sábado, 28 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1708: Tabanca Grande: António Barroso, ex-Alf Mil da CART 3492, (Xitole, 1972/74)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Coluna logística da CCAÇ 12 a caminho do Xitole.

Foto: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.


Luís: Apresenta-se António Barroso, ex-alferes miliciano do CART 3492 (Xitole, 1972/74).

Moro em Valadares, freguesia vizinha da Madalena (onde tens família) e de Canidelo (onde vive o nosso camarada Xico Allen). Foi através dos números telefónicos visionados no blogue que consegui falar, passados 33 anos, com o Mexia Alves e o António Soares, [ambos da CART 3492].

O Mexia Alves fez já algumas referências à minha pessoa no blogue e espero poder, mais tarde, acrescentar algo de interessante.

Feitas as apresentações, enviarei em breve fotografias, quero deixar a todos os que pisaram o chão da Guiné e em especial à malta do Xime, Mansambo, Xitole (e Saltinho, que no meu tempo, por razões logísticas, se encontrava muito ligada a nós) um fraterno abraço. E para ti um Bem Haja por esta iniciativa.

António Barroso

PS - Embora seja um pouco em cima da hora, gostaria muito fosse aceite a minha inscrição para o almoço em Pombal no próximo Sábado (Ementa A). De qualquer modo e antecipando-me à resposta, em contacto com o Mexia Alves, já lhe disse que lá estarei. O meu número de telemóvel para qualquer eventualidade é: 93 62 33 066.

2. Comentário de L.G.:

António: Estás em casa, na nossa tabanca grande. Fico à espera das tuas estórias do Xitole, sítio aonde fui algumas vezes quer em colunas logísticas quer em operações na ZA dessa sub-unidade do Sector L1, a que a minha companhia, a CCAÇ 12 (1969/71), esteve afecta como unidade de intervenção. L.G.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1707: Um abraço de um amigo guineense que firma no Catió (Souleimane Silá)

Guiné > Região de Tombali > Catió > Álbum fotográfico de Vitor Condeço (ex-Furriel Mil, CCS do BART 1913, Catió 1967/69) > Quartel de Catió > 1968> Quartel, Foto 34 > "Fur Mil Condeço junto de um dos Obus de 14 cm, que iriam substituir os obuses de 8.8 cm [Fev 1968] ">... Uma pequena homenagem do nosso blogue a todos os naturais de Catió, com votos de que esta bela terra do sul da Guiné-Bissau não volte a conhecer os símbolos fálicos da guerra e da violência... (LG)

Foto e legenda: © Vítor Condeço (2007). Direitos reservados.


1.E-mail recebido em 31 de Março último, enviado por um visitante do nosso blogue, Souleimane Silá, guineense, natural de (ou residente em) Catió, presumivelmente a viver neste momento em Portugal.

Acabo de conhecer a vossa OBRA; não imagina como encantado estou!

No princípio desse mês comprei o meu 1º PC portátil para aprender a utilizar e me informar mais. Veja no que o destino me aponta!

Afinal, estava eu adormecido, mas espero acordar-me e colaborar convosco. Ensinem-me como poder tomar parte na vossa divulgação, a que me candidato compatrioticamente.

Um abraço do bissau-guineense, de Catió,

Souleimane Silá

Tm (351) 96 222 29 12

2. Comentário de L.G.:

Caro amigo:

Este é um blogue de antigos combatentes da guerra da Guiné, portugueses, mas também aberto aos antigos combatentes do PAIGC e, de um modo geral, a todos os amigos de Portugal e da Guiné-Bissau, de um lado e de outro - amigos portugueses da Guiné-Bissau ou amigos guineenses de Portugal. O que importa é que tenham em comum o interesse pela perservação da memória da guerra colonial ou da guerra de libertação (como der mais jeito dizer)...

As nossas regras (mínimas) de convívio constam duma página que se chama Tertúlia dos Amigos & Camaradas da Guiné. Como guineense que é, independentemente da geração a que pertence (imagino que não tenha idade para ter feito a guerra de 1963/74, sob a bandeira de um lado ou de outro), o Souleimane será bem vindo a este ciberespaço de convívio, de partilha, de memória e de lusofonia...

Um ciberabraço.

Luís Graça.

Guiné 63/74 - P1706: No 25 de Abril de 1974 eu estava lá (2): Em Galomaro, região de Bafatá (Manuel Pereira, CCAÇ 3547 / BCAÇ 3884)


1. Depoimento do Manuel Pereira sobre o 25 de Abril de 1974 na Guiné (1):


Bom dia amigos Tertulianos,

Eu sou um dos muitos que a alvorada de Abril apanhou na Guiné. O meu batalhão terminou a sua Comissão a 25 de Dezembro de 1973, mas por birra do Spínola a quem o Governo não atribuía mais tropa para a região (a fábrica estava a falir... Lembro que uma companhia que se destinava a S.Tomé, foi desviada pelos Fiats (?) para a Guiné – fazia parte dela um jogador famoso do F C Porto - Lemos), obrigou os velhinhos a adiarem o seu retorno à Metrópole. Viemos (eu vim mais tarde) a 30 de Junho de 1974.

Dizia eu, que estava lá. É verdade, no dia 25 de Abril estava em reforço do Batalhão de Galomaro e só depois a 28 ou 29 é que foi com o meu Grupo ocupar as instalações abandonadas do Dulombi. Chorei de raiva (ninguém viu), mas foi. Já no Dulombi sou informado, por alguém do MFA, que o Coronel Tir Cmd de Galomaro, com quem sempre me incompatibilizava nos briefings, tinha sido detido e levado de Galomaro. Abandonei o Dulombi a 29 de Maio e neste aquartelamento apenas ficou uma secção de milícia.

Sobre o MFA e a nossa participação – o BCAÇ 3884 –, enquanto força oculta do mesmo, posso adiantar que a nossa missão caso o Movimento falhasse na Metrópole, seria – todos Cmd de Companhia estavam ao corrente – a sublevação, arregimentar outras unidades, deslocar-nos para Norte, passarmos a fronteira (havia contactos com oficias do exército do Senegal) e daí reentrarmos na Guiné talvez por Colina do Norte, Farim, Mansoa ou Bula e por fim Bissau.

Felizmente não foi necessário. Muitos de nós, eventualmente, teríamos caído. Nem todos estariam de acordo com as nossas opções. Para aqueles que de forma generosa se voluntariaram para esta arrojada missão, o meu (nosso) eterno agradecimento. Mesmo que os três D não se tenham ainda realizado – fica a esperança –digo, VALEU A PENA. VIVA O 25 de ABRIL!

Documentação e protagonistas directos seguirão num próximo capítulo.

Um abraço a Todos e particularmente aos que estarão em Pombal.

Manuel Pereira

(ex-fur mil Oliveira Pereira
CCAÇ 3547 - Os Répteis de Contuboel,
1972/74)

__________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post anterior > 27 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1705: Em 25 de Abril de 1974 eu estava lá (1): Em Cansissé, região do Gabu (Américo Marques, 3ª CART do BART 6523)

Guiné 63/74 - P1705: No 25 de Abril de 1974 eu estava lá (1): Em Cansissé, região do Gabu (Américo Marques, 3ª CART do BART 6523)

Guiné > Nova Lamego (Gabu) > 3ª CART / BART 6523 > Junho de 1974 > Cansissé > Os soldados do destacamento de Cansissé, entre Bafatá e Nova Lamego, junto ao Rio Corubal, empunham a bandeira do PAIGC e confraternizam com os inimigos de ontem...

"Eu sou dos últimos guerreiros do Império. Meio guerreiro, pois não acabei a Comissão e ainda participei na troca de bandeiras. A minha ignorância e o meu patriotismo fizeram-me sentir uma tristeza... mais triste [em Setembro de 1974]".


Foto: © Américo Marques (2005). Direitos reservados.

1. Comentário do editor do blogue:

Passaram 33 anos do 25 de Abril de 1974... O Movimento dos Capitães começou na Guiné. Clandestinamente. Poucos de nós se aperceberam de que estava em marcha um golpe de Estado que iria derrubar um regime semi-centenário. E que o fim da guerra se aproximava. Alguns de nós estávamos lá, na Guiné, ou estávamos cá, ainda na tropa ...

Temos ainda muito poucas ou raras referências sobre o que se passou na Guiné nesses já longínquos dias de Abril (e depois nos meses imediatamente a seguir, Maio, Junho, Agosto e Septembro) de 1974...

Quem estava lá messa altura? Da malta registada na nossa tertúlia, temos alguns: o Américo Marques (3ª CART / BART 6523, Cansissé, Set. 74), o Antero dos Santos, o António Santos (CCAÇ 18, Aldeia Formosa, Jun. 74), o Casimiro Carvalho (CCAç 11, Paunca, Jul. 74), o João Carvalho (CCAÇ 5, Canjadude, Ago. 74), O José Bastos (Transmissões, Ago. 74), o Manuel Pereira (CCAÇ 3547 / BCAÇ 3884, Set. 74)...

Daqueles que foram para lá depois do 25 de Abril de 1974, tenho apenas conhecimento do pira de Mansoa, o Magalhães Ribeiro (CCS do BCAÇ 4612, Mansoa, Set. 74) que lá foi só para retirar e levar, debaixo do braço, a nossa bandeira verde-rubra...

Alguns chegaram a casa mesmo na véspera: é o caso, por exemplo, do António Graça de Abreu (CAOP 1, Cufar, Abr. 74), que apanhou o avião a 20 de Abril de 1974... A malta do BART 3873 também chegou à metrópole just in time, em Abril de 1974, não sei exactamente em que dia: o Serradas Pereira (CART 3494), o Artur Soares (CART 3492), o Luís Carvalhido (CCS), o Manuel Carvalhido (CCS), o Manuel Ferreira (CART 3494), o Sousa de Castro (CART 3494)...

Convenhamos que foram tempos de confusão e esperança, tempos contraditórios, exaltantes e angustiantes... Seria bom que falássemos sobre isso, sobre a nossa experiência, aqueles de nós que fomos protagonistas dos acontecimentos...


Temos alguns apontamentos dispersos. Mas, de certo, que mandámos notícias, fizemos comentários, enviámos fotos sobre esses acontecimentos que mudaram as vidas de uns e outros, os portugueses e os guineenses... Já começámos a publicar algumas cartas e areogramas do Casimiro Carvalho (Gulieje, Cacine, Gadamael, Paunca, Nova Lamego), também ele um dos últimos soldados do império...

É pena, por outro lado, que milhões de aerogramas se tenham perdido nestes últimos 40 e tal anos, desde que a guerra começou em 1963... De qualquer modo, vamos fazer um apelo à nossa memória. Vou começar por reunir aqui a conversa que tive ao telefone , há tempos, com o Américo Marques que apanhou o 25 de Abril em Cansissé, zona leste, região do Gabu. (LG)

Depoimento do Américo Marques (Ex-soldado de transmissões, 3ª CART / BART 6523, Nova Lamego, Junho de 1973/ Setembro de 1974)

2. O Américo Marques foi, de facto, um dos últimos soldados do império (1). Em contrapartida, um dos seus irmãos foi um dos primeiros a seguir para a Guiné, em 1961, quando ainda se usava a farda amarela (2). Esteve na região do Cacheu.

A companhia do Américo Marques, a 3ª CART do BART 6523, estava colocada em Nova Lamego, enquanto ele foi destacado com um grupo de combate (25 homens) para Cansissé, a sul de Nova Lamego, a uma hora de caminho do Rio Corubal.

Ao telefone (não nos conhecemos pessoalmente), disse-me que nunca tiveram problemas nem com a população nem com o PAIGC, contrariamente aos camaradas da companhia anterior que por lá haviam estado. Nunca se armaram em “bons”, nunca provocaram os guerrilheiros do PAIGC, trataram sempre bem a população local, distribuindo comprimidos pelas mulheres, ouvindo os homens grandes, ajudando a transportar os produtos agrícolas... Davam-se bem com os fulas. O régulo era futa-fula. Com os mandingas, a coisa piava mais fino, sabendo-se que nos eram muito menos leais do que os fulas...

(i) Confundido e baralhado...

Ele era soldado de transmissões e, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974, estava no seu posto, a sintonizar a rádio em Lisboa. Costumava fazer isso com muita frequência. Estava em contacto com todo o mundo. Os dias eram sempre iguais e custavam a passar. E as noites ainda pior. Mas "nessa noite ficou confundido e baralhado: havia movimento de tropas em Lisboa, alguma coisa se passava de anormal"…

Foi assim que teve conhecimento do golpe de estado do Movimento das Forças Armadas que depôs o Governo de Marcelo Caetano. Foi logo informou os seus camaradas. Foi um alvoroço.

A vida em Nova Lamego e em Cansissé não voltou mais a ser como dantes. Apareceram logo uns “esquerdistas” (sic), até então muito caladinhos, a organizar o pessoal, a dar ordens, a fazer reuniões... A hierarquia e a disciplina militares começaram a ser postas em causas. Eram os "comités de soldados" (sic) que tomavam iniciativas.

Acrescenta o Américo: "Às tantas já se falava tu-cá-tu-lá com os gajos do PAIGC, beijinhos e abraços, troca de roncos, como se não tivesse havido uma longa guerra"...

Esta foi a parte mais dura de engolir para o nosso amigo Américo que viu, com tristeza, a nossa bandeira ser substituída pela do PAIGC no seu destacamento… Em Setembro de 1974, ele voltava para casa, com o sentimento (amargo) de ter sido o último soldado do império...

Há coisas, na tropa e na vida, para as quais um homem nunca está bem preparado. Hoje ele escreve nos jornais da região. E promete voltar a escrever-nos, com tempo e vagar, quando vier o frio e o fogo começar a crepitar na lareira. É aí, à volta de um madeiro a arder, que ele gosta de recordar os seus tempos na Guiné e passar para o papel os sentimentos contraditórios que tem sobre esses menos de dois anos que passou lá no Gabu…

Ele prometeu-me contar alguns das suas histórias de azarado soldado de transmissões que, um belo dia, ouvia uma conversa em “português acreoulado”: suspeitando tratar-se do IN, lançou um alerta geral e pôs o Gabu em pé de guerra… Afinal, tinha interceptado comunicações entre a NT…


(ii) Os momentos do fim

Em Junho de 2005, o Américo Marques, que é técnico de higiene e segurança no trabalho, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, já nos tinha mandado uma mensagem sobre os "momentos do fim", quando a partir de Junho de 1974 os guerrilheiros do PAIGC começaram a aparecer no destacamento de Cansissé, oferecendo a paz...

Não foi fácil para a população local (fulas e mandingas) e para alguns soldados como o Américo Marques. De repente, os inimigos de ontem, os turras, passavam a ser os amigos e até os irmãos de hoje.

Comentei na altura (3) que deverá ter sido um momento muito difícil, daqueles em que a gente fica com um nó apertado na garganta… E formulei o voto de que o Américo arranjasse tempo, fôlego, coragem e inspiração para dar um testemunho mais extenso e profundo sobre esse momento (único) do hastear da bandeira da nova Guiné-Bissau a que ele assistiu… Enfim, se ele achasse que valia a pena… Eu pessoalmente achava que valia a pena. E continuo a achar.

O Américo, que regressou a Portugal em Setembro de 1974, estava no sítio certo, no momento certo, para a nos dar conta do fim do império... "Eu sou dos últimos guerreiros do Império. Meio guerreiro, pois não acabei a Comissão e ainda participei na troca de bandeiras. A minha ignorância e o meu patriotismo fizeram-me sentir uma tristeza... ainda mais triste.

"Era Transmissões de Infantaria, Formado no BC 5, Campolide [ Lisboa ]. Formei Batalhão em RAL 5, Penafiel. Embarquei no N/M Niassa em Junho de 1973, na companhia de um BCAÇ de Tomar, mais duas Companhias recebidas no Funchal. Pertenci à 3ª CART do BART 6523, aquartelado em Nova Lamego."Estive os 17 meses em Cansissé: um destacamento (com 25 soldados) que estava à distância de 1 hora, a pé (claro), da margem direita do Rio Corubal. Quem fosse de Bafatá para Nova Lamego, virava à direita por uma picada, situada mais ou menos a meio do trajecto.

"Sou de Viana do Castelo e amigão do Sousa Castro e do Luís Carvalhido que me recebeu no Xime, em trânsito para Nova Lamego [Gabu]. Era eu um coitado dum periquito; e o Luís não me ofereceu uma bazuca, levou-me a ver um buracão feito por uma. Perdi logo a sede.

Espero que as fotos sejam mais um tijolo... para construir a historia das Dores e Agonias que estão aqui e agora. Sendo ao mesmos tempo Pedaços de Vida, que se me ofereceu (como se fossem mais uns Castelos) aquela Bandeira; muito amada e que aquece mais que mil vulcões. Um Alfa Bravo".
__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 12 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXVI: Américo Marques, o último soldado do Império (Cansissé, 1974)

(2) Vd. post de 12 Dezembro 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXI: O avô da velhice (S. Domingos e Teixeira Pinto, 1961)

(3) Vd. post de 19 Junho 2005 > Guiné 69/71 - LXV: Os momentos do fim (Junho de 1974)...

Guiné 63/74 - P1704: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (43): Em louvor de Bambadinca, a nossa tabanca grande

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Espectacular vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido leste-oeste, ou seja, do lado da grande bolanha de Bambadinca (vd. mapa da região)

Reconstituição feita, de memória, por Humberto Reis, Luís Graça e Gabriel Gonçalves (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71): Do lado esquerdo da imagem, para sul, era a pista de aviação (1) e o cruzamento das estradas para Nhabijões (a oeste), o Xime (a sudoeste) e Mansambo e Xitole (a sudeste). Vê-se ainda uma nesga do heliporto (2) e o campo de futebol (3). A CCAÇ 12 começou também a construir um campo de futebol de salão (4), com cimento roubado à engenharia nas colunas logísticas para o Xitole.

De acordo com a fotografia, em frente, pode ver-se o conjunto de edifícios em U: constituía o complexo do comando do batalhão (5) e as instalações de oficiais (6) e sargentos (8), para além da messe e bar dos oficiais (8) e dos sargentos (9). Apesar do apartheid (leia-se: segregação sócio-espacial) que vigorava, não só na sede dos batalhões, como em muitas unidades de quadrícula, uns e outros, oficiais e sargentos, tinham uma cozinha comum (19). Do lado direito, ao fundo, para norte, a menos de um quilómetro corria o Rio Geba, o chamado Geba Estreito, entre o Xime e Bafatá.

O aquartelamento de Bambadinca(e posto administrativo do concelho de Bafatá) situava-se numa pequena elevação de terreno, sobranceira a uma extensa bolanha (a leste). São visíveis as valas de protecção (22), abertas ao longo do perímetro do aquartelamento que era todo, ele, cercado de arame farpado e de holofotes (24). A luz eléctrica era produzida por gerador...

Junto ao arame farpado, ficavam vários abrigos (26), o espaldão de morteiro (23), o abrigo da metralhadora pesada Browning (25).

Em 1969/71, na altura em que lá estivemos, ainda não havia artilharia (obuses 14). A caserna das praças da CCS (11) ficava do lado oeste, junto ao campo de futebol (3). Julgava-se que o pessoal do pelotão de morteiros e/ou do pelotão Daimler ficava instalado no edifício (12), que ficava do outro lado da parada, em frente ao edifício em U.

Mais à direita, situava-se a capela (13) - que funcionava também como casa mortuária - e, ao lado, a secretaria da CCAÇ 12 (14). Creio que por detrás ficava o refeitório das praças. Em frente havia um complexo de edifícios de que é possível identificar o depósito de engenharia (15) e as oficinas auto (16); à esquerda da secretaria, eram as oficinas de rádio (17).

Do lado leste do aquartelamento, tínhamos o armazém de víveres (20), a parada e os memoriais (18), a escola primária antiga (19) e o depósito da água (de que se vê apenas uma nesga). Ainda mais para esquerda, o edifício dos correios, a casa do administrador de posto (que era um caboverdiano, na altura), e outras instalações que chegaram a ser utilizadas por camaradas nossos que trouxeram as esposas para Bambadinca (foi o caso, por exemplo, do Alf Mil Carlão, nosso camarada da CCAÇ 12).

Esta reconstituição foi feita pelo Humberto Reis (HR), completada por mim (LG) e, mais recentemente, pelo Gabriel Gonçalves (GG), que identificou novos sítios: cantina (27), posto de rádio (28), refeitório das praças (29) e centro cripto (no topo do edifício 5). Ficamos à espera de novos contributos, nomeademente por parte do pessoal das CCS do BCAÇ 2852 (1968/0) e do BART 2719 (1970/72) que privaram connosco, bem como as unidades adidas (Morteiros, Daimler, Intendência, Caçadores Nativos...).

Foto: © Humberto Reis (2007). Direitos reservados.


43ª Parte da série Operação Macaréu à Vista, da autoria de Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (1). Texto enviado em 29 de Março de 2007. Subtítulos do editor do blogue.

Hosana e magnificat para Bambadinca

por Beja Santos



A acção de patrulhamento e emboscada chamava-se Discóbolo. Não sei onde é que o Major Pires da Silva foi buscar a sugestão à cultura grega, mas, para todos os efeitos, era de um lançador de disco que eu pensava na sala de operações quando ele anunciou que as forças de Missirá e Finete emboscariam de 5 para 6 de Maio [de 1969], na margem esquerda do Geba, enquanto o Pelotão [de Caçadores Nativos]63 entraria por Santa Helena, progredindo através de Fá Balanta até Mero ao cair da noite de 5.



Patrulhamento e emboscada à gente de Madina/Belel

O objectivo seria formar uma tenaz e obrigar possíveis rebeldes em trânsito na outra margem do Geba a cair na emboscada, em territórios do Cuor. Ao amanhecer de 6, ambas as forças nas duas orlas do Geba patrulhariam cuidadosamente até Finete e Ponta Nova com o intuito de detectar indícios de passagem recente das gentes de Madina/Belel, conhecendo-lhes o trilho. Tudo me pareceu bem, até porque ao início da tarde de 6 iria ser ouvido por um oficial superior responsável pela análise dos processos de condecoração de Adulai Djaló, Cherno Suane, Mamadu Camara e Mamadu Djau, em Bambadinca.

Pelas 6h da tarde de 5, um dispositivo estava instalado na fímbria do palmeiral de Boa Esperança e outro grupo estava posicionado mais acima, junto da antiga povoação de Gã Gémeos. Os dois grupos tinham ordens precisas para só desencadear fogo de espingarda e dilagrama, tais eram os riscos de naquela margem estreita do Geba infligirmos baixas ao Pelotão 63, numa eventual perseguição da força rebelde através da extensa bolanha de Ponta Nova a Mero.

Era uma noite estrelada, estávamos atentos aos ruídos entre Santa Helena e Mero. A partir da meia noite, a temperatura arrefeceu, a altura em que ouvimos vozes do pelotão do Almeida a deslocar-se entre Fá Balanta e Mero, após rusga na região de Santa Helena, tal como estava acordado. A pouca luz permitiu ver vultos em progressão, houve expectativa que aparecesse um grupo rebelde, mas a guerra é mesmo isto: mesmo com total sigilo da operação, o inimigo naquela noite não estava lá.

Patrulhámos ao amanhecer a região, não havia indícios recentes da passagem na região de Gã Gémeos até Gambicilai, tomámos então a estrada de Canturé, onde a força capitaneada por Bacari Soncó [, comandante da milícia de Finete, ] nos aguardava. Bacari exibia em triunfo um carregador de costureirinha, uma granada e um barrete descobertos num trilho recente que se dirigia para Malandim. O patrulhamento não fora em vão: a gente de Madina/Belel passeava-se agora pouco acima de Finete e seguia directamente para a estrada de Gambaná/Saliquinhé. Estavam confirmadas as nossas suspeitas: o inimigo usava como trilhos os caminhos abandonados, supostamente impraticáveis.



O dia de visita à sede do batalhão, Bambadinca


Era um dia limpo, o sol a caminhar para a fornalha do meio dia, sentia-se o capim a alourar e o duro barro da bolanha tornava agradável a caminhada para Bambadinca. Na orla do Geba, já nos esperava o atlético canoeiro, Mufali Iafai. A zona do cais de Bambadinca está em bulício com gente que viera de Dulombi, Gabu e Contuboel buscar os seus abastecimentos. Era um trânsito de GMC, Unimogs e até viaturas civis que rompiam no meio da gritaria das últimas saudações de despedida e do pó da laterite. Avançamos pela estrada, em direcção à rampa. No lado direito, cumprimento os alfaiates e abraço Malã Mané sempre com o seu sorriso aberto onde luz o ouro de todos os dentes da frente. Um cortejo de mulheres com trouxas à cabeça dirige-se para a fonte, um verdadeiro lavadouro público onde estoiram risos e se gesticulam cumprimentos e há falatório entre os soldados e as mulheres.

Caminhamos, cumprimento o Zé Maria, ao balcão do seu estanco, vejo o chefe de posto à porta do correio, despeço-me de um grupo de soldados que vai até à feirinha comprar tabaco e cola e depois visitar familiares, não sem antes os ter avisado que queria o pelotão formado junto ao gabinete do 2º Comandante pelas 14h.

A nossa lista de obrigações está distribuída: o Teixeira, auxiliado por Ussumane Baldé e Bubacar Sambu, vai às transmissões buscar material para o rádio; Casanova, com Sila Baldé, o Raposo, o Alcino e Quebá Sissé, vão tratar dos mantimentos, enquanto o Príncipe Samba procura comprar três sacos de arroz para os seus milícias, quase esfomeados. O mês de Maio é crucial para garantir leite em pó, marmelada, farinha, a mistura popular de café, as barricas de pé de porco, o fardo de bacalhau que vem enlatado.

Reservo para mim o papel de negociador para os materiais de construção civil e a pedincha das munições, faço-me acompanhar do Raposo e de Sadibi Camará. O Setúbal irá procurar desenrascar peças para o Unimog, há que também tratar das camisas para os petromaxes e antes do almoço ainda quero ir com o Pires tratar dos vencimentos em atraso dos milícias de Finete.

Bambadinca, o aquartelamento e os seus homens, são para nós a tabanca grande onde se operam milagres, é o nosso porto de abrigo, é ali que vou roubar os jornais com mais de 2 meses de atraso, ali vamos à enfermaria (que alguns chamam posto médico), aqui se corta o cabelo, se ouve o gralhar das crianças no recreio da escola e há a capela com missa ao domingo e onde repousam os nossos mortos, a depositar em cemitérios neste ou no outro continente...

Passando pela porta de armas, sempre aberta, saúdo o contigente militar e às vezes já distingo as gentes do pelotão Daimler dos amanuenses e escriturários, procuro ir à fala com o Ismael Augusto, o nosso santo milagreiro para os afazeres das viaturas e que dirige a falange dos mecânicos e condutores. É com o Ismael Augusto que se fazem operações com viaturas que não avariam, é graças ao Fernando Calado, o nosso oficial de transmissões, que os rádios funcionam e os seus mecânicos radiomontadores permitem a cantilena permanente, com mais ou menos ruído fanhoso, do nosso rádio em Missirá, o nosso cordão umbilical para gente amiga.

À porta da enfermaria vejo o anafado Furriel Coelho, um excelente mecânico que tem feito milagres com as nossas viaturas ronceiras. Na enfermaria cumprimento o David Payne, depois vejo ao longe o gesticulante alferes Reis e aproveito para lhe pedir que volte a Missirá para tirar as armadilhas junto à fonte de Cancumba. Ele resmunga como vários monossílabos e desaparece. Das cozinhas dos sargentos e oficiais evolam-se cheiros de peixe frito misturados com carne assada. É o auge do frenesim de Bambadinca, perto do almoço. Quem veio do Xime ou dos Nhabijões, quem veio do Xitole ou de Mansambo, está a ultimar os preparativos para regressar, o fim do dia não é de confiança.

Paro, inebriado, com este movimento, saúdo o Tenente Pinheiro, o chefe de secretaria que naquele dia não tem papelada para me distribuir. Há gente na sala de operações, vejo o Major Pires da Silva em azáfama, proponho-lhe conversarmos durante o almoço. Bala, um quase mestre de cerimónias do Comandante, vem cumprimentar-me e avisa-me que já chegou o Major que registará as minhas declarações sobre os processos das condecorações.

Esta a Bambadinca que retenho no olhar, que me toma os cinco sentidos, que vai para lá do horizonte, onde bifurcam as estradas que à direita nos levam até ao Xime e aos quintos do inferno que podem ser a Ponta do Inglês ou o Fiofioli, e à esquerda até à Ponte dos Fulas e ao Xitole, numa longa e belíssima estrada pejada de perigos. Esta a Bambadinca que por detrás da capela e da escola primária tem as casernas dos soldados e as transmissões. A Bambadinca da manutenção militar, dos paióis, das folhas de pagamentos, a Bambadinca onde é possível encontrar um bom bate chapas ou encontrar alimentos frescos ou tratamento médico ou tentar quase sem êxito fazer um telefonema para Lisboa.

Apertado pela fome, vou à messe de oficiais acabar o aerograma para a Cristina. Digo-lhe que estou feliz, que vim a Bambadinca, que naquele dia tudo me encanta e parece que me sinto em férias, reconciliado com todas as asperezas do mundo. Segue-se depois um toque de lirismo e escrevo, não sei se a propósito ou despropósito: "O que é autêntico agora é a amar-te silenciosamente. Sei que Deus confia em nós, em nós espera.".

Como habitualmente faço o relatório como se aquele deve e haver pudesse ter impacto em Lisboa: que chuvisca agora todas as manhãs e que no fim do mês, doa a quem doer, Missirá receberá o estatuto de povoação renascida; que os meus agricultores militares é gente fora de série, mas que estamos a viver as atribulações da falta de arroz; que entreguei o recurso e confio na Justiça; que já chegaram as inundações, se bem que ligeiras, temos os abrigos alagados, as formigas e a bicharada irritam-nos, há muitas tosses secas e paludismos; que estamos a ser sangrados nos efectivos, já estava uma secção das milícias de Missirá em Galomaro, agora vai outra para Cansamange. Despeço-me, amanhã escreverei mais, atravessarei o oceano cheio de ternura e à procura da mulher amada.

Ao almoço, explico quase junto ao ouvido ao Major Pires da Silva os resultados do Discóbolo, da nossa parte. O Almeida já me informou que não encontrou nada. Sinto-me esclarecido sobre a actuação actual das gentes de Madina/Belel, irei emboscar ao longo deste mês. Procuro, sem sucesso, ser aliviado das tarefas diárias a Mato de Cão, dizem-me sempre que não há efectivos em Bambadinca, tenho que fazer das tripas coração, uma ladaínha que oiço há 10 meses.

Findo o almoço, entrego-me ao interrogatório do Major na sala do 2º Comandante. É um homem de voz branda, cabelo escorrido e olhar penetrante. Começa por observar que sem pôr em causa os actos de bravura assinalados no meu relatório, lhe parece excessivo um tal número de comportamentos heróicos. Respondo que foram duas horas de inferno, aquelas que se viveram na noite de 19 de Março [de 1969]; que ouvi demoradamente as diferentes versões de todos os militares, não houvera nenhuma discordância quanto ao destemor de Cherno Suane e o seu morteiro 60, Adulai Djaló e a bazuca, Mamadu Djau também como apontador de bazuca e Mamadu Camará a incitar permanentemente os camaradas que ao fim de hora e meia de fogo começavam a sentir o desespero do fim das munições. O mesmo Mamadu Camará que, inspirado, fora retirar uma viatura de um local ameaçado pelas chamas, ele que nunca conduzira coisa nenhuma.



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Missirá > 1968 > Mamadu Camará, um dos soldados do Pel Caç Nat 52, sob o comando do Alf Mil Beja Santos que lhe propôs um louvor devido à sua acção heróica na noite do ataque ao destacamento, em 19 de Março de 1969 (2).


O Major replicou que havia muita afinidade de comportamentos em situações análogas. Terei respondido algo como isto: "Meu Major, não sou favorável à banalização das medalhas. Tenho uma força de combate altamente moralizada, estamos todos os dias fora do arame farpado e no mínimo a fazer 25 Km para garantir que o Geba seja navegável até Bambadinca. Naquela noite o fogo era intenso e sem tréguas, o alferes que me substituiu fala em canhões sem recuo e os meus soldados confirmam que eram mesmo canhões sem recuo que devastaram e destruíram abrigos, casas e a segurança do arame farpado. Os quatro militares propostos, de acordo com os depoimentos dos caçadores nativos e dos milícias, foram o verdadeiro rastilho moral que nos levou a resistir à brutalidade do ataque. E há outra coisa, o patriotismo. Estava Missirá em chamas, e Mamadu Camará foi hastear a bandeira portuguesa e avisou toda a gente que a bandeira os olhava. Distribuíram os últimos cartuchos e fizeram um pacto de sangue: se os rebeldes entrassem em Missirá aqueles soldados portugueses da Guiné não seriam apanhados vivos. Felizmente , que os rebeldes retiraram mas não quero deixar passar em vão uma façanha onde eu não participei mas que é um exemplo que eu não vou esquecer, e não quero que seja esquecido".

Lentamente, com olhar fixo nos seus apontamentos, o Major levantou-se, disse-me que não sabia que havia gente capaz de dizer e fazer o que ouvira, cumprimentou-me e agradeceu o meu depoimento.

As minhas leituras: Jean Cocteau, Albert Camus e Ellery Queen

Tenho que partir, já passa das 16h, o tempo está contado ao milímetro para entrarmos em Missirá com a primeira escuridão. Foi um dia muito belo na minha vida. No bolso da coxa direita levo A Voz Humana de Jean Cocteau, um monólogo doloroso passado ao telefone entre dois apaixonados que se separam. Viu-o representado por Maria Barroso, no Teatro S. Luiz, penso que em 1965 ou 66. Acabei ontem o romance L'étranger, por Albert Camus. Foi-me oferecido pelo Carlos Sampaio.

De Camus já lera A Queda mas este romance é marcante e não é por acaso que Jean-Paul Sartre o considera monumental, um clássico do absurdo. O personagem, Meursault, é um homem lúcido mas indiferente: a morte da mãe pouco lhe diz, gosta de Maria mas não sabe se a ama, mata um árabe sem nenhuma convicção, como pretexto de defesa; é condenado à morte e espera que haja muito público no dia da sua execução, aspira a ficar menos só nesse momento ouvindo gritos de ódio à sua volta. É uma obra árida, parágrafos desapegados uns dos outros, as frases são ilhas, um nada atrás do nada. Romance irrespirável mas nítido, em que a desordem aparente ganha a coerência da vida caótica e sem sentido que é a questão central da obra filosófica e literária de Camus.

Albert Camus (1913-1960), escritor francês, de origem argelina, ligado ao existencialismo, movimento filosófico e literário liderado por Jean-Paul Sarte (1905-1980). Foi Prémio Nobel da Literatura (1957) e autor dessa obra-prima que é o romance O Estrangeiro. (LG).



Foto: Wikipedia (com a devida vénia...)



Com mais descontracção, li de Ellery Queen Vivenda Calamidade, um romance policial poderoso que faz parte do chamado ciclo de Wrightsville. É um horrível ajuste de contas em que uma mulher vingativa engendra ao nível máximo da perversidade a destruição do marido infiel numa representação inesquecível de vítima que acaba por não poder gozar o sabor de toda a vingança.

Esta noite há emboscada nocturna, contas para fazer, audiências, novos planos. O quotidiano continua, ritmado e do sabor do imprevisível. O que interessa agora é acabar as obras de Missirá. Só que o destino nos troca as voltas e as emboscadas montadas à volta de Madina reinstalam o sobressalto que é o timbre da nossa guerra. E um dia destes vai aparecer de helicóptero um oficial superior que pretende esclarecer a matéria do meu recurso. Como passo a relatar.


___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post anterior > 20 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1680: Operação Macaréu á Vista (Beja Santos) (42): O Tigre de Missirá volta a rugir

(2) Vd. post de 10 de Março de 2007> Guiné 63/74 - P1578: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (37): O horror do Hospital Militar 241 e o grande incêndio de Missirá

Guiné 63/74 - P1703: Álbum das Glórias (11): O autocarro da carreira Bissau/Bissalanca (Victor Barata)

Guiné > Bissau > s/d [1971/73 ] > Um autocarro dos Transportes Colectivos de Bissau, carreira Bissau/Bissalanca!... Uma verdadeira peça de museu... Uma foto para o nosso Álbum das Glórias (1)...

Foto: © Victor Barata (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem do Victor Barata, que foi especialista de Instrumentos de Bordo, na nossa gloriosa FAP (1969/1974).
Esteve na Guiné, de 1971/73, "na linha da frente das DO 27". Aterrou em tudo o que era bocado de pista (2), tendo voado inclusive com o malogrado furriel piloto aviador Baltazar (3).

Ele já pertence à tertúlia, desde Maio de 2006. Faltava-lhe cumprir o ritual das fotos... Aqui estão, para a gente o reconhecer no encontro de amanhã em Pombal. Tem de ter um tratamemto VIP, já que ele é o único representante da Força Aérea no nosso blogue...

Vive há 20 anos na região de Lafões, mais exactamente em Vouzela, onde é empresário ligado á indústria das rochas decorativas. É amigo do Martins Julião (de quem já foi sócio), do Carlos Santos e do Rui Ferreira, e já nos desafiou para uma próximo encontro da nossa tertúlia na bela região de Lafões (área geográfica que compreende os concelhos de Oliveira de Frades, Vouzela e S. Pedro do Sul) (4)...

2. Amigo Luís: Junto anexo as minhas fotos de ontem e hoje para que me concedas a HONRA de pertencer àquela família que tu deitaste na ...Internet e tão bem tens educado e ajudado a singrar.
Muito obrigado e espero que me digas se estas sempre chegaram.

Um abraço

Victor Barata
_____________

Notas de L.G.:

(1) Vd. o último post desta série > 30 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1636: Álbum das Glórias (10): Paunca, CCAÇ 11: Com o PAIGC, depois do 25 de Abril de 1974 (J. Casimiro Carvalho)

(2) Vd. post de 9 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXXIX: Victor Barata, MELEC da FAP (1971/73)

10 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXLI: Ajudem-me a encontrar o tenente evacuado em 1973 do Corredor da Morte (Victor Barata)

(3) Vd. post de:

17 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1668: In Memoriam do piloto aviador Baltazar da Silva e de outros portugueses com asas de pássaro (António da Graça Abreu / Luís Graça)

(4) Vd. post de 14 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1661: Tertúlia: Notícias de Lafões, do Rui Ferreira, do Carlos Santos e da nossa gloriosa FAP (Victor Barata)

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1702: A guerra também se ganhava (ou perdia) nas ondas hertzianas (Helder Sousa, Centro de Escuta e de Radiolocalização, Bissau)

Guiné > Bissau > s/d > O Furriel Mil Trms TSF (Piche e Bissau, 1970/72). Junto ao cais... Depois de sete meses em Piche (junto ao BCAV 2922), passou o resto da comissão no Centro de Escuta e de Radiolocalização do Agrupamento de Transmissões da Guiné.



Guiné > Bissau > s/d [1970-1972] > O Helder Sousa no seu quarto em Bissau... Na parede, um poster (um pouco insólito) do Che Guevara, um ícone da juventude da época, mas também um grande amigo do PAIGC...

Fotos: © Helder Sousa (2007). Direitos reservados.

1. Texto do Helder Sousa (ex-Fur Mil de Transmissões TSF, Piche e Bissau, 1970/72) (1):

Caro Camarada Luís Graça:

Já tratei das formalidades junto do Vitor Junqueira, no sentido de lhe confirmar a minha intenção de estar presente no almoço/convívio/confraternização em Pombal, dando-lhe também conta de que levo um acompanhante e que escolhia a ementa B.

Já contactei também o Carlos Marques enviando-lhe uma foto actual, dando-lhe conta do contacto com o Vitor Junqueira e informando que o acompanhante é também um ex-camarada da Guiné, meu padrinho de casamento, ex-Furriel Miliciano de Transmissões TSF, Nélson Batalha, que esteve e foi ferido em Catió em Abril de 1971, que não está muito bem actualmente e que eu espero e acredito que este evento o venha marcar de forma positiva e revitalizadora.

Em anexo envio algumas fotos tiradas na Guiné que consegui recuperar (não estão grande coisa, mas foi o que consegui) e uma foto actual.

Aproveito agora para dar mais algumas informações sobre mim e sobre a minha estadia na Guiné, utilizando alguma coisa que já enviei ao António Abreu.

Assim, para além daquilo que já indiquei, que me chamo Hélder Valério de Sousa, que vivo em Setúbal, que fui Furriel Miliciano de Transmissões TSF do STM, tenho o n.º de telemóvel 93 202 56 20 e o endereço de mail soushelder@gmail.com , que sou um atento e interessado leitor do blogue e agora já também membro da nossa Tertúlia, com cujos estatutos concordo...

Acrescento que nasci em Outubro de 1948 em Vale da Pinta (Cartaxo), vivi e fui formado nas várias escolas que Vila Franca de Xira proporcionava aos seus e fui para a Guiné aonde cheguei em 9 de Novembro de 1970. Para fazer juz àquela expressão que algumas vezes encontramos de qualquer coisa e um dia, também tive a aplicação prática da mesma que se traduziu pelo facto de ter regressado em 10 de Novembro de 1972, ou sejam 24 meses e um dia.

Fui em rendição individual embora do meu curso de transmissões STM fossemos 7 em simultâneo: 3 fomos no Ambrizete e os outros no Carvalho Araújo, ao que me lembro numa viagem atribulada.

Nós os três do Ambrizete (eu e os Fur Mil de Trms Nélson Batalha e Manuel Martinho Martins) chegámos um dia antes e, como era sabido, a velhice contava..... Curiosamente andou sempre à volta do S. Martinho. Para lá levei os ingredientes necessários para alguns conterrâneos (agora vivo em Setúbal mas à data vivia em Vila Franca de Xira) poderem fazer a festa e quando cheguei de volta de vez foi exactamente para entrar nessa comemoração.

Dadas as condições específicas da especialidade (TSF), fiquei algumas semanas em Bissau, em formação para adaptação às condições de exploração dos postos, tendo acabado por ir parar a Piche (então sede do BCAV 2922, do qual não tenho encontrado nada que refira encontros), tendo andado por lá do início de Dezembro de 1970 ao final de Maio de 1971. A partir dessa data fui para Bissau integrar o Centro de Escuta que era uma das jóias do então criado Agrupamento de Transmissões.
Guiné > Algures > S/d [1970-1972] O Helder Sousa em trabalho de radiolocalização...

Foto: © Helder Sousa (2007). Direitos reservados.



Aí participei na escuta e gravação permanente às rádios dos países vizinhos (Senegal e Guiné-Conakry) bem como dos noticiários em língua francesa para África da BBC e da ORTF:

(i) enviando o resultado (fitas gravadas) para a ACAP (Assuntos Civis e Acção Psicológica) onde pontificava Ramalho Eanes (o cara de pau, como lhe chamávamos, devido ao seu semblante sempre sério e severo) (2);

(ii) fazendo os empastelamentos às emissões de rádio do PAIGC (não eramos a única entidade, tínhamos algumas frequências a nosso cargo);

(iii) fazendo pesquisa das comunicações de telex dos países vizinhos;

(iv) enviando para o ar as emissões gravadas da Voz Livre da Guiné da Frente de Libertação Nacional da República da Guiné (Conakry);

(v) fazendo a escuta e intersepção das comunicações rádio (fonia, poucas, grafia principalmente) do PAIGC;

(vi) registando os teletextos de várias agência noticiosas (MAP, APS, MENA, FrancePress, etc., as quais eram de registo obrigatório, e de outras que íamos pesquisando);

(vii) produzindo acções de radiolocalização; contribuindo com notícias (recolhidas das agências noticiosas...) para uma comunicação chamada Presse Lusitana, salvo erro.

Como se vê, muita actividade, sem dúvida interessante, mas longe da guerra mais dura. Por isso não tenho muitas histórias para contar que possam aproximar-se sequer daquelas que tão bem têm sido retratadas pelos nossos tertulianos, dando-nos conta das angústias, dos medos, da coragem, do altruísmo, da camaradagem, até também de coisas menos próprias, por vezes com tanta intensidade e realismo que nos fazem reviver esses climas e nos transportam para esses locais e ambientes.

Prometo que irei buscar ao meu baú de memórias algumas coisas para partilhar com a Tertúlia (porque, apesar de tudo, também tenho alguns epidódios que merecem ser relembrados) mas ficarão para depois do nosso encontro, pois espero que ele também me sirva para reavivar nomes (os nomes, principalmente, vão ficando nublados...) e ordenar acontecimentos e datas para não dar indicações erradas.

Um grande abraço e até breve!

Hélder Sousa

__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 11 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1652: Tertúlia: Três novos candidatos: José Pereira, Hélder Sousa e Jorge Teixeira

(...) "Chamo-me Hélder Valério de Sousa, vivo actualmente em Setúbal, fui Furriel Miliciano de Transmissões, do STM, cumprindo a comissão de serviço na Guiné entre 9 de Novembro de 1970 e 10 de Novembro de 1972, tendo estado cerca 7 meses em Piche (contemporâneo do BCAV 2922) e o resto da comissão ao serviço do Centro de Escuta e de Radiolocalização do Agrupamento de Transmissões da Guiné.


(2) Além de Ramalho Eanes, na REP.ACAP (Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica), chefiada pelo então major Lemos Pires, trabalhava também, na época, o Cap Otelo Saraiva de Carvalho, então na sua 3ª comissão se serviço no Ultramar... Vd. Autobiografia de Otelo, publicada esta semana no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 954, de 25 de Abril/8 de Maio de 2007.

(...) "Nela foi meu subordinado um 1º cabo com piada, chamado Camacho Costa, que me acompanhou numa tournée que promovi pela Guiné como militares-artistas ali em serviço, fazendo ele a apresentação e a locução dos espectáculos. E para a repartição recrutei um outro 1º cabo em serviço, como escriturário, no Batalhão de Engenharia de Bissalanca e que eu soube fazer locução de profissão na vida civil. Chamava-se João Paulo Dinis, e pouco tempo depois,seria por mim de novo recrutado para o desempenho de importante missão na noite de 24 de Abril de 74" (...)(Excertos de: Autobiografia - Otelo Sariava de Caravalho: Era uma vez um português de 2ª classe. In: JL, 25 de Abril/8 de Maio de 2007, p. 7). (Negritos do editor do blogue).

Guiné 63/74 - P1701: Guileje: Artilharia do PAIGC: a peça 130 mm M-46 (Pedro Lauret)

Mensagem do Pedro Lauret, com data de 27 de Março de 2007:

Caro Luís,

Sobre o último post do Nuno Rubim (1) posso informar que, quando recuperei o pessoal em Gadamael em fins de Maio de 1973 (2), foi-me referido por vários camaradas, sendo um deles, se bem me lembro um capelão, que teriam sido bombardeados por uma nova arma cuja velocidade inicial do projéctil seria próxima da velocidade do som, o que tinha como consequência que quando se ouvia a saída o projéctil, este estava a chegar, não dando por isso tempo para fugir para os abrigos, constituindo mais uma factor de desequilíbrio militar e psicológico.

Este facto recorta com a informação do referido post sobre peças de 130mm.

Um abraço

Pedro Lauret

___________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 27 de Março de 2007 Guiné 63/74 - P1628: Projecto Guiledje: fotografias de armamento e equipamento, das NT e do PAIGC, precisam-se (Nuno Rubim)

(...) "O Projecto Guiledje, no que me diz respeito, tem continuado de vento-em-popa. As investigações a que tenho procedido trazem achegas que permitem clarificar várias questões mal conhecidas. Por exemplo e só para mencionar um dado, Guileje foi bombardeada em Maio de 1973 com canhões s/r de 82 mm, morteiros de 82 e 120 mm e ... só há pouco referenciado, peças de 130mm ! Os Grad (foguetões de 122 mm) não foram aí usados, só mais tarde em Gadamael (ainda por confirmar junto do então comandante da artilharia do PAIGC, com quem espero ter um encontro)" (...)

(2) Vd. posts de:

15 de Junho de 2oo6 > Guiné 63/74 - P878: Antologia (42): Os heróis desconhecidos de Gadamael (Parte I)

15 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P879: Antologia (43): Os heróis desconhecidos de Gadamael (II Parte).

Guiné 63/74 - P1700: Bambadinca: Quando a cantiga... era uma arma (Gabriel Gonçalves)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1971 > O memorial da CCAÇ 2590, erguido na parada do quartel de Bambadinca, no final da comissão dos quadros e especialistas da CCAÇ 2590 (Maio de 1969/Março de 1971) que deram origem à CCAÇ 12, constituída por praças do recrutamento local.

Foto: © Gabriel Gonçalves (2006). Direitos reservados.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Nhabijões > 1970 > Pessoal da CCAÇ 12, destacada no reordenamento de Nhabijões. Em todas as unidades havia gente que sabia tocar e/ou cantar. E fazia-se jus ao ditado popular: "Quem canta, seu mal espanta"... Na CCAÇ 12, lembro-me do Gabriel Conçalves, o Zé Soua, e o Tavares (o nosso escriturário). Na foto, o furriel José Sousa, madeirense, é o primeiro da direita, seguido dos furriéis Reis e Henriques. O tocador de acordeão era o nosso 1º cabo escriturário, o Tavares, se não me engano. Baladeiros e tocadores de viola de outras unidades, lembro-me muito bem do ex-Alf Mil Cav Vacas de Carvalho, do Pelotão de Reconhecimento Daimler 2206 (1969/71), e do ex-Alf Mil da CCS do BART 2917 (1970/72)... Outro tocador de viola, soube-o há dois anos, era o nosso David Guimarães (CART 2716, Xitole, 1970/72). (LG)

Foto: © Humberto Reis (2006). Direitos reservados.

Mensagem do GG (Gabriel Gonçalves), o viola e o baladeiro da CCAÇ 12 que, por sinal, também era, na tropa 1º Cabo Operador Cripto (1), o que na prática o impedia de sair do arame farpado, fazendo dele uma espécie de refém da grande caserna de Bambadinca...
Curiosamente, não me lembro de alguma vez o ter visto de G3 em punho; em contrapartida da, lembro-me bem dele a entrar, amiudadas vezes, no nosso bar e messe de sargentos com a viola debaixo do braço... Hoje sei que uma das suas grandes paixões é a pesca... Infelizmente, também nunca o vi a pescar num rio da Guiné, ali por perto: o Udunduma, o Geba... Ele, de facto, vivia - ele e os outros criptos - numa espécie de prisão que tinha muito pouco de dourada: é um facto que nunca teve um ataque a Bambadinca, que nunca saiu para o mato... Mas imagino como é que um gajo pode ficar apanhado dentro do arame farpado.... Como uma desgraça nunca vem só, o GG terá o último de nós a ter direito a um periquito, ou mesmo é dizer, passaporte para poder voltar a casa... Ele já contou essas peripécias aqui, no nosso blogue (2) (LG)

Henriques:

A pouco e pouco as recordações vão chegando, apoderando-se de mim uma certa nostalgia, pois na verdade passámos bons momentos lá em Bambadinca.

Recordo que uma ocasião, estava eu na cantina das praças, entrou a ordenança do comandante e dirigindo-se a mim, intimou-me por ordem do comandante a comparecer na messe dos oficiais e que levasse a viola; claro que tive que obedecer à ordem, mas bastante contrariado, pois eu gostava de cantar, como sabes, mas na companhia da malta porreira.

Quando lá cheguei, ao passar o guarda-vento, pus-me em sentido com a viola do meu lado direito, qual G3, e bradei:
- O meu comandante dá licença?
- Está à vontade, disse ele, podes entrar e começa lá a cantar!

Adivinha tu qual foi a primeira canção que eu cantei? Pois claro "ISTO É TÃO BERA" (3). Foi a forma que arranjei para me vingar. Resta-me acrescentar que no refrão fui secundado brilhantemente por alguns oficiais milicianos, como por exemplo: Machado, Abel, Rodrigues (este último, que Deus o tenha, de tanto berrar até ficou vermelho).

Resta-me acrescentar que o major BB [, da CART 2917], ficou fulo da vida e ameaçou-me que se eu não cantasse outra coisa de jeito, mandava-me cortar o bigode!

Um abraço, GG

__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. posts de:

18 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1377: CCAÇ 2590/CCAÇ 12: Apresenta-se o 1º Cabo Operador Cripto Gabriel Gonçalves
26 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1464: Oficiais, sargentos e praças: tropa é tropa, uísque é uísque (Gabriel Gonçalves / Luís Graça)
(2) Vd. post de 2 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1485: Bambadinca revisitada... ou os azares de um operador cripto em fim de carreira (Gabriel Gonçalves, CCAÇ 12)
(...) "Como tu dizes, realmente eu estive trancado no quartel, mas foi durante 22 meses, porque o meu periquito não chegou e, segundo me constou, o rapaz era sobrinho de um tenente-coronel e deu baixa ao hospital. Quando deram nota da ocorrência para a repartição de sargentos e praças, o responsável que recepcionou a nota esqueceu-se de nomear um substituto e lá fiquei eu a ver-vos partir e a gramar mais dois meses daquela merda.
"Aqueles dois meses foram os piores da minha vida... de tal maneira que em dada altura resolvi deixar de alinhar na escala de serviço, com a anuência dos meus superiores, passando apenas a dar apoio aos periquitos. Como tinha mais tempo disponível passei estupidamente a dedicar-me às bazucas [, garrafas de cerveja de 0,6 ], e dessa forma andava anestesiado o que me trouxe alguns dissabores" (...).
(3) Vd. post de 24 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1695: Cancioneiro de Bambadinca: Isto é tão bera (Gabriel Gonçalves)

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1699: Guileje, SPM 2728: Cartas do corredor da morte (J. Casimiro Carvalho) (1): Abatido o primeiro Fiat G 91

Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/73) > O Fur Mil Op Especiais Carvalho, junto à peça (e não obus) 11.4. O Nuno Rubim já aqui esclareceu esta confusão entre peça 11.4 e obus 14: "De acordo com um relatório oficial português que encontrei no AHM [Arquivo Histórico Militar], no dia 16 de Maio [de 1973], isto é, dois dias antes do ataque, as três peças de 11, 4cm foram substituídas por 2 obuses de 14 cm. Agora se compreende a polémica sobre o assunto. Um deles veio sem aparelho de pontaria e não foi recebida nenhuma tábua de tiro ! Sem comentários ...Esses 2 obuses foram pois abandonados, mas sem possibilidades de entrarem em acção e capturados pelo PAIGC" (1).

Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/73) > O Fur Mil Op Especiais Carvalho, no abrigo do Morteiro 10.7.

Fotos: © José Casimiro Carvalho (2007). Direitos reservados.


Montemor-O-Novo > Ameira > Herdade da Ameira > 14 de Outubro de 2006 > 1º encontro da tertúlia Luís Graça & Camaradas da Guiné > O editor do blogue, Luís Graça, e o Casimiro Carvalho.

Foto: © Manuel Lema Santos (2006). Direitos reservados.


O Fur Mil Op Esp José Casimiro Carvalho, actualmente residente na Maia, confiou-me, no primeiro encontro da nossa tertúlia - na Ameira, em 14 de Outubro de 2006 - (2), uma pequena colecção de aerogramas e cartas que escreveu à família durante o período em que esteve em Guileje e depois Cacine e Gadamael, coincidindo com o nosso abandono de Guileje (3). A unidade a que ele pertencia - a CCAV 8350, Os Piratas de Guileje - esteve lá entre Dezembro de 1972 e Maio de 1973.

Alguma dessa correspondência vai até ao período do pós-25 de Abril, altura em que ele esteve na zona leste da Guiné, Paúnca, integrado na CCAÇ 11. Ao todo são cerca de meia centena de cartas e aerogramas (neste lote estão incluídos ainda meia dúzia de aerogramas que lhe foram enviados por amigos e camaradas da Guiné, depois de ter saído de Cacine) (4) .

Nesta correspondência pode encontrar-se algum apontamento ou outro de maior interesse documental para o conhecimento do quotidiano das NT no sul da Guiné (incluindo a actividade operacional), nomeadamente no chamado corredor da morte. Neste primeiro artigo publicam-se alguns excertos da correspondência relativa a Fevereiro e Março de 1973.

Em 25 de Março de 1973, num domingo e em pleno dia, o aquartelamento de Guileje é duramente atacado durante cerca de hora e meia. São usados foguetões (presumimos que fossem Katiusha, os famosos órgãos de Estaline). Um caça-bombardeiro Fiat G-91, que vem em socorro, é abatido sob os céus de Guileje... É o primeiro, de que há registo na história da guerra da Guiné... Vinte quatro horas depois, o tenente piloto aviadorMiguel Pessoa (5), é resgatado são e salvo pelo grupo de operações especiais do Marcelino da Mata...

A selecção, a revisão e a fixação do texto são da responsabilidade do editor do blogue. (LG)

Guileje, SPM 2728: Cartas do corredor da morte (J. Casimiro Carvalho) (1): Abatido o primeiro Fiat G 91

Guileje, s/d, [Fevereiro de 1973 ?]

(...) Saímos às 6 da manhã e chegámos às 14 da tarde, sem comer e muitos cansados. Estivémos quase na República da Guiné, e até ouvimos um tiro de caçadores turras. Antes de aí chegarmos fomos protegidos com 20 tiros de obus 11,4 cm, cada granada de 25 kg a passar por cima de nós. Depois quando avançámos, vimos árvores cortadas pelas granadas, e quando voltámos, muito cansados, fomos atacados por um enxame de abelhas furiosas... Era ver quem mais fugia. Eu deixei arma e carregadores para trás, para fugir... Quem mas trouxe foi um preto (...).

Guileje, 11/2/73
(...) Hoje estou de Sargento de Dia: tenho que ir provar o vinho e o tacho, para ver condições de se estão em condições de ser distribuídos.

Hoje é domingo, tudo calmo. Estamos à espera da avioneta que nos há-de trazer notícias vossas. Finalmente espero receber correio.

(...) Ontem houve alarme no quartel. Fomos todos para os abrigos, menos eu que fui para um dos morteiros, até termos ordem de retirar (eu também tenho um emissor-receptor, para receber ordens de fogo ou de cessar) (...).


Guileje, 22/2/73

(...) Recebi ontem, dia 21 (dia em que faço 3 meses de Guileje), o seu areo de que gostei imenso. (...) Agora tem havido poucas saídas para a mata; esta noite o sentinela deu uma rajada de alarme, depois de ter ouvido dois rebentamentos a cerca de 300 m do quartel. Fomos todos para as valas e eu para o meu morteiro. Parece que tinham sido duas armadilhas nossas, que rebentaram talvez derivado a algum animal. Ainda não foram ver, mas deve ter sido.

Hoje fui à água, a cerca de 3 ou 4 km do quartel (de camioneta, claro), sem novidade especial (...).

Guileje, 3/3/73
(...) Tenho tido muitas patrulhas, ando estafadíssimo.

Guileje, 21/3/73

(...) Cada vez há menos patrulhas agora, até me admiro... Agora é quase só dormir e fazer serviços dentro do quartel, o que não é nada mau.

Guileje, 21/73/73
(...) O milícia que tinha ficado sem as pernas, morreu no mesmo dia por ter ficado sem muito sangue. Levou pouco soro aqui na mata, e estava a perder imenso sangue.

(...) Hoje pedi uma caçadeira a um preto, emprestada, tinha arranjado uns cartuchos, e fui aos pardais que andam em bandos e matei cinquenta. Portanto, logo à noite há petisquinho (...).

Guileje, 24/3/73
(...) Faço amanhã cinco meses de Guiné, o que já não é nada mau e nos traz bastante felizes. Pois nós quando fazemos anos, há festa; aqui, em vez de fazermos anos, fazemos meses.

Pois estou feito um bebedor de cerveja, que não imagina. Olhe que começo, às vezes, a beber às 9 e tal da manhã, mas não me faz mal e isso é o que interessa. Bem, com a água daqui também não há problemas, pois é boa.

Anteontem, na estrada que se está a abrir, onde morreu o infeliz alferes, foi detectada uma mina dos turras, posta naquela madrugada, talvez. Deslocou-se um grupo do quartel para ir levantá-la e foram detectadas mais cinco. Livra, olhe se lá caíamos. Andamos com sorte (...)

Guileje, 25/3/73

(...) Hoje, domingo, aniversário: 5 meses de Guiné (...). Dia 25, 13 horas: o aquartelamento de Guileje foi flagelado com foguetões e granadas de canhão sem recuo, caindo perto, e a mais próxima a cerca de 15 m do arame farpado. Rápida defesa do mesmo aquartelamento, com fogo de artilharia e de mort 10,7 cm (1). E pedido imediato de caças-bombardeiros Fiat, tendo vindo um, o qual depois de várias voltas seguiu para o objectivo, não voltando nunca mais.

Bissau, Comando-Chefe, estranhando a demora e o mutismo do piloto, manda outro Fiat (milhares de contos cada um)... Faz reconhecimento à zona, avistando o avião caído dentro de mata densa e perto o piloto fazendo sinal de very-light, mas não podendo ser recolhido.

Logo de seguida deslocaram-se de Bissau para Guileje 2 aviões-bombardeiros pesados DC-6. Seguidamente dirigiu-se, também, para cá um helicanhão, aterrando no heliporto para seguir depois para Cufar. O ataque de fogo dos turras aqui durou cerca de 1 hora, intervalando o fogo. Pensa-se que isto é represália pelos feridos e possível morto ou mortos que lhes provocámos por meio de minas, como já contei.

Durante toda a tarde não houve mais nada a assinalar, e o jantar decorreu normalmente (...)

(...) Nunca na história da Guiné (pelo menos) tinha caído um caça a jacto Fiat. Isto é uma alegria para os turras, pois só havia 3 ou 4 Fiats aqui na Guiné.

Junto envio uma foto tirada junto ao morteiro que me está distribuído, em caso de ataque (...).

Guileje, 27/3/73
(...) O resto da história do ataque ao nosso quartel: o piloto do Fiat (5) estava vivo mas perto do carreiro da morte e em mata densa, porque se viu um ou dois very-lights que se deduziu terem sido disparados por ele.

Portanto, no dia 25, como estávamos para sair, mas houve ordem em contrário, deitei-me. Passada meia-hora, veio o nosso alferes e disse para estarmos prontos às 4.30h da manhã, com bornal, ração de combate (a primeira vez que a comi em Guileje) e água.

Saímos e entrámos na mata sempre a andar por caminhos sinuosos, só mata densa com lianas e troncos a fazer-nos tropeçar. Até dizíamos mal da nossa vida... Eu levava uma lata de leite, uma lata de chocolate, uma de fruta, uma de sumol, uma de lanche, uma de sardinhas, marmelada, queijo, pão e cantil de água, um rádio, espingarda, cartucheiras, 100 balas, uma granada de fumo... Isto tudo numa balança era de assustar, e durante 9 horas de mata cerrada... Ainda se fosse por estrada, essas nove horas pareceriam 3 ou 4.

Por cima de nós andavam os caças-bombardeiros Fiats, bombardeiros pesados, (?) helicópteros, avionetas e um avião de reconhecimento. Desceram na mata 2 grupos de paraquedistas, um grupo de operações especiais - Marcelino e o seu grupo - e nós, que já lá estávamos...

Passado pouco tempo os Op Esp encontraram o homem e disseram-lhe (estava sentado à beira de uma árvore):
- Vamos embora. - Ao que ele respondeu (pensando que eles eram turras, pois são todos pretos e com armas turras):
- Não vou nada, ides-vos cozer [foder], matem-me já, que eu não saio daqui. - Então disseram-lhe:
- Sou o Marcelino. -E aí ele parece que ressuscitou. Meteram-no num heli donde seguiu até Bissau.

Os mais sacrifiacdos fomos nós quando regressámos, já sem água, cansados, a cair, por meio da mata. Deus me livre. (...)

________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 18 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1672: Guileje: a artilharia do PAIGC (Nuno Rubim)

Sobre o armamento de Guileje, vd. ainda os posts de:

27 de Março de 2007 > Gúiné 63/74 - P1628: Projecto Guiledje: fotografias de armamento e equipamento, das NT e do PAIGC, precisam-se (Nuno Rubim)

15 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1434: Artilharia em Guileje: a peça 11.4 e o obus 14 (Nuno Rubim)


(2) Vd. post de 15 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1177: Encontro da Ameira: foi bonita a festa, pá... A próxima será no Pombal (Luís Graça)

(3) Vd. posts de:

31 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1478: Unidades de Guileje: Coutinho e Lima, ligado ao princípio e ao fim (Nuno Rubim)

2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCI: Antologia (6): A batalha de Guileje e Gadamael (Afonso M.F. Sousa / Serafim Lobato)

(4) Vd. posts de:

30 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1636: Álbum das Glórias (10): Paunca, CCAÇ 11: Com o PAIGC, depois do 25 de Abril de 1974 (J. Casimiro Carvalho)

25 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1625: José Casimiro Carvalho, dos Piratas de Guileje (CCAV 8350) aos Lacraus de Paunca (CCAÇ 11)

(...) "Embarcámos em Outubro de 1972 e já em Bissau seguimos numa LDG para Gadamael e daí para Guileje, em coluna auto, com uma segurança reforçada (na óptica de um maçarico, hé-hé-hé).

"Já em Guileje , em sobreposição com Os Gringos [ CCAÇ 3477, 1971/73], passámos um período de muito trabalho de patrulhas e não só. Passámos uns meses descansados, tirando as patrulhas, dia sim dia não, com que o Comando nos premiava. Andava a caçar pássaros com uma caçadeira que o chefe da tabanca me emprestava (só pagava os cartuchos) e era um ver se te avias, era aos 50 pardais cada tiro, e os jubis [ putos ] lá andavam a apanhá-los e atrás dos que só ficavam feridos. Era cada arrozada!!!

"Um dia, o alferes Lourenço, a manusear uma granada duma armadilha , e rodeado de militares - eu estava emboscado com o meu grupo -, a mesma explodiu-lhe na mão, tendo-o morto instantaneamente. Ficou sem meia cabeça e o abdómen aberto. Eu, já no quartel, ao ajudar a pegar no cadáver, este praticamente partiu-se em dois… Que dor!... Chorei como nunca, e isto foi o prenúncio do que nos esperava".

(..." Um dia – já não posso precisar quando - fomos atacados com canhões sem recuo, e nesse espaço um Fiat G 91 , que devia andar na área, foi contactado pelo comandante, o Cap Abel Quintas, que lhe indicou o rumo das saídas e ele lá seguiu. Mais tarde soube que tinha sido abatido por um míssil Strella…

"Vieram os Páras e o Grupo do Marcelino (Os Vingadores, de Operações Especiais), numa confusão de tropas que eu nunca tinha visto, pudera! Pedi ao Marcelino para me levar na operação de resgate do piloto Ten Pessoa (penso que era esse o nome), tendo ele anuído, mas o meu comandante não foi na conversa, não obstante o Marcelino, ele próprio, ter dito que me trazia de regresso nem que fosse ás costas. Que pena, não tenho essa façanha no meu currículo.

"Entretanto fui nomeado para comandar os reabastecimentos a Guileje, antes do isolamento, entre Cacine e Gadamael, por barco (claro).

"Andava eu nestas andanças a curtir o sol em LDM ou LDP, quando Guileje foi abandonada, por ordem do então Major Coutinho Lima, e começou a matança no verdadeiro Inferno. Desse lapso de tempo a minha cabeça recusa-se a qualificar e quantificar o horror porque passaram todos os intervenientes deste filme de terror. Só tenho pedaços desse filme na minha memória. Recusei-me a falar durante muitos anos sobre este período da minha vida na Guiné" (...).


Vd. ainda os posts:

19 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1613: Com as CCP 121, 122 e 123 em Gadamael, em Junho/Julho de 1973: o outro inferno a sul (Victor Tavares, ex-1º cabo paraquedista)

15 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P879: Antologia (43): Os heróis desconhecidos de Gadamael (II Parte).

2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVIII: No corredor da morte (CCAV 8350, Guileje e Gadamael, 1972/73) (Magalhães Ribeiro)


(5) Segundo o António Graça de Abreu (Diário da Guiné, 2007, nota 16, p. 91), tratou-se do tenente piloto aviador Miguel Pessoa: vd. posts:

19 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1675: 28 de Março e 5 de Abril de 1973: cinco aeronaves da FAP abatidas pelos toscos mísseis terra-ar SAM-7 Strella (Victor Barata)

17 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1668: In Memoriam do piloto aviador Baltazar da Silva e de outros portugueses com asas de pássaro (António da Graça Abreu / Luís Graça)

Guiné 63/74 - P1698: Cancioneiro de Mansoa (10): O 25 de Abril, a Barragem de Castelo de Bode e a descoberta da palavra solidariedade

Capa dos cadernos do ex-ranger Magalhães Ribeiro. Pode ler-se:

(1) Em Lamego... ser ranger;

(ii) Em Tomar... participar no 25 de Abril;

(iii) Em Mansoa, Guiné... arriar a última Bandeira.


Foto: © Magalhães Ribeiro (2005). Direitos reservados.


1. Num caderno, de 47 páginas, o nosso camarada Eduardo Magalhães Ribeiro conta, em verso, as peripécias da sua atribulada vida militar. Chamei a esses cadernos o Cancioneiro de Mansoa, por uma simples analogia com o Cancioneiro do Niassa. As diferenças são óbvias, nomeadamente quanto ao conteúdo.


O Cancioneiro de Mansoa está imbuído da ideologia ou (da mística) ranger, não é uma obra colectiva, é escrito por um dos últimos guerreiros do Império e, para mais, ao longo dos anos que se sucederam ao 25 de Abril de 1974 em que o autor também participou... Por sua vez, o Cancioneiro do Niassa (2) tem outra origem, outro contexto, outro tom...

De qualquer modo, o Magalhães Ribeiro não me levou a mal eu chamar Cancioneiro de Mansoa ao conjunto destes versos, ditados pela nostalgia do império perdido e pela afirmação do valor e do patriotismo do soldado português.

Recordo aqui a introdução aos cadernos (uma nota explicativa da sua origem e razão de ser):

"O meu velho gosto pela escrita sempre me impulsionou para, ao longo do tempo, alinhavar algumas palavras em bocados de papel, que ia guardando com as minhas outras relíquias, sem qualquer pretensiosismo, por ali, nas gavetas.

"Entretanto, li num dos jornais da Associação das Operações Especiais - da qual sou um dos orgulhosos sócios -, um apelo à colaboração de todos os Rangers, na sua composição, através do envio de artigos, contos, estórias, histórias, etc.

"Pensei então, modestamente, que os meus escritos talvez pudessem ter algum interesse para o efeito e, caso assim fosse julgado, cooperaria com muito gosto.

"Pelo que peguei nos velhos papéis e fui-os passando para outros papéis mais limpos, sem preocupações de qualquer requinte poético ou intelectual, propositadamente, através de linguagem popular e directa, de modo a ler-se e perceber-se o que realmente penso e sinto sobre as coisas e loisas de que eu gosto, sem outras interpretações ou distorções.

"Neste caderno reuni aquilo que diz respeito ao meu serviço militar que, por ter sido muito diversificado, dinâmico e histórico, constituiu para mim uma fonte inesgotável de aprendizagem, experiência, orgulho e inspiração.

"Como não podia deixar de ser, dedico especial atenção aos seus momentos mais altos: (i) o Curso de Operações Especiais, em Lamego; (ii) a participação no 25 de Abril; (iii) a comissão na Guiné; e, por fim, (iv) o arriar da última Bandeira Nacional em Mansôa" (...).

2.- Transcrevo hoje o relato da sua participação - por ordem do seu capitão, em Tomar - nas peripécias do 25 de Abril e a sua descoberta de uma palavra bonita, solidariedade... Na altura era um simples 1º Cabo Miliciano,

O Ranger Magalhães Ribeiro foi Furriel Miliciano da CCS do Batalhão 4612/74 - Mansoa/Guiné. Foi mobilizado para a Guiné já depois do 25 de Abril de 1974.


O 25 de Abril, a Barragem e a CPE

O 25 de Abril, quanto oportunismo?!
Quanto vigarista nele se governou?!
Quanto do seu sentido lhe foi alterado?!
Quanta injustiça em seu nome se gerou?!


Depois das Caldas da Raínha,
Lamego e Évora longe vão,
Seguiu-se a cidade de Tomar,
1ª Companhia de Instrução.

Regimento de Infantaria 15,
Ía eu no décimo mês militar,
Em Abril de setenta e quatro
Aconteceu numa noite de luar.

Gerou-se confusão no quartel,
Alguém correu a dar o alarme,
Corria o dia vinte e cinco
Ordem: - Toda a gente se arme!

Falava-se numa revolução,
Tropas a avançarem p’rá Capital,
A ocuparem as rádios e a TV
E outros d’importância vital.

Como achei aquilo estranho
E estava a ficar ensonado,
Fui tomar um banho e deitei-me;
De manhã... ruídos por todo lado!

Os ouvidos todos nos rádios,
Seguiam os acontecimentos,
Alguns mostravam indiferença,
Outros devoravam aqueles momentos

- O nosso Capitão quer vê-lo, já!-
Diz-me de repente um soldado;
Ao chegar junto dele reparei
No seu ar nervoso e preocupado.

- Meu capitão, bom dia, dá-me licença?
- Tenho uma missão p’ra lhe confiar...
Há um levantamento militar geral...
Com intenção do regime derrubar!

- Veio ordens para os Pides prender...
E controlar todos os pontos vitais...
Por isso, tenho aqui neste mapa
Já definidos todos os locais!

E, perante a minha curiosidade
Disse: - Em Lisboa rein’a confusão...
O Movimento das Forças Armadas...
É dono do Poder e da Decisão.

- Dividi as missões e o pessoal...
A si, tocou segurar a barragem…
Castelo de Bode, veja aí no mapa…
Um Cabo, treze homens, siga viagem!

Chegado lá, estudei a área
Rio, coroamento, margens e central,
Sete homens vigiam, sete descansam,
Olhos atentos a algo anormal.,

Mandei montar a tenda no jardim
As horas passaram rapidamente
O tempo do almoço passou e, nada…
- Liga o rádio p’ró quartel, urgente!

Diz o Cabo: - Está avariado!
Ora, sem rádio e sem almoço,
Também se passou a hora de jantar
E, para comer, nem um tremoço.

O Cabo começou então a divagar:
- Ou está tudo morto no quartel…
E s’esqueceram de nós aqui…
Ou foram p’ra Lisboa, c’um farnel!

Entretanto no nosso controle auto
Os civis davam sinais de alegria,
Faziam-me perguntas suspeitas
Qu’eu declinava, e não respondia.

Ao fim da manhã do outro dia,
Deleguei o Comando ao Cabo
E fui pesquisar os arrabaldes
Pois à vista, p’ra comer, nem um nabo.

Contado todo o dinheiro, concluí
- Nunca vi gajos tão tesos, porra!
Lembrei-me da regra simples da tropa:
Quem não se desenrasca, que morra!

Na margem direita, um pouco abaixo,
Vi uma Estalagem da CPE,
Qualquer coisa da Electricidade
E com coragem avancei, pé ante pé.

Expus ao Chefe o meu problema
E, descobri, naquela fresca manhã,
Que a palavra solidariedade
Afinal não era uma palavra vã.

