sábado, 9 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1827: Convívios (14): 38ª Companhia de Comandos, Pínzio, Vilar Formoso, 9 de Junho de 2007 (A. Mendes)

1. Mensagem do A. Mendes, ex- 1º Cabo Comando da 38ª CCmds (Guiné, 1972/74)

Luís, se me permites, gostaria aqui de divulgar mais um encontro anual da minha Companhia.


12º Encontro da 38ª Companhia de Comandos (Guiné, 72-74)

Local: Pínzio (Vilar Formoso)
Data/hora: 9 de Junho de 2007 pelas 10:30h

Aqui fica o convite a quem quiser estar presente, principalmente a quem morar na zona e tenha estado na Guiné. Apareça que eu tenho todo o gosto em recebê-lo.

Concentração junto à Igreja.

Amilcar Mendes

Ex-1ºcabo, 38ª CCmds (Guiné, 1972/74)

2. Comentário de L.G.:

Amílcar, desejo-te um bom dia, com ida (a Pínzio) e regresso (a Lisboa), sem percalços. Que seja mais um excelente encontro dos valorosos comandos da 38ª.

A propósito, vi ontem na televisão um reportagem sobre o lançamento de um DVD com a história dos comandos em Portugal. Entre outros, vi o Folques, já aqui falado diversas vezes. Quando tiveres um tempinho livre, peço-te para nos falares desse DVD cujo conteúdo eu ainda não conheço.

Um abraço para ti e os teus camaradas. Luís

Guiné 63/74 - P1826: Estórias do Zé Teixeira (17): Eh fermero di caradjo, pára lá, a mim amigo di bó, amigo memo!


1. Mais uma estória do Zé Teixeira (1), ex-1º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381 (1968/70) - os Maiorais

Caríssimos.
Aí vai mais uma das minhas estórias. Amanhã [hoje, 9 de Junho] vou ter o prazer de abraçar o Idálio Reis. A CCAÇ 2317 de Gandembel faz o seu Convívio aqui no Porto e eu lá estarei. Fraternal abraço com votos de bom fim de semana.


Uma mão na gaita, outra na catana,
por Zé Teixeira


A sorte bafejou-me durante uns meses, ao ser destacado para acompanhar o Grupo de Combate que se fixou em Mampatá Forreá. Tabanca pequena de gente simples, de maioria Fula e Mandinga, que nos recebeu de braços abertos e durante cerca de seis meses me permitiu passar o que hoje considero umas pequenas férias em pleno meio da guerra, rodeado por Aldeia Formosa, Gandembel, Guileje, Gadamael , Mejo, etc. Locais onde havia festa da brava em contínuo, que nós escutávamos em silêncio e expectativa , enquanto eu apenas fui visitado umas cinco ou seis vezes, pese embora tenham sido momentos muito difíceis, que superámos sem grandes percalços, a não ser um belo dia, em plena hora de almoço, em que tentaram apanhar-nos à mão e chegaram a entrar dentro da barreira de arame, tendo queimado onze moranças.

Bajudas bonitas e afáveis. Até à data ainda não encontrei na minha vida mulher mais bonita que a Fátma Baldé, a minha lavandera, a Djubae ou a Dada, filha do régulo Aliu Baldé, hoje casada com o Régulo de Sinchã Sambel (Saltinho) onde tive o prazer de a encontrar e abraçar em 2005. Sempre bonita.

Assumi a minha missão de enfermeiro, montando diariamente a enfermaria estrela, nome que lhe dei, pois não passava de uma pequena mesa e um banco debaixo de uma árvore onde colocava as mesinhas: adesivos; compressas; ligaduras, etc. Os medicamentos tinha de os guardar, pois faziam milagres de tirar dores di bariga, dores di cabeça , ramassa (diarreia), kurpo kente (Febre) ou turse (tosse), etc., etc.

Todos os dias lá apareciam, sobretudo bajudas e mulheres à caça do comprimido para… hoje era barriga, amanhã era cabeça, outras vezes pediam para levar e tomar na morança, ou seja era para outra pessoa. Havia também as pequenas feridas, as feridas crónicas (chagas) por falta de tratamento em devido tempo, os entorses etc. Combater o paludismo nos militares brancos, no grupo de combate de milícias ou na população era a minha grande preocupação e os resultados foram satisfatórios, pois durante seis meses ninguém morreu com esta doença, bem pelo contrário safei duas crianças, de morte certa, como já referenciei no diário.

A par desta missão cabia-me, durante a noite, passar uma hora, a visitar os sentinelas de serviço, nos respectivos postos, em parceria com os furriéis e o Alferes, com o objectivo de os ajudar a passar o tempo e garantir a atenção necessária ao meio envolvente de onde o IN poderia estar à espreita. Estava cerca de dez minutos em cada posto em conversa com o colega de serviço e lá partia para o posto seguinte. Por precaução e segurança da pele, fazia os percursos cruzados de modo a nunca caminhar perto da barreira de arame farpado.

Uma noite, daquelas em que estava tão escuro que não se vê um palmo à frente do nariz (como se diz na minha terra), atravessava a Tabanca, com uma G3 emprestada, (não tinha arma atribuída por opção própria e quando saía para o exterior em serviço, apenas levava a bolsa de enfermeiro) em direcção oposta ao posto de sentinela de onde tinha partido, com todo o cuidado para não esbarrar com uma árvore, que sabia existir naquele lugar, quando esbarro com algo que se mexe. Só tive tempo de gritar – tem calma é Fermero Tixera ki passa, e, logo ouço uma voz Tu tem sorte fermero, djobe ! (repara).
Era nem mais nem menos um dos milícias, meu amigo, que tinha saído da sua morança para deitar a árvore abaixo ou seja urinar e por segurança trazia uma catana, isto é, estava com uma mão na gaita e outra na catana, para o que desse e viesse. A catana estava bem no alto pronta a cair sobre a minha cabeça.

Com fair play retorqui:
- Sorte na tem bó, djobe, nha G3 stá tiro a tiro (falso).
- Ehhh fermero di caradjo ! pára lá ! a mim amigo di bó. Amigo memo.

Seguiu-se um afável parte mantanhas. Ele, possivelmente foi empernar com uma das duas lindas mulheres que tinha, na esteira onde algumas vezes nos deitamos a três, ele, eu e uma das mulheres, para conversarmos sobre a Lisboa (Portugal continental), até a noite se perder pela madrugada.

Eu segui o meu caminho para o posto do colega que estava de sentinela, uns metros à frente e que não dera por nada.

Zé Teixeira
_____________

Nota de L.G.

(1) Vd. post de 15 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1760: Estórias do Zé Teixeira (15): Tarde de Domingo com sorte

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1825: Mário de Oliveira, na Feira do Livro de Lisboa, dia 9 de Junho de 2007


Guiné > Mansoa > BCAÇ 1912 (1967/68) > O capelão, Mário de Oliveira, alferes miliciano, entre soldados. Viria a receber ordem de expulsão da Guiné em 8 de Março de 1968.

Foto: © Padre Mário da Lixa (2003) (com a devida vénia...)


Texto do nosso camarada Mário de Oliveira, que foi alferes miliciano capelão no BCAÇ 1912(Mansoa, 1967/68). O Mário de Oliveira - que virá a ser conhecido mais tarde como o Padre Mário da Lixa - recebeu ordem de expulsão da Guiné em 8 de Março de 1968, ao fim de 4 meses de comissão. Para quem o quiser conhecer pessoalmente, ele estará amanhã na Feira do Livro de Lisboa, a autografar o seu último livro. Aqui fica uma mensagem que nos mandou há dias e que só hoje, infelizmente, foi possível pôr no blogue:

Companheiras / Companheiros

O meu abraço e a minha paz.

Venho comunicar-vos que no dia 7 deste mês de Junho, a partir das 16 horas, estarei na Feira do Livro do Porto. E no dia 9 deste mesmo mês de Junho, a partir das 16 horas estarei na Feira do Livro de Lisboa.

Numa e noutra Feira, começo por apresentar, no espaço reservado para esse tipo de eventos, o meu novo livro SALMOS VERSÃO SÉCULO XXI, editado pela Campo das Letras. E depois prosseguirei no Stand da Editora Campo das Letras a acolher as leitoras, os leitores que quiserem proporcionar-me essa alegria e essa festa.

E a quem o desejar, também autografarei os meus livros que estarão lá venda a preços mais reduzidos. A apresentação do livro no Porto será feita pelo meu amigo Padre Anselmo Borges, professor de Filosofia na Universidade de Coimbra e conta também com a presença do actor Júlio Cardoso, da Companhia de Teatro Seiva Trupe, que dirá alguns dos 50 salmos do livro. Espero lá por si. Apareça e leve consigo outras amigas, outros amigos também.


Vosso companheiro e irmão
Mário, presbítero da Igreja do Porto

___________

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:

28 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1002: Um novo recruta, Aires Ferreira (BCAÇ 1912, CCAÇ 1686, Mansoa, 1967/69)

27 de Junho de 2005 > Guiné 60/71 - LXXXV: Antologia (5): Capelão Militar em Mansoa (Padre Mário da Lixa)

14 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCL: Capelão militar por quatro meses em Mansoa (Padre Mário da Lixa)

17 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXV: Foi em plena guerra colonial que nasci de novo (Padre Mário de Oliveira )

Guiné 63/74 - P1824: O Aeroporto de Jumbembem e os ecologistas 'avant la lettre' (Artur Conceição)

Texto do Artur Conceição, ex-soldado de transmissões da CART 730 (1965/67), actualmente residente na Damaia, Amadora. Esteve em Bissorã, Farim e Jumbembem, ou seja, na actual Região do Oio.




O Aeroporto de Jumbembem
por Artur Conceição

Em 1965/66 o correio na Guiné era lançado a partir de uma avioneta na maioria dos acampamentos espalhados no território. Jumbembem não fugia à regra, e lá para quinta ou sexta-feira vinha a avioneta que largava um ou dois sacos, conforme o volume de correspondência.

Este era sempre um momento de grande alegria mas também de alguma ansiedade, se nos lembrarmos de que os telegramas a dar a notícia da morte de um familiar eram também entregues pela mesma via.

Aconteceu que numa dessas largadas de sacos um deles ficou em cima de uma árvore gigante que se encontrava junto da entrada do aquartelamento. Claro que não ficou lá por muito tempo, dado que apareceram logo exímios trepadores para retirar o saco daquele local.

