sábado, 28 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P2005: Convívios (21): BART 3873 (Bambadinca 72/74), em Viseu, no dia 16 de Junho último (Álvaro Basto)

Viseu> 15 de Junho de 2007> Encontro do BART 3873 ( Bambadinca 72/74)> Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Casimiro Barata, António Silva, Álvaro Basto, António Barroso; Silva, Eduardinho, Lima Rodrigues, António Azevedo; Maçães, Mourão, Ceia, Artur Soares e Carlos Nunes (os que vão assinalados a azul e a bold, são membros da nossa tertúlia).


Viseu> 15 de Junho de 2007> Encontro do BART 3873 ( Bambadinca 72/74)> Da esquerda para a direita: Ex-Alf Mil António Barroso, ex-Alf MIl Mourão, ex-Major Jales Moreira e ex-AlfMil Lima Rodrigues.

Fotos: © Álvaro Basto (2007). Direitos reservados

1. Mensagem do Álvaro Basto, com data de 10 de Julho último.

Caro Luís Graça,

Em primeiro lugar gostaria de dar as boas vindas, na sua nova função de co-editor do Blogue, ao Virgínio Briote. Face à dimensão que este blogue atingiu, creio que sem estas ajudas desinteressadas não conseguirias dar conta do recado. Bem hajam todos quantos trabalham para manter o espaço desta Tabanca Grande viva e animada.

Seguidamente gostaria de te pedir para que logo que possível desses conta no Blogue de um encontro realizado no passado dia 16 de Junho, em Viseu, do pessoal do BART 3873 (Bambadinca 72/74).

Estiveram presentes representantes das diversas CART que o compunham (Xime, Mansambo, Xitole e naturalmente Bambadinca). Aliás fiquei espantado por tanto ouvir falar do nosso Blogue no encontro e nada ter, quer antes quer depois, aparecido no Blogue sobre o assunto.

Esta reunião anual vem sendo organizada desde 1975, segundo creio, tendo sido o seu principal mentor durante muito tempo o Ex-furriel enfermeiro da CCS, o Sousa. Creio que ultimamente tem sido o ex-Major Jales o principal obreiro dos encontros, mas aceitem as minhas desculpas se estiver enganado.

Esta reunião assumiu para mim um papel de enorme importância já que foi a primeira vez que estive presente e ainda bem. Da CART 3492 (Xitole) a que pertenci e de quem "tratei da saúde" o melhor que sabia e podia já que era enfermeiro, estavam praticamente todos os oficiais (faltou o Mexia Alves que não pode estar presente) e sargentos, estando ainda um grande número de cabos e praças. Nem um dos Primeiros Sargentos quis faltar e lá esteve a marcar presença com as suas fotografias a tentar descobrir quem era este e aquele.

Foi realmente um reencontro de todas as emoções e acredita, Luís, que eu nem imaginava quanto carinho e estima sentia ainda por todos eles. Quanto recalcamento havia por aqui para só este ano ter tido a coragem de os rever. E felicidade das felicidades... fomos todos sãos para a Guiné, e voltámos todos vivos e ainda estamos todos sãos e vivos. Só essa constatação quanto nos vale, especialmente quando lemos as estórias que lemos no Blogue de quantos e quantos que nunca chegarão a sentir esta felicidade do reencontro.

Aproveito para enviar algumas fotos do pessoal da CART 3492. Infelizmente não conseguimos uma foto completa do grupo todo, já que quando estas foram tiradas muita gente tinha ido embora

Quero deixar aqui as minhas desculpas por não ter anotado o nome de todos, mas foram emoções a mais para um só dia e acabei por me esquecer.

Recebe um grande abraço
Álvaro Basto

2. Comentário do co-editor C.V.: Na ausência do Luís Graça, que está para o Norte, aqui fica a notícia do teu emocionado reencontro com os teus camaradas do BART 3973. Aceita as nossas desculpas pelo atraso na publicação da notícia. De qualquer modo, ela aqui fica, também na esperança de que mais camaradas que passaram pelo sector L1 da Zona Leste nos três últimos anos da guerra (de 1972 a 1974) apareçam aí, um dias destes, a entrar pela nossa Tabanca Grande adentro.

Por sua vez, o Virgínio Briote também fica sensiblizado pelas amáveis palavras que lhe diriges, por ocasião da sua 'tomada de posse' como co-editor do blogue. Todos não somos demais para fazer deste espaço da blogosfera algo que nos surprende todos os dias e de que começamos a ter orgulho. C.V.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P2004: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (Anexo A): Depoimento de Fur Mil Lino, CCAÇ 2585 (Jolmete, 1970)

Guiné > Chão Manjaco > 1970 > Os três majores (Passos Ramos, Pereira da Silva e Osório) em acção psico, numa lancha a motor. O Alferes, que aparece em primeiro plano, poderá ser o Palmeiro Mosca, também assassinado em 20 de Abril de 1970.

Foto: Cortesia de Afonso M.F. Sousa (2007)

Mensagem de 26 de Julho de 2007 do nosso querido camarada Afonso M.F.Sousa, residente em Maceda/Ovar, e um dos mais antigos membros da nossa tertúlia (está connosco desde Junho de 2005, mas infelizmente ainda não tivemos ocasião de nos conhecermos pessoalmente). Agradeço-lhe mais este trabalho de investigação, feito com paixão e rigor, e que honra e enriquece o nosso blogue. É que o Afonso não se limita a fazer investigação de arquivo... Desta vez foi até Braga falar com o Lino!... Espero que ele também possa, um dia destes, fazer sair um livro sobre este episódio marcante e decisivo, da guerra da Guiné. (LG).

Anexo ao dossiê O massacre do Chão Manjaco > Ideia, pesquisa, compilação e edição de Afonso M. F. Sousa , ex-furriel miliciano de transmissões da CART 2412 (Bigene, Binta, Guidage e Barro, 1968/70) (*). Subtítulos e negritos da responsabilidade do editor do blogue.


Caro Luís Graça,

Com um abraço, envio mais um breve aditamento ao dossiê relativo à morte dos três majores (1).


O ex-Fur Mil Lino, da CCAÇ 2585, vive hoje em Braga

Onze da noite do dia 20 de Abril de 1970. O furriel Lino, da CCAÇ 2585 (destacamento de Jolmete, pertencente ao BCAÇ 2884 , com sede no Pelundo), é um dos homens que integra o pelotão que vai partir para uma missão de reconhecimento, junto à estrada Jolmete-Pelundo, nas proximidades da 2ª bolanha.

Julho de 2007. Localizo o ex-furriel Lino, na cidade de Braga. Tive com ele uma agradável e muito útil troca de impressões sobre aquele momento trágico, na Guiné. Era interessante ouvir o testemunho de alguém que tivesse estado, exactamente naquele dia e naquele local, para que alguns pontos ou dúvidas pudessem ser clarificados.

É com base nas informações recolhidas que elaborei este texto, que se constitui como adenda à crónica já anteriormente publicada no Blogue (1).

Depoimento do ex-Fur Lino:

Guiné, 20 de Abril de 1970 >Os momentos que se seguiram à consumação de uma cilada

Às 15 horas, em Jolmete [a nordeste de Pelundo, perto do Rio Cacheu], um militar nativo chama a atenção de alguém, dizendo que acaba de ouvir um tiro e garante que é junto à 2ª bolanha. Pouco tempo depois ouve um 2º tiro e reafirma que se trata de algo naquela zona. Sabe-se que naquele dia todas as forças militares permaneceram nos aquartelamentos. Só restritamente, há conhecimento do que iria decorrer naquele momento e naquele local. O comandante do destacamento sabe que os tiros não constavam do programa. Fazem-se contactos. Nota-se alguma preocupação, alguma agitação. Só por volta das 21 horas um pelotão é alertado para a necessidade de ter que sair, a qualquer momento.


(i) Pelotões de soccorro que saiem de Jolmete e do Pelundo descobrem os cadáveres pela madrugada do dia 21 de Abril de 1970

Após as onze horas, partem de Jolmete, seguindo a picada para o Pelundo. Por volta da meia-noite, logo após a 2ª bolanha (sentido Jolmete-Pelundo) dão de caras com os 2 jipes, sobre a picada. Não avistam por ali os corpos dos oficiais. O reconhecimento é apenas uma rápida observação, um pouco à distância. A escuridão e as circunstâncias assim o determinam. Instalam-se e ficam na expectativa. A previsão de perigo, a expectativa de cairem numa emboscada de grande envergadura, são preocupações que os acompanham.

Do Pelundo saira, entretanto, outro pelotão para patrulhamento conjugado com as forças de Jolmete. Estas esperam pelo clarear da manhã, para fazerem o adequado reconhecimento da zona e visualizar o local em redor das viaturas, por forma a obter informações e a confirmação da tragédia. Por volta das cinco e meia começa a sua movimentação. Procuram localizar (vivos ou mortos) os três majores e o alferes, nas imediações dos jipes. Em pouco tempo conseguem localizá-los, inertes, no enfiamento das viaturas, mas dentro da mata.

Confirmam que estão sem vida e alguns aparentam ter membros partidos e sinais de confrontação algo violenta. As suas fardas estavam intactas, sinal de que não foi molestada a sua integridade física ao nível do tronco. Todos apresentavam, isso sim, sangramentos ao nível da nuca, o que atesta que aqueles tiros, ouvidos em Jolmete, tinham aqui a sua justificação. Os dois intérpretes (supostamente da Gâmbia) foram também mortos e os seus corpos encontrados debaixo dos jipes, onde, provavelmente, terão querido refugiar-se.


