sábado, 27 de maio de 2006

Guiné 63/74 - P808: Notícias dos Leões Negros (Carlos Fortunato, CCAÇ 13)

Guiné > Bissorã > CCAÇ 13 (1969/71) > O ex-furriel miliciano de transmissões Carlos Fortunato, o autor da página da CCAÇ 13 > Os Leões Negros, talvez a página da Net mais bem documentada sobre uma companhia ou unidade de intervenção e o seu historial, desde a sua formação e mobilização para o TO da Guiné até à sua actividade operacional no terreno.

Foto: © Carlos Fortunato (2005)

Luís Graça

Já sei que a nossa tertúlia não te deixa um momento livre, mas ainda bem, é sinal que este excelente blogue que tu criaste, continua vivo e cheio de força.

Tenho feito alguns melhoramentos no site da CCAÇ 13 e agora estou a preparar uma nova página. Esta nova página é dedicada aos momentos mais importantes que ocorreram deste o início da luta do PAIGC e, contrariamente ao que tenho feito até agora, que é criar links para o nosso blogue, queria fazer a sua transcrição, colocando apenas o blogue como fonte, caso tu concordasses, claro.

O meu objectivo é dar algum enquadramento global aos textos sobre a CCAÇ 13, para se perceber o que era a Guiné, incluindo um pouco da sua história, geografia, economia, cultura, etc.
Os relatos a copiar eram os do Mário Dias, sobre Pidjiguiti e a ilha do Como, e eventualmente mais algum.

Um grande abraço
Carlos Fortunato

Comentário de L.G.

Carlos:

(i) Obrigado pelas tuas notícias.

(ii) Os meus parabéns pelo melhoramento da página sobre os teus Leões Negros, que tão tão carinhosamente alimentas...

(iii) Quanto ao teu pedido, encantado, meu!

(iv) Julgo que o Mário (ou outros tertulianos, autores de textos) terá todo o gosto em autorizar-te a reprodução dos seus importantíssimos depoimentos sobre os primeiros anos da guerra da Guiné. Ele foi uma testemunha privilegiada dos acontecimentos desse tempo, incluindo os trágicos acontecimentos de 1959.

(v) O Mário foi, além disso, um dos fundadores dos comandos. E não deve estar a ser fácil, para ele, acompanhar estas revelações, feitas aqui recentemente, sobre a ascensão e a queda dos comandos africanos, incluindo o fuzilamento de alguns dos seus antigos camaradas e amigos dos velhso comandos de Brá, de 1965/66...

(vi) Se queres a minha opinião, deves mandar-lhe, gentilmente, um pedido por e-mail; os direitos de autor são dele, não são meus;

(vii) Eu aqui não mando nada, sou um mero controlador do tráfego das blogarias que passam pela nossa tertúlia, às vezes a uma velocidade estonteante...

(viii) Os artistas principais são vocês, tu, o Mário e tantos outros que fizeram deste blogue um ponto de referência obrigatório para quem esteve na Guiné, na guerra colonial, como combatente, ou na guerra de libertação, como guerrilheiro...

(ix) Recebe também um grande abraço meu. L.G.

Guiné 63/74 - P807: O colaboracionismo sempre teve uma paga (6) (João Parreira)

Texto do João Parreira (ex-furriel miliciano comando, Brá, 1965/66)

Caro Luís Graça:

Simplesmente enviei a lista de alguns dos executados depois da independência (1), sem tecer quaisquer comentários.

Julgo que os Guineenses no nosso tempo só tinham três opções:

(i) ou fugiam da Província;

(ii) ou se juntavam às nossas tropas, voluntariamente;

(iii) ou eram forçados a combater ao lado dos guerrilheiros.

Duvido que muitos deles pensassem em ideologias naquela altura, a não ser olharem para o seu bem estar.

Brevemente irei enviar mais nomes de outros fuzilados já depois da guerra terminar, que não assassinos dos comandos.

Um abraço.
João Parreira
____________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 23 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)

Guiné 63/74 - P806: O 'turra' Luandino Vieira recusa Prémio Camões (João Tunes)

Luandino Vieira, escritor angolano, nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935. Prémio Camões da Língua Portuguesa 2006.

Foto: Editorial Caminho (2006) (com a devida vénia...)


1. Desafiei há dias o João Tunes para escrever um pequeno texto sobre a atribuição do Prémio Camões de Língua Portuguesa 2006 ao escritor angolano, de origem portuguesa, Luandino Vieira, o terceiro atribuído a um escritor africano... O prémio, no valor de 100 mil euros, é patrocinado em partes iguais pelos ministérios da cultura de Portugal e Brasil... Luandino Vieira, um reinventor da língua portuguesa (sem o qual possivelmente não teria sido possível o aparecimento de um Mia Couto, moçambicano, ou de Ondjaki, angolano) é hoje praticamente desconhecido por parte dos nossos jovens.

Recorde-se que em 1965, em plena guerra colonial, e quando o escritor estava preso no Tarrafal, foi-lhe atribuído o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Autores pelo seu livro Luuanda, facto que foi considerado uma grande afronta pelo regime de Salazar, o que levou ao assalto e destruição da sede daquela Sociedade por legionários e por pides e à sua posterior ilegalização. Recordo-me perfeitamente destes acontecimentos: Estávamos em plena guerra colonial. Em 1965, eu tinha 18 anos. Aos 22, em 1969, eu estava na Guiné. (LG)

Eis a resposta, célere, do nosso sempre bem informado, acutilante, frontal, João Tunes:

"Quanto ao repto sobre um texto sobre o turra Luandino Vieira e o seu Prémio Camões, aqui vai ele (em exclusivo para o nosso blogue):

"Um Turra, chamado Luandino Vieira, que também foi e é escritor, foi premiado com o Prémio Camões, o Poeta Maior da expansão do nosso Império. O Turra não aceitou o Prémio dado pelos Tugas. Ou os Turras são ingratos ou os Tugas atrasaram-se na reparação dos estragos feitos em 1965 quando o Turra estava no Tarrafal e a Pide dos Tugas destruíu a Sociedade Portuguesa de Escritores.

"Um grande abraço e outros tantos para todos os estimados camaradas tertulianos".
João Tunes

Sobre a recusa do prémio, vd. também post do João Tunes, no seu blogue Água Lisa 6, de 25 de Maio de 2006.


2. O que disseram os jornais (LG):

"Luandino Vieira: o resistente

"José Luandino Vieira, ou melhor, José Vieira Mateus da Graça, nasceu em Portugal em 1935 e foi aos três anos para Angola. Envolvido em movimentos nacionalistas, é preso pela PIDE em 1959 e depois em 1961.

"É no Tarrafal, prisão em Cabo Verde para onde é transferido em 1964, que descobre Guimarães Rosa, o escritor que mais o influenciou. A maioria da sua obra é escrita antes de 1975, ano em que regressa a Luanda, depois de passar por Lisboa.

"A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (1961), Luuanda (1963), No Antigamente, na Vida (1974) e Nós, os do Makulusu (1975) são algumas das suas obras mais conhecidas.

"As suas ideias obrigaram-no a passar mais de dez anos no Tarrafal e a ter residência fixa depois de libertado, em 1972. Vinte anos depois, diria ao escritor Agualusa, a propósito da guerra em Angola: 'Hoje de manhã vi, no meio de um tiroteio infernal, um homem a atravessar a rua numa cadeira de rodas. É isto que nós somos, um país de cadeira de rodas no meio dos tiros.'

"Vive em Portugal desde o início dos anos 1990" (Fonte: Público, 27 de maio de 2006)

3. Obras de Luandino Vieira publicadas, em Portugal, pela Editorial Caminho :

Nosso Musseque (1.ª edição, 2003) «Outras Margens», n.º 13

A Vida Verdadeira de Domingos Xavier (1.ª edição, 2003) «Outras Margens», n.º 18

Nós, os do Makulusu (1.ª edição, 2004) «Outras Margens», n.º 26

João Vêncio: os Seus Amores (1.ª edição, 2004) «Outras Margens», n.º 29

Luuanda (1.ª edição, 2004) «Outras Margens», n.º 36

No Antigamente, na Vida (1.ª edição, 2005) «Outras Margens», n.º 39

Macandumba (1.ª edição, 2005) «Outras Margens», n.º 43

Velhas Estórias (1.ª edição, 2006) «Outras Margens», n.º 51

sexta-feira, 26 de maio de 2006

Guiné 63774 - P805: David Guimarães e Marques Lopes: no Porto, manga de ronco

Porto > 24 de Maio de 2006 > O David e o António, da nossa tertúlia do Porto... Pois é, amigos e camaradas, a nossa caserna, porque é virtual, não tem limites físicos, tal como o universo está em permanente expansão...Por isso, é bom saber notícias dos amigos e camaradas que se juntam para beber um copo, matar saudades, tabaquear o caso (como dizem os alentejanos), seja no Porto ou em Bissau... Eles foram dos primeiros a arranjar lugar na nossa caserna virtual, por mão do Sousa de Castro (se a antiguidade fosse um posto, entre nós, o Sous de Castro hopje era marechal)... Entretanto, vamos continuando a marcar encontro, todos os dias, no Luís Graçºa & Camaradas da Guiné > Blogue-fora-nada... Até um dia a gente decidir enocntrar-se, mesmo de verdade, olhos nos olhos, para beber um copo, matar saudades, tabaquear o caso, incluindo o Zé Neto que é o veterano dos veteranos mas que, neste momento, anda a travar uma luta danada contra o cigarro: por favor, não lhe falem em tabaquear... coisa nenhuma! (LG).

Foto: © David J. Guimarães (2006)


Olha, Luís, dois mangas de cabeça grande... Aí, antes de ontem, a saborearem chavéu de galinha e frutas tropicais...

Aí, na conversa, foi manga manga de ronco neste restaurante guineense.

Um abraço.
Um bom fim de semana.

Guiné 63/74 - P804: Saudações ao Barreto Pires (Afonso M. F. Sousa, CART 2412, 1968/70)

Guiné-Bissau > Binta > Novembro de 2000 > Companhia que passou por Binta em 1966. Lema: Justiça e Glória... Alguém sabe o número desta unidade ? Outra que por lá passou foi a CART 2412 (1968/70), do Afonso Sousa e do Barreto Pires.

Foto: © Albano M. Costa (2005)

Texto do Afonso M. F. Sousa , ex-furriel miliciano de transmissões da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70)

Olá, José Pires!

Fico satisfeito por saber que teve uma boa viagem desde a Trofa até à Rua Dr. Sá Carneiro, em Penedos de Alenquer (Ventosa).

Obrigado pelo seu testemunho, que é importante e essencial num conjunto de subsídios para a história da guerra colonial.

Deduzo que, através da sua caixa de correio electrónico, esteja a ser assediado por muita informação. Mas como se trata de um tertuliano recém-chegado, será para obter uma rápida endurance e para entrar neste forum, sempre que ache oportuno. A história da guerra colonial na Guiné fica muito mais enriquecida com o testemunho daqueles que foram os seus protagonistas.

Permita-me sugerir-lhe a visita ao maior repositório existente na Net, sobre a Guerra Colonial, na Guiné: o Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné > Blogue-fora-nada, um espaço já visitado por quase 80.000 internautas.

Dê uma vista de olhos nos conteúdos. Uma atenção ao mapa de Barro - Bigene (com a localicalização de quase todas as tabancas e sítios que calcorreou) e à galeria fotográfica memória dos lugares

Não sei se já falou com o ex-alferes Gonçalves, da CCAÇ 3, que esteve connosco em Guidage.

Um abraço, caro José Pires.
Afonso Sousa

Guiné 63/74- P803: Tabanca Grande: José Barreto Pires (CART 2412)

Mensagem de José Barreto Pires, da CART 2412, dirigida ao Afonso M.F. Sousa, com conhecimento ao editor do blogue (entre outros) :

Amigos Tertulianos, é com grande satisfação que, doravante, me considero aderente à nossa Congregação e, em sequência, recebo e darei todas as informações possíveis e disponíveis.

Na sequência do almoço-confraternização [do pessoal da CART 2412] de sábado p.p. [20 de Maio último], após ter vadiado algum tempo por terras transmontanas, viajei para Alenquer, onde resido, e a viagem foi agradável, porquanto a boa disposição, decorrente de algum descanso e boas recordações, dificilmente poderia ter outro desfecho.

Obrigado pelas demais informações, que confirmo na sua generalidade. De facto, de Binta para Guidage apenas conheci a picada mencionada. Julgo estar certo que se outra existiu e/ou existia, corresponderia aos designados corredores que os Nativos ( dos quais, alguns... ditos Turras...) utilizavam para o transporte das suas mercadorias, essencialmente no sentido
Norte-Sul.

Quanto à célebre península do Sambuiá, porque as pisei, sempre em circunstâncias especiais, porquanto tratava-se de terreno considerado deles (Nativos), não subsiste dúvida da existência das picadas referenciadas.

Mas, sobre esta problemática, gostaria de questionar: Como será hoje? Circular-se-à, embora com dificuldade, claro, entre as diversas localidades, através das referidas picadas? Como seria interessante ver e saber como se apresentam esses locais e os respectivos meios de circulação, nos dias que correm!!!

Estou certo, por razões óbvias, que o momento certo e adequado já expirou há muito tempo...De qualquer forma, eis-me totalmente disponível para, integrando um grupo fixe, dar umas voltas por essas bandas.

Com saudações tertulianas.

Um grande abraço.
Barreto Pires

Guiné 63/74 - P802: Onde ficava Sare Tuto? (Afonso M. F. Sousa)

Fonte: Multimap

Mensagem de Afonso M. F. Sousa (ex-furriel miliciano de transmissões, CART 2412, 1968/70):

Não resisto a orientar-me geograficamente.

Nesta imensidão de tabancas - quantas delas com sobreposição de nomes! - gosto sempre de olhar o mapa!

Tabancas mais próximas de Sare Tuto (1) (nota-se que fica junto a um grande rio !)

Rio de Bafata (4.9 km) - Rio Bamala (6.7 km) - Buba (4.9 km) - Buba Tombo (4.0 km) - Rio Bulal (5.8 km) - Rio Bulufolandiu (6.7 km) - Rio Bumidi (1.9 km) - Rio Bunhanare (7.4 km) - Rio Cabaia (3.7 km) - Rio Cabiro (1.6 km) - Rio Cambofula (5.2 km) - Cantanha (7.6 km) - Rio de Caranquecunda (3.7 km) - Rio Chinconhe (6.7 km) - Rio Cudubo (4.9 km) - Rio Dumbali (4.9 km) - Rio Furobolom (4.0 km) - Galo Buba (4.0 km) - Rio Jabala (5.6 km) - Rio Jassonca (4.9 km) - Rio Jidinca (5.8 km) - Madina (6.1 km) - Rio de Mancama (6.1 km) - Rio Mancoto (4.8 km) - Rio Numangali (6.1 km) - Penha (6.5 km) - Penhacunda (6.5 km) - Rio de Penhacunda (6.5 km) - Ponta Tenente Coronel (5.8 km) - Sambafim (5.2 km) - Sambelsim (5.2 km) - Santana (6.5 km) - Sare Bamba (6.7 km) - Rio Senesira (7.4 km) - Rio Sibija (6.7 km) - Rio de Tenente Coronel (4.0 km) - Tuate (0.0 km) - Rio Uaja (4.8 km) - Viriato (6.5 km)
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Nota de L.G.

(1) Vd. posts de:

26 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXCVII: O Sadiu Camará de Saré Tuto, aliás, tabanca Lisboa (Zé Teixeira)

18 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXI: Do Porto a Bissau (18): Sadiu Camará, um sobrevivente (A. Marques Lopes)

Guiné 63/74 - P801: O colaboracionismo sempre teve uma paga ( 5) (Carlos Vinhal)

Texto do Carlos Vinhal, ex-furriel miliciano da CART 2732 (Mansabá, 1970/72):

Ainda sobre o tema O colaboracionismo sempre teve uma paga (1)

Tenho acompanhado atentamente a troca de impressões entre os camaradas que mais de perto conviveram ou comandaram tropas nativas da Guiné e que por isso mais sentiram os fuzilamentos perpetrados. Admiro os sentimentos expressos.

Queria dar a minha opinião, talvez coincidente com outros camaradas de blogue, sobre os acontecimentos pós-independência. Assim sou a expor:

(i) Foi mais fácil perdoar a Alpoim Calvão e outras personalidades portuguesas congéneres do que aos próprios guineenses. Porquê? Em causa esteve a cor da pele e a rivalidade existente entre etnias. Uma coisa foi ter-se combatido contra um inimigo branco considerado estrangeiro, ocupante e opressor. O abandono da luta e regresso ao país de origem, como foi o nosso caso, foi considerado para os guineenses uma vitória e isso bastou. Outra coisa foi combater contra um irmão da mesma cor, natural do mesmo chão e falando a mesma língua - pondo de parte o português que só oficialmente é língua da Guiné - que no pós guerra continuou a ocupar o mesmo espaço – no caso a Guiné-Bissau. O desejo de vingança foi naturalmente mais forte e o inimigo continuava ali mesmo à mão. Não esqueçamos também as rivalidades ancestrais entre as diversas etnias. Olhai, a propósito, para o triste exemplo de Timor, hoje [24 de Maio de 2006] mesmo notícia nos telejornais.

(ii) Os Comandos africanos seriam os principais alvos, porque eles foram os mais sanguinários. Mataram a torto e a direito os seus verdadeiros compatriotas, indistintamente mulheres e crianças, civis ou militares. Não se pode desmentir ou branquear esta verdade. Lembro-me de uma operação helitransportada feita a partir de Mansabá, era Comandante o então Major Almeida Bruno. Aquilo demorou dois ou três dias e, na volta, um dos militares, que trazia pendurada a tiracolo uma lata, dizia cheio de orgulho e apontando para ela: Manga de orelhas, manga de orelhas. Nunca percebi se aquilo eram troféus de caça ou se se destinava a fazer algum petisco.

(iii) Pergunto: Aqueles que combateram pelo nosso lado, fizeram-no por convicção política e/ou patriótica ou, pelo dinheiro e condições de vida que a luta lhes proporcionava a eles e às respectivas famílias? Estariam eles convencidos que a guerra era interminável e por isso nunca se preocuparam com o seu futuro?

(iv) Foi notória a dificuldade que o país teve para receber e integrar todos os retornados e refugiados -filhos de colonos lá nascidos - vindos das ex-colónias. Como se integrariam cá os ex-combatentes que só sabiam de guerra, porque nunca tinham feito outra coisa na vida?

(v) Finalmente, com a devida vénia, faço minhas as palavras do nosso camarada João Tunes no Post 777 (2) do nosso Blogue.

Carlos Vinhal
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Nota de L.G.

(1) Vd. post de 25 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXCV: O colaboracionismo sempre teve uma paga (1) (A. Marques Lopes)

(2) Vd. pots de 24 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXVII: Fazer a catarse antes de vestir a toga de juiz (João Tunes)

Guiné 63/74 - P800: O colaboracionismo sempre teve uma paga (4) (Pepito)

Mensagem do nosso amigo Pepito:

Caro Paulo:

Uma muito breve resposta:

1. Dificilmente compreenderei que não se queira matar uma pessoa, bombardeando a sua casa. O Mar Verde fez isso e só a posteriori é que souberam que Cabral não estava lá.

2. Aceito sem nenhuma dificuldade que, mais tarde, o Spinola tenha alterado a estratégia e preferido ter Cabral vivo como troféu de guerra, do que morto e sem serventia para ele. Daí que aceite sem reservas a sua afirmação quando tomou conhecimento do assassinato de Cabral: "Lá me mataram o homem".

3. Acredito que o plano era o de prenderem Cabral, aliás como fizeram ao Aristides Pereira, e trazê-los para Bissau. Para um chefe militar seria uma vitória rotunda. Só que os executantes ou porque apavorados (explicação para a qual mais me inclino) ou porque mandatados, não aguentaram a pressão do momento e mataram-no.

4. O tiro saiu pela culatra. Os aliados de dentro do PAIGC ficaram, uns sem margem de manobra, outros foram passados pelas armas. Nessa ocasião foram feitos muitos ajustes de contas dos quais ainda hoje estamos a pagar a factura e que leva grande parte dos combatentes a não ousar tirar cá para fora os segredos de então. Mas isto é outra conversa, para outra altura. O resultado do assassinato fez a luta endurecer e acelerar o 25 de Abril.

5. Com sinceridade, no caso vertente, não procuro saber de que lado está a razão (o acesso à independência é hoje um direito reconhecido por todos, independentemente do que se fez, ou não, com ela). Gostaria de continuar a conhecer toda a história e tenho uma pena enorme de ver partir compatriotas meus com tantas estórias para contar que nos ajudariam a perceber melhor o que hoje se passa.

abraços
pepito

Guiné 63/74 - P799: O colaboracionismo sempre teve uma paga (3): Paulo Raposo

Mensagem de Paulo Raposo:

Caro Pepito:

Daquilo que eu sei, Spínola foi para a Guiné com a missão de entregar o governo do território a Amílcar Cabral e em consequência desviar o esforço de guerra da Guiné para Moçambique, e assim o nosso problema em África ficava resolvido.

A eliminação de Amílcar não nos interessava, bem antes pelo contrário. Com a assassinato dos três Majores que estavam em negociações com o PAIGC, é que veio a deitar por terra a ponte que se estava a estabelecer.

Com esta porta de saída fechada os militares do quadro na Guiné começam a revoltarem-se pois não havia solução da crise à vista. Revolta ou onda que se começou a crescer levou ao 25 de Abril.

A ida de Alpoim a Conacri foi numa de última tentativa de aí tentar um golpe de Estado, para colocar um governo que não nos fosse hostil. Tudo correu mal.
Vieram os nossos rapazes que ali estavam presos e destrui-se muito material de guerra, que trouxe um pouco de acalmia às nossas tropas, mas por pouco tempo.

Sobre esta matéria ainda há muita história para se escrever. Há muita matéria que nós não conhecemos. Mas a razão fica sempre do lado do vencedor.

Um abraço para todo o pessoal
Paulo Lage Raposo

Guiné 63/74 - P798: O Sadiu Camará de Saré Tuto, aliás, tabanca Lisboa (Zé Teixeira)

Mensagem de José Teixeira:

Caro Marques Lopes:

Se me permites, uma pequena correção.

Tive o prazer de encontrar o Sadiu Camará (1) em Abril de 2005 em Sare Tuto, a cinco Km. de Buba, mais conhecida por Tabanca Lisboa, desde que ele praticamente assumiu a gestão desta tabanca.

Ou seja, Tabanca Sare Tuto e tabanca Lisboa são a mesma coisa. Da existência de Sare Tuto sabia eu, do tempo em que passei em Buba, embora pensasse que ficava muito mais longe. Afinal fica a cinco Km por picada.

Esta tabanca fica na picada de Buba para Fulacunda, à data considerada zona vermelha, pelo que a tropa não ia para essas bandas. Era de lá que vinham atacar Buba, as colunas para Aldeia Formosa e a tropa que protegia o pelotão de engenharia que construiu a estrada de Buba para Aldeia.

Foi um homem com sorte, o Sadiu Camará. Fala português correctamente e teve de facto a sorte ou a manha de apoiar os habitantes de Sare Tuto, afectos ao PAIGC, na fase em que a desordem era muita e concerteza a população de Sare Tuto ficou desamparada, pois os guerrilheiros naturalmente abandonaram a Tabanca para se juntar às forças vitoriosas nos quartéis abandonados pelos portugueses.

Foi em Sare Tuto/Lisboa que tive o meu encontro pacifico com antigos guerrilheiros, que só falam crioulo ou francês. Momento fantástico para mim e para eles.

Creio que o Sadiu ainda vive em Sare Tuto, que ficará perto de Saltinho, pelo mato. O Fernando, gerente do clube de caça do Saltinho, contrata-o ou contratava-o como pisteiro no período de caça.

Um abraço
Zé Teixeira
_______

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 18 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXI: Do Porto a Bissau (18): Sadiu Camará, um sobrevivente (A. Marques Lopes)

Guiné 63/74 - P797: Estórias do Zé Teixeira (9): Do tan-tan ao pum-pum, um casamento em Mampatá

Texto do Zé Teixeira, ex- 1º cabo enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70.

Luís

Saúde, paz e felicidade para todos os camaradas bloguistas

Ao reler uma carta que enviei à minha namorada em 1 de Setembro de 1968, não resisti a dar-te mais um pouco de trabalho, se assim o entenderes.

O humor e a boa disposição também imperava, mesmo nos momentos, ou após os momentos difíceis que por lá passamos, senão repara:

"Ontem, houve (aqui em Mampatá ) um casamento. Durante todo o dia se cantou e dançou ao som do tan tan característico do batuque. Que grande Festa !

"Toda a gente entrou na dança. Até eu que sou pé de chumbo, como tu dizes.

"Às 20.20h virou o disco e o tan tan, foi substituido pelo pum, pum das granadas turras. É lógico e compreensível que também quizessem participar nos festejos. O soldado da milícia que casou merecia festa.

"Desta vez, com seis canhões sem recuo e um morteiro 81, enviaram-nos 112 canhoadas que, como de costume, até parece mentira, caíram todas fora do arame farpadp que cerca a tabanca.
Após cerca de dez minutos, o fogo cessou e pouco depois recomeçõu o batuque, porque a festa ainda não tinha terminado.

"Um furriel que fazia anos, tinha trazido alguns convidados de Aldeia Formosa para jantar. Estavam a saborear um bom uísque quando começou o fado da canhoada, o que provocou uma confusão bestial. Descontentes com esta brusca interrupção da jantarada, os nossos homens resolveram vingar-se e mal acabou o ataque foram à procura dos tocadores e das guitarras. Parece que os artistas não gostaram da partida e da assistência que, em vez de palmas lhe enviaram outro tipo de música de acompanhamento, do Obuz que partiu de Aldeia Formosa e do nosso 81.

"Puseram-se no cabanço rapidamente, ao ponto de minutos depois a nossa gente, só encontrar o sítio ainda quente, dezoito granadas de morteiro e os 112 invólucros de granadas de canhão.
Até sabem bem, uma festa destas para quebar a monotonia e ajudar o tempo a passar."

Um abraço e bom fim de semana
© José Teixeira (2006)

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Guiné 63/74 - P796: O colaboracionismo sempre teve uma paga (1) (A. Marques Lopes / José Teixeira)


Guiné >Cacheu > CCAÇ 3 > Barro > 1968> Um prisioneiro do PAIGC.

Foto: © A. Marques Lopes (2005)

Texto de A. Marques Lopes, coronel DFA, na reforma, ex-alferes miliciano na Guiné (1967/68) (CART 1690, Geba, 1967/68; e CCAÇ 3, Barro, 1968)...

O colaboracionismo sempre teve uma paga (1)
Caros camaradas e amigos:

Tenho lido tudo o que têm escrito sobre os fuzilamentos e outras mortes dos comandos africanos e outros guineenses que estiveram a combater do lado da tropa portuguesa durante a luta de libertação na Guiné. Já escrevi, em tempos, sobre isso para o blogue. Porque o tema está aceso, vou ver se me lembro do que disse na altura e acrescentar mais algumas coisas.

Também sei de alguns dos meus jagudis que foram mortos após a independência, e de outros que tiveram de fugir para o Senegal. Falei-vos já, no blogue, do Braima Seidi, o meu guia em Barro, conhecedor dos trilhos e das zonas do tarrafe por onde os guerrilheiros passavam, tendo resultado da sua colaboração muitas e pesadas baixas para o outro lado.

Contei-vos que, em 1998, quando perguntei ao Cacuto Seidi por ele, este chefe da tabanca de Barro me disse, um pouco atrapalhado:
- Mataram ele depois da independência...

Também vos falei da filosofia de vida dos meus soldados da CCAÇ 3, da sua atitude perante os feridos que o PAIGC deixava no terreno, e que era:
- Deixa estar, alfero, vem jagudi e come...

O Braima Seidi, caçador conhecedor da zona, recebia 2.000 escudos por mês por essa sua colaboração, vivia bem na tabanca, com quatro mulheres. Um cabo daquela companhia recebia 1.400 escudos mensalmente (não me lembro quanto recebiam os soldados) (2), com comida, bebidas sempre à disposição, e assistência médica em Bigene, quando necessário. Apesar de também andarem na guerra, uma vida muito diferente do pessoal da guerrilha que vivia no mato.

No final da segunda grande guerra, a resistência francesa matou muitos colaboracionistas, a italiana assim fez, no Vietname, após a vitória, fizeram o mesmo, os franquistas fuzilaram muitos republicanos...
- Vae victis! Ai dos vencidos! - já os romanos diziam.

Não estou a fazer a apologia desses procedimentos, estou a dizer que eles sempre fizeram parte da história dos vencedores. Claro que também houve os Nurembergas em que os vencedores, muitos também com culpas no cartório, fizeram o julgamento daqueles que venceram. Mas foi diferente, evidentemente.

Tenho pena e gostava que as coisas não se tivessem passado assim na Guiné, porque, como vós, vivi e convivi com aqueles guineenses que lutaram ao meu lado. Não sei dos meandros das conversações em Londres para formalizar a independência, espero que o Paulo Reis um dia me esclareça sobre isso. Mas parece-me que a solução desse problema, o futuro dos que estiveram do nosso lado, não teria sido tarefa fácil.

Num país saído de uma revolução, como foi nosso, em ebulição em 1974, perto da guerra civil em 1975, que poderia ter sido feito? Embarcar toda essa tropa guineense, habituada à guerra e a matar, misturá-los com os muitos milhares de retornados que cá estavam já, acasalá-los com os vários grupos políticos que se degladiavam, às vezes de forma violenta, encostá-los ao MDLP...? Tentar que fossem para outro país africano, tentar passar a batata quente? Mas qual dos países africanos, já com gente da mesma estirpe, os aceitaria?

Outra hipótese, que me disseram ter existido, seria negociar a integração deles nas Forças Armadas da nova Guiné-Bissau. Mas, há que admitir, isto também terá sido demasiado complicado conseguir. Com os ódios todos ao de cima (que é natural que houvesse entre guineenses que se combateram mutuamente, embora connosco isso não sucedesse), não os estou a ver em conjunto numa caserna, não estou a ver um capitão dos comandos africanos a comandar uma companhia de ex-guerrilheiros... Não estou a ver o Marcelino da Mata em convívio com o comandante Lúcio Soares.

Gostaria que tivesse havido uma solução. Mas não foi fácil, acredito. Não por cobardia, nem pusilanimismo, nem por abandono dos responsáveis portugueses da altura, governo, MFA ou Conselho da Revolução. Num país em agitação revolucionária, mesmo em polvorosa, com militares politicamente inexperientes, terá sido extremamente difícil manobrar de forma ardilosa e segura, havendo tantas coisas de difícil tratamento por cá.

Está visto que o problema teve que ficar nas mãos dos vencedores, donos da Guiné. Estes poderiam, se com uma mão firme e esclarecida a dirigi-los, ter optado pelo menos chocante e, na situação, aceitável até para nós: deixá-los estar, remetendo-os ao abandono. O tempo traria outra soluções (ou outros problemas, sabe-se lá...). Mas o caboverdeano Luís Cabral, como me disse o ex-paraquedista Camará, não conseguiu ter pulso e foi ultrapassado pelas iniciativas dos ex-comandantes das guerrilhas locais, pelas iniciativas das figuras históricas do PAIGC naturais da Guiné, como o Nino Vieira, o Gazela e o Chico Té. E foram estes que incentivaram à vingança dos vencedores... a outra paga. E, como se sabe, o próprio Luís Cabral teve de ir embora.

Mas cada um tem a sua visão pessoal desta questão, é claro. Acontece em tudo. Sobre o outro lado da moeda, isto é, as atrocidades cometidas pelos comandos africanos, pela PIDE e outros que tais, não vou acrescentar mais ao que o João Tunes e o Pepito já disseram. Estou completamente de acordo com eles.

Um abraço
A. Marques Lopes

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2. Texto do de José Teixeira (ex-1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70):

Luís e camaradas tertulianos.

Não posso ficar indiferente ao tema que ultimamente (e ainda bem) enche as páginas do blogue – Os comandos Africanos do exército português abandonados à sua sorte e, quantos deles, assassinados pelo PAIGC.

Todos nós que por lá passámos, vimos, ouvimos e até lemos os actos heróicos que os comandos e os soldados da milícia africanos cometeram contra os seus irmãos. Eles gabavam-se, mostravam os seus trunfos de guerra (orelhas, cabeças, roncos, etc.) e quantos de nós batiam palmas e incentivavam. Era menos um inimigo, mais uma chance para nós, que queríamos voltar sãos e salvos. Esta é a verdade.

Em O Meu Diário expressei o horror que senti, quando o já falado Candé, Alferes comando que chefiava o grupo que estava estacionado em Aldeia Formosa, num encontro com o IN, que tinha emboscado a minha Companhia apareceu com as orelhas dos IN que o seu grupo tinha abatido. Foi um choque horrível para quem estava há 3 meses na guerra.

Certo é, que com o grupo do Candé no terreno nós sentíamo-nos mais seguros e o IN mantinha distância.

Creio que se o Comandante da força estacionada, ou o Comando Chefe de quem diziam dependia directamente, não alimentasse com alvíssaras estas atitudes ou as reprimisse por não serem de modo algum enquadráveis na Convenção de Genebra, o Candé teria de tomar outra atitude. Isto é, ele e o seu grupo foram treinados e instrumentalizados para cometer actos indignos do ser humano e eram pagos para isso.

Quantos de nós (não pretendo acusar nem desculpabilizar ninguém) fomos levados a cometer actos dos quais, após a terminar da Comissão e regressados sãos e salvos sentimos quanto fomos instrumentalizados para o fazer ?

Quantos de nós, pessoas de bem, educados numa religião que premeia a paz como objectivo, nos dispúnhamos apenas a tentar safar a pele, logo evitar fazer guerra, quer dizer matar para sobreviver e face ao perigo, reagíamos de forma tão diferente, forma que desconhecíamos em nós e nos tornávamos insensíveis ao sofrimento e à dor que poderíamos provocar ?

Quantos de nós, (des)politizados, víamos a ida para a guerra como uma missão patriótica a cumprir cegamente ? A Pátria chamava . . .

A quem culpalizar ? A quem desculpar ?

O ambiente gerado e bem alimentado pelo poder politico militar de exploração da divisão étnica dos autotóctenes resultou em crimes graves de parte a parte.
Não creio que o PAIGC, fosse mais meigo, quando apanhava comandos ou milícias africanos.

Não está em causa desculpabilizar os actos cometidos por essa gente, como não podemos culpabilizar os actos condenáveis pela Convenção de Genebra (que creio só poucos de nós à data tinham conhecimento) cometidos por camaradas nossos sem causa justa ou seja sem que fosse em legítima defesa.

Todos sabemos que quando se entrava numa tabanca considerada IN, tudo o que aparecesse à frente era IN para abater e era ronco, enviar no comunicado para o Comando Chefe, tantos IN abatidos. Mulheres, crianças, velhos, homens desarmados. Quantos ?

Eram colegas nossos, a quem lhes fora inculcado que eram filhos da mesma Pátria, embora o poder político, sempre os considerasse e tratasse portugueses de segunda, o que a meu ver não pode ter perdão.

Combateram a nosso lado, quantos de nós lhe devemos a vida. A sua prática e conhecimentos de guerra, o conhecimento do terreno, das armadilhas que o IN colocava, a temeridade que provocavam ao IN, foram ou não factores que nos facilitaram o regresso ?

Por esta razão se mais não houvera, não podiam ser abandonados à sua sorte, sabendo os nossos comandantes, seus ordenantes, que, naturalmente, ficariam com a cabeça a prémio. O esforço que se fez (e o mérito vai para o Carlos Fabião) foi demasiado pequeno para quem tanto deu a Portugal.

Tenhamos consciência, no entanto, que quem estava na frente da guerra eram os milicianos, gente que de algum modo estava forçada e logo que vislumbrou uma frecha para eliminar o perigo de morte para os seus homens, baixou os braços, entregando o seu espaço de manobra ao até então IN, agora companheiro. Há quem chame a isso cobardia, sobretudo os saudosos do passado.

Eu que vivi uma guerra com o propósito de não dar um tiro e consegui-o, tendo por isso já ouvido essa palavra feia de cobarde, consciente da realidade no terreno, aceito essa atitude como um acto normal de quem não queria fazer guerra e tinha sido empurrado para ela.

As altas esferas militares e políticas, os dos gabinetes com ar condicionado, os responsáveis que aplaudiam e alimentavam os seus actos, esses sim tinham o dever de acautelar as vidas e o futuro desta gente generosa.

Creio que faltou a comunicação, o diálogo com as nossas forças no terreno, já que o sistema implantado até então, de ordens de comando, com a queda do regime, se esfumou. Foi um salve-se quem puder. Os grandes foram os primeiros a dar o pira à procura de novos tachos. Os desgraçados que não puderam, que não tinham para onde ir, esses pagaram caro. Para muitos a fuga para o mato, para o Senegal na tentativa de agarrar Lisboa. Outros ou não tiveram tempo, ou acreditaram nas falinhas mansas do lobo. Pagaram com a vida. As vidas que nós, os antigos combatentes, agora choramos e lamentamos.

A culpa, aqui não morreu solteira. São o Estado Português e o PAICG.

O PAIGC, servia-se, a meu ver, exactamente das mesmas técnicas, em que a exploração da divisão étnica era naturalmente alimentada. Tal como Portugal, controlava as tabancas nas suas áreas de influência e condicionava os habitantes. Servia-se destes, desde a produção de produtos alimentares para os guerrilheiros, o transporte de equipamento, para os ataques, o arrebanhar de crianças e jovens para as suas fileiras, tal como nós com a milícia e os Comandos africanos.

Era uma terra dividida. De qual lado estavam os bons ou os maus ? O diabo que escolha! O ódio era alimentado e explorado por todos os comandos das forças no terreno. Era a guerra.

Nós, os Portugueses, de um momento para o outro parámos. Esta guerra perdera toda a razão de ser. Não tinha lógica, era contra natura. O PAIGC, entendeu esta atitude como uma derrota nossa, logo uma grande vitória, o que não foi verdade. Assumiram-se como vencedores e ai dos vencidos , como diziam os romanos.

Os seus heróis apareceram na ribalta como os novos senhores. A sua verdade era a única possível. Os seus conhecimentos de gestão política eram nulos, para não falar na económica e na social, que talvez nunca tinham ouvido falar. Eles não acreditavam numa vitória tão fácil. O poder caiu-lhe nas mãos. Tinham a obrigação de procurar entender o povo que se colocou na outra banda da barricada, eram seus irmãos de pátria. Da Pátria que afirmavam querer construir. Não eram os seus heróis, bem pelo contrário, mas eram parte do seu povo.

Podiam proceder a julgamentos e eventualmente condenar, pois os crimes praticados foram realidades concretas, mas . . . ( O raio do mas aparece sempre). Quantos dos vencedores estavam e estão isentos de culpas ? Quantos dos seus homens, senão eles próprios, não cometeram actos idênticos ?

Não posso aceitar, julgamentos sumários sem defesa, ou condenações à morte sem julgamento. Foram assassinatos puros, quantos deles de forma violenta como a do Candé de Aldeia Formosa. Foram perseguições às famílias dos que se refugiaram no mato ou no estrangeiro. Foi a caça ao homem, meu irmão.

Como gostava de reencontrar hoje o Candé, como encontrei o Braima, Kebá o Ussumane e tantos outros que combateram a meu lado, que me defenderam a vida.

Como gostava de reencontrar o Abdulai Djaló de Mampatá Forea, com quem passei noites em conversa até adormecer na sua esteira, eu, ele e a mudjer dele. Sei que fugiu para o mato com destino ao Senegal. Nunca mais se soube onde foi parar.

Há tantas coisas em comum para partilhar, tal como entre nós os tertulianos da Luisiana ideia, que apesar de não nos conhecermos pessoalmente parece que até estivemos juntos naquela aventura, tal é a ligação afectiva que nos une.

Creio que era a melhor forma de afastarmos os fantasmas que povoam o nosso imaginário.

Bem hajam os tertulianos que levantaram e estão a provocar este debate.

Um fraternal abraço

Zé Teixeira
 __________

Notas de L.G.:

(1) Colaboracionismo: Actividade, comportamento, atitude ou interesse de colaboracionista, ou seja, de pessoa que colabora com ou apoia o inimigo que ocupa, total ou parcialmente, o território do seu país (Dicionário Houaiss da Lígua Portuguesa, 2002).

O termo fancês collaborationniste surgiu em 1940, na sequência da ocupação da França pelo exército alemão e a constituição do Governo de Vichy, presidido pelo Marechal Pétain (1851-1951), o herói de Verdun na I Guerra Mundial. Depois da libertação, Pétain foi condenado à morte por alta traição, sentença comutada em prisão perpétua. HGouve outrois governos colaboracionistas durante a II Guerra Mundial: Bélgica, Holanda, Noruega (com o famigerado Vidkun Quisling, abertamente favorável aos nazis), Croácia, Hungría bem como noutras partes da Europa de Leste...

(2) Vd. pst de 1 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXXXII: Cem pesos, manga de patacão, pessoal! (2)

"(...) E os nossos soldados africanos, que eram praças de 2ª ? Tenho ideia que ganhavam seiscentos pesos, mais outro tanto (25 pesos / dia) por serem desarranchados... Como eram islamizados, não podiam comer a comida do tuga, pelo que foram mais tarde autorizados a receber o subsídio de alimentação... Mandaram-me isso à cara, no Xime, quando morreu o Cunha e o restante pessoal da CART 2715... Os sacanas tiveram um momento de hesitação, antes de aceitarem ir comigo resgatar os corpos dos nossos camaradas mortos, à cabeça da coluna (vd post de 25 de Abril de 2005 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970):- Pessoal africano só ganha seiscentos pesos! - Que é como quem diz: vai lá tu, que os mortos são do vosso sangue, são do vosso chão, são da vossa terra, são tugas... Foi o único momento, em toda a minha comissão, em que vi os nossos soldados terem medo"...

Guiné 63/74 - P795: Antologia (39): O massacre dos soldados africanos da CCAÇ 13 (Carlos Fortunato)

Extracto de Leões Negros (Página pessoal do Carlos Fortunato, CCAÇ 13, 1969/71)

Guiné > Bissorã > CCAÇ 13 > O furriel miliciano Fortunato e o soldado Calaboche Tchudá, babalanta, natural da região Bissorã, apontador de LGFog, Prémio Governador da Guiné, em 1970 (0u 1971)...Foto: No regresso de uma patrulha, ao atravessar um riacho, perto de Bissorã, Colaboche agarra o furriel Fortunati e grita: "Tira uma fotografia e manda para a família a dizer que o furriel Fortunato foi apanhado por um turra".


Foto: © Carlos Fortunato (2006)


Guiné > O massacre dos soldados africanos (extractos)

A guerra era algo que os soldados africanos lamentavam constantemente, o seu desejo era que fosse feita a paz.

A aspiração dos soldados africanos da CCAÇ 13 era apenas a de terem uma vida melhor, e o empenho de alguns deles para se desenvolverem era extraordinário. Apesar de apenas falarem balanta e algumas palavras de crioulo, dedicavam-se afincadamente ao auto-estudo, pegando em livros de leitura que decoravam, numa tentativa de aprender a ler.

Com uma ajuda inicial minha e depois do Furriel Varela, conseguiram a proeza de tirar a 3ª classe, nos 2 anos que estiveram connosco.

Apresento a seguir um extracto de uma carta do soldado Calaboche, é apenas um exemplo de um homem simples que lutou leal e dignamente na procura de um futuro melhor, acreditando que ele seria ao lado de Portugal.

Calaboche nunca conseguiria ver os seus sonhos realizados, pois ele, tal como muitos outros, foi abandonado à sua sorte e fuzilado pelo PAIGC.

Contrariamente ao que por vezes tem sido dito, não foram apenas os comandos africanos que foram mortos, muitos outros foram perseguidos e mortos.

Houve quem fugisse para o Senegal, para salvar a vida, mas ai foram muitas as dificuldades por que passaram, alguns acabariam por morrer ai, ao serem apanhados a roubar.

(...) Embora todas as informações indiquem, que os fuzilamentos foram um triste episódio que já terminou à muito, num país pobre como a Guiné, existem muitas maneiras de colocar em causa a sobrevivência.

Uma das coisas que os antigos combatentes africanos se queixavam é que não conseguiam trabalho, a terra agora era de todos, mas os que eram identificados como antigos combatentes, eram excluídos da comunidade, não podendo cultivar a terra, e sem poderem trabalhar como poderiam sobreviver ...

Transcrevo a seguir dois extractos de duas cartas relatando um pouco o que se passou em Bissorã:


Julho de 1982

Quirido amigo Fortunato.

Eu ficou bastante contente com sua carta.

Eu ficou com grande alegria com piqueno informação.

O amigo se voce fala com teu irmão sobre minha problema se ele disse que precisa de qualquer ducumento voce manda-me escrever.

Por favor amigo.

Hora bem eu vou-te esplicar poucina en pouco (1) de independencia da Guiné Bissau.

O que se passou depois de independencia da Guiné, partido mata muitas pessoas na nossa grupo, mata Tenha Taga, Calabos Tchuda, Furrel Sora Nando, só na nossa grupo, também Caba Santiago, Sitofa Quebá, Bacai, José de mesa oficiais, cozinheiro Nhinde de Olossato (2).

Olha Fortunato eu não tem trabalho depois de independencia partido não deija nos(3) trabalhar junto com eles partido disse que nosso tropa portuguesa luta contra eles. Se voce vem cá na Guiné com cooperante voce capaz de arranjar trabalho por favor amigo Fortunato(...).



Notas corrigindo alguns dos erros da carta para melhor compreensão:

(1) Pretende escrever: explicar um pouco
(2) Pontuei este parágrafo para ser compreensível.
(3) Pretende escrever: deixa nós.


1988

(...) Os teus soldados chamados Jorge, Barra, Tancana (1) foi matados em furto em Senegal. (...)


(1) O 2º e 3º nomes estão mal escritos, correctamente é: Birra e Tangana.

Na primeira carta de 1982, é referido o nome de Cabá Santiago. Conheci o Cabá Santiago e posso contar um pouco da sua história, tendo por base aquilo que ele me contou, e o que eu conhecia a seu respeito.

Cabá Santiago era um individuo inteligente e com alguma cultura, tinha sido professor até aderir ao PAIGC, aí passou a ser professor e guerrilheiro. Após muitos anos de luta, sem ver um fim à vista para esta, e percebendo que o PAIGC mentia nas suas mensagens de propaganda, acreditou que o melhor caminho a seguir era o apontado por Portugal, e aproveitou as campanhas de aliciação para os guerrilheiros abandonarem a luta, para se entregar.

Como a todos os que se entregavam, as questões que lhes eram colocadas eram: qual a possibilidade de outros guerrilheiros se entregarem, onde estavam os depósitos de armas, qual a possibilidade de eliminação de guerrilheiros, Cabá com tudo colaborou.

Cabá Santiago foi contudo mais longe, regressou à sua zona contactou os guerrilheiros que estavam junto da população, mandou-os ir buscar as suas armas (cada um tinha escondido a sua no mato), e quando estes chegavam armados eliminava-os.

Escusado será dizer que Cabá Santiago, ficou com a cabeça a prémio, e por isso ele era sempre o último da coluna de milícias que comandava, pois tinha medo de ser morto pelas costas pelos seus próprios homens.

Pergunto aos leitores:
- O que acham que iria acontecer ao Cabá Santiago quando fosse entregue o poder em Bissorã ao PAIGC ?

(...)

Guiné 63/74 - P794: O comportameno exemplar dos militares da CCAÇ 13 (Carlos Fortunato)

Texto do Carlos Fortunato [ex-furriel miliciano, de transmissões, da CCAÇ 13, 1969/71, aquartelado em Bissorã, entre outros sítios]:

Amigos e Camaradas

Tenho lido algumas afirmações sobre o massacre dos comandos, que me obrigam a discordar de algumas opiniões emitidas.

Embora seja consensual que houve outros soldados africanos mortos, além dos comandos, a minha visão sobre os acontecimentos é que a seguinte: o que está em discussão para mim, é termos dado a nossa palavra aos soldados africanos, termos comprometido a nossa honra, e quando chegou o momento de realmente cumprirmos o que prometemos, viramos as costas a esses camaradas.

Não garantimos a sua sobrevivência, e mais grave ainda, quando os massacres começaram a ocorrer, não dissemos uma palavra, quando foram segregados da sociedade não dissemos uma palavra, é claro que é mais cómodo procedermos assim, e em particular dizermos que não sabemos de nada, é fácil arranjar uma boa desculpa para nada fazer.

Sobre as atrocidades que existiram enquanto durou a guerra muito havia a dizer, mas iria abrir muitas feridas, e prefiro nem sequer abordar esse tema, prefiro falar da forma exemplar que os soldados africanos da CCAÇ 13 se portaram.

Os soldados africanos da CCAÇ 13, actuavam na sua terra, quando íamos às tabancas no mato, os soldados encontravam as suas irmãs, primos etc., não roubávamos sequer uma galinha.

Os soldados da CCAÇ 13 actuaram sempre com muita coragem e foram muitas as baixas que causaram ao inimigo, mas nunca vi um soldado africano da minha companhia cometer uma atrocidade, mas sim o contrário.

Na operação que fizemos ao Morés, em que sabíamos que tínhamos que estar 10 dias no mato sem reabastecimentos de comida, vi-os partilhar o pouco que tinham com os prisioneiros, embora sabendo que nos dias seguintes iam passar fome e sede, 11 deles tiveram que ser evacuados por insolação devido à falta de água, e acabamos bebendo a agua estagnada das bolanhas, alimentando-nos das mangas que encontrava-mos, ou roendo algumas cascas de árvore, mas esta atitude sempre digna que tiveram, não evitou que depois fossem mortos pelo PAIGC.

Diz-se que não deviam ter lutado ao nosso lado. Porque não? Se confiavam mais no seu futuro com os portugueses, do que dirigidos pelos seus compatriotas, quem lhes pode negar o direito de terem uma palavra a dizer, e de terem esperança numa reconciliação. Até a resolução 1542 da ONU previa essa possibilidade.

Sempre temi que estes massacres viessem a acontecer, e disse aos soldados africanos o que deviam fazer: quando terminassem o serviço militar, era sair da tropa e procurar uma profissão o mais qualificada possível, para tal deviam já começar a estudar e tirar pelo menos a 4ª classe, e todos os dias por mais cansados que estivesse-mos, lá estávamos na nossa aula.

Não me interessa o que outros países tenham feito, Portugal é o meu país, esta é a nossa história, esta é a nossa honra.

Tenho orgulho que tenhamos feito uma revolução exemplar no 25 de Abril, praticamente sem derramar sangue, e motivos para ajustes de contas não faltavam, principalmente com a Pide, mas fico magoado com este processo que ignorou os soldados africanos.

Na minha opinião deveria ter-se pressionado o PAIGC a integrar os soldados africanos, arranjando soluções de compromisso, por exemplo excluindo as chefias, os soldados condecorados ou louvados, comprometendo-nos a dar um verba para a manutenção dessas forças, deveria ter-se dado a oportunidade de os restantes virem para Portugal e ficarem no exercito português, eu sei lá que mais … existiam tantas soluções.

Neste momento, penso que o importante é concentrarmo-nos no que ainda podemos fazer, por aqueles camaradas, pois ainda podemos fazer alguma coisa, como por exemplo dar-lhe o tratamento que damos aos antigos combatentes, e aqueles poucos euros que agora recebem como complemento de reforma, eram uma paga preciosa e mais que merecida.

Nunca se abandona um camarada. No site da CCAÇ 13 estão os nomes de alguns dos
seus soldados mortos depois da independência, se quiserem fazer uma visita, consultem a página sobre a Guiné.

Um abraço a todos

Carlos Fortunato
(Leões Negros - CCAÇ 13, 1969/71)

Guiné 63/74 - P793: O limpo e o sujo, nós e os pides (João Tunes)

Caro Luís,

Se me dás licença, apenas 3 pontos (ou prespontos):

1 - O teu texto que eu comentei não foi o mesmo que apareceu no blogue (este é muito mais extenso e documentado). Publicaste uma nova versão do teu texto e o comentário que fiz à sua versão reduzida que foi a que me enviaste. Se o texto que eu tivesse lido fosse o que posteriormente publicaste não teria feito o mesmo comentário. Seria outro ou nenhum.

2 - O comentário que publicaste do Pepito não se referia ao meu texto que publicaste mas a um outro que enviei sobre o assassinato de Amilcar Cabral que (ainda?) não publicaste. Aliás o meu texto comentado pelo Pepito vinha agarrado com o meu mail. Assim, a bota não joga com a perdigota.

3 - Não concordo absolutamente nada se entendi bem o teu raciocínio de separares as NT da nefanda PIDE. Não acho que estivéssemos assim tão longe. Toda a acção militar suportava-se no trabalho de informações e infiltração operada pela Pide. Assim, o Fragoso Allas foi companheiro de armas de Spínola e cada um de nós o foi do agente da Pide local. Objectivamente, foi assim.

E por isso achar não alinho na estória das tropas limpas e dos pides sujos. O barco foi o mesmo (se calhar, no mesmo Niassa em que fizemos viagem também lá iam alguns dos prestimosos agentes). Tendo lá estado e beneficiado do trabalho sujo da PIDE, eu fui, também, camarada de armas dos pides. Como dos comandos africanos e dos milícias.

Eu, como ocupante, tive a sorte de regressar vivo à sede do Império, os colaboradores guineenses com os ocupantes lá ficaram e lá as pagaram. De uma forma miserável e inaceitável, mas pagaram. Quanto aos pides por aí estarão a beneficiar de reformas como funcionários públicos pelas razões de impunidade que todos conhecemos. Para mim, estas são as únicas diferenças. Se para lustro das nossas velhas fardas, quisermos separar o nosso trabalho limpo do trabalho sujo, quando esta distribuição de papéis fazia parte das regras do jogo, pela minha parte eu não sacudo a lama que me cabe como quinhão.

João Tunes


Comentário de L.G.:

Peço desculpa da trapalhada que às vezes é a publicação, não por ordem de chegada mas de actualidade editorial dos mensagens que me chegam. No caso que mencionas, de facto não bata a bota com a perdigota, como dizes tu e diz o Zé Povinho. Àparte as dificuldades (no fundo, a incompetência) para pilotar este barco, já tão grande, há ainda o facto de os tertulianos usarem um ou outro dos dos meus dois endereços de e-mail, o de casa e o do local de trabalho. Enfim, isto não deveria servir de desculpa: tenho de estar mais a tempo à ordem lógica e cronológica das mensagens e dos posts.
Um abração.

Guiné 63/74 - P792: Todos camaradas, mas uns mais do que outros? A propósito do assassínio de Amílcar Cabral (João Tunes)

Texto de João Tunes, de 23 de Maio último:

Caro Luís,

Julgo que a lista dos fuzilados pelo PAIGC que lutaram, ao nosso lado, pelo Portugal do Minho a Timor, não se deve esgotar nos actos pós-independência.

Porque os crimes contra a humanidade nunca prescrevem. Houve mais fuzilados pelo PAIGC sem julgamento decente. E, na minha opinião, eles devem entrar na lista que porfiamos em recordar para memória futura e homenagem retroactiva.

Em 1973, os mandos de Portugal (comando militar e PIDE) conseguiram o feito de assassinarem Amílcar Cabral, o turra-mor. Foi uma operação urdida com sucesso (ao contrário da Operação Mar Verde). Nesta operação, a PIDE conseguiu infiltrar o PAIGC e explorando os ressentimentos de alguns combatentes guineenses contra os seus camaradas caboverdianos, levou a bom termo a sua missão: Amílcar caiu em Conacri, fuzilado sem julgamento e pelas balas de combatentes ressentidos, preparados e pagos pela PIDE ao serviço de Portugal.

E só por uma unha negra, o sucessor de Amílcar, Aristides Pereira, não foi entregue em Bissau, então nossa, provavelmente para o competente e juridicamente assistido julgamento. Amílcar Cabral foi assassinado mas daí pouco se passou. Nada mau, como saldo. Acontece que os nossos aliados, os nossos infiltrados, ao nosso serviço, ao serviço de Portugal do Minho a Timor, nossos camaradas portanto, falhado o clímax da operação (a liquidação de todos os caboverdianos, o controlo do PAIGC pela facção guineense e a sua integração na Guiné Melhor), foram apanhados pelo aparelho de segurança interna do PAIGC e fuzilados (sem julgamento). Terão sido 50 (cinquenta) esses nossos camaradas em missão de infiltração e aniquilamento que caíram sob as balas da justiça revolucionária, iníqua porquanto não precedida de julgamento segundo as regras da civilização cristã e ocidental que espalhámos pelas sete partidas.

Segundo depoimento de Mário Pinto de Andrade (que, em tempos, publique no meu blogue) terá sido Vasco Cabral (dirigente do PAIGC e homem de Estado da Guiné-Bissau, falecido há pouco tempo e que não era caboverdiano nem familiar de Amílcar) que investigou a conspiração, a desmantelou e depois assassinou todos esses nossos queridos e saudosos camaradas. No mínimo, seria injusto não lhes recordar, pelo menos, os nomes e a missão em que tombaram.

Julgo de elementar justiça que os nomes destes nossos 50 camaradas fuzilados sem julgamento (talvez o Leopoldo, o Jorge e o Pepe nos ajudem a encontrar a lista dos seus nomes), renegados do PAIGC mas combatentes por Portugal, se juntem, na mesma homenagem e recordação, à lista dos comandos, outros militares, milícias e agentes e informadores da Pide caídos em fuzilamentos selvagens na pós-independência às mãos dos mesmíssimos facínoras e gente com aversão a julgamentos juridicamente assistidos.

Ou uns são mais camaradas que outros? Por mim, nem pensar.

Abraços com saudações patrióticas do
João Tunes

Guiné 63/74 - P791: Os marinheiros e os seus navios (Lema Santos)


A LFG Orion a navegar no Cacheu em Janeiro de 1967

Foto: © Lema Santos (2006)

Texto do Lema Santos, ex-oficial da Marinha (Guiné, 1966/68):

Caro Moura Ferreira,

Inicio esta minha segunda investida como apanhado pelo clima agradecendo-te as Boas Vindas (2), cumprimentando-te com Amizade bem como a todos os Membros e, dentro da minha capacidade e conhecimento, permitir que algum esclarecimento adicional seja acrescentado a toda a Tertúlia e à História, em nome do que é conhecido e também do que o não é, do teatro de operações que foi a Guiné.

Difícil é fazê-lo deixando de lado debates sobre massudos conceitos de estratégia naval, articulados com dispositivos locais existentes, tudo muito pouco interessante, mas sem deixar de respeitar a autenticidade dos factos relatados.

Na diferente emotividade das vivências sentidas e das diversas opiniões expressas sobre um mesmo facto ou narrativa, o oportuno esclarecimento ou opinião por quem participou directamente, marcará sempre a diferença.

Abordarei inicialmente alguns pontos sem os quais será difícil, a quem lê, enquadrar pessoalmente os acontecimentos e, bem pior, compreender correctamente os diálogos e sequências. Se entenderem que estou a pisar o risco das aulas de marinharia , açoitem-me.

Fá-lo-ei sempre com o cuidado de não ferir a veracidade de factos comprovadamente registados, ainda que aligeirados e respeitando diferentes sensibilidades.

A Orion, Lancha de Fiscalização Grande (LFG), com o número de costado P362, pertencia a uma classe de navios denominada Argos das quais estiveram operacionais na Guiné, entre Maio de 1966 e final de Abril de 1968 (data do final da minha comissão), outras quatro unidades idênticas: Cassiopeia, Hidra, Lira e Sagitário.


A LDG Ariete onde se transportava, tal como na Montante e na Alfange, 1 Batalhão.

Foto: Revista da Armada (gentilmente enviada por e-mail pelo Lema Santos)

Todas estas 5 LFG's tiveram como tónica comum, entre 1963 e 1975, o teatro de operações único da Guiné e vida operacional semelhante.

Mais tarde, outras duas, a Argos em 1970, a primeira a ser construída, e a Dragão em 1969, se lhe juntaram. Estas duas últimas já tinham estado na Guiné em 1964/1965 , ano em que, em Fevereiro, foram para Moçambique.

Ainda uma outra, a Escorpião esteve durante cerca de um ano - 1964 - também na Guiné, após o que permaneceu, até ao final da sua vida operacional, repartida entre Angola e S.Tomé.

Em 1975 todas as LFG's rumaram para Angola, salvo a Cassiopeia e a Sagitário, afundadas na Guiné ao largo da costa, pelo justificado mau estado em que se encontravam.

Nenhuma destas LFG's tinha nada a ver, quer em aspecto quer em capacidade operacional, com as que são referidas por ti nas observações que fazes e, referindo-me apenas à época da minha comissão de serviço, havia ainda:

- LFP's (Lanchas de Fiscalização Pequenas) - Bellatrix, Canopus e Deneb.
- LDG's (Lanchas de Desembarque Grandes) - Alfange e Montante.
- LDM's (Lanchas de Desembarque Médias) - diferindo apenas em aspectos de pormenor e nos números de costado.
- LDP's (Lanchas de Desembarque Pequenas) - como as LDM's mas de porte mais pequeno.

Limitando-me apenas às LFG's e especificamente à Orion, refiro alguns aspectos genéricos:
O aspecto visual do perfil era claramente o de um patrulha. Em profundidade, havia navio até 2,20 m abaixo da linha de água o que lhes vedava, em alguns rios, o acesso parcial ou, noutros casos, total. O risco corrido da não observação deste princípio náutico, a respeitar na informação dada pela sonda, era o encalhe pura e simples, como sucedeu algumas vezes.

Estas unidades navais efectuavam inicialmente a docagem de conservação (alagem) nos estaleiros navais de S. Vicente, em Cabo Verde e, mais tarde em Bissau. Significava que, com alguma dificuldade e amargos diversos de estômago, efectuavam navegação oceânica.

Tinham a base naval em Bissau, na ponte cais em T, frente ao Comando de Defesa Marítima na parte interior da ponte-cais em T onde, na parte exterior atracavam também os comerciais e alguns TT's. Estou a lembrar-me do Rita Maria, Ana Mafalda e até mesmo o Funchal.

Para lá de toda a zona costeira da Guiné, incluindo os Bijagós, eram navegáveis, para as LFG's, os cursos do rio Cacheu (até Farim), do Mansoa, do Geba até ao início do Corubal, do Grande Buba até um pouco acima de Bolama, do Tombali praticamente apenas na foz, do Cumbijã até em frente a Cadique e do Cacine até um pouco acima da foz do Unconde.

Quando a curso dos rios já o não permitia, a navegabilidade mais para montante era preenchida complementarmente pelas LFP's. Depois as grandes heroínas do tarrafo, do lôdo, dos desembarques, dos pequenos transportes, as LDM's e as LDP's; nos imprescindíveis grandes transportes de pessoal, material e abastecimentos as LDG' s assumiam a função.

Depois destes minúsculos esclarecimentos passo a temas específicos que e muito bem, colocaste:

Pela descrição, penso que terás ido para Cufar (podia ser Bedanda) numa LDM, na companhia de alguns batelões e que, certamente, foram escoltados até à curva da mata do Cantanhês, frente a Cadique, por uma LFG e uma LFP; era uma das missões de rotina no Sul dado que se encontrava permanentemente em cruzeiro nessa área uma LFG que era rendida ao fim de duas semanas; alternava a fiscalização do rio Cacine com o Cumbijã e era complementada por uma LFP, mantendo-se também na área uma ou duas LDM's.

Sempre que havia um comboio de abastecimentos, transporte de pessoal ou material e escoamento de produtos comerciais (Bedanda), a escolta de ida, para montante ou de regresso, para juzante, era feita pela LFG que permanecia na área. Conjuntamente com os restantes meios navais no local navegavam em comboio, a maioria das vezes com o apoio da FA:

Iniciava-se na barra do Cumbijã, na parte açoreada junto da Ilha de Melo, a montante da foz do rio Massancano (Canal de Melo), junto da marca Almirante.

Navegando para montante, deixava-se a estibordo (à direita) o braço de rio Iade que conduzia ao aquartelamento de Cabedú, nosso último reduto a Sul da mata do Cantanhês.

Curvava largo e lento para bombordo (à esquerda) deixando desse lado as povoações de Sinchã e Cametonco, agora quase rumo a Norte, à foz do Cobade, próximo de Catió.

A estibordo recortava-se a sempre temível mata do Cantanhês - relembrando a Operação Tridente (1) - com as povoações de Catesse e Darsalame primeiro e já depois de inflectir francamente para estibordo, depois da foz do rio Cobade, Cafine e depois Cadique zona onde, salvo raras excepções, os comboios eram sistematicamente flagelados.

A travessia fazia-se sempre com o apoio da FA (T6 e mais tarde os Fiat G91). Morteiro, metralhadora pesada, as nossas peças Boffors de 40 mm, as MG's 42 nossas e das lanchas, os lança-rockets da LFP, mata incendiada, o T6 que entrava pela copa das árvores para voltar a sair mais à frente, num cenário e espectáculo indescritíveis.

Depois de nova curva a bombordo junto à foz do rio Macobum, navegação para Norte na direcção de Cufar. Mais tarde, nessa zona, foi referenciado canhão sem recuo.

Uma longa meia-hora para cada lado, deixando o combóio em segurança, já para montante de Cadique.

O registo da ponte alta da LFG Orion em 1967: 18 ataques, 32 impates e 1 ferido grave

Foto: © Lema Santos (2006)

Há vários relatos registados e especificamente um da Orion que ostentava na ponte alta uma placa de honra, em bronze,Rio Cumbijã, onde foi violentamente atacada em 8 de Maio de 1966. A situação foi tão frequente que a tua observação até se torna caricata...apenas saudações dos turras! Eram alguns dos espinhos que a Marinha também tinha. Pelos menos 3 ou 4 LFG's tinham placas idênticas de datas diferentes. Reparem que, depois da foz do Macobum o comboio, normalmente, não tinha problemas até Bedanda.

Num belo dia tudo isso ficou gravado num Sony pré-instalado para o efeito, com os cabos de som a passar para o exterior pelas vigias da câmara de oficiais. Não na Orion mas na irmã gémea Lira; ainda tenho guardadas as fitas originais cedidas pelo meu camarada da LFG. Tenho andado a adiar a oportunidade de as converter em som audível num CD para podermos reviver e partilhar também esses pesados momentos (2).

Sabes em que datas, ou datas próximas, chegaste e saiste da Guiné? Seria interessante saber uma vez que, praticamente todos os TT's, eram escoltados na entrada e saída do farol de Caió por uma LFG. Posso talvez disponibilizar esses elementos. Há muitas lacunas mas nem tudo está branco.

Há muitos factos, acontecimentos e histórias por relatar e felicito-te pela forma como te identificas na necessidade de alargar o painel de diálogo.

Para se efectuarem relatos decentes, a pesquisa terá de ser obrigatoriamente cuidadosa, criteriosa e isenta sob pena de a história passar a ser filosofia política.

Continuarei ao dispor da Tertúlia com Amizade e voltarei a dar notícias. Da próxima vez, completado o capítulo das apresentações, só mesmo Guiné.

Claro que teria forçosamente de enviar algumas fotos e elas acompanham o magro relato.

Um abraço e obrigado pelo reforço do chamamento.

Manuel Lema Santos
Ex-1º TEN RN 1965/72
Guiné 1966/68 - NRP ORION
__________

Nota de L.G.

(1) vd. post de 2 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXVI: Boas vindas ao marinheiro Lema Santos (Hugo Moura Ferreira)

(...) "Verifiquei com alguma satisfação que tu és do meu tempo (2) e tentei recordar-me do pessoal de Marinha que, com o sacrifício que quem ia metido numa lata a servir de alvo, para os lados do Cumbidjã, nos ia abastecer a Cufar (CCAÇ 1621), acostando, no cais de Cantone, e também a Bedanda (CCAÇ 6), quando, com o coração ao pé da boca, tinham que progredir rio acima tendo na outra margem o celebérrimo Cantanhez, que naquela altura era impenetrável.

(...) "Penso, e tu o confirmarás ou não, que realmente nunca as LDM [Lanchas de Desembarque Médias], que nos levavam abastecimentos a Bedanda, foram atacadas naquela zona. Aliás, como se acontecia com a LDP que diariamente levava a água de Catió para a nossa base no Cachil. Enquanto por lá andei não me recordo de ter ouvido alguma vez notícias de ataques a abastecimentos naquela zona.

"Em Cacine, eu sei que eram habituais as saudações dos turras, mas depois de passarem essa zona havia algum respeito e pode dizer-se condescendência do IN, para com a nossa paparoca" (...).

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Guiné 63/74 - P790: Notícias do nosso amigo Pepito

Mensagem do Pepito, da AD-Acção para o Desenvolvimento (Bissau):

Olá, Luís!

Fiquei muito sensibilizado pela transcrição do conto O Cativeiro dos Bichos (1) que decidiste fazer e apresentar aos nossos amigos tertulianos.

Agradeço-te muito o gesto, até porque a minha mãe que tem 91 anos também se emocionou muito (apesar da idade ela percebe mais de Internet que eu...).

Em Julho estarei aí de férias e, se tiveres tempo, vou-te dar um abraço e contar-te a evolução de Guiledje.

Fiquei satisfeitíssimo de conhecer o Marques Lopes, na realidade uma pessoa com enorme sensibilidade, grande tranquilidade e que gosta hoje da Guiné, sem ter parado no tempo.

abraços
pepito

Comentário de L.G.:
Vamos seguramente ter tempo para beber e um copo e dar dois dedos de conversa. Julho ainda é para mim tempo de trabalho. O nosso reconhecimento, como tertulianos, pelo teu acolhimento fraterno dispensado aos nossos amigos Xico Allen, A. Marques Lopes & Companhia, em Abril passado, na tua terra e na casa. Manda à tua senhora mãe um grande chicoração da malta desta tertúlia.
________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 20 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Antologia (38): O cativeiro dos bichos (Artur Augusto Silva)

Guiné 63/4 - P789: Os crimes da Pide, dos comandos e dos camaradas (Pepito)

Texto do Pepito, da AD-Acção para o Desenvolvimento (Bissau):

Caro João [Tunes]:

Subscrevo o teu texto, sem retirar uma única vírgula.

Mais: o Alpoim Calvão pavoneia-se hoje aqui pela Guiné impune. Provavelmente com o beneplácito amigo de quem comungava com ele o desejo de ver Cabral ser morto. Nem coragem tem de assumir que um dos principais objectivos do Mar Verde era assassinar Cabral. Por isso mesmo bombarderam a casa dele. Não estava lá ele mas a mulher, que hoje carrega com ela sequelas físicas dessa tentativa de assassinato.

Era miúdo ainda e recordo-me de frequentemente ouvir o meu pai entrar em casa, aqui em Bissau, e dizer à minha mãe:
- A Pide matou mais um. - Normalmente um amigo ou pessoa conhecida. Tinham nessa altura o hábito de atirar as pessoas pelos poços de água adentro.

Era miúdo ainda e recordo-me do meu pai [Artur Augusto Silva] (1), que era advogado e ter defendido dezenas de pessoas acusadas de serem do PAIGC, relatar à minha mãe as atrocidades que a Pide cometia sobre os presos para os fazer confessar. Mal ele sabia que lhe iria acontecer o mesmo, poucos anos depois na prisão de Caxias.

Era já jovem, de regresso a Bissau depois da independência, e ficar siderado com os relatos que ouvia de monstruosidades cometidas por certos comandos africanos durante a luta, em que não ficavam nas tabancas testemunhas para um dia contarem.

Já mais adulto, confesso que fiquei apavorado por ver certos camaradas [do PAIGC] fazer a outros camaradas as coisas que julgava serem um exclusivo de infra-humanos e acabarem por saírem por cima, como heróis.

abraços
pepito
_________

Nota de L.G.

(1)Vd. post de 20 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Antologia (38): O cativeiro dos bichos (Artur Augusto Silva)

Guiné 63/74 - P788: Fazer a catarse antes de vestir a toga de juiz (João Tunes)

Mensagem de João Tunes:

Caro Luís,

Claro que não foi crítica, muito menos crítica dirigida à tua estimada pessoa. Mas mexe-me com os nervos certo desnivelamento que, por razões afectivas e emocionais, se faz, faremos todos, entre crimes e crimes.

E a denúncia justa, se proporcionada, aos fuzilamentos dos Comandos Africanos muitas vezes é acompanhada de uma louvação e choro patriótico como se eles tivessem sido nobres e leais guerreiros, cumpridores da Convenção de Genebra. Ora, o que fazia um Comando Africano quando apanhava um irmão guineense do PAIGC que lutava pela pátria de um e de outro? Levava-o incólume e seguro a julgamento?

Não concordo com ajustes de contas, mas não foi mais que isso (um ou outro inocente terá pago pelo pecador, pois claro). Reprovável, inaceitável, mas não se deve condenar de ânimo leve e lágrimas exaltadas como se eles, por serem dos nossos, fossem clones do Beato Nuno Álvares Pereira, meu padroeiro dos tempos de Infantaria. E se queremos ter moral para julgar, julguemo-nos a nós, denunciemos os criminosos de guerra que foram nossos camaradas, contemos as vítimas que brutalizámos e, por acção ou por omissão de repulsa e denúncia, ajudámos a brutalizar (eu incluo-me no rol).

Façamos essa catarse antes de vestirmos toga de juízes. Porque quem fez o mal, ou com ele se calou, não deve fazer a caramunha. Fui mais claro?

Sobre o turra (agora desencantado) Luandino já meti post no meu blogue. Podes transcrevê-lo, se te aprouver. Assim como estes textos.

Grande abraço.
João Tunes

Guiné 63/74 - P787: E os patriotas guineenses, torturados e assassinados em nome de Portugal? (João Tunes)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões > 1970 > Pessoal da CCAÇ destacada no reordenamento de Nhabijões (da direita para a esquerda: os furriéis milicianos Sousa, Reis e Henriques.

Foto do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).


1. Comentário do João Tunes à lista dos comandos africanos fuzilados pelo PAIGC (1):

Caro Luís,

Muito bem. Totalmente de acordo. Um dia virá também a lume a lista dos patriotas guineenses torturados e assassinados pelo Exército Colonial Português (incluindo pelos Comandos Africanos) e pela PIDE, os turras, sem cumprimento de qualquer espécie da Convenção de Genebra.

Nada tenho contra dar-se primazia ao nosso choro. Mas enquanto não fizermos o simétrico, a aplicação do Evangelho será sempre parcial, será um Evangelho dos nossos e pelos nossos.

Abraços para ti e todos os estimados tertulianos.
João Tunes


2. Comentário ao comentário de João Tunes:

João:

Eu fui talvez o primeiro a falar, no blogue, dos crimes dos comandos africanos e dos tugas, na Guiné… Não direi nossos crimes, porque essa coisa da responsabilidad colectiva, enquanto povo, é uma monstruosidade jurídica: de facto, uma coisa são os alemães, outra foi o nazismo; uma coisa são os espanhóis, outra coisa foi o franquismo; uma coisão são os russos, outra coisa o czar da Rússia; uma coisa são os portugueses, e outra os Teixeira Pinto, os Alpoím Galvão, os Pides, etc.; uma coisa são os guineenses, e outra os assassinos de Amílcar e os pelotões de fuzilamento do Cumeré...

Por outro lado, nem tu nem eu nem os membros da nossa tertúlia se identificam com os pides, com administração colonial ou com certos elementos do exército colonial que, na Guiné, cometeram crimes de guerra e crimes contra a humanidade...Mesmo assim é precisos dizer onde e quando e por quem foram praticados: os crimes (Wiriamu, por exemplo, em Moçambique) têm texto e contexto...

Eu não vou esquecê-los, ignorá-los, branqueá-los, desculpá-los, muito enaltecê-los... Além disso, não sou cristão…

Vi, como muitos outros viram, em Bambadinca, o Uloma, um graduado felupe da 1ª Companhia de Comandos Africanos, a pavonear-se com a cabeça de um desgraçado de um camponês da região a norte do Enxalé (2)...

Ouvi o Seco Camará, guia e picador das NT no Xime, contar estórias macabras, em primeira mão. O José Carlos Mussá Biai deve ainda lembrar-se dele, ou talvez não: teria sete anos quanmdo ele morreu na Ponat do Inglês...

Sobre o Seco Camará escrevi eu (3): "Tenho mais dificuldade em me curvar perante a memória do Seco Camará, mandinga do Xime, embora reconheça que ele foi um valoroso e competente guia e picador das nossas tropas, durante anos. Mas também foi um homem para os trabalhos sujos da guerra: ele próprio me confessou um dia, com aquela autoridade e candura africanas de homem grande, que nos anos da política de terra queimada, da repressão brutal às populações do Xime que simpatizavam com (ou apoiavam) a guerrilha, ao tempo do Governador e Comandante-Chefe, General Arnaldo Schultz, entre 1964 e 1967, ele próprio era encarregue pelo capitão tuga do Xime para matar, à paulada, em pleno mato, os elementos suspeitos, capturados... No regresso ao quartel, o capitão, manga de bom pessoal, pagava-lhe um sumol (sic)"...

Tê-lo-ei desculpado ou desculpabilizado ? E esse capitão, manga de bom pessoal, por onde pára ? E o capitão do capitão, o tenente-coronel, o general, não sabiam de nada ? "O coitado do Seco Camarà, peça insignificante da máquina de guerra colonial, foi ao mesmo tempo um tenebroso carrasco e uma pobre vítima, como muitos outros guinéus, e nomeadamente dos pertencentes aos grupos étnicos islamizados... Morreu ingloriamente em Novembro de 1970, nesta operação que eu aqui evoco e em que participei [Op Abencerragem Candente]. Recordo-o, ainda hoje, com o seu inseparável cachimbo e o seu ar de cão rafeiro... Nunca saberei se algum se sentiu português. Sei apenas que foi um bravo soldado, e eu não posso julgá-lo com bases nos meus valores ou princípios éticos"...

Calma aí: contra o relativismo cultural, posso e devo pronunciar-me quando há suspeitas ou indícios de crimes de guerra ou crimes contra a humanidade ou violação dos direitos humanos (como a mutilação genital feminina, por exemplo). Que fique claro: nestas matérias a minha tolerância é zero... Mas nada não me impede de tentar pôr-me na pele do outro, compreender, perceber...

Ouvi, por outro lado, algumas estórias ao Abibo Jau e outros homens grandes da CCAÇ 12 sobre os anos de terror (3)... São testemunhos, eu não estava lá... Mas seria bom ouvir e registar o que se passou nesses anos em que a população guineense foi diabolizada, em que alguns grupos étnicos (balantas, beafadas, mandingas...) passaram a ser estigmatizados como turras ou potenciais aliados do inimigo... Ouvi, não vi, o que não é a mesma coisa...

Sobre este tópico (que é doloroso, para todos nós, e que ainda nos divide...), já foram publicados diversos posts (4). De qualquer modo, temos que ter serenidade, luxidez e espeírito de tolerância para falarmos destas coisas... Que fique clara a minha posição: nunca se tome a parte pelo todo; a grande maioria dos combatentes, de um lado e de outro, no difícil contexto daquela guerra, tiveram um comportamento que, à falta de melhor adjectivo, eu diria civilizado... (LG)

PS - Aproveitei para pedir ao João Tunes um comentário, no nosso blogue, sobre a recente atribuição do Prémio Camões 2006 ao turra Luandino Vieira, o escritor angolano, de origem portuguesa, autor de Luuanda ou de A Vida Verdadeira de Domingos Xavier ... O Prémio Camões, no valor de 100 mil euros, é o maior galardão literário dedicado à literatura portuguesa.
________

Notas de L.G.:

(1)Post de 23 de Maiod e 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)

(2) Vd. post de 11 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri

(...) "Recordo certa vez que o Uloma (um colossal corpo sem espírito à força de tanta mensagem/massagem de espírito de corpo e de comando-máquina-de-guerra!...) se deixou fotografar, como um verdadeiro predador, exibicionista, imponente, boçal e triunfante, com um dos seus sangrentos e macabros troféus de caça, no regresso de um raide a território IN, a norte do Rio Geba, no regulado do Cuor. (Julgo que esta cena se passou no final de um operação de vários dias em que a 1ª CCA actuou na região a norte do Enxalé, de 30 de Outubro a 7 de Novembro de 1970, às ordens do BART 2917; de qualquer modo, foi antes da invasão de Conacri).

"À falta de caça grossa, tinha atirado sobre um pobre camponês, porventura balanta ou beafada, que cultivava, desarmado, o seu arroz na bolanha… Cortada a cabeça, rente ao pescoço, de um só golpe de catana, atara-lhe um pano branco que ligava a boca ao esófago, à laia de pega"…

(3) Vd. post de 25 de Abril 2005 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970)

(4) Vd. posts de:

30 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXXVI: Guerra limpa, guerra suja (1)

"O João Tunes acaba de publicar, no seu blogue, um post com o título Guerra limpa, guerra suja, em relação ao qual pede o feedback da nossa tertúlia. Com a devida vénia, passo a transcrever aqui o seu conteúdo, aguardando que este suscite os comentários dos nossos tertulianos. O assunto é delicado mas não podemos ignorá-lo ou escamoteá-lo. Um dia teríamos que falar disto, mesmo que fosse incómodo ou doloroso... L.G" (...).

30 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXXVII: Guerra limpa, guerra suja (2)

"Resposta do Marques Lopes ao João Tunes:

" (...) É verdade que a PIDE tinha esse principal papel, e eu assisti, em Bafatá, ao início da tortura de um prisioneiro por essa polícia e por um capitão de informações. Revoltei-me e fui-me embora, quando vi meter o homem num bidão de água até ele gorgolejar.

"Em Geba, os alferes que estávamos tivemos que nos afastar um dia (o Maçarico viu e que conte, o Luís Graça conhece-o) quando o capitão (que até morreu lá) e o primeiro-sargento deram tal enxerto de porrada a outro prisioneiro que este se borrou todo e se mijou.

"Em Barro, sei de um alferes que, duma só vez, matou dez elementos da população civil controlada pelo PAIGC" (...).

4 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXXIX: Guerra limpa, guerra suja (3)

"Texto de Luís Graça:

"(...)Também tenho outros revelações tenebrosas que os meus soldados (fulas) me contavam, nas noites longas que passávamos no mato, em operações, em emboscadas, em patrulhamentos ao Mato Cão (Rio Geba Estreito, para protecção da navegação civil, os barcos da Casa Gouveia que iam e vinham de Bafatá), em tabancas de autodefesa, aqui e acolá...

"Revelações da guerra pura e dura, em 1963, 64, 65, no tempo do Schultz, que terá sido uma verdadeira política de terra queimada e de genocídio (é a minha interpretação: nunca saberemos a extensão disto; há documentos da tropa que continuam secretos; além disso, branqueávamos os relatórios...)" (...).

28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIV: Nhabijões: quando um balanta a menos era um turra a menos

"Excertos do Diário de um Tuga (L.G.):

"Nhabijões, 20 de Dezembro de 1969

" (...) Os balantas foram, segundo o testemunho insuspeito dos meus soldados (fulas), as maiores vítimas da repressão colonial nesta década. Seis anos depois (é difícil confiar na memória dos africanos que não usam calendário, mas isto ter-se-á passado em 1963, depois do início oficial da guerra), Samba Silate (cuja população terá sido parcialmente massacrada pela tropa ou pela polícia administrativa de Bambadinca, não posso precisar) e Poidon (regada a napalm pela força aérea) ainda despertam aqui trágicas recordações: evocam o tempo em que todo o balanta era suspeito aos olhos das autoridades militares e administrativas, presumivelmente coadjuvadas pela PIDE (Tenho dificuldade em explicar aos meus soldados, que não falavam português quando os conheci em Contuboel, o que é isso, o que é essa sinistra polícia…)" (...).