o Ana Mafalda chegou ao porto de Bissau. A 16 de Abril a companhia passou directamente do navio para LDGs e seguiu pelo Geba acima até Bambadinca.

Foi engraçado e giro, como devem calcular, para o pessoal que ia enfiado, ouvir os fuzileiros que nos levaram ir dizendo, em cada curva ou ponto mais apertado do rio:
- Olhem que aqui costuma haver ataques!...

© A. Marques Lopes (2005)

Dormimos em Bambadinca, em tendas, ao pé do rio, porque não havia instalações. Foi o primeiro combate com a mosquitada.

A 17 de Abril seguimos de Bambadinca para Geba em coluna auto. E fomos render a CCAÇ 1426, do Belmiro Vaqueiro [vd. post desta semana, de 26 de Junho de 2005 > Guiné LXXXII: CCAÇ 1426 (Geba, 1965/67), presente!].

A brincar, a brincar, é o começo da nossa estória.

Marques Lopes

Guiné 63/74 - P86: No oásis de paz de Contuboel (Junho de 1969) (Luís Graça)

Excertos do Diário de um tuga (Luís Graça)

Contuboel. 20/6/69

Algures
No lugar mais frio
Da memória


(Carlos de Oliveira: Micropaisagens, 1968).

... Ou no lugar mais desconfortável da terra!

A paisagem barroca dos trópicos não é menos desoladora do que as ilhas caligráficas do poeta: sob a tela luxuriante da natureza, os homens recortam-se, quais sombras chinesas, numa fundo aridamente linear. Eu diria: pateticamente, de pé, no limiar da História.

Aqui a consciência humana tem a dimensão da tribo, do grupo étnico ou até da aldeia. Uma precária serenidade envolve a azáfama quotidiana destes povos ribeirinhos do Geba que, no meu eurocentrismo de viajante, recém-chegado e distraído, descreveria como felizes, gentis e hospitaleiros.

O que eu observo, sob o frondoso e secular poilão da tabanca, é uma típica cena rural: (i) as mulheres que regressam dos trabalhos agrícolas; (ii) as mulheres, sempre elas, que acendem o lume e cozem o arroz; (iii) as crianças, aparentemente saudáveis e divertidas, a chafurdar na água das fontes; (iv) os homens, sempre eles, a tagarelar uns com os outros, sentados no bentém, mascando nozes de cola…

Em suma, um fim de tarde calma numa tabanca fula de Contuboel que daria, em Lisboa, uma boa aguarela, para exposição no Palácio Foz, no Secretariado Nacional de Informação (SNI).

E, no entanto, o seu destino, o destino destes homens, mulheres e crianças fulas, já há muito que está traçado: em breve a guerra, e com ela a morte e a desolação, chegará até estas aldeias de pastores e agricultores, caçadores e pescadores, músicos e artesãos, místicos e guerreiros…

O chão fula vai resistindo, mal, ao cerco da guerrilha. De Piche a Bambadinca ou de Galomaro a Geba, os fulas estão cercados. Mas por enquanto, Bafatá, Contuboel ou Sonaco ainda são sítios por onde os tugas podem andar, à civil, desarmados, como se fossem turistas em férias!

Contuboel é ainda um oásis de paz, com um raio de uns escassos quilómetros...

Luís Graça

© Luís Graça (2005)


Guiné > Zona Leste > Contuboel > Junho de 1969:

Passeio de piroga junto à ponte de madeira de Contuboel, sobre o Rio Geba. Furriéis milicianos Henriques (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12) e Monteiro (CART 2479 / CART 11).

Os quadros metropolitanos (menos de 60) da futura CCAÇ 12 tinham chegado a Contuboel a 2 de Junho de 1969 para dar a instrução de especialidade aos seus soldados africanos (menos de 100) (1). A companhia do Monteiro (CART 2479, futura CART 11) já lhes tinha dado a instrução básica, de 12 a 24 de Maio.

Estive em Contuboel até 18 de Julho. Tive tempo para ler, escrever, passear, ir à pontas [hortas] dos caboverdianos comprar bananas e abacaxis, escrever e falar de coisas de que gostava: a poesia, a literatura, a filosofia, a política... Tinha muitas afinidades com o Monteiro e com ele era capaz de ter uma conversa franca sobre a guerra colonial, a política, etc.

