sábado, 3 de junho de 2006

Guiné 63/74 - P839: Antologia (41): A AD na luta contra a fome nas regiões do sul


Guiné-Bissau > Ad - Foto da Semana > "Quitana N’Fanda é uma jovem oleira de uma tabanca do sector de Cubucaré, na região de Tombali, sul do país. A AD tem estado a incentivar os jovens a produzirem artesanato local que inclui esculturas Nalús, em madeira e em pedra, cestaria à base de mampufa e cadeiras e mesas de tara, uma vez que se começa a registar um cada vez maior interesse por este tipo de arte por parte dos ecoturistas que demandam agora frequentemente a Mata de Cantanhez".

Foto: © AD - Acção para o Desenvolvimento (2005) (com a devida vénia)



1. O Expresso da semana passada (27 de Maio de 2006) trouxe uma reportagem sobre a situação agro-alimentar no sul da Guiné, nas regiões de Quínara e de Tombali, que já foram o "celeiro" do país... A monocultura do arroz, a sua substituição pela cultura do caju e o miserável abandono por parte do poder político, instalado em Bissau, das populações das regiões do sul onde se forjou a luta pela independência, são alguns tópicos referidos na reportagem.

Também é citado o trabalho (exemplar) que a AD - Acção para o Desenvolvimento, dirigida pelo nosso amigo Pepito, está a fazer na região, em prol da criação de uma agricultura que seja compatível com a protecção do ambiente e que garanta a auto-suficiência alimentar dos camponeses.

Aqui fica a reportagem do jornalista Jorge Pereira (vd. Expresso África que é uma boa fonte de informação, on line, sobre a Guiné-Bissau e outros países africanos de língua oficial portuguesa)


Quando não há arroz, há fome

DEPARAR-SE com uma viatura num domingo e conseguir boleia, numa picada da espessa Mata de Cantanhez, no Sul da Guiné-Bissau, é raro. Mas foi o dia de sorte de Ntchudo Na Lana, um velho camponês de Darsalam, aldeia dos confins da região de Tombali, que já vinha caminhando desde a véspera, só parando para dormir e comer alguma coisa.

Andar longas distâncias a pé, dia e noite, é uma prática comum nas áreas rurais, em particular em Tombali e Quínara, zonas meridionais do país e as mais deserdadas em matéria de comunicação e transporte.

O carro, que transportava um consultor europeu da Acção para o Desenvolvimento (AD) e um técnico desta ONG local empenhada na preservação ambiental, parou e levou Ntchudo, que cultiva arroz de «bolanha», terreno de água salgada conquistado aos «mangroves». Em vez da nefasta, e pouco rentável, cultura itinerante, com recurso à queimada da floresta e à desmatação.

Ntchudo também aderiu ao cultivo de mandioca e de batata-doce, uma medida de urgência introduzida pela AD, para fazer face à actual penúria de arroz, a base da alimentação nacional. Conta que esteve na capital, onde recebeu uma «ajuda» de 150.000 francos (cerca de 230 euros) do chefe de Estado, Nino Vieira, que conheceu quando este era comandante na Frente Sul da luta pela independência.

A última época agrícola foi má para todos os produtores do Sul. Em Tombali e Quínara, consideradas «o celeiro» do país, não chegou a haver colheita de arroz. «E, quando não há arroz, há fome», disse Bilony Nhasse, directora regional da Agricultura e Desenvolvimento Rural de Quínara, segundo a qual é urgente o fim da monocultura do arroz e variar a dieta alimentar.

Avaliações ainda provisórias indicam que mais de 20 mil pessoas enfrentam sérias dificuldades, o que levou o Governo a pedir, em finais de Abril, o apoio urgente da comunidade internacional. «Nunca se viu este cenário no Sul. As pessoas estão a chorar de fome. A falta de chuva e a entrada de água salgada nos arrozais rebentou com os diques e originou a perda da colheita do ano passado», descreve o chefe do Departamento de Engenharia Rural, Rui Néné Djatá, que aponta a necessidade de um «sistema de ordenamento hidro-agrícola para salvar os campos de arroz».

Para sobreviverem, as populações consomem as sementes que guardaram para a nova época agrícola. Ou recorrem a familiares na capital. A manga e o caju, abundantes nesta altura do ano, são a salvação de milhares de pessoas, que ainda enfrentam a falta de água potável. Como se relata em Bessassema, uma povoação onde, na falta de arroz e água, se mata a fome com manga fervida com sumo de caju.

Além das calamidades naturais, da burocracia e da lentidão na resposta à fome, os especialistas indicam que os atrasos e a polémica sobre os termos de troca da castanha de caju pelo arroz, que antecederam a campanha, penalizaram os agricultores e agravaram a crise.

(...) Para remediar a situação, uma organização que promove o desenvolvimento comunitário em Tombali importou arroz da capital e vendeu directamente aos camponeses, mas em quantidades insuficientes para resolver o problema. Nesta região e na de Quínara, o programa «Alimento por Trabalho», do Programa Alimentar Mundial (PAM), oferece uma ração de arroz e óleo para encorajar os camponeses a recuperarem os diques que protegem os campos de arroz, para que estejam em condições de aproveitar a época agrícola. O Fundo de Iniciativas Ambientais Locais, um projecto governamental recente, também prometeu financiar a reparação de diques, aqui chamados «orique», bem como o melhoramento das pistas rurais.

Para as organizações que intervêm no Sul, a principal causa da fome não é a falta de arroz ou outros factores conjunturais. «O que se passa no Sul é um escândalo. Em mais de 30 anos de independência, estas regiões não têm estradas em condições, nem outras infra-estruturas básicas», desabafa um responsável, que se insurge ainda contra a «ditadura do caju», que tende a substituir a monocultura do arroz. Os três meses - Março a Maio - da campanha da castanha de caju, principal produto de exportação da Guiné-Bissau, movimentam adultos e crianças. Atraem também a cobiça de estrangeiros, sobretudo indianos, os maiores compradores, enquanto os mauritanos vão directamente às aldeias guineenses. «Tomara que não se esqueçam de nós. Deus lhes pagará», roga a irmã italiana Franca Collombo, da missão católica de Empada, uma localidade da região que já conheceu melhores dias e que parece agora ter parado no tempo.

Jorge Pereira, enviado ao Sul da Guiné-Bissau


2. Tambémn o blogue Africanidade (não confundir com o Africanidades do nosso tertuliano Jorge Neto) já há mais de três semanas tinha dado a notícia do desastre alimenntar no sul:

Guinéu-Bissau: 130 mil afectados pela fome, Governo pede apoio internacional (Africanidade, 12 de Maio de 2006)

O governo guineense já tem pronto um programa de combate à fome que afecta mais de 130.000 pessoas no sul da Guiné-Bissau e pediu apoio internacional financeiro para concretizar o plano, anunciou hoje o ministro da Agricultura.

Segundo o ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural guineense, Sola N'Quilin, o programa está orçado em 2,35 milhões de dólares (1,8 milhões de euros) para ajudar as mais de 130 mil pessoas afectadas pelas inundações de água salgada que levaram à destruição dos tradicionais terrenos de cultivo.

A fome afecta as populações das regiões de Quínara, Tombali e Bolama-Bijagós, cuja população total ronda as 250 mil pessoas, num país de 1,5 milhões de habitantes. Segundo as palavras do ministro, regista nas referidas regiões "uma penúria alimentar", confirmada pelos relatórios já elaborados por missões conjuntas com o Programa Alimentar Mundial (PAM) e outras entidades.

"Constatámos a destruição de diques, arrozais e de várias outras culturas que não completaram o ciclo agrícola, o que confirma a situação de penúria alimentar", afirmou Sola N'Quilin, que se encontra de visita àquelas regiões, consideradas o "celeiro" do país.

"A situação torna-se ainda mais alarmante a partir do momento em que se constatou que as populações desenvolvem as suas actividades agrícolas, sobretudo a produção de arroz (principal dieta alimentar dos guineenses), junto a um rio cujas águas salgadas, devido às marés vivas, destruíram toda a produção da região de Tombali", acrescentou.

Sola N'Quilin indicou que 50 por cento das áreas cultivadas foram prejudicadas pelas calamidades naturais, nomeadamente a paragem brusca das chuvas, em fins de 2005, invasão das "bolanhas" (campos de cultivo) por águas salgadas, pragas agrícolas e outros flagelos.
Segundo o ministro, o programa de auxílio, além de ajuda alimentar, prevê a reconstrução dos diques, construção de canais de drenagem, constituição de "stocks" de segurança alimentar e ainda o aprovisionamento de sementes agrícolas, de forma a garantir uma boa campanha agrícola.

Para o êxito das medidas, estão previstas duas estratégias, em que uma delas tem o carácter urgente, pois destina-se a fazer face à penúria alimentar, sendo concretizada através do "Food for Work".

A segunda fase, a médio/longo prazo, prevê apoios para o reforço das capacidades dos agricultores, das organizações camponesas e das estruturas de intervenção, de forma a assegurar a produção agrícola nas duas regiões na próxima campanha."A totalidade da superfície afectada traduz-se num prejuízo mínimo de 32.815 toneladas de arroz 'paddy', ou seja, 23.000 toneladas de arroz limpo, estimando-se que esta situação afecte cerca de 130.000 pessoas, mais de 32 mil agregados familiares", lembrou.

Guiné 63/74 - P838: Cancioneiro de Mansoa (9): A mais alta de todas as traições (Magalhães Ribeiro)

Dos cadernos (1) do Eduardo Magalhães Ribeiro, ex-furriel miliciano de operações especiais, da CCS do BCAÇ 4612 (que esteve em Mansoa por escassos dias, cabendo-lhe a honra de arriar a nossa bandeira em 9 de Setembro de 1974, por ocasião da transferência de soberania do território para o PAIGC) (2):

A mais alta de todas as traições
Muitos africanos foram os nossos melhores amigos,
Tinham orgulho em envergar uma farda portuguesa,
Na instrução eram afincados, cumpridores, e...
No combate davam tudo... até a vida, com nobreza!



Após a revolução dos cravos
Reinava no país a anarquia,
Assaltavam-se as Instituições
O povo em partidos se dividia.

Gente a falar do que não sabia
Ou que não sabia do que falava,
Que ora dizia uma coisa
E passados minutos... negava.

No meio de todas as convulsões
O poder político era restaurado,
Os governos tomavam decisões
Aos repelões, uns p’ra cada lado.

E assim, no meio deste arraial
Foi assinado, se bem me lembro,
O acordo p’ra descolonização
Nesse ano, em 9 de Setembro.

Só para se ter uma leve ideia
Do resultado deste processo
Olhe-se para o drama de Timor,
O grotesco de um insucesso.

Mas se Timor é a cara da moeda,
A coroa anda envergonhada,
Vamos virá-la e falar nela,
Iluminar uma traição abafada.

Uma ignóbil e cobarde traição
A história qu’aqui se vai contar,
Parte do povo ignora, naturalmente,
Outra sabe... mas prefere não falar.

Assim, começando pelo princípio
Na nossa África colonial
Os africanos eram baptizados, e…
Registados... em nome de Portugal.

Portugueses para todos os efeitos,
Eram convertidos ao burgo cristão,
Eram detidos, julgados e punidos
Por leis e juízes da nossa Nação.

Pois era, muitos desses africanos
Nas nossas escolas estudavam,
Dignos de respeito e estima, e…
No nosso meio trabalhavam.

Eram tratados com igualdade
E cumpriam serviço militar,
Prestavam juramento de bandeira
Juravam, também, a Pátria honrar.

Na tropa ostentavam com orgulho
As mesmas insígnias e fardas,
Tornavam-se aprumados, vaidosos,
Seguravam firmes as espingardas.

Combatiam fiéis ao nosso lado,
Ao nosso lado feridos tombaram,
Alguns estropiados p´ra sempre
Outros... a vida sacrificaram.

Em Angola, Moçambique e Guiné
Foram louvados e condecorados,
Foram graduados do Exército
E, como Heróis, foram saudados.

Logo após a descolonização
Estes pretos foram abandonados,
Portugal deixou de os considerar seus
Os deles acusavam: - São renegados!

Votados ao desprezo e à humilhação,
Fria e cruelmente torturados,
Apátridas ao seu novo Partido,
Foram sumariamente executados!

Odiados por um simples facto
Que nunca lhes foi perdoado
Gostarem e lutarem pelos portugas,
Seu único e último... pecado.

Perante a velada indiferença
Dos políticos e das Nações,
É tempo da História julgar
A MAIS ALTA DE TODAS AS TRAIÇÕES.

Haverá porventura gesto humano mais divinal
Q’um homem possa fazer para outro auxiliar,
Que disponibilizar o seu mais supremo bem, a vida?
Jamais deixemos a sua memória alguém desonrar!

RANGER Magalhães Ribeiro - Furriel Mil.º CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné

_____

Notas de L.G.:

(1) Vd. post anterior, de 31 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCXXI: Cancioneiro de Mansoa (8): a amizade e a camaradagem ou o comando da 38ª

(2) vd. post de 21 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCIV: Eu estava lá, na entrega simbólica do território (Mansoa, 9 de Setembro de 1974)

Comentário de L.G.:

Temos vindo a publicar o Cancioneiro de Mansoa (que não é mais do que um colectânea de versos do nosso amigo e ex-ranger Eduardo Ribeiro Magalhaes, do Porto), e que valem não pela sua qualidade literária como sobretudo pelo seu interesse documental, para um futuro estudo da ideologia político-militar que permitiu sustentar uma longa guerra de 13 anos em três frentes.

O Eduardo teve a gentileza de me oferecer um exemplar dos seus cadernos e me autorizar a sua reprodução no nosso blogue. Os versos que hoje se publicam não são de leitura pacífica, a começar pelo seu título: podem ser entendidos como um branqueamento ou até uma glorificação da colonização portuguesa... O autor acaba sobretudo por prestar uma homenagem aos combatentes africanos que estiveram do lado das tropas portuguesas (outros dirão: dos colaboraccionistas...).

Em suma, é um texto que não é de mera opinião, tem de ser entendido em nome da liberdade poética ou literária. Naturalmente que ele reflecte a ideologia do espírito de corpo das tropas especiais (rangers, comandos, paras, fuzos...) para quem a mais alta traição é abandonar um camarada no campo de batalha às mãos dos seus inimigos, e faz-se eco da confusão de sentimentos que alguns destes nossas camaradas experimentaram com o fim da guerra colonial e os ajustes de contas pós-revolucionários, nomeadamente na Guiné.

Não é preciso lembrar, em todo o caso, que a nossa caserna é plural e que o Eduardo é membro de pleno direito, da nossa tertúlia. (LG)

Guiné 63/74 - P837: Estórias cabralianas (10): O soldado Nanque, meu assessor feiticeiro

Cabral, o mais guinéu de todos nós, o ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, no período de 1969/71, de cujas estórias eu sou fã incondicional, quebrando com isso o dever de imparcialidade que compete ao editor do nosso blogue:


Texto de Jorge Cabral

Caro Amigo Luís,

Volto ao que gosto - as estórias.

Grande abraço, Jorge.


O Soldado Nanque, meu assessor feiticeiro


Desde que cheguei, e durante o primeiro ano, o Pel Caç Nat 63, foi pluriétnico. Mandingas, Fulas, Balantas, Manjacos, Bigajós, estavam representados. Pluriétnico e plurirreligioso, com um Manjaco, Pastor Evangélico, um Marabú Mandinga Senegalês, vários adoradores de muitos Irãs, e até alguns crentes na Senhora de Fátima, vivendo todos em Paz ecuménica, sob a batuta do Alferes agnóstico com tendências panteístas, que pensava que nada o podia surpreender.

Eis que numa tarde, talvez em Agosto de 1969, tinha ido eu a Bambadinca, dissipar a chatice em terapia alcoólica, quando se me apresentou o soldado Nanque. Papel gordíssimo do Biombo, de bigodes dalianos, a sua postura e traje, não mereceram infelizmente a posterioridade fotográfica, mas perduraram até hoje na minha memória. Envergava a marcial criatura, um dólmen camuflado que lhe chegava aos joelhos, umas calças de caqui amarelo quase bermudas, a condizer com as chinelas vermelhas de enfiar no dedo, e na cabeça um bivaque cinzento, no qual reluziam cintilantes as armas da Cavalaria.

Apresentado com continência e tudo, informou logo, ter havido engano em Bissau, pois não era nem nunca fora operacional. Condutor, Carpinteiro, Enfermeiro, constituíam as suas especialidades, e não tendo o Pelotão necessidade das suas competências, regressaria imediatamente a fim de resolver a questão com Spínola, seu grande amigo.

Concordei. Operacional, nunca. Iria lá perder a personagem… Levei-o então ao Posto de Socorros, a fim de aquilatar os seus conhecimentos. Aí entrado, e completamente à vontade, dirigiu-se ao armário dos medicamentos, donde retirou três caixas, cheirou-as, e sabedor, identificou: “Mesinho pa odjo”, “Mesinho pa panga barriga”, “Mesinho pa dur de cudjon”.

Exame terminado, com óbvia distinção, lá o levei para Fá, sem a mínima ideia das funções que lhe iria atribuir. Porém, logo nessa noite, teve oportunidade de demonstrar a sua utilidade.

Como de costume jogávamos a nossa lerpa, e eu perdia, perdia… até que o Nanque chegou, e colocando-se atrás de mim iniciou um bailado mágico invocando o espírito da sorte, o qual pelos vistos lhe obedeceu, pois passei a ganhar.

Convencido, dispensei-o de operações, patrulhamentos, sentinelas. Foi nomeado meu assessor feiticeiro, e já nessa qualidade me tratou de pernas infectadas, das quais retirou, cuspindo-as, oitenta e três pedras, lá colocadas, segundo ele, pelos meus inimigos de Lisboa.

Correram dias, meses, e o Nanque continuou a prestar bons serviços. Porém, uma manhã acordo e vejo á volta da minha cama todos os Homens Grandes da Tabanca. Estremunhado, penso ter chegado ao Paraíso deles, aguardando a chegada de uma das sete mil virgens. Mas não, tão solene e formal comitiva, vem apresentar queixa.

O Nanque invadiu e saqueou a Tabanca, trazendo oito bajudas, três cabras e dezanove galhinhas, e tudo, como terá afirmado, por minha ordem. Aliás, durante a operação deu a entender que a Tabanca estava cercada, gritando de vez em quando para o exterior:
- Alfero, aguenta, tudo na bai drito.

Devolvido o saque, e sanado o incidente, o Nanque desapareceu, pelo que tive de participar. Apanhado na fronteira norte e inculpado por deserção, defendeu-se afirmando ter ouvido os tantãs soarem, e que os espíritos da floresta requeriam a sua presença…

Alguns dos que passaram por Bambadinca, certamente se lembrarão de ver o Nanque naquela prisão que parecia um galinheiro (1). Por minha ordem era-lhe fornecida uma cerveja diária, mas nunca lhe consegui arranjar macacos que ele gostava de comer assados (2). Não ficou muito tempo preso, pois calculem, passou a ordenança do Comandante do Batalhão…

Quando me vim embora despedi-me do Nanque. Abraçando-me, aconselhou-me a seguir o chamamento dos tantãs… O que sempre tenho feito!".

Jorge Cabral

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Notas de L.G.

(1) Já aqui evoquei o tristemente famoso e degradante galinheiro de Bambadinca: Vd. post 9 de Agosto de 2005 > Guiné 63/74 - CXLVII: Malan Mané, guerrilheiro, vinte anos, mandinga

(...) "Malan Mané. Roqueteiro do bigrupo de Mamadu Indjai, um comandante de guerrilha famoso, também ele de etnia mandinga. Veste um dolmen, velho, de cor já irreconhecível. Calças rotas no joelho. Apresenta-se descalço. Está deprimido, talvez aterrorizado. Cair, vivo, nas mãos dos tugas é pior desgraça do que do que ser morto em combate – deve ter ele pensado muitas vezes no mato. Ou se calhar nunca pensou nisso. É uma pergunta que não ele entende ou a que não quer responder. Pelo menos, em público, neste cenário de circo, enjaulado como um animal selvagem, rodeado de hominídeos... Os paras, esses, não tiveram grande dificuldade em desatar-lhe a língua. Bastou-lhes encostar a faca de mato à barriga. Foi apanhado com o seu RPG-2 na mata do Rio Biesse, na região de Camará, lá para os lados de Candamã, quando o céu desabou em cima dele.

"Está agora às ordens do comando do sector [L1]. De mãos algemadas, metido numa gaiola de jardim zoológico. Espectáculo degradante. A Convenção de Genebra sobre os prisioneiros de guerra não se aplica aqui . Oficialmente o meu país não está em guerra com ninguém, com nenhum outro estado soberano. Oficialmente não há nem pode haver prisoneiros de guerra no meu país, do Minho a Timor, passando pela Guiné.

"Malan Mané é bandido. Homem do mato. Turra. Faz-me lembrar o Gungunhana, passeado em gaiola por Lisboa, em 1896, como troféu de caça do Mouzinho de Albuquerque. Está aqui mesmo ao lado das instalações do rancho [refeitório dos praças]. Entre a escola e o posto administrativo.

"Há um correpio de gente que vem ver o turra (sic) capturado pelos paras [na Op Nada Consta, em 28 de Agosto, no subsector de Mansambo]. Participámos na operação. Mas a nós, ao Pelotão de Caçadores Nativos e aos gajos de Mansambo coube-nos fazer o papel da tropa-macaca.

"Básicos, cozinheiros, padeiros, pintores, carpinteiros, fiéis de depósito de géneros, faxinas de bar, maqueiros, corneteiros, mecânicos auto-rodas, desempanadores, condutores auto, escriturários, amanuenses, quarteleiros, sapadores, ajudantes de capelania, operadores de transmissões, radiolegrafistas, cabos cripto, municiadores e apontadores de metralhadora Browning, caçadores e suas presas, todo o mundo tem hoje espectáculo de borla. Até a senhora professora, a única branca que reside dentro do perímetro do aquartelamento, espreita à janela da escola. Deve estar a olhar para o prisioneiro como o bicho do mato que lhe apareceu nos pesadelos nocturnos. Ou talvez não. Nunca lhe soube a idade nem o nome. Vejo-a agora de relance. E pergunto-me como terá reagido ela ao ataque ao aquartelamento em 28 de Maio de 1969. Se calhar portou-se com mais dignidade do que alguns dos militares que deveriam saber defender a sua unidade" (...).

(2) Volto a publicar uma das primeiras estórias cabralianas, que tem relação com esta, mas que não foi devidamente autonomizada (deveria corresponder à nº 2) (3), constante do post de 5 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXI: Cabral só havia um, o de Missirá e mais nenhum...


A mulher do Major e o castigo do Cabral


Quando de Missirá me deslocava a Bambadinca, seguia sempre a mesma rotina. Primeiro visitava o Bar do Soldado, até porque aí tinha que liquidar as despesas alcoólicas efectuadas pelo meu Soldado Ocamari Nanque, que se encontrava preso.

Desta personagem, que depois passou a ordenança do Polidoro Monteiro (1), papel gordo do Biombo, ex-soldado na Índia, falarei um dia.

Feitas as contas, bem acompanhadas de várias libações e seguindo uma hierarquia ascendente, passava ao Bar dos Sargentos, onde continuava a matar a sede e só por fim aterrava no Bar dos Oficiais.

Naquele dia quando entrei fiquei surpreendido. Além do simpático e solícito barman, apenas uma branca jovem senhora ali se encontrava. Desconhecendo em absoluto de quem se tratava, reparei que a mesma ficou espantada com a minha aparição. (Na verdade o meu aspecto não era muito civilizado. Enlameado até ao peito – havia atravessado a bolanha de Finete, ostentava um estrambólico bigode e amparava-me num pingalim-bengala prateado).

Logo da porta encomendei:
- Rapaz, uma sandes de chocolate e um whisky quádruplo - e, vendo pelo canto do olho a reacção da dama, iniciei um absurdo monólogo sobre a minha dieta alimentar:
- Ando cheio de fome, os presuntos de macaco não me sabem a nada, a sopa de formigas causa-me azia, até a vinagrada de orelhas de turra me provoca urticária...

O espanto da jovem dera lugar ao pânico, até que entrou o Major, que vendo a mulher pálida e aterrada, se afligiu:
– Que tens querida? Estás mal disposta? Olha, apresento-te o Alferes Cabral, de Missirá.
Não me estendeu a mão, nada balbuciou, saiu quase a correr…
Logo nessa noite recebi uma mensagem:
- Alferes Cabral proibido de se deslocar a Bambadinca, durante sessenta dias.

Cumprido o "castigo" voltei, mas nunca mais vi a mulher do Major. Contaram-me que a avisavam logo que eu entrava no quartel...

____________

Nota de L.G.

(1) Polidoro Monteiro: Tenente-coronel, spinolista, último comandante do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) na altura em que os quadros metropolitanos da CCAÇ 12 foram rendidos individualmente (Fevereiro/Março de 1971). Já falecido, ao que me consta. Dele disse o Jorge Cabral o seguinte: "Dos quatro Comandantes de Bambadinca que conheci, apenas o Polidoro Monteiro me mereceu consideração. Dos outros nem vou dizer o nome, e de dois a imagem que guardo é patética" (in Post de 18 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLVIII: Estórias cabralianas (4): o Jagudi de Barcelos.

(2) Há duas estórias com o mesmo número, e que agora já não vale a pena corrigir: vd. posts de

23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXV: Estórias cabralianas (5): Numa mão a espingarda, na outra...

17 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 -DXLVI: Estórias cabralianas (5): o Amoroso Bando das Quatro em Missirá

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Guiné 63/74 - P836: Empada: os Gã Martins, vítimas da onda de terror da primeira metade dos anos 60 (Leopoldo Amado)

Guiné-Bissau > Regiãod de Quínara (Buba) >
Empada > Abril de 2006 > "O Semi-Internato de Empada"
instalado nas velhas casernas da tropa...
Foto: © Inês / Xico Allen (2006)


Caro Luís,

Com a devida autorização do Leopoldo, envio a resposta dele ao meu mail e com autorização de publicação (julgo de interesse para todos pois refere-se à época da pré-luta armada desencadeada pelo PAIGC que, para nós, é a pré-história das nossas histórias).

Abraço.
João Tunes


Caro Tunes,

1. Muito agradeço as tuas simpáticas palavras. Quanto ao nosso jantar, relembro-o com saudades, tal a profundeza das questões que nele abordamos e que ainda agora me interpelam. Conversas dessas são certamente úteis, quanto mais não seja, para, através da partilha, aprimorarmos os modestos conhecimentos e igualmente darmos vazão à necessidade que se impõe de aprofundarmos a camaradagem.

2. O meu avô, tanto quanto sei, foi preso e fuzilado numa altura em recrudesceu por toda a Guiné a violenta repressão da PIDE sobre os nacionalistas guineenses. Numa noite ­- conta a minha mãe e tios meus -, que após as tropas terem cercado a Casa Grande da herdade Gã Martins e terem revirado toda a casa na sequência de uma minuciosa revista, levaram o meu avô fim de prestar declarações no aquartelamento local.

3. Passadas semanas, comunicaram a minha avó a morte repentina do meu avô na prisão, tendo os Gã Martins solicitado os restos mortais sem que, todavia, tivessem obtido qualquer resposta da parte do Comandante Militar local.

4. Como um soldado português - que assistiu ao fuzilamento do meu avô - resolveu confidenciar a minha avó que o marido teria sido fuzilado e enterrado numa vala comum na companhia de vários guineenses, entre os quais o seu amigo e enfermeiro, Anselmo de Carvalho.

Numa atitude concertada, os Gã Martins apresentaram-se enlutados (com indumentária preta) defronte ao Palácio do Governo (1) em Bissau (meu avô tinha uma prole que em muito supera uma equipe de futebol, incluindo suplentes), tentando expor a sua indignação e, em vão, exigir que se fizesse justiça. Simplesmente, foram admoestados por elementos da PIDE que, trajados à paisana, os advertiram a abandonarem o local.

5. É evidente que o meu avô não foi julgado, assim como centenas de outros guineenses que, na época, foram alvos das terríveis vagas de repressão que a PIDE protagonizou na Guiné após tal Pindjiguiti (2), tal o convencimento de que, à partida, era mister abafar qualquer tentativa de subversão e divisão da pátria portuguesa, tanto mais que a própria PIDE local, através de um municioso trabalho de investigação policial, baseado sobretudo em interrogatórios coercivos, tinha logrado reconstituir os objectivos imediatos do Movimento de Libertação: dar início a luta armada.

6. Sobre a defesa da minha Tese, a mesma foi adiada para Setembro ou Outubro próximos. Informarei atempadamente os membros da Tertúlia e informo, desde já, que terei todo o prazer em poder contar com a vossa honrosa presença, tanto mais que a sessão é pública.

PS: Pode-se partilhar este E-mail com mais colegas e amigos, pois não conseguii enviá-lo.

Um abraço amigo
Leopoldo Amado
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Nota de L.G.

(1) Os cinco governadores que abarcam este período sinistro (e pouco ou nada conhecido), antes e depois do massacre do Pijiguiti, em 1959, dos acontecimentos no norte de Angola, em 1961, do recrudescimento do nacionalismo entre os guinéus, do início da luta armada sob a liderança do PAIGC (1963) e da política de terra queimada até ao consulado de Spínola (1968), são:

Álvaro Rodrigues da Silva Tavares (1959-1962);
António Agusto Peixoto Correia (1957-58);
António Augusto Peixoto Correia (1959-1962);
Vasco António Martinez Rodrigues (1962-1965);
António Schultz (1965-1968)

Fonte: Lista de Governadores da Guiné Portuguesa > Wikipedia

(2) Vd. também a versão do nosso amigo e camarada Mário Dias: post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXV: Pidjiguiti, 3 de Agosto de 1959: eu estive lá (Mário Dias)

Guiné 63/74 - P835: Empada: quem matou ou mandou matar o avô materno do Leopoldo Amado? (João Tunes)

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > 2005> A antiga casa do chefe de posto. Escreveu o Lepoldo em post anterior: "O meu avô, Victor Vaz Martins, pai da minha mãe, era ali agricultor e comerciante, tendo mesmo chegado a desempenhar as funções de chefe do posto administrativo localuma figura muito conhecida não só em Empada, mas igualmente em Cubisseco, Dar-es-salam e outras localidades circunvizinhas de Empada. Porém, Victor Martins morreu em 1962, após ter sido preso e acusado pelas NT de prestar apoio e colaboração ao PAIGC. Soube-se mais tarde que fora fuzilado e enterrado numa vala comum, com muitos outros guineenses, todos acusados de subversão" (...).
Foto: © José Teixeira (2006)


Camarigo Leopoldo,

1. Desculpa meter-me em conversa alheia, mas não queria deixar de registar o prazer que senti em ver-te voltar à escrita e conversa na nossa tertúlia. Para mais, nesta fase em que andas sobrecarregado a ganhares para o rancho e aprontares essa magnífica tese de doutoramento prestes a rebentar e que me deste o privilégio de permitir a sua pré-leitura (a dissertação e apreciação será em Julho ou em Setembro?) sobre a guerra na Guiné (vai ser um ronco de todo o tamanho, pela inovação, rigor e pelo distanciamento que permitirá, estou certo, pelo menos a todos que lá estiveram, uma nova visão global, abrangente e mais clara sobre o terrível período de 1963-74).

2. Pela minha parte, muita luz já trouxeste à minha memória e meu entendimento sobre uma guerra que tanto marcou (e ainda marca) os nossos povos. Inesquecível o longo papo que tivemos há uma semana (até sermos expulsos das Amoreiras para poderem arrumar a mobília e fecharem o Centro...!!!) sobre a figura complexa, multifacetada, genial e única de Amilcar Cabral (o guineense tantas vezes tratado como caboverdiano...). Como desfizeste, com dados, facetas e revelações, tantos estereótipos cristalizados nos mitos (o do bom Cabral e o do mau Cabral, até o do Cabral que seria um bom teórico, diplomata e político mas não um chefe operacional) e que simplificam uma figura de tamanha dimensão, complexidade e abrangência.

E alguma luz me trouxeste ainda sobre as razões fundas da trama compexa e divisionista, sobretudo nas componentes geoestratégicas da fase da guerra fria, que desembocou no seu assassinato. Percebendo também melhor, como disse o Pepito, como é possível que Alpoím Calvão se pavoneie agora pela Guiné, com casa em Bolama, com reverências diversas para com este amigo do povo da Guiné. E a facilidade que teve a PIDE, através do comerciante de armas Zóio, de comprar rapida e directamente, sem qualquer entrave, à URSS as 2.000 Kalachnicov para equipar, como equiparam, os invasores de Conacri (isto em 1970!), na Mar Verde e em que um dos objectivos era precisamente o assassinato de Amilcar Cabral (adiado, pelo fracasso das informações da PIDE, para 1973).

3. Percebo e respeito o teu pudor na forma breve como passaste a breve referência à figura do teu avô, Victor Vaz Martins. Ficámos, pelo menos, a saber que foi preso pelas NT, fuzilado e mandado para uma vala comum por simples suspeita de simpatia para com o PAIGC. Mas nada disseste sobre o seu julgamento juridicamente assistido. Que não deve ter deixado de ter sido efectuado, como mandava a lei e a civilização cristã, cumprindo todas as garantias exigidas pelas comunidades nacional e internacional. E eu não quero imaginar que as NT (que eram mais minhas que tuas) tenham feito algo de semelhante ao que o PAIGC fez aos guineenses, comandos e não comandos, das NT. Pode lá ter sido!

