quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1235: Coronel Correia de Campos: um homem de grande coragem em Sambuiá e Guidaje (A. Marques Lopes)


O Coronel António Correia de Campos, um homem de cavalaria e do 25 de Abril, aqui justamente evocado pelo nosso camarada A. Marques Lopes. Fonte: Portal do Exército (2006)

Texto enviado em 22 de Outubro último pelo A. Marques Lopes, coronel DFA, na reforma, ex-alferes miliciano na Guiné (1967/68) (CART 1690, Geba; e CCAÇ 3, Barro), membro da direcção da delegação Norte da A25A - Associação 25 de Abril.


Caros camaradas:


A propósito de Guidaje, e do post recentemente colocado no blogue (1), deixem-me aqui recordar um homem por quem fiquei com muita admiração desde a primeira vez que o conheci.

Eu conheci o tenente-coronel António Correia de Campos num dia de 1968, quando eu estava com a CCAÇ3 de Barro, durante uma operação realizada no corredor de Sambuiá e por ele comandada (foi nessa altura também o comandante do COP3).

No meio do fogachal de uma emboscada vi a sua figura insólita, para as circunstâncias, de pingalim de cavaleiro, pistola e coldre à cowboy, seguros com um fio à volta da coxa direita, sempre em pé e gritando:
- O morteiro está à direita, uma bazucada para lá!... Fogo intenso para o lado esquerdo, é lá que está o RPG!...

Disseram-me, depois, que o Correia de Campos era mesmo assim, uma coragem e calma impressionantes. Numa outra operação na mesma zona [vd. carta de Bigene], já nos finais de 1968, também comandada por ele, o meu grupo, quando foi dada ordem de retirar, atrasou-se, porque levava um morto com o pescoço aberto por um estilhaço de rocket, e um guerrilheiro, ferido com uma rajada na barriga e deixado pelo IN, ia apoiado nos ombros de dois soldados meus (2).

Quando tivemos que atravessar uma bolanha com água muito alta (foi em plena época das chuvas) disse aos meus para fazerem uma maca de ramos para o deitar e levá-la pela bolanha. Fizeram a maca, sim senhor, mas não quizeram pegar nela:
- É turra, deixa ficar, vem jagudi e come ele...

Pegámos nela, eu e um furriel branco. O nosso morto foi às costas de um do grupo. Só quando íamos a meio da bolanha, com água pelo peito, é que apareceram dois, muito enfiados, a oferecerem-se para levar a maca. Chegámos depois à base de operações, onde estava já o tenente-coronel Correia de Campos, um helicóptero e uma enfermeira paraquedista. Mandei formar o grupo, mesmo em frente do tenente-coronel, e dei-lhes uma piçada, chamei-lhes todos os nomes... e que nem eram bons para os gajos da raça deles... e coisas que me vieram à cabeça por estar muito lixado. Diz-me o tenente-coronel Correia de Campos, que me ouvira serenamente:
- E pá, não te chateies, as coisas são mesmo assim... manda-os pó caralho e paga-lhes umas cervejas... Mas , olha, a enfermeira diz que o homem já morreu, não aguentou.

Era também comandante do COP3[, com sede em Bigene, ] durante o cerco de Guidaje (1), para onde foi assim que o cerco começou (esteve lá desde 10 de Maio). No Público Magazine, de 5 de Novembro de 1995, escreveu o jornalista Francisco de Vasconcelos:

“Sobre a acção de Correia de Campos no cerco (que é também destacada por Ayala Boto), um dos oficiais das forças especiais ali enviadas foi peremptório: Guidage, no fundo, não há dúvida, aguentou-se devido a ele. Foi um esforço brutal pedido a um homem de 50 anos. Uma vez terminado o cerco, Correia de Campos — hoje reformado em coronel — esteve alguns dias preso em Bissau, devido a uma infracção cometida em época anterior por um oficial sob o seu comando...
“No meio do inferno de Guidage, o governador Spínola foi ali de helicóptero para visitar a guarnição, dirigir um apelo à coragem e patriotismo dos oficiais e anunciar-lhes que iria enviar para a região o Batalhão de Comandos Africanos. Recorda Ayala Boto, que acompanhava Spínola como ajudante de campo: À chegada, a primeira imagem que surgiu foi a de uma povoação abandonada e com um único habitante que se dirigia para o heli como se estivesse a passear na Baixa de Lisboa. Era Correia de Campos.

"Após a partida do governador, gerou-se um movimento de abandono do quartel por parte de muitos militares, que queriam ir-se embora, tendo sido impedidos de o fazer por Correia de Campos, que, lembra o próprio, se postou de sentinela, à saída do aquartelamento" (...).

Lembro que ele foi um homem do 25 de Abril: às 10 horas do dia 25 foi ele que foi enviado pelo Comando da Pontinha para ali coordenar as operações. Foi ele, mais o Jaime Neves, que entrou, a seguir, no Ministério do Exército e aí prendeu diversos oficiais superiores, incluindo o coronel Álvaro Fontoura, chefe do gabinete do ministro do Exército (este já tinha fugido) ( ).

Após o 25 de Abril foi comandante do Regimento de Lanceiros 2 até ao 25 de Novembro de 1975.

Foi um bravo e nobre militar, injustiçado depois como muitos militares de Abril.

Abraços
A. Marques Lopes

___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 24 de Outubro de 006 > Guiné 63/74 - P1210: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (6): Guidaje ? Nunca mais!...

Vd. também post de 21 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1198: Antologia (53): Guidaje, Maio de 1973: o inferno (Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes)

(2) Vd. post de 6 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - XLVII: O Alferes Lopes, com os balantas (CCAÇ 3, Barro, Cacheu)

(3) Vd. edição do semanário Expresso, de 27 de Abril de 1974 > O regime foi derrubado em clima de festa

(...) "Às 15 e 25 entra no Quartel do Carmo o tenente-coronel Correia de Campos para parlamentar com as individualidades que se encontravam do lado de dentro e negociar as condições da rendição. O povo impacienta-se e grita: Fora!

"Na posse das tropas da Junta de Salvação Nacional ficou um major da G.N. R. como refém.

"É preciso ter confiança nas pessoas honestas. Tenham calma para que tudo caminhe devidamente e dentro dos trâmites de pessoas civilizadas. Nós queremos resolver tudo a bem. Mas o tempo passa e não há meio de sair o tenente-coronel Correia de Campos. O capitão Maia, de megafone em punho, grita lá para dentro:

"Atenção Quartel do Carmo. As negociações estão muito demoradas. Não tenho ordens para as deixar demorar mais tempo. São 3 e 30. Ouve-se a ordem para as metralhadoras alinharem devidamente. 3 e 40: Saiam de mãos no ar e sem armas. Mas ninguém saía.

"Apenas, o tenente-coronel Correia de Campos apareceu depois de o capitão Maia haver gritado lá para dentro: Atenção Quartel do Carmo. Se acontecer qualquer mal ao nosso enviado o vosso responderá por tudo.

"Eram precisamente 16 horas quando, perante a não rendição das individualidades e da G.N.R. aquartelada no Carmo, foi dada ordem para abrir fogo sobre a frontaria do edifício, que praticamente nada sofreu.

"A Guarda Nacional Republicana, que havia tomado posições no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, declara a um dos responsáveis pelas forças da Junta de Salvação Nacional que estão dispostos a renderem-se, contando que o façam primeiro os que estão dentro do quartel. Por uma questão de solidariedade, afirmaram.

"Às 16 e 10 entra no Carmo o dr. Feitor Pinto, que leva uma mensagem de Spínola para Marcello Caetano. Noutro artigo desta edição descrevemos estes contactos mais pormeorizadamente, contactos em que intervieram Pedro Pinto, Feytor Pinto e Nuno Távora.

"Pouco depois, perante a demora da rendição, é comunicado que iria ser destruido o quartel, caso não saíssem imediatamente.

"Os carros de combate começam a tornar posição. Vive-se uma hora de certa angústia e expectativa, até que, por uma questão de segundos, se evitou o pior. Feytor Pinto trouxe de dentro a certeza de que a rendição se havia operado em termos completos, sendo imediatamente anunciado que, em breve, se iria proceder à transmissão de poderes e que o general Spínola se deslocaria ao Carmo. Os vivas irromperam de todos os lados e os militares a custo conseguiram segurar a multidão que pejava por completo o Largo do Carmo e artérias de acesso

"Às 17 e 40, um carro conduzia o General Spínola e o major Dias de Lima por entre os milhares de pessoas que se aglomeravam no Largo, ovacionando prolongadamente os ocupantes da viatura, que entraram imediatamente no edificio. Seguiu-se a transmissão de poderes" (...).

Vd. também Instituto Camões > Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5, Abril-JUnho de 1999 > Cronologia do 25 de Abril

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