Nesse dia do passeio de piroga, em Junho de 1969 (não posso precisar o dia da semana, já que na Guiné vivíamos sem calendário, sem distinção de dias úteis da semana, sábados, domingos ou feriados), apanhei o meu primeiro grande susto por aquelas paragens africanas.

O Monteiro quis refrescar-se e deu um mergulho no Rio Geba, junto à represa, debaixo da ponte de madeira. De repente, apercebi-me que ele nunca mais aparecia à superfície... Quase gelei de terror!... Passou-se uma eternidade até que vi um pedaço de cabeça e uns olhos esbugalhados a emergir à superfície...

Depois de Contuboel, o Monteiro foi para o Gabu (Nova Lamego), segundo creio, e perdi-lhe completamente o rasto.

De facto, nunca mais encontrei o meu amigo Monteiro que, segundo creio, é o co-autor de um livro que li e apreciei muito sobre a guerra colonial (Renato Monteiro e Luís Farinha - Guerra colonial: fotobiografia. Lisboa: D. Quixote. 1998. 307 pp). Foi aí que reconheci a sua fotografia e alguns dados biográficos. Ele esteve na Guiné entre 1968 e 1970, se não me engano. E julgo que vive no Norte, onde foi professor do ensino secundário e esteve ligado ao movimento dos rádios livres. Gostaria, muito sinceramente, de o voltar a ver e abraçar.
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(1) Vd. post de 23 de Junho de 2005 > Guiné 63/74 - LXXVI: (i) A bordo do Niassa; (ii) Chegada a Bissau

segunda-feira, 27 de junho de 2005

Guiné 60/71 - P85: Antologia (5): Capelão Militar em Mansoa (Padre Mário da Lixa)

Testemunho do Padre Mário da Lixa sobre a sua experiência como capelão militar na Guiné. Extractos de um questionários, de 32 perguntas, sobre a sua "história de vida", a que o Padre Mário respondeu, e que são da responsabilidade de uma mestranda da Universidade do Porto (Julho de 2004). Estas respostas foram inseridas pelo próprio no seu Diário Aberto. Tomo a liberdade de transcrever neste blogue algumas dessas perguntas e respostas. O Padre Mário da Lixa foi capelão militar em Mansoa, de Novembro de 1967 a Abril de 1968. Poucos tiveram a sua coerência e a sua coragem.


7. Em que consistiam as críticas que o padre Mário fazia, na carta que escreveu ao Bispo, quando terminou o curso de capelão militar?

R. Eram tudo coisas muito simples, mas também muito concretas. Lamentava que, durante as cinco semanas que durou o curso de capelães militares, não nos tivesse sido dada mais regularmente a palavra (e éramos 50 padres, oriundos das diferentes dioceses do país, Açores e Madeira incluídos); que, concretamente, nas aulas de deontologia militar, dadas pelo próprio Bispo castrense, o ambiente fosse tão autoritário, tão de cima para baixo, sem hipótese para debate aberto e franco. E levantava sérias dúvidas sobre a moralidade da guerra colonial em que me via incorporado à força como capelão militar.

Recordo, ainda hoje, que, depois dessa carta, cheguei a pensar – se calhar, ingenuamente – que o Bispo castrense ainda seria capaz de me dispensar do serviço de capelão na Guiné-Bissau. Tal não aconteceu, evidentemente. Mas nunca esquecerei que, no dia do embarque, quando os vários capelães que rumávamos para aquela “província ultramarina” nos fomos despedir dele, o Bispo castrense teve o cuidado de se me dirigir pessoalmente, entre todos os outros, para confirmar se eu é que era o padre Mário. Sinal inequívoco de que a minha carta o tinha marcado.

8. Que serviços se faziam na Guiné-Bissau, por interesse e egoísmo, tendo em vista louvores e promoções? A quem se referia concretamente?

R. Na guerra colonial, vivi integrado no Batalhão 1912, sedeado em Mansoa. Era o único padre capelão. Havia outro padre em Mansoa, mas na igreja da Missão, com quem sempre dialoguei, durante os quatro meses que lá vivi e actuei. Mas como capelão militar era o único padre no Batalhão.