4. Finalmente, a defesa da tua tese de doutoramento é em sessão pública? Se sim, tens alguma coisa contra que os camaradas (camarigos) que puderem e estejam interessados a ela assistam?

Grande abraço do
João Tunes

____________

Nota de L.G.

(1) O Leopoldo Amado, historiador guineense, é doutorando em história contemporânea pela Universidade de Lisboa com uma tese sobre guerra colonial 'versus' guerra de libertação (o caso da Guiné, 1963/74), a ser apresentada apresentada e discutida em provas públicas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, muito proximamente (no 3º ou 4º trimestre de 2006). Estamos todos muito ansiosos pela chegada desse dia... Pelo menos eu, o HumberTo Reis e o João Tunes já aqui manifestámos o nosso interesse e vontade em estarmos presentes nessa acto solene (e público)para levarmos ao Lepoldo um abraço fraterno da nossa tertúlia, de solidariedade, de apoio, de admiração e de júbilo!

Textos do Leopoldo Amado já aqui publicados:


22 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXVII: O Justo foi fuzilado (Leopoldo Amado / João Parreira)

16 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXIV: Fala-se em 11 mil fuzilados (Leopoldo Amado, historiador)

26 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXXXVIII: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - III (e última) Parte

25 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXXXVII: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - II Parte

22 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXXV: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - I Parte

17 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLI: Um hino ao amor (Leopoldo Amado)

17 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXLXIX: os periquitos e a prostituta de Bolama (Leopoldo Amado)

25 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXIX: Leopoldo Amado, guinense, historiador, novo membro da nossa tertúlia

Guiné 63/74 - P834: Um roqueteiro e um bazuqueiro da CCAÇ 12 (Luís Graça)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Região do Xime > 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 , deslocando-se numa bolanha em zona controlada pela guerrilha do PAIGC...

Foto do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).


Foto: © Humberto Reis (2006).


Este homem, do lado esquerdo (vd. foto em cima), é o Soldado Arvorado nº 82107969 Alfa Baldé, de etnia fula, apontador de LGFog 3,7 (uma arma originalmente usada só pelas tropas especiais); do lado direito, em primeiro plano, surge-nos o apondador da Bazuca 8,9, o Sold 82118869 Cheval Baldé, também de etnia fula , sem boina, de cabeça rapada. Ambos pertenciam à 1ª secção do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12, o grupo de combate do Tony Levezinho e do Humberto Reis e onde eu, de vez em quando, também fazia serviço, suprindo as falhas, as baixas, as baldas... (1).

A verdade é que estivemos vinte e um meses com estes homens, lado a lado, em intensa actividade operacional. Voltámos para casa e eles lá continuaram até ao fim da guerra. Parte deles ainda foi constituir, em Abril de 1973, uma nova unidade, a CCAÇ 21, comandada pelo Tenente Comando Graduado Jamanca. Outros (quantos ?) terão sido sumariamente executados, depois da independência.

Quem se lembra destes dois homens ? O que terá sido feito deles ? Estarão ainda hoje vivos ? Se sim, já velhos, precocemente envelhecidos, que balanço farão destes conturbados anos de independência contra a qual eles lutaram ? (LG)

__________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 21 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Guiné 63/74 - P833: Contacto de ex-comando africano (J.C. Mussá Biai)

Caro Luís

Acabo de ler um post de Hugo Moura Ferreira [vd post de hoje > Guiné 63/74 - P827: 'Retido pelo IN': o caso do meu amigoTala Djaló (Hugo Moura Ferreira) ], cuja cópia supostamente me foi endereçada no passado dia 19 do mês transacto, mas a verdade é que nunca recebi nenhuma mensagem dele.

Quanto ao assunto que ele aborda neste post, de facto eu conheço - até porque é primo-irmão do marido duma prima minha - alguém que foi dos comandos em Fá Mandiga. Não tenho o contacto dele, mas quando falar para Bissau vou tentar saber dele e se me podem arranjar um contacto.

Obrigado e um abraço

José C. Mussá Biai

Guiné 63/74 - P832: Do Porto a Bissau (23): Matando saudades de Empada (A. Marques Lopes e Inês)

Texto do A. Marques Lopes:
Um dia, estava o grupo no Saltinho, o Allen decidiu ir com a Inês até Empada, para ela ver onde ele tinha passado os seus verdes anos.
Eu fui com eles, enquanto os outros preferiram ficar a refrescar-se nos rápidos do Corubal...
Lá andaram eles a ver tudo em pormenor, o Xico a lembrar, a Inês a tomar nota da história do pai, e eu a conhecer o que não conhecia... por exemplo, que o meu Sporting tem em Empada uma grande implantação!

O Allen deu-me, depois, um poema que fez quando lá estava, e deu-me autorização para o divulgar [vd. post de hoje > Guiné 63/74 - P828: Cancioneiro de Empada (Xico Allen) ] ...
E aqui vão algumas fotografias de Empada, da Inês e minhas [por razões técnicas, nem todas poderão ser inseridas no bloge, de imediato].
A. Marques Lopes


Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > Abril de 2006 > Entrada do antigo aquartelamento das NT onde é visível, ao centro, o pau da bandeira, as casernas ao fundo e a grande árvore secular, à direita. Em 2005 a localidade tinha sida visitada pelo José Teixeira (ex-1º cabo enfermeiro Teixeira, da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70), além do Xico Allen, que também lá esteve, mas mais tarde (CCAÇ 3566, Os Metralhas, Empada e Catió, 1972/74).

Foto: Inês (2006).
Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > Abril de 2006 > Uma outra perpectiva da parada do antigo aquartelamento das NT com os respectivos edifícios ao fundo e a grande árvore à direita. (LG)

Fotos: © A. Marques Lopes (2006)



Do ponto de vista administrativo, Empada faz parte actualmente da Região de Quínara, juntamente com Buba, a caital, Fulacunda e Tite. Quínara faz fronteira com as Regiões de Bafatá, Bissau, Bolama/Bijagós, Oio e Tombali. Tem uma superfície de 3.138 Km2, e uma população de 53.585 habitantes.

Às vezes, por lapso, Empada já tem sido referida como pertencente à Região de Tombali, que essa sim faz fronteira com a República da Guiné-Cronacri. Tombali é maior em superfície (3.736 Km2) e população (86.850 habitantes) do que Quínara. Inclui os seguintes sectores de Catió (capital), Bedanda, Komo, Quebo e Quitafine. (LG)




Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > Abril de 2006 > De novo, pai e filha, juntos na pesquisa de vestígios da presença dos Metralhas nos já idos tempos de 1972/4.

Foto: © A. Marques Lopes (2006)

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > Abril de 2006 > O Xico Allen junto a um antigo abrigo...
Foto: Inês (2006)

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > Abril de 2006 > Este edifício é pressuposto ser (ou ter sido) uma maternidade, segundo a lacónica legenda que acompanha a imagem... Outras instalações (casernas das NT) foram (LG)

Foto: Inês (2006)


Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > Abril de 2006 > O grupo também fez um visita à escolinha local, falou com o professor e tirou fotografias. Nesta, por exemplo, os meninos estavam a ter uma aula de português, a juntar as letras e a fazer palavras bonitas como casa e mesa ... (LG)
Foto: © A. Marques Lopes (2006)

Guiné 63/74 - P831: Tripas à moda do Celestino (Zé Neto)

Depois de uma longa travessia pelo deserto anti-tabágico, eis que temos de volta, curado do cigarro, o nosso patriarca Ze Neto que exerceu funções de primeiro-sargento na CART 1613 (Guileje, 1967/68) e é hoje um capitão reformado que gosta de contar estórias do preto da Guiné aos netos (1)... Hoje temos mais uma boa estória do Zé, divertida, bem contada, reveladora do sentido de humor castrense que a malta tinha que ter, lá no cú de Judas. (LG)

Meu velho:

Isso [o blogue] está a ficar muito fúnebre.

Vê lá se num intervalo metes mais uma do meu celebrado comandante, que segue em anexo apenas com o intuito de alegrar as hostes.

A propósito, já agradeci ao Zé Martins o excelente trabalho que nos proporcionou. Detectei um ligeiro erro que já lho indiquei. Isto até sem cigarros funciona!!!

O abração

do Zé Neto
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Tripas à moda do Porto

(Excerto das "Memórias da minha vida militar")

José A S Neto


Durante a inclusão das minhas Memórias de Guilege no blogue (1), o nosso chefe Luís titulou, por sua conta e risco, o Post DXXXIV de Gazela com chouriço à moda do Celestino (2).

Para os distraídos ou mais recentes nestas coisas do blogue quero apenas salientar que este senhor era o meu comandante de batalhão. Um grande gourmet e artilheiro nas horas vagas.

O episódio aconteceu nos primeiros tempos da nossa estadia na Guiné, faustosamente aquartelados em Brá, enquanto o Estado-Maior do CTI se entretinha a cortar o batalhão em fatias e mandá-las de presente ao comando de outras unidades espalhadas pelo território para reforço. Estávamos em fins de 1966, princípios de 1967.
Então, parafraseando o nosso amigo Luís, vamos às tripas à moda do Celestino:

Uma das preocupações doentias do Celestino era a alimentação. Não tanto pela quantidade e qualidade (isso era da responsabilidade da delegação do MM) mas mais pela apresentação da ementa que, diariamente, lhe era mostrada pelo oficial de rancho.

A descrição dum prato de carne do borrego guisada com batatas e feijão verde, tal como vinha enunciada pela MM, não satisfazia o Celestino. Havia que dar um nome ao manjar, como por exemplo: Borrego au sauté ou coisa parecida.

Foi assim que o Alf Mil Sampaio, oficial de Manutenção de Material do batalhão e, por escala, na altura oficial de rancho, uma certa manhã levou o Menu ao comandante.
- O que é isto? Tripas à moda do Porto com feijão branco? Você não sabe que este prato é feito com grão-de-bico?
- Meu comandante, eu sou de Vila Real, fiz o liceu no Porto e sempre comi tripas com feijão.
- Qual quê? É com grão.

Com grão, com feijão, não havia meio de chegarem a um entendimento.
- Você já vai ver. Oh Pereira, vai às casernas e traz-me um soldado do Porto.

Veio o tripeiro e o Celestino perguntou-lhe qual era o vegetal seco que acompanhava as tripas.
- É feijão branco, meu comandante.
- Põe-te a andar. Não sabes o que comes!
- Pereira, vai buscar outro mais esperto do que este.

Veio o segundo e o diálogo repetiu-se. E a resposta continuava a ser feijão branco.
- Pereira traz-me um gajo do Porto com boas parecenças que estes devem ser uns vira-latas da Ribeira.

Presente o terceiro, um cabo, o Celestino fez a sacramental pergunta e o rapaz respondeu sem vacilar que lá no Porto as tripas se comiam com grão-de-bico.
- E feijão branco?
- Nem pensar, meu comandante, o grão é que dá substância às tripas.
- Estão a ver?... Estou condenado a lidar com amadores…

Já fora do gabinete, o Alf Sampaio, que conhecia o cabo mecânico entrevistado e sabia que ele era da área de Santarém, perguntou ao cabo ordenança:
- Que truque é este, Pereira?
- Oh meu alferes, já viu o que é fazer cem metros para lá, outros cem para cá e a coisa ia dar sempre ao feijão?
- Agarrei este ali na estrada, ensinei-lhe o padre-nosso, meti-lhe um bocado de sotaque na cabeça - eu até sou de Gondomar - porque se não fosse assim a esta hora ainda andava a rebocar gajos do Porto até ao teimoso do nosso comandante.

O almoço daquele dia foi Dobrada com farrepas de couve e grão duro que nem balas. Com um bocado de sorte lá aparecia uma rodela de chouriço.

____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 25 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXXXV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (Fim): o descanso em Buba

(1) 14 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXIV: Memórias de Guileje (1967/68) (Zé Neto) (8): Gazela com chouriço à moda do Celestino

Guiné 63/74 - P830: O meu avô Victor Vaz Martins, dos 'Gã' Martins de Empada (Leopoldo Amado)

Texto do Leopoldo Amado, historiador e membro da nossa tertúlia:

Caro Marques,

Fico contente em saber que estiveste em Empada e que mantens relações com população local. Empada foi o torrão onde nasci, apesar de ter crescido em Bolama e depois Bissau. O meu avô, Victor Vaz Martins, pai da minha mãe, era ali agricultor e comerciante, tendo mesmo chegado a desempenhar as funções de chefe do posto administrativo local.

Certamente deves ter ouvido falar dele, pois era uma figura muito conhecida não só em Empada, mas igualmente em Cubisseco, Dar-es-salam e outras localidades circunvizinhas de Empada. Porém, Victor Martins morreu em 1962, após ter sido preso e acusado pelas NT de prestar apoio e colaboração ao PAIGC. Soube-se mais tarde que fora fuzilado e enterrado numa vala comum, com muitos outros guineenses, todos acusados de subversão. Mas isso é uma outra história…

Eu próprio já escrevi sobre Empada, numa tentativa literária de evocação desse passado meio verídico e meio mítico em que o meu avô é referenciado como o verdadeiro patriarca da família e em que Empada prestou-se como cenário de uma quase epopeica dimensão da partilha, protagonizada na época pelo Martins. ( significa em crioulo família, no sentido alargado).

Prometo partilhar contigo esse texto ficcionado que escrevi há já uns anos, onde procurei ficcionar várias estórias entrecruzadas sobre Empada, as quais foram-me contadas e reproduzidas pela minha mãe e tios, mas também onde paradoxalmente narro a minha própria tentativa de reconciliação com Empada, afinal, terra que me viu nascer e que, por capricho do destino, só fui conhecer 29 nove anos após o meu nascimento.

Assim, caro Marques, agradeço de antemão qualquer outra arremetida textual ou iconográfica sobre Empada, qualquer coisa suplementar que possas saber ou ter guardado (fotos, p.e.) e que queiras partilhar, pois ainda vivo com a sensação algo curiosa de estar em divída com a terra que me viu nascer e em que cetamente os Martins conheceram o auge dos tempos idos e a grandeza da terra.


Um abraço amigo

Leopoldo Amado

Guiné 63/74 - P829: Cancioneiro de Empada (Xico Allen)

Guiné-Bissau > Região de Quínara (Buba) > Empada > Abril de 2006 > O Xico Allen e a sua filha, Inês, observendo um abrigo em ruínas do antigo aquartelamento das NT. Ele esteve por aqui, com os seus camaradas da CCAÇ 3566 - Os Metralhas (1972/74).


© A. Marques Lopes (2006)


Enfim, esta foi uma agradável surpresa que o Xico Allen nos fez: em primeiro lugar, ao seu companheiro de viagem, o Marques Lopes; e depois a nós, membros desta tertúlia.

Quando, em Abril de 2006, ele voltou à Guiné, de jipe, e revisitou Empada, pela enésima vez, mas desta vez com a sua filha Inês e o Marques Lopes, o Xico, que é uma homem de acção, mostrou uma outra face que, se calhar, nem a filha conhecia de todo, a de poeta popular, nortenho, da Ribeira, ao rapar de uma folha de papel onde tinha escrito estes versos no seu tempo de metralha, em Empada, mesmo no local do crime... Com a devida autorização, vamos aqui divulgá-lo em primeira mão (embora já tenha circulkado pela tertúlia)...

Já pedi ao Zé Teixeira, seu vizinho de Matosinhos, para dar os meus parabéns ao Xico Allen, por esta amostra do Cancioneiro de Empada... E fiz-lhe um pedido: "E se ele tiver mais, que nos mande (por teu intermédio ou do Marques Lpes ou da Zélia, mãe da Inês, já que ele insiste em não ter endereço de e-mail e não querer ouvir falar em computadores)...

Este pedido é, de resto, extensivo, a todos os amigos e cmaradas: "De facto, há para aí muito poeta escondido nos abrigos do nosso tempo... Esse material poético é precioso: ele diz mais do que muita fotografia... Vê se apanhas mais coisas destas... Já leste os versos, que o A. Marques Lopes mandou para a tertúlia ? Vou publicar, para chegar ao grande público"...

Depois do Cancioneiro de Mansoa (1), de Canjadude (2) e de Bafatá (3), temos agora o de Empada, sem esquecer o de Gandembel (4). Bem hajam os poetsas da nossa terra. (LG)

I

Antes de chegar à Guiné
Recebi uma medalha
Hoje ainda a conservo
Com o nome de METRALHA


II

Viajei de avião
Rumo à cidade de Bissau
Às primeiras impressões
Não me pareceu muito mau


III

Depois de lá chegar
Segui pr’ó Cumeré
Fui conhecer o mato
Para saber como é


IV

Quinze dias durou o estágio
P’rá condução na picada
Depois fui obrigado
A juntar-me à macacada


V

Quando cheguei a Bolama
Muita fome lá passei
De fome julguei morrer
Mas desta ainda escapei


VI

Bolama ficou para trás
E rumei para Empada
Lá ia ser melhor
Era o que tudo pensava


VII

Empada estava à vista
Que era o nosso destino
Andei pela mão dos grandes
Como se fosse um menino


VIII

De noite cheguei a Empada
Estava tudo iluminado
De manhã fui passear
Fiquei decepcionado


IX

Comecei a comer melhor
Depois que cá cheguei
Mas foi à minha custa
Pois cá me desenrasquei


X

Houve cabritos e cabras
Mortos a tiro e paulada
Que para matar a fome
Não nos custava nada


XI

Neste rol de matança
Também há porcos e leitões
Que para nós mais tarde
São grandes recordações


XII

Nos dias de avionete
Anda tudo em reboliço
Não só esperamos correio
Como presunto e chouriço


XIII

Agora que somos velhos
Esperamos rendição
Porque estamos quase
No fim da comissão


XIV

E o tempo vai passando
Com muita dificuldade
E vivo ansiando
Voltar à minha cidade


XV

Nas noites de Inverno
Mil amarguras passei
E nas horas de reforço
Muita chuva apanhei


XVI

Trovoada e relâmpagos
Iluminavam como o dia
Não desejo que ninguém passe
Aquilo que eu não queria

Xico Allen


Comentário do A. Marques Lopes:


Ainda deu para poemas... trovas à fome que passa, trovas à chuva que cai.


____________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 1 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVI: Cancioneiro de Mansoa (1): o esplendor de Portugal

(2) Vd. post de 28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIII: Cancioneiro de Canjadude (CCAÇ 5, Gatos Pretos)

(3) Vd. post de 31 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXV: Cancioneiro da Cavalaria de Bafatá (Radiotelegrafista Tavares) (1): Obras em Piche

(4) Vd. post de 30 de dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CDII: O Hino de Gandembel (Zé Teixeira)

Guiné 63/74 - P828: 'Retido pelo IN': o caso do meu amigo Tala Djaló (Hugo Moura Ferreira)


Cópia do aerograma (frente) enviado pelo comando africano Tala Djaló, com data de 21 de Outubro de 1970, enviada de Fá Mandinga (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca) , onde estava colocada a sua Companhia de Comandos Africanos, à ordem do Com-Chefe, a um mês da sua trágica partida para Conacri.

Foto: © Hugo Moura Ferreira (2006)



Luis:

Tal como me pediste para te informar quando soubesse algo do meu amigo Tala, depois de ter pedido ajuda ao nosso amigo tertuliano, José Carlos Mussá Biai, de que não recebi feedback (1), junto estou a enviar-te, em anexo Um desabafo.
Abraço.

Hugo Moura Ferreira
____________________

Luís:

Estou triste… Deixa-me desabafar…

Vou fazê-lo ao correr da pena sem rever para que o que aqui te vou contar se apresente como a forma mais pura do meu sentir.

Recordas-te de uma mensagem que enviei, de que te dei conhecimento, a solicitar ajudas no sentido de tentar encontrar o meu amigo Furriel Graduado Comando Tala Biu Djaló?

Pois o facto é que o encontrei.Mas parece-me que estou a viver um daqueles filmes que retratam os problemas entre as famílias dos desaparecidos na 2ª Guerra Mundial em que as viúvas (?) casavam, tinham filhos e mais tarde os maridos, dados como mortos, por desaparecidos em combate, apareciam.

Quem me dera que este fosse um filme e que, como tal, acabasse com um final feliz com o aparecimento do Tala. Mas eu sei que não vai ser assim! Isso dá-me uma tristeza tamanha e ainda mais quando sei, embora de forma oficiosa, e o compreenda, o seu nome, tal como o de outros nunca irá aparecer nas nossas listas de mortos nas Campanhas de África.

Pois ele faz parte de uma lista de mais de uma vintena (ele é o 3º) de militares da 1ª Companhia de Comandos Afriacanos que ficaram em Conakry, na Operação Mar Verde, que tem como titulo "Retidos pelo Inimigo".

Ao falar com quem está envolvido nesta operação de registo histórico, foi-me afirmado que, como os vários Governos, desde essa época até hoje, não podem (esta é a palavra exacta, dado que à face do Direito Internacional poder-nos-ia ainda hoje obrigar a pagar indemnizações elevadíssimas a um país estrangeiro – foi esta a explicação) assumir oficialmente o episódio. Como tal não poderemos envolver, nem sequer a diplomacia para saber de forma oficial o que aconteceu àqueles militares que todos nós sabemos foram fuzilados logo a seguir ao fiasco da Operação ou morreram durante a mesma, mas cujos corpos não atravessaram a fronteira.

Durante a conversa falaram-me de um Alferes Comando europeu, que teria sido morto em combate e que tinha ficado no terreno, mas que o pessoal voltou a trás para o ir buscar e que passou a fronteira às costas dos camaradas.

Perante esta situação de "Retidos pelo Inimigo", apenas me interrogo o porquê desta situação, que certamente será comum aos diversos teatros de operações, não fazer parte das listagens de baixas que tivemos com as nossas campanhas em África.

Poderia eventualmente ser uma listagem paralela às dos mortos em combate, em que constassem os "Desaparecidos e os Retidos”. Gostaria de ver essa lista publicada oficial ou oficiosamente, nem que fosse no nosso Blogue-fora-nada.

Realmente eu entendo que não podem ser dados como mortos porque o podem não estar. Conta-se nos vários departamentos por onde passei a ocorrência de um determinado militar de uma das Companhais de Comandos Africanos ter sido dado como morto e, quando da entrada em vigor da Lei 9, apareceu um requerimento de contagem de serviço para efeitos de aposentação, do referido militar que se veio a constatar que era vivo e residia em Portugal.

Bom, deixa-me viver a recordação do Tala… Para isso vou juntar, a título de curiosidade, a reprodução do último aerograma que o Tala me mandou e que periodicamente dou por mim a lê-lo.

Um abraço.

Hugo Moura Ferreira


PS – Estou a enviar-te isto desta forma para que faças uso dela da maneira que melhor entenderes. Era minha ideia, quando comecei, apenas desabafar, sabendo que tu compreenderias, mas se entenderes publicar alguma parte, já que não referencio ninguém, nem nenhum serviço, em especial, não haverá qualquer problema.

Gostaria, no entanto, de alvitrar que, como nós gostamos da Guiné, também de alguma forma seria interessante fazer referência aos que morreram do outro lado. Seria talvez o mínimo que nós, no Blogue-fora-nada, poderíamos fazer. Aliás seguindo a ideia que está expressa no ponto (vi) das Regras da Tertúlia dos Amigos e Camaradas da Guiné: "respeito pelo inimigo de ontem (que, sempre o disse pela boca do seu líder histórico, nunca lutou contra o povo português, mas contra um regime político)"...

Não haverá ninguém que tenha sido do PAIGC e que queira, sem ressentimentos, entrar neste grupo? Certamente depois viriam mais, pois com toda a certeza veriam que seriam bem recebidos. Estou certo ou não? Se calhar isto é uma ideia utópica... ou talvez não.

_________________

Nota de L.G.:

(1) Cópia da mensagem enviada pelo Hugo Moura Ferreira, em 19 de Maio último, ao José Carmos Mussá Biai, com conhecimento ao editor do blogue:

Assunto - Operação Mar Verde

Caro Eng.

Começo por me apresentar e para tal faço-o da forma mais simples, indicando-lhe o link do nosso Blogue.

Depois desta cómoda apresentação queria, caso lhe seja possível dar-me algumas indicações ou se possivel me indicasse alguns contactos para o fim que tenho como objectivo. Mas passo a explicar-lhe, tentando ser sucinto.

Entretanto, embora leve esta mensagem ao conhecimento do Luís Graça, apenas por questões éticas, já que entendo que, tendo ele tanto trabalho com o Blogue, promovendo também estes contactos e ser justo que saiba o que cada um de nós anda a fazer, gostaria de lhe solicitar que não fosse levado ao conhecimento dos Tertulianos o seu conteúdo, visto que este é apenas mais um passo para eu ver se chego a alguma conclusão do que a seguir vou expor.

Assim, se o verificar no Blogue, eu já fiz algumas referências ao Tala Biú Djaló ou Manuel Talabiu Djaló. Então a questão coloca-se da seguinte forma:

Embora sabendo, de forma oficiosa, da morte do Tala, em combate, na Operação Mar Verde, em Conakry, nunca consegui encontrar o nome dele referênciado nas listagens até hoje publicadas, nem no Monumento do Bom Sucesso.

Perante tal, resolvi pesquisar e desloquei-me ao Arquivo Geral do Exército onde localizei a ficha dele como Alferes do Pelotão de Milícia 143, junto da minha CCAÇç 6, que terminava com a indicação de um ferimento em combate em 1967 e a transferência para a 1ª Companhia de Comandos Africanos.

Confirmo essa transferência porque já ele ali era Furriel, quando me enviou o último aerograma, em 23 de Outubro de 1970 (ver anexo). A Operação Mar Verde foi em Novembro. No entanto, continuando a pesquisa nada mais foi encontrado. Tive inclusivamente na minha presença uma listagem dos militares daquela Companhia , mas na mesma também não constava o seu nome.

Perante esta situação enviaram-me para o CECA (Comissão de Estudos das Campanhas de África), onde são tratadas as listagens relacionadas com estas matérias. Ali ainda não fui definitivamente esclarecido, tendo tal situação sido transferida para a próxima 4ª feira, quando ali voltar, mas foram-me avisando que se calhar haveria dificuldade em saber algo mais do que aquilo que eles já tinham. Vamos a ver.

Então o que me traz até si, muito objectivamente é o seguinte:

- Será que terá contactos com antigos elementos da 1ª CCmds Africanos ?
- Estaria disposto a colocar-me em contacto com esses elementos?
- Poderia dar-me alguma opinião acerca de outra forma de eu encontrar a memória deste meu amigo?

Desculpe trazer-lhe esta questão mas como verifiquei que o meu caro amigo está bem relacionado e é guineense, talvez possa proporcionar-me alguma ideia ou hipótese para eu, de forma oficiosa, me apresentar junto das entidades oficiais com elementos objectivos que possam, no caso do Tala que chegou a visitar Portugal, com o prémio Governador da Guiné, ser feita a justiça de o integrar nas listas dos que morreram, como neste caso, por algo em que acreditavam.

Ainda tenho presente, como se fosse hoje, a resposta que me deu quando eu lhe disse, referindo-me ao risco que ele corria com tantos anos de actividade operacional, que o "Cântaro tantas vezes vai à fonte que um dia quebra-se". Então disse ele, "Pois mas eu tenho que o fazer. Se eu vou ser o próximo Régulo do Cantanhez, os outros vêm-me perguntar: Então tu é que és o Régulo e nós é que andamos a defender aquilo que depois vai ser teu?".

Afinal, tinha dito que seria sucinto, mas parece que não o fui. Como tal, vou terminar aqui e agradecer-lhe antecipadamente qualquer ajuda que me possa prestar... E ao Tala, naturalmente.

E caso vá até ao Bom Sucesso no 10 de Junho... Quem sabe se não nos encontraremos. Eu não falho!

Cumprimentos.
Hugo Moura Ferreira

Guiné 63/74 - P827: Cruz de paz com palma... (A. Marques Lopes)

Texto A. Marques Lopes:

Caro amigo Luís

Eu não sei se a cruz de guerra tinha palma... mas eu não tenho dúvidas que mereces uma cruz de guerra de primeira classe com (muitas) palma(s). Porque fizeste um trabalho de sencional militância na procura das referências àquelas lápides que eu fotografei no cemitério de Bissau (1). E a tua militância merece condecoração, se calhar uma torre e uma espada pela luta que vens a travar pela recolha da nossa memória, que é mesmo bom que não seja esquecida.

O teu contributo e o incentivo ao contributo dos outros têm sido um elemento fundamental para que esta história, e a estória de cada um, não caia no esquecimento. É uma luta contra uma tendência que se pretende imprimir na nossa sociedade, e tu és um vulto de topo nesa luta. Parabéns!

Sempre me interroguei como seria possível encontrar os dados completos daquelas campas. Tive dúvidas, até porque, embora conhecesse a página do Jorge Santos, nunca me deu para ver o Memorial. Mas tu, um homem prático da ciência, estás atento. Ainda bem!

Aproveito para fazer uma crítica àquele memorial que está em Belém:

(i) não estão lá os que morreram no cativeiro em Conacri (por causa da guerra...);
(ii) não estão lá os desaparecidos em campanha (também na guerra..., os três da CART 1690 sei que morreram mesmo);
(iii) e não estão lá todos os mortos por doença (porque lá estiveram, na guerra...). Critério que não me parece justo.

Um grande abraço
A. Marques Lopes

Comentário de L.G.:

Querido amigo e camarada António: A condecorarem-me (de que Deus me livre!, como se dizia até finais do Séc. XVII, quando se pronunciava a terrível palavra Peste), a condecorarem-me, algum dia, que seja ao menos com a Cruz da Paz (sim, pode ser com palma...)!...

O teu elogio é generoso mas excessivo. Todos, na tertúlia, procuramos fazer o nosso melhor, utilizando diferentes talentos, habilidades, competências, saberes, experiências. Pegando, enfim, no instrumento que sabe, melhor ou pior, tocar. A grande verdade é que nenhum de nós é perfeito, mas juntos... podemos sê-lo. Espírito de corpo: não era assim que nos ensinaram em Mafra, nas Caldas, em Tavira, em Lamego, em Santa Margarida ? E que depois pusemos (ou tentámos pôr) em prática em Sinchã Jobel, na Ponta do Inglês, no Choquemone ou em Guileje ? Pelo menos, para saírmos da Guiné com a cabeça levantada, sem a morte na alma, com a cabeça entre as orelhas, com a dignidade de homens e de portugueses...
_________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 30 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCXIX: Do Porto a Bissau (23): Os restos mais dolorosos do resto do Império (A. Marques Lopes)

quarta-feira, 31 de maio de 2006

Guiné 63/74 - P826: A legenda do capitão comando Bacar Jaló (João Tunes)

Texto do João Tunes:

Caro Luís,
Muito me impressionaram as imagens trazidas pelo nosso camarada Marques Lopes sobre os "restos de lápides funerárias de soldados portugueses cujos corpos por aqui ficaram".

Dei conta do meu grito de indignação partilhada no meu blogue e conclui assim:

"Um país que não respeita os corpos dos mortos que mandou combater por ordem do governo da pátria, ou do governo do raio do império, permitindo dar a dignidade do luto pelos seus, é um país sem vergonha perante os vivos porque despreza os seus mortos."

Fazendo o meu percurso de dor e repulsa pelo abandono, através das imagens, reparei que a lápide do "lendário Capitão Comando João Bacar Jaló" (tombado no tempo em que ainda estava na Guiné, tendo-lhe deus - o deus da guerra - poupado, desta forma piedosa e antecipadora, a ignomínia de ser fuzilado, sem julgamento, pelo PAIGC e no pós-independência, isto se não tivesse podido fugir e voltar a estar sob as ordens de Alpoim Calvão e Spínola no MDLP e a participar na rede bombista) se apresenta não só com melhor aspecto de conservação, como é diferente, nas inscrições, das dos restantes camaradas mortos em combate, por acidente ou por doença.

Quanto à conservação, entendo as razões aventadas - terá por lá família que a cuide e lhe dê lustro. Quanto à inscrição, já não entendo a falta, para mim incompreensível, da usada nas outras lápides do PELA PÁTRIA.

Talvez o camarada Marques Lopes tenha indagado das razões e possa esclarecer se a lápide é a original ou não terá sido, para que se compreenda a sua diferença, refeita posteriormente em trabalho de reescrita histórica. Mera curiosidade, já que nada adianta ou atrasa quanto à sorte do Bacar Jaló que, neste momento, tanto lhe fará quais os dizeres da sua lápide funerária.

Também fiquei perplexo por, nas legendas das imagens das lápides, o camarada João Bacar Jaló ter tido direito ao epíteto honroso de lendário com que foi distinguido, no blogue, em realce relativamente aos outros nossos camaradas tombados e com os restos para ali abandonados. Que lendas teve este camarada que o diferenciem, na sorte e na missão, dos outros camaradas? Além da lenda do mistério da lápide diferente, o que se alude ou sugere? Combateu mais e melhor que os outros? Foi generoso e humano para com os prisioneiros? Terá sido o Che da contra-guerrilha?

É que das lendas de Bacar Jaló nada sei. Sei apenas que foi um valoroso e impiedoso guerreiro. Apenas me encontrei com ele e os seus guerreiros ou em trânsito ou quando ele se albergava momentaneamente nos quartéis onde estive ou então (isso, várias vezes) em Bissau, na messe de oficiais, quando ele entrava lustroso dos galões novos e arrastando atrás de si uma multidão de esposas bem ataviadas, provocando a debandada enojada da maior parte das esposas dos oficiais metropolitanos ali a tomarem chá e jogarem canasta e que não queriam tais misturas.

E quantos oficiais ao serviço do PELA PÁTRIA olhavam de imediato para o relógio, metiam logo fim ao king ou ao bridge e zarpavam para o cumprimento imediato das obrigações militares no Estado Maior, antes que o Jaló se lembrasse de abancar na mesma mesa?!

Será esta a lendaque referes? Mas, se foi, isto não é lenda, viram os meus olhos, repetidamente e então fazendo-me rir que nem um perdido pelo insólito (mas não era por mal, os copos bebidos é que já eram - sempre - em demasia) e que a terra, se não for o mar ou o ar, há-de comer.

Desculpa as minhas curiosidades. Que são, apenas, isso mesmo.

Grande abraço para ti e saudações camaradas e amigas para todos os estimados tertulianos.

João Tunes


Comentário de L.G.:

João:

(i) O teu olho clínico não deixa escapar nada. E ainda bem, que alguém exerce essa função de vigilância (crítica) sobre os nossos dizeres, a forma e o conteúdo. Claro que se não trata aqui, como no goulag ou na caserna do antigamente, de vigiar e punir. A nossa paixão é a da verdade e do rigor. Felizmente que, não sendo um partido revolucionário ou contra-revolucionário, não sendo um movimento social, nem sendo uma corporação, não sendo sequer um grupo jantarista e excursionista, a nossa tertúlia (virtual) não precisa de comissário político, ideólogo, líder, professor, educador, animador sócio-cultural, pai, mãe ou outras figuras que tais. Liberdade de escrita, liberdade de crítica: eis o nosso lema (implícito na nossa prática bloguista).

(ii) Dito isto, tens toda razão: o adjectivo lendário aplicado ao Bacar Jaló é tão excessivo como a ideia do Marques Lopes me mandar condecorar no 10 de Junho com cruz de guerra com palma e tudo!... Que grande amigalhaço!...

A verdade é, segundo consulta ao meu dicionário etimológico, lendário deriva de lenda, e este vocábulo por sua vez vem do latim medieval legenda que queria significar "vida de santo"... Imagina só!

(iii) Eu não sei se o Bacar Jaló era ou não era em vida um bom muçulmano, mas santo é que eu não posso dizer que ele era(pelo menos, santo da minha devoção), a avaliar, de resto, por testemumnhos como o teu e o do Jorge Cabral (este, para mais, tinha de o gramar como hóspede em Fá Mandinga)...

(iv) Para abreviar razões, e poupar o meu e o teu tempo: O raio do adjectivo saltou-me do saco lexicográfico, por puro automatismo. Lapsus linguae ou acto falhado, eis a questão ?

(v) Pensando bem, sou capaz de inclinar-me mais para a interpretação psicanalítica: eu, tropa-macaca, tão pacifista como tu, tão suspeito de ser do contra como tu - ao ponto de me apodarem de camarada sov - também tinha as minhas fraquezas (humanas), quiçá, as minhas fantasias sadobelicistas... E até um dia tive, por uma fracção de segundo, o desejo secreto de comprar uma Kalash aos gajos dos comandos africanos, acabados de chegar do triste safari de Conacri... Imagina como é o psiquismo de um gajo!... Felizmente que o meu lado solar, racional, diurno, se impôs ao hemisfério lunar, romântico, irracional, nocturno, na outra fracção de segundo em que eu confrontei o desejo com a realidade... Preferi comprar 10 garrafas de uísque com os 500 pesos que me pediam pela bela Kalash...

(vi) É óbvio que o Jaló não merece o epíteto. Chamar-lhe lendário (logo, santo) era pô-lo no Olimpo dos guerreiros e mandar o resto dos nossos camaradas, insepultos, para a miserável vala comum... Era tirar-lhes, como tu insinuas, sugeres ou até afirmas, o resto de dignidade que é devida a um morto pela Pátria, um morto, qualquer morto...

(vii) Depois desta autocrítica mal amanhadas, espero que me releves a falta... de leviandade. Prometo ter mais cuidado com o verbo.

(viii) Escusado será dizer-te que é sempre um prazer ler-te e (re)ver-te mesmo à distância de muitos bytes (ou baites), enquanto a gente não se mete nas nossas tamanquinhas e reserva aí um lugar numa esplanada à beira Tejo para a prova real do blogue, fora nada... Um abraço caloroso. Luís.

Guiné 63/74 - P825: Antologia (40): A vergonha em debater a guerra colonial (Luís Graça)

Caros amigos e camaradas de tertúlia:
Este blogue, colectivo sobre a experiência da guerra colonial na Guiné, tem sido um espaço privilegiado para dar voz (e rosto) aos antigos combatentes, de um e de outro lado. É um espaço plural, logo de liberdade, onde as diferenças (de pontos de vista, de sentimentos, de valores, de percepções,de estilos comunicacionais, de idiossincrasias, etc.) não impede que haja comunalidades na procura da verdade, no diálogo, na construção de pontes entre o passado, o presnete e o futuro, na reconstituição do puzzle da memória (de dois povos, dois países, dois continentes...). Espaço de liberdade, mas também de solidariedade, com o povo irmão da Guiné-Bissau... Não somos um clube de saudosistas, de africanistas, de veteranos...

Temos sido muito proactivos na produção e divulgação de textos e imagens, de preferência inéditos, pessoais, datados... Tal não impede, que de vez em quando, se reproduzam aqui documentos que trazem alguma luz sobre a complexidade realidade deste tempo histórico de que todos, de um lado e de outro, fomos protagonistas.

Serve este preâmbulo para justificar a reprodução, com a devida vénia, da entrevista ao DN - Diário de Notícias, em Abril passado, dada por Luís Marinho, que acabou de publicar um trabalho de investigação jornalística sobre a Op Mar Verde que, ainda hoje, tantas paixões de sinal contrário desencadeia entre nós...

O autor que teve acesso a fontes privilegiadas, a começar pelo cérebro da operação, Alpoím Galvão, diz pelo meso duas ou três coisas que eu gostaria de aqui sublinhar e reter: (i) o processo oficial da operação foi mandado destruído, em nome da segurança de Estado; (ii) a instituição militar portuguesa não quer (pou ainda receia) abrir "caixa de Pandora que são os dossiês da guerra colonial: isso eu já o sabia, desde a minha colaboração com o o jornalista Afonso Praça no defunto O Jornal, no princípio da década de 1980; e, por fim, (iii) temos ainda vergonha de falar, em privado e em pública, da guerra dita colonial ou do ultramar (de liberatção, dirá o Pepito ou o Leopoldo Amado): não apenas nós, também os nosso amigos guineenses... Será verdade ? A generalização não é abusoiva ? Nóis, peo menos, neste blogue aprendemos a falar em voz alta, olhos nos olhos, desta experiência, individual e colectiva, que nos marcou a todos de maneira indelével... Todos quisemos esquecer a Guiné, em algum momeno, e acabámos por estar aqui, rindo, falando, escrevendo, cantando, chorando, blogando em conjunto, numa caserna que é do tamanho do mundo... (LG)

PS - Aproveitem para comprar e ler o livro, aproveitando os descontos da Feira do Livro, de Lisboa e Porto, a abrir agora, nos próximos dias do mês de Junho. É apenas uma sugestão de leitura, nunca esquecendo que há muito mais mundo para lá da Operação Mar Verde bem como da própria guerra colonial e até da nossa querida Guiné-Bissau...

'Mar Verde': revelados documentos sobre operação militar ainda secreta.
Manuel Carlos Freire. Diário de Notícias. 17 de Abril de 2006

A Operação Mar Verde, realizada em Novembro de 1970, foi uma das maiores e mais controversas missões executadas pelas Forças Armadas portuguesas nas guerras coloniais (1961-1974). Mas só agora vê rompido o secretismo decorrente da falta de documentação nos arquivos civis e militares oficiais e do seu não reconhecimento pelo Estado.

António Luís Marinho, autor do recém-lançado livro Operação Mar Verde, Um Documento para a História, contou ao DN que o seu trabalho de pesquisa documental confirmou "a tradição de não dar aos arquivos os documentos oficiais" produzidos.

O jornalista (e actual director de informação da RTP) revela pela primeira vez um conjunto de textos oficiais sobre aquela operação. Contudo, "não acredito que haja uma discussão" sobre o assunto porque há "pouca tradição, infelizmente, de discutir" as questões da guerra colonial. "Parece que metemos a cabeça na areia, que há vergonha" de a debater, lamenta o autor.

O livro começou a ser preparado há 11 anos, quando "o entusiasmo" com que Luís Marinho ouvia o comandante Alpoim Calvão falar do ataque por si liderado contra a República da Guiné-Conacry "não [o] deixou indiferente". "Percebi também que estava ali uma história que valeria a pena contar", escreveu o jornalista no prefácio do livro editado pelo Círculo de Leitores. A importância de contar essa história era tanto maior quanto o marechal António de Spínola (comandante-geral e governador daquela colónia à data dos acontecimentos), assumira perante o Centro de Estudos das Campanhas Africanas (em 1989) que "o processo oficial sobre a "Operação Mar Verde" foi destruído".

A obra, escrita em estilo de reportagem e com recurso a fontes das duas partes em conflito, revela na íntegra 18 documentos de arquivos particulares, permitindo conhecer as posições (tanto no plano político como militar) de vários dos actores envolvidos. Além de divulgar A solução do problema da Guiné preconizada pelo general António de Spínola, o livro publica a "ordem de operações" manuscrita daquela operação, o relatório elaborado por Alpoim Calvão após a sua realização ou o redigido pelo comandante do único dos navios que tinha como missão "abicar em terra para desembarcar forças", o primeiro-tenente Costa Correia (um dos poucos que verbalizaram reservas à operação).

No livro, onde o jornalista lembra o contexto político, diplomático e militar da época, e historia a preparação e execução da Mar Verde, sobressaem precisamente as dúvidas e reservas existentes ao nível político e militar contra a operação.

Esta foi pensada por Alpoim Calvão, que a apresentou a Spínola em Agosto de 1969. O brigadeiro do monóculo "ouve com visível agrado a proposta de Calvão e diz-lhe para avançar com os preparativos", escreve Luís Marinho na página 62. Mas só no fim desse ano é que a missão ganha contornos definidos, quando dissidentes da Guiné-Conacry (ligados aos serviços secretos franceses) pedem apoio ao Ministério do Ultramar para derrubar o Presidente Sékou Touré.

O autor diz, ainda na mesma página, que "as Informações constituíram, desde o início, o 'calcanhar de Aquiles' da operação, e uma constante preocupação para Alpoim Calvão". Mas esta consciência, que a operação validaria, não fez vacilar o chefe fuzileiro. E tanto ele como o general Spínola deram ordem de prisão e fizeram ameaças directas aos que ousaram exprimir dúvidas sobre a exequibilidade da operação.

Outro aspecto singular da operação é que, já em Novembro e a poucos dias do início da acção, "há passos decisivos que não foram ainda dados" (página 86). Spínola, tendo pareceres negativos dos ministros da Defesa, Sá Viana Rebelo, e do Ultramar, Silva Cunha - o chefe da diplomacia, Rui Patrício, desconhecia o assunto -, "decide jogar o tudo por tudo e vai até ao limite", escrevendo ao presidente do Conselho uma carta que manda entregar por "um enviado especial" - o próprio Alpoim Calvão, recebido por Marcello Caetano a 16 de Novembro.

Luís Marinho revela também o diário pessoal do comandante da Defesa Marítima da Guiné (CDMG), comodoro Luciano Bastos, em que este revela "a fúria" de Spínola com os resultados da operação. Tendo-o chamado ao seu gabinete, o brigadeiro disse-lhe, "por vezes com grande excitação, que o Calvão, embora tivesse planeado tudo muito bem e que, sem ele, a operação não se realizaria, havia falhado redondamente no campo da execução". Spínola "acrescentou ainda que o Calvão actuara como para realizar um golpe de mão, sem ter percebido que o fundamental ali era o golpe de Estado", lê-se no diário do comodoro.

Guiné 63/74 - P824: Ainda sobre os fuzilamentos (Jorge Cabral)

Texto do Jorge Cabral (ex-Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71).

Caro amigo, companheiro e camarada
Muito atarefado embora, tenho procurado seguir todas as intervenções produzidas sobre as questões dos Fuzilamentos.

Mantenho a opinião que sempre tive sobre a Guerra Colonial, uma guerra absurda, injusta e cruel. Já assim pensava em Mafra, quando conheci o camarada Tunes (1), por intermédio do amigo comum Resende.

Como já escrevi, as nossas experiências foram diferentes. Cada um de nós conheceu uma pequena parte da Guiné, e o contacto com tropas e populações africanas, que para uns foi diminuto ou inexistente, constituiu para outros o dia a dia, comendo juntos, dormindo lado a lado, partilhando medos comuns, e chorando os mesmos mortos. Será pois natural, que a sensibilidade com que abordamos o problema, reflicta essa realidade. Obviamente que uma coisa é analisar em abstracto, outra é sentir, recordando Homens concretos, com nome, família e sonhos, executados sumariamente.

Que o Exército Colonial cometeu crimes é verdade, o que não fez (nem faz) de nós todos violadores, torturadores ou massacradores. Inerentes ao colonialismo foram a violência, a opressão e a injustiça. De quem o combateu era legítimo esperar outro tipo de comportamentos mais idóneos à construção de uma sociedade mais Justa, Humana e Solidária.

Podemos evidentemente explicar e até procurar entender, mas tal não pode implicar a concordância ou aceitação, justificando porque sempre foi assim e transformando a vingança em regra. O crime não se combate com o crime, e o direito a ser julgado não é um luxo burgês, nem o "olho por olho, dente por dente" bíblico poderá ser tolerado. Trata-se de uma conquista da Humanidade, que deve ser vigente em todo o Mundo. Não existiram bons ou maus Gulagues, nem existem bons ou maus Guantanamos...

Informou o nosso historiador [Leopoldo Amado] que foram mortos cerca de 11.000 homens, e que em 1976 ainda se fuzilavam colaboradores dos Portugueses. Tal número é impressionante, e certamente ninguém de bom senso, admitirá que todos tenham sido criminosos de guerra, torturadores ou pides. Tratou-se de uma matança injustificada e absurda, cujas sequelas perduram até hoje, cá e lá. Também alguns dos meus soldados pereceram e nunca nenhum, durante os vinte e sete meses que os comandei, cometeu qualquer crime de guerra. Eram homens cansados, alguns com mais de quarenta anos, que faziam a guerra por necessidade e rotina, uma tropa fandanga sem heróis.

Quanto aos Comandos Africanos, conheci-os como Pessoas, em Fá Madinga, no período de instrução da Companhia. Nunca os acompanhei em combate e os temas das nossas conversas raramente incidiam sobre a guerra. Ensinavam-me costumes e tradições da Guiné, e eu retribuía, descrevendo a beleza do meu País.

Acredito que tenham cometido crimes de guerra como aliás todos os Africanos que~, aliados aos Portugueses, lutaram nas Campanhas de Pacificação. Falar no meu tempo, aos Homens Grandes Mandingas, no nome de Abdul Injaí, impunha ainda o respeito e o medo, mas também a admiração. Toda a história da Guiné do Séc. XIX e inícios do Séc. XX, está prenhe de violência, massacres, razias, saques.

Claro que não conhecíamos a História, tendo-nos sido inculcada a ficção de um País idílico, de pretinhos obedientes e portuguesíssimos, posto a ferro e fogo por traidores comunistas. Nós não sabíamos mas certamente a elite conselheira do Spínola havia estudado o passado e aprendido a manobrar as profundas inimizades étnicas. Sabiam eles, já então, também, qual seria o destino da Guerra, e o que iria acontecer à tropa africana.

Perdoa-me, Luís, a extensão do desabafo, mas qualificar de ingénua a minha intransigente posição sobre a dignidade da Pessoa Humana, em todas as circunstâncias, custa-me, porque há muitos anos ensino que nenhum Homem é monstro, que os monstros se abatem, mas que os Homens se julgam.

Um grande, grande Abraço
Jorge

P.S. – Se Amílcar Cabral fosse vivo, teria permitido o que aconteceu?
___________

Notas de L.G.

(1) Vd. post de 17 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXVIII: Ainda sobre os fuzilados... ou comentário ao texto do Jorge Cabral (João Tunes)

(2) Vd. post de 16 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXIV: Fala-se em 11 mil fuzilados (Leopoldo Amado, historiador)

Guiné 63/74 - P823: Mais ex-combatentes fuzilados a seguir à independência (João Parreira)

Texto do João S. Parreira (ex-Furriel Miliciano Comando, Brá, 1964/66), acrescentando mais nomes à lista de ex-militares, de origem guineense, que combateram nas NT e foram executados a seguir à independência, pelo PAIGC ou em nome do PAIGC (1). Não sei qual é a fonte usada pelo João (associação de comandos? ex-camaradas dos comandos? familiares?), mas esta é uma missão do nosso blogue, uma missão nobre, útil e necessária (mesmo que dolorosa) que temos de cumprir.

Mais: é um dever dos tugas que conhecerem, treinaram e foram camaradas de armas destes homens, uma obrigação de Portugal e da Guiné-Bissau, dois países que se dizem irmãos e onde ainda existe uma enorme complexo de culpa e um sentimento de vergonha que nos impede falar publicamente, olhos nos olhos, da guerra colonial e pós-colonial, das suas sequelas e dos seus fantasmas... Em Portugal e na Guiné-Bissau, os armários da nossa memória colectiva estão cheios de cadáveres, reais ou fantasmagóricos: temos que os abrir, por mor da verdade histórica e da nossa saúde mental... (LG).

Caro Luís Graça,

Sobre o que tem vindo a lume, posso garantir que durante o tempo que permaneci na Guiné, 1964/66, nunca assisti ou ouvi falar de assassinatos de guineenses pelos comandos africanos que integraram os Grupos existentes na altura.

Estávamos em estado de guerra, onde ninguém pediu para ir, e a intenção, julgo eu, era matar para não morrer. Assim, em ambas as partes, por vezes era inevitável não haver mortos ou feridos em combate. Felizes os camaradas que nunca estiveram metidos em combates, e por isso desconhecem quanto traumatizante é essa situação.

Como todos nós que por lá andámos sabemos, os Grupos de guerrilheiros, a que muitos guineenses se juntaram voluntariamente, estavam nìtidamente em vantagem pois conheciam bem o terreno, tinham grande resistência e mobilidade, sobreviviam com pouco, estavam bem armados e conheciam bem as tácticas de guerrilhas, aprendida em vários países estrangeiros, para além de terem a colaboração natural ou forçada das populações. Em caso de necessidade tinham a vantagem de terem santuário em países vizinhos.

Se os guineenses que mais tarde fizeram parte das companhias de comandos não tivessem optado por se alistarem, e como tal sido treinados pelo nosso Exército, seriam por certo forçados a lutar ao lado dos guerrilheiros.

Agora visto por outro prisma. Se estes africanos eram assim tão sanguinários e assassinos como dizem, pois desconheço, pobres de nós, militares portugueses, se os mesmo se tivessem aliado aos seus irmãos de côr. Ou pior ainda, se mais tarde desertassem e se juntassem à causa da guerrilha.

Veio a verificar-se que fizeram uma opção errada, pois não seriam executados e hoje seriam, talvez, heróis nacionais, já que com o seu treino e perícia, teriam por certo no seu palmarés a morte de manga de portugueses, e quem sabe se algum de nós.

Outros fuzilamentos após a Independência da Guiné:

1º. Sargento Enfermeiro João Baptista (Depósito de Adidos)
2º. Sarg Inf Agnaldo Quinde Baldé (CCS/QG)
Soldado Infantaria Dicó Baldé (CCS/QG)
Sold Inf Miguel Francisco Pires (CCS/QG)
Sold Artilharia Henrique Sello Jaló (GAC 7)
Sold Art Jaló Seidi (GAC 7)
Sold Art Bacar Seidi (GAC 7)
Sold Inf Sello Jaló (GAC 7)
Sold Inf Demba Ganó (CCAÇ 11)
Sold Inf Sidi Jaló (CCAÇ 12)(2)
Sold Inf Aliu Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Baba Gallé Jaló (CCAÇ 18)
Sold Inf Bacar Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Mori Baldé (CCAÇ 18)
Sold Inf Braima Jau (CCAÇ 18)
Sold Inf Amadu Baldé (CCAÇ 21)(3)
Sold Condutor Napoleão Jaló (Marinha)
Cmdt Milícia Bacar Alansó Cassamá (Empada)
Cmdt Mil Cabá Santiago (Bissorã)
Cmdt Mil Dantil Mendes (Jolmete)
Cmdt Mil Mamadu Seidi (Mansabá)

Um abraço.
João Parreira
___________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 23 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira)

(2) Sold 82116369 Sidi Jaló (Apontador de Dilagrama), futa-fula, pertencente à 1ª secção do 2º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinbca, 1969/71). Era Comandante deste Gr Comb o Alf Mil de Inf 13002168 António Manuel Carlão. A ele também pertenciam os nossos queridos amigos e camaradas, os furriéis milicianos António Levezinho e Humberto Simões.

Vd. post de 21 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXV: Composição da CCAÇ 12, por Grupo de Combate, incluindo os soldados africanos (posto, número, nome, função e etnia)

(3) Poderá tratar-se do Sold 82105669 Amadu Baldé, futa-fula, que pertenceu à 3ª secção do 1º Grupo de Combate da CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71), grupo esse que era comandado pelo Alf Mil Op Esp Francisco Magalhães Moreira. O comandante da secção era o Fur Mil António Manuel Martins Branquinho, natural de (e residente em) Évora. Houve sodlados e graduados da CCAÇ 12 que integraram, em 1973, a nova CCAÇ 21. O Amadu Baldé poderá ter sido um deles: é apenas uma hipótese.

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