(ii) Reacção emotiva de Spínola: Liquidem-nos a todos!

São seis da manhã. Ouve-se o som de um helicóptero que se aproxima do local. Faz a aterragem na clareira da mata. A tal clareira que iria servir para a cerimónia de rendição do bigrupo do PAIGC. É Spínola que se apresta para sair do heli. Rapidamente dirige-se para faixa da mata onde os corpos estão prostarados. À vista deles, Spínola olha demoradamente para o chão. Não resiste sem que as lágrimas lhe perpassem pela cara. Depois, como que por instinto, diz: Liquidem todos os que virem pela frente. Mas, como é compreensível, foi um impulso de raiva de circunstância e, por isso, a ordem não foi seguida.

Foi quase voz corrente, entre os militares desta zona (Teixeira Pinto, Pelundo, Jolmete), de que houve à volta deste processo algum excesso, alguma falta de prudência, alguma precipitação ou excesso de confiança...como que um pressentimento de êxito um pouco exagerado. Por via disso, a tragédia poderia ter tido contornos ainda maiores. Para além de Spínola, até um médico e o capelão estavam para participar. O entusiasmo era grande, muitos queriam assistir ao grande ronco. Mas a questão traição/cilada nem sequer terá sido cogitada, face à confiança e ao entusiasmo reinantes. Os homens de Nino Vieira anteciparam-se, sobrepuseram-se ao grupo dissidente, e à hora combinada estavam lá para liquidar esta tão ansiada rendição.

Afonso Sousa

Nota de A.S. - O dossiê sobre A morte dos três majores que publicámos recentemente (1), é como todos, deste contexto, um trabalho inacabado. Elaborar uma explicação tão próxima quanto possível da realidade não é tarefa fácil. O relato histórico, enquanto não atingir toda a verdade do que, efectivamente, aconteceu, permanece sempre e só no plano da mera descrição. Construir um quadro exacto do que se passou precisa de coerência, ordem e racionalidade ou seja, um grau de exactidão e de confiança dos testemunhos. De contrário pode suscitar-se a confusão ou imprecisão do relato histórico. Por vezes, apenas sobrevivem memórias fragmentadas do passado e isso pode trazer riscos de se substituir o real pelo imaginário ou de se complementarem lacunas com especulações.

É necessária a investigação, o confronto entre fontes e as diferentes versões de um mesmo acontecimento, de forma a garantir a objectividade nos factos narrados. São estes caminhos de identificação da narrativa com a verdade, que nos instiga quando fazemos a memória da guerra. Deixamos um relato em determinado ponto e mais tarde damos-lhe sequência, conforme se vão dissipando dúvidas ou colhendo novos e mais fidedignos testemunhos. Daí o título do anterior trabalho: «Tentativa de clarificação do massacre do Pelundo»

Nota: Efectivamente, na legenda da fotografia acima, há troca de nome entre os majores Pereira da Silva e Passos Ramos. Aquele é o homem do bigode, como se constata nesta foto


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Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:

17 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1436: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (1): Perguntas e respostas

18 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1445: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (2): O papel da CCAÇ 2586 (Júlio Rocha)

19 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1446: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M. F. Sousa) (3): O depoimento do 1º sargento da CCAÇ 2586, João Godinho

27 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1465: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (4): Os majores foram temerários e corajosos (João Tunes)

6 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1500: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (5): Homenagem ao Ten-Cor J. Pereira da Silva (Galegos, Penafiel)

8 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1503: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (6): Fotografia dos três majores (Sousa de Castro)

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1519: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (7): Extractos da entrevista de Ramalho Eanes ao 'Expresso'

25 de Fevereiro de 2007 >Guiné 63/74 - P1549: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (8): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte I

6 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1566: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (9): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte II

17 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1603: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F. Sousa) (10): O contexto político-militar (Leopoldo Amado) - Parte III (Fim)

Guiné 63/74 - P2003: Blogoterapia (30): Mário, direi orgulhoso a quem ler o teu livro: Eu também comandei o 52 !!! ( Joaquim Mexia Alves)

O nosso Joaquim Mexia Alves, a quem o Vitor Junqueira chamou, há tempos, "gigante com coração de passarinho", no Xitole, 1972, com uma mina A/P nas mãos... Foi Alf Mil Op Esp e esteve na Guiné, entre Dezembro de 1971 e e Dezembro de 1973, tendo percorrido nada menos que três unidades (caso raro!): CART 3492 (Xitole), Pel Caç Nat 52 (Mato Cão / Rio Udunduma) e à CCAÇ 15 (Mansoa).

Foto: © Joaquim Mexia Alves (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem do Joaquim Mexia Alves:

Caros Mário e Luís & Camaradas da Guiné:

"Confesso que estou muito orgulhoso por esta aprovação" - diz-nos assim o Mário, com toda a simplicidade! (1)

E nós pegamos nesta frase e fazêmo-la nossa: "Estamos muito orgulhosos desta aprovação, estamos muito orgulhosos deste livro, estamos muito orgulhosos do Mário, estamos muito orgulhosos do Luís que nos deu este espaço."

Ao lermos-te, Mário, lemos cada um de nós!

Todos estivemos em Missirá, todos vivemos a ansiedade, as preocupações, a distância, a solidão tantas vezes acompanhada, a saudade, o medo, o horror, a indignação, a revolta, o orgulho, o desânimo, a frustração, a incompreensão, a incompetência, a arrogância, o autoritarismo, a dor da perca, todos vivemos tudo isso e o mais que os nossos corações sentiram, por isso dizemos e afirmamos: «Estamos orgulhosos do teu livro, e consideramo-lo nosso» (2).

Curiosamente Mário, gostei de comandar o Pel Caç Nat 52, mas confesso que nunca o considerei como unidade militar importante.

Tu vieste dar uma nova dimensão ao 52, e a todos os 52 que existiram na Guiné (3), porque deles e com eles se fez a guerra, independentemente da justiça da mesma.

Este livro fará parte da minha vida, pois a verdade é que por tua causa, eu poderei dizer orgulhoso a quem ler este livro: Eu comandei o 52!!!

Desculpa se te roubo um pouco desse orgulho são, de quem cumpre uma missão de dar a conhecer aos outros, a vida dos seus pais, avós, maridos, tios,...

Não dispensamos uma apresentação formal do livro onde nós, os velhinhos, possamos estar e dizer que fomos 'feridos', fomos 'presos', fomos 'mortos', fomos 'esquecidos', mas ainda aqui estamos!!!

Parabéns, Mário, pela obra. Parabéns, Luís, porque pela tua ideia foi possível a obra.

Abraço a todos do
Joaquim Mexia Alves

P.S. - Gostei muito do que me chamou o Vitor Junqueira num mail que me enviou a seguir a Pombal: "Gigante com coração de passarinho"! Acreditem que há umas lágrimas que neste momento teimam em sair dos meus olhos!!!

2. Comentário do editor L.G.: Joaquim, prepara-me uma fado para a ocasião! Se for caso disso, eu arranjo-te a letra!

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Notas de L. G.:

(1) Vd. post de 25 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1996: Nas Terras dos Soncó, um livro saído do nosso blogue, em próxima edição do Círculo de Leitores (Beja Santos / Luís Graça)

(2) Vd. post de 26 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1998: Blogoterapia (28): No Diário do Mário Beja Santos, está lá tudo, estamos lá todos nós (Virgínio Briote)

(3) Vd. posts de:

30 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1901: O Pel Caç Nat 52 que eu comandei em 1966 (Bolama, Enxalé, Porto Gole) (Henrique Matos)

28 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1896: Encontro dos Pel Caç Nat 51, 52, 53, 54, 55 e 56 (Henrique Matos)

Guiné 63/74 - P2002: Blogoterapia (29): O Mário escreve com a mesma teimosia, perseverança, paixão e coragem com que ia a Mato Cão (Luís Graça)

1. Mensagem do editor do blogue, já enviada por e-mail a toda a tertúlia:

Amigos & camaradas:

(i) Quis reservar o Post nº 2000 ao episódio nº 55 da Operação Macaréu à Vista (que devia ter saído na semana passada) (1)...

É uma pequena homenagem ao nosso camarada Beja Santos que, religiosamente, todas as semanas, de há um ano a esta parte, vai alimentando o nosso blogue com as suas memórias da Terra dos Soncó, o Cuor... Com a mesma teimosia, perserverança, paixão e coragem com que ia, quase todos os dias, a Mato Cão...


Nesta semana, soubémos, com regozijo, da notícia da publicação do seu livro Na Terra dos Soncó (título privisório), em Fevereiro ou Março de 2008, pelo Círculo de Leitores, contendo os episódios correspondentes ao 1º ano da sua comissão em Missirá (Zona Leste, Sector L1, Bambadinca), à frente do Pel Caç Nat 52 (Missirá) e das milícias de Finete...

É claro que vamos fazer uma festa... Até já há sugestões: 3º encontro da tertúlia e almoço na Sociedade de Geografia (um sítio central e simbólico), em Lisboa, e depois, às 18h, lançamento do livro, com direito a.. um bom espumante português (que os temos até melhores que o champanhe farncês!)...

O Mário Beja Santos já tem três livros publicados no Círculo de Leitores, de temática relacionada com o consumo e os direitos dos consumidores...Espero com isso que ele nos abra a porta, do Círculo de Leitores, para outras iniciativas editoriais nossas... O Mário faz questão de fazer reverter uma parte dos direitos de autor para o funcionamento do nosso blogue e para apoio a iniciativas nossas na área da cooperação e ajuda com a Guiné (Não aceito que ele prescinda da totalidade dos direitos de autor!)...