Enquanto não me expulsaram, pude privar de perto com as diversas chefias militares e com as centenas de soldados “rasos” que davam corpo ao Batalhão. Encontrei homens que estavam na guerra com convicção. A tese oficial do Regime sobre a guerra estava bem interiorizada neles. E eram generosos, à sua maneira, na entrega de si mesmos àquela causa, sem se aperceberem que era uma causa perdida. Mas havia também os que se aproveitavam da guerra, com sucessivas comissões, bem remuneradas, e quase sempre longe dos perigos das frentes de combate. Dizê-lo, não é novidade para ninguém. E havia os oficiais milicianos que, duma maneira geral, estavam na guerra contrariados e cuja preocupação maior era poderem regressar à sua família e à sua terra sãos e salvos.

9. A sua participação, forçada, como capelão militar na Guiné-Bissau, mudou a sua forma de pensar relativamente à política colonial seguida pelo Estado Novo?

R. Posso dizer que acabou por me abrir muito mais os olhos do corpo e, consequentemente, também da consciência. Em Mansoa, nos quatro meses em que fui capelão militar, pude aperceber-me de toda a iniquidade – “pecado organizado”, chamava-lhe então Sophia de Mello Breyner Andresen – que era a Guerra Colonial.

Experimentei na própria carne o que era estar integrado num corpo militar organizado de um Estado europeu que ocupava brutalmente a mátria/pátria de um povo africano, como se fosse a nossa própria mátria/pátria. Nunca mais esquecerei aqueles olhares das mulheres guineenses que viviam do outro lado do arame farpado que protegia as instalações do nosso Batalhão. Eram olhares que, no seu gritante silêncio, me/nos expulsavam do seu país ocupado. Nunca mais esquecerei as condições inumanas das prisões improvisadas em que o Batalhão mantinha enjaulados, durante dias, semanas, meses, num reduzidíssimo espaço e o mesmo para todos, dezenas de membros da população civil – mulheres e homens de todas as idades – a pretexto de que eram colaboradores dos “turras”. Eram condições muito abaixo de cão!
Nunca esquecerei as torturas infligidas aos apanhados em combate, para os fazer falar e trair os seus companheiros de luta de libertação. E tudo em nome da defesa da Pátria, de Deus, da Civilização Cristã Ocidental!...

Desde logo me demarquei de toda aquela ignomínia e injustiça. E de toda aquela mentira orquestrada que pretendia convencer-nos de que estávamos ali a defender “as nossas províncias ultramarinas”. Como padre, era naquele Batalhão o rosto mais visível da Igreja e, com pedagogia e crescente desassombro, passei a questionar as consciências dos soldados. As minhas homilias, na missa dominical, eram feitas de muitas perguntas, dirigidas especialmente à consciência dos militares que se assumiam como católicos, a começar pelo meu comandante do Batalhão. Levei, deste modo não-violento, a paz à guerra. E a guerra não me suportou por muito tempo. Quando percebeu que eu não era padre/presbítero do género de se deixar amedrontar com as suas ameaças, avançou rapidamente para a decisão mais extrema: expulsou-me de capelão militar, sem qualquer processo no Tribunal Militar!

O comandante, assumidamente católico, preferiu assim ficar sem capelão no Batalhão até ao final da comissão, a deixar-se interpelar mais profundamente pelo Evangelho da Paz que eu, na minha fraqueza, qual David contra Golias, me vi ali desassombradamente a anunciar. Nesse dia em que me expulsaram – 8 de Março de 1968 – não tive mais dúvidas que aquela Guerra era intrinsecamente perversa e imoral, como tal, uma causa completamente perdida para o Regime que estupidamente a desencadeou.

10. O que é que o padre Mário sentiu quando o seu chefe religioso lhe disse para não pregar a doutrina social da Igreja em Bissau?

R. Olhei-o de alto abaixo, estupefacto. Nem queria acreditar no que os meus ouvidos ouviam. Apesar de ser o meu chefe militar – eu era um simples alferes capelão compulsivamente recrutado para aquela comissão de serviço e ele um tenente-coronel que fazia parte dos quadros do Serviço de Capelães militares portugueses – resisti-lhe com firmeza e alegria em nome do Evangelho. Fiz tudo para o evangelizar naquele momento. Mas em vão. Ele estava demasiado identificado com os interesses ideológicos do Regime que fazia a guerra e parecia nem sequer entender as minhas palavras. O Evangelho da Paz que eu tinha anunciado ao Batalhão e que defendia agora ali diante dele, deveria soar-lhe a “loucura” e a “escândalo”. Nem toda a força da minha amizade presbiteral e da minha ternura fraterna o demoveram da sua posição ideológica.

E a verdade é que dos seus lábios ouvi de imediato a sentença: “Ai é assim que continuas a pensar? Então vais receber uma guia de marcha para Lisboa e lá vamos ver o que te havemos de fazer!” E assim foi. Poucos dias depois, chegou, via rádio, a guia de marcha, com viagem marcada para o avião da TAP, com a ordem expressa de eu trajar à civil, tal como os demais militares que viajavam no mesmo avião, para não dar a perceber, à chegada ao aeroporto de Lisboa, que o nosso país estava em guerra!

11. Como via a posição da sua Igreja relativamente à questão colonial?

R. Depois do que me aconteceu, como capelão militar, devo confessar que fiquei evangelicamente escandalizado. Ninguém da hierarquia militar da Capelania, a começar no capitão capelão, chefe da Capelania no Quartel General em Bissau e a acabar no Bispo castrense, em Lisboa, alguma vez me disse que o Evangelho da Paz que eu havia anunciado e por causa do qual acabei expulso do Exército, estava errado. Felizmente, nenhum deles foi tão longe. Todos reconheciam que eu estava certo, que o Evangelho de Jesus é por aí que avança. Mas discordavam da oportunidade de o anunciar naquelas circunstâncias. E recusaram-me toda e qualquer solidariedade, tanto pessoal, como institucional. Em vez disso, todos meteram o rabo entre as pernas e pactuaram com o Regime.

Esta sua postura – não esquecer que eram todos chefes da Capelania, a cujos quadros pertenciam – só foi possível porque reproduzia a postura de toda a hierarquia católica, salvo uma ou outra excepção que nunca se terá tornado visível até então. Era, por isso, uma posição evangelicamente indefensável, criminosa, contra a Paz e contra a Humanidade. Foi o que tentei dizer, na altura, tanto ao Bispo castrense, como ao Administrador Apostólico da Diocese do Porto, a cujo território regressei, depois de, em Lisboa, me terem passado à disponibilidade. Infelizmente, não me quiseram ouvir. Pelo contrário, o Bispo castrense ainda foi capaz de me classificar, em carta que escreveu ao Administrador Apostólico da Diocese do Porto, como “padre irrecuperável”.

12. Considerava a Igreja conivente com o regime de opressão imposto ao país? Na sua opinião qual a atitude que a Igreja deveria ter tomado?

R. Acho que o que me aconteceu na Guiné-Bissau foi a “minha Estrada de Damasco”. A partir daí, tornei-me no padre/presbítero que ainda hoje sou. Digamos que perdi a ingenuidade. Podia ter perdido a Fé. Podia ter batido com a porta e saído da Igreja. Mas nada disso aconteceu. Pelo contrário, vi-me até a crescer na Fé, cada vez mais centrada, desde então, na pessoa de Jesus, simultaneamente, histórico e Ressuscitado.

E experimentei um amor ainda maior à Igreja, mas agora, um amor vivido de forma adulta, fecundamente lúcido e crítico, numa liberdade de filho de Deus que nunca mais se deixou amarrar por quaisquer interesses ideológicos e corporativos/eclesiásticos, venham eles de onde vierem. Assim transformado, é claro que não podia deixar de considerar a Igreja hierárquica da altura não só conivente com o Regime, mas unha e carne com ele. Sofri com esta postura e carreguei também com esta “cruz”, uma vez que nunca saí da Igreja. Demarquei-me, isso sim, dessa postura institucional. E, com isso, mostrei ao país e ao mundo outra forma histórica, bem mais humana e solidária, de se ser Igreja.