A tropa não era só marcar passo!
Permitia conhecer outras terras,
Com belas paisagens e monumentos,
Por entre cidades, vales e serras.
Autor: Magalhães Ribeiro - Cabo Miliciano - 1ª Companhia de Instrução - 4º pelotão > RI 15 > Tomar, Abril de 74

_____________


Notas de L.G.:



(1) Vd. post de 1 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXVI: Cancioneiro de Mansoa (1): o esplendor de Portugal (Magalhães Ribeiro)



(2) Vd. post de 11 Maio de 2004 > Blogantologia(s) - XI: Guerra Colonial: Cancioneiro do Niassa (1) (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P1697: Tertúlia: Presente em espírito no encontro de Pombal (4): Mendes Gomes


1. Mensagem do Mendes Gomes (1), a quem agradeço a camaradagem e a sinceridade, respeitando os seus sentimentos profundos. A ida aos nossos encontros é meramente facultativa, não fazendo parte das nossas obrigações como tertulianos... Vai quem pode e quem quer... Naturalmente que eu gostaria de conhecer ao vivo (e dar um abraço a) o nosso Palmeirim de Catió... Não faltarão ocasiões, se nós decidirmos continuar a blogar por mais uns tempos... não digo até que a voz nos doa mas pelo menos até que a vontade, o tempo e as forças não nos faltem... Joaquim, serás seguramente lembrado em Pombal. Luís.



Caro Luís:

O tempo vai passando e não devo nem quero deixar de te dar uma satisfação sobre o porque não vou comparecer no encontro. Com muita pena. Também as comuniquei ao Junqueira. Como organizador. A ti, porque és o grande e emérito timoneiro deste fabuloso blogue...

São duas as razões. No fundo é só uma. Como tive oportunidade de te dizer, logo no primeiro contacto contigo, por telefone, já lá vão uns mesitos, fui uma única vez aos antigos convívios anuais da minha companhia, a CCAÇ 728.

Foi em Évora, no RI 16, o quartel donde saímos para o ultramar. Uma romagem. Senti-me tão indisposto...uma estranha sensação ao reviver tudo...uma dolorosa frustração... que jurei não voltar. E não voltei.

É por esse mesmo motivo e por uma questão de coerência e respeito pelo pessoal da minha companhia que muito prezo, que não vou estar neste 2º encontro dos tertulianos. Estarei em espírito (2)...fazendo força para seja uma grande festa. Ele vai ser um sucesso, estou certo.

As minhas desculpas. Espero que compreendam. A minha cabeça funciona assim...Sou assim. Que hei-de fazer?...

Um grande abraço tertuliano para ti e todos.

Mendes Gomes

_________

Nota de L.G.:


(1) Vd. último post do nosso camarada Mendes Gomes:

5 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1646: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (11): Não foi a mesma Pátria que nos acolheu


XI (e última) Parte das memórias de Joaquim Luís Mendes Gomes, ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Os Palmeirins (Como, Cachil, Catió, 1964/66) (1).

(2) Outras mensagens de camaradas nossos que mandam dizer que estarão em espírito connosco, em Pombal, no dia próximo dia 28 de Abril de 2007:

24 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1690: Presente em espírito no encontro de Pombal (3): Paulo Raposo / Hernani Acácio

19 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1678: Tertúlia: Presente em espírito no encontro de Pombal (2): Manuel Pereira (CCAÇ 3547, Contuboel e Bafatá)

14 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1660: Tertúlia: Presente em espírito no encontro de Pombal (1): Martins Julião (CCAÇ 2701, Saltinho, 1970/72)

terça-feira, 24 de abril de 2007

Guiné 63/74 - P1696: Estórias cabralianas (21): O Amoroso Bando das Quatro em Missirá (Jorge Cabral)

Montemor-O-Novo > Ameira > Herdade da Ameira > 14 de Outubro de 2006 > 1º encontro da tertúlia Luís Graça & Camaradas da Guiné > Ao centro, em primeiro plano, o Jorge Cabral, tendo à sua esquerda o Vacas de Carvalho, sendo ambos contemporâneos do Sector L1 (Bambadinca) (1969/71). Sentados à mesma mesa, o António Santos (de costas) (Nova Lamego, 1972/74) e o Aires Ferreira (Mansoa, 1967/69).

Foto: © Manuel Lema Santos (2006). Direitos reservados.



Post de 17 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 -DXLVI: Estórias cabralianas (5): o Amoroso Bando das Quatro em Missirá (numeração repetida, por lapso do editor) (1).

Na altura deixei-lhe esta nota de admiração e de carinho:

Jorge: Da tua janela vê-se outra Guiné, outra guerra, outro mundo, os homens e as mulheres em carne e osso… O teu sentido de humor é único… Sou fã das tuas short stories… Cuida-me bem dessa mina literária… Eu sei que é uma técnica difícil… Quanto à tua carta (que eu pressupus aberta…), ela merece o meu aplauso e a minha total concordância (2)…

Amigalhão, um abraço. Luís Graça


O Amoroso Bando das Quatro
por Jorge Cabral (3)

Nos Destacamentos em que vivi, todos eram bem recebidos, à boa maneira da gente da Guiné, cuja cativante hospitalidade foi muitas vezes confundida com subserviência ou portuguesismo.

Djilas, batoteiros profissionais, artesãos, doentes, feiticeiros, alcoviteiros, parentes dos soldados, visitavam o aquartelamento e às vezes ali permaneciam, fazendo negócios, combinando casamentos, tratando-se ou tratando, ou simplesmente descansando. Desconfio mesmo que alguns guerrilheiros terão passado férias em Missirá…

Uma regra, porém, tinham todos de cumprir à chegada. Deviam apresentar-se ao Comandante, dizer quem eram e o motivo da visita. Claro que muitos mentiam, o que era irrelevante, pois o que interessava era o significado simbólico da apresentação, como expliquei muitas vezes aos que não concordavam com esta política de porta aberta.

Estávamos, pois, habituados às mais estranhas personagens, mas ficámos agradavelmente surpreendidos, quando num dia de Dezembro, ao pôr-do-sol, entraram no quartel quatro trabalhadoras sexuais. Eram jeitosas fulas do Gabu que, respeitadoras da hierarquia, comigo combinaram os preços e as condições dos serviços, encarregando-me da cobrança.

Encontrando-se o Furriel Branquinho com paludismo e o cabo Morais com dor de dentes, restavam apenas sete brancos, capazes de usufruir de tão inesperada benesse. Efectuados os pagamentos, começou a actividade, que eu previa satisfatória, mas que a curto prazo foi interrompida por alta gritaria.

Primeiro, irrompeu uma, dizendo ter sido enganada, pois cabo e furriel a queriam usar, com um só pagamento. Acontecera que o cabo substituíra o furriel na função, pensando que a mulher não repararia, esquecendo-se que o Furriel tinha um braço engessado, pormenor que logo a alertou. Furiosa, acolheu-se na minha cama, juntando-se à que lá se encontrava.

Ainda nem um quarto de hora passara, logo à porta do abrigo aparece outra, queixando-se do Cabo Rocha. Dizia ela que não era como as raparigas de Lisboa, que até no sovaco… Também esta se meteu na minha cama.

De seguida, surgiu a terceira afiançando que o Básico-Cozinheiro era suma bajuda, pois sangrava, sangrava. Claro, mais uma na minha cama.

Eis-me assim feito sultão, aconchegado entre as quatro, tranquilo e em Paz. Rei e súbdito, protector e protegido, entre seios e ventres, negros e suaves, nunca dormi tão bem.

De manhã partiram.

Quem as teria mandado, passou a perguntar todos os dias o Básico-Cozinheiro, sarado já o freio e louco de desejo.

Garanti-lhe ter sido uma oferta do Movimento Nacional Feminino. Convencido, sei que lhes escreveu, implorando uma repetição. Nunca lhe responderam. E o certo é que elas não voltaram…

Jorge Cabral

___________

Notas de L.G.:

(1) Lista (re)ordenada das Estórias Cabralianas:

20 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1682: Estórias cabralianas (1): A mulher do Major e o castigo do Alferes (Jorge Cabral)

23 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1688: Estórias cabralianas (2): O rally turra (Jorge Cabral)

23 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1689: Estórias cabralianas (3): O básico apaixonado (Jorge Cabral)

18 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLVIII: Estórias cabralianas (4): o Jagudi de Barcelos.

23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXV: Estórias cabralianas (5): Numa mão a espingarda, na outra...

13 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXIV: Estórias cabralianas (6): SEXA o CACO em Missirá

17 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXXIX: Estórias cabralianas (7): Alfero poi catota noba

13 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCC: Estórias cabralianas (8): Fá Mandinga no Conde Redondo ou o meu Amigo Travesti

20 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXVII: Estórias cabralianas (9): Má chegada, pior partida

3 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P836: Estórias cabralianas (10): O soldado Nanque, meu assessor feiticeiro

4 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P936: Estórias cabralianas (11): a atribulada iniciação sexual do Soldado Casto

20 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P974: Estórias cabralianas (12): A lavadeira, o sobretudo e uma carta de amor

28 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1128: Estórias cabralianas (13): A Micá ou o stresse aviário (Jorge Cabral)

24 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1313: Estórias cabralianas (14): Missirá: o apanhado do alferes que deitou fogo ao quartel (Jorge Cabral)

14 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1344: Estórias cabralianas (15): Hortelão e talhante: a frustração do Amaral (Jorge Cabral)

14 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1369: Estórias cabralianas (16): As bagas afrodisíacas do Sambaro e o estoicismo do Sousa

10 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1419: Estórias cabralianas (17): Tirem-me daqui, quero andar de comboio (Jorge Cabral)

26 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1463: Estórias cabralianas (18): O Dia de São Mamadu (Jorge Cabral)

18 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1534: Estórias cabralianas (19): O Zé Maria, o Filho, Madina/Belel e um tal Alferes Fanfarrão (Jorge Cabral)

20 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1679: Estórias cabralianas (20): Banquetes de Missirá: Porco turra e Vaca náufraga (Jorge Cabral)

(2) Vd. post de 15 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXXVI: Carta (aberta) ao Luís (Jorge Cabral)

Sobre a pessoa do Jorge Cabral, vd. post de 17 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXXII: Vocês não tenham medo, não fujam, sou o Cabral (Fá, 1969/71)

(...) "O Jorge era, para mim, o mais paisano dos militares que eu conheci na Guiné: alferes miliciano, foi o comandante do Pel Caç Nat 63 (...).

"Em Fá [e depois em Missirá] não se limitava a ser um heterodoxo representante do exército colonial, actor e crítico ao mesmo tempo. Era também homem grande, pai, patrão, chefe de tabanca, conselheiro, amigo do PAIGC, poeta, antropólogo, feiticeiro, cherno, médico, sexólogo, advogado e não sei que mais. Um verdadeiro Lawrence da Guiné. Alguns dos seus amigos e companheiros de Bambadinca (aonde ele ia com frequência matar a sede) chegaram a recear que ele ficasse completamente cafrealizado!" (...).

(3) O Jorge Cabral foi Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71. Era estudante universitário, em Lisboa, quando foi convocado para a tropa. Hoje é advogado e docente universitário, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, sendo o coordenador do curso de pós-graduação em Criminologia.