É a partir deste acontecimento que surge a ideia da construção de uma pista onde fosse possível aterrar uma avioneta de pequeno porte, como era o caso. Poupava-se muito esforço mas por outro lado perdia-se a ida semanal a Farim, para levar o correio a expedir, o que também não agradava a todos.

A localização do novo aeroporto não envolvia qualquer polémica, pelo que, após rigoroso estudo de impacto ambiental, ficou decidido que seria construído a noroeste do aquartelamento no sentido de Farincó.

Foram reunidos os meios materiais, que se reduziam a algumas pás, picaretas e alguns machados e serras, ou seja o material que era utilizado na construção de abrigos, incluindo o corte de algumas palmeiras.

Arrancou-se com todo o entusiasmo, mas as árvores no local eram na sua maioria de grande porte, o que exigia um grande esforço para as arrancar, e a construção da pista lá ia andando um pouco aos soluços, tanto mais que a comissão já ia a mais de meio e o pessoal tinha perdido o entusiasmo inicial. As obras estavam quase paradas...

É nesta fase que surge o episódio do “cabrito escondido com o rabo de fora”.
Nessa altura na Guiné ainda havia manga de vacas só que não eram leiteiras, como certamente se lembram, pelo que o comandante da companhia resolveu comprar uma cabra para dar leite para o pequeno almoço na messe de oficiais. A cabra vinha acompanhada de dois cabritos menores que a chibinha tinha também de alimentar. Alguém muito atento e entendido na criação de cabritos, e amigo dos animais, achou que para a pobre bicha, era um esforço demasiado, alimentar dois cabritos e cinco oficiais...

Então resolveu aliviá-la de um deles. Detectado que foi o desaparecimento do animal foram iniciadas as buscas para o localizar, tendo sido encontrado após algumas horas de busca dentro de um caixote, daqueles onde eram guardadas as botas e outros apetrechos, isto porque o raptor tinha deixado o animal com o rabo de fora.

O raptor e seus cúmplices foram penitenciados a arrancar vinte árvores na pista em construção. Saíam de manhã, vinham almoçar ao meio dia e voltavam da parte da tarde sempre acompanhados de uns baralhos de cartas e alguns alimentos e bebidas.

Para além de gostarem de cabrito, também eram amigos do ambiente, pelo que volvidos quinze dias as árvores continuavam de pé. Para que a penitência não fosse alterada ou agravada foi-lhes dado um prazo e as árvores lá tombaram. Foram as últimas !!...

Depois de tanto esforço nunca tivemos o prazer de ver uma aeronave mesmo pequena a aterrar no Aeroporto de Jumbembem.

Depois da companhia 730, devem ter passado por Jumbembem mais umas cinco ou seis. Tanto quanto sei nenhuma delas concluiu a obra, mas que a 730 começou isso é verdade !!!!.....

Artur Conceição

Guiné 63/74 - P1823: Camaradas que já nos deixaram (2): O Picão, da CCS do BCAÇ 2930 (Catió, 1970/72), que morreu há dias na miséria (Amaral Bernardo)

Lourinhã > Praia Vale de Pombas (1) > 2005 > "Um homem e a a sua cruz"... O Picão faleceu no hospital de Leiria no dia 28 de Maio último, de madrugada, tendo o funeral sido em S. Martinho do Porto no dia 29 às 16 horas. Gravemenete ferido num ataque a Catió, com foguetões 122 mm, no 14 de Abril de 1970, nunca mais pôde trabalhar. Não tinha Segurança Social, pelo que o funeral foi às custas da sua pobre família e dos seus amigos... Mais um estória triste e revoltante.

Foto: © Luís Graça (2005). Direitos reservados.


1. Mensagem do Amaral Bernardo, ex-Alf Mil Médico da CCS / BCAÇ 2930(Catió, 197o/72) (2):

Luís,

Sábado passado, dia 2, o BCAÇ 2930, a que pertenço, realizou mais um encontro anual. O Rocha Pais, que foi enfermeiro do batalhão, pediu-me ajuda com o documento que te mando.

Podemos fazer alguma coisa? O camarada recém falecido ficou gravemente ferido numa brutal ataque com foguetões 122 a Catió em 14 de Abril de 19971. Ficou cheio de estilhaços... e parece que morreu com uma complicação pulmonar, provocada por um deles. Morreu na miséria (foi preciso arranjar dinheiro para o funeral) e deixa a viúva com a quantia que o documento refere. Haverá um processo oficial, perdido algures em qualquer repartição das Forças Armadas, a pedir o apoio a que ele tinha direito.

Se não se conseguir nada a nível oficial, tentarei sensibilizar uma TV qualquer.´É triste, mas terá que ser assim... embora não faça o meu género.

Abraço

Amaral Bernardo.

P.S. - Podes dar a publicidade que entenderes


2. Mensagem enviada pelo Luís Martins Silva , com data de 31 de Maio de 2007, para o Rocha Pais:


Pais:

Lamento ter de informar que não podemos comparecer ao Encontro. A minha sogra ficou internada no hospital de Beja, em observações, pelo que não sabemos o desfecho do assunto. Se puderes ainda avisar que são menos 2, melhor, se tivermos que pagar diz alguma coisa.

Mandou-me hoje uma mensagem a Dª Susete, viúva do Picão. Pede para darmos um abraço a cada um dos nossos companheiros, pois o Picão dizia sempre que gostava de abraçar cada um.

Sei que vais estar só, de nós os três que tivemos no funeral, mas se tiveres hipóteses, fala no assunto e se vires que há condições pede o apoio dos nossos companheiros.

Por mim a única coisa que posso fazer é escrever a seguinte mensagem que depois, se vires que há hipoteses, podes ler para os nossos camaradas.

Amigos ecompanheiros.

Por motivos relacionados com a doença súbita de um familiar, não me é possível estar este ano, presente no nosso convívio. No entanto, não quero deixar de vos saudar a todos e às vossas famílias, desejando que , apesar das contrariedades da vida, consigamos sobreviver mais alguns anos para nos continuarmos a encontrar.

Um dos que nunca esteve connosco nos Encontros, mas que nós lembrávamos bem, era o José Júlio Abreu Picão.

Nunca mais vai estar connosco, apenas em pensamento. Faleceu no hospital de Leiria no dia 28, de madrugada, tendo o funeral sido em S. Martinho do Porto no dia 29 às 16 horas. Estivemos eu, o Pais e o Lisboa. No momento do corpo descer à terra, com a autorização da família e por concordância do Pais e do Lisboa, teci algumas considerações sobre o nosso amigo que nos deixou. Realcei o facto de o Picão ter esperado 37 anos por uma pensão, dado que, tendo sido ferido como sabeis, no 14 de Abril de 1970, nunca mais pôde trabalhar . Não tinha segurança social, pelo que o funeral foi às custas da família (esposa) e dos amigos. Trata-se, como pudémos comprovar, duma familia bastante pobre e carenciada (viviam com a reforma da actual viuva, de 230 euros mensais), ele, a esposa e uma neta que criou desde o nascimento e agora com 13 anos.

Por isso, daqui faço um apelo à nossa generosidade para com aquela senhora, que está a passar por maus momentos, não só espirituais, como materiais. Se assim o entenderem, podem entregar os vossos donativos ao Pais, que lhos fará chegar. Se entenderem fazê-lo directamente, o Pais tem consigo a morada da viúva.

Pedia-me hoje por mensagem, a viúva, que no nosso Encontro eu desse um abraço a cada um de vós, em nome do Picão, pois em vida manifestou esse desejo. Faço-o através desta mensagem. Que Deus nos dê coragem para aguentarmos com mais este embate e outros mais que virão a caminho.

Tal como disse no funeral do Picão, repito-o agora:
ADEUS AMIGO, ATÉ SEMPRE.

Luís Martins Silva
ex-furriel miliciano mecânico auto.


Pais:

li igualmente as mensagens que reencaminhas-te do alferes Santos. Se ele estiver no Encontro dá-lhe um abraço bem forte.

E tu, que és um homem de coragem, ve se consegues sair desse imbróglio.

Recebe um abraço para ti e Rosalina do

Luís e Elsa

3. Comentário do editor do blogue:

Estou fora de Lisboa, com dificuldades de ligação à Net (Eu ladrão me confesso: isto de contar com o ovo no cú da galinha, que é como quem diz, com o sinal da rede sem fios... do vizinho!)...

O Amaral Bernardo telefonou-me há dias a contar este triste caso, acima descrito. Só agora consigo pô-lo no blogue. Não podemos ficar indiferentes a situações como estas que, mais uma vez, nos chocam, envergonham e entristecem.

O nosso blogue abre o seu espaço às sugestões e comentários de todos os camaradas, em geral, e dos camaradas do BCAÇ 2930, em particular. Como demonstrar a nossa solidariedade para com o Picão e a sua família ?

Antes de mais, trata-se de dar um murro na burocracia, no cinismo e na indiferença. Há tempos comentámos aqui um caso semelhante, o de um camarada que morrreu, como um cão, na sua barraca, na Nazaré (3). L.G.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. Luía Graça > Blogue Fora-Nada... E Vão Dois > Post de 9 de Novembro de 2005 Blogantologia(s) II - (15): O amor em Agosto

(...) Nem vale.
Nem pombas.
Nem praia.
Na Praia do Vale de Pombas,
À maré cheia, à praia-mar,
Há apenas um fio de água doce
Que mantém os cordões umbilicais
Do infinitamente pequeno da vida
Ligados ao infinitamente grande
Dos corpos celestiais.

Vale de Pombas:
Aqui caiu uma chuva de meteoritos.
Um dia hei-de lá levar-te.
(...)

(2) Vd. post de 2 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1489: Tertúlia: Formalizo o meu pedido de entrada (Amaral Bernardo, ex-Alf Mil Médico, Catió, BCAÇ 2930)

(3) Vd. post de 3 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1398: Poema de Natal: Só agora, camarada, te mataram (Jorge Cabral)

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1822: Estórias do Gabu (5): Nunca chames indígena a ninguém (Tino Neves)

Região Autónoma da Madeira > Ribeira Brava > Sítio da Encumeada (a 1000 m de altitude > Maio de 2007... Está por conhecer a pesada factura humana e social da guerra colonial que a Madeira e os madeirenses também pagaram...

Foto: © Luís Graça (2007). Direitos reservados


1. Texto do Tino Neves , ex-1º Cabo Escriturário, CCS/BCAÇ 2893, Nova Lamego (Gabu), 1969/71.

Vou contar uma pequena estória, que me veio à memória recentemente (1).

A estória passou-se comigo e um soldado da Ilha da Madeira. Digo já que não tenho nada contra os Madeirenses, apesar de ainda nunca ter ido à Madeira. Tenho, de resto tenções de lá ir um destes dias, pois tenho lá camaradas da minha companhia.

Um determinado dia no ano de 1971, já no Aquartelamento novo de Nova Lamego (Gabu), chegou uma coluna de víveres, de um aquartelamento da zona, já não me recordo de onde). Estando eu na Sala do Soldado (cantina), a comer uma sandes de chouriço e a beber um cerveja, chega um soldado dessa coluna, muito falador. Se não fosse a pronúncia, diria que seria do Algarve (já que os algarvios têm fama de faladores).

Como sou descendente de algarvios, e apesar de ter nascido na Cova da Piedade (Almada), fui baptizado no Algarve (Luz de Tavira). Fiquei por isso curioso em saber de onde ele seria, pois nesse tempo não sabia distinguir um madeirense de um açoriano. Na minha companhia tinha dois camaradas da Madeira, e não falavam assim, daí eu resolver interpelá-lo com a seguinte pergunta:
- Donde é que tu és indígena?

E tive como resposta rápida:
- Vou-te matar! - e nisto sacou de um grande punhal (daqueles à Rambo, com serrilha) e deitou-me uns olhos, que eu fiquei sem pinga de sangue, a olhar para o facalhão.

Se não fossem os camaradas presentes a segurarem-no, ele, julgo eu, que o fazia, mas depois de ser desarmado, eu caí em mim e percebi a razão da sua reacção. Ele deve ter pensado que eu estava a insultá-lo, a chamar-lhe… indígena. Ele deve ter percebido a pergunta deste modo:
- Donde é que tu és, indígena ? – Procurei, por isso, pôr água na fervura, reformulando a pergunta:
- Eu sou indígena de Lisboa, Almada… E tu?

Aí ele acalmou e compreendeu o que queria dizer:
-Ahhhh, eu sou da Madeira!

Depois pediu-me desculpa pela sua reacção, porque não compreendera bem o que eu queria dizer. Eu respondi-lhe que quem tinha de pedir desculpa era eu, porque eu tinha o mau hábito de usar o termo Indígena em vez de Natural. E logo a seguir pedi ao barman mais duas cervejas, que pagava eu.

Moral da estória: nunca deves perguntar a ninguém donde é que é… indígena, principalmente, a quem estiver armado até aos dentes, com facalhão à Rambo e G3 a tiracolo.

Um abraço

Tino Neves

Almada

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Nota de L.G.

(1) Vd. post anterior > 20 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1769: Estórias do Gabu (4): O Capitão Comando João Bacar Jaló pondo em sentido um major de operações (Tino Neves)

Guiné 63/74 - P1821: Armamento do PAIGG (2): Mísseis terra-terra Katyusha ou foguetões 122 mm (A. Santos)



Guiné > Zona Leste > Sector L3 > Nova Lamego > 1973 (?) > Foguetão 122 mm, completo, apreendido ao PAIGC.

Foto: © António Santos (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem do nosso camarada A. Santos, ex-Sold Trms, Pel Mort 4574/72, Zona Leste, Sector L3, Nova Lamego,1972/74.

Luís: Aqui estão as duas imagens do mesmo míssil que, segundo o Rubin (1), parece ser único (2).

A. Santos

2. Comentário de L.G.: Não sou especialista em armamento. Julgo, no entanto, tratar-se do míssil terra-terra Katyusha, mais conhecida entre as NT como foguetão 122 mm. De origem soviética, teria um alcance de 20 Km.

Fontes a consultar:

Wikipédia > Lista de equipamento militar utilizado na guerra do Ultramar

Guerra na Guiné - Os Leões Negros > CCAÇ 13 > Bolama > Katyusha > 3/11/69
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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts recentes sobre este tópico (armamento do PAIGG):

27 de Março de 2007 > Gúiné 63/74 - P1628: Projecto Guiledje: fotografias de armamento e equipamento, das NT e do PAIGC, precisam-se (Nuno Rubim)

12 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1753: Diorama de Guileje, 1965/67 (Muno Rubim)

13 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1756: Exposição de armamento apreendido ao PAIGC, aquando da visita de Américo Tomás (Bissau, 1968) (Victor Condeço)

17 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1764: Armamento do PAIGC (Nuno Rubim)

18 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1766: Guileje: A Bêbeda, uma Fox do Pel Rec 839 que ficará imortalizada no diorama (Nuno Rubim)

23 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1781: Ambulância do PAIGC, de fabrico soviético, capturada pelo Marcelino da Mata, em Copá (A. Santos)

(2) Sobre a utilização desta nova arma, o foguetão 122 mm, há já vários posts no nosso blogue:

2 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXII: Esquadrão de Reconhecimento Fox 2640 (Manuel Mata) (5): Foguetões 122 mm no Gabu

(...) " Maio de 1970: O Pel Rec, em Piche, continuava a sua actividade e a sofrer as flagelações do inimigo, agora com foguetões de 122 mm. Volta a acontecer, felizmente sem consequências, no dia 26 de Maio, depois de uma escolta aos Adidos Militares Estrangeiros que visitaram a Guiné. Ao chegar de Nova Lamego foram flagelados com foguetões de 122 mm" (...).

30 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1800: Álbum das Glórias (14): De Alferes (CCAÇ 1420, Fulacunda, 1965/67) a Capitão (CCAÇ 18, Quebo, 1970/72) (Rui Ferreira)

(...) "Guiné > Aldeia Formosa > CCAÇ 18 (1970/72) > 1971 > Os primeiros foguetões 122 capturados aos guerrilheiros do PAIGC. O Cap Mil Rui Ferreira, comandante da CCAÇ 18, é o elemento do meio, na fotografia" (...).

24 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1784: Cartas do corredor da morte (J. Casimiro Carvalho) (4): Queridos pais, é difícil de acreditar, mas Guileje foi abandonada !!!

(...) O pessol fugiu, abandonando tudo lá, de Guileje, porque estavam a cair foguetões e granadas de canhão sem recuo, desfazendo padaria, depósito de géneros... O chão estava cheio de crateras , devido às granadas. Os militares de lá estavam há 96 horas debaixo de bombardeamento, sem beber nem comer (só algumas rações de combate que conseguiram apanhar), pois não podiam sair dos abrigos" (...).

4 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1338: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (5): estreia dos Órgãos de Estaline, os Katiusha

(...) "Chegou-se à conclusão que as granadas estavam a cair em zona entre Saltinho e Queboe a arma era desconhecida. Passados alguns dias veio informação do Com-Chefe: naquele ataque falhado a Aldeia Formosa, o IN tinha utilizado pela primeira vez Foguetes Katiusha, também conhecidos por Órgãos de Estaline" (...).

6 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1155: Álbum fotográfico (Hugo Moura Ferreira) (1): Bedanda, CCAÇ 6, 1970: O Obus 14 contra o foguete Katiusha

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1820: Catió: No rasto da família Pinho Brandão: Quem era o patriarca ? (Victor Condeço / Luís Graça)

1. Mensagem do Victor Condeço (ex- Fur Mil Armamento, CCS do BCAÇ 1913, Catió , 1967/69), residente no Entroncamento:

Caro Luís:

Tudo de bom. Após ler o P1817 (1) e sobre as interrogações no teu comentário, tenho a acrescentar o seguinte:

Na verdade falta ali naquela foto, o Pinho Brandão, decerto terá sido convidado tal como outros comerciantes que também não aparecem na foto, caso dos Srs. Coelho, Adib e João da casa Gouveia.

Poderão estar na foto Catió_Quartel-31 junto do edifício da direita, junto de outra população mas não dá para reconhecer quem é quem. De memória também não sei se estiveram ou não.

Contudo pela lembrança que tenho do Sr. Manuel Pinho Brandão (2), é muito provável que não tenha estado presente. Era pessoa bastante reservada, nunca o vi no quartel nem sequer na rua.
As falas dele com militares ou civis resumiam-se ao Bom dia ou boa tarde, entre dentes, quando ao passarmos à sua casa o cumprimentávamos.

A maioria dos seus dias passava-os na sala de sua casa de esquina frente ao mercado [foto Catió_Vila-26], de portas abertas, na sua cadeira de repouso, fumando.

A lembrança que tenho da família que com ele vivia em Catió é muito vaga, mas lembro-me perfeitamente de duas bonitas, mestiças, suas filhas, das quais não me lembro o nome, jovens na casa dos 20 anos, que confeccionavam bolos de aniversário por encomenda.

Relativamente ao pai do Dr. Leopoldo Amado, pese embora as muitas vezes que terei falado com ele quando ia aos Correios à Caixa Postal nº 24, buscar o meu correio ou comprar selos, não tenho memória do Sr. Mateus e por isso o não identifico na foto, só o Leopoldo Amado nos poderá ajudar.

Luís das tentativas que te disse ter feito, só ainda tive a informação do (meu) ex-cabo Camarinha, fez a diligência que me tinha prometido, mas não conseguiu chegar á fala com o senhor por questão de minutos, no entanto disse-me que se confirma que a pessoa em questão é efectivamente de Catió, vai no entanto proceder a nova tentativa de encontro.

E é tudo por agora, recebe um abraço.

Victor Condeço

2. A Gilda acaba de nos agradecer tudo o fizemos (e ainda estamos a fazer) por ela. São palavras singelas e sinceras, que merecem publicitação:

" Acabei de ler as suas palavras e, estou a tentar encontrar algumas para lhe agradecer, mas não consigo, por isso envio-lhe um abraço do tamanho do mundo e toda a minha gratidão.

"Para a semana vou estar de férias, pois ando em mudanças mas, assim que regressar, vou enviar uma foto minha tirada ainda na Guiné e outra mais recente, para que passe a pertencer a esta fantástica família. Um grande abraço com amizade. Gilda Brás".


__________

Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 5 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1817: Catió: Em busca da família Pinho Brandão (Leopoldo Amado / Victor Condeço / Armindo Batata / Gilda Pinho Brandão)

(2) Que era, presumivelmente, tio ou até avô da nossa amiga Gilda Pinho Brandão (O seu pai, Afonso, morreu, ou foi morto, quando ela tinha tenra idade, possivelmente em 1963, no início da guerra; recorde- se que ela veio para Porugal, acolhida pela família do Pina, em Junho de 1970, com sete anos, vivendo até então com a avó materna).

Repare-se, por outro lado, que o Victor só faz referência ao comerciante Manuel Pinho Brandão, que ele conheceu em Catió (1967/69), e a duas filhas, mestiças, de cerca de 20 anos. O Victor não conheceu, nem poderia ter conhecido o Afonso, que seria mais novo que o Manuel: daí eu pensar que poderia ser seu filho ou seu irmão mais novo. A Gilda não tem a certeza sobre o grau de parentesco de ambos.

Por sua vez, o Mário Dias, quando descreve a Op Tridente (1964), refere-se ao Manuel Pinho Brandão como o dono da ilha do Como... O que terá acontecido ao Afonso ? Terá sido morto pelos guerrilheiros do PAIGC ? Terá morrido num acidente de caça ou de viação ? Foi assassinado por alguém da região, por causa de negócios ? Ou até por outras razões: ciúme, vingança, ajuste de contas... Com numerosos filhos de diferentes mulheres, poderá ter havido ajustes de contas entre famílias... A Gilda refere, por exemplo, a existência de meio-irmão, ainda hoje comerciante estabelecido na Guiné-Bissau, que usa o apelido da família e não reconhece, como Pinho Brandão, os filhos do Afonso...

Por outro aldo, o velho Brandão de Ganjola, natural de Arouca, desterrado para a Guiné possivelmente no final dos anos 20 ou princípíos dos anos 30, uma figura tão bem evocada pelo Mendes Gomes (que esteve no Como, Cachil e Catió, entre 1964 e 1966) - " O Sr. Brandão, agora, era um velhote, rodeado de filhos e netos que foi gerando, ao sabor das madrugadas de batuque e da liberdade de escolha, sem custos, entre as mais viçosas bajudas da tabanca" (3)…, esse Brandão de Ganjola, pergunto eu, seria o mesmo de Catió ? Quem era, afinal, o patriarca da família ?

Enfim, não vale a pena especular sobre isto, embora esta estória (trágica, a do Afonso) também possa ser reveladora do clima social que então se vivia em Catió, no início da década de 1960...

Pela casa que existia no centro de Catió, a família Pinto Brandão deveria ser (ou ter sido) poderosa, tendo entrado possivelmemte em decadência com o início da guerra... Mas o mesmo se poderia dizer de outros comerciantes locais, de origem portuguesa ou libanesa, citados pelo Victor e que compareciam a cerimónias públicas militares (como aquela que é referida no Post P1817).

Vd. posts de:

30 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1798: Região de Catió: Descendentes da família Pinho Brandão procuram-se (Gilda Pinho Brandão)

3 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1811: Vim para Portugal aos 7 anos, em 1969, e não tenho uma fotografia de meu pai, A. Pinho Brandão (Gilda Pinho Brandão, 44 anos)

6 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1819: De Catió a Lisboa, de menina a Mulher Grande ou uma história triste com final feliz (Gilda Pinho Brandão / Luís Graça)

(3) Vd. post de 22 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1455: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (7): O Sr. Brandão, de Ganjola, aliás, de Arouca, e a Sra. Sexta-Feira

Guiné 63/74 - P1819: De Catió a Lisboa, de menina a Mulher Grande ou uma história triste com final feliz (Gilda Pinho Brandão / Luís Graça)

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotográfico de Vitor Condeço > Catió - Vila > Foto 26 > "A praça do mercado, vista de quem vinha da pista [tirada à porta da casa do sr. Barros Correias]. À direita o Mercado, ao fundo à esquerda, a casa do Sr. Brandão e, à direita, debaixo da mangueira o Bar Catió e bem ao fundo o quartel".... A Gilda Pinho Brandão era filha de Afonso Pinho Brandão (que terá morrido no início da guerra). Embora tenha vivido com a avó materna, a Gilda terá conhecido esta Casa Grande, tipicamente colonial, da família Brandão...

Foto e legenda: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotográfico de Vitor Condeço > Catió - Vila > Foto 2 > Vista aérea da vila de Catiõ. Janeiro de 1968"

Foto e legenda: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotográfico de Vitor Condeço > Catió - Vila > Foto 3A > "Vista aérea da Rotunda e Avenida de Catió antes de 1967.
O edifício à esquerda na foto era a escola primária que em 1967 já tinha sido modificado". Ao fundo da avenida, a casa do admistrador. Catió, na época, a seguir a Bissau, Bafatá e Bolama, deveria ser a sede de concelho ou circunscrição mais importante da província, em termos demográficos, administrativos, económicos e sociais...

Foto e legenda: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.

Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotogáfico de Victor Condeço > Catió - Vila > Foto 21 > "O Fur Mil Victor Condeço em frente da habitação do administrador, ao cimo da avenida".

Foto e legenda: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.

Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotogáfico de Victor Condeço > Catió - Vila > Foto 40 > "A tabanca na estrada para a pista de aviação.

Foto e legenda: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.

Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotogáfico de Victor Condeço > Catió - Vila > Foto 41> "Estrada da pista, a tabanca, ao fundo à direita antes da pista, ficava o Cemitério".

Foto e legenda: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotográfico de Vitor Condeço > Catió - Vila > Foto 49 > "Os poilões na tabanca de Sua". Em criança, a Gilda - antes de vir oara Portugal, aos oito anos - terá brincado por aqui...

Foto e legenda: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS do BCAÇ 2930 (1970/72) > Uma crinaça mestiça ao colo do Alf Mil Médico Amaral Bernardo (que é hoje Professor Catedrático Convidado no ICBAS - Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar; responsável do Departamento de Ensino Pré Graduado do HGSA - Hospital Geral de Santo António).

Foto: © Amaral Bernardo (2007). Direitos reservados.

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCAÇ 728 (Catió, 1964/66) (1) > 1965 > Mulher Grande de Catió. Poderia ter sido a avó (materna) da nossa Gilda...

Foto: © J. L. Mendes Gomes (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem de Gilda Pinho Brandão, nome de solteira, ou Gilda Brás, com data de 4 de Junho último:

Bom dia, Dr.: Estou a ver os e-mails todos agora (1), pois este endereço é do meu local de trabalho, mas espero até final de Junho ter e-mail em casa.

Relativamente ao meu mano (o furriel Pina), fez a sua comissão de serviço em 1968/1970, em Catió, penso que também esteve em Mampatá. O batalhão dele era conhecido pelos Lenços Azuis, ele está bom de saúde e costuma ir aos almoços de convívio dos ex-combatentes da Guiné.

Não sei o dia em que chegámos, mas foi no mês de Junho de 1970, pois era a altura das festas dos santos populares e foi traumático para mim: quando ouvia os foguetes, como não tinha abrigos como os da Guiné, corria a esconder-me debaixo da cama ou dentro do guarda vestidos.

Da minha infância, só me recordo da minha avó, do quartel onde ia buscar comida e dos ataques que me obrigavam a esconder no primeiro abrigo que encontrasse; do meu pai, não tenho nenhuma lembrança, pois quando ele foi morto, eu era bebé, os meus 7 irmãos são todos de mães diferentes. Ao longo da minha vida, sempre pensei ser a única filha do meu pai e, de um momento para o outro, recebo um telefonema do António a apresentar-se como meu irmão e informar-me que tenho uma grande família.

Este fim-de-semana vi uma fotografia do meu pai, que está em poder do meu irmão António, foi um bocado triste, mas também um alívio pois tinha comigo a minha filha que tem 8 anos e apresentei-a ao avô de quem ela só soube da existência há 2 anos atrás, quando trouxe um trabalho da escola para fazer a ávore genealógica e tive de lhe contar um pouco da minha história.

A adaptação à grande Metrópole foi muito dolorosa para mim, pois à maior parte dos portugueses fazia imensa confusão verem uma menina mestiça chamar mamã a uma senhora branca de cabelo louro e ficavam a olhar para nós com ar de recriminação; eu perguntava à minha mamã o porquê de as pessoas olharem tanto para mim e para ela e a resposta sábia da mamã Alice era “porque tu és muito bonita e gostam de ti”.

Aí a minha vaidade vinha ao de cimo e oferecia a toda a gente o meu grande sorriso; só que depois na escola é que foi complicado, pois as crianças, quando querem, sabem ser muito mazinhas e comecei a sentir na pele a diferença que existia entre nós, pois os meus colegas chamavam-me preta e diziam que eu tinha vindo da terra dos maus, coisas que nunca mais se esquecem e nos marcam para o resto da vida.

Hoje sou uma Mulher Grande feliz, tenho uma filha linda, um marido espectacular e a melhor mamã do mundom que, sem olhar a tons de pele, me deu tudo. Sou secretária, trabalho em Cascais numa empresa ligada à construção e ao ramo imobiliário chamada A. Santo.

Mais uma vez , Dr., muito obrigada pelo seu empenho nesta busca das raízes dos Pinho Brandão. Se puder rectifique alguns erros, pois estou no trabalho e tenho que dar prioridade ao meu serviço.


Cumprimentos e até breve

Gilda Brás

2. Comentário do editor do blogue:

Também eu fico muito sensibilizado pela menagem que me escreve (e que, suponho, me autoriza a publicar, no nosso blogue). É de uma mulher de grande coragem coragem, sensibilidade, doçura e inteligência emocional. As agruras da vida podem-na ter marcado, mas seguramente não a levaram a ter uma atitude (negativa) de autocomiseração e de victimização, como é frequente acontecer em casos semelhantes.

Órfã de pai que não chega a conhecer (presumivelmente terá sido morto no início da guerra colonial, por volta de 1963, em circunstâncias que a Gilda não revelou), conhecendo as desventuras da orfandade e da pobreza, é criada pela avó (presumivelmente materna), cresce com a guerra e os seus horrores até ser adoptada pela família do Furriel Pina (que esteve em Catió entre 1968 e 1970, e também em Mampatá, ao que parece)... E aqui é muita bonita a referência que a Gilda faz à sua mãe afectiva, a Mamã Alice...

Apesar do seu amor e gratidão à família do Furriel Pinto que a acolheu (e presumivelmente adoptou), a nossa amiga Gilda não nos conta nenhum conto de fadas: os primeiros tempos de adaptação a um país, do hemisfério norte, europeu, potência colonizadora, a travar uma guerra colonial em três frentes (incluindo na sua terra,a GUiné), não foi fácil, não terá sido fácil... A Gilda terá conhecido o racismo, a discriminação ou até eventualmente o mobbing por parte dos seus colegas de escola, experiências que são sempre traumatizantes para uma criança e que a marcam, como um ferrete, para o resto da vida...

O final feliz desta história é que a Gilda é hoje uma mulher que parece estar bem na sua pele, sentir-se bem na família e no trabalho e sobretudo ter tido, muito recentemente a alegria de começar a conhecer os irmãos paternos, a alegria (misturada com dôr) de ver pela primeira vez uma fotografia de um pai, o Afonso, que nunca conheceu, e de poder mostrá-la à sua filha de oito anos...

Foram muitos anos à espera de fazer as pazes com o passado, dividida entre duas terras, duas famílias, duas identidades, se bem que ela reconheça que praticamente já perdeu (ou estava em vias de perder) as suas raízes guineenses... Esperemos que isso não aconteça e que ela consiga, em breve, juntar e conhecer o resto da família, do lado materno e paterno, e inclusive (re)descobrir a sua terra, Catió, os seus altivos e tranquilizantes poilões, os seus palmeirais, as suas bolanhas, as suas gentes...

Graças ao álbum fotográfico de alguns dos nossos camaradas (e eme especial do Victor Condeço), é possível entreabrir-lhe a porta que dá para o mundo da sua infância... Gilda, veja lá se estas imagens lhe dizem alguma coisa e se lhe despertam emoções ou recordações... Toda a sorte do mundo para si, por que você merece. Fica, mais uma vez convidada para pertencer a esta Tabanca Grande dos Amigos e Camaradas da Guiné. Um beijinho para si e para a sua filhota.

PS - Amigos e camaradas: este foi o drama de muitos civis, crianças, adolescentes, jovens e adultos, que também foram vítimas da guerra, que a guerra separou das suas famílias e da sua terra... Antes e depois da independência... Não temos estatísticas, para a Guiné, sobre as famílias lusoguineenses e seus descendentes, sobre os que ficaram na Guiné e os que se fixaram em Portugal, em Cabo Verde ou noutros países... Sobre o sucesso ou insucesso da sua integração (escolar, cultural, social, profissional...) no nosso país... Famílias ligadas à administração do território ou à actividade económica, como era o caso da família Pinho Brandão...

A Gilda Pinho Brandão é apenas o rosto de um drama silencioso para o qual na época tínhamos pouca ou nenhuma sensibilidade, apesar de convivermos com alguns comerciantes (portugueses e libaneses, sobretudo) que viviam nas povoações por onde passámos. Devemos penitenciarmo-nos por isso, reservando-lhe agora algum espaço do nosso blogue. Se alguém mais quiser voltar a abordar a este assunto, a porta fica aberta...

__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. postas anteriores:

30 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1798: Região de Catió: Descendentes da família Pinho Brandão procuram-se (Gilda Pinho Brandão)

3 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1811: Vim para Portugal aos 7 anos, em 1969, e não tenho uma fotografia de meu pai, A. Pinho Brandão (Gilda Pinho Brandão, 44 anos)

5 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1817: Catió: Em busca da família Pinho Brandão (Leopoldo Amado / Victor Condeço / Armindo Batata / Gilda Pinho Brandão)

Guiné 63/74 - P1818: Da Suécia com saudade (1) (José Belo, ex-Alf Mil, CCAÇ 2381, 1968/70) (1): Hino à Guiné que nós conhecemos

Guiné > Vaqueiras manjacas da Ilha de Pecixe > Postal ilustrado (pormenor) > Série de postais ilustrados do tempo da Guiné Portuguesa > S/d nem editor ... Colecção de postais do nosso amigo e camarada José Casimiro Carvalho (ex-Fur Mil Op Esp, CCAV 8350, Guileje, Cacine, Gadamael e Paunca, 1973/74)... Os postais, acho que ele os coleccionava para mandar, com muitas ternura, ao seu velhote, no Porto... Esta série de postais, relativamente ousados para a época (tema: bajudas de mama firme...)., revelavam uma visão... excêntrica e etnocêntrica da Guiné dita portuguesa, típica do Estado colonizador e dos seus agentes (LG).


Foto: © José Casimiro Carvalho (2006). Direitos reservados.

Guiné > CCAÇ 2381, Os Maiorais (Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70) > Emblema.

Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > CCAÇ 2381 (1968/70) > O Maioral Zé Teixeira, 1º cabo enfermeiro, junto ao obus 14 que batia a zona fronteiriça...

Fotos: © José Teixeira (2006). Direitos eservados.

Caríssimos Luís e Carlos:

Saúde, paz e felicidade para vós e todos os camaradas da Tabanca Grande.

Hoje, envio-os dois pequenos textos, que não são de minha autoria, mas de um Maioral, Capitão de Abril, que em 1976 decidiu passar à reserva e abalar até à Suécia onde recomeçou nova vida (1).

As saudades de bom português, essas têm vindo a desenvolver-se com o andar dos tempos e o Costa Belo foi à procura dos MAIORAIS através da NET e localizou exactamente o enfermeiro do Grupo de Combate que ele comandava, ou seja, eu próprio. A alegria partilhada por ambos, como deveis calcular foi enorme.

Naturalmeente que o fio da nossa conversa foi a Guiné de ontem e de hoje. Enviou-me um texto bem antigo que reflecte exactamente aquilo que nós sentimos.

Com a devida autorização aqui o junto, ao qual ousei dar um título - não te zangues, ó Belo - que me parece se ajusta ao conteúdo, pelo menos foi o que senti.

2. Comentário de L.G.: O José Costa Belo é bem-vindo, para mais sendo um camarada nosso que vive nessa bela e grande terra que é a Suécia. Zé, convida-o a fazer fazer parte desta nossa Tabanca Grande. Hoje vou começar a publicar os seus textos.

Um hino à Guiné que nós conhecemos,
por José Belo (1)

- Guiné! dos pântanos, das bolanhas, dos mosquitos e das febres.

- Guiné! Da mata onde havia momentos em que todos os ruídos paravam. Não se afastavam ou diminuíam, antes tudo se calava abruptamente, como se os seres vivos tivessem recebido uma ordem. Ouviam-se então coisas impossíveis.... O soprar húmido do vento, o suor dos nossos camuflados, a actividade frenética dos insectos, e mesmo, o batimento do nosso coracão.

- Guiné! Dos escravos, das revoltas nativas, das muralhas do Cacheu, que lá estavam quando cheguei, e lá ficaram ao partir.

- Guiné! Dos Fulas, dos Mandingas, noites de luar, falando dos avós dos avós, de outros chãos onde nunca houvera fome, dos pastores que no céu escuro guardam os milhões de estrelas.

- Guiné! Dos Balantas, símbolo pujante da Africa que luta, que trabalha o seu chão, mas que também se sabe divertir.(Ah, velha aguardente de cana!)

- Guiné! Dos Beafadas, dos Nalus, dos Papéis, dos guerreiros Felupes bebendo vinho de
palma pelo crânio dos inimigos vencidos.

- Guiné! Do matriarcado Bijagó.

- Guiné! De Bubaque... miragem de guerra!

- Guiné! De Ponta Varela, copacabana sem casas, sem gente, mas na qual num dia solarengo do princípio dos anos sessenta, Brigitte Bardot (PASME-SE!) tomou bom
banho de Mar.

- Guiné! Das bajudas de mama firmada, lavadeiras de tantas lamas,(e porque não?) de algumas águas bem cristalinas

- Guiné! De Bissau, vilória perdida. Cidade feita de... avenida única....pouco mais!Da cerveja gelada, das ostras grelhadas com molho picante, dos mininos vendendo mancarra em coloridos alguidares de esmalte. Das tascas, dos restaurantes(?)que serviam gostoso chabéu que o Joaosssssinho Manjaco tão bem preparava!

Bissau das muralhas do Forte da Amura. Lembrança constante de um...estar pelas armas!

Bissau da piscina em Clube de Oficiais, mas também Bissau do Hospital Militar.

Bissau - OS MINUTOS QUE VALIAM OIRO - ROUBADOS À MORTE QUE ESPERAVA NO MATO!

- Guiné! Da violência, da guerra tribal... dividir para governar!

- Guiné! Do Comando Africano, jovem herói, usado e abusado, para matar os seus em guerras não suas.

- Guiné! De Amílcar Cabral, que, com humildade, soube ouvir os gritos de um Povo.

- Guiné! Onde General destemido, tentava tapar com mãos nuas os buracos nos diques, pretensiosamente levantados aos maremotos da História. Saberia ele? Saberíamos nós?... quando o víamos chegar aos locais mais perigosos da luta, visitar, interessado, os feridos, que olhávamos o... último dos Comandantes de Africa, num Portugal que jamais seria o mesmo?

- Guiné! Onde o Império acabou por ruir!

- Guiné! De um círculo. Dos amigos. Dos inimigos. Dos amigos inimigos. E, mais tarde, dos inimigos amigos!

- Guiné! De muitas e tão duras lições!

- Guiné! Do lendário comandante Nino, temido chefe guerrilheiro, que, depois de Presidente, coloca os seus filhos em colégio... do Porto!

- Guiné! Terra vermelha de argila e SANGUE! Da estrada de Buba a Aldeia Formosa, de Aldeia Formosa a Gandembel.

Terra que abraçámos com violência, quando contra ela nos comprimíamos em chão de
emboscadas!

Terra que comungámos no pó e saliva que nos enchia a boca em rebentamentos de minas!

Terra regada com tantas lágrimas de saudade, de dramas pessoais, de frustrações e de
dôr... a juntarem-se às vossas... de povo africano mártir!

- Guiné! De Mampatá, tabanca perdida na selva, onde, tão longe de tudo e de todos, acabámos por... nos encontrar!

- Guiné que foi VOSSA/NOSSA, mas que hoje sendo VOSSA/VOSSA, é bem mais NOSSA do que antes

Um Maioral, José Belo

Estocolmo, Setembro de 1981
_____________

Nota de L.G.:

(1) José Costa Belo foi Alferes Miliciano na CCAÇ 2381 - Os Maiorais. Chegou até nós pela mão do Zé Teixeira. Vive na Suécia. Obrigado ao Zé Teixeira, por nos er feito chegar esta belíssima evocação da nossa (e)terna Guiné!

O Zé é um dos nossos mais activos e produtivos membros da nossa Tabanca Grande. É um grande contador de estórias. Vd. último post > 15 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1760: Estórias do Zé Teixeira (15): Tarde de Domingo com sorte

Os Maiorais da CCAÇ 2381 têm, além disso, uma página na Net, criada e editada pelo ZéTeixeira: chama-se, muito simplesmente CCAÇ 2381 - Os Maiorais.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1817: Catió: Em busca da família Pinho Brandão (Leopoldo Amado / Victor Condeço / Armindo Batata / Gilda Pinho Brandão)

Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em Fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em Julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.


Foto 32 > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas o Cap Médico Morais, o Comandante Ten Cor Abílio Santiago Cardoso, quatro funcionários dos Correios e Administração, os comerciantes Srs. José Saad e filha, Mota, Dantas e filha, Barros, depois o electricista civil Jerónimo, e o Alf Capelão Horácio".

Comentário de L.G.: Falta aqui o comerciante Pinto Brandão... O que se terá passado ? Não foi convidado ? Estaria presente mas não ficou nesta fotografia ? POr outro lado, sabemos que os pais do Leopoldo Amado ( Mateus Teixeira da Silva Amado e Cipriana Araújo de Almeida Vaz Martins Amado) passaram por Catió. O pai foi funcionário dos correios... Poderá ser algfum destes civis...

Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: "A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer".

Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Foto 28 > "Cerimónia militar em Fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em Julho de 1967. Em fundo a porta de armas, cozinha e refeitório, armazém de géneros ainda em construção, parte da camarata de oficiais e, fora do quartel, o armazém/cais da Casa Gouveia".

Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Foto 27 > "Cerimónia militar em Fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em Julho de 1967 Em fundo as casernas nºs 1 e 2".

Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Foto 31 > "Cerimónia militar em Fevereiro de 1968. Vista parcial do quartel com as tropas em parada".

Fotos e legendas: © Victor Condeço (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem que o editor do blogue mandou por e-mail, para a a tertúlia Luís Graça & Camaradas da Guiné:

Quem poderá ajudar a nossa amiga Gilda Pinho Brandão, de 44 anos, filha de Afonso Pinho Brandão, que foi trazida, em 1969, aos sete anos, para Portugal, pela mão de um tal furriel Pina e acolhida pela sua família ? (1)

Ela não tem nenhuma foto do pai (que deveria ser português, comerciante no sul da Guiné, em Catió ou em Ganjola...) . A mãe, guineense, já morreu há dois anos. Dos irmãos e tios maternos, não tem praticamente referências... Dos oito irmãos paternos, acaba de conhecer dois... O Mário Dias, o Mendes Gomes e o Victor Condeço são capazes de ter informação adicional sobre a família Brandão....

2 Uma resposta, pronta, veio do nosso amigo Leopoldo Amado, lusoguineense, que passou parte da sua infância em Catió, onde o pai foi administrador dos correios:

Caro Luís,

Felizmente, creio ser relativamente fácil satisfazermos os anseios na nossa amiga Gilda, na medida em que é possível contactar um membro da sua família em Bissau, o Engº Pinho Brandão, ex-Director da EAGB (Empresa de Águas e Electricidader da Guiné-Bissau), o qual poderá ajudar.

Eu próprio, quando era criança em Catió, lembro-me perfeitamente que a família Pinho Brandão, comerciantes conhecidos no Sul do país (uma mescla de portugueses e guineenses), eram do círculo de amizade dos meus pais.

É uma questão de a Gilda grudar-se a mim e ao Pepito que certamente conseguiremos ajudála a (re)encontrar os parentes, espero bem.

Leopoldo Amado


3 Comentário do editor do blogue:

Gilda: Um gesto amigo… Contacte o doutor Leopoldo Amado, membro da nossa tertúlia, cujo pai foi administrador dos correios (Bolama, Catió...) e amigo dos Pinho Brandão. Além disso, há um parente seu (presumo) que já foi ministro da agricultura, pescas e recursos naturais da Guiné-Bissau, em 1999, o Eng. Carlos Pinho Brandão...

4. Também o Victor Condeço (ex-fur mil da CCS do BART 1913) nos forneceu mais algumas pistas sobre a a família Brandão, de Catió. Reproduzo aqui alguns excertos do seu mail (que é particular):

(...) Sobre o assunto não tenho nenhuma informação fidedigna, por enquanto. Mas é curioso porque ainda no passado dia 20 de Maio, em V. N. Gaia, quando do convívio BART1913, naquelas conversas do Lembras-te disto e daquilo, deste (a) ou daquele (a), foi mencionada a família Brandão, alguém referiu que descendentes seus estariam radicados pela região do Grande Porto.

Tentei já esta semana, junto de um ex-camarada de Catió, o também tertuliano ex-furriel Jorge Teixeira (2), saber algo mais. Segundo ele inicialmente esta família ter-se-á radicado em S. Mamede de Infesta, mas fiquei com a promessa de que iria tentar saber mais, por isso vamos aguardar.

(...) Também telefonei (...) ao (meu) ex-cabo Camarinha, com quem há tempos também tinha falado sobre o Sr. Brandão. Confirmou-me o que o Jorge Teixeira me tinha dito mas acrescentou-me um dado que ficou em confirmar-me: parece que em Espinho onde vive, está radicado um filho do Manuel Pinho Brandão (...).


4. Mensagem do Armindo Batata:

(...) Não tenho muita confiança na minha memória, mas havia um Brandão em Cufar em 1970. Era comerciante e natural da Guiné. Não tenho fotografia alguma, mas pode ser que estes dados, a estarem correctos, ajudem.

Saudações a todos
Armindo Batata
Ex-Alf Mil
Pel Caç Nat 51
Guileje/Cufar
1969/1970


5. Resposta da nossa amiga Gilda:

Boa tarde, Caro Dr. [Leopoldo Amado]:

Muito obrigada pelo seu interesse no meu assunto (1). Falei há pouco com o meu irmão António Pinho Brandão, ele tem conhecimento desse nosso irmão [, o Eng Carlos Pinho Brandão,], pois esteve na Guiné no princípio deste ano e contactou com ele.

Vou falar com o meu mano João (o furriel Pina) ainda durante esta semana, para tentar saber dados mais concretos acerca da minha vinda para Portugal.

Será que os seus pais conheceram o meu? Os nomes Bolama, Mampatá, e Catió são me familiares, mas não tenho nenhuma imagem específica dessas zonas, na minha memória só foram arquivados os nomes e lembro-me que vivia numa tabanca, perto do quartel (onde eu ia buscar comida), com os meus avós, e mais nada.

Como já disse também ao Dr. Luís Graça, vou falar com o meu mano João para saber se ele tem algumas fotos da Guiné.

Cumprimentos

Gilda Brás


6. Outra mensagem da Gilda, enviada à nossa tertúlia:

Bom dia Amigos,

Muito, muito obrigada. Não encontro palavras, para vos expressar o que sinto com todas estas informações.

Vou falar com o meu irmão (Furriel Pina), para o caso de ele ter algumas fotos nossas da Guiné e dar-lhe o contacto desta fantástica Tertúlia de Amigos da Guiné.

Ao Dr. Luís Graça em particular, os meus sinceros agradecimentos pelo tempo dedicado ao meu caso.

Cumprimentos e até breve

Gilda Brás

____________

Notas de L.G.:

(1) Vd. postas anteriores:

30 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1798: Região de Catió: Descendentes da família Pinho Brandão procuram-se (Gilda Pinho Brandão)

3 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1811: Vim para Portugal aos 7 anos, em 1969, e não tenho uma fotografia de meu pai, A. Pinho Brandão (Gilda Pinho Brandão, 44 anos)

(2) Vd. post de 11 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1652: Tertúlia: Três novos candidatos: José Pereira, Hélder Sousa e Jorge Teixeira

O Jorge Teixeira esteve na Guiné entre Maio/68 e Abril/70. Conheceu Catió.






Guiné 63/74 - P1816: Estórias cabralianas (23): Areia fina ou as conversas de Missirá (Jorge Cabral)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Fá Mandinga > 1969 ou 1970 > "Aqui está o Rocha afagando um cão, de quem aliás já falei na minha estória O Amoroso Bando das Quatro. Os outros são: de pé – Soldado Mamadú, eu, 1º Cabo Injai; em baixo – Soldado Demba, 1º Cabo Marçalo, Soldado-maqueiro Adão" (JC)...



Como se pode deduzir da foto acima, o Jorge estava protegido por manga de mezinhos... Hoje continua a usá-los, pelo menos alguns, só que andam todos trocados... Ainda há dias, na discussão da tese de doutoramento do Leopoldo Amado, se falava da importância do pensamento mágico na guerra da Guiné. Tanto o PAIGC como as NT aproveitaram-se do pensamento mágico que é um traço cultural forte de todos os grupos étnicos da Guiné.

Fotos: © Jorge Cabral (2006). Direitos reservados.

1. Mensagem do Jorge Cabral:

Amigo,

Só agora me foi possível enviar a estória que te prometi na Casa do Alentejo (1). Logo que de lá saí, em pleno Rossio, senti-me mal e recolhi ao Hospital, onde coincidência ou destino, fui observado por uma médica guineense, a qual tendo reparado no ronco-mezinha que continuo a usar na cintura, me tratou como um verdadeiro Homem Grande, tendo-me informado que o amuleto afinal não é fula, como sempre pensei, mas mandinga e que me protege sim, das balas, do mau olhado e das invejas, mas não do stress e dos excessos.

Já quase recuperei, mas lamento não ter podido comparecer no Doutoramento do Leopoldo, e muito principalmente, no funeral do Neto.

Finalmente o Beja Santos chegou ao meu tempo na Guiné. Fiquei a saber que inaugurei o Destacamento da Ponte do Rio Udunduma, pois lá me encontrava no dia 30 de Junho de 1969, conforme atesta o aerograma que enviei a uma Amiga, no qual comparo a minha situação, com o romance A Ponte, descrição da odisseia de um pelotão de jovens alemães na defesa de uma ponte, que acaba dinamitada pelo seu próprio exército.

Enfim, as peças do puzzle da memória vão-se encaixando.

Abração
Jorge


2. Estória nº 23 da série Estórias Cabralianas. Autor: Jorge Cabral , ex- Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71.

Era estudante universitário, em Lisboa, quando foi convocado para a tropa. Hoje é advogado, escritor e docente universitário, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, sendo o coordenador do curso de pós-graduação em Criminologia.

Ficamos agora a saber que o nosso alfero anda com os amuletos trocados... Tenho a obrigação moral, como seu amigo, camarada e editor literário, de lhe dizer que o stresse mata, é um assassino silencioso... Está na altura de ele mandar a máquina à revisão geral e requisitar amuletos novos da Guiné-Bissau... LG

Conversas em Missirá – Areia Fina,

por Jorge Cabral (2)


Conheci muito bem o Alferes que esteve em Missirá nos anos de 1970 e 1971. Diziam que estava apanhado, mas penso que não. Era mesmo assim. Quem com ele privou em Mafra e Vendas Novas certamente o recorda, declamando na Tapada:

No alto da Vela
Fui Sentinela
de coisa nenhuma
Quem hei-de guardar
Quem irei matar…

Ou no Cine-Teatro de Vendas Novas, diante das autoridades civis e militares, na récita do final da Especialidade, para a qual encenou uma peça absurda, onde o Tenente Gengis Khan saltava do helicóptero, e avançava capim dentro.

Dessa vez, o Comandante zangou-se mesmo, e interrompeu a representação…

Em Missirá, apenas recolhia ao seu abrigo – quarto para dormir. Passava os dias, à conversa com os negros, e com brancos, e queria saber tudo. Petiscava com as mulheres, de cócoras, metendo a mão no alguidar, fazendo bolas de arroz, que depois saboreava… Frequentava a pequena mesquita, mas quando o Padre Puím (3) lá foi, até ajudou à Missa…

Perguntava-nos tudo. Das aldeias, das profissões, das lendas, das crendices, do futuro… Ouvia mais do que falava, mas às vezes, punha-se a contar estórias.

Uma noite, após o jantar, como era habitual, continuámos à mesa. Ainda cheirava a grão. Bebíamos todos. Recordo os copos, feitos das garrafas, e a colorida caneca do Alferes, velhíssima e não muito limpa. Já vinha de Fá, e aí em visita, uma vez, o Major B.B. (4) recusou beber por ela…

Naquela ocasião, quis que falássemos da nossa primeira vez. Mas com verdade, acrescentou, pois desconfiava que alguns ainda não tinham experimentado. Começou ele, e falou de uma virgem loira, à beira rio, num fim de Março, quase Primavera. Não percebemos nada. No início chamava-se Cloé, depois Isolda, e terminou Julieta envenenando-se. Mais tarde confessou-me que inventara. Na realidade acontecera em Badajoz, custara cem pesetas, a mulher era gorda, vesga, e tresandava a alho…

O Pechincha, como sempre, delirou. Logo na Escola primária com a contínua… pois então.

O Monteiro falou da rapariga murquês, termo que nunca mais ouvi, e que dará outra estória, mas quem mais nos divertiu foi o Cozinheiro Teixeirinha.

Completados os dezasseis anos, embarcara num paquete de luxo, onde era camareiro, competindo-lhe fazer as camas e arrumar os camarotes. Logo ao segundo dia da viagem, foi procurado por uma senhora que se queixou de não conseguir dormir. Os lençóis estavam cheios de areia fina – afirmou ela. O Teixeirinha mudou os lençóis e pensou ter resolvido o problema. Mas não. A dama voltou à carga. E lá tornou ele, a colocar lençóis lavados, que previamente escovou. Porém, a passageira continuou a reclamar. Não conseguia dormir.
- Olhe, passe por lá esta noite a ver se não encontra areia fina.

O Teixeirinha passou e ficou. Óptima areia fina, até chegar ao destino…

Hoje quando o Alferes telefona ao Branquinho, logo no início da conversa, interroga sempre:
- Rapaz, como vamos de areia fina?

Jorge Cabral

_________


Notas de L.G.

(1) Vd. post de 27 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1788: Convívios (10): Pessoal de Bambadinca 1968/71: CCS do BCAÇ 2852, CCAÇ 12, Pel Caç Nat 52 e 63 (Luís Graça)

(2) Vd. último post da série Estórias cabralianas > 12 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1752: Estórias cabralianas (22): Alfa, o fula alfacinha (Jorge Cabral)

(3) Vd. post de 17 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1763: Quando a PIDE/DGS levou o Padre Puim, por causa da homília da paz (Bambadinca, 1 de Janeiro de 1971) (Abílio Machado)

(4) Oficial superior de operações do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72)

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1815: Álbum das Glórias (14): o 4º Pelotão da CCAÇ 14 em Aldeia Formosa e em Cuntima (António Bartolomeu)

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Guiné > Zona Leste > Sector de Farim > Cuntima > Destacamento de Cuntima > CCAÇ 14 > 1970 > 4º pelotão. O Fur Mil At Inf Bartolomeu é 1º da direita.

Foto alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.
Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > CCAÇ 14 (1969/71) > 1969 > O Fur Mil Bartolomeu junto ao Obus 14. O quartel e a povoação nunca foram atacados enquanto o Bartomoeu lá esteve. Respeito do PAIGC pelo Cherno Rachid ? (2).


Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > CCAÇ 14 (1969/71) > 1969 > Um grupo de furriéis na respectiva messe. O Bartolomeu está de camisa branca.


Fotos: © António Bartolomeu (2007). Direitos reservados.


Álbum das Glórias (3)... Fotos do ex-furriel Bartolomeu, da Companhia de Caçadores 2592 que deu origem à CCAÇ 14. Esta companhia independente veio, no Niassa, com a CCAÇ 2590/CCAÇ 12, foi para Bolama para formar a CCAÇ 14. O pelotão do Bartolomeu (o 4º) foi para Contuboel. Aí deu a instrução de especialidade a um pelotão de Mandingas, oriundos da zona de Nova Lamego (Junho/Julho de 1969).

O 4º Gr Comb da CCAÇ 2592/CCAÇ 14 foi depois para a Aldeia Formosa onde esteve 4 meses. A seguir, juntou-se ao grosso da companhia, aquartelada em Bolama. De Bolama, a CCAÇ 2592 CCAÇ 14 seguiu para o sector de Farim, destacamento de Cuntima, onde ficou como unidade de quadrícula até ao fim da comissão. Esta povoação ficava (e fica) a 1 Km da fronteira com o Senegal.

Em Cuntima "éramos um misto de guarda fiscal e de polícia de fronteiras... Por ali passava um dos corredores do Oio", diz o Bartolomeu.

____________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de e 2007 > Guiné 63/74 - P1803: Tabanca Grande (7): Saudades de Contuboel (António Bartolomeu, CCAÇ 2592 / CCAÇ 14)

(2) Sobre o Cherno Rachid, vd. posts de:
16 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXVIII: Um conto de Natal (Artur Augusto Silva, 1962)

(...) Na povoação de Quebo, perdida no sertão da terra dos Fulas, o tubabo conversa com seu velho amigo, Tcherno Rachid, enquanto as pessoas graves da morança, sentadas em volta, ouvem as sábias palavras do Homem de Deus. Esse Homem de Deus é um Fula, nascido na região, mas cujos antepassados remotos vieram, há talvez três mil anos, das margens do Nilo. Mestre da Lei Corânica e filósofo, Tcherno Rachid ligou-se de amizade profunda com o tubabo - o branco - vai para quinze anos, quando este chegou à sua povoação e se lhe dirigiu em fula. O tubabo é também um filósofo que veio procurar em África aquela paz de consciência que o mundo europeu lhe não podia dar" (...)

15 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LVII: O Cherno Rachid, de Aldeia Formosa (aliás, Quebo) (Luís Graça).

(3) Vd. último post desta série, Álbum das Górias > 22 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1778: Álbum das Glórias (13): O que custava mais eram os primeiros 21 meses (Humberto Reis / Luís Graça)

Guiné 63/74 - P1814: Tabanca Grande (10): Germano Santos, Operador Cripto da CCAÇ 3305 / BCAÇ 3832 (Mansoa, 1970/73)

1. Mensagem de Germano Santos, com data de 3 de Maio último:

Caro Luís Graça,

Chamo-me Germano Santos e estive na Guiné entre 1970 e 1973.

Fui Operador Cripto do Batalhão de Caçadores 3832 que operou, sediado em Mansoa, nas regiões de Cutia, Infandre, Braia, Porto Gole, Bissá, Jugudul, Uaque, Bindouro e Rossum.

Tive oportunidade de regressar à Guiné em 1998, e rever Mansoa e Jugudul. Deu ainda para dar um salto a Bissorã, João Landim, Quinhamel e ao Arquipélago de Bijagós, designadamente a Ilha das Galinhas, antiga rota dos escravos, sem esquecer Bissau.

É com muita saudade que leio, oiço e falo da Guiné e, obviamente, de Mansoa, onde passei dois anos da minha juventude.

Estou a organizar, conjuntamente com outros camaradas, o almoço anual do batalhão (este ano realizou-se no dia 5 de maio, em Lisboa, no Páteo Alfacinha).

Só agora descobri o seu sítio na Net e vou olhar para ele com outros olhos assim que possa.

Tenho algum material fotográfico da Guiné, nomeadamente de Mansoa e de camaradas meus; se quiser posso-lhe remeter algum. Diga-me só como devo fazer.

Um abraço e parabéns pelo seu trabalho sobre a Guiné.

Germano Santos

2. Comentário do editor do blogue:

Germano: Sou de 1969/71. Fomos vizinhos. Estive em Bambadinca, fiz operações a norte do Rio Geba, embora não conheça Mansoa. Nunca mais voltei à Guiné. Fundei este blogue para que tu, eu e outros camaradas possamos exprimir-nos, livremente, sobre essa experiência única que foi, nos nossos verdes anos, a nossa passagem pela Guiné, em situação de guerra.

Escusado será dizer que és bem vindo. Já agora, peço-te que me mandes as fotos da praxe, uma actual e outra do tempo da tropa, de acordo com as regras da nossa tertúlia. Fala-nos também, um pouco mais, das tuas recordações desse tempo e, se assim o entenderes, das tuas impressões do regresso, em 1998. Desculpa o atraso na resposta. Podes digitalizar (ou 'scanizar') as tuas fotos, em formato.jpg e mandá-las por e-mail. Boa saúde e boas recordações. Luís Graça

PS - Divulga o nosso blogue pela malta do teu batalhão. Há já muitas referências a Mansoa. Podes utilizar as facilidades de pesquisa do blogue para encontrar textos e imagens sobre a região de Mansoa.

Guiné 63/74 - P1813: Os heróis desconhecidos de Cussanja, os balantas das boinas amarelas (César Dias)

Guiné > Região do Oio > Mansoa > CCS do BCAÇ 2885 (1969/71) > Patrulhamemto das NT no cruzamento de Cussanja

Foto: © César Dias (2007). Direitos reservados.

Texto do César Vieira Dias (ex-Fur Mil Sapador Inf, CCS do BCAÇ 2885, Mansoa, 1969/71)(1):



Camarada Luís Graça:

Num dos momentos nostálgicos que nos assaltam periodicamente, lembrei-me de prestar homenagem a uns miúdos que, penso, nem 20anos teriam e foram os protagonistas deste episódio.

Se achares que é de partilhar com a nossa gente, fogo na peça , estás á vontade.

Envio-te essa foto que nada tem a ver com o episódio mas é do cruzamento do Cussanja.


Um grupo de Balantas de boinas amarelas

por César Dias


Era um improvisado destacamento, no cruzamento de Cussanja. Estava situado no entroncamento da estrada Mansoa-Cussaná- Cussanja com a estrada Jugudul-Porto Gole, a poucos kilómetros de Mansoa.

Dado a sua localização, era um ponto priveligiado pelo IN do Changalana para tentar flagelar Mansoa, o que obrigava as NT a um grande desgaste em patrulhamentos e emboscadas sucessivas nessa zona.

Foi necessário improvisar um destacamento neste ponto, e a sua defesa foi entregue a um reduzido grupo de Balantas, a pedido destes.

Foi-lhes atribuída uma viatura Unimog, algumas G3 , Mausers e 1 ou 2 morteiros. Rapidamente escavaram abrigos que cobriram com troncos de palmeira e simultaneamente construiram 3 tabancas, nascendo assim o destacamento do cruzamento de Cussanja.

No primeiro dia que aparecem em Mansoa para se abastecerem, surpreendem toda a gente com as suas boinas amarelas, côr que escolheram para serem diferentes, manga de ronco.

Mas esta situação durou pouco tempo, pois em 23 de Setembro de 1969 um numeroso grupo IN atacou o destacamento durante 5 minutos, destruindo-o e incendiando-o, e causando 2 mortos queimados e 5 feridos.

Com a reacção da Artilharia de Mansoa, o IN bateu em retirada e quando chegou socorro de Mansoa já não teve contacto. O que restou dos mortos carbonizados chegou a Mansoa nas capas de chuva.

E assim terminou o grupo dos boinas amarelas que foi sacrificado por uma causa em que acreditaram. Terminou também o destacamento, voltando a zona a ser patrulhada e emboscada periodicamente.

Lembrei-me de relatar este episódio, com as imprecisões da distância no tempo, mas com a intenção de relembrar os heróis desconhecidos que, a não sermos nós, ficariam eternamente esquecidos.

Um abraço

César Dias

Ex Furriel Miliciano

CCS - BCAÇ 2885

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Nota de L. G.:

(1) Vd. posts anteriores do César Dias:

30 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1472: Sobrevivente do BCAÇ 2885 (Mansoa e Mansabá) (César Dias)

1 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1557: No regresso éramos menos 32 (César Dias, CCS do BCAÇ 2885, Mansoa, 1969/71)

3 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1643: A morte do 1º cabo José da Cruz Mamede, do Pel Cacç Nat 58 (3): 10 mortos em emboscada com luta corpo a corpo (César Dias)

domingo, 3 de junho de 2007

Guiné 63/74 - P1812: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (10): As mulheres dos meus homens eram minhas irmãs

X Parte das memórias do Paulo Santiago, ex-alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 53 (Saltinho , 1970/72). O Paulo é natural de Aguada de Cima, concelho de Águeda. É um fã do râguebi e de desportos de aventura como o BTT e o canyoning.


Luís: Continuo hoje com mais uma das minhas memórias (1). Trata de conflitos rácicos e vou, pela primeira vez, utilizar iniciais a substituirem um nome.

Penso já ter dito em anterior memória que o Pel Caç Nat 53, ao contrário de grande parte de outras unidades, tinha uma composição muito heterógenea: balantas, fulas (futa-fulas, fulas-cativos, fula-forros), mandingas e beafadas.

Apesar de toda esta mistura, havia um espírito de corpo notável, talvez o mérito seja meu, jamais tive dentro do grupo qualquer conflito. É claro que as diferenças comportamentais entre um balanta e um fula eram abissais:um bebia como uma esponja, e era animista; o outro não bebia e era islamizado. Por vezes dizia aos islamizados, quando havia algum balanta mais alcoolizado:
- Nada de criticas,vocês, fulas, gostam de mim e respeitam-me mesmo quando estou de cabeça grande [com os copos]. Eu bebo como um balanta e sou religioso como um fula ou um mandinga islamizado, a única diferença é ser cristão.

A tabanca do Saltinho era composta por mandingas, era relativamente pequena. A menos de 1km - antes da construção e ocupação do Reordenamento de Contabane -, tinha sido improvisada uma tabanca para instalar os habitantes daquela que ficava na estrada que ligava a Aldeia Formosa e tinha sido destruída, Contabane.

Um dos meus soldados, o Iaia Dabó, mandinga, perdeu-se de amores por uma bajuda de Contabane e, um dia, ao anoitecer deram-lhe uma grande arraial de porrada que
o deixou muito maltratado.

Guiné > Saltinho > Pel Caç Nat 53 > 1971 > O Alf Mil Santiago, de bigode e barrete fula na cabeça, ladeado, à sua direita, pelo 1º cabo Verdete, e à sua esquerda pelos Sold Samba Seidi, bazuqueiro, e Abdulai Baldé, um dos seus fiéis guarda-costas.

Foto: © Paulo Santiago (2007). Direitos reservados.


Estava no bar bebendo uns copos, esperando o jantar, quando ouvi dois tiros (sinal utilizado para reunir o 53). Os Furrieis estavam também comigo, o que se estaria a passar? Viemos a correr até as moranças do pessoal que ficavam a seguir à porta de armas do quartel. Estavam todos num alvoroço e armados até aos dentes. Dou meia dúzia de abanões aos primeiros que encontrei, indagando quem dera ordens para reunir o grupo de combate. Muito excitados, começam a dizer-me que vão lixar o pessoal de Contabane por terem atacado um militar do 53.

Procuro meter calma naquela gente mas começo a sentir que não estou a ser bem sucedido, apesar de alguma violência física que utilizo. Noto um grupo a encaminhar-se em direcção à tabanca do Régulo Sambel (nesta data ainda o filho não tinha sido transferido para o 53) , corro atrás, junto com o CapClemente [, comandante da CCAÇ 2701, unidade de quadrícula do Saltinho 1970/72], que entretanto aparecera e a quem explico o que se passa enquanto corremos.

Peço ao 1º cabo Sanhá, beafada, para me dar a G3, tendo ele obdecido. Continuo a correr, pois já estou a ver os militares que iam à minha frente a distribuir coronhadas e pontapés aos primeiros tipos da população que lhes apareceram pela frente.

Ofegante, lá chego aos berros para acabarem com aquela merda. Ninguém me ouve, nem ao Clemente. Mando uma rajada para o ar com a G3 que o Sanhá me entregara e a calma vem por momentos. Vejo que estão lá representadas todas as etnias do meu grupo. Volta a excitação, queriam apanhar o Sambel, ele tinha de pagar pela porrada que deram no Iaia.

Fui buscar o Sambel, juntamente com o Cap Clemente e, à frente de todos, demos-lhe uma piçada: não tinha direito para bater num militar, se tivesse alguma queixa contra ele deveria ter-mo comunicado, jamais poderia fazer outra cena igual.

Acalmados, ainda que com alguns encontrões, lá regressaram às moranças. No dia seguinte, chamei um dos fulas, que se mostrara mais excitado e pus-lhe o problema:
- Tu, fula, andaste ontem a distribuir coronhada nos teus irmãos de raça!?
- Alfero, o Iaia é do 53, no mato é ele que está ao meu lado, não é o Régulo Sambel. - Gostei da resposta...

Passado pouco tempo outro conflito, também à noite e também estava no bar. Aparece-me à porta o Amadú Baldé, um dos auto-intitulados meus guarda-costas, excelente militar, com uma Cruz de Guerra, completamente descontrolado, pois um militar da [CCAÇ] 2701, o 1º cabo M.C. tinha tentado abusar da mulher. Era meu lema As mulheres dos meus homens eram minhas irmãs.

Quem era o 1ºcabo M.C. ? Natural da minha freguesia, ainda meu parente afastado, trabalhava na Secretaria da Companhia, sendo o seu estado natural de bebedeira pura e dura.

Fui ao abrigo onde estava o M.C., com o Amadú e mais alguns do 53 atrás de mim, trouxe-o cá para fora e enxertei-lhe o pelo valentemente, mais furioso ainda por ser um conterrâneo meu a fazer uma canalhice daquelas.

Deixei-o caído na parada, mas ameaçando-me ele com um tiro. Não liguei à ameaça, virando-lhe as costas. Não é que o tresloucado foi mesmo buscar uma G3 para me atingir? Valeram-me os meus homens que estavam perto. Desarmaram-no com a maior das facilidades e, se eu não tivesse intervido, tinham-lhe limpado o sebo.

Nessa noite desapareceu o M.C.... Fiquei preocupado. Vinha de férias pela 1ª vez, daí a uns dias, e,como tudo se sabe, e geralmente com distorções, já começava a imaginar o que iriam dizer acerca da minha pessoa, sendo que os pais e os irmãos eram óptimas pessoas. O Clemente andava fodido.

Ao fim de 3 dias, vindo do lado de Aldeia Formosa, apareceu o M.C. Vinha todo roto. O Clemente mandou formar a [CCAÇ] 2701 e o [Pel Caç Nat] 53 e ordenou ao fugitivo para lhe dizer o que tinha andado a fazer.
-Tentei ir para a República da Guiné, utilizando o carreiro dos djilas, mas comecei a ter medo das minas e armadilhas, perdi-me e andei vagueando ao longo do [Rio] Corubal, até conseguir regressar... Comi umas folhas para enganar a fome - explicou o M.C.

O Clemente disse que era sua intenção dar-lhe a punição máxima, mas em consideração
por mim iria ouvir-me primeiro. Depois de muita insistência, consegui convencer o Cap Clemente a esquecer o incidente.

Paulo Santiago


PS-O M.C. foi para a Venezuela. É raro vir cá, e quando vem provoca distúrbios graves. A própria família não gosta de o ver.

___________

Nota de L.G.:


(1) Vd. post anteriores:

23 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1687: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (9): Maluqueiras na picada Saltinho-Galomaro-Bafatá

12 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1653: Memórias de um Comandante de Pelotão de Caçadores Nativos (Paulo Santiago) (8): A pontaria dos artilheiros de Aldeia Formosa

5 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1564: Memórias de um Comandante de Pelotão de Caçadores Nativos (Paulo Santiago) (7): Fogo no capinzal

13 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1424: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (6): amigos do peito da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72)

4 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1338: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (5): estreia dos Órgãos de Estaline, os Katiusha

13 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1275: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (4): tropa-macaca, com três cruzes de guerra

19 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1192: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (3): De prevenção por causa da invasão de Conacri

13 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1170: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (2) : nhac nhac nhac nhac ou um teste de liderança

12 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1168: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (1): Periquito gozado