Felizmente, nunca estive sozinho nesta postura. Havia então – e há – uma Igreja outra, no interior da mesma Igreja católica mais tradicional, que vivia humildemente atenta aos sinais dos tempos e se deixava guiar pelo Espírito Santo que soprava forte dessas bandas; que era fraternalmente solidária com as inúmeras vítimas do Regime, nomeadamente, com os presos políticos e suas famílias; que promovia a Paz contra a guerra colonial; que denunciava no estrangeiro os crimes do Regime, para assim apressar o seu fim; e que apostava tudo no esclarecimento e na consciencialização das populações, tanto no espaço do território nacional, como entre os milhões de emigrantes em França, Alemanha e outros países da Europa e do resto do mundo. Com estas irmãs, estes irmãos de Fé, sentia-me e sinto-me sempre em casa!

Guiné 63/74 - P84: A igrejinha de Geba (Marques Lopes)

© Marques Lopes (2005)

1. Perguntei à malta da tertúlia dos ex-combatentes da Guiné se alguém tinha uma foto da igrejinha de Geba. O Reis, há dias, tinha-me mandado uma mas era a de Bambadinca... onde espantosamente nunca cheguei a entrar (hei-de pubicá-la um dia destes). Minto: fui lá uma vez, para participar no velório de um furriel dos comandos africanos, cortado ao meio, ao pisar uma mina antipessoal e ao rebentarem, por simpatia, as granadas ofensivas que levava à cintura...

Confesso que, na época, eu não era crente (nem hoje o sou) mas sentia que as poucas igrejas e capelas espalhadas pelo interior da Guiné serviam de consolo, de refúgio e de esperança para muitos dos nossos camaradas... Num caso ou noutro serviram também para agitar as consciências e até contestar a guerra colonial.

Alguns católicos, alguns padres e até alguns capelães do Exército, como o Padre Mário da Lixa ou o Padre Poím, utilizaram também as igrejas e as capelas para tomar posições públicas contra a guerra colonial. O caso mais conhecido e mediático foi talvez, na Metrópole, o do grupo de católicos que fez uma vigília e greve de fome, de 30 para 31 de Dezembro de 1972, na Capela do Rato, em Lisboa.

Mais difícil era a resistência na frente de combate, como foi o caso do Padre Mário da Lixa. Segundo a resenha biográfica disponível na sua página pessoal, ele esteve na Guiné apenas uns escassos meses, entre Novembro de 1967 e Março de 1968: desembarcou como alferes capelão do Exército português, integrado no Batalhão 1912, na região de Mansoa, para logo a seguir (Abril de 1968) ser "expulso de capelão militar, por ter ousado pregar, nas Missas, o direito dos povos colonizados à autonomia e independência".

Regressado à sua Diocese, no Porto, foi rotulado pelo Bispo castrense de então, D. António dos Reis Rodrigues, como padre irrecuperável. Foi nessa altura que começou a paroquiar a freguesia de Paredes de Viadores (Marco de Canaveses), por nomeação do Administrador Apostólico da Diocese do Porto, D. Florentino de Andrade e Silva (como se recordam, o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, estava ainda no exílio, por ordem de Salazar...).

Em Julho 1970, o Padre Mário (entretanto, colocado em Outubro de 1969, pelo seu bispo, regressado do exílio, na Freguesia de Macieira da Lixa, Felgueiras, como pároco) foi preso pela PIDE/DGS. Em Março de 1971 saiu da prisão política de Caxias, depois de ter sido julgado e absolvido pelo Tribunal Plenário do Porto (Daqui, deste ponto do ciberespaço, envio-lhe um abraço).

Em Bambadinca lembro-me do Padre Poím, capelão militar, de origem açoriana, pertecente ao BART 2917 (1970/72) (vd. respectiva foto com o furriel miliciano Guimarães da CART 2716, na nossa página dedicada ao Xitole).

Devido às suas homilias, este capelão teve problemas com a PIDE/DGS, acabando por ser expulso do Exército, tal como o Padre Mário da Lixa. Não sei muito bem o resto da história, que me foi (re)contada pelo Guimarães. Confesso que nunca ouvi nenhuma das suas homilias, uma vez que não ía à missa. Mas conheci-o pessoalmente em Bambadinca e lembro-me do seu ar frágil e sofrido.

Vem tudo isto a (des)propósito de igrejas e capelas da Guiné. Sensibilizou-me o episódio evocado pelo Fernando Carvalho que se recolhia à igrejinha de Geba para imaginar que estava na sua terra natal, no seu verde Minho...