Por outro lado, estamos prestes a atingir as 330 mil páginas visitadas, o que dá uma ideia do nosso pequeno sucesso em termos de procura (e de alguma influência)... Não são seguramente só camaradas a ler-nos, a visitar-nos...

(ii) A notícia menos boa é que vem aí o Agosto, as férias, o dolce far niente... O blogue irá ressentir-se um pouco... Na minha ausência, os co-editores, Carlos Vinhal e Virgínio Briote, tomarão conta de nós, com a dedicação e a competência com que o tem feito até agora... Eu próprio de vez em quando também vou lá espreitar e dar uma mãozinha...

O Carlos Vinhal acabou de fazer uma semaninha de férias no estrangeiro de fora, e vem todo cheio de genica... A ver vamos... O Briote ainda não me disse das suas disponibilidades em Agosto... De qualquer modo, a caixa de correio estará sempre aberta e é suficientemente grande para receber a vossa correspondência... Os mais tímidos e os mais preguiçosos que aproveitem o mês de Agosto para mandarem os seus escritos, as suas estórias, os seus apontamentos... grandes ou pequenos.

Todos temos o direito (e o dever) de participar no NOSSO blogue !!!....

Boas férias, seguras e saudáveis. Luís Graça

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 26 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P2000: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (55): Uma visita a Enxalé, um tornado em Bambadinca, um enterro em Madina Xaquili...

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P2001: Todos ouviram falar do Morés, o mítico Morés, o Morés de todos nós (António Rodrigues / Luís Nabais/ Virgínio Briote)



Guiné > Regiãodo Oio > Picada Mansoa-Bissá > O famigerado 'Granadero'...

Foto de António Rodrigues (2007) (cortesia de Luís Nabais)


1. Mensagem do Luís Nabais, ex-Alf Mil, CCS/BCAÇ 2885, 1969/71(1):

Reenvio de uma mensagem de um camarada que era do meu Batalhão:

Será que conheces a história desta viatura? Chamaram-lhe o 'Granadero'. Está numa mata, que não me recordo ao certo, foram tantas. Também passei pelo Morés e não foi uma vez. Esta viatura pertencia a uma companhia, parece-me que de açorianos [, madeirenses, CCAÇ 1439,], que estiveram no Enxalé, Porto Gole e Bissá, de vez em quando iam jogar uns conta os outros. Então, na estrada de Mansoa para Bissá, sofreram uma emboscada, segundo parece com bastantes mortes, a aviação foi lá e com uma bomba queimou tudo.

Numa das operações que fiz qundo estive em Bissá, fomos dar com o 'Granadero', que parece que, depois do desastre, nunca mais ninguém se tinha aproximado dela, mesmo nós já tinhamos sido corrido várias vezes daquela zona.

Quando foi comunicado ao Spínola que tínhamos estado no 'Granadero', ele chamou-nos mentirosos, porque nunca ninguém se tinha aproximado do local. Voltámos lá e então arrancamos o tripé de uma metralhadora, salvo erro uma Breda ou MG3 [, uma Breda], assim como parte do limpa-vidros da viatura, que ainda estava cromado. Foi a única maneira do Spínola acreditar. Se quiseres perguntar no blogue se alguém conhece esta história, estás à vontade.

Um abraço,
Rodrigues

2. Comentário do co-editor vb:

A primeira referência que tenho de Morés, talvez em Abril ou Maio de 65, ouvi-a do Ten Coronel F. Cavaleiro, Comandante do BCAV  490, então com base em Farim. Ouvi-o dizer, numa manhã, que tinha havido um grande ronco, uma Companhia  do BART 733 (salvo erro, comandado pelo TenCor. Glória Alves), tinha dado com uma arrecadação de material na zona de Morés. E baixas nossas, alguém perguntou. Apenas uma, um alferes apanhou uns estilhaços de uma bailarina, nada de muito grave, parece.

Mais tarde, um ou dois meses depois, encontrei em Bissau, na 5ª rep (o Bento), o tal alferes. Tratava-se do Fernandes, não me consigo lembrar de mais nenhum nome. Contou-me o que se tinha passado e, displicente, ainda tirava, em plena esplanada, pequeninos bocados dos braços e das pernas. Só não tirava dos intestinos (tiraram-lhe um pedaço) e do pénis, que ele, púdico, não mostrava em público.

Depois, Morés passou a fazer parte do vocabulário. E Tambato, Cambajo, Namedão (na estrada Mansoa-Bissorã), Inchula, Iarom, Talicó. E, como tantos outros, pisei aqueles trilhos, uma duas, três vezes, sei lá quantas. Sem grande sorte, em termos de roncos operacionais, com grande felicidade, porque nunca tivemos azares. A mesma sorte não tiveram camaradas de outros grupos de Cmds.

O Soldado Florêncio Terêncio (na foto, à direita, com o 1º Cabo Tudela, em Set. 65 a receberem o crachá das mãos do Com. Militar), algarvio, do gr. Vampiros deixou lá uma perna e a vida. Antes de morrer ainda disse ao alf. Vilaça, comandante do grupo, que não se preocupasse, que uma semana depois voltava a estar operacional.

Mas quem conheceu bem Morés, naqueles anos, foi o Cor Rui Alexandrino Ferreira, o nosso Rui do "Rumo a Fulacunda", e desta obra vamos voltar a falar, mais lá para diante.

Morés, Morés, quem não ouviu falar, mesmo aqueles que por lá nunca passaram? Todas as companhias que estiveram no Oio, tiveram um ou mais pelotões que por lá entraram ou tentaram entrar.


Tal como um Vietname, muitos Vietnames, um Morés, muitos Morés. Do Vietname, a frase é do Che. Da Guiné, nunca ouvi, mas alguém o deve ter dito. E se ninguém disse esta frase, que interessa, foi no que a Guiné se foi transformando ao longo dos anos 63/74
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Nota de v.b.:

Guiné 63/74 - P2000: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (56): Uma visita a Enxalé, um tornado em Bambadinca, um enterro em Madina Xaquili...

Guiné > c. 1968 > Bilhete postal > No verso lê-se: "Bilhete postal > Mandinga - Guiné Portuguesa > Agência-Geral do Ultramar - Lisboa" (Cortesia de Cristina Allen: faz parte de uma colecção de postais ilustrados da Guiné, enviados pelo seu então noivo e futuro marido, Mário Beja Santos). Podia muito bem ser o retrato de um Soncó, do Cuor... (LG)


Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.


Guiné > Zona Leste > Bafatá > O Alf Mil Rodrigues e o Fur Mil Reis, da CCAÇ 12, posando descontraídos para a posteridade no jardim público de Bafatá. Ao fundo, o Rio Geba. O Rodrigues, infelizmente já falecido, era o comandante do 4º Gr Comb da CCAÇ 12 que fez, com o Pel Caç Nat 52, a Op Gaúcho, e que é aqui referido neste episódio. É divertida a primeira ideia com que o Beja Santos ficou dos periquitos do 4º Gr Com da CCAÇ 12, e em particular das suas praças africanas, acabadinhos de chegar da instrução em Contuboel: Ora o que aconteceu foi que eu me arrepiei assim que chegou o sobredito 4º Gr Comb, eram crianças desaustinadas, talvez de 14, 15 ou 16 anos, zangavam-se por causa do transporte de munições, pegavam nas armas como enxadas, falavam ruidosamente e teriam uma noção muito opaca da disciplina. O que diria o ex-Alf Rodrigues desta apreciação crítica, pouco abonatória, sobre os seus homens, se ele hoje fosse vivo ? (LG).

Foto: © Humberto Reis (2005). Direitos reservados.


Texto do Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), enviado a 28 de Junho último (e reenviado a 23 de Julho). Por lapso, não foi publicada na semana anterior, devendo por isso corresponder ao episódio nº 55 e não ao 56, já publicado (1). As nossas desculpas ao autor e aos nossos visitantes:

Caro Luís, aqui vai o episódio da semana. Ainda pensei em escrever-te amanhã o episódio da outra semana, já que estarei ausente em férias, mas tenho compromissos inadiáveis até sexta feira ao fim da tarde. Garanto que na semana que começa a 9 enviarei dois textos, muito provavelmente os dois que concluirão o primeiro volume. Mas não haverá pausas, entrarei logo no segundo. Não te posso dar nenhuma sugestão para ilustração, o ideal era mostrarmos o Enxalé, ou o Geba ou até Madina Xaquili. Eu sei que operarás um milagre. Quero felicitar-vos pelo sucesso que tem sido a chegada de novos confrades. Isto ainda não é nada, acho que chegou a altura de se repensar o funcionamento do blogue, é um meio cada vez mais afectivo, todos somos responsáveis pela sua emissão e não percebo porque é que vocês os dois têm que ser os mártires do sistema. Um abraço do Mário.


55º episódio da série Operação Macaréu à Vista, da autoria de Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (2). Título e subtítulos: autor e editor.

De Enxalé a Bambadinca, de Madina Xaquili a Salá
por Beja Santos


Uma memorável viagem ao Enxalé só para 'partir mantenha'


Pelas 6 da manhã de 19 de Julho de 1969, perguntei ao contigente que ia a Mato de Cão se me queriam acompanhar ao Enxalé. Os nossos motoristas foram o Setúbal e o Manuel Guerreiro Jorge. Tal como eu esperava, houve urras e manifestações de alegria, logo uma adesão espontânea.

Desta vez muni-me de uma garrafa de tinto do Dão Porta de Cavaleiros e alguns víveres que para nós era um luxo: carnes enlatadas, postas de bacalhau da Noruega, latas de pêssego, algumas galinhas vivas. E em clima de festa, sempre a picar de Canturé a Gambaná, aproveitando um cordial dia de sol, chegámos ao planalto de Mato de Cão ainda não eram 11 da manhã.

Felizmente que o comboio de batelões foi pontual, havia gente atónita a ver duas viaturas de combate numa estrada que era sabido estar fechado ao tráfego, e logo que o último batelão se perdeu da nossa vista avançámos a picar até Saliquinhé, avistando as bolanhas esplendorosas e ao abandono à volta de Samba Silate.

A recordar este passeio com Queta Baldé, ele fez questão de referir as casas em ruínas dos ponteiros de Saliquinhé até S. Belchior, com os seus ancoradouros, eram casas assentes em pilares de cimento, com balaustradas onde se enrendilhavam tijolos, agora as portas estavam arrancadas, os telhados esventrados, os utensílios em ferro das destilarias votados à ferrugem.

A picagem acelerou-se e da curva de S. Belchior inflectimos para o Enxalé, aí actuando com muito cuidado, a picada muito arenosa e cheia de sombras dos frondosos paus de conta e bissilões, o capim altíssimo, a propor uma imprevisível emboscada.

Tal como na viagem anterior, a Enxalé civil e militar vem-nos receber, interrogativa, à porta de armas. Escrevi para Lisboa no dia seguinte e referi o nome do alferes Taveira que nos acolheu de braços abertos e mais à vontade ficou quando lhe disse que vínhamos só "partir mantenha".

Como o mundo é pequeno, parentes de Braima Mané, de Abudu Cassamá, paizinhos, irmãozinhos e tiozinhos de soldados mandingas e fulas acorreram a saudar gente de Missirá com água fresca e papaia. O camarada Taveira falou vezes sem conta em solidão, isolamento, dificuldades tremendas para aquele pelotão defender a população com segurança. Respondi-lhe na mesma moeda, olhei para o sol por altura das 3 da tarde, pedi-lhe compreensão para os 25 km que iríamos percorrer a picar até Missirá e fizemos meia volta.

A seguir a S. Belchior ouvimos o troar de morteiros, a gente de Madina dava-nos a saber que não gostavam de ouvir viaturas naquela estrada onde carcaças de vários Unimogs e pneus estrilhaçados lembravam aos incautos que aquela terra estava interdita às nossas tropas.

Quando passámos por Gambaná, seriam 5 da tarde, ouvimos uma tempestade de fogo de reconhecimento, morteiros e rockets anunciavam o descontentamento. E ao findar da luz do dia entrámos em Missirá com o mesmo ar de festa com que partíramos.

Vale a pena aqui referir que na conversa havida com o camarada Taveira ele concordara na lógica de juntar o Enxalé ao Cuor, e daqui proteger melhor a navegação de Mato de Cão e até mais abaixo junto ao Xime. Mal houvesse oportunidade, tentaria sensibilizar os comandos para uma evidência que se perdera na criação do extenso e absurdo Sector L1, onde poucos se identificavam com o mesmo inimigo, com excepção óbvia de Xime/Mansambo.

Acima de tudo, guardava desta viagem os lindos panoramas do Geba, as intermináveis bolanhas que vão dos Nhabijões até Ponta Varela, um alucinante silêncio só cortado pelo pio das aves. Nessa noite, houve muita narrativa oral, Missirá estava a ser informada do que se passava no Enxalé, os militares-correio transmitiam lembranças, saudades, estados de saúde, esperanças e desesperanças.


A força de um tornado e uma conversa com o novo Comandante de Bambadinca


A 21 de Julho [de 1969], uma coluna de Finete informou-nos que o soldado milícia Sadjo Candé tinha falecido em Bambadinca e que antes de morrer pedira para ser acompanhado por nós até à sua última morada. Sabíamos que ele estava a sofrer de uma virose, pensávamos que era uma malária, foi uma surpresa para todos nós. Pedi a Bacari Soncó que levasse o corpo para a Capela de Bambadinca, pedisse ajuda do Cabo Costa, da CCS, que o vestissem com a sua farda, ao amanhecer metade de Missirá e de Finete iriam levá-lo a Madina Xaquili.

Assim foi. Saímos de madrugada, não havia meio de amanhecer, surgiu depois uma nesga de luz, era um fenómeno estranho, parecia que a abóbada celeste se transformara numa câmara escura. A manhã luminosa a que nos habituáramos com o fim da época das chuvas dava assim lugar a lusco-fusco, uma ventania que punha as copas das árvores a sibilar baixinho. Em Canturé, já passava das 7 horas, a ventania anunciava tempestade. E à entrada da rampa de Finete desabaram dois relâmpagos tão fulgurantes que enquanto a terra tremia o lusco-fusco criou a ilusão de uma câmara clara, um dia de tons eléctricos, um dia feito no estúdio de cinema. E depois voltou a semi-escuridão.

O burrinho dançava na picada, em direcção ao Geba, com o Setúbal a remoer palavrões com aquele tempo danado. É quando grito por Mufali Iafai, o nosso canoeiro, que o tornado se anunciou. Com ronco, ergueu-se um redemoinho sobre o cais de Bambadinca e saltaram as primeiras chapas dos telhados. Do céu escuro estalavam mais relâmpagos, víamos os animais a fugir, e depois as árvores, as de grande, médio e pequeno porte a querer saltar, a desprender-se pelas raízes. Os militares no cais gritavam a pedir a clemência de Deus ou, desorientados, fugiam para dentro dos armazéns. Os civis fugiam das árvores, certamente com medo dos raios. Do lado de cá do Geba, Bambadinca estava espectral: formavam-se e desapareciam os redemoinhos, as águas saltavam o cais, os arbustos voavam, as crianças fugiam, os adultos procuravam dar-lhes protecção.

Estávamos a ser recebidos por um desses tornados que tornam o dia, noite, que destroem casas, revolvem as florestas, despedaçam os bissilões, os poilões, o pau de cabaceira e o pau de mandjamdjan. E de repente, tudo se aquietou, como se a natureza tivesse cansada daquele grande grito de revolta, dos soluços e das imprecações dos sofredores. O temível espectáculo acabara, caminhámos para a Capela de Bambadinca. O morto não estava fardado, não foi fácil amortalhá-lo com o corpo em rigor mortis. Fardado e aprumado, fechámos a urna, revestimo-la com a bandeira, subimo-la para um Unimog 404. E fez-se a viagem para Madina Xaquili, não sem que antes o Comandante me dissesse que queria falar comigo antes de eu regressar a Missirá.


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > Dulombi > CCAÇ 2700 (1970/72) > Aspecto do Edifício do Comando após o tornado de 25 de Abri... de 1971 (1). A maior parte dos militares portugueses não estava famializarizado com as bruscas tempestades tropicais, nem menos preparado para suportar o calor e a humidade do território... (LG)

Foto: Fernando Barata (2007). Direitos reservados.


Em Madina Xaquili [, a nordeste de Duas Fontes, vd. carta de Cansissé, ] entregámos com honras militares a urna à família, seguiu-se a cerimónia religiosa, regressámos emocionados. Era assim a dura guerra. Não sabíamos que dentro de dias, e por três vezes ainda nesse mês de Julho, esta tabanca iria ser duramente flagelada (4).

O novo Comandante, [do BCAÇ 2852, tenente-coronel Pamplona Corte Real,] pedia-me alguns comentários ao memorando que eu lhe enviara sobre o primeiro ano em Missirá. O que eu pensava da evolução do Cuor? Eu não tinha ilusões de que mesmo que tivesse mais disponibilidade para patrulhamentos ofensivos, o inimigo estava instalado no outro lado do rio Passa e do rio Gambiel, policiava os trabalhos da população civil, eu podia lá ir e atemorizá-los mas nada mais. No rio Gambiel, em 5Km a linha recta de Missirá, corria sempre o risco de ser recebido à morteirada, como acontecera em Janeiro. Os de Madina não atacavam Mato de Cão pela simples razão de que lá íamos diariamente, e sempre por itinerários diferentes, nos horários mais estrambólicos.

Acrescia que tínhamos indícios seguros que mesmo com patrulhamentos regulares as colunas de abastecimento aos Nhabijões, a Mero e a Santa Helena não só persistiam como se acentuavam. Sem actuar nos Nhabijões e na região de Fá, era tudo um jogo do gato e do rato, com algumas mortes de premeio. Voltei a insistir na questão do Enxalé, chamando a atenção para o redobrados ataques em Ponta Varela que podiam ser melhor dissuadidos na estrada entre Mato de Cão e Enxalé. Pensava que era indispensável rever-se todo o contigente do Enxalé a Finete e daqui para Missirá.

Relembrei que havia muita gente de Canturé a viver em Galomaro que aceitava voltar mas que o Comandante de Bafatá não considerava prioritário a criação desta tabanca em autodefesa.
- É assim, meu Comandante, estamos ali para aguentar, para que o rio Geba seja navegável até Bambadinca, para que o inimigo não se assenhoreie de toda a outra margem do Geba, é um aguentar sem população civil e com baixo nível de resposta. Aqui tem a verdade.

O Comandante Corte Real agradeceu, voltei para Missirá. À despedida, gentilmente, e como eu já me habituara a um ano de Guiné, ouvi a proverbial frase "Vou ver o que é possível fazer".


A Operação Gaúcho, com os putos do 4º Gr Comb da CCAÇ 12

Há sempre uma larga distância entre o que se escreve e o que se passou no terreno. O que se escreveu na história da CCAÇ 12 foi o seguinte:

A 26, o 4º Gr Comb segue para Missirá a fim de realizar com o Pel Caç Nat 52 um patrulha de nomadização na região de Sancorlã/Salá até à margem esquerda do rio Passa (limite a partir do qual começa a zona de intervenção do comandante-chefe), com emboscada entre Salá e Cossarandim por onde o inimigo fazia o seu reabastecimento de vacas. Verificou-se que os trilhos referenciados não eram utilizados durante o tempo das chuvas.

Ora o que aconteceu foi que eu me arrepiei assim que chegou o sobredito 4º Gr Comb, eram crianças desaustinadas, talvez de 14, 15 ou 16 anos, zangavam-se por causa do transporte de munições, pegavam nas armas como enxadas, falavam ruidosamente e teriam uma noção muito opaca da disciplina. Pela primeira e última vez em 25 meses completos de comissão reinventei o programa da operação. De Missirá seguimos para Sancorlã, tudo na mesma, ninguém esperava novidades, a não ser a possibilidade de, em 15 de Julho passado, o inimigo ter vindo de Quebá Jilã até Sancorlã.

Havia capim alto, o mato tomara conta da velha picada, nenhum indício de presença humana. O dia estava festivo e começou um momento glorioso deste patrulhamento. É uma floresta-galeria que vai de Sancorlã até Salá, um cheiro a trópicos, o grasnar dos pássaros surpreendidos pelo avanço da coluna, as gazelas e os javalis em fuga quando os nossos passos desvendam a terra virgem.

O que guardo nos meus olhos são os raios de sol a infiltrar-se na floresta, ouvem-se tiros espaçados seguramente de caçadores furtivos para lá do rio Passa. O Sol cai a prumo, escaldante, inebriante, quando chegamos ao rio. Aqui Queta comenta:
- Nosso alfero não acreditava no que dizia Queba Soncó, o rio é mesmo fundo, quem não sabe nadar desaparece. Tinha aqui acontecido uma desgraça, em 1963, logo no início da luta armada, gente de Badora, Ganadu e Joladu viera com o régulo do Cuor tentar apanhar a gente do PAIGC que se refugiara em Sarauol. Não conseguiram passar, houve gente que morreu. Nosso alferes despiu a farda, nadou e confirmou, o rio estava cheio de água. Levávamos o morteiro 81, dispararam-se duas granadas em direcção a Mansoná. E descemos para o rio de Quebá Jilã. Não havia trilhos, não havia culturas, chegámos a Cossarandim e aqui descansámos.

E foi aqui que tomei uma decisão de não avançar sobre Quebá Jilã onde seria provável haver uma confrontação com uma patrulha que policiasse os cultivadores desta enorme bolanha entre Quebá Jilã e o rio Passa. Metemos a corta-mato e avançamos para o coração do Cuor, como se descêssemos para Sinchã Corubal. Os jovens mostravam cansaço, o dia caminhava para o seu termo, não havia vestígios de trilhos, Quebá, à sorrelfa, atraía-me para Mato de Cão. E foi entre Mato de Cão e Chicri que pernoitámos.

Por ironia, não havia nessa manhã embarcações para vigiar. Subimos então de Chicri sempre à volta do rio de Biassa, aqui encontrámos os sinais da passagem da gente de Madina que viera flagelar-nos a 15 de Junho: ligaduras, cartuchos, invólucros de RPG2. Ao princípio da tarde chegámos a Missirá, o alferes Rodrigues e os seus homens insistiram em partir prontamente para Finete. O Teixeira, com o seu ar sempre comprometido, trazia uma mensagem com a hora da nossa próxima presença em Mato de Cão... Amaldiçoei não dispor de um rádio para evitar mais 12,5 Km em escassas horas.


Uma semana dedicada ao papa João XXIII... e ao policial


Com o processo de Abudu Cassamá e sua mãe Fatumana a acelerar, com a vinda do David Payne a Missirá (ainda o vejo a caminhar entre os destroços da casa de Quebá, cuja mulher se sinistrara em 15 de Julho) escrevi pouco e mal. Estou consciente do desgaste físico, aguardo a qualquer momento a chegada de resposta ao meu recurso, recordo que do SNI (o órgão de propaganda do regime) recebi uma carta a dizer que vai chegar uma pequena biblioteca dedicada aos grandes cultos da História de Portugal.

Capa do livro Papa João XXIII, de Erneto Balducci Lisboa: Portgália Editora, 1969 (Colecção Documentos Humanos, 24)(tr. do italino, Papa Giovanni, 1964).

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.


A minha mãe mandou-me A Torre de Barbela , do Ruben A. e o Carlos Sampaio O imoralista, de André Gide. Não sei por anda a minha fé, mas leio com alegria o Papa João XXIII, de Ernesto Balducci, um dos livros que vieram na lembrança do meu padrinho. Este é o papa que mudou o meu pensamento sobre a sinceridade, a serenidade, a espontaneidade. Balducci organizou com tacto e afecto extractos do diário do Papa, procurando extrair ensinamentos desse homem simples, "O bom Papa João", como ele visionou o concílio Vaticano II, como ele sonhou o diálogo universal, a reinterpretação dos evangelhos, a aceitação da modernidade e se investiu de alma e coração na Paz na Terra aos homens de boa vontade.

Leio devagar, regresso amanhã ao lido anteontem, tiro notas, rezo enquanto leio. Estão ali frases que me mudaram a oração. Por exemplo, continuo hoje a dizer antes de adormecer: "Aguardo com simplicidade e alegria a chegada da irmã morte e recebê-la-ei seja qual for o momento em que aprouver ao Senhor enviar-ma". O seu sorriso ilumina-me a existência , quando ele escrevia "queridos irmãos" e dizia que se dirigia a todos sem excepção, eu penso nos povos de Missirá e Finete, no optimismo que instalaram na minha vida, a despeito de todas estas contrariedades, escassez de recursos, promessas que ninguém cumpre, a minha exaustão física que já não sei controlar.

E, claro está, leio policiais, tudo quanto me cai à mão e serena o espírito. Ofício de Matar de Frank Gruber é uma grande diversão e tem uma grande capa de Lima de Freitas. Desta vez a dupla Johnny Fletcher e Sam Cragg estão sem um tostão em Chicago e vão trabalhar num fábrica de coiros onde se dá um assassínio. Claro que os miolos deslumbrantes de Fletcher irão resolver tudo num final feliz, depois dele ter conseguido vender contrafortes a um cliente que até agora recusara negócios com a firma Towner. Mal sabia eu que essas páginas hilariantes iriam, muitos anos mais tarde, ser comentadas por meus alunos.


Capa do romance policial Ofício de Matar, de Frank Gruber. Lisboa: livros do Brasil, s/d. (Colecção Vamprio, 159). Capa de Lima de Freitas.

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados

Li também Knock-out de Sapper, pseudónimo de Herman Cyril McNeile, um escritor britânico muito popular nos anos 20 e 30 que se consagrou em policiais de acção à volta do detective Ronald Standish, exímio jogador de criquete e golfe. Desta feita, Standish recebe um telefonema alarmante, o seu interlocutor grita, ele vai lá a casa e ele está morto com um olho brutalmente desfiado. É tudo pura acção, viagens trepidantes até se conseguir matar o horrível Demonico, um chefe de quadrilha que recorre ao terrorismo para angariar fortunas. Mas sente-se que os escritos de Sapper estão ultrapassados, estão hoje nos umbrais da literatura moderna, serão clássicos de estudo e nada mais. A literatura que triunfa tem a ver com problemas, desvendar soluções incríveis à volta de montagens perfeitamente tenebrosas ou engenhosas. Esta literatura do policial problema vai ajudar-me imenso em todo o ano que vem por aí.

Agosto está à porta. O [Fur Mil] Casanova voltou, mas sinto que sofre imenso. Ele vai ficar aqui com o [ Fur Mil] Pires, vou cumprir os meus deveres em Finete. É aqui que vai acontecer em 3 de Agosto uma história que me abalará da cabeça aos pés. Mas tenho que a contar com todo o sofrimento disponível (1). E até o indisponível.

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 20 de Julho de 2007 >
Guiné 63/74 - P1978: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (56): Mataste uma mulher, branco assassino!

(2) Vd. posts:


6 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1927: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (54): Ponta Varela e Mato Cão: Terror no Geba

29 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1898: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (53): O ataque a Missirá de 15 de Julho de 1969, visto pelo bravo mas modesto Queta Baldé

13 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1948: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (52): Em Bissau, no julgamento do Ieró Djaló

22 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1870: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (51): Cartas de um militar de além-mar em África para aquém em Portugal (5)

15 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1851: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (50): Do tiroteiro em Bambadinca na noite de 14 de Junho de 1969 à emboscada da bruxa


(3) Vd. post de 15 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1595: História da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72) (Fernando Barata) (3): minas, tornados, emboscadas, flagelações e acção... psicossocial

(4) Vd. post de 29 de Junho de 2005 > Guiné 69/71 - LXXXVIII: O baptismo de fogo da CCAÇ 12, em farda nº 3, em Madina Xaquili (Julho de 1969) (Luís Graça)

(...) "(l) Julho/69: Baptismo de fogo em Madina Xaquili

"Ainda não haviam sido distribuídos os camuflados às praças africanas quando a CCAÇ 12 fez a sua primeira saída para o mato. A 21, três Gr Comb (2º, 3º e 4º) seguiam em farda nº 3 para Madina Xaquili a fim de reforçar temporariamente o sub- sector de Galomaro,[a sul de Bafatá].

"Entretanto, o 1º Gr Comb efectuaria à tarde uma patrulha de segurança ao Mato Cão, [no chamado Rio Geba Estreito], tendo detectado vestígios muito recentes do IN que fizera uma tentativa de sabotagam da ponte sobre o Rio Gambana, provavelmente na altura do último ataque a Missirá (a 15).

"Este afluente do Rio Geba está referenciado como um ponto de cambança [travessia] do IN. Depois de se ter mostrado particularmente activo, durante o mês anterior na zona oeste do Sector L1 (triângulo Xime-Bambadinca-Xitole), o IN procurava agora abrir uma nova frente a leste, utilizando as linhas de infiltração do Boé [Madina do Boé tinha sido abandonada pelas NT em 8 de Fevereiro último e logo ocupada pelo IN] e visando especialmente as tabancas de Cossé, Cabomba e Binafa.

"Dias antes IN tinha atacado três tabancas do regulado de Cossé [donde era oriunda a maior parte das nossas praças africanas]e reagido a uma emboscada das NT.


Sori Jau, a primeira vítima em combate


"Seria, aliás, em Madina Xaquili que a CCAÇ 12 teria o seu baptismo de fogo. Os três Gr Comb haviam regressado, em 24, à tarde, dum patrulhamento ofensivo na região de Padada, tendo ficado dois dias emboscados no mato (Op Elmo Torneado), quando Madina Xaquili foi atacada ao anoitecer por um grupo IN que muito provavelmente veio no seu encalce.

"0 ataque deu-se no momento em que dois Gr Comb da CCAÇ 2446 que vinha render a CCAÇ 12, saíram da tabanca a fim de se emboscarem. [Esta companhia madeirense teve dois mortos e vários feridos].

"0 IN utilizou mort 60, lança-rockets e armas ligeiras, tendo danificado uma viatura e causado vári¬os feridos às NT. O primeiro ferido da CCAÇ 12 foi o soldado Sori Jau, do 3º GR Comb, evacuado no dia seguinte para o HM [Hospital Militar] 241 [Bissau].

"A 25, os três Gr Comb regressam a Bambadinca com a sua primeira experiência de combate. Nesse mesmo dia, o 1º Gr Comb participava numa operação, a nível de Batalhão no sub-sector do Xime. Foram detectados vestígios recentes do IN na área do Poindon mas não houve contacto (Op Hipopótamo).

"No dia seguinte à tarde, depois das NT terem regressado ao Xime, o aquartelamento seria flagelado com canhão s/r e mort 82 durante 10 minutos.

"A 26, o 4º Gr Comb segue para Missirá [, a norte do Rio Geba,] a fim de realizar com o Pel Caç Nat 52 uma patrulha de nomadização na região de Sancorlã/ Salá até à margem esquerda do RPassa (limite a partir do qual começa a ZI do Com-Chefe), com emboscada entre Salá e Cossarandin onde o IN vinha com frequência reabastecer-se de vacas.

"Verificou-se que os trilhos referenciados não eram utilizados durante o tempo das chuvas (Op Gaúcho).

"Entretanto, uma secção da CCAÇ 12 passava a ficar permanentemente destacada (…), [falta aqui um bocado de texto, presumo que fosse em Sansacutà ], na sequência de informações de que o IN se instalava de novo no regulado do Corubal, e na previsão duma acção de força contra o eixo de tabancas em auto-defesa a sudeste de Bambadinca" (...).

Guiné 63/74 - P1999: Vamos arranjar uma caderneta militar nova para o António Batista (Rui Ferreira / Paulo Santiago)

Espanha > Região Autónoma da Galiza > Santiago de Compostela > 28 de Junho de 2007 > O nosso Paulo...Radical, mais a Médica Veterinária Rosário Azevedo, uma jovem de 28 anos, sua colega na Divisão de Intervenção Veterinária de Aveiro. Os dois partiram, com as suas Bikes, de Astorga a 23... Uma sugestão (e um exemplo) de férias alternativas e sobretudo de companheirismo. Parabéns, Paulo!

Foto: © Paulo Santiago (2006). Direitos reservados.


1. Mensagem do Paulo Santiago, com data de 25 do corrente:

Luís:

Telefonou-me, hoje à tarde, o Rui Alexandrino [Ferreira] (1) a convidar-me para o seu aniversário (64 anos) no próximo dia 4, onde, por motivos pessoais, e com grande pena minha, não poderei estar presente. Ele está de férias no Algarve, sem acesso ao blogue.

Falei-lhe na minha/nossa luta para preenchermos o "espaço de vazio" da Caderneta do António Batista (2). O Ruizinho, com aquela humanidade que tu conheces, disse-me:
-Paulo, tem calma, deixa passar este tempo de férias, depois iremos aos Arquivos do Exército e vamos arranjar uma Caderneta nova e correcta para esse ex-combatente e prisioneiro de guerra.

Antes tinha estado com a minha Chefe de Divisão, que também me questionou sobre o assunto. À Anabela (é a minha coordenadora) disse-me que andava nervoso, devido a um encontro,que ia ter na 6ªfeira.
- Como é que correu?

Após lhe fazer um relato, com alguma emoção, confesso, mostrou-se também chocada como puderam fazer tal coisa ao António Batista (2). Estava outra veterinária presente,também completamente espantada com tal drama humano. Não pensavam ser possível tal coisa. Há uma semana atrás,telefonou-me a DrªAnabela, tinha-lhe dado o endereço do blogue, vira o post com o Batista a colocar a coroa de flores e dizia-me:
- Oh Paulo, tem que me explicar isto, como é possível um homem dado como morto aparecer vivo ?

São estes dramas, estes traumas, estas tragédias que temos e devemos explicar e contar às pessoas mais novas, porque elas sabem que houve uma guerra mas não imaginam o que a nossa geração lá passou. Dizia-me também a Anabela:
- Depois de ler o blogue, compreendo melhor, era eu novita, o padrinho da minha irmã fez a guerra na Guiné e regressou muito estranho, nós não entendíamos as atitudes do senhor, a sua personalidade alterara-se radicalmente.

No Sábado, fui com a minha amiga e companheira de aventuras, a Rosário, que também lê o blogue, fazer uma caminhada na Serra de Sicó, seguida de um almoço em casa do Vitor Junqueira. Caminhava,ía-lhe contando o meu encontro da véspera, a revolta que me assolara no regresso da Maia, alguma paz de espírito que estava a sentir com aquela caminhada, mas o pior seria à noite quando me sentasse em frente do computador. Normalmente só escrevo depois de jantar, fecho-me no escritório, vou teclando, muitas vezes tenho de parar, porque as lágrimas enchem-me os olhos,volto a escrever, perdendo muitas vezes a noção do tempo, eu que tenho de me levantar às 6H00.

Hoje a minha chefe, na despedida, perguntava-me pelo ambiente, que continua tenso, no meu local de trabalho (3). Respondi-lhe:
- Doutora, neste momento estou forte e marimbando-me para qualquer ameaça, cumpro cada vez com mais afinco o meu serviço mas, na minha cabeça, está uma mente reforçada a tentar soluções para o drama do Batista.

Luís, o teu/nosso blogue é visitado, cada dia que passa, por mais pessoas, algumas bastante jovens, ficam-nos a conhecer e a compreender. Foi um dos motivos para que o criaste. Continua firme no comando com a companhia do Vinhal e Briote.

Abraço
Paulo



2. Comentário de L.G.:

Paulo, dizes bem, o nosso blogue... Estamos-te reconhecidos, a ti e ao Álvaro Basto e por outars camaradas como o Ayala Botto ou o Rui Ferreira, por esta tentativa (que será sucedida) de ajudar a recuperar a dignidade e a honra de um camarada nosso que conehceu o inferno (a emboscada do Quirafo, o massacre dos camaradas, a morte anunciada, a prisão, o pelotão de fuzilamento, a libertação, o regresso ao outro mundo, a visita à sua própria campa, o pesadelo kafkiano da peluda...).
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Notas de L.G.


(1) Vd. post de 17 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1285: Bibliografia de uma guerra (14): Rumo a Fulacunda, um best seller, de Rui Alexandrino Ferreira (Luís Graça)

(2) Vd. posts de:

23 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1986: António da Silva Batista, o morto-vivo do Quirafo: um processo kafkiano que envergonha o Exército Português (Luís Graça)

22 de Julho de 2007:Guiné 63/74 - P1983: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (1) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)

22 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1985: Prisioneiro do PAIGC: António da Silva Batista, ex-Sold At Inf, CCAÇ 3490 / BCAÇ 3872 (2) (Álvaro Basto / João e Paulo Santiago)

24 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1990: Carta aberta ao Cor Ayala Botto: O caso Batista: O que fazer para salvar a sua honra militar ? (Paulo Santiago)

24 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1991: O Simplex, o Kafka e o Batista ou a Estória do Vivo que a Burocracia Quer como Morto (João Tunes)

(3) O Paulo, que trabalha na Inspecção Sanitária, ligado à Divisão de Intervenção Veterinária de Aveiro, mais concretamente num dado matadouro da região, desafou há dias - no princípio do mês de Julho - com os seus amigos e camaradas, dando-nos conta das "graves ameaças" a que esteve ou tem estado sujeito... Escusado será dizer que teve a solidariedade, em peso, dos seus camaradas da Guiné... Por se tratar de um assunto delicado e particular, não vamos publicar aqui a troca de emails que o assunto já proporcionou entre nós... Mas estamos atentos, vigilantes e solidarários...

Guiné 63/74 - P1998: Blogoterapia (28): No Diário do Mário Beja Santos, está lá tudo, estamos lá todos nós (Virgínio Briote)

1. Mensagem do nosso co-editor Virgínio Briote (ex-Alf Mil Cmd, Brá, 1965/67) (1):

Caro Luís,

É um documento rico em memórias daqueles tempos (2). Está lá tudo, as preocupações com a população, os contactos com o então Inimigo, as ideias de alguma hierarquia nem sempre ajustadas às realidades com que a tropa em quadrícula se defrontava todas as horas, todos os dias, as relações com a metrópole, os amigos, a namorada, a família, os hábitos que procurou não perder no mato, as leituras e a música, os conflitos entrelaçados com momentos de camaradagem entre os pessoal militar, a dificuldade em lidar com a cultura dos militares nativos, num destacamento perdido no mato, dias e dias, sempre a contar os dias que faltavam para as férias, o RDM, tudo, está lá tudo o que eu vi e vivi algum tempo antes.


Ter o Mário no nosso blogue foi um acontecimento feliz (2). Não por ser, há muitos anos, uma figura pública, mas por tudo o que ele encarna. Um jovem com 20 e poucos, metido num conflito que, na altura, não lhe devia dizer muito, meia dúzia de meses de instrução militar muito básica, praticamente virada para o manejo das armas e nenhuma informação sobre as populações e sobre o que se passava no terreno. Tudo o que aconteceu a uma geração. E, pelo que depreendo, vestiu o camuflado com honra sem ter em mira recompensas.

Felicitar o Mário Beja Santos é também felicitar o nosso blogue.

Um abraço,
vb
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Notas dos editores:

(1) Vd. posts de:

11 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1945: Blogue-fora-nada: O melhor de ... (1): Nunca contei uma estória de guerra aos meus filhos (Virgínio Briote)

11 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1943: Virgínio Briote, novo co-editor do blogue

(2) Vd. post de 25 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1996: Nas Terras dos Soncó, um livro saído do nosso blogue, em próxima edição do Círculo de Leitores (Beja Santos / Luís Graça)

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P1997: Álbum das Glórias (22): O Alf Mil Pires, cmdt do Pel Caç Nat 63, em Mato Cão, na festa do meus 24 anos (Joaquim Mexia Alves)



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Cuor > Destacamento de Mato Cão > 6 de Abril de 1973 > O Joaquim Mexia Alves, cmdt do Pel Caç Nat 52, recebe a visita do Pires, cmdt do Pel Caç Nat 63, no dia em que fez 24 anos. Um gesto bonito, de solidariedade e de camaradagem.


Fotos: © Joaquim Mexia Alves (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem do nosso querido amigo e camarada, matulão, Joaquim Mexia Alves, ex- Alf Mil Op Esp, que esteve na Guiné, entre Dezembro de 1971 e e Dezembro de 1973, tendo pertencido à CART 3492 (Xitole), ao Pel Caç Nat 52 (Mato Cão / Rio Udunduma) e à CCAÇ 15 (Mansoa).


Caros Luis Graça e camaradas trabalhadores da Tabanca Grande

Corpo di bó ?

Bem hoje é apenas para enviar fotografias do Alf Mil Pires que à data, 6 de Abril de 1973, comandava o Pel Caç Nat 63, sediado em Fá Mandinga.

O Alf Pires foi ao Mato Cão neste dia em que eu fazia 24 anos para me dar um abraço.

Era um gajo porreiro e envio as fotografias para a história dos Pelotões Africanos (1) e para que talvez, vendo-as, se junte a nós.

Não sei se foi ele que substituiu o Jorge Cabral, mas penso que ainda houve outro Alferes de permeio.

Abraço amigo do

Joaquim Mexia Alves

joaquim.alves@termasdemontereal.pt

geral@termasdemontereal.pt
tel: +351 244 619 020 / fax: +351 244 619 029

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 28 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1896: Encontro dos Pel Caç Nat 51, 52, 53, 54, 55 e 56 (Henrique Matos)

Guiné 63/74 - P1996: Nas Terras dos Soncó, um livro saído do nosso blogue, em próxima edição do Círculo de Leitores (Beja Santos / Luís Graça)

1. Eis a boa notícia que o Beja Santos traz hoje:

Luís e todos os tertulianos, apresentei-me ontem no Círculo de Leitores, para ter uma reunião com a Dra. Guilhermina Gomes, a sua editora-chefe. Enviara-lhe a versão provisória do primeiro volume da Operação Macaréu À Vista, já que decidira que a sua edição devia comportar dois volumes, um ano de comissão cada.

Logo no início da reunião, a Dra. Guilhermina revelou-me que lera de um só fôlego todo o manuscrito e que o livro vai ser editado em Fevereiro ou Março do próximo ano. Acordei com ela que o livro terá a estrutura de um diário, tal como está a ser publicado no blogue (1) . Haverá uma sessão pública de lançamento, na data de Fevereiro ou Março [de 2008]. O título escolhido para este primeiro livro será Nas terras dos Soncó. Tenho agora que rever toda a ortografia, pôr subtítulos, polir.

Pedi à Dra. Guilhermina que sugerisse à pessoa que vai gerir este projecto que consultasse o nosso blogue (e as demais páginas do nosso sítio) para acertarmos num caderno de fotografias (o livro incluirá um caderno de fotografias, não sei se a cores, se a preto e branco).

É minha indeclinável vontade que os direitos de autor venham a reverter para o blogue, pelo que convirá estabelecer-se uma discussão quanto à forma como podemos receber e distribuir dinheiro.

Confesso que estou muito orgulhoso por esta aprovação. Recai muita responsabilidade na preparação agora do segundo volume e temos que pensar a sério no que vamos fazer enquanto editores de livros.

Um abraço do Mário.


2. Comentário de L.G.:

Já aqui tínhamos dito que, no blogue, se haviam revelado, no espaço de dois anos e picos, vários talentos literários. E sempre acarinhámos os projectos de edição de nossos amigos e camaradas, alguns dos quais já com livros publicados sobre a temática da guerra colonial, quando para cá entraram (v.g., Carvalhido da Ponte, Renato Monteiro, António da Graça Abreu, Mário Vicente ou Mário Fitas, Rui Alexandrino Ferreira, Padre Mário de Oliveira, cito de cor!)...

Quanto a livros de bloguistas, já temos dois na calha: um, ainda em fase exploratória, resultante da tese de doutoramento do Leopoldo Amado (há contactos com a editora Campo das Letras, do Porto, por iniciativa do A. Marques Lopes); é um trabalho diferente, de investigação historiográfica, que só muito parcialmente tem a ver com o nosso blogue: será um filho da tese do Leopoldo, para o grande público; e agora este, mais concreto, saído directamente do nosso blogue, do nosso camarada Beja Santos, cujas negociações com o Círculo de Leitores foram bem sucedidas, para nosso contentamento.

O mérito é, em grande parte, pessoal, devido não só ao grande talento do Mário, mas também à sua enorme capacidade de trabalho e à sua persistência. Desde há um ano a esta parte que o Mário levou a peito este tremendo desafio que foi reconstituir as suas vivências e as suas memórias do Cuor, da sua querida Missirá, dos seus homens do Pel Caç Nat 52, das suas milícias (Missirá e Finete), da sua grande família do Cuor, dos Soncó aos Mané, sem esquecer Bambadinca e a sua ambiência, os camaradas milicianos com quem conviveu e fez operações.

Eu sou testemunha, insuspeita, de que o Mário trabalho de maneira sistemática, disciplinada, quase obsessiva... Como nos nos bons velhos tempos, em que ele era o verdadeiro senhor do Cuor... Em suma, o nosso Tigre de Missirá continua em grande forma, a malta de Bambadinca que se cuide!...

Não tenho dúvidas que vai ser um grande dia de festa o lançamento, já anunciado para o 1º trimestre de 2008, do primerio livro, filho do nosso blogue... O Mário está de parabéns, mas também todos nós que, de uma maneira ou de outra, temos alimentado (com as nossas estórias, apontamentos, comentários, fotografias, mapas, relatórios, etc.) essa torrente, esse macaréu de emoções, sentimentos e imagens que dão vida, côr, consistência, humanidade e dramatismo aos mais de meia centena de episódios já escritos, semana a semana, pelo Beja Santos... O Mário será o autor mas nós, todos nós, temos lá as nossas dedadas...

Deixemos, entretanto, as questões mais comezinhas e práticas (direitos de autor, créditos fotográficos, etc.) para mais tarde.

PS - Espero que o exemplo do Beja Santos seja seguido por outros amigos e camaradas: há para aí montes de estórias fabulosas (do Mário Dias à Gilda Pinho Brandão, do A. Marques Lopes ao Virgínio Briote, do Jorge Cabral ao Zé Teixeira, passando pelo Victor Tavares e pelo Idálio Reis, do Rui Felício ao Paulo Raposo, do João Tunes ao Raul Albino, só para citar alguns de nós que de repente me ocorrem...). Sem esquecer os nossos poetas...

O que me orgulha é que este blogue está uma alforge de talentos, de gente que sabe contar estórias, e é dotada de grande sensibilidade e humanidade, mesmo escrevendo só com um dedo, como é o caso confesso do Paulo Santiago... (LG).
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Nota de L.G.:

(1) Vd. último post da série > 20 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1978: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (55): Mataste uma mulher, branco assassino!

Guiné 63/74 - P1995: Álbum das Glórias (21): Cuor: Os Soncó e os Mané (Beja Santos)


Guiné > Zona Leste > Cuor > Missirá > 1968 > Retrato dos Soncó e dos Mané, várias gerações...

Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem do Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70):

O Abudu(Abudurame Serifo Soncó, o filho mais novo do régulo Malã Soncó) trouxe os seus comentários a esta fotografia que eu tirei ainda em 1968 (1):

(i) À esquerda, Tumulu, quase adolescente, hoje comerciante em Bandim, tem 50 anos e é a cara do pai.

(ii) O Tumulu é filho da Mai Sai que aparece ao centro, sentada.

(iii) A seguir, a menina mais crescida é Sadjon (uma homenagem a S. João, em frente a Bolama), uma Mané que casou com o falecido Ansumane Mané, irmão de Tumulu. Os problemas de consanguinidade nunca se põem, as leis proíbem categoricamente casamentose entre membros das mesmas famílias.

(iv) Há um menino ao pé do Tumulu, a seguir, que o Abudu não recorda.

(v) O menino por detrás de Mai Sai é Samba Mané, filho de Braima Mané, tenho por aí uma fotografia ao seu lado e do Malã. Mai Sai cresceu na tabanca de Cancumba, que desapareceu com a guerra(a tabanca voltou à vida).

(vii) Manqui Mané é o menino seguinte, filho de um dos padres de Missirá.

(viii) A seguir está Abudu, com o sorriso que mantém.

(ix) Depois, Nhalim Cassamá, mulher de Quebá Soncó, filho mais velho do régulo (nesta época, estava hospitalizado no HMP, levou um tiro numa rótula em Madina, era o picador).

(x) Temos, por último, Nhima Mané, aoptada pela mãe de Abudu, Mama Mané, na altura a viver em Finete.

Não sei descrever a alegria no olhar do Abudu, enquanto falava e via a gente de Missirá, da sua infância. Muitos já partiram deste mundo.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 17 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1960: Em busca de... (3): Os Soncó, a aristocracia mandinga do Cuor (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P1994: Tabanca Grande (29): Gilda Pinho Brandão: uma mulher feliz, que ganha uma nova família e um novo país

1. Mensagem da Gilda Bráz (ou Gilda Pinho Brandão, novo membro da nossa tertúlia) (1):

Boa tarde, Amigo Luís,

Pois é, este fim-de-semana recebi a visita do nosso amigo Pepito, um ser humano extraordinário e um guineense orgulhoso, que fala do seu país e das suas gentes com uma paixão indescritível, por mim ficava o dia todo a ouvi-lo, pena não ter podido ficar mais tempo.

Relativamente aos meus familiares, falou-me no meu primo Carlos Pinho Brandão, que foi colega dele de curso [, de Agronomia,] das circunstâncias da morte do meu pai [, Afonso Pinho Brandão,] que foram um pouco dramáticas, pois segundo o Carlos contou ele era muito querido pela população, era um homem bastante sociável: ao fazer frente a uns balantas que se queriam apropriar da casa dele, acabou por ser morto, pois estava em inferioridade numérica. O Pepito também falou-me acerca dos fulas, etnia da minha família materna. A seguir ao encontro com os meus irmãos, este foi um dos momentos mais marcantes desde que comecei esta busca pelas minhas raízes (1).

Hoje enviei também um e-mail ao nosso amigo Victor Condeço, a falar-lhe acerca deste encontro.
Vocês vão sempre fazer parte daquele grupo restrito a que eu chamo AMIGOS; se houvesse mais pessoas com os mesmos princípios e formas de estar na vida como vós, o mundo seria bem mais “saudável”.

A minha próxima etapa é neste fim-de-semana tentar encontrar-me com o Souleimane Silá (conhecido do Victor) que mora perto de mim.

Como deve calcular, meu bom amigo, todas estas informações estão a ter um impacto superpositivo no meu dia a dia; sou por natureza uma pessoa alegre, mas ultimamente nota-se mais essa boa disposição; os meus colegas pensam que é devido ao facto de ter mudado de casa; é óbvio que também contribui, mas nada se compara à felicidade que sinto quando os meus irmãos me telefonam a perguntar se está tudo bem e se preciso de alguma coisa. É difícil explicar por palavras o meu estado de espírito nesta boa fase da minha vida, só sei que me sinto muito feliz com tudo o que está a acontecer.

Muito obrigada por tudo.

Uma boa semana de trabalho e um abraço com amizade

Gilda

2. Comentário de L.G.:

Gilda: É bom saber que a Gilda voltou a ganhar uma nova família e um novo país. E que o nosso blogue deu um pequeno contributo para isso. Espero que um dia nos possamos encontrar, numa das reuniões da nossa tertúlia. Continue a contar connosco.
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Nota dos editores:

1) Vd. posts anteriores:

4 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1919 - Tabanca Grande (22): Gilda Pinho Brandão, uma nova amiga

10 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1829: Tabanca Grande (9): À Gilda e a todas as vítimas de guerras, discriminação, racismo... (Torcato Mendonça)

6 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1819: De Catió a Lisboa, de menina a Mulher Grande ou uma história triste com final feliz (Gilda Pinho Brandão / Luís Graça)

5 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1817: Catió: Em busca da família Pinho Brandão (Leopoldo Amado / Victor Condeço / Armindo Batata / Gilda Pinho Brandão)

3 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1811: Vim para Portugal aos 7 anos, em 1969, e não tenho uma fotografia de meu pai, A. Pinho Brandão (Gilda Pinho Brandão, 44 anos)

30 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1798: Região de Catió: Descendentes da família Pinho Brandão procuram-se (Gilda Pinho Brandão)

Guiné 63/74 - P1993: Tabanca Grande (28): Já cá temos o Carlos Marques dos Santos, de regresso a casa, de boa saúde (Editores)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > Mansambo > Cart 2339 > Novembro de 1968> As longas noites quentes de Mansambo...

Foto: © Carlos Marques dos Santos (2006). Direitos reservados.

1. Mensagem do Carlos Marques dos Santos, de 23 de Julho último:

Luís e co-editores da Tabanca Grande:

Poderá parecer estranho este meu silêncio, e daí a resposta só agora, a este contacto.

Explico. A minha saúde (problemas cardíacos já diagnosticados) vinha a agravar-se de há 2 ou 3 meses para cá, facto que, em conversas com o Vinhal, comentava. Assim, a 19 do mês passaado, fui internado de urgência nos Hospitais da Universidade de Coimbra, onde estive um mês, implantando um aparelho de reforço ao coração (CDI-desfibrilhador).

Regressei, felizmente, a casa já compensado medicamente.

Só agora tomei conhecimento deste e outros mails, como é lógico. Publiquem a sequência de fotos e texto se e quando acharem oportuno. Os meus camaradas não estão contra. Foi uma noite alegre e recordada várias vezes nos nossos Encontros (2).

As viagens, [ o caravanismo,] estão em lista de espera, mas em breve retomaremos a dinâmica. Obrigado pelos boas palavras àcerca da minha filha Inês.

Tenho um DVD, de todo o percurso da CART 2339, desde a saída no Ana Mafalda até ao regresso no Uíge, que vou tentar copiar e enviar. É um documento saído do filme Super 8 e transposto para as novas tecnologias.
Um abraço, CMS

2. Comentário do editor L.G.:

Querido amigo e camarada:

Voltaste ao mundo dos vivos! Que bom é saber de ti! Agora recauchutado, estás pronto para viver outra(s) vida(s)! Fico muito feliz por saber que agora está tudo a correr pelo melhor.

Nada de acelerar, quando quiseres e puderes mandas as tuas coisinhas, que a gente já tens saudades dos teus apontamentos... A propósito, tenho coisas tuas para recuperar do velhinho Blogue-fora-nada... Nessa altura, estavas superactivo... Criei uma série: O Melhor de (...). O Virgínio irá publicar as fotos e as legendas da tal noitada, uma vez esclarecido a questão do consentimento dos teus camaradas que aparecem nas fotografias...

Um beijinho para a tua esposa. Um chicoração para ti.

Luís + Carlos + Virgínio

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Notas dos editores:

(1) Em 11 de Julho tinhamos enviado o seguinte ao Carlos, em imaginar a sua situação de saúde:

Carlos: Vamos avançar com a publicação deste teu texto + fotos ? Não há objecções, por nossa parte… Recordas-te, já falámos disto há tempos… Como vai a saúde e o caravanismo ? Tenho visto a tua filha[, Inês Santos,] na televisão… É um grande simpatia e um grande talento: telegénica, bonita, simpática, belíssima voz, sensata, cabeça arrumada, bons princípios! Parabéns ao pai babado… Um bj para a tua esposa. Uma grande abraço meu e do Briote (nosso novo co-editor).

(2) Vd. post de 20 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DLXIX: Uma bebedeira colectiva (Mansambo, Novembro de 1968) (CMS)

terça-feira, 24 de julho de 2007

Guiné 63/74 - P1992: Em busca de...(6): Miguel Ângelo Leal, