sábado, 11 de fevereiro de 2006

Guiné 63/74 - P507: Estórias do Zé Teixeira (3): O Conceição ou o morrer de morte macaca

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > As antigas retretes do aquartelamento da CCAÇ 2381 ( Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70). Aqui morreu o Conceição.
© José Teixeira (2006)


O Conceição

O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede.

Eu, logo após o ataque, dei uma volta pelo quartel. Fiquei assustado, pois cairam várias lá dentro e gritava de contente. Não havia aparentemente feridos e muito menos mortos. Nesse momento, o Furriel Pedro (actualmente muito doente, com um derrame celebral) grita-me:
- Teixeira vem aqui ! - Fiquei horrorizado com o que vi. Mais uma vez chorei de raiva.
Mas a cena não ficou por aqui.

Trouxemos o cadáver para a enfermaria e logo se juntou um grupo de camaradas disposto a fazer uma noite de velada. Alguns rezavam o terço, outros choravam, outros falavam de tudo e de nada.

Como tivemos dois feridos da população, dos quais uma mulher com vários estilhaços nas espadaúdas ancas, até população civil ali estava.

Alta madrugada, eles voltaram de novo e toda a gente fugiu para o buraco abrigo que tinhamos aberto ao lado da enfermaria. A mulher ferida, essa ficou por não poder andar, mas algum tempo depois lá apareceu, rastejando.

Findo este segundo ataque voltamos para o velório... Com a precicipação da fuga para o abrigo, alguém tinha arrastado um dos bancos onde estava a maca com o cadáver do Conceição, ficando este com o corpo todo inclinado.
- Desgraçado, mesmo depois de morto não tens descanso ! - comentou alguém.

As lágrimas de dor e de revolta correram por várias faces dos camaradas presentes. Foi uma noite para esquecer e agora voltar a relembrar.

© José Teixeira (2006)

Guiné 63/74 - P506: O IN emboscado a caminho de Dulombi (CCAÇ 2405, Galomaro, Julho de 1969)

Guiné > Bafatá > Espectacular vista aérea da bela Bafatá colonial, segunda cidade da província e principal centro militar da zona leste.

Até Julho de 1969, Galomaro fazia parte do Sector L1 (BCAÇ 2852, Bambadinca). Em Agosto de 1969, a zona de acção (ZA) da CCAÇ 2405 passou a constituir o COP 7, criando-se em Outubro seguinte o Sector L5, sob a responsabilidadew do BCAÇ 2851 e formado pelas ZA das CCAÇ 2405 (Galomaro) e 2406 (Saltinho).

Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

© Humberto Reis (2006)


Pouco ou nada se tem aqui falado do subsector de Galomaro que, em 1968/70, era guarnecido pela CCAÇ 2405, a sacrificada companhia que viu morrer 17 dos seus melhores elementos na travessia do Rio Corubal, em 6 de Fevereiro de 1969, em Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios).

A essa companhia pertenciam os nossos amigos e camaradas Victor David e Rui Felício. O primeiro já entrou para a nossa tertúlia (1). O segundo mandou-me há dias (9 de Fevereiro) a seguinte mensagem:

"Meu Caro Luis Graça,

"Por indicação do meu amigo de juventude e mais tarde camarada de armas na CCAÇ 2405, Victor David, tive conhecimento e acesso ao excelente blogue que criaste sobre a nossa passagem por terras da Guiné.

"Transmitirei aos meus conhecidos e amigos a existência do blogue e procurarei colaborar nele se tal for possivel, levando ao conhecimento de todos alguns episódios marcantes das nossas vidas, relativamente à nossa estadia na bela e martirizada terra da Guiné.

"Até breve e um abraço

"Rui M. S. Felício (ex-alferes miliciano, CCAÇ 2405, Galomaro, 1968/69)"

Em homenagem aos dois novos tertulianos, passo a transcrever o relatório (texto digitalizado e revisto por mim) da Op Ginja Verde [o adjectivo está pouco legível] em que o Rui Felício participou, como comandante de um dos grupos de combate... Infelizmente ainda não temos on line o mapa de Padada. Em todo o caso, os pontos principais aqui referidos (Galomaro, Dulombi, Mondajane, Paiai Numba...) podem ser facilmente localizados no mapa geral da Guiné e nos mapas locais.

Fonte: História do BCAÇ 2852 (Guiné, 1968/70): Bambadinca: BCAÇ 2852. 1970. Cap II. 93-95. Documento policopiado, classificado como reservado. (Cópia em papel facultada pelo Humberto Reis, meu ex-camarada da CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).


Op Ginja Verde

Iniciada às 16h00 de 13 de Julho de 1969 com a duração de dois dias para fazer uma batida cuidadosa à região de Paiai Numba, procurando detectar vestígios IN, aniquilá-lo e destruir meios de vida se os houvesse.

Composição e articulação das Forças:

Cmdt – Cap Mil Jerónimo – Cmdt da CCAÇ 2405
Cmdt do 1º Gr Combate / CCAÇ 2405 – Alf Mil Rijo
Cmdt 3º Gr Comb CCAÇ / 2405 - Alf Mil Felício
Cmdt 4º Gr Comb CART / 2520 (2) – Alf Mil Oliveira

Desenrolar da acção:

As NT iniciaram o movimento a 13 [de Julho de 1969], às 16h00, deslocando-se até Mondajane. Reiniciaram o movimento apeado por volta das 4h00 do dia 14.

Saiu o movimento apeado de Mondajane na direcção leste, patrulhando sempre a margem esquerda do Rio Queuel. A progressão era feita a TT [todo o terreno], mas apesar disso era relativamonte fácil por se nos deparar uma mata pouco densa.

Cerca das 7h00 foi atingido o Rio Cantor, que seguimos na direcção norte. Entretanto a progressão tornava-se cada vez mais difícil, quer pela ausência de trilhos quer pelo terreno que se nos ia deparando mais arborizado à medida que se caminhava para norte.

A progressão continuou sem novidade tendo-se atingido o Rio Sinhandi cerca das 11h00, onde parei cerca de meia hora para descansar. Prosseguiu-se depois ao longo da margem direita do Rio Nhancam cujo curso segui por saber que este me conduziria à tabanca de Paiai Numbá.

A cerca de 1 Km desta tabanca, onde cheguei por volta das 13h00, tomei a direcção sudeste e patrulhei a área adjacente à tabanca do Vendu Jangala.

Até a este momento não foram detectados quaisquer vestígios IN nem a existência de quaisquer trilhos que não estivessem marcados na carta. Reiniciei o movimento, desta vez na direcção nordeste caminhando paralelamente ao itinerário Dulombi – Paiai Lemini – Paiai Numba e a cerca de 2 Kms para o lado esquerdo.

0 terreno apresentava-se de difícil progressão pela ausência de acidentes geográficos bem referenciados, e por ter de se atravessar uma mata densíssima. A navegação foi sempre feita por carta e bússula já que os guias nativos diziam não saber orientar-se pela inexistência de trilhos. Atingimos o itinerário Dulombi-Paiai às 16h00 em PADADA 2F4 onde mandei fazer um alto para fazer descansar a tropa.

A testa da coluna encontrava-se junto ao itinerário e o resto da força estava embrenhada na mata em sentido oblíquo ao da estrada. Comecei a montar o dispositivo de defesa mas só tive tempo de colocar dois grupos de sentinelas avançadas, um de cada lado da estrada. Às 16h05, um desses grupos de sentinelas detectou um grupo IN quo se aproximava pelo itinerário em direcção ao Dulombi. As referidas sentinelas abriram fogo de espingarda automática, logo seguido pelo fogo de alguns elementos da minha tropa que se encontravam junto a estrada. Aos primeiros tiros dois elementos IN que vinham à frente caíram enquanto os restantes se embrenhavam apressadamente na mata em posição frontal às nossas forças e debaixo de fogo de dilagrama, armas automáticas e granadas de mão.

Desencadeou-se forte tiroteio com consumo indiscriminado de munições por parte do IN, que utilisava lança-rockets, morteiro 60, metralhadora ligeira e grande quantidade de armas automáticas. Ao fim de cerca de 10 minutos de tiroteio o IN conseguiu com um tiro de lança-rockets atingir alguns elementos das NT com vários estilhaços, tendo dois deles ficado gravemente feridos.

Tentei comunicar com o posto de rádio de Mondajane mas o operador de transmissões informou-me que o aparelho de rádio CHP-1 se encontrava inoperacional por ter sido atingido pelo mesmo rocket. Quase simultaneamente um dos nossos apontadores de LGFog aniquilou con um tiro certeiro um elemento IN que se encontrava em cima da uma árvore a fazer fogo preciso sobre nós. 0 fogo continuou de parte a parte, tendo o IN tentado o envolvimento mas a reacção pronta das NT impediu-o.

0 IN, com o efectivo que estimo em cerca de 60 elementos entre carregadores e combatentes, acabou por retirar na direcção sudoeste, sob o nosso fogo de morteiro e de LGFog. Não me foi possível efectuar una batida ao local da emboscada, senão no dia seguinte, porque no final da refrega constatei que o IN nos tinha causado um ferido muito grave (que veio a falecer pouco depois) mais dois feridos graves e três ligeiros que ocupavam imediatamente um grupo de combate para os transportar e auxiliar.

Todo estes factores, aliados ao facto de nos encontrarmos ainda a uma distância de 6 quilómetros de Dulombi e de o patrulhamento ter extenuado a tropa, obrigaram-me a ter de desistir da batida ao local, em benefício da evacuação [- que por heli se mostrou] impossível por o único nosso meio de transmissão a longa distância se encontrar inoperacional. Além disso, as NT por terem estado cerca de 35 minutos debaixo de fogo intenso consumiram quase todas as munições. Portanto, achei inconveniente sujeitar-me a novo contacto organizando a batida.

O IN pareceu-me excepcionalnente bem municiado. 0 que me fez crer que o seu objectivo era ir atacar o Dulombi se não tivesse tido o contacto connosco.
__________

Notas de L.G. :

(1) Vd post de 8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DIV: CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)

(2) CART 2520 (1968/70): estava sediada no Xime.

Guiné 63/74 - P505: Os ajustes de contas do PAIGC: o caso do Candé de Quebo (Zé Teixeira)

Guiné-Bissau > Quebo > Novembro de 2000 > Fotografia de grupo de ex-combatentes portugueses e de militares do Exército da República da Guiné-Bissau.

© Albano M. Costa (2005)


Texto do José Teixeira:

Ao ler a história do Seni Candé, veio-me à memória outro Candé. Este com uma história bem mais triste.

Possivelmente alguns dos tertulianos conheceram-no em Quebo (Nova Lamego). Trata-se do Candé, Chefe do Pelotão de Comandos Africanos aí sediados (1).

A sua coragem e tenacidade livraram-me algumas vezes de apuros, nomeadamente na coluna de transporte dos obuses 14 mm de Buba para Quebo, pela picada de Cumbijã, e posteriormente noutra coluna pela mesma picada em que esteve a minha Companhia envolvida,estrada essa que foi fechada ao trânsito de militares a partir dessa altura.

Candé era um homem que face ao perigo arrancava com o seus homens, de peito aberto, ao encontro do IN, pondo-o em fuga.

"Os senhores do poder", no pós 25 de Abril, não souberam ou não quiseram assumir as responsabilidades que este País tinha assumido para com aquela gente.

Este homem e tantos outros consideravam-se filhos de Portugal, assim se afirmavam e acreditavam. Lutaram por esta Pátria, convictos que estavam do lado certo. Foram traídos e abandonados.

O Candé foi preso e levado para a sua terra natal, segundo me contou o Mudé Embalo de Chamarra (2), cuja história já conhecem. Aí foi convocado um Conselho do Povo e de seguida foi feito um julgamento sumário dos "traidores à Pátria".

Guiné > Aldeia Formosa (Quebo) > 1968 > o 1º Cabo Enfermeiro Teixeira junto a um obus 14 (ou 140 mm). 
© José Teixeira (2005)

Para mobilizar a população foi desenvolvida uma campanha de informação junto das Tabancas, dizendo que iam ser visitados pelo Homem grande de Bissau (Luís Cabral), o que era falso: apenas pretendiam juntar a população para lhe demonstrarem quem mandava e como mandava.

Sem defesa possível, e com o ambiente bem instrumentalizado pela juventude do PAIGC, o Candé foi condenado à morte, através de um prego espetado na cabeça.
Morte lenta e dolorosa. Horrível.

Envergonhem-se os governantes da Guiné, saídos vitoriosos da Guerra pela sua emancipação, por não saberem, não quererem ou, mais grave ainda, darem cobertura a possivelmente milhares de situações como esta do Candé. Não souberam compreender, perdoar e aceitar os irmãos, filhos do mesmo chão, irmãos na mesma fé, que em resultado de uma educação, desinformação e/ou aliciamento, se colocaram do outro lado, convictos que era esse o caminho certo, quantas vezes em situação de irmãos contra irmãos, filhos contra pais, maridos contra mulher e vice versa.

Camaradas e amigos tertulianos: os crimes cometidos em nome do meus País, por tantos de nós, também eles instrumentalizados pelos senhores do poder de então, de que era dever sagrado de lutar pela Pátria multirracial, continuou depois, por omissão de quem tinha o dever sagrado de defender estes filhos da mesma Pátria, tal como lhes tinha sido ensinado.

Zé Teixeira
__________

Notas de L.G.

(1) Possívelmente o Teixeira quer-se a referir a um Pelotão de Caçadores Nativos ou a um Pelotão de Milícias. Vd. post de 1 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXI: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (2): Buba/Aldeia Formosa, Julho de 1968

Posteriormente, ele mandou-me uma mensagem a confirmar "que era mesmo um grupo de combate de Comandos Africanos".

(2) Vd pots de 9 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXIII: Estórias do Zé Teixeira (1): Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

Guiné 63/74 - P504: Memórias de Guileje (Zé Neto, 1967/68) (7): Francesinho e Cavaco, o belo e o monstro


Guiné > Guileje > CCÇ > 1967 > CART 1613 > Ao centro, a permanente alegria do Francesinho. 
© José Neto (2006)


VII parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).

O Zé, que é o patriarca da nossa tertúlia, quis partillhar connosco uma parte "muito significativa" das memórias da sua vida militar. Enviou-nos "trinta e três páginas retiradas (e ampliadas) das 265 que fui escrevendo ao correr da pena para responder a milhentas perguntas que o meu neto Afonso, um jovem de 17 anos, que pensava que o avô materno andou em África só a matar pretos enquanto que o paterno, médico branco de Angola, matava leões sentado numa esplanada de Nova Lisboa (Huambo). Coisas de família"... Obrigado, Zé! As tuas memórias de Guileje são também as memórias das nossas vidas.. em Mansambo, no Xime ou em Guidaje!


O Francesinho (1)

Com pouco mais de metro e meio de altura, franzino, quase imberbe, era um poço de força, energia e boa disposição que a todos espantava.

Geralmente, quando o pessoal regressava das duras caminhadas pelas matas e bolanhas vinha estafado e atirava-se para cima do catre para descansar. Essa não era a prática do Francesinho. Tomava um duche, ficava como novo e, com a sua concertina algo desafinada, espalhava alegria por toda a tabanca e arredores.

Era emigrante em França, para onde foi com os pais ainda criança e pela nossa Lei não estava sujeito ao serviço militar, mas quando atingiu a idade própria veio apresentar-se e foi incorporado.

Constava nos seus documentos que era analfabeto e agricultor e, no entanto, falava correctamente francês e era operário especializado da indústria metalomecânica.

O mais surpreendente, se é que o Francesinho não fosse ele uma permanente surpresa, era a correcção com que falava português com a pronúncia e os ditos da sua região, as terras do Basto.
A sua única preocupação era a de que, quando acabasse a tropa, as nossas autoridades lhe passassem um papel para apresentar no birú da fábrica onde trabalhava, justificando que esteve ao serviço da sua Pátria.

Desgraçadamente não foi preciso o papel, mas julgo que o tal birú (bureau) da fábrica decerto deu por falta do portuguesinho, alegre e diligente, nascido na freguesia de Ribas, concelho de Celorico de Basto e falecido heroicamente em combate na Guiné Portuguesa.

As últimas mãos que afagaram aquele rosto de menino, antes de se soldar a urna de chumbo que o trouxe de volta, foram as do Capitão Corvacho e a minha. Não é vergonha dizer que não contivemos as lágrimas que nos correram pela cara abaixo.


O Cavaco

No final do ano [1967], eu, o Furriel Martins e o 1º Cabo Santos do Cabo fomos chamados a Bissau para depor no julgamento do Soldado Cavaco (2).

O Tribunal Militar funcionou nas salas do tribunal civil e, em duas sessões, ficou tudo resolvido.

O Cavaco deu-se como culpado e o seu defensor, um tenente miliciano de Administração Militar que era advogado, apenas se deu ao trabalho de procurar provar atenuantes para reduzir a pena.

Tanto eu como o Furriel e o Cabo respondemos apenas às perguntas que nos foram formuladas. O Tenente, a certa altura, perguntou-me qual era a minha opinião sobre o comportamento do réu, anterior aos factos.

Gerou-se uma pequena quezília processual entre o promotor e o advogado que acabou com o Juiz Auditor (civil) a intrometer-se e declarar que aquele Tribunal tinha a obrigação de conhecer o carácter do réu e, naquele momento, ninguém mais conhecedor do que o depoente (eu) podia responder a perguntas que levassem a fazer um juízo acertado.

Fiquei sob o fogo cerrado, ora de um, ora de outro, com respostas curtas, quase sim e não. O coronel Presidente acabou por me interpelar dizendo-me que, por palavras minhas, classificasse a qualidade de soldado do réu. Respondi com convicção:
-Um excelente e infeliz soldado.

A pena foi de vinte e três anos de prisão maior, a cumprir em estabelecimento penal adequado na Metrópole.

Nunca mais o vi, mas tive notícias de que o rapaz não cumpriu nem metade da pena.
__________

(1) Vd. posts anteriores:

8 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(6): dos Lordes e das bestas

3 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXCVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(5): ecumenismo e festa do fanado

23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXIII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto)(4): os azares dos sargentos

21 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (3): Dauda, o Viegas

13 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXLVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (2): Ordem de marcha

10 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXVII: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (1): Prelúdio(s)

(2) O Soldado Condutor Auto Rodas José Manuel Vieira Cavaco abateu a tiro o primeiro comandante da companhia, Alferes de Artilharia, graduado em Capitão, Fausto Manteigas da Fonseca Ferraz, na noite de 24 para 25 de Dezembro de 1966 (Natal), no aquartelamento de S. João [, frente a Bolama,]onde a unidade se encontrava em treino operacional.

Guiné 63/74 - P503: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (14): De que lado estaria Deus ? (Agosto de 1969)

Guiné-Bissau > Buba > Tabanca de Lisboa > Antigos guerrilheiros do PAIGC, hoje perfeitamente integrados na comunidade local.
© José Teixeira (2006)


XIV Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


Buba, 4 de Agosto de 1969

Ao comemorar o 6º aniversário da implantação do terrorismo na Guiné (1), o Sr. Amílcar Cabral queria fazer um grande festival em toda a Guiné. Ameaçou fazer uma grande surpresa, nomeadamente em Buba. Afinal limitou-se a vir cá às 17.45 h e fazer uma pequena serenata de canhão s/r, morteiro 120 e costureirinhas. Apenas uma granada rebentou dentro do Quartel,causando danos ligeiros. De noite ouviram-se rebentamentos por todo o lado. Empada parece que também foi atacada. Nhala, sofreu três ataques: à uma da manhã, às dez e novamente à noite. Mampatá também sofreu a visita do IN.

Buba, 7 de Agosto de 1969

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > Um minúsculo abrigo no quarto dos furriéis. 
 © José Teixeira (2006)

As colunas de abastecimento a Aldeia Formosa e povoações limítrofes continuam a dar que falar. Ontem, seguiu mais uma e ao chegar ao Pontão de Uane, uma mina anticarro rebentou debaixo da 14ª viatura, projectando os seus ocupantes a grande altura, pois a viatura seguia sem carga. Três mortes instantâneas, todas de africanos e nove feridos graves, entre os quais dois colegas meus. Foi este o resultado.

Eu não fui esperar a coluna porque estou com baixa médica. Sinto-me muito fraco e abatido psicologicamente.
Ainda não sei quando regresso a Empada, talvez, lá para o fim do mês.

Dá que pensar porque é que a viatura atingida foi a 14ª, portanto já no meio da coluna que seguia o trilho das outras treze anteriores, carregadas e bem pesadas.

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > "Aqui morreu o Conceição"
© José Teixeira (2006)


Buba, 9 de Agosto de 1969

Estou doente, sem forças, as pernas parece que não podem com o corpo. O apetite é pouco. Fui ao médico que, além de me receitar medicamentos reconstituintes, deu-me dispensa por uns dias.

Estou sozinho em Buba com metade da Companhia. Insisti desde sempre que não aguentava a carga e que devia ser chamado outro enfermeiro de Empada. Fui-me abaixo das canetas e estão a sair Enfermeiros da Companhia 2382 com os meus companheiros, o que nunca devia acontecer e está-se a gerar um mal estar, entre colegas e amigos, desnecessário. Segunda Feira termina a minha dispensa, mas eu ainda não me sinto bem. Vejamos que me vai dizer o médico.


Buba, 13 de Agosto de 1969

Está por cá o Padre Manuel Capitão, Coordenador dos capelães na Guiné, grande amigo, e que encontrei há tempos em Bissau, quando regressei da Metrópele de férias. Desde alguns dias que anda de visita ao Sector. Hoje foi acompanhar a coluna para Aldeia Formosa até Nhala e regressou no Héli que foi fazer uma evacuação de um ferido na sequência de um contacto com o IN.

A minha saúde continua abalada, felizmente com tendência para melhorar. Ontem, devido a uma grande caminhada de patrulhamento com o fim de preparar o terreno para a Coluna de hoje, não aguentei e os meus colegas tiveram de me transportar, até ao quartel. Depois de descansar fiquei melhor. Hoje sinto-me bem e tenho a esperança que em breve ficarei no lugar.

Quando estive com o Padre Capitão em Bissau, tentei aprofundar esta e outras questões sobre a assistência religiosa em tempo de guerra e a posição da Igreja Portuguesa colaboracionista com o poder político que manda matar em nome dos princípios cristãos, e a actuação dos capelães, passiva e nada evangélica, para não desagradar aos Comandantes, aos fazedores da guerra.

Eu já sentia dentro de mim a revolta. De que lado estaria Deus? Com os Portugueses que teimavam em dominar um povo pelas armas ou com esse povo que queria seguir o seu destino, ou não estaria com ninguém e apenas apelava aos homens para darem as mãos para construirem um País novo? Qual devia ser a missão do Sacerdote ? Como falar ao Soldado que tinha deixado forçadamente a sua família, o seu emprego para matar ou ser morto?

Nesse encontro pôs-me fora do gabinete, mas em Buba, ele que nunca tinha saído de Bissau, e quis vir ver como as coisas se passavam no terreno, deu-me razão. Chorou por não poder fazer nada. Sentia-se amarrado. O Sistema Militar condicionava-o e os Capelães que os Bispos lhe mandavam, na sua maioria eram sacerdotes com problemas e nada preparados para este tipo de missões.


Buba, 16 de Agosto de 1969

Mais 24 toneladas de material apanhado ao IN no Norte, perto de Ingoré (2). As nossas tropas destruiram cinco destacamentos do IN, entre os quais Canchungo, Mâmpatas e Sane, todos perto de Ingorei, por onde andei nos primeiros três meses de guerra. O IN fugiu e os nossos tiveram 6 feridos. Parece que o exército senegalês auxiliou a fuga a pretexto de assistência médica.
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Notas de L.G.:

(1) Referência ao 1º taque do PAIGC a um aquartelamento português (Tite) em 1963 ? Não foi em Agosto (4), sim em 23 de Janeiro (efeméride que é apontada, em geral, como a do início da luta armada na Guiné

(2) Ingoré: no norte, junto à fronteira com o Senegal, na estrada entre Sedengal e Bigene. Pertence à actual região do Cacheu.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Guiné 63/74 - P502: Tantas Vidas, o blogue do nosso camarada Virgínio Briote

1. Temos mais um camarada nosso que se tornou bloguista: o Virgínio Briote (ex-alferes miliciano comando, Brá, 1965/67).

É com muita satisfação (e até com uma pontinha de orgulho por ter sabido seguir as pisadas de outros bloguistas e tertulianos como eu, o João Tunes, o Jorge Neto... ) que vejo o nosso VB a dar os primeiros passos na pilotagem do seu próprio blogue... A gente já sabia que ele tinha o bichinho da escrita. A blogosfera é um outro passo a seguir, lógico e natural... Sentimo-nos honrados por ele ter andado também connosco, nestes últimos meses...

O VB escreveu-me a comentar o "excelente o trabalho feito pelo Jorge Neto. Enviei-lhe uma pequena mensagem a agradecer o trabalho. Acho que estou demasiado sensível, fiquei com os olhos húmidos".

Por outro lado, comunicou-me que o blogue foi uma surpresa e uma prenda dos filhos: que ternura!... O blogue chama-se Tantas Vidas. "Estou a aproveitar o espaço para treinar, relato pequenas histórias do dia a dia e vou publicar algumas partes dos meus dias na Guiné".

Desde 6 de Fevereiro, o italiano (sic) já lá pôs uma meia dúzia de boas estórias na categoria Guiné. Tem outra secção (ou categoria) chamada Contos Curtos, altamente promissora (Que estória, de primeira água, a do Inácio, militante delicado!)...

O nosso VB, um andarilho do mundo, promete: talento, sensibilidade, fino trato, sentido de humor, capacidade de efabulação, matéria-prima, mundo percorrido, vidas vividas... nada lhe falta. Tivemos aqui o privilégio de publicar algumas peças dele, que são de antologia... Espero que ele continue a aparecer por aqui, quanto mais não seja em patrulha... de nomadização.

Boa saúde, boa navegação, camarada! E que o teu belo exemplo contagie outros amnigos e camaradas. Por que viver e escrever... é preciso!

PS - Adorei o post 1. O Caminho para lá: deliciosa descrição da viagem até Guiné, no Alfredo da Silva, com as peripécias do Capitão Matos e do Alferes Gil no Funchal, no Mindelo, em Bissau... Cinco estrelas, VB!


2. Outro bloguista, mas este veterano, é o irrequieto, o fabuloso, o contundente, o dramático João Tunes. A sua Água Lisa já vai em 5ª edição. É um apaixonado da vida, do cinema, da sua terra, é um cidadão do mundo, crítico, mas solidário e generoso... Mais dinamarquês do que os dinamarqueses e mais alegre que o Alegre... O seu humor é corrosivo, zurzindo a estupidez e o delírios dos poderosos. É um trabalhador infatigável, e um camarada de grande coração. Não esconde o seu coração é verenelho e que bate do lado esquerdo. É inimigo declarado do dogmatismo e do fundamentalismo. Tem o grão de loucura q.b. que nos garante a sua sanidade mental. É também uma espécie em vias de extinção. Tal como todos nós.

Aqui fica o post que ele escreveu, sinalizando a entrado do novo cibernauta, o VB, no domínio da blogosfera.

Título do post, de 9 de Fevereiro de 2006: E Amílcar de nós tão perto, não foi ?. Aqui se transcreve, com a devida vénia (neste caso, continência!) e em homenagem aos dois bloguistas, o periquito e o velhinho:

"Ora bem, camarada. Sabes que desde que apareceram os teus primeiros textos no blogue comandado por Sexa o Furriel Doutor Luís, sou apreciador da tua escrita, a que ajuda o facto de partilhar a substância da tua visão do mundo e, sobretudo, a forma de olhares a memória, uma memória em que tantos entrámos e por lá ficámos, parados, lixados sempre, a olhar um absurdo, o nosso absurdo comum (o daqueles a quem, putos como todos os putos, casaram à força com uma G3). Fiquei emocionado, defeito da idade (é isso, um gajo quando entra na velhice, torna-se incontinente, emociona-se com facilidade e até chora quase por dá aquela palha) ao ler-te neste teu novo projecto de partilha. É que tu escreves, pensando e sentindo a escrita. E ... bem, muito bem! E se, como dizes, ainda estás a fazer o treino, o que não escreverás quando entrares em combate! Obrigado pelo teu aviso (já te linkei).


Guiné > A famosa foto do líder do PAIGG, de pé, numa canoa, atravessando um rio... Fonte: Origem desconhecida. Reproduzida no Água Lisa(5), blogue do João Tunes.

"Envaidece-me saber que aprecias o Água Lisa. O meu blogue já vai para dois anos e meio e a saturação nota-se. Agora só vou pingando, mais com resmungos de velho impaciente que outra coisa. E não poucas vezes, entorno para a intolerância ou, de outra forma dizendo, para o absoluto. E vou-me apercebendo de como, sem quase dar por isso, vou cristalizando vícios moralistas que tanto me irritavam nos velhos do tempo em que eu era jovem e me faltava a paciência para os aturar. Mas se o tempo não anda para trás nem dá pulos e avança, que seja como é. Olha, ainda vou teimando, enquanto a rebeldia de espírito não tiver direito a uma pá de cal e uma coroa de flores. E, por vezes, fico-me com a sensação que a nossa sociedade caminha para o autismo, o deixa andar, o demissionismo cidadão, a censura e a auto-censura, democraticamente regredindo-se, e eu mais me vou convencendo que, se os velhos rebeldes se calam, a malta nova ainda tem a tentação de deixar tudo andar para trás e experimentarem, outra vez, a falta de liberdade para depois reconstruírem a aventura e os riscos de a voltarem a conquistar. Pensamentos enfeitados de pesadelos que são uma completa basófia, concedo.

"O melhor para ti, camarada e amigo. João Tunes".

Guiné 63/74 - P501: A sanha revolucionária e os meus Jagudis (A. Marques Lopes)


Texto do A. Marques Lopes, ex-alferes miliciano atirador de infantaria (CCAÇ 1690, Geba; CCAÇ 3, Barro, 1967/69), hoje coronel, DFA, reformado.

Foto > Guiné > Barro > 1968 > CCAÇ 3 > O Grupo de Combate do Marques Lopes, Os Jagudis, fazendo uma pausa no mato. Eram quase todos de origem balanta, por escolha do seu comandante. Havia um cabo, fula, e três furriéis brancos.

© A. Marques Lopes (2005)


A propósito do que o amigo Mário Dias diz sobre "a sanha revolucionária dos que, a seguir ao 25 de Abril de 1974, consideravam como bestas criminosas todos os que tinham combatido ao lado de Portugal - militares portugueses incluídos" (1), permitam-me que possa discordar desta ideia com alguns laivos de generalização.

E lembrar que os principais intervenientes (assim como outros que não estiveram, por várias razões, na primeira linha) da revolução foram combatentes activos na guerra e, referindo-me expressamente aos que estiveram na Guiné, conheciam bem e estimavam os combatentes africanos que lutaram ao lado dos portugueses.

Se o Mário Dias se refere a alguns grupelhos ultras então existentes, com alguns dos seus antigos elementos agora em posições na vida governativa e partidária, e até em altas instâncias internacionais, pode ter razão quanto à sanha revolucionária mas não que eles tenham decidido alguma coisa, nos idos tempos da revolução, sobre o futuro dos ex-combatentes.

Lembro que as independências, nomeadamente a da Guiné, a reconhecida por Portugal [em 10 de Setembro de 1974], se deram na fase acesa do período revolucionário. A velocidade e a complexidade dos problemas então existentes ter-se-ão presentado com mais urgência aos, então, responsáveis. Mas lamento e concordo que foi errado não ter tido também a preocupação para com a sorte dos combatentes africanos.

E digo isto porque sei que alguns dos meus Jagudis de Barro também foram fuzilados após a independência da Guiné, o que, obviamente, me entristeceu muito. Mas peço ao Mário Dias que não pense que foi a sanha revolucionária. Foi, sim, a falta de preocupação, havia outras... que não é desculpa, nem justificação, estou de acordo. Aliás, é o que pensam os actuais governantes relativamente aos ex-combatentes.

Quanto aos fuzilamentos no Cumeré, num encontro que tive com ele há alguns anos, o Luís Cabral garantiu-me que não foi ele o responsável mas sim o Nino Vieira, por iniciativa própria, como Ministro da Defesa de então. E, porque o conheço como pessoa, acredito que o Luís Cabral não tomaria uma decisão dessas, assim como não a tomaria, penso eu, o Amilcar Cabral, se fosse vivo na altura.

Lembro que a vingança dos vencedores de uma guerra de libertação (ou assim considerada) para com os que estiveram do lado do inimigo sempre deu em situações dessas. Os partisans franceses mataram muitos colaboracionistas após a libertação, os franquistas mataram muitos republicanos após a sua vitória, os vietcongs mataram muitos sulistas após a saída dos americanos... Claro que, porque os conheci e vivi com eles, gostava que isso não tivesse sucedido aos meus Jagudis. Lamento e fiquei triste.

A propósito, esteve há pouco tempo em Portugal um jornalista guineense que eu conheço, o António Nhaga, que é correspondente em Bissau do Diário de Notícias. Disse-me ele que um tio dele foi soldado da CCAÇ 3, a companhia onde estiveram os Jagudis. Após a independência fugiu para o Senegal, por lá esteve uns anos, mas está agora em Bissau. Quando lá for proximamente vou-me encontrar com ele.

Abraços
A. Marques Lopes
____

Nota de L.G.

(1) Vd. post de hoje, Guiné 63/74 - DXV: Uma dívida que Portugal nunca pagou aos seus soldados africanos (Mário Dias)

Guiné 63/74 - P500: Cufar, a Bissalanca do Sul (Moura Ferreira)

Luís

Há um lapso no último post, Guiné 63/74 - 499: O Seni Candé da minha CCAÇ 6 (Moura Ferreira)... Trata-se da indicação relativa à localização de Cufar.

De facto, aquele a que me tenho sempre referido é Cufar Novo, a nordeste de Catió, mas que sempre foi conhecido apenas como Cufar (Há, de facto, outro, na região de Mansia).

Este aquatelamento foi ali iniciado em Fevereiro de 1965 pela CCAÇ 763, do Cap Costa Campos e dos Alferes Miguel e Avilez (de quem me lembro). Quase todos os dias recebia flagelações a partir da mata de Camaiupa, onde se manteve até Nov/66, quando foi substituída pela minha CCAÇ 1621.

Foi sempre, pelo menos durante os anos em que ali estive, a Base Aérea do Sul. Era uma alternativa a Bissalanca, quando se processavam grandes operações no Sul da Guiné. Havia ali sempre grande movimentação de aeronaves, incluindo Dakotas, Paraquedistas e Comandos.

No meu tempo tive ali como visita, que nunca esquecerei, a 3ª Companhia de Comandos, do Cap Alves Cardoso. Penso que foi a única a quem foi permitido pelo Ministro do Exército usar boina camuflada.

A pista de aviação tinha cerca de 800m, começava junto aos abrigos e terminava na mata.

Em determinada altura (finais de 66) recordo-me que um Fiat pilotado por um Sarg Ajudante Piloto, de que não me recordo o nome, mas de quem guardo a imagem da lividez do rosto e da testa perlada de gotas de suor frio, quando saiu do cockpit, ao parar o Caça, junto ao arame farpado, com o motor parado.

Foi-nos dito que aquela façanha de um Fiat, naquelas condições, baixar em uma pista daquela dimensão e de terra batida, não plana mas em lomba, apenas poderia ter sido efectuada por aquele militar.

Mas perguntarão por que carga de água teria ali baixado o Fiat? Eu explico. Nessa altura a Mata do Cantanhez era um Santuário do Turras, onde sabiamos haver todas as estruturas desde as de ensino, às médicas e outras (abrigos muito bem construídos e talvez antiaéreas). Por essa razão, era habitual e frequente, por vezes diariamente, efectuarem-se bombardeamentos aéreos nessa zona. Nós em Cufar ficávamos a ver o espetáculo do outro lado do Rio Cumbidjã, que como poderão verificar no mapa era absolutamente possível.

Ora numa dessas operações de bombardeamento aconteceu o motor do Fiat a que me referi, parou à vertical do Cantanhez. Aquele avião ao que me é dado saber parece que a cair é uma pedra, mas o tal Sarg. Ajudante, consegui trazê-lo, se assim se pode dizer, a planar até à pista, quando deveria regressar a Bissau. E fê-lo nos limites, pois ainda rapou as copas das árvores, no inicio da pista com o trem de aterragem.

Claro que para sair dali a aeronave teve que ser desmanchada e levado às peças para ser remontado em Bissau. Esta situação ainda permitiu que alguns de nós, incluindo eu, fossem desenfiados até à Capital fazer uma visitinha à 5ª Rep. para saber novidades.

No meio disto tudo ainda nos rimos e não só de alegria pelo desfecho da ocorrência, mas também pelo facto de como estávamos sem receber correio há muito tempo (seguramente 2 semanas, o que já era uma eternidade) quando o pessoal viu o Fiat a baixar todos correram ao seu encontro gritando de satisfação e para dar conhecimento aos mais distraídos de que Vem aí o correio

Espero ter esclarecido e ao mesmo tempo contribuído com uma estória para o nosso convívio.

Um abraço.
Hugo Moura Ferreira

Guiné 63/74 - P499: O Seni Candé da minha CCAÇ 6 (Moura Ferreira)

1. Texto do Hugo Moura Ferreira (ex-alf mil inf, CCAÇ 1621 e CCAÇ 6, Cufar e Bendanda, 1966/68):

Caros Luís, Jorge e José Neto:

Mas que recordações em catadupa que vocês fizeram chegar à minha memória! De tal forma foram fortes que me tornaram os olhos húmidos.

Sabem... Eu estive na CCAÇ 6, de Julho de 1967 a Julho de 1968, e algumas daquelas pessoas de quem o Seni fala, também são dos meus conhecimentos, nomeadamente o Cap Silva. Era o Gastão, no meu tempo. Esteve ali a fazer o tirocínio como Alferes, depois de sair da Academia Militar e voltou mais tarde a comandar a CCAÇ 6, como Capitão.

Pela minha parte tenho que reconhecer que não me lembro do Seni, pois certamente nessa altura ainda não era do meu Grupo de Combate, que era o 2º.

Mas fiz com toda a certeza operações com ele, nomeadamente a Nhai e a Cabolol, numa altura que o Cantanhez, do outro lado do Cumbidjã, ainda era um santuário.

Ao verificar os meus canhenhos encontrei informação acerca dele, visto que tenho a listagem de todo o pessoal que fez parte da Companhia até finais de 1968 e penso que ele, antes de ser integrado na tropa territorial, onde, pelo que afirma o Jorge Neto, tinha o nº 397/65, era o 1º cabo 106/65, do Pelotão de Mílicia nº 143, adido à CCAÇ 6, por motivos operacionais, comandado pelo Alferes de 2ª Linha Tala Biú Djaló que, se não tivesse morrido em combate em Conacri, como furriel dos Comandos Africanos, hoje seria o Régulo do Cantanhez.

Quanto ao que ele afirma sobre os fuzilamentos, não sei se sabem que daquela companhia cerca de 50% do pessoal, infelizmente, terminou os seus dias dessa forma inglória. Que o digam alguns pilotos de helis, da nossa Força Aérea, que depois de terminada a guerra transportavam os elementos do PAIGC (desconhecendo, mas desconfiando) para esse fim, mas que eram aconselhados a não ouvir nada e a desconhecer tais factos.

Infelizmente são consequências do tal abandono que os iluminados de cá e desses tempos votaram aqueles que tinham optado por nos ajudar na convicção de que a razão estaria do nosso lado.

Mas, como achega, colocando a questão de forma particular ao José Neto que desta matéria certamente saberá mais que nós, milicianos, gostaria de perguntar uma coisa e justificar porque é que o faço.

Assim, sendo o Seni Candé um deficiente das forças armadas, cuja incapacidade foi adquirida antes do 25 de Abril de 1974, não lhe teria sido atribuída uma pensão? Não me parece normal que o não tivesse sido. E será que, a ter-lhe sido atribuída essa pensão, ela não teria em determinada fase sido remetida para a Guiné-Bissau a fim de ser entregue ao interessado, e não ter chegado ao seu destino?

É que eu tenho um amigo, que foi meu soldado em Cufar (ou Cufar Novo, a Nordeste de Catió] quando na CCAÇ 1621 (Nov 1966 / Jun 1967), antes de ir para Bedanda, que em 1968, tendo sido ferido por uma A/P e ficado sem uma perna, seguiu para a Alemanha e depois para Lisboa, onde se manteve algum tempo. Nessa altura foi-lhe atribuída a esse camarada (cujo nome não interessa para o caso) uma pensão por incapacidade.

Quando se deu o 25 de Abril, ele deixou de receber a referida pensão porque, ao que veio a saber posteriormente, ela era remetida pelo Governo português, como tantas outras, através das vias oficiais, destinadas aos interessados, mas sendo recebidas em Bissau nunca lhes foram entregues.

A partir dessa altura passei eu a ser o seu procurador e depositar a pensão aqui, na CGD [Caixa Geral de Depósitos]. Em 1977, optou pela nacionalidade portuguesa e actualmente passa por cá uns tempos e na Guiné os necessários para organizar e gerir os seus negócios principais, mas continua a receber aqui na CGD, regularmente, as suas pensões.

Por tudo isto não poderíamos nós por cá tentar saber algo mais acerca da possibilidade do Seni ainda vir a receber algo e se, na realidade, alguma vez lhe foi atribuída a pensão?

Se me disserem onde dirigir, disponibilizarei tempo e certamente tentarei saber algo mais. Possivelmente o Jorge Neto terá mais informação acerca do moço.

Claro que fazer isto apenas a um de tantos necessitados não iria resolver muito, mas ao Seni de certeza resolveria.

Que acham? Mãos à obra? Ou este pensamento é uma utopia?

Um abraço.
Moura Ferreira


2. Comentário do Jorge Neto:

Caro Moura Ferreira e restantes tertulianos,

O Seni contou-me um pouco mais do que aquilo que está no Blogue. De facto ele recebeu uma pensão durante uns anos. Não me recordo se até 1985!!!... Mesmo estando "refugiado" na Gâmbia, parece que era a mulher que a ia receber à embaixada ou à administração em Catió... Sinceramente não me recordo. Daqui para a frente não sei mais nada. Terá perdido a pensão? Nunca mais a reclamou? Sei que essa mulher entretanto morreu. Isso terá tido influência?

(...) Isso agora também não importa. Importa antes ajudá-lo, pois está com 11 filhos e tenciona ter mais (como ele diz, "enquanto a espingarda atirar"). O mais novo tem 18 meses e o mais velho 30 e tal. Nem todos estudam porque o dinheiro não chega!

As recordações e os documentos do Moura Ferreira poderão ser úteis caso seja difícil encontrar registos do Seni (que em Portugal, segundo ele, foi registado como Suni Candé ou Sani Candé) nos arquivos das FA. O Seni contou-me que a mãe lhe queimou todos os documentos após a independência e ele agora não tem como provar que foi combatente.

Pela minha parte posso ver quais os próximos passos a dar junto do adido militar da embaixada de Portugal em Bissau. Vamos a ver o que ele me aconselha. Vou entregar-lhe as gravações e explicar-lhe o problema (...).


3. Resposta do Moura Ferreira:

Caro Jorge Neto e demais camaradas:

Obrigado pela resposta pronta. Depreendo que vamos então tentar saber mais sobre o Seni. Fico a aguardar mais alguns elementos e instruções.

Para já vou dar uma volta pelo Arquivo do Exército, em Chelas, onde estão os processos individuais, mas tenho sérias dúvidas porque no Arquivo Histórico-Militar, em Santa Apolónia, no que se refere à CCAÇ 6, apenas ali encontrei um processo relativo a 1973 e 1974. Mas irei tentar outra vez (...).

Guiné 63/74 - P498: Uma dívida que Portugal nunca pagou aos seus soldados africanos (Mário Dias)


Guiné > CCAÇ 12 > 1970 > Travessia de uma bolanha durante uma operação na ZA do Xitole... A CCAÇ 12 era uma companhia de quadros metropolitanos, de rendição individual, e de soldados do recrutamento local, de origem étnica maioritariamente fula (e, geograficamente, da actual região de Bafatá). Não sabemos o que terá acontecido a muitos deles a seguir à independência do território.
© Humberto Reis(2006)


Ainda sobre o pungente caso do Seni Candé, que pela quarta vez estive a escutar é, na verdade, uma vergonha para Portugal que existam situações destas. E existem. E são muitas.

Poder-se-á desculpar a sanha revolucionária dos que, a seguir ao 25 de Abril de 1974, consideravam como bestas criminosas todos os que tinham combatido ao lado de Portugal - militares portugueses incluídos - ao ponto de praticamente os entregarem à fúria vingativa PAIGC (Neste caso). Não nos esqueçamos dos comandos africanos abandonados à sua sorte (apesar das promessas do Brigadeiro Fabião) e fuzilados no Cumeré por ordem de Luis Cabral.

Mas passados tantos anos, assente a poeira do tempo que nos deveria deixar ver os acontecimentos sem qualquer espírito ideológico nem desejos de infundadas vinganças, é de lamentar que por parte dos governantes não exista vontade de reparar tantas injustiças.

Pior ainda: quando surge alguém a tentar remediar o mal cometido, e mantido ao longo destes mais dos 30 anos que já passaram, logo surgem as vozes do costume a chamar fascista, saudosista e quejandas expressões, e tudo fazem para que esta vergonha nacional não seja reparada.

Pelo que me toca, embora a solução não esteja nas minhas mãos, nunca deixarei de a denunciar sempre que a oportunidade surge, como é ocaso presente.

Um abraço
Mário Dias
(ex-sargento comando, Brá, 1963/66)

Guiné 63/74 - P497: A CCAV 3420, do Salgueiro Maia e do José Afonso: presente!

Texto do José Afonso, natural do Fundão, ex-furriel miliciano da CCAV 3420 (1971/73):

Amigo:

Ainda há pouco me comecei a iniciar na Net e, logo de início, a minha preferência foi precisamente procurar algo sobre guerra colonial, em especial sobre a Guiné...

Tive o prazer de verificar haver muita coisa sobre essa antiga província e, porque sou um devorador de tudo quanto à Guiné diga respeito, desde livros, revistas ou publicações editadas por jornais diários, tanto em fascículos como publicações semanais, à gravação de todos ou quase todos os programas de televisão em cassete passando pela a compra de muitos livros, uma cassete gravada em 73 na Guiné (com um pouco do programa das Forças Armadas, o PIFAS, um noticiário do PAIGC, um noticiário nosso e a gravação de um ronco) até um LP distribuído no Natal de 1971 pelo Movimento Nacional Feminino (cassetes e LP com gravação má)... tudo isso me faz recordar pela positiva mesmo os maus momentos passados.

Talvez até porque pertenci a uma companhia de cavalaria, comandada pelo saudoso Salgueiro Maia, e de termos estado sempre em zonas de combate - Bula, Mansoa, Farim, Binta, Guidage -, tivemos a sorte de ter apenas 2 feridos graves e 3 ou 4 ligeiros.

Fomos nós, a CCAV 3420, os Progressistas ( nome que os altos comandos militares não queriam deixar passar por ser ousado de mais antes do nossa ida para a Guiné).

Estavamos com a comissão terminada e a aguardar regresso à Metrópole - e porque fomos sempre considerados uma companhia boa em combate-, quando tvémos que ir romper o cerco a Guidage com uma companhia de infantaria e a 38ª de comandos.

Foi realmente uma fase de angústia e revolta mas, com o saber e o óptimo condutor de homens que tínhamos, conseguimos ultrapassar tudo.

Vais desculpar-me o tratamento por tu. Alonguei-me em demasia quando o que pretendia era apenas saber como entrar no blogue. E também confirmar a indicaçao do dia do almoço anual da companhia que, desde que faleceu Salgueiro Maia, sou eu a organizar... Anualmente desde há uns 5 anos, para que não morra o elo que nos ligou uns aos outros ao longo de 27 ou 28 meses de Guiné.

O amigo Albano Costa teve a gentileza de te enviar (e já está no blogue) um trabalho que fiz sobre a zona de Guidage na altura em que nós lá fomos parar, sabendo que a situação era má mas não tanto. E porque foi a companhoia dele que foi para Guidage quando a situação ja estava mais calma, foi essa a razão de entrar em contacto com ele.

Amigo, as minhas desculpas por este texto. Por vezes esquecemo-nos do tempo quando falamos desse tempo da nossa juventude onde maus e bons momentos estão quase todos metidos no mesmo saco e onde as dificuldades nos levaram a criar as melhores amizades.

Um abraço...
José Afonso

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Guiné 63/74 - P496: Estórias do Zé Teixeira (2): Dôtor, Bô ka lembra di mim?

Guiuné-Bissau > Empada > 2005 > O Zé Teixeira reencontra o seu antigo ajudante fermero, Braima. 
© José Teixeira (2006)


Dôtor, Bô ka lembra di mim ?

Passados largos anos, após o regresso da guerra, recebi um telefonema do Dr. Azevedo Franco, meu querido amigo, médico, que fez grande parte da sua comissão em Buba. Tinha-lhe aparecido no Hospital o Mudé Embaló e não tinha soluções de futuro para o puto.

O Mudé tinha-se iniciado, como ajudante de fermero, com onze/doze anos, na Chamarra, com o meu colega de Companhia, Jorge Catarino que lá se encontrava integrado no seu pelotão. Na minha curta passagem por Chamarra ( cerca de dois meses) (1), pude apreciar o jeito, a capacidade de aprender do miúdo. Era muito esperto, educado, sempre disponível e cativante na forma de estar.

Dois dias depois do meu regresso a Buba, apareceu-me na enfermaria logo de manhã. Tinha-se metido a caminho pelo mato. Catarino e Teixeira eram os seus ídolos e queria ser fermero.

Criou amizades com os outros enfermeiros e com o médico, e por lá continuou quando abalámos para Empada.

Chegada a independência, foi para Bissau. Estudou até ao 2º ciclo, mas o seu sonho era vir para Portugal, e estar com os seus amigos.

Começou por dar explicações. Assim ganhou algum dinheiro para a passagem de avião. Comprou um cheque em USD que escondeu na sobrecapa de um livro que sempre o acompanhava e desembarcou em Lisboa.

O seu destino era o Porto, pois sabia que o Dr. Azevedo Franco morava no Porto. Meteu-se no comboio e chegou a Campanhã. Logo começou a perguntar pelo Dr. Azevedo Franco, até que alguém teve a feliz ideia de lhe indicar o Hospital de S. João. Deste para o de Santo António e por último o de Rodrigues Semide, até que . . .
- Dôtor, Bô ká na lembra di mim ? Sou o Mudé qui firma na Buba...
- E agora que vamos fazer com o puto ? - dizia-me o doutor...

Tentei empregá-lo num escritório pois dizia-me que sabia escrever à máquina. Tinha trabalhado num escritório em Bissau. Puro engano, levou mais de uma hora a escrever meia dúzia de letras.

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > A antiga enfermaria do Zé Teixeira.
© José Teixeira (2006)

Alguém conseguiu empregá-lo em Lisboa numa clínica, como auxiliar, mas . . . julgava-se enfermeiro e não estava para fazer os trabalhos próprios da função, muito menos limpezas. Desenrascou-se sozinho e desapareceu.

Passados dois/três anos reapareceu com novo problema. A mãe tinha sido mortalmente atropelada em Bissau, um irmão tinha morrido na guerra colonial e o outro, o Sáculo, que eu conheci, pisou uma A/P [mina antipessoal]. Então este enviou-lhe uma mensagem para ir ao avião buscar uma encomenda. Ele foi e a encomenda era ... a Djubae, a sua irmã com 6 anos.

Conseguiu-se que esta entrasse num colégio em Lisboa. Ela fez o 12 º ano e hoje se alguém, na margem sul do Tejo, tiver o azar de receber ordem de paragem por uma agente da Brigada de Trânsito de cor negra, pode saudá-la com O corpo di Bô ? ou o Ná pinda, pois é a nossa Djubae, agora com um nome europeu, creio que Carla ou Conceição.

O Mudé Embaló perdeu-se algures entre Portugal e a Holanda e nem a família que localizei em Sinchã Sambel ( Saltinho) sabe do seu paradeiro.

Quanto à Djubae, essa, já lá voltou, toda orgulhosa. Ela tem otoridade em Portugal.

Zé Teixeira
(ex-1º cabo enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).
 __________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 19 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXI: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (8): Chamarra, Janeiro de 1969

Guiné 63/74 - P495: Memórias do antigamente (Mário Dias) (1): Um cabaço de leite


Guiné-Bissau > Bissau, capital do país. Planta da cidade, pós-independência. (Vd. mapa ampliado na página sobre sobre Bafatá e Bissau)

© A. Marques Lopes (2005)


Começamos hoje a dar ínicío à publicação das memórias do Mário Dias relativamente à sua experiência na Guiné, como civil, na década de 1950. O Mário foi depois sargento comando durante a guerra (Brá, 1963/66).


Um cabaço de leite

Naqueles longínquos anos da década de 50 (do século passado) cheguei à Guiné ainda adolescente. Como qualquer pessoa nessa fase da vida, também o apelo da magia africana me enfeitiçava. Trazia a cabeça cheia com as descrições fantasiosas sobre África:
- Cuidado com os leões. Há bichos perigosos por todos os lados. Os pretos são muito maus. Ainda há antropófagos. É tudo selva inóspita.

Depressa verifiquei quão erradas eram as atoardas que um pouco por todo o lado pretendiam caracterizar aquelas terras. Encontrei um povo afável, uma terra linda, linda, linda como não imaginava pudesse existir. Foi amor à primeira vista!

Bissau era uma cidade pequena mas onde apetecia viver. Desfeito no meu espírito o mito de leões a rondar as casas, de selvagens canibais e de outras intimidantes tragédias, parti à descoberta da terra.

Guiado pelos amigos que rapidamente fiz, onde se incluíam naturais da Guiné, iniciei-me no convívio com os guineenses. Terminado o trabalho diário, lá íamos nós, avenida da República acima, praça do Império, - vira aí à esquerda, pá - direitos ao Alto do Crim. À nossa esquerda iam ficando os que se entretinham a treinar futebol no então chamado estádio Sarmento Rodrigues (1). Os mais esclarecidos informavam:
- Hoje é a UDIB. Estás a ver as camisolas com aquela risca verde larga, ao meio da camisola branca? É o equipamento deles. O Benfica tem camisolas iguais ao de Lisboa e o Sporting também.

Mais ao fundo, os mais afortunados jogavam ténis e nos campos ao lado praticava-se basquetebol e hóquei em patins. E a alegre comitiva prosseguia rua fora até alcançar o intrincado labirinto de ruas bordejadas por casas e moranças. À sombra de frondosas árvores, os habitantes repousavam as fadigas do dia conversando ou simplesmente meditando - sabe-se lá - talvez na dureza da vida que nem para todos era fácil. E, conforme avançávamos, íamos lançando à esquerda e à direita:
- Bôs tarde, bu ´stá bom ? qui noba di corpo? - Rostos afáveis e sorridentes nos respondiam, cabeças respeitosamente se descobriam. Uma ou outra mulher, atarefadas à volta dos potes de ferro onde se cozinhava a bianda, convidavam:
- Branco, bim nó cúmi.
- Obrigado, pa Deus djudábo. (Deus te ajude). - E neste doce deambular, o dia ia chegando ao fim. Quando as garças rompiam o céu direitas ao Ilhéu dos Pássaros onde pernoitavam pousadas nos frondosos poilões, sabíamos que eram horas do regresso. O crepúsculo era rápido e a noite calma caía sobre a terra tudo envolvendo no seu misterioso manto.

Estes passeios exploratórios eram muito frequentes e assim fiquei a conhecer, Gambeafa, Cupelon (2), Chão de Papel, Santa Luzia, Bandim, e mais bairros à volta de Bissau (3). Surgiu, porém, uma actividade em que me iniciaram e conquistou a minha preferência: a venatória. Nada de leões ou outras feras. Nem gazelas ou outros antílopes, que essas exigiam armas de maior calibre que não tínhamos nem autorizavam - devido a sermos menores - e só se encontravam em zonas já mais afastadas da cidade. Simplesmente rolas ou os saborosíssimos pombos verdes que abundavam por todo o lado e caçávamos com as pequenas espingardas de cartuchos de 9 mm conhecidas por flauberts.

Aos poucos fui-me tornando, ou julguei ser, um perito. Já me sentia na pele dos caçadores de feras africanas que povoavam os meus sonhos nos verdes anos. E foi assim que um belo dia, resolvi que estava na hora de me aventurar sozinho. Pensei, pensei, e decidi.

Num belo domingo, ainda o dia não tinha despontado, sorrateiramente peguei na flaubert e, pé ante pé para não acordar ninguém, saí da cidade caminhando para os lados de Bór. Antevendo a fartura de rolas e pombos verdes com que iria surpreender o meu pai e irmãos estuguei o passo. O local onde, com os meus amigos, anteriormente tinha visto e caçado muitas, ainda ficava longe. Quando finalmente lá cheguei, delas, nem sombras. Que desilusão! Fugiram? Naquela altura ainda não sabia que as aves, só de manhã muito cedo e ao fim do dia, ali se encontravam para passar a noite. Durante o resto do dia deambulavam por bolanhas ou por onde houvesse cereais e outras sementes.

Decidido a não voltar de mãos a abanar, continuei campo fora, olhar fixo nas árvores, ouvidos tentando escutar o arrulhar das aves. A manhã escoava-se. Nada. Raios dos pássaros, por onde andariam? À desilusão, sobrepunha-se a minha vontade de conseguir uma frutuosa caçada; doutra maneira iria ser alvo de gozo. E pensando no fracasso, dizia com os meus botões que o melhor seria não contar a ninguém tal desaire. Continuei o caminho e andei, andei, andei… o sol queimava, como é sua obrigação. Não sei se instintivamente, porque o calor era muito, ou por pensar que no meio do arvoredo seriam maiores as possibilidades de encontrar os fugidios pombos, fui-me internando no bosque, que depois já era mata, e depois floresta cerrada. Como era de esperar, às tantas já não sabia onde estava nem para onde me dirigir. Estava perdido. A tarde avançava e o estômago reclamava pois apenas tinha comido o pequeno-almoço que, embora substancial, à boa maneira africana, não era suficiente para tantas horas de jejum. Não entrei em pânico pois sabia que nada de mal me aconteceria e, além disso, o prazer da caça dominava o meu pensamento.

Finalmente alcancei uma clareira. Ah!... que bom. Aqui talvez conseguisse, pelo menos, um par de rolas. Olhando atentamente uma árvore, para ela me dirigi sempre olhando para a ramagem. E tão atento ia, que nem reparei num tronco partido atravessado no meu caminho. Deu-se o inevitável: tropecei e estendi-me ao comprido no chão cheio de carvão e cinzas do capim recentemente queimado. Fiquei todo enfarruscado; cara, braços e pernas, além de alguns pequenos arranhões.

Continuando a andar, algum tempo depois escutei vozes. Para lá me dirigi sabendo que me indicariam o caminho para alcançar a estrada que me conduziria a Bissau. Deparei com uma morança, debaixo de duas frondosas mangueiras à sombra das quais um homem sentado chupava fumaças do cachimbo. A ele me dirigi e, mal me viu, reparando ma minha figura, soltou um divertido:
- Có, có, có… éh, brancozinho, kuma qui bu fungli sim? (Como é que está assim enfarruscado?). - Contei-lhe, num incipiente crioulo que na altura ainda pouco dominava, a minha odisseia. A cada peripécia ria, bem disposto mas sempre com uma suave compreensão no semblante. Quando terminei e lhe pedi se me podia indicar o caminho que me levasse a alcançar a estrada, disse: Espera. E voltando a cabeça em direcção à palhota chamou. Surgiu uma mulher a quem deu algumas indicações na língua papel que era a sua. Nada percebi mas de imediato soube de que se tratava. A mulher pegou num pequeno cabaço e com ele se dirigiu a uma vaca que se encontrava ali perto e diligentemente a ordenhou. Regressou com o cabaço cheio de leite que, sorridente, me estendeu dizendo:
- Bibi. - Bebi, senti-me reconfortado e agradeci. Visivelmente satisfeito por me ver mais animado, o homem levantou-se e guiou-me até à estrada que, afinal, até nem era longe dali; simplesmente eu, na minha ainda pouca experiência de orientação e no entusiasmo de encontrar os pombos verdes ou as rolas, tinha andado às voltas sem me aperceber.

Enquanto caminhava de regresso a Bissau, fui meditando na afabilidade e simpatia daquela gente da Guiné que nesse dia me tinha sido revelada e se viria a confirmar durante os 14 anos que por lá vivi. Como tudo, afinal, era tão diferente do que corria entre os europeus como sendo a "selvajaria" dos africanos!

Algum tempo depois, logo que um colega de trabalho se disponibilizou a levar-me no carro dele até à morança do meu salvador, fui agradecer-lhe. Levei um garrafão de vinho, bebida que sabia muito apreciarem. Deixámos o carro na estrada, junto do caminho que nos conduzia, a pé, até à casa. Fomos recebidos com evidentes sinais de alegria pelo homem, que continuava a chupar o cachimbo. Oferta entregue, os cumprimentos do costume, as habituais mantenhas, e já nos dispúnhamos a regressar quando ele disse:
- Espera.- E mais uma vez chamou a mulher e deu as suas instruções na língua papel. (ficámos a zero).

A mulher torneou a casa e surgiu com uma galinha que de imediato degolou, depenou, temperou e pôs a assar nas brasas de uma fogueira. Não demorou muito a ficar pronta, tostadinha e apetitosa. Com o nosso hospedeiro foi por nós prontamente devorada, com lamber dos dedos e tudo, acompanhada de alguns copos do vinho que lhe havia trazido. Foram momentos de confraternização e são convívio que demonstra bem como dois povos tão diferentes, ao contrário do que propalavam os que denunciavam atrocidades dos colonos e incompatibilidades ou hostilidade por parte dos nativos, afinal, entendiam-se bem.

Assim era antes da guerra, assim continuou apesar dela ou por causa dela, e assim continua sendo.

© Mário Dias (2006)
___________

Notas de L.G.

(1) Oficial da marinha, governador Geral da Guiné, entre 1945 e 1949.

(2) Pilão, para os tugas do meu tempo...

(3) Vd planta de Bissau.

Guiné 63/74 - P494: Mansambo em 1973 (Sousa de Castro, CART 3494)

Em Abril de 1973, segundo informações do Sousa de Castro, a CART 3493 foi para o Cotumba, e a companhia dele, que estava aquartelada no Xime, a CART 3494 , foi para Mansambo. Ambas petenciam ao BART 3873 (1972/1974), sediado em Bambadinca. Publicam-se duas fotos dessa época.

Guiné > Mansambo > 1973 > O Sousa de Castro mais um camarada da CART 3494, junto ao monumento da CART 2339 - Os Viriatos (1968/69).
© Sousa de Castro (2006)

Guiné > Mansambo > 1973 > O Sousa de Castro junto ao oráculo da Virgem, mandado erigir pela CART 2714 (1970/72), pertencente ao BART 2917 (Bambadinca, 1970/1972). Em baixo pode ler-se: "Senhora, protegei-nos".

© Sousa de Castro (2006)

Guiné 63/74 - P493: O abandono do Seni Candé (Zé Neto)

1. A triste sorte do Seni Candé e de tantos outros combatentes africanos que estiveram do nosso lado e que foram literalmente abandonados por nós, já mereceu alguns comentários dos membros da nossa tertúlia.

O Mário Dias enviou-me as suas memórias da Guiné dos anos cinquenta, para futura publicação, com uma curta nota: "Ainda mal refeito dos arrepios que a história do Seni Candé me causou"... Mais frontal e directo, foi o nosso Zé Neto. Aqui vai o testemunho dele. LG

2. Texto do Zé Neto:

Luis:

Estou arrepiado. O trabalho do meu homónimo Jorge Neto trouxe à minha velha cabeça um turbilhão de pensamentos, sem excluir o sentimento de raiva. Raiva por sentir que a minha voz já não tem a força dos tempos em que estava no activo. Tive muitos amargos de boca, mas também alguns sucessos. E sabes porquê?

Quando acabei o meu curso de Águeda e depois duma esporádica passagem pelo QG/RML, fui colocado no DGA, na Calçada da Ajuda, como tesoureiro da 4ª Companhia, a companhia dos evacuados com mais de quatrocentos doentes, feridos e estropiados. (E alguns sargentos e oficiais do QP evacuados profissionais que me metiam nojo).

Eu fazia os pagamentos à boca do cofre e, mensalmente em dias concertados, ia pagar ao Alcoitão, HMP (Estrela), Anexo do HMP (Rua de Artilharia 1), ADFA (Lumiar) e HMDIC (Infecto contagiosas de Belém). De 1973 a 1977(ano em que fui para a Guarda Fiscal) lidei com a parte mais horrenda e suja das nossas campanhas de África. O que eu passei, mais os/as funcionários/as civis que me acompanhavam com a papelada!!!

Sabes o que é assistir a um furriel enfermeiro a maltratar um desgraçado dum catanguês que, em Angola, combateu ao nosso lado e e ficou com a cabeça escaqueirada, perdendo um olho, numa acção de combate? Apresentei uma participação contra esse estafermo, mas naquela época de bagunçada ninguém punia niguém.

Quantas mães, quantas esposas, quantas namoradas tiveram a satisfação de rever os seus entes queridos em parte devido a esses valentes africanos? Lado certo, lado errado, isso é outra conversa.

O Seni Candé é uma das muitas vítimas que os fervores e delírios do PREC abandonaram deliberadamente, repito, deliberadamente, à sua sorte. Não posso mais.

Desculpa.
Um abraço do Zé Neto

3. O Sousa de Castro acaba de me enviar uma curta mensagem: "São 6.30horas, estou a ouvir o Candé. É um poço de memória e então aquela do Periquito vai no mato faz-me lembrar as tainadas, acabavamos sempre com esta canção, ainda hoje nos nossos convívios cantamos sempre Periquito vai no mato, olé, lé, lé / Que a velhice vai pra Bissau, olé, lé, lé...

Guiné 63/74 - P492: As baixas da CART 2339 (Mansambo, 1968/69) (Carlos Marques Santos)

1. Lista dos mortos em combate:

1.º cabo Aux. Enfermagem Fernando R. de Sousa – 24 de Julho de 1968
Soldado de Transmissões Humberto P. Vieira – 19 de Setembro de 1968
1.º cabo condutor João M. J. Figueiras – 25 de Setembro de 1968
Soldado Atirador José Ferreira Bessa – 3 de Janeiro de 1969 (1)
Soldado Atirador - Joaquim M. Barbosa – 29 de Setembro de 1969 (2)


2. Desaparecido:

Soldado Armas Pesadas – Francisco M. Monteiro – 11 de Julho de 1968


3. Baixas por outras causas:

(i) Mortos por afogamento:

Soldado Atirador – Carlos Armando Duarte – 3 de Dezembro de 1968 (Op Dá Forte)
Soldado Atirador – Carlos Manuel Pimenta – 3 de Dezembro de 1968 (Op Dá Forte)

(ii) Mortos por acidente viação:

Soldado Atirador José Francisco Casadinho – 2 de Outubro de 1969


3. Feridos:

(i) Feridos:

8 evacuados para o HMP (Lisboa);
17 evacuados paar o HM 241 (Bissau);
8 não evacuados;
2 evacuados por acidente (um para o Hospital Militar Principal; outro para o HM 241)

(ii) Doentes:

4 evacuados para o HMP;
3 para o HM 241

© Carlos Marques dos Santos(2006)
_________

Notas de L.G.

(1) Em resultado de flagelação ao aquartelamento de Mansamo, às 2h00, com Mort 82, Mort 60, LGFog e armas ligeiras. Além da vítima mortal, houve um ferido grave.

(2) Emboscada , às 6h50, no intinerário Mansambo-Bambadinca (Xime 8B4-72), por grupo IN estimado em 15/20 elementos, com armas automáticas, Mort 60 e LGFog, durante 15 minutos, que causou um ferido grave às NT, além da vítima mortal.

Guiné 63/74 - P491: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (13): Vi a morte à minha frente (31 de Julho de 1969)


Guiné > Buba > 1969 > Contrapropaganda das NT > Uma costureirinha (pistola-metralhadora PPSH, de origem soviética) por meia dúzia de pesos...

A acção psicossocial é intensificada com o novo governador-geral e comandante-chefe António Spínola, apesar de ser considerado um grande cabo de guerra, seguramente o mais emblemático, com Kaulza de Arriaga, em Moçambique, dos generais que fizeram a guerra colonial. Na Guiné, a escalada da guerra, por terra e por ar, vai tornar-se irreversível e conduzir a uma espécie de suicídio das NT, com a criação do Movimento das Forças Armadas (MFA). Em Março de 1973, o PAIGC passa a dispor de mísseis terra-ar Strella, acabando com a superioridade portuguesa nos céus. Em 10 de Setembro de 1974, o Portugal revolucionário reconhecia a independência da Guiné-Bissau, proclamada unilateralmente um ano antes (LG).

© José Teixeira (2006)


XIII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).

Buba, 31 de Julho de 1969

Vi a morte à minha frente. Saí de manhã até à Bolanha de Beafada, a montar segurança à coluna que ia para Aldeia Formosa. Tinha como missão assistir os Picadores que iam à frente a tentar detectar as possíveis minas que o IN costuma colocar. Coloquei a bolsa na 1ª viatura e segui à frente da mesma.

Como havia muitas poças de água, instalei-me ao lado do condutor. Em determinado momento tive um pressentimento e saltei da viatura seguindo à sua frente. Não andei 50 metros e senti um rebentamento, fui projectado pela deslocação do ar e senti algo a cair em cima de mim, deduzindo que eram estilhaços. Pensei:
- Desta não escapo.

Guiné > Buba > 1969 > Contrapropaganda das NT > 

A verdade é que "juntos não conseguimos vencer"... Não se tratava de Portugal e dos portugueses nem da Guiné e dos guineenses mas de um regime político que não tinha qualquer legitimidade (política, legal e moral) para continuar a exigir o supremo sacrifício dos nossos jovens (LG).

© José Teixeira (2006)


Logo a seguir cai à minha frente um africano que ia em cima da viatura e que deve ficar cego (1). Verifico então que a viatura de onde tinha saltado há momentos e do lado em que eu vinha, tinha pisado uma anticarro. Apanhei apenas com lama e pedras, e um grande susto. O condutor, sentado em sacos de areia, foi ao ar, mas apenas sofreu um grande susto, também. Os Africanos que vinham em cima foram projectados e um perfurou o olho esquerdo, ficando este ao dependuro. Desnorteado, não sabia o que fazer. A bolsa estava na viatura sinistrada. Havia o ferido para tratar, mas também havia o perigo de minas antipessoais.

Andava de um lado para outro, sem saber o que fazer, sujeito a cair numa mina perdida. Lentamente fui acalmando, entretanto chegaram os outros enfermeiros, fui buscar a minha bolsa à viatura destruída e tratei dos feridos

Tal como os outros companheiros, pensei em aproveitar-me das bebidas da viatura destruída e mesmo das outras, já que ao dar-se baixa da viatura descarrega-se tudo e o que ficou em condições de ser aproveitado desaparece. Deu-se um autêntico assalto às viaturas e foi um fartar de roubar, ou melhor, aproveitar a ocasião.

Pouco depois aparece-me o Franklim com uma perna ferida por ter ficado debaixo de um atrelado, com bidões cheios de combustível, pois o condutor da viatura, na confusão gerada deixou-a destravada e esta ao deslizar fez passar por cima da perna do Franklim o atrelado que arrastava.

Os feridos voltaram para Buba depois de assistidos, para serem evacuados para Bissau. Restabelecida a calma retomamos a marcha, para de seguida rebentar uma anti-pessoal que estava colocada no local, mesmo no centro da picada onde eu tratei os feridos, possivelmente pisada várias vezes, mas que só rebentou quando foi pisada pelo rodado de um atrelado de viatura, para sorte de algum de nós, talvez por estar um pouco funda. Continuei na coluna até Beafada, onde encontramos o Pelotão de Picadores que tinha partido de Aldeia Formosa, tendo regressado a Buba com mais esta história para contar.

O meu sistema nervoso que andava abalado foi-se de vez. Fui ao Dr. Franco que me receitou um calmante, pois preciso de reagir. Tenho 15 meses de guerra e ainda falta muito tempo para o regresso. A guerra ainda não acabou para mim.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Guiné 63/74 - P490: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (6): dos Lordes e das bestas

Guiné-Bissau > Guileje > 2005 > Restos arqueológicos da presença dos portugueses por terras de Guileje. E dos que por lá passaram havia de tudo, como em toda a parte do território: das bestas aos gajos bestiais...
© AD - Acção para o Desenvolvimento (2005)


VI parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado).

Quanto às operações no terreno, as nossas - principalmente patrulhas de reconhecimento e nomadizações destinadas a manter o controle possível no itinerário de Gadamael Porto - decorriam sem sobressalto de maior, porque, era mais que evidente, o IN evitava o contacto para não denunciar os trilhos que utilizava nas suas infiltrações para o interior do território.
Mas, como já referi, era a partir de Guilege que se lançavam as operações conjuntas e de maior envergadura sobre o corredor de penetração dos turras.

Para executar as ordens do Comando do Batalhão ou até do Sector (sediado em Bolama) as unidades empenhadas deslocavam-se até Guilege, onde permaneciam o tempo necessário para a planificação, um, dois dias, e na hora H iniciavam a marcha para o alvo previamente referenciado.

Geralmente os resultados destas operações eram nulos ou pouco compensadores. Nós tínhamos um serviço de informações razoável, com a ajuda dos reconhecimentos aéreos, mas não éramos tão ingénuos que não soubéssemos que nesse aspecto o IN nos levava a vantagem da sua maior mobilidade, conhecimento do terreno e algumas cumplicidades de elementos das populações.

Além disso, o planeamento das operações era feito com as regras copiadas à pressa dos manuais clássicos e algumas leituras dos teóricos da guerrilha e, como tal, se não causavam autênticos descalabros nas nossas tropas isso se devia à bravura dos nossos soldados e ao discernimento dos seus comandantes que sabiam avaliar o momento em que deviam mandar às malvas o rigor dos papéis e actuarem em conformidade com o que deparavam no terreno.

Um pequeno exemplo: as cartas topográficas assinalam correctamente todas as características do terreno, ponto final.

Ponto final no Alentejo ou nas Beiras. Na Guiné nem sequer chega a ser vírgula, porque quando a maré sobe o mar engole uma parte considerável da área total do território. Por outro lado, as bolanhas são assinaladas como terreno alagado e vistas de avião até têm o aspecto de solo enlameado com farta vegetação, facilmente transponível. A realidade é bem diferente. Extensas zonas que, com os seus socalcos, tinham sido férteis campos de arroz, eram agora, quase abandonadas, autênticas armadilhas onde à mínima distracção um homem se afogava ou ficava atolado até ao pescoço.

Ganhou alguma notoriedade o diálogo entre o Celestino (1) e o Capitão Cadete. Numa operação em que as nossas tropas pretendiam desmantelar a fortificação que os turras tinham implantado em Salancaúr, o Celestino comandava comodamente instalado num avião Dornier.

A companhia do Capitão Cadete estava, a pouco mais de duzentos metros do objectivo, a ser fustigada por fogo de canhão sem recuo do IN e o Celestino berrava pela rádio:
-Avance! Organize o assalto pelo flanco esquerdo!!!

O Capitão, homem experiente, sabia que era de todo impossível dar mais um passo em direcção ao objectivo, estrategicamente defendido pelos lodaçais e, perante a insistência, gritou pelo microfone:
-Venha cá abaixo e enterre o seu focinho na bolanha, seu…

Isto foi ouvido em todo a rede de transmissões das unidades da zona que, em sintonia, seguiam o desenrolar da operação e… nunca constou que o Capitão Cadete tivesse sido punido.

A zona de Salancaúr, que era uma pequena península quando a maré subia, foi durante muito tempo um espinho cravado na nossa garganta. As informações diziam que os turras tinham ali instalado vinte e quatro canhões sem recuo (talvez um exagero), ao mesmo tempo que o reconhecimento aéreo dava conta de actividade rural por parte da população da tabanca nas redondezas o que punha fora de hipótese a destruição por bombardeamento da aviação.

Os comandos não desistiam de eliminar aquele importante ponto de apoio do corredor de Guilege e as surtidas das nossas tropas sucediam-se sem resultados palpáveis.

Numa dessas operações, poucos dias depois do Natal desse ano de 1967 (sei a data precisa, mas não a quero referir) tivemos mais três baixas estúpidas, a juntar à de São João.

As nossas tropas saíram ao alvorecer e, excepcionalmente, os Lordes (2) do Alferes Tavares Machado ficaram no quartel, constituindo a segurança das instalações.

Menos de uma hora depois ouvimos um tiroteio aceso. Os turras tinham emboscado a frente da nossa coluna. Pelo rádio o Capitão Corvacho disse que não havia novidade, que estavam a reagir à emboscada e que o IN estava a retirar.

Em resposta o Alferes Tavares Machado disse que sabia por onde os turras iam fugir e que lhes ia dar uma coça. O Capitão mandou-o ficar onde estava pois a situação estava controlada.
Qual quê? Reuniu os seus homens rapidamente e, ele de calças de ganga e camisola branca, embrenharam-se na mata em direcção ao sítio onde deflagrara o tiroteio.

Pouco tempo depois, talvez meia hora, ouvimos novo arraial e não tivemos dúvidas de que agora eram os Lordes que estavam sob o fogo bem conhecido das Kalash.

Posto ao corrente do sucedido, o Capitão retrocedeu ainda a tempo de enfrentar os turras e evitar uma chacina completa. Só não conseguiu evitar as mortes dos Alferes Nuno da Costa Tavares Machado, Soldado António Lopes (cuja alcunha era o Sargento, devido aos seus modos bruscos) e Soldado António de Sousa Oliveira (o Francesinho).

Se houvesse que configurar num homem só, a raça, o patriotismo e o espírito de sacrifício do valoroso soldado português eu escolhia o Francesinho, sem hesitação.

© José Neto (2006)
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Notas do autor:

(1) Celestino era o nome com que depreciativamente tratávamos o Ten-Cor. Celestino C... R..., comandante do BART 1896, sediado em Buba, personagem muito sombria da minha memória pois ameaçou-me com cinco punições, nunca concretizadas. Algumas vezes o trato por besta nesta narrativa, com alguma propriedade.

(29 Os Lordes era a designação dum Grupo de Combate formado por voluntários da companhia que recebeu instrução especial em Bissau com o fim de constituir o primeiro escalão de progressão e assalto, dado que a CART 1613 foi, inicialmente, companhia de intervenção à ordem do Comando Chefe e actuou em vários pontos do território.

Guiné 63/74 - P489: As (des)venturas de Seni Candé (Jorge Neto)

Olá, Luís,

Junto envio um texto com quatro ficheiros sonoros acerca de um guineense que lutou do lado português. A estória de Seni Candé é muito interessante, a meu ver. Pena é que ele fale um mau português.

Se vir que tem interesse publique no Blogueforanada. Eu, no Africanidades, irei usar apenas a quarta parte.

O texto que se segue vai já editado, com tags para os ficheiros e tudo. É só fazer copy & paste (e as alterações que achar por bem fazer).

Um abraço,
Jorge Neto

Seni Candé, iludido pelo destino (entrevista e sonorização por Jorge Neto)

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Guiné-Bissau >Parque Natural do Cantanhez > 2006 > Seni Candé, à direita na imagem

Se ainda fossem necessárias provas como a guerra colonial deixou memórias, Seni Candé seria uma delas. Este guineense defendeu a bandeira de Portugal na guerra colonial e, pode dizer-se, esteve do lado errado da luta. Assim que as tropas portuguesas bateram em retirada, Seni foi perseguido pelo PAIGC. Preso por duas vezes, escapou à morte refugiando-se na vizinha Gâmbia.

Hoje é guia de ocasião no Parque Natural do Cantanhez, no sul da Guiné-Bissau. Com onze filhos, sem emprego certo e uma casa miserável, Seni alimenta a esperança de um dia conseguir uma pensão do Estado português:
- Na embaixada de Portugal em Bissau não sabem do meu caso, mas assim que souberem pagam-me... É só eu ir lá! - O destino ilude Seni. O Estado português nunca pagará o braço direito que lhe roubou. Muito menos o resto, a dívida moral que tem para com ele (e tantos outros Senis espalhados pelas ex-colónias).

Nestes registos, Seni Candé,[nascido em 10 de Fevereiro de 1947] explica, num português que exige paciência (muita!), como entrou no exército verde-rubro [e chegou a 1º cabo, nº 397/65, CCAÇ 6]. Diz ainda com uma ponta de orgulho: "Sou um combatnte português". Fala dos oficiais que ficaram na sua sua memória,e que um dia, "se tiver saúde", ainda vai procurar a Portugal. Avalia, por fim, a coragem dos soldados portugueses, desde os açoreanos aos lisboetas (aqui se fica a saber quem eram os mais valentes).

Antes do fim, Seni relembra duas canções daquele doloroso tempo e uma passagem pela metrópole quando, à conta de um braço cortado, foi evacuado de avião [em 1969]. O Intendente, o Martim Moniz e a Trafaria fizeram as delícias deste homem que continua a acreditar que um dia voltará a ganhar o equivalente aos 775 Escudos que auferia na altura [e que faziam dele um homem "muito rico"].


2. Comentário de L.G.:

2.1. Instruções - Ligar o som... O carregamento de cada ficheiro pode levar algum tempo... Tenham alguma paciência... Mas estes quatro excertos da entrevista do Seni Candé, feitos pelo Jorge Neto, valem bem a pena!...
2.2. Este homem, o Seni Candé, de apelido tipicamente fula, que começou como caçador nativo, teve "três louvores de guerra" (em Novembro de 1968 e já em 1974, capturou três armas), ficou sem braço, decepado por uma roquetada (creio que em 3 de Junho de 1969), esteve na Metrópole em convalescença nesse ano e, tanto quanto eu percebi, esteve na CCAÇ 3493 (Mansambo e Cobumba) - refere o nome de vários capitões, incluindo o do nosso camarada de tertúlia, o Manuel Cruz - e na CCAÇ 6... É como se eu estivesse a ouvir os meus queridos nahrros da CCAÇ 12...

É a primeira vez que inserimos este tipo de ficheiros (de som) no nosso blogue. No seu conjunto, constituem um documento, pungente, de destroçar o coração!... A verdade é que nós abandonámos miseravelmente estes homens!

Estou profundamente agradecido ao Jorge pela sua sensibilidade e talento em saber tocar nestas feridas de guerra (que também nos doem, e de que maneira!).... Mesmo assim, admirem, amigos e camaradas de tertúlia, a serenidade com que este homem, o Candé, relata a sua vida de luta ao lado dos tugas, sem um queixume, sem uma reivindicação, com uma voz doce, com orgulho e... com uma grande saudade! Vejam como ele recorda o dia, em Cufar, em que viu, mais uma vez a morte á sua frente, com a CCAÇ 6 a sofer 5 mortos e 25 feridos... mas era "preciso coragem" para salvar os camaradas... Vejam como ele fala dos seus amigos portugueses e de Portugal!... Confesso que fiquei muito sensibilizado...

PS - O Sousa de Castro acaba de me confirmar e corrigir: " Luís, quando o Candé refere CCAÇ 3493 deve querer dizer CART 3493, pertencente ao BART 3873 que saiu de Mansambo para Cobumba em Março 1973. A CART 3494 substituiu a CART 3493 em Mansambo que estava no Xime. Era de facto o Manuel Cruz , o CMDT da CART 3493".

Primeira parte [Da CCAÇ 6 aos ajustes de contas do PAIGC, em 1975: fuzilamento do pai, do régulo e mais 5 pessoas da tabanca]
(Duração: 4.09mn)

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Segunda parte [Opinião sobre os combatentes portugueses, incluindo vários capitães / Referência à CCAÇ 3493 que veio de Mansambo para Cobumba, em Abril de 1973]
(Duração: 5.03m)

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Terceira parte [Evocando a Lisboa de 1969/70,as bajudas do Intendente e do Bairro Alto... quando era "muito rico"]
(Duração: 4.04m)

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Quarta parte [CCAÇ 6, Operação em Cufar, 5 mortos e 25 feridos / As nossas canções: Periquito vai no mato.../ Elisa, á-u-é, Elisa, á-u-á... ]
(Duração: 6.02m)

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Guiné 63/74 - P488: O meu diário (José Teixeira, enfermeiro, CCAÇ 2381) (12): A morte do Cantiflas (Julho de 1969)

Guiné-Bissau > Empada > 2005 > Bajudas
© José Teixeira (2006)

XII Parte de O Meu Diário, de José Teixeira (1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70).


Empada, 5 de Julho de 1969

Empada parece ser o que os meus colegas diziam. A partir de l de Julho é a minha nova morada. A população é um misto de todas as raças onde predomina a Manjaca e a Bijagó. É trabalhadora e parece fiel. Recebe a tropa com muita simpatia e, pelo seu proceder, confirma mais ainda que a população da Guiné quer viver em paz no amanho das suas terras.

A região é bastante rica, tem muitas bolanhas e os africanos aproveitam para semear milho, mancarra, malagueta e batata doce. Também se dedicam à plantação de arroz na bolanha da Punderosa.

Porque o IN vem, destrói e mata, sinto que existe um ódio tremendo e uma insegurança na população, que no entanto se arrisca a trabalhar nas bolanhas para seu ganha pão.

Esta população, de raças diferentes da de Buba e Aldeia Formosa (Mandingas e Fulas), é muito mais trabalhadeira.

Não gosto da posição estratégica do Quartel, mas como já fizemos um grande desbaste na vegetação, eles não tem condições para se aproximarem muito. Há que estar atento e continuar a confiar. As instalações são boas, superiores às de qualquer quartel na Metróple. A alimentação, porque as refeições são bem feitas, pode-se dizer-se que são do melhor. Se assim continuar, teremos um fim de comissão em beleza.

A situação moral é caótica. O sexo avança em toda a linha. Quase todas as jovens lavadeiras se prostituem por dinheiro.

Guiné-Bissau > Empada > 2005> A antiga (e actual) rua principal de Empada
© José Teixeira (2006)

Buba, 10 de Julho de 1969

Em Buba novamente desde o dia sete, por um mês, segundo diz quem tem os livros, no entanto eu duvido um pouco. Recordo-me do ano passado, quando vim para este Sector, por um mês e ainda cá ando...

Presentemente Buba está calmo, já não mete, até certo ponto, o medo que metia nos tempos em que se andava a rasgar a nova estrada para Quebo (Aldeia Formosa). Mas é de temer , pois mesmo sem o terrror de há meses atrás, o trabalho ainda é muito, as saídas para o mato são constantes e o tempo não ajuda.

Tem chovido muito. Ainda ontem, fui impossibilitado de passar a noite emboscado pela chuva que caíu torrencialmente durante todo o dia. Saí de manhã cedo em patrulha de reconhecimento e ao fim da tarde estávamos ensopados de tal maneira que um colega caíu sem forças e cheio de frio e angustiado por o Comandante não autorizar o regresso a quartéis. Viemos traz-lo e fomos autorizados a ficar.

Não sei o tempo que vou estar por Buba. Parece que querem arranjar a velha estrada de Nhala e tenho medo de lá cair. As recordações que touxe de lá e de Samba-Sábali não foram as melhores e estrada está toda alagada pelas chuvas da época.

A estrada nova Buba/Aldeia Formosa (Quebo) está feita e pretende substituir a velha estrada de Nhala com as suas bolanhas lamacentas, mas ninguém se atreve a passar na dita, pois na primeira e única coluna que se fez, houve três terríveis emboscadas que provocaram três mortos e nove feridos.

Empada está a tornar-se uma zona perigosa. Desde que saí de lá já sofreram dois ataques cujos resultados desconheço. É certo que está lá pouca tropa. Talvez seja essa a razão que faz o turra. ir até lá chatear mas... qual será melhor ? Buba, um pouco calma, com muitas saídas, fraca comida, más instalações, ou Empada que tem melhores condições, com o terrorismo a aparecer ?!


Guiné-Bissau > Empada > 2005> A antiga casa do chefe de posto
© José Teixeira (2006)

Buba, 12 de Julho de 1969

Há qualquer coisa que me falta. Sinto isso mais forte em mim desde que vim de férias. Pego num livro, porque de momento sinto vontade de ler para em seguida o fechar e pensar em qualquer coisa. Procurei na leitura qualquer coisa que precisava e não encontrei.

Sinto-me vazio. Por vezes sonho acordado, imagino a felicidade. Quero mais, quero ir mais além. Creio ser esta a razão do meu vazio. A sede de ir mais longe abrasa-me.
Comecei a sentir medo. Tenho medo de tudo, da vida e da morte, da guerra e do ódio, tenho medo. Tenho medo de mim mesmo, da minha fraqueza. Sinto-me um pouco fraco espiritualmente, mesmo com tudo o que as férias me deram. As forças do lado oposto também são mais fortes.

Será o meu querer forte o suficiente para vencer ? Tenho medo...

... Depois de deixar a pena correr, sinto o mesmo vazio que me persegue, que me atormenta. Que quero eu afinal ? Ir mais além, dar mais, continuar firme na minha construção como HOMEM...

Empada voltou a ser atacada hoje, enquanto por Buba não se nota o mais pequeno sinal do IN, aliás parece-me que as acções do bandido diminuiram em toda a Guiné.


Buba, 18 de Julho de 1969

Para morrer basta estar vivo, não interessa o local ou meio. De paz ou de guerra. A morte aparece em qualquer sítio e a qualquer hora. O Cantinflas estava na guerra.. Caíu debaixo de fogo várias vezes, sofreu os efeitos de uma guerra traiçoeira, sem o mais pequeno ferimento, mas a morte espreitava-o impiedosamente e há dias, através de um choque eléctrico, veio ter com ele.

Mulher e uma filha, os pais e familiares, os amigos, todos o esperavam. Que choque sentirá aquela esposa ao receber a notícia que o marido morreu electrocutado ?! Aquela criança...os pais que o adoravam!...

Veio para os Maiorais [ CCAÇ 2381] em substituição do Alzira que se encontra na Metróple com uma perna artificial depois de pisar uma mina na estrada de Buba. Duas figuras típicas e muito queridas. O Alzira (cujo verdadeiro nome não sei) , um infeliz sem pais, que nos deliciava com os seus fados. O Cantinflas pela sua boa disposição permanente que deixava transparecer através de comiquices e lhe valeram o nome.

Empada voltou a ser atacada. Hoje emboscaram no Rio Grande duas Lanchas de Desembarque e o Barco Patrulha que transportavam uma Companhia para Gadamael. Creio que não houve problemas.


Buba, 22 de Julho de 1969

Domingo (20) saí para o mato pela tarde a patrulhar a estrada nova e emboscar o IN em seguida. De certeza que fomos seguidos pelo IN que nos deixou montar a emboscada e abriu fogo de seguida. A nossa reacção foi rápida e os indivíduos calaram-se. Uma granada caíu bem perto de mim mas não feriu, aliás, nenhum dos meus camaradas foi ferido pelo IN. Apenas o homem do morteiro 60 se feriu na mão com o morteiro.

Retirámos silenciosamente sem mais novidades e chegámos a Buba pelas 20 horas onde toda a gente esperava ordens para avançar em nosso auxílio. Este pequeno ataque não foi pera doce para mim. Quando notei que o camarada do morteiro estava ferido - tinha a mão rasgada por não ter utilizado o prato e o morteiro ao disparar enterrou-se na terra escorregando-lhe pela mão - , passei mensagem que não havia feridos graves e dispus-me a tratá-lo para evitar a hemorragia.

O Comandante, na sua pressa de se afastar da zona de perigo, mandou retirar e quando nos apercebemos estávamos a 300/400 metros dos companheiros de luta com o IN, na retaguarda que também não se tinha apercebido da situação. Iniciamos uma fuga a alta velocidade. Valeu-os o colega do ´lança-rockets que se apercebeu e fez passar algumas granadas por cima de nós obrigando o IN a manter-se em defesa.