2. O meu apelo, entretanto, não caiu em saco roto: o Marques Lopes mandou-nos de imediato duas fotos da igreja de Geba. Com a seguinte nota: "Foi no tempo da CART 1690 que a igreja foi construída. Apesar daquilo tudo [a guerra...], ainda deu para isso... O Fernando Carvalho há-de lembrar-se dela".

Já agradeci ao Marques Lopes: de facto, o baú dele é mesmo um caixinha de surpresas. Mas são estas pequenas peças, fotos, documentos, depoimentos, estórias, etc., que nos ajudam a reconstituir o puzzle (desconjuntado) da nossa memória da Guiné e dos seus lugares...

© Marques Lopes (2005)

Guiné 63/74 - P83: (Tabanca Grande): Terras que também calquei (Fernando Gomes de Carvalho, um ex-combatente da CCAÇ 2401, 1968/70)

1. Vou apresentar-me, mas não receber ordens. (Em 1968 apresentava-me e recebia ordens). Sou o ex-Furriel Miliciano Carvalho da CCAÇ 2401, 1º pelotão.

Ao recordar terras que pisei na minha juventude, através da Net, vim encontrar aqueles, como eu, que por lá passaram.

Norte e Leste da Guiné tocaram-me nos bons e maus momentos dos anos de 1968 a 1970. Não tive sítio certo desde Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego (Gabu), Pirada, Geba e seus destacamentos (Sarabanda, Cantacunda e Banjara), Piche, Buruntuma, etc.

Quantas vezes recordo a igreja de Geba, junto ao Rio Geba! Ali podia esquecer África e, por alguns momentos, pensar que estava na Metrópole, passando os olhos sob a torre e o telhado da igreja e fixando, ao fundo, o horizonte. Era o meu cantinho no Minho!

Ver as vossas fotos fez-me recordar vivamente os momentos duros que todos nós, ex- combatentes da Guiné, passámos na juventude... Essas batatas fritas com bife e cerveja preta em Bafatá? Mas era só quando havia!...

Dou os parabéns a todos vós por esta página na Net, só assim podemos transmitir aos jovens de hoje o que os jovens da década de 60 e 70 passaram.

Já agora lançava um apelo a todos os ex-combatentes que tenham espólio de qualquer tipo relacionado com a guerra, e que queiram doar ou emprestar para o MUSEU DA GUERRA COLONIAL (uma história para contar...), situado em Vila Nova de Famalicão, do qual sou sócio-fundador. Deixo também aqui um convite para o visitarem.

Para todos os Periquitos, Maçaricos ou Velhinhos, um abraço. Adeus, até ao meu regresso!

Fernando Gomes de Carvalho
Av. Dr. Carlos Bacelar, 311
4760-480 ESMERIZ
Telemóvel: 968583045

2. Comentário do Marques Lopes (que recebeu e reenviou esta mensagem para a maralha da tertúlia) (lista a actualizar...):

Caro camarada ex-combatente [Carvalho]:

É com muita satisfação que recebo, dois dias seguidos, mensagens de dois ex-combatentes que passaram por Geba. Ontem foi um,[o Belmiro Vaqueiro], que lá esteve antes de mim, e hoje é o Fernando Carvalho, que esteve depois.

É bom encontrarmos pessoas para recordarmos terras que pisámos na nossa juventude, como diz. Não lhe vou dar ordens, vou apenas convidá-lo a incluir-se num grupo de amigos que passaram pela Guiné durante a guerra e que vão contando coisas dessa passagem neste blogue-fora-nada que o nosso camarada ex-combatente Luís Graça vai gerindo com muita sabedoria. Venha participar, pois terá muito que contar com toda a certeza.

Um abraço.
Marques Lopes

domingo, 26 de junho de 2005

Guiné 63/74 - P82: Tabanca Grande: Belmiro Vaqueiro (CCAÇ 1426, Geba, 1965/67) Presente!!!

Guiné > CART 1690 > Destacamento de Banjara (sub-sector de Geba, Zona Leste) > 1967 > Militares com um troféu de caça... Nesse dia houve rancho melhorado... A montagem de armadilhas para caçar porcos do mato já era uma prática corrente no tempo da CCAÇ 1426 (Geba, 1965/67), "quando a fome apertava"... © A. Marques Lopes (2005)


1. Mensagem do ex-combatente Belmiro Vaqueiro (CCAÇ 1426, Geba, 1965/67).

Título: Em memória dos bravos da CART 1690

Foi com muita emoção que vi o excelente trabalho publicado na Net acerca dos bravos da CART 1690. Curvo-me perante a memória dos caídos em combate cujo historial desconhecia.

É que eu percorri todos esses locais e ainda tenho bem presente os momentos vividos em Cantacunda e Banjara. Fiz parte da Companhia de Caçadores n.º 1426 com sede em Geba (1965 a 1967), companhia que que pelos vistos foi rendida pela CART 1690 nos primeiros dias de Maio de 1967.

Em Banjara, à noite, havia uns tantos voluntários que também colocavam armadilhas na bolanha para apanhar os porcos. Só o fazíamos quando a fome apertava.

Apresento oe meus respeitosos cumprimentos.

O ex-combatente Belmiro Vaqueiro.

2. Resposta do Marques Lopes (ex-alferes miliciano da CART 1690, Geba, 1967):

Caro camarada ex-combatente:

É óptimo encontrar alguém que tenha passado pelos mesmos locais que eu. Sim, foi a CART 1690 que chegou a Geba em 17 de Abril de 1967. Após alguns dias de sobreposição de comandos, substituiu-se de facto a CCAÇ 1426.

Convido-o a integrar este grupo de ex-combatentes da Guiné e escrever para o excelente blogue-fora-nada, da autoria do amigo Luís Graça. Com certaeza terá muitas coisas a contar-nos também.

3. Comentário de Luis Graça:

Quando em 23 de Abril de 2004 lancei o primeiro post sobre este tema [ Guiné 69/71 - I: Querida(s) madrinha(s) de guerra] estava longe de imaginar que hoje poderíamos estar aqui a falar da nossa (minha e de outros camaradas) experiência como ex-combatentes na Zona Leste da Guiné, no período em que fiz parte da CCAÇ 12 (1969/71). No fundo, tinha uma vaga esperança de (re)encontrar gente do meu tempo e que tivesse andado pelos mesmos sítios (Contuboel,Geba, Bafatá, Bambadinca, Xime, Mansambo, Xitole, Enxalé, Mississirá, Fá...).

Primeiro apareceu o Castro, mais novo (Xime e Mansambo, 1972/74) e depois o Guimarães (Xitole, 1970/72). A seguir veio o Lopes, mais antigo que todos nós (esteve na Zona Leste, em Geba, em 1967, onde foi ferido, na CART 1690; e depois na Zona do Cacheu, em Barro, com a CCAÇ 3, em 1968). Bom, e por aí fora: um a um, ou em grupo, começam apareceu os velhos tugas, não só da minha época (1969/71) como mais e mais novos, e que andaram pelas mais desvairadas terras da Guiné, do Cacheu ao Gabu...

Tudo isto para dizer que o Belmiro Vaqueiro (Geba, 1965/67) é bem vindo e será recebido de braços abertos na nossa tertúlia de ex-combatentes da Guiné, no caso de ele manifestar interesse em partilhar connosco não só o seu endereço de e-mail como as suas memórias.

4. Já em data posterior (3 de Julho de 2005), o Belmiro mandou-me os seguintes esclarecimentos:

"No seguimento da mensagem enviada ao A. Marques Lopes, como já tive oportunidade de referir, pertenci à CCAÇ 1426. Embarcámos com destino à Guiné, a bordo do Niassa, em meados de 1965 e regressámos à Metrópole nos primeiros dias do mês de Maio de 1967, a bordo do Uíge.

Fonte: Navios Mercantes Portugueses > Uíge (2000)

"Sou um ex-furriel miliciano e o tempo de tropa repartiu-se por Geba,Camamudo, Cantacunda e Banjara. No sector de Banjara era onde a traça mais atacava (os camufulados não eram anti-traça).

"Foi a minha companhia quem primeiro ocupou as novas instalações sitas no morro sobranceiro a Geba. Também foi a minha companhia, enquadrada por forças, ao que julgo, de sapadores e blindadas, adstritas ao Batalhão 7 de Espadas com sede em Bafatá, quem primeiro se instalou na bela instância de Banjara, onde se manteve até ao final da comissão.

"Actualmente vivo na cidade de Bragança na situação de reformado".