sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Guiné 63/74 - P1333: A grande emoção de recordar Cufeu e Guidaje (Albano Costa, CCAÇ 4150)

Guiné- Bissau > Região do Cacheu > Guidaje > Novembro de 2000 > "Foto tirada no Cufeu, quando parámos para o almoço... Hoje está um pouco diferente do que era no meu tempo, em 73/74" (Albano Costa, ex-1º cabo da CCAÇ 4150, Guidaje, 1973/74).

Foto: © Albano Costa (2006). Direitos reservados.


Texto do Albano Costa, recebido em 15 de Novembro de 2006

Comentário de L.G.:
O Albano habituou-se à grafia Guidage, e não consegue escrever Guidaje... Vou respeitar a sua vontade, além de lhe agradecer este texto singelo e solidário, de grande autenticidade humana... Sei que lhe fez muito bem voltar à Guiné, em Novembro de 2000, ainda para mais na companhia do seu filho Hugo, que fez uma excelente - e já muito badalada aqui, no blogue - reportagem da viagem (3 CD, 6 horas, belas imagens, óptima música em fundo, enfim, um trabalho profissional)...

Caro Luís Graça:

Estive uns dias ausente da Net, mas já regressei e tenho estado muito atento ao que se tem escrito sobre o que se passou em Guidage no ano de 1973 (Maio e Junho). É um assunto que me interessa saber e muito, pena que só agora comece a ser contado o que se passou.

A minha companhia não estava lá nessa altura, só foi destacada para Guidage mais tarde. Quando lá chegámos, não sabíamos exactamente o que se tinha passado. Naquela altura era tudo muito fechado, a maioria dos militares que para lá foram na altura do conflito já lá não estavam, vieram embora, e os relatos que agora leio confirmam-no.

Quando lá chegámos só lá estava a CCAÇ 19, companhia, essa, africana. Só os especialistas e graduados eram brancos. Procurava-se não comentar muito para não destabelizar as tropas. Os militares brancos que pertenciam à CCAÇ 19 estavam psicologicamente traumatizados e procuravam não falar sobre o que tinha acontecido. Limitavam-se a dizer que não desejavam a ninguém o que tinham passado. Por seu turno, os nossos quadros superiores procuravam ocultar o sucedido para manter as tropas psicologicamente activas.

Quem conhece Guidage - e eu conheço muito bem, estive lá oito meses -, era um destacamento completamente isolado, ficava mesmo na fronteira com o Senegal. Não se passava nada a não ser receio, não havia gente nova, não era sítio de passagem, ninguém lá ía, eramos sempre os mesmo, enfim, não foi fácil. O isolamento era total, só faziamos colunas de 15 em 15 dias, fora disso estavamos ali sozinhos.

Quando saíamos de Guidage era só para fazer reconhecimento no mato para ver se o IN estaria a organizar algum ataque ou para vir a Binta em coluna sempre com bastantes militares.

Ninguém se atrevia naquela altura a fazer o percurso de Guidage a Binta sem ser em coluna, e aí tinhamos que passar pelo Cufeu. Era sempre com muito cuidado, passávamos sempre pelo cemitério. As NT perderam lá meia dúzia de viaturas e também sabíamos que tinham morrido colegas nossos... Sempre com muito cuidado falava-se que ali tinham havido grandes confrontos com o IN. Toda a gente queria evitar passar lá, mas ao mesmo tempo tínhamos que fazer as colunas.

O Cuféu tornou-se para todos os militares do meu tempo um lugar de muito respeito a partir daquela data. Quando lá se passava dava sempre um calafrio pela nossa espinha dorsal. Só quem lá esteve é que o sente, e eu, ao ler estes textos, deu-me para ver que todos os ex-militares que estiveram nessa altura no conflito, não conseguem esquecer. E não é para menos, todo aquele percurso faz medo, e esse medo ainda hoje os atormenta como lemos nas suas estórias e eu sei que é verdade, mas peço-lhes: Contem tudo o que vos vai na alma, que vão sentir-se melhor a falar nessas coisas...

Eu sei que há colegas que ainda hoje não gostam de falar nisso, vivem atormentados, por isso fiquei muito contente que o A. Mendes e o Vítor Tavares tenham desabafado um pouco da sua vivência. Não parem, passem tudo cá para fora, eu também sofri, mas de maneira diferente, sempre com o pressentimento de que a qualqer momento o IN poderia voltar à carga. E, como já disse, só podiamos ser ajudados por Bigene ou Binta, não tínhamos mais ninguém próximo.

Quando lá fui em 2000, ao passar no Cuféu tudo veio ao meu pensamento, tive momentos de muita tristeza, quem já viu o meu vídeo da viagem dá para notar: é nessa passagem, quando atarcesso Cufeu e Ujeque até chegar a Guidage. Aí, para mim tudo começou a ser diferente, a Guiné passou a ter outra beleza.

Todos os ex-militares que lá estiveram nessa altura, muito, muito difícil, sofreram mesmo muito. Eu quase fiquei paralizado ao ler os vosso testemunhos, confesso que as lágrimas correram pela cara abaixo, mas agora estou a sentir-me muito bem a ler estas estórias, que a história nunca irá contar, por isso caros camaradas desabafem, que vos faz bem.

A minha companhia andou por lá, durante meses, sempre com o mesmo pressentimento que a qualquer momento poderíamos passar por tudo o que vocês passaram. Psicologicamente foi muito complicado, nós estavamos isolados, não tínhamos aviação, estavamos ali à nossa sorte. É que ninguém lá ia a não sermos nós, que tínhamos que vir a Binta sempre que era preciso, não íamos porque queriamos, mas sim quando havia necessidade e isso foi durante todo o tempo em que lá estivemos.

Seria muito bom que estes nossos colegas tivessem possibilidades de lá voltar agora, iriam sentir-se muito mais aliviados, e todo o sofrimento que ainda hoje carregam, estou convencido que se esvaziava.

Quanto ao cemitério que foi o Cufeu e Guidage, eu sempre ouvi falar que morreu lá muito gente, mas ao certo nunca soube quantos. E não sei se alguém sabe ao certo, visto que o conflito se arrastou por vários dias, e não foi sempre com os mesmos combatentes. Enquanto lá estive tivemos apenas uma emboscada no Cufeu, e umas minas na picada.

Quanto ao irem recuperar os nossos mortos a Guidage, ficarei muito satisfeito, mas espero que o lema Ninguém fica para trás, seja para todos os que lá ficaram, afinal são todos portugueses.

Um abraço,
Albano Costa

Guiné 63/74 - P1332: Antologia (55): Bambadinca, a guerra aqui tão a sério, tão cruel - Embaixador António Pinto da França (Luís Graça)

Guiné-Bissau > Região de Bafatá> Bambadinca > 1997 > Antigas instalações dos oficiais (à direita) e dos sargentos (à esquerda). A messe de sargentos ao fundo, do lado esquerdo. Eram excelentes instalações hoteleiras, para a época e por comparações com outros outros aquartelamentos. Criadas de raíz, faziam inveja aos desgraçados dos nossos camaradas das undiades de quadrícula do Sector L1 que viviam em bunkers (Xime, Mansambo, Xitole...). Com a independência, foram ocupadas pelas Forças Armadas da Rpública da Guiné-Bissau. Esta foto de 1997 documenta a sua degradação. Bambadinca, por outro lado, foi palco de alguns sangrentos e cruéis desvarios pós-revolucionários: julgamentos em tribunais populares e execuções sumárias dos colaboracionistas...

Foto: © Humberto Reis (2005) (com a colaboração do Braima Samá, professor primário de Bambadinca). Direitos reservados.


Bambadinca, a guerra aqui tão a sério, tão cruel

Excertos do livro Em tempos de Inocência – Um Diário da Guiné-Bissau, de António Pinto da França. Lisboa: Prefácio, 2005. 102-103. Já aqui foi feita a sua recensão pelo nosso camarada Beja Santos (1)

Bissau, 8 a 15 de Abril de 1978

(…) De Bafatá à cidadezinha de Bambadinca viajámos em autocarros. À entrada de cada aldeia aguardavam-nos grupos de homens com cartazes de boas vindas ao Ministro [dos Transportes].

Ao entrar na parada abandonada do quartel de Bambadinca, daquilo que foi um dos principais centros das Forças Armadas Portuguesas na Guiné durante a guerra, deparámos com uma multidão que nos acolheu com vivas, se acotovelou, para com a funda cortesia africana apertar a mão do Ministro.

(…) O discurso, em crioulo, do Governador de Bafatá, influente figura do PAIGC, era traduzida para fula por um intérprete (…) [que] cantava, na saborosa língua fula, que a guerra acabou, os portugueses são e foram sempre irmãos, que estão a ajudar muito a Guiné-Bssau (…).

No final, muitas vivas a Portugal, ao Presidente Eanes, ao Dr. Mário Soares, à amizade de Portugal e da Guiné BIsssau.

E não é milagre passar-se tudo isto naquela povoação tão recentemente castigada, quando ainda só quatro anos decorreram desde o fim da guerra, aqui tão a sério, tão cruel?” (França, 2006. 102-103) (2).

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 25 Setembro 2006 > Guiné 63/74 - P1113: Dez razões para ler 'Em tempos de inocência', diário do Embaixador A. Pinto da França (Beja Santos)

(...) "De 1977 a 1979, António Pinto da França foi embaixador de Portugal acreditado na Guiné-Bissau. Ele regista em forma de diário estes primeiros anos da independência, descrevendo com simplicidade e por vezes uma atmosfera quase mágica a vida da Embaixada, os membros do corpo diplomático, as compras, os passeios, os encontros, os ambientes múltiplos, alguns momentos históricos. Há pitoresco, desabafo íntimo, melancolia, registo meticuloso daquilo que não mudou no tempo africano" (...)

(2) Na série Antologia, divulgam-se textos - incluindo, excertos, partes de texto - de autores que, em princípio, não fazem parte da nossa tertúlia, mas que escreveram coisas, publicadas algures (sob a forma de livro ou de artigo em revista ou jornal), que nos interessam. Vd. o último post da série > 21 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1299: Antologia (54): Transporte de tropas, por via marítima e aérea (CD25A / UC)

Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, exvagomestre da CCAÇ 2402)

1. Mensagem do João Bonifácio, residente actualmente no Canadá, ex-camarada do Raul Albino, na CCAÇ 2402 (1968/70), e candidato a membro da nossa tertúlia:

Embora não tenha o prazer de o conhecer pessoalmente, estou muito feliz por toda esta informação, e que me foi facilitada por um amigo, que comigo serviu na Guiné em 1968/70 - Có, Mansabá, Olossato - CCAÇ 2402 (BCAÇ 2851) (1).

O ex-Alf Mil Raul Albino fez o favor de me enviar este site, e eu, quando posso, procuro rever toda a Guiné, através das exposições de todos os nossos ex- camaradas, a todos os níveis.

Depois de finda a minha comissão, como Furriel Miliciano do SAM (vulgo,vagomestre), e após um pequeno período de descanso e adaptação, regressei a Lisboa com a minha esposa e filho, onde reatámos as nossas vidas.

Não foi longa a minha estadia em Portugal, uma vez que a desilusão que sofri ao regressar... Assim, ao ver que o futuro seria complicado para os filhos, decidi pedir autorização para sair de Portugal, com destino ao Canadá.

Se na altura eu me sentia ofendido com o meu próprio país, bem pode imaginar quando na Amadora me pediram 1500 escudos em selos, para selar a minha desvinculação a Portugal. Saí de Portugal a 15 de Fevereiro de 1974, mas já sabia que alguma coisa se iria em breve passar. Mas era tarde, eu havia decidido que, depois de 37 meses no exército e 21 meses e 4 dias na Guiné, devia merecer mais um pouco de compreensão.

Mas o que se espera? Nós vemos e lemos o que todos os dias se passa. Somos os únicos que compreendem esta situação, e somos os únicos que tentamos manter esta chama de uma guerra onde estivemos, mas que acho nunca conpreenderemos.

Para si, Luís, um grande abraço e obrigado. Neste momento estou ocupado com o segundo livro da CCAÇ 2402, mas vou tentar entrar neste blogue, depois da sua aprovação.

João Gomes Bonifácio
Ex-Fur Mil do SAM
Guiné-Bissau 1968/70


2. Comentário de L.G.:

Meu caro João /My dear John:

1. Fico muito sensibilizado com a tua mensagem… Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta... E eu sou o primeiro a ser solidário contigo, eu que decidi ficar na terra que me viu nascer... Sei que isso não te vai servir de consolo, mas não imaginas o rol de reclamações que recebo neste pequeno canto da blogosfera!... Enfim, o importante é que hoje estejas bem, nesse grande país que eu admiro… Mas as tuas raízes, a tua identidade, o teu passado estão aqui, estão connosco… Nenhum de nós terá futuro, se não souber preservar e até alimentar o passado. A Guiné marcou-nos a todos, com o seu ferrete... Mas foi em português, na língua de Camões, que exprimimos os sentimentos mais nobres ou dissémos os palavrões mais horríveis. João: não adianta. Não se escolhe a Pátria, não se escolhem os pais nem os irmãos, não se escolhe a língua materna... Mas dessa ao menos eu tenho (e tu tens, nós temos) orgulho... É em português, e em bom português, que comunicamos na blogosfera, neste blogue, na nossa tertúlia, nesta caserna virtual onde todos cabemos, de Lisboa a Bissau, de Viana do Castelo a Toronto, de Coimbra a Luanda...

2. A partir de hoje, tu és, de pleno direito, um camarada da nossa tertúlia… O tratamento por tu é natural entre nós… Com o tempo, habituas-te… Entra e acomoda-te: estás em casa… Os camaradas da Guiné não conhecem fronteiras, físicas, simbólicas ou culturais... Vais ver que te faz bem esta blogo…terapia.

Um abraço, um feliz Natal para ti e a tua família…

PS - O João respondeu-me logo na volta do correio:
Obrigado, Luís. Retribuo os votos de feliz Natal e Ano Novo com muita saúde para ti e todos os teus. O uso de João é o indicado. O John é só aqui por razões óbvias. Desculpa a falta de sinais na ortografia, mas os ingleses são assim.
Um grande abraço.
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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:

17 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1082: Notícias da CCAÇ 2402 e do BCAÇ 2851 (Raul Albino)

23 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1105: Como escrever um livro de memórias de guerra 'à la carte' (Raul Albino, CCAÇ 2402)

4 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1246: O meu livro Memórias de Campanha da CCAÇ 2402 (Raul Albino)

15 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1282: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (1): duas baixas de vulto, Beja Santos e Medeiros Ferreira

Guiné 63/74 - P1330: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (4): Bissau-Bolama-Como, dois dias de viagem em LDG



Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > 1964 > Croquis da Op Tridente (de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964) .... "A designada Ilha do Como é, na realidade, constituída por 3 ilhas: Caiar, Como e Catunco mas que formam na prática um todo, já que a separação entre elas é feita por canais relativamente estreitos e apenas na maré-cheia essa separação é notória" (...). O Mário Dias desenhou este croquis com base na carta da província da Guiné (1961).


Infogravura: © Mário Dias (2005). Direitos reservados.


O Palmeirim de Catió é o Joaquim Luís Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Os Palmeirins (Catió, 1964/66). Publicamos hoje a quarte parte das suas crónicas (1),em que se relata a viagem da sua unidade, colocada na Ilha do Como, em Outubro de 1964, sete meses despois da Op Tridente, em que participou o nosso camarada Mário Dias, cujo testemunho, inédito, tivemos o privilégio de inserir no nosso blogue (2).


Marcha para a Ilha do Como

Em dia certo de Outubro [de 1964], a Companhia 728 fez as malas e teve de avançar para o sul da Guiné.

A companhia 726 já tinha seguido para Guileje, de má fama (3). Seria lá que tudo iria ser jogado. O nervosismo inicial, de quando se conheceu o destino, foi abrandando e o desejo geral era de que, quanto mais depressa, melhor.

A secção de espólio, comandada pelo alferes Barros dos Santos, com o 1º sargento Santos e o sargento Gaspar, já tinha feito a recepção do material, no próprio quartel, na ilha do Como. As suas impressões não eram tão más como isso.

A companhia que íamos render (4) já tivera o grande trabalho de construir, de raiz, as instalações mínimas que havia e, segundo disseram, limitava-se a marcar presença no terreno. Nunca fora atacada, depois de terminar a grande operação que a deixou lá [, a Op Tridente] (2).

À parte as privações derivadas do isolamento total e a dependência do abastecimento de água potável e mantimentos, feito a partir de Catió, a maior dificuldade estava em manter o pessoal activo e disciplinado, enquanto o tempo passava lentamente.

Por isso, o moral que reinava era positivo e, até, dominado por uma certa curiosidade pelo desconhecido.

De novo, o Geba foi a nossa rampa de lançamento. Toda a Companhia foi transportada em Unimogues até ao cais buliçoso de Bissau.

Uma grande barcaça de aço acinzentado, da marinha de guerra, com uma secção de fuzileiros, parecia uma grande banheira, de linhas nada aquático-dinâmicas, ali estava espalmada sobre as águas baças do gigantesco rio tropical.

Apenas uma pequena torre de comando, com duas metralhadoras pesadas, colocadas em sítio dominante e um vasto terreiro, de chapa singela, totalmente vago, assente sobre as águas.

Depressa engoliu toda a Companhia, algum material de apoio e ainda sobrou espaço para o grupo de gente nativa, de homens, mulheres e crianças interessados na boleia até Catió e, mais, o cão vadio, que ia ser a mascote da companhia com o posto de sete vinte e oito.

O pessoal, já armado de G-3 individual, mais 3 bazucas e 3 morteiros, tinha o encargo da autodefesa, durante a viagem. Esta ia ser feita em dois troços, sempre em águas de rio.
O primeiro, no estuário, quase oceânico, do Geba, até Bolama, a 2ª cidade da Guiné e sede das forças de Marinha. O segundo, até Catió, pelo rio Corubal (5). Dois dias. No 2º, havia que contar com as marés do Corubal (4) que lhe triplicavam a gorda superfície caudalosa..

A zona atravessada era pacífica, segundo se dizia. Por isso, um certo espírito de turismo dominou toda a expedição…

O deslumbramento do arvoredo farto que pendia sobre ambas as margens, o esvoaçar constante dos gigantescos jagudis, multicolores, de bico rubicundo, o bando de gaivotas a rodopiar à nossa volta para se deleitarem com os restos, uma granada de mão ofensiva que, de vez em quando, se desprendia de mão anónima, sobre o seio das águas turvas do rio, logo tapadas por uma manta prateada de peixes atingidos pelo estampido mortal, para gáudio das gaivotas persistentes; um tiro, furtivo, de algum soldado mais atrevido, sobre a carapaça do bando de crocodilos pachorrentos, que emergiam das águas salobras, tudo ia tornando aquela viagem numa aventura saborosa, bem ao jeito da nossa idade juvenil.

A bravura castrense do nosso, agora, capitão já dava sinais de amolecimento. Já se tinha abeirado da ralé, surpreendente, ajudando à festa, com um bem timbrado desfiar de fados de Coimbra e do hino da sua terra natal
- Oh Castelo Branco, Castelo Branco…

O vigoroso Sasso, com a voz rouca, crestada pelo cigarro, em fornalha permanente, acompanhava-se à viola, nos fados alfacinhas; as desgarradas brejeiras do furriel Brás, embrulhadas, também, na sua viola inseparável; o corpulento sargento Gaspar exibia, pela centésima vez, as suas habilidades circenses, em mais um flic-flac; o espírito, até aí, oprimido dos soldados começava a despontar, natural e as distâncias artificiais da parada do quartel dissipavam-se, lentamente, sem detrimento do entranhado respeito pelos superiores.

Sentia-se que um espírito de grande família, amiga, estava a despertar, decidida, sobretudo, a defender a vida de todos e de cada um dos seus elementos, onde quer que fosse, nos próximos dois anos.

Entretanto, o cheirinho da bifalhada que vinha da cozinha dos marujos, das batadas fritas e ovos estrelados, obrigava-nos a recorrer à ração de combate, de 1ª categoria, com que foramos prendados. A cerveja fazia o resto.

Pela tardinha, a LDM, escoltada à distância pela temida corveta da marinha, aportava à calma cidade de Bolama. Uma recepção festiva dos camaradas marinheiros e um jantar caseiro melhorado deram-nos uma noite inesquecível nas casernas prontamente partilhadas.

Um mergulho na piscina, no dia seguinte, deu-nos alento para mais uma etapa, a última daquela façanha que, em vão, se afigurara temível. Agora o rio Corubal (5) ficava mais estreito e sinuoso. A zona que atravessava era território dominado pelos turras. Ficavam por ali perto, dentro das matas impenetráveis, grandes acampamentos, até então, inexpugnáveis. Fula Kunda Ur, Bedanda, Cantanhês, Dar Es Salam… Eram as casas mansas dos turras ( aquartelamentos simples) donde partiam com as operações estudadas, contra nós, logo abandonadas, assim que sentiam uma pressão insustentável. Por isso, todo o cuidado era pouco. Uma emboscada, numa curva do rio, na zona mais estreita, era bem possível.

Daí até à Ilha do Como não demorou muito, aproveitando-se a maré-cheia. Deu para descarregar tudo e seguir a pé até ao aquartelamento, a partir do cais tosco construído pela nossa tropa.

Estávamos na época seca. Não houve problema em percorrer os 800 metros de terra batida, assente em toros de palmeira estendidos, transversalmente, de modo a dar para os rodados de um unimogue pequeno. O terreno era baixo e todo ele roubado à bolanha.

Subindo para o interior da ilha fomos dar logo com o quartel que iria ser o nosso castelo, nos próximos meses. Era do tamanho da cerca de dois campos de futebol, em forma de quadrilátero. As paredes eram feitas de troncos de palmeira cravados na terra e justapostos, com a altura de uns 2 metros e picos.

À sua volta, em reforço, uma barreira em bidões de chapa, cheios de terra, encastelados. Na paliçada de toros de palmeira, justapostos ao alto, havia seteiras para se divisar ao longe e fazer fogo, em caso de ataque.

Ao meio de cada lado, perpendicular à estrada, duas portas de armas largas, para passagem de viaturas. Por uma entrada oblíqua, para evitar o devassamento interior.

Um fortim reforçado e sobreelevado, em cada um dos cantos e ao meio de cada um dos lados. Ali permaneciam as sentinelas, dia e noite, cumprindo a vigilância, de uma importância e responsabilidade total…

Dois grandes embondeiros, ao centro do quartel, davam sombra e abrigo sobre uma parte substancial de toda a parada. Ali debaixo, ficava a cozinha tosca, a mesa corrida dos oficiais e sargentos, a enfermaria, a casa das transmissões e a secretaria do 1º sargento. Em frente, era o bar feito das tábuas dos barris vazios. As casernas dos três pelotões estavam distribuidas pelo espaço interior, de modo a evitar a concentração de pessoas.

Em lugares estratégicos, ficavam as armas pesadas. Morteiros, metralhadoras. Um forte gerador de corrente funcionava a tempo inteiro, dia e noite, para manter, sobretudo, acesos todos os altos postes avançados de iluminação exterior ao quartel, uns 40 ou 50 metros e todos os serviços de transmissões.

A palmeira, o bidão e a tábua dos barris eram a matéria prima vital. O estado de conservação era mau e desconfortável. Antes da época das chuvas, todos os melhoramentos tinham de ser realizados.

A companhia que saía, esvaída, já não tinha élan vital. Estava acomodada àquele desconforto total e ninguém conseguiria exigir à tropa cansada qualquer esforço que pudesse significar permanência. Se não chegássemos naquela altura, eles teriam debandado…pela floresta, com o desespero.

O aspecto geral era verdadeiramente dantesco. Na tropa, já não se reconhecia a cor original dos farrapos que ainda restavam a tapar o corpo. Cabelos e barbas compridas, troncos nus, calções esfarrapados, ninguém se atrevia a identificar as tão cultuadas classes da tropa originária: soldados, sargentos e oficiais. Uma centena e meia de homens e ano e meio de encarceramento, dentro do arame farpado.

À distância de uns 500 metros, descampados, começava a mata cerrada que ia dar ao território dos turras, a parte restante (melhor, a totalidade) da ilha... Os outros lados eram campos de arroz abandonados, orlados por braços de afluentes do Corubal (5).

Ao lado nascente, a companhia 556 tinha conseguido implantar uma pista tosca para a festa da avioneta, do correio e dos mantimentos frescos, durante a época seca. A época da chuva encarregava-se de a desfazer. Foi para ela que os olhos se voltaram quando nos vimos sózinhos. Havia que capinar todo o terreno ainda coberto de ervas rasteiras para que a Dornier pudesse visitar-nos, pelo menos de 15 em 15 dias.

Os primeiros dias foram intensos, sob a batuta astuta do capitão, para fixar o plano de vida e definir tarefas. A distribuição dos pelotões no espaço do quartel, ficou a mesma que a companhia 556 tinha fixado e bem. O critério era o do maior perigo. Dois pelotões do lado da mata, o do Sasso e o meu; do lado do cais, ficou o 3º, do Gonçalves.

Todos os dias a companhia formava e era apresentada, em sentido, ao capitão. Este nem parecia o mesmo durão de Évora… Lia-se-lhe no rosto uma certa preocupação e nervosismo. Criar todas as condições de segurança e amenizar o grande esforço que nos esperava era a grande prioridade. Não falava de ideais, como antes e nunca se lhe ouviu mais uma palavra que fosse a justificar a nossa presença ali. Autodefesa e a melhor subsistência possível eram a únicas razões básicas que se desprendiam da sua boca, nas prédicas de formatura, à mesa ou nos muitos momentos de laser.

Ninguém deveria afastar-se do quartel, muito menos sózinho; o serviço de sentinela, dia e noite, seria o mais exigente, como todos reconheciam. Guerra ao sono dos sentinelas, apesar do café que era distribuido, de tempos a tempos, por todas as guaritas. Dela dependia a segurança de todos, especialmente, durante as noites de cacimbo, banhadas de breu ou de jorros luminosos de luar.

Havia que exigir a maior limpeza e o asseio possíveis; ocupação permanente para os soldados e uma cuidada rotação das tarefas definidas.

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Notas de L.G.


(1) Vd. post de 20 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1297: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (3): Do navio Timor ao Quartel de Santa Luzia

(...) "De Évora, pela madrugada calada de uma noite tórrida de Agosto, saíu o comboio especial, com todo o cortejo militar que perfazia o numeroso batalhão, dado pronto para a luta. Duas das companhias, a 726 e 728, iriam para a Guiné, outra para Angola e , creio, uma CCS, para Moçambique. O sorteio.

"Uma noite de viagem ronceira, desde Évora a Lisboa, cais de Alcântara. Só 130 Km, de linha secundária e sem qualquer prioridade. A longa paragem de Casa Branca ficou na memória: esgotaram as bifanas de porco no pequeno bar da estação, mas não a cerveja… O resto da viagem, até de manhã, correu às mil maravilhas.

"O imponente paquete Timor, amarelado, mais alto e corpulento do que a enorme estação fluvial, ali estava, calmo, à nossa espera, poisado nas águas paradas do Tejo. Várias escadas, longas, ligavam o cais ao bojo barrigudo mas elegante, do paquiderme, de proa arrebitada e pendão festivo, à solta.Não demorou muito e toda a gente estava a bordo, distribuida pelos muitos pisos, docilmente transformados em quartel" (...).

(2) Vd. posts do Mário Dias, sargento comando (Brá, 1963/66):
15 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXII: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): Parte I (Mário Dias)
(...) "Ao princípio da noite de 14 de Janeiro de 1964, a fragata Nuno Tristão deixava para trás o Ilhéu dos Pássaros e, dirigindo-se para a Ponta Oeste da Ilha de Bolama, rumou a Sul. A bordo, instalados como era possível, os elementos que formavam o Grupo de Comandos (20 homens) escutavam atentamente as indicações (poucas) que o alferes Saraiva, comandante do grupo, ia debitando. Ninguém sabia o que nos poderia esperar no Como mas a boa disposição reinava e a confiança nas nossas capacidades era grande.
(...) "Sabíamos apenas que íamos desembarcar na Ilha do Como para a sua reocupação. Nem ao menos nos foi dito por quanto tempo se estenderia esta missão pelo que não levávamos connosco o indispensável para uma longa permanência, como acabou por acontecer (...).
(...) "Era em Cauane, disserem, onde se encontrava a CCAV 488 e o 8º Dest Fuz na tabanca que era o posto mais avançado e próximo do IN e que viria a ser o local de maior resistência à nossa penetração na mata. Era para lá que iríamos. Enquanto na base logística, junto ao mar, se montavam as tendas de campanha que serviriam de posto de primeiros socorros, sala de operações, instalações para o comando e outras, se cavavam abrigos à volta do perímetro defensivo, se instalavam postos de vigia, se abriam as indispensáveis latrinas, iniciámos a marcha para Cauane" (...).
16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXV: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): II Parte (Mário Dias)
(...) "O PAIGC estava a opor grande resistência. Foi necessária a ajuda da aviação e artilharia para que aos poucos se fosse tornando possível a nossa progressão para o interior do Como. Recordo algumas noites em que nos era recomendado não acender fogueiras, nem sequer cigarros, pois os P2V5 vinham (à socapa pois eram da NATO) bombardear a mata. As explosões eram tão fortes que o chão onde estávamos deitados estremecia.Durante o dia actuavam os F86 e T6 bombardeando e metralhando todos os movimentos que detectassem.
17 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXX: Op Tridente (Ilha do Como, 1964): III Parte (Mário Dias)
15 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLI: Falsificação da história: a batalha da Ilha do Como (Mário Dias)
(...) "Com a operação a chegar ao fim previsto, o Comandante das Forças Terrestres, Ten Cor Cavaleiro, saiu com o grupo de comandos e o pelotão de paraquedistas às 23H30 do dia 20 de Março, atravessando a mata de Cauane, Cassaca e Cachil com a finalidade de verificar pessoalmente a capacidade de combate do IN. Passagem e pequena paragem na tabanca de Cauane, troca de informações com o comandante da CCAV 488, dono da casa, e iniciámos a penetração na mata à 1 hora do dia 21, partindo da casa Brandão. Reacção do IN?...nenhuma. Progredimos até Cassaca que foi alcançada às 02H30. Feita uma batida cuidadosa à região, encontraram-se a Norte algumas casas de mato quase destruídas e há muito abandonadas.
(...) "No dia 22 de Março, o grupo de comandos regressou a Bissau, aproveitando a boleia da Dornier e alguns hélis que em diversas vagas nos transportaram. O Grupo de Comandos não teve baixas, nem feridos, nem nenhum elemento evacuado por doença, fazendo juz ao nosso lema: Audaces fortuna juvat" (...).
(3) Vd. post de 11 de Junho de
2006 > Guiné 63/74 - P864: Unidades aquarteladas em Guileje até 1973 (Carlos Schwarz / Nuno Rubim)


Lista das unidades que passaram por Guileje:

CCAÇ 495 (Fev 1964/Jan 1965)
CCAÇ 726 (Out 1964/Jul 1966) (contactos: Teco e Nuno Rubim)
CAÇ 1424 (Jan 1966/Dez 1966)
CCAÇ 1477 (Dez 1966/Jul 1967) (contacto: Cap Rino)
CART 1613 (Jun 1967/Mai 1968) (contacto: Cap Neto)
CCAÇ 2316 (Mai 1968/Jun 1969) (contacto: Cap Vasconcelos)
CART 2410 (Jun 1969/Mar 1970) (contacto: Armindo Batata)
CCAÇ 2617 ( Mar 1970/Fev 1971) > Os Magriços (contacto: Abílio)
CCAÇ 3325 (Jan 1971/Dez 1971) (contacto: Parracho)
CCAÇ 3477 (Nov 1971 / Dez 1972) > Os Gringos de Guileje (açorianos) (contacto: Amaro Munhoz Samúdio, 1º cabo enfermeiro)
CCAV 8350 (Dez 1972/Mai 1973) > Os Piratas de Guileje (contacto: José Casimiro Carvalho)
(4) Seria a CCAV 488, que na Op Tridente ocupou em Cauane e pertencia ao BCAV 490 ? Vd. depoimento de Joaquim Ganhão, 1º cano da CCAV 489, que participou, tal como o Mário Dias, na batalha do Como > Post de 17 de Novembro 2005 > Guiné 63/74 - CCXXVI: Antologia (25): Depoimento sobre a batalha da Ilha do Como
(5) Lapso do autor, que queria dizer possivelmente Rio Grande de Buba ou Rio Cumbijã e não Rio Corubal... O que separa a Ilha de Bolama do Continente é o canal de Bolama ou Canal do Porto ... A Ilha do Como, por sua vez, é banhada a sul, pelo Oceano Atlântico, e a leste pelo Rio Cumbijã (Vd. carta geral da província; vd. carta de Catió e carta de Caiar).

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1329: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (22): A memória de elefante do 126, o Queta Baldé

Lisboa > Há alguns anos atrás > O Beja Santos, ladeado pela esposa Cristina e uma amiga, toma chá com dois dos seus antigos homens do Pel Caç Nat 52. Ao longo destes anos todos, ele tem sabido cultivar e manter a sua forte ligação, histórica e afectiva, com as terras e as gentes do Cuor... É frequente encontrar-se com o Queta Baldé, que é segurança numa empresa, na zona centro de Lisboa. Ainda hoje os seus antigos homens procuram o nosso alfero (1), uns mais desinteressadamente, outros menos...


Foto: © Beja Santos (2006). Direitos reservados



Texto recebido em 2 de Novembro de 2006. Continuação da publicação das memórias do Mário Beja Santos, como alferes miliciano e comandante do Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70) (2).



Caro Luís, de surpresa em surpresa, vou desatando os cordões à memória. A vinda do 126 foi de grande importância. E ele ainda tem muito mais coisas para contar. Sinto-me constrangido, pois não tenho sugestões para ilustração. É a minha vez de esperar um milagre da tua parte, com o Rio Geba, o macaréu, o porto de Bambadinca. Não te esqueças que ainda tens do meu álbum de glórias aquelas meninas no "Fanado", na rua principal de Bambadinca. Obrigado pelo teu entusiasmo na colaboração que me tens dado. Momentos há em que eu ponho em dúvida que tudo isto aconteceu, no todo ou na parte. Mas temos muitas responsabilidades com os nossos mortos e feridos, doa a quem doer é melhor que se saiba agora tudo o que se passou, enquanto estamos vivos. Merecemos esta dignidade.

Um abraço do Mário.


Aqui, nesta casual distracção do destino
por Beja Santos


Chegou o momento de algumas confissões íntimas. Dou comigo a trocar datas, nomes, situações, conversas e eventos bélicos. Tomei a decisão de pedir auxílio, para não incorrer na suspeição de charlatanismo ou da aparência de um estado de vanglória associado a uma lembrança prodigiosa de todo o currículo da comissão. Lancei alguns gritos de auxílio e o primeiro que me chegou foi o Queta Baldé, que conheci com o nome 126.


Queta Baldé: ex-comando, exilado no Senegal, segurança em Lisboa

O Queta apareceu-me aqui há uns dias no trabalho pelas 8:30, vindo da sua noite como segurança numa empresa entre o Saldanha e o Marquês de Pombal. Conheci-o a arrastar os pés e não se tornou mais ligeiro com a idade. Às vezes, quando vem conversar aqui comigo lança-me um olhar que parece de um animal doído com os raspanetes do dono.

Ele tem algumas razões para mostrar um semblante marcado pelo sofrimento. Em 71, saiu do Pel Caç Nat 52 e alistou-se na 2ª Companhia de Comandos Africanos. Em 74, com a independência, fugiu de Cuntima para não ser baleado num daqueles delírios de ajuste de contas. Viveu sete anos no Senegal, lá conseguiu um visto, depois adquiriu nacionalidade portuguesa, trouxe filhos do primeiro casamento, voltou a casar e foi viver para Chelas J, numa autêntica alfurja. Mas não resistiu a ser útil a nosso alfero, que lhe pediu para retorcer os subterrâneos da memória.

Sentou-se, cruzou as pernas, ouviu a descrição do meu penar à volta de datas baralhadas, acontecimentos esvaídos, nomes perdidos. Sorriu e perguntou-me:
- Quer que eu comece por lhe dizer quem fazia parte do pelotão?


A composição do Pel Caç Nat 52


Tirou um papel e deu-me o nome de toda a gente. Nos furriéis, ele insistia no nome do Altino, esclareci-o que em Agosto de 68 só lá estavam o Saiegh e o Domingos Ferreira. Depois fomos para os cabos, as nossas listas coincidiam. A seguir, ao enunciar os soldados lembrou-me que o bazuqueiro conhecido por Campino se chamava Adulai Djaló e ficara gravemente ferido numa perna, o mesmo tendo acontecido a Sabidi Camará, Mamadu Camará e Samba Matei.

Eu já tinha esquecido Tomani Sanhá e Dembo Djassi. De repente, olhou-me e perguntou:
- O ferimento do Moli Baldé não lhe diz nada? - Ora o Moli Baldé tinha sido a primeira história quase milagrosa que eu tinha ouvido falar. Em 67, durante uma operação ao Buruntoni, uma bala teria passado de raspão num dos olhos de Moli, ele cegara e passar à disponibilidade. Achei aquela história uma fábula, algo de inacreditável, uma bala que raspa mas não mata. Como o dito Moli viva em Bambadinca e fazia comércio, pedi para mo apresentarem. O inacreditável é que uma bala passara junto de um olho e ele cegara mesmo. Nada de reparações de guerra (a legítima pensão), fora passado à disponibilidade. Ainda o levei à Secretaria do Batalhão, recordo-me que se abriu um processo e veio-se a descobrir... que o seu nome não constava da relação dos feridos no relatório da operação.



O jejum do Ramadão

Depois desta memória, o Queta Baldé continuou:
- Sabe o que é que aconteceu no dia em que chegou a Missirá? De manhã muito cedo, na fonte de Cancumba, quando fomos buscar água para os banhos, havia lá um grupo de gente de Belel, deu uns tiros por cima das nossas cabeças e deixaram na fonte um plástico cheio de papéis a convidar-nos a ir para o mato. Eu quero dizer a nosso alfero que quando me telefonou me lembrei logo de uma coisa que se passou no Ramadão, quando foi discutir com o padre que não podíamos fazer o jejum.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Cuor > Missirá > Pel Caç Nat 52 > O Alf Mil Beja Santos, rodeado das autoridades civis e religiosas de Missirá, em dia de Ramadão. O velho régulo Malã Soncó está à sua esquerda.

Foto: © Beja Santos (2006). Direitos reservados.


E prontamente iluminou-se-me o espírito. Com as idas diárias a Mato de Cão, e às mais desvairadas horas, comecei a notar gente combalida, ausente, mostrando sinais de desmaio iminente. E quando começaram mesmo os desmaios, chamei os cabos e pedi um esclarecimento que prontamente me foi dado: é o jejum do Ramadão.

Reuni o pelotão, pedi aos cabos para traduzirem textualmente em crioulo a mensagem de que não consentia continuar a vida operacional em tais condições e queria saber o que é que os soldados pretendiam fazer. Depois de alguma conversa em semi-privado, o Domingos Silva sentenciou:
- Não há solução, é a lei de Deus. Nosso alfero que vá falar com o padre.

E fui mesmo falar com Lânsana Soncó, padre e meu vizinho (3). Lânsana foi categórico:
- O jejum é para todos .- À beira de uma apoplexia, fui consultar o Corão. Logo descobri que entre as excepções ao jejum estava a guerra. Dada a explicação a Lânsana, este remeteu a decisão final para o régulo Malã Soncó. Li a passagem do Corão e disse-lhe:
- Régulo, tenho pouca tropa, com estas chuvas tenho cada vez mais gente doente, eu próprio me ando a arrastar, são os patrulhamentos a Mato de Cão, a Mato Madeira, as emboscadas nocturnas, até junto ao Gambiel. Não posso andar com gente esfomeada e a cair aos bocados. Se decidir que o jejum é para cumprir rigorosamente, diga-me já pois eu vou-me embora.

O régulo pediu-me para analisar a situação e no dia seguinte confirmou que toda a tropa estava informada que devia comer de manhã, à tarde e à noite.

Queta Baldé voltou a puxar do papel onde trazia as suas lembranças, deu uma gargalhada e perguntou-me com voz tonitruante:


O Alfero Reis, sapador, que parte mantenhas com gente de Madina/Belel (4)


- O nosso alfero lembra-se da primeira vinda do alfero Reis, o sapador, que queria armadilhar tudo à volta de Missirá?

Então, não havia eu de me lembrar? Eu pedira ao 2º Comandante, o Major Bispo, que a equipa de sapadores me ajudasse a armadilhar alguns pontos nevrálgicos em torno de Missirá. Concretamente, junto da fonte, no caminho entre Morocunda e o palmeiral em frente a Missirá e os caminhos que tinham servido de aproximação nas flagelações de 6 e 26 de Setembro. E um dia apareceu-me o Reis em Bambadinca dizendo-me que estava pronto para partir. Veio e avisou-me que tinha trabalho para duas semanas. Mostrei surpresa ao que ele respondeu:

- Ouve, tu não sabes nada do ofício. Primeiro, vou armadilhar tudo à volta do quartel. Mal para os turras, mal para os macacos, mal para quem se aproximar. Segundo, vou pôr cargas potentes em todos os acessos, com excepção das picadas para a fonte e o caminho para Canturé e Finete.

Entendi que o melhor era conversarmos em privado, expliquei-lhe serenamente que tinha dezenas de crianças, que a população civil cultivava os campos à volta, que não estava nos meus objectivos caucionar mais acidentes como o do Abudu Cassamá, a desditosa criança de Finete brutalmente afectada pela explosão de uma granada incendiária. Arrufado, o Reis exigiu armadilhar longe mas sem a minha presença. Aqui o Queta Baldé voltou a rir-se:

- O nosso alfero sabe o que é que o alferes Reis fazia? Levava folhas grandes e pregava nas árvores frases como Aqui esteve o Reis que vos manda cumprimentos, meus grandes paneleiros!.

O Reis colou-se-me à existência. Vai estar em Missirá no grande incêndio de Março e chegará a Bambadinca com roupa emprestada. Não perdeu a mania da perseguição, e de vez em quando vem aqui a toda a hora soprar-me ao ouvido maquinações atribuíveis a estranhíssimas ligações entre a direita e a esquerda...


O Zé Paz, o oficial mais punido da Guiné


A manhã vai alta quando o Queta recorda a história do soldado Fernandes e do alferes que apareceu sozinho em Missirá. Eu gostava de perguntar aqui no blogue se fazem ideia qual o oficial mais punido durante a guerra da Guiné. Não sabem? Pois foi o alferes José Manuel Paz, punido em todos os batalhões de infantaria, artilharia e cavalaria.

É verdade que um dia estava eu no palmeiral com os soldados a cortar madeira para os abrigos, quando me chegou o soldado Mamadu Silá a arfar:
- Meu alfero, chegou um alfero rupeu (europeu), vem sozinho e desarmado e perguntou por si. O que é que eu faço?.

Quem devia fazer alguma coisa era eu. Lá fui com o coração aos saltos e de facto era ele, o Zé Paz. Tínhamo-nos conhecido na infância, ele era filho da Sra Dona Arminda Paz, a chefe da contabilidade da Maternidade Dr. Alfredo da Costa. Sabia que eu estava também na Guiné, vinha punido não sei de que aquartelamento do Sul, assim que o informaram onde eu estava partiu sozinho. Em Finete, ainda o escoltaram até perto de Canturé mas ele enxotou a coluna de milícias, seguiu sozinho, entregue ao seu destino.

Como é que ele era punido? Ao que me disseram, era sacramental oferecer-se para jogar bridge, fosse qual fosse a linha que se formasse, o Zé Paz, logo que negociado o jogo, comentava, por exemplo:
- O meu Major é parvo. Abre com um ouro e tem jogo de um sem trunfo. Deve ser surdo, respondo com duas copas e fecha em três sem trunfo. Se não sabe jogar, ponha-se ali ao canto a fazer paciência com o baralho de cartas.

Inevitavelmente, cairão mais dez dias de prisão disciplinar agravada. Naquele dia, acolhi com imensa satisfação o Zé Paz e levei-o até Finete. Ficou muito pouco tempo em Bambadinca e não voltei a vê-lo durante a guerra. Apareceu-me, em Janeiro de 82, no velório da minha Mãe, e mesmo aqui envolveu-se à zaragata com um antigo oficial pára-quedista, o Jorge da Cunha Fernandes.

Nosso alfero tirou sossego a gente de Madina/Belel


Dou comigo a pensar que estamos a entrar num dos períodos mais duros, com os patrulhamentos a Chicri. No primeiro, morrerão civis, ao cair da noite. No segundo, irá acontecer o Presépio de Chicri, o meu maior sofrimento que não desejo a ninguém. Disse-me o Queta que toda a gente sabia que os de Madina/Belel cambavam o Geba junto de Malandim, e iam até Nhabijão Bulobate e Nhabijão Imbume e Bedinca. Com um ar muito sereno disse-me o Queta:
-Tinham uma canoa enterrada na lama. Trocavam comida e obtinham informações sobre o que se passava em Bambadinca. Nosso alfero tirou-lhes o sossego.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Destacamento do Missirá > Pel Caç Nat 52 > 1972 > Na altura era comandante desta unidade o Alf Mil Joaquim Mexia Alves. Em 1971, alguns militares, como o Queta Baldé ou Mamadu Camará (3), que vinham do tempo do Beja Santos (1968/70), tinham-se alistado nos Comandos Africanos.

Foto: © Joaquim Mexia Alves (2006). Direitos reservados


Mesmo com toda esta dureza que se avizinha, eu tenho que vos contar como o Furriel Casanova cuidou do pequeno Braima Candé e o David Payne Pereira mandou a Bissau Braima Mané. Neste período oiço intensamente música barroca e romântica, com Bach e Telemanne, Grieg, Beethoven e Schumann à cabeça.

E tenho que vos dar as minhas impressões sobre o que representou, depois de ter lido Uma Abelha na Chuva, de Carlos de Oliveira, um monumento literário, O Delfim de José Cardoso Pires que ainda hoje guardo, escaqueirado pelas andanças do tempo. Eu estou a habituar-me a viver perigosamente mas ainda cheio do encanto adolescente pelas portas do mundo que se escancaram à minha passagem. Passo a contar, e mais tarde vou socorrer-me da memória dos outros. Até porque o Queta, que hoje veio aqui desinquietar lembranças estagnadas, prometeu voltar.

________


Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 4 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1149: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (15): Exmo Sr Alferes: Quero ir para Lisboa

(...) " Passou por aqui há dias o Queta Baldé, antigo soldado do Pel Caç Nat 52. É segurança nocturno numa empresa das redondezas, e de vez em quando vem partir mantenha. Trouxe-me uma carta datada de 1 de Janeiro, de Bissau, e assinada por Jobo Baldé. A fotografia dele já aqui apareceu, era o nosso padeiro a quem demos uma concessão de vender algumas fornadas de pão à população civil" (...).

(2) Vd. último post desta série > 22 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1304: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (21): A viagem triunfal do Pimbas a terras do Cuor

(3) Sobre o marabu ou padre de Missirá, vd. posts de:

11 Outubro 2006 > Guiné 63/74 - P1165: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (16): O meu baptismo de fogo

(...) "Estava na página 216 quando o primeiro rebentamento de canhão sem recuo veio cair nas traseiras do meu vizinho, o Padre Lánsana Soncó, com quem, dentro de dias, irei ter uma espinhosa discussão doutrinal acerca do Ramadão e da ira de Deus. Sentei-me tenso até que o estralejar das costureirinhas e o encadeamento de várias morteiradas me levou directamente para um abrigo onde, como em cinemascópio, as frestas central e laterais me permitiram ver alguma latitude da linha de fogo" (...)

14 de Setembro de 2006> Guiné 63/74 - P1070: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (10): A visita do soldado desconhecido

(...) Sentavam-se pois à mesa o oficial, os furrieis e as praças num total que variava entre seis e onze pessoas. Era neste espaço que de vez em quando eu convidava Lânsana Soncó, o marabu, para tomar chá e comer pão fresco feito por Jobo Baldé" (...)

(3) Vd. post de 13 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1068: O álbum das glórias (Beja Santos) (2): Misérias e grandezas de Mamadu Camará

(...) "Mamadu Camará: Era o 222, soldado indómito, de quem guardo a memória do seu companheirismo.

"Foi Furriel na 1º Companhia de Comandos Africana , perdeu um pé numa emboscada algures no Sul (creio que na mata do Fiofioli), veio para Portugal em 71 e cá vive. Foi o primeiro a dar muito trabalho antes da desconolização pois juntou-se a uma cabo-verdiana que tinha o morto o primeiro marido com um facalhão de talho e fez-lhe a vida mais negra do que ele era.

"Havia, salvo erro, 5 filhos fora do casamento, tive de andar pelas misericórdias a pedir ajuda, os míudos cresceram e hoje aparecerem-me já com filhos" (...).
(4) Região, a noroeste de Missirá, sob controlo do PAIGC, "região libertada", segundo a propaganda da guerrilha. As NT aventuravam-se a lá ir, uma vez por ano, na estação seca, em operações a nível de batalhão: foi o caso da Op Anda Cá (1969), e da Op Tigre Vadio (1970), já aqui evocadas no nosso blogue.

Guiné 63/74 - P1328: Blogoterapia (8): É hora de pensar no nosso primeiro... blook (Leopoldo Amado)

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Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 726 > 1964/65 > Aspectos dos trabalhos de fortificação do aquartelamento e tabanca de Guileje. Foto do Teco, que chegou às mãos do Nuno Rubim, via Guedes, militares da CCAÇ 726...
É a hora de pensar no primeiro livro do nosso blogue - o nosso primeiro blook (1)- que mostre fotos como estas, os nossos camaradas que, em Guileje ou em Mansambo, trocavam a espingarda pela pá-e-pica; ou que ponha em letra de forma palavras que calam fundo, como as do Torcato; ou que divulgue documentos dos arquivos do PAIGC a que teve acesso o historiador Leopoldo Amado... A sugestão é do Leopoldo, secundando opiniões já aqui divulgadas por outros amigos e camaradas de tertúlia... Mas editor, precisa-se! (LG).

Foto: © Nuno Rubim (2006) . Direitos reservados


Mensagem do Leopoldo Amado, membro da nossa tertúlia, luso-guineense, doutorando em História pela Universidade de Lisboa (2).

Caro Torcato,

Mesmo não tendo participado nesta guerra, se me permitires, faço minhas as tuas palavras (3). Elas tocaram-me lá bem no fundo da alma, eu que ainda puto, da varanda dos Correios de Catió (4) e Fulacunda (5), assistia impávido, sem todavia perceber as razões, o vai-e-vem da tropa portuguesa. É uma pena que valores tão nobres, tão nobres e verdadeiros como a prosa que agora nos destes, sejam hoje desbaratados neste cantinho à beira-mar plantado.

Pois bem, concordo com a ideia de que já é hora de se pensar num primeiro volume e de ir pondo as coisas lá fora - quiçá, única maneira de se dar razão a Pedro Lauret e João Tunes (que muito estimo), assim como aos outros colegas da tertúlia.

Penso também que é hora de irmos pensando na possibilidade de realizarmos uma Assembleia constituitiva para se deliberar sobre a pertinência ou não de transformar esta Tertúlia numa ONG [Organização Não-Governamental], dotando-a de direito de interceder junto a organismos públicos e estatais, doadores, para financiar suas acções (conferências, colóquios, encontros períódicos), mas mais importante ainda, a sua acção editorial (livros, boletins, sites, etc)

Faz-me um favor, caro Torcato: pega novamente na tua pena brilhante e põe cá para fora a tua/nossa experiência, pois, apesar de ser africano, partilho igualmente dessa mística exaltante que assisti apenas marginalmente, mas que muito honra os homens de bom senso, de qualquer latitude ou credo.

Bem hajas.
Leopoldo Amado

____________

Notas de L.G.:

(1) Segundo a Wipédia, a enciclopédia da Net, livre, o primeior blook terá sido escrito por Tony Pierce in 2002, um bloguista de Hollywood, quando ele seleccionou e compilou uma série de posts de um dos seus muitos blogues, e editou-os sob a forma de livro a que chamou Blook. O termo é da autoria de um jornalista, Jeff Jarvis, que participou num concurso aberto do Tony Pierce.
Uma outra definição de book pode ser um livro que aparece, em primeiro lugar, num blogue, organizado por capítulos. Cada capítulo vai sendo inserido como um post. Tom Evslin popularizoueste tipo de blook ao lançar, em Setembro de 2005, hackoff.com, uma estória de assassínio que pode ser lida ou ouvida na Net, mediante subscrição... É um novo conceito de livro, só possível graças à Galáxia da Internet que veio destronar a Galáxia de Gutemberg...
(2) O nosso amigo Leopoldo, de vez em quuando, dá-nos o prazer da sua visita... Há diversos posts da sua autoria, já publicados no nosso blogue, e alguns de grande interesse para a história dos nossos dois povos... Para já vejam-se os posts, com notas autobiográficas, de:

7 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXIX: Leopoldo Amado, guinense, historiador, novo membro da nossa tertúlia (Leopoldo Amado / Luís Graça)

(...) "Caro Luís Graça: Gostaria de louvá-lo vivamente pelo trabalho que vem desenvolvendo de há um tempo a esta parte sobre a guerra colonial: Guiné. Não o conheço pessoalmente, mas algo diz-me que que também é meu compatriota, ou seja, que é guineense de alguma forma, como aliás todos os guineenses.

"Sou historiador guineense, vivo em Lisboa e estou justamente a fechar uma tese sobre a guerra colonial versus guerra de libertação (o caso da Guiné), ou seja, a mesma realidade vista dos dois lados: do Exército português e Portugal, por um lado, e doutro, as FARP e o PAIGC" (...).

22 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCIV: Lamparam, o blogue do Leopoldo Amado

17 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXLXIX: os periquitos e a prostituta de Bolama (Leopoldo Amado)

4 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P840: Curriculum Vitae do nosso doutorando Leopoldo Amado

5 Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1250: Os amigos são mesmo para as ocasiões, Leopoldo Amado!


(3) Vd. post de 23 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1206: O passado não me pertence só a mim, é colectivo (Torcato Mendonça)

(...) "Chove lá fora, Luís Graça. O frio que sinto não é da chuva, nem do vento. É cá de dentro, um frio e um aperto, uma revolta que não a queria sentir. Mas sinto a revolta, a vontade de vingança, um sentimento diferente e há muito esquecido. Li o que o Mendes, da 38ª de Comandos, escreveu. Não é um relato onírico. Aconteceu mesmo. Ele fez aquela picada. O Pedro Lauret estava no rio. Guidaje a norte , Gileje e Gadamael a sul, são sítios de morte, de sofrimento na recordação. São bocados da nossa história recente, da nossa vida colectiva que muitos desconhecem. Pior, muitos querem apagar" (...)

(4) Vd. post de 4 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1245: Quarenta anos sobre Catió (João Tunes)

(5) Vd. post de 17 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1285: Bibliografia de uma guerra (14): Rumo a Fulacunda, um best seller, de Rui Alexandrino Ferreira (Luís Graça)

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1327: Tabanca Grande (3): António Rosinha, ex-Fur Mi em Angola, em 1961; topógrafo da TECNIL, em Bissau, em 1979

Angola > 1961 > Desfile de tropas > O Rosinha, furriel miliciano aparece aqui em primeiro plano, assinalado com um X.Repare-se no tipo de armamento das NT: pistola-metralhadora FP, para os graduados; espingarda Mauser, para as praças...Farda: caqui amarelo...


Angola > 1962 > O Furriel Miliciano Rosinha

O Rosinha hoje. Como civil, trabalhou na Guiné-Bissau, na empresa TECNIL, como topógrafo, depois da independência.

Fotos: © António Rosinha (2006). Direitos reservados.

Texto do António Rosinha, com data de 6 de Novembro de 2006, que, depois de algum tempo para ponderação, acabou por aceitar o meu convite (1), bem como o do Vitor Junqueira (2) e do Amílcar Mendes, para se juntar à nossa tertúlia de Amigos & Camaradas da Guiné (3):

Estimados L. Graça, V. Junqueira e A. Mendes:

Vou decidir aceitar o vosso convite. Faço-o, mas sem jamais me considerar no mesmo patamar de qualquer outro tertuliano, que, digamos, é do Quadro... Considerar-me-ei um tertuliano do Dia Seguinte. Mas, ao aceitar, pretendo pagar as cotas por inteiro, isto é, assumir as responsabilidades de tertuliano que me possam ser imputadas.

Penso que o blogue está para se expandir imenso, e serei o primeiro a dar espaço a outros do quadro. Envio umas fotos da minha guerra que, a par da vida civil que passei em Angola, foi simplesmente um tempo inesquecível de vivência de trabalho e, tirando o ano de 1961, eu posso dizer de paz.

Só vim compreender essa paz quando em 1979 faço um contrato com a TECNIL, e vi que os IN se tinham concentrado à volta da Guiné, e era a maneira mais económica de atingir os objectivos. Envio umas fotos da minha actividade como topógrafo (lembro que não era muito aconselhável nesse tempo andar de máquina a tiracolo): era porto, aeroporto, junto a quarteés, poucos lugares me passaram ao lado, em trabalho. Logo que encontre, vou mandar foto pessoal daquele tempo, nem que seja dos passaportes. As fotos da Guiné não abundam. Termino com um abraço.

A frequência de participação sugere-me algumas dúvidas quanto ao tempo/espaço.

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 21 Novembro 2006> Guiné 63/74 - P1303: Blogoterapia (2): Convite ao António Rosinha, antigo topógrafo da TECNIL (Luís Graça)

(2) E-mail do Vitor Junqueira enviado ao Rosinha, com data de 3 de Novembro de 2006:

Amigo Rosinha,

Aqui é mais uma vez o Vitor Junqueira que fala! E quero que me ouças com atenção.

Aderir a esta tertúlia e ao seu espírito, ou não, é uma decisão pessoal que não carece de quaisquer explicações. Diz-se aqui em Pombal que cada um é como cada qual, e cada qual é como a p... que o p.... !!!

Penso que me entendes. E vamos à questão.

Se aqueles, cujos pontos de vista sobre a guerra do ultramar afrontam a forma como passou a escrever-se a História depois do 25 de Abril de 1974, persistirem em fazer parte da maioria silenciosa, então... estamos feitos! Isso seria péssimo por duas grandes ordens de razões. A primeira tem a ver com um bicharoco que vive dentro de nós, a que alguns dão o nome de auto-estima. Também há quem lhe chame orgulho, dignidade, respeito por si próprio, sentido da honra, etc. O bichinho tem andado muito desanimado, ou porque não lhe prestamos atenção devida, ou porque temos permitido que outros lhe pisem a cauda.

E a segunda, é que ao coibir-nos de emitir a nossa própria visão sobre os factos, continuamos a deixar terreno livre, sempre aos mesmos, para aproveitarem todo o tempo de antena que lhes é oferecido.

E aqui, cairíamos noutro grande perigo. Que seria o de o blogue da cambada se tornar num monumento ao unanimismo. Uma coisa insuportável! E com uma esperança de vida pouco auspiciosa.

É claro que eu tenho muito respeito por aqueles que, tendo malhado com os ossos em África, há mais de três décadas, ainda hoje lambem as pungentes feridas da alma, que de lá trouxeram. Mas, se uma andorinha não faz a primavera, também não me parece razoável aceitar, de mão beijada, que os nossos camaradas hoje doentes, maltratados ou simplesmente desprezados pela Pátria, ressabiados com as contrariedades que a mobilização acarretou para as suas vidas, contundidos por sentimentos dolorosos de injustiças cometidas para com terceiros, possam representar o sentir e o pensar da generalidade dos ex-combatentes.

Estamos cheios até ao gorgomilo. Então, é preciso que cada um de nós, sem pudores bacocos nem auto-exaltações desmedidas, armados apenas com a verdade e honestidade e sem receio a críticas, deixe fluir essa torrente de emoções, passadas ou recentes, contraditórias sem dúvida. Que nos há-de libertar. Ou vai connosco para debaixo do torrão? E lá se iria o burro e as cangalhas...

Fim da história. Entendido?
Vá, junta-te, a nós.


(3) O Antonio Rosinha tinha-me dado anteriormente a seguinte resposta, em e-mail de 2 de Novembro de 2006:

Luís Graça, obrigado pelo convite, mas não vou poder aceitar, com muita pena minha, ser integrado numa tertúlia com a envergadura dessa, em termos históricos, humanos e até mesmo políticos, e que com a tua coragem deve continuar como até aqui...Vou indicar o principal motivo porque não devo pertencer ao vosso grupo: a qualidade desse espaço é tal que cada vez haverá mais ex-militares a escrever, e além de fazerem a verdadeira história descomprimem.

Porque muito do stress que existe é motivado também por se do ouvir em jornais mais repetições tipo Wiriamu, que até parece que foi a generalidade (...). Eu próprio tive um irmão que, depois de viver num certo ambiente politico (Arsenal do Alfeite), achava que eu, que estive lá, seria naturalmente um sanguinário...Quando o convenci que estava enganado, ficou de tal maneira revoltado que ele é que ficou com stress. (Não é força de expressão).(...)

Agora, sobre factos ou histórias de gente e lugares da Guine posso, sem compromisso da vossa parte, dar a colaboração que possa. Um abraço e coragem.

Guiné 63/74 - P1326: Questões politicamente (in)correctas (10): Mortos: os famosos e os anónimos (A. Mendes, 38ª CCmds)

Meus caros camaradas, mortos em combate, da 38ª Companhia de COMANDOS (e foram 13):

Esta carta já não vai para o SPM [Serviço Postal Militar]. Não valeria a pena enviá-la para lá, pois os comunicados de guerra deram a brutal notícia: vocês morreram em combate!

Recordo aqui, comovidamente, as horas que passámos juntos na Guiné, recordo todas as palavras que trocámos numa reconstrução dolorosa, olho as fotos que tirámos lado a lado. Tudo isto me é penoso nos dia de hoje, pois fiquei com amigos a menos na Terra. E o que é pior: amigos valorosos, amigos que não temiam o perigo, amigos que estavam no primeira linha, ali exactamente onde a guerra era mais dura, mais cruel, mais mal remunerada.

Vejo diante dos meus olhos turvados de saudade o vosso perfil com o rosto cheio de esperanças nos projectos a realizar na volta à terra natal.Vocês eram soldados que não temiam o perigo, que eram amados pelos vossos camaradas, superiores ou subalternos.Vocês tinham um fogo interior que arrastava montanhas; eram mais fortes que muitos fortes em peso de carne e ossatura.

Bebemos copos, fomos às bajudas , apanhámos bebedeiras, tirámos fotos que hoje olho com lágrimas nos olhos, até que recebi a estúpida e brutal notícia: senti então um grande vazio diante de mim; o meu mundo sentimental ficou mais reduzido, ficou mais pequeno e, imperceptívelmente, começei a rezar por esses amigos que derramaram o seu sangue generoso por uma terra onde combatiam por um ideal comum.

Esta carta, como disse, não vai para o SPM; escrevo-a e publico-a para que outros saibam que na Guiné se morria assim, numa luta impiedosa a que nós nunca voltámos a cara .Vocês foram um exemplo e são um exemplo.

Tenho os olhos embaciados. Tenho o coração amarfanhado.Tenho todo o meu íntimo em revolta . O dia de hoje veio triste. Há horas que me procuro, que faço por encontrar-me para poder responder ao vosso último adeus.

Que posso dizer-vos, a vocês, que repousam ao lado direito de Deus? Nada, mas mesmo nada. E, no entanto, estou amargurado. Apenas posso pedir-lhes que velem por nós, queridos amigos, Amanhã será um novo dia. Mas o meu mundo sentimental ficou mais reduzido. Em qualquer lado onde esteja, eu pensarei em vós, eu rezarei por vós.

Acreditem-me: na vossa morte eu senti a morte de amigos, de um exemplo de HOMENS. E até que nos possamos abraçar de novo, à mão direita de Deus, eu vos digo, com o coração esmagado pelo sofrimento: Esperem por mim!

Amilcar Mendes (19
Ex-1º Cabo Comando,
38ª CCmds,
Guiné (1972/74)

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd. último post de A. Mendes > 18 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1291: Questões politicamente (in)correctas (9): Os Mortos Nunca Esquecidos (A. Mendes)

Guiné 63/74 - P1325: Memórias de Mansabá (7): O Comandante do COP6, Correia de Campos, e as Minas na Bolanha de Manhau (Carlos Vinhal)

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Guiné > Região do Oio > Mansabá > CART 2732 ( 1970/72) > Estrada Mansambá-Farim >O Carlos Vinhal e o Sousa à sua esquerda, segurando uma mina anticarro detectada a tempo e levantada.

Texto e foto: © Carlos Vinhal (2006), ex-Furriel Miliciano de Artilharia, com a especialidade de Minas e Armadilhas, CART 2732, Mansabá (1970/72).

Texto enviado a 3 de Novembro de 2006:


Minas na Bolanha de Manhau - 28 de Agosto de 1971

Como se tem falado, e bem, ultimamente do nosso Coronel de Cavalaria António Valadares Correia de Campos (1), vou contar um episódio onde eu e ele fomos intervenientes.

Em 10 de Agosto de 1971 chegou a Mansabá a CART 3417, companhia independente como a nossa, para fazer o seu IAO connosco. Faziam alguma instrução no quartel e, acções de patrulhamento e emboscadas no mato. A princípio integrados em pelotões da CART2732, em fase mais adiantada, sozinhos.


Correia de Campos, comandante do COP6

O comandante desta companhia era um capitão muito jovem, daqueles que a determinada altura começaram a proliferar pela Guiné em virtude do desgaste dos capitães mais velhos e com algumas comissões de serviço em teatro de guerra.

No dia 28 de Agosto de 1971, pela manhã, saíram para o mato acompanhados por alguns elementos do Pelotão de Milícias 253, para uma zona não muito distante, mais propriamente para a zona da Bolanha de Manhau, a leste de Mansabá.

Por volta das 13 horas dirigia-me eu à Messe para almoçar, quando o então comandante do COP6, Major Correia de Campos, encontrando-me na parada, me ordenou para eu avisar o oficial de piquete de que era preciso organizar imediatamente uma coluna auto para ir a Manhau e que o furriel de Minas e Armadilhas deveria ir também.


O capitão da CART 3417, vítima de uma mina A/P


O Major Correia de Campos acrescentou que o comandante da CART3417 tinha pisado uma mina antipessoal, precisando de evacuação urgente e que havia mais minas detectadas, pelo que era preciso neutralizá-las. Informei-o que era o meu pelotão que estava de piquete e que eu mesmo era o furriel de Minas e Armadilhas. Disse-lhe também que iria providenciar no sentido de que as suas ordens fossem cumpridas imediatamente.

Organizada a coluna, prontamente ele subiu para a viatura da frente. De pé, ao lado do condutor, com uniforme não camuflado e com os galões nos ombros, viajou até ao local para recolhermos o ferido e para eu me inteirar da quantidade de minas a neutralizar. O dia estava cinzento, caía uma chuva miudinha incessante e o percurso foi feito em picada por zonas de alto risco de contacto com o IN e de alta probabilidade de aparecimento de minas anticarro. Nem mesmo assim ele se protegeu da intempérie e das possíveis vistas do IN.

Chegados, deparámos com o capitão já assistido pelos enfermeiros da sua Companhia. Tinha já a perna garrotada e estava a soro. Vociferava contra a sua falta de sorte e estava visivelmente nervoso. O caso não era para menos. Era muito novo e tinha sido ferido logo na sua primeira comissão de serviço no Ultramar.

Como se pode depreender, o moral das tropas estava muito em baixo. Foram sujeitos à mais dura provação. O seu Comandante tinha sido, cedo de mais, vítima da guerra. Não estavam em condições de continuar a instrução daquele dia pelo que iriam regressar connosco.

Organizou-se a coluna de regresso ao quartel. O nosso Major e o sinistrado vieram na minha viatura. O percurso foi feito devagar para evitar solavancos exagerados.

O capitão recolheu à Enfermaria para ser devidamente tratado e esperar por um heli para o evacuar para o HM241. Eu fui aprontar o meu equipamento para voltar a Manhau a fim de rebentar as minas detectadas e trazer de volta os militares da 3417. A chuva continuava e a fome apertava, mas o dever obrigava.

Em Manhau rebentei três minas antipessoais e regressámos trazendo connosco o pessoal da 3417. Cerca das 15H00 pude comer qualquer coisa, requentada, só para não ficar em branco.


Uma coluna auto até ao HM241, em Bissau e, e regresso a Mansabá: um pesadelo de 200 quilómetros


Cerca das 17h00 veio a ordem do nosso Major Correia de Campos para evacuar o Comandante da CART 3417, em coluna auto, uma vez que a chuva não abrandava e os helicópteros não tinham condições para levantar.

O melhor que puderam, os enfermeiros acondicionaram o capitão numa das viaturas, para que a viagem de quase cem quilómetros até Bissau (!), debaixo de chuva intensa, se tornasse para o ferido o menos penosa possível. Só pedíamos a Deus que não tivéssemos nenhum contacto com o IN até Mansoa, porque então seria o bom e o bonito. Já bastava a chuva para complicar. O estado geral do sinistrado não era muito bom, porque já tinha passado bastante tempo desde a triste ocorrência. As horas de sofrimento físico e psicológico somavam-se.

Lá nos pusemos a caminho em marcha moderada, convencidos de que só iríamos até Mansoa. O normal seria as tropas dali continuarem até Bissau, mas não. Constatámos que não estava prevista nenhuma coluna a partir dali, pelo que com muita resignação, espírito de sacrifício e altruísmo, continuámos nós a viagem até ao HM241 onde chegámos cerca das 18H30. A viagem não se pôde fazer em velocidade elevada para não fazer sofrer ainda mais o ferido.

Voltámos tão rápido quanto possível, porque a noite já ia alta. A chuva que nos tinha acompanhado até Bissau, continuou até Mansabá.

Voltando ao senhor Coronel Correia de Campos, quem sou eu para enaltecer a sua figura? Sei apenas que era chamado para as situações mais complicadas no CTIG. A determinada altura deixou o comando do COP6 para assumir o comando noutra zona complicada da Guiné onde a sua presença era mais necessária.


Carlos Esteves Vinhal
Ex-Fur Mil Art Minas e Armadilhas
CART 2732
Mansabá, 1970/72 (2)

Leça da Palmeira
Matosinhos

__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 2 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1235: Coronel Correia de Campos: um homem de grande coragem em Sambuiá e Guidaje (A.Marques Lopes)

(2) Vd post de 18 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXI: Breve historial da CART 2732 (Mansabá, 1970/72) (Carlos Vinhal)

Guiné 63/74 - P1324: Blogoterapia (6): Ir a sortes... ir p'ra guerra (Zé Teixeira)

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Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa (Quebo) > 1968 > o 1º Cabo Enfermeiro Teixeira junto a um obus 14 (ou 140 mm), "apontado para a fronteira" [com a República da Guiné-Conacri].

Foto: © José Teixeira (2005). Direitos reservados.


A sorte de ir para a guerra
por Zé Teixeira

Ir a sortes nos anos sessenta/setenta, era o abrir da porta que dava acesso a três anos de tropa na melhor das hipóteses, quando não eram quatro ou cinco, com uma passagem quase certa pela guerra colonial, com todos os riscos de uma guerra, para a qual, nós os mais jovens, não estávamos moralmente e psiquicamente preparados, apesar de toda uma doutrinação política.

Guerra lá longe, em tórridas e desconhecidas terras, contra povos autóctones, de estranhos costumes, conhecedores naturais do terreno que pisavam, com climas (dizia-se) altamente doentios, enfim, gentes armadas da vontade de se verem livres da tutela que Portugal teimava em manter, remando contra a corrente dos tempos. Vontade essa, bem alimentada pelas grandes, médias e até pequenas potências mundiais. Enfim, só alguns teimavam em manter-se cegos para não verem a realidade.

Começava no dia das sortes o drama que afectava o mancebo (candidato a cidadão) e toda a família. A religiosidade aculturada movia de imediato as mães a fazerem uma promessa de irem a pé a Fátima se o seu menino escapasse à guerra. Moviam-se os cordelinhos, quando era possível, onde entrava a presuntaria saborosa ou os contos de réis para os mais abastados, numa tentativa, tantas vezes frustada e frustrante, de evitar a mobilização.

A grande maioria não possuía condições para tais aventuras e submetia-se à sua sorte aguardando com esperança que o seu menino fosse um dos poucos a quem não coubesse a infelicidade de ser sorteado com o prémio da mobilização.

O tempo da recruta voava rápido. Vinha a especialidade, com a maioria a cair na malfadada especialidade de atirador – passaporte para carne para canhão.

Grande parte dos, agora, cidadãos da Pátria partia quase de imediato, porque a guerra não sabia (nem podia) esperar. Alguns ficavam um mês, dois... um ano.

Tempo de agonia que ia largando ao de leve o fumo da esperança de escapar, mas... quando menos se esperava, lá vinha o fatal convite.

Restavam uns poucos felizardos que escapavam, como que por milagre, mas desse não reza a história, como diria o Camões se lograsse viver o nosso tempo.



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Guiné > 1968 (?) > Um desdobrável de propaganda das NT. Imagem gentilmente cedida pelo Zé Teixeira.

Foto: © José Teixeira (2005). Direitos reservados.

O tempo de espera, sobretudo depois da especialidade, era dramático. Quanto mais passava, mais alimentava a esperança de escapar. Eu estava comodamente em casa a gozar o meu primeiro mês de licença a oito dias da saída da escola de enfermagem da incorporação seguinte. Sonhava já com um mês no quartel e outro de licença (a especialidade assim o permitia). Tinha recomeçado a estudar. A tropa ia ser canja !

Mais eis que chega o carteiro com o maldito papel da guia de marcha, não para Coimbra, mas para Abrantes!!! Abria-se nova página na minha vida. Página que levou dois anos a dobrar, que ainda não está totalmente escrita, tantas foram as marcas que deixou.

Dois meses de preparação na técnica guerrilheira e anti-terrorista(será correcto afirmar isto?) e psicológica, profundamente marcados por dúvidas e incertezas, pelos olhos inchados de uma mãe que teima em sorrir para esconder as lágrimas que lhe varrem o coração e depois o embarque para um mundo desconhecido, a Guíné - terra que pisei pela primeira vez em S. Vicente, no Cacheu.

Do antes ficaram alguns resquícios de poesia, forma subtil que encontrei para espantar os fantasmas. Do depois a história que fale.


MARCHA PARA A GUERRA

Estava no campo,
Regando o milho,
Seguindo o trilho
Da vida vivida,
Sempre a trabalhar.
Da tropa, de folga,
Bailava a esperança
De não ir ao Ultramar.

Ai que sorte a minha !
Ver os outros a marchar
E eu a ficar.

O Carteiro veio,
À porta bateu.
Um coração de mãe estremeceu.
Maldito papel,
Que na mão trazia.
O seu filho ia roubar.
Correu para o campo,
As lágrimas nos olhos.
A guerra veio-te chamar.

Ai que sorte a minha!
Ver os outros a ficar
E eu a marchar.

Meti na sacola
Um bocado de pão,
Estendi a mão.
Dei muitos abraços,
Parti a cantar.

Ai que sorte a minha
Ver os outros a ficar
e eu a marchar.


CARNE PARA CANHÃO

Lá no Quartel
Que em Abrantes ficava,
Comecei a aprender,
Como se matava.
De canhota ao ombro,
Ouvido apurado,
Grita o Capitão.
O Turra é como um ladrão,
Ele vem de qualquer lado.

A comida era boa,
Refeição abonada.
Parti para manobras,
Logo de madrugada.
Gritava bem alto,
Este é o meu fado.
Carne para canhão.
O Turra é como um ladrão
Ele vem de qualquer lado.

A noite chegava,
Serena e calma.
Triste como a noite,
Ficava a minha alma.
Gritava bem alto
Este é o meu fado.
O turra é como um ladrão
E vem de qualquer lado.


AMOR EM TEMPO DE GUERRA

Ver-te chegar à minha vida, amor.
É sofrer.
Por saber que para a guerra, eu vou.
Dizem que a Pátria me chama.
Já cá não estou para a semana.
Tu que nesta aventura quiseste entrar,
Acreditas no futuro ?
Estranha forma de amar.
Estranha forma de ser.
A razão do meu viver.
De lutar,
Para voltar, direito.
Escorreito.

Voltarei.
Gritei, na despedida, lembras-te ?
Quando o comboio apitava.
Um corpo morto, ele levava,
Ficava contigo o coração.
Sentado no degrau da Estação,
Enquanto me interrogava.
Que mundo vou conhecer ?
Que Pátria vou defender ?
Será que terei de matar
para viver
...E regressar
Direito.
Escorreito.

Estranha forma de ser.
O desafio aceitar.
Dois anos tu vais ficar,
Tu e eu a sofrer.
Ambos vamos sonhar.
Estranha forma de amar.
A razão do meu viver.
De lutar para voltar
Direito.
Escorreito.


À MINHA MÃE.

Minha mãe, eu vou para a guerra,
Não sei se vou matar.
Não sei se vou viver p'ra voltar.
Porque me ensinaste o amor.
Porque me ensinaste a semear
O bem.
A paz.
Se vou espalhar sofrimento, dor !
Minha mãe, eu vou para a guerra,
Atravessar mares, florestas,
Outros povos, outra terra.
Lutar.
Mas eu não quero matar.
Vem comigo.
Dá-me a mão
Aperta-me contra o coração
Diz-me que eles
Os donos da Pátria.
Não têm razão.

José Teixeira

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Guiné 63/74 - P1323: Bibliografia de uma guerra (15): Os Mastins e o Disfarce, de Alvaro Guerra (Beja Santos)


Foto de Álvaro Guerra e Capa do livro Os Mastins, seguidos de O Disfarce, 3ª ed. Lisboa: O Jornal. 1986. A capa é da autoria de João Segurado.

Texto, enviado em 24 de Outubro de 2006, pelo Mário Beja Santos, ex-alferes miliciano, comandante do Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70), e actualmente assessor principal do Instituto do Consumidor.

Caro Luís, caros tertulianos:

O blogue está a ganhar qualidade e densidade histórica, para júbilo de todos. Acho que chegou o momento de aprovarmos a admissão na nossa Família, a título honoris causa, do escritor Álvaro Guerra (1936-2002), e pelas seguintes razões.

Primeiro, o Álvaro Guerra combateu na Guiné, entre 1961 e 63. Ferido em combate, parte para França em 1964, onde estudou publicidade na École des Hautes Études de Sorbonne. A sua primeira obra literária intitula-se Os Mastins (1967), a que se segue Disfarce (1969), porventura a obra onde ele mais investiu, descrevendo os combates na guerra. Duas obras subsequentes aludem inequivocamente à experiência guineense: A Lebre (1970) e Memória (1971), que é uma colectânea de contos.

Segundo, como a sua literatura espelha, ele é um camarada da Guiné. Recorrendo a uma trama de ficção em que se joga em permanência o passado e o futuro, Álvaro Guerra é seguramente um dos primeiros grandes escritores que denunciou os horrores dos combates na selva e, reconhecido pela crítica, o maior de todos. Acresce que os seus romances históricos são uma permanente tensão de lutas (de classes, invasões napoleónicas, liberais e absolutistas e praticamente um século da história de Portugal em torno da triologia Café Central, Café República e Café 25 de Abril. Perfeccionista na escrita, diplomata emérito, jornalista respeitado, Álvaro Guerra foi um narrador espantoso de paixões, da violência incontrolada e até da tauromaquia, um pouco ao sabor dessa paixão ribatejana que ele tanto admirava.

No texto que se segue faço o louvor de Álvaro Guerra, pedindo a sua entrada por unanimidade nesta academia de camaradas da Guiné.

Abraços, Mário.

Ao Álvaro Guerra, porque lutando é começar (1)por Beja Santos

Mesmo que mais ninguém escrevesse sobre a guerra na Guiné, considerando aqui a escrita um voo picado sobre a crueldade, recorrendo à ficção e aos dotes da memória, o legado do Álvaro Guerra tem um valor inultrapassável, pesando no juízo de tal valor o facto de os seus escritos serem anteriores ao 25 de Abril. O Disfarce é retintamente autobiográfico. Estão ali registados os seus ferimentos, os tambores da guerra, o inferno da selva, o crepitar das metralhadoras, os momentos de fraternidade, o relâmpago das emboscadas e depois a vida em Paris com a memória sempre a latejar as dores que ficaram depois dos trópicos.

Apelando ao ingresso deste escritor de Vila Franca de Xira no nosso blogue, tornando-o companheiro de uma história em progressão, recordo algumas das suas páginas mais brilhantes, hoje traduzidas em várias línguas. Por exemplo: "O sol engolira as trevas num ápice e a manhã nublava-se de calor. No arrozal, à saída da aldeia, um casal de grus coroados adejava num bailado grotesco; evaporava-se rapidamente a água concentrada durante a noite nas folhas das árvores ainda brilhantes, cheirava a terra, o cheiro intenso e enjoativo daquela terra que ele espreitava por entre o calcar incerto das botas militares e a sombra esguia e movediça do seu corpo. Caminhavam em fila indiana. O prisioneiro levava as mãos atadas atrás das costas e o soldado que vinha a seguir dava-lhe pontapés, de vez em quando".

Mais adiante :"Uma aldeia queimada, havia um cheiro adocicado, enjoativo, quando se aproximaram do que fora Lenguel, aldeia balante, sinais de chamas recentes, devastação, e o povo escondido no mato. Tropeçou na carcaça calcinada de um boi cujos os ossos amarelados se desconjuntaram, no meio de cinzas e destroços, pilões lambidos pelo fogo, cabaças enegrecidas, restos de primitivas enxadas de madeira, os gigantescos potes com as grandes bocas negras como os rombos enormes nos seus ventres vazios, e as paredes em ruína das cubatas sem tecto. Extensa, a bolanha estendia-se diante da aldeia queimada, a bolanha empapada, escaldante, febril, onde o arroz apodrecia na ponta dos cales amarelos a tombarem para a água, cansados de esperar quem os viesse colher... Timidamente, mulheres com os filhos às costas, crianças nuas e meia dúzia de homens válidos surgiram do mato, rápidos olhares furtivos nos seus rostos sérios, e foram-se reunindo, muito juntos e silenciosos, no meio da aldeia devastada - era o povo de Lenguel diante das suas casas queimadas".

E por fim, o horror da emboscada, notavelmente descrita: "Caiu em cima deles a surpresa, uma chuva de ferro, estampidos e silvos de árvore vergastado e quedas e ramos partidos e pragas e explosões e o gargalhar fantasmagórico das rajadas matadoras e o homem ao lado dele com o sangue no ventre nãos mãos que disse 'Ai, mãe!' e morreu... Quando o combate acabou ou suposeram que tinha acabado, porque a lamúria dos feridos se tornara mais nítida na imobilidade e silêncio da trégua, uma voz escondida anunciou a morte do 38 que, somado ao cadáver de ventre e mãos sangrentas e fora o 71, perfazia dois números a riscar naquela danada matemática" (...).

A obra de Álvaro Guerra aparece impregnada da saudade da casa e das noites imemoriais do soldado de África que ele foi. O protagonista que ele criou anda ferido em Paris e o seu ajuste de contas com os demónios da memória é ferida por sarar. Ele disfarça mas não cura. Não chora mas a guerra de África mantém-no comovido. Bastaria o vigor desta escrita para ele ter lugar entre os camaradas da Guiné que somos e seremos (2).

____________


Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 17 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1285: Bibliografia de uma guerra (14): Rumo a Fulacunda, um best seller, de Rui Alexandrino Ferreira (Luís Graça)

(2) Comentário de L.G.: Esta é uma tertúlia de vivos, não... o panteão nacional.

Louvo a iniciativa e a oportunidade do Beja Santos, ao evocar aqui a figura de um camarada de armas da Guiné, desconhecido ou pouco conhecido da maior parte dos nossos tertulianos... Mais do que uma recensão bibliográfica, é um acto de justiça: sem dúvida que o Álvaro Guerra é um dos nossos, e para mais é um grande escritor... Mais ainda: um escritor pioneiro, no que diz respeito à temática da guerra colonial... Mas, infelizmente, estando já desaparecido - tal como Salgueiro Maia e outros que já nos deixaram e que também escreveram livros - eu tenho pessoalmente alguma relutância em apropriar-me do seu nome, da sua vida e da sua obra...

Ao criar ao blogue, não previ nenhum quadro de honra para os amigos e camaradas da Guiné, mas podemos vir a criá-lo se for essa a vontade da maioria de nós... Sou capaz, todavia, de antever algumas dificuldades quanto à obtenção de consensos - já não falo na impossível unanimidade em matéria de opiniões - sobre as figuras que podem e devem nele figurar... por causa da honra (honoris causa) (4).

Eu sei que o Beja Santos fá-lo por um impulso de generosidade e de justiça. Mas eu não posso secundar a sua acção - aliás, já lho comuniquei e ele compreendeu e aceitou muito bem as minhas razões- , utilizando um argumento de autoridade...

A verdade, meu caro Mário, é que uma grande parte de nós nunca leu (ou ouviu falar sequer do de) o Álvaro Guerra... Se ele tivesse vivo, poderíamos convidá-lo a entrar na nossa tertúlia... Já não estando entre nós, acho abusivo ou até pretensioso... Acho sempre abusivo - para dizer hipócrita - a apropriação que se faz, neste país, dos nossos escritores e artistas que só são grandes e reconhecidos depois de mortos (Camões, Amadeo Sousa Cardoso, Fernando Pessoa ou, mais recentemente, Mário Cesariny...).

A melhor homenagem que podemos prestar ao nosso ilustre camarada Álvaro Guerra, ribatejano de Vila Franca de Xira, é ler os seus livros e falar deles, na nossa 'caserna virtual', e sermos dignos do seu exemplo Recordo o aqui as palavras que ele escreveu para o curto prefácio desta edição de O Jornal:

"Os textos que se seguem foram escritos quando escrever em Portugal era lutar pela liberdade contra a ditadura, pela livre expressão contra a censura, pela dignidade contra a humilhação(...).

"Se o bem mais precioso que um escritor, no seu trabalho, pode desejar é a liberdade de expressão, será oportuno reconhecer que esse é um bem no activo do que mudou em Portugal" (Álvaro Guerra) (4).

...Enfim, gostaria de ouvir a opinião dos amigos e camaradas da Guiné sobre este assunto.

(3) O que quer dizer honoris causa ?

(...) "Os graus académicos constituem o reconhecimento por parte da Universidade de que o graduado atingiu determinados patamares do conhecimento científico. Bacharelatos, licenciaturas, mestrados e doutoramentos são esses graus académicos. O doutoramento é o grau mais elevado da formação científico-académica, grau esse que normalmente se obtém após anos e anos de muito estudo e intensa investigação, anos de trabalho duro e de espírito de sacrifício.

"Qual o sentido então de um doutoramento honoris causa, de um doutoramento justificado pela honra e não directamente pelo estudo e saber científico? O sentido está em a universidade reconhecer desse modo que actos, obras e vida de uma pessoa atingem e ultrapassam o melhor que nela se consegue. A universidade associa-se à excelência que determinada pessoa alcançou na sua área de saber, na sua profissão, no serviço prestado à comunidade. Mesmo nos casos em que são cientistas os distinguidos com o doutoramento honoris causa, a universidade honra toda uma obra que em muito ultrapassa os limites das exigências académicas.

"Tive a fortuna de assistir em 18 de Setembro passado à cerimónia em que a Universidade de Harvard deu o doutoramento honoris causa ao Presidente Nelson Mandela. Era o lutador pela liberdade do seu povo, pela democracia e paz de uma nação, que aquela universidade americana honrava. Honrava a obra e a vida de um homem de oitenta anos, de que vinte e sete tinham sido passados na cadeia. Mas também a mesma universidade havia dado em 1996 um doutoramento honoris causa a uma mulher de 86 anos cuja vida fora passada a lavar roupa. Essa mulher, Oseola McCarthy, havia doado todo o dinheiro que acumulara ao longo da sua vida à Universidade do Missippi do Sul para a ajuda de estudantes negros necessitados.

"Um doutoramento testemunha um saber científico específico, mas um doutoramento honoris causa reconhece a sabedoria de uma obra" (...).

Fonte: António Fidalgo > Crónicas > Corte na Aldeia > Jornal do Fundão > 9 de Outubro de 1998 > Honoris Causa


(4) Alguns sítios na Net sobre o Álvaro Guerra:

In Memoriam Álvaro Guerra (1936-2002)

Público > Colecção Mil Folhas > Tiragem de 100 mil exemplares > Razões de Coração, de Álvaro Guerra

Citador > Leituras > No Jardim das Paixões Extintas [2002], de Álvaro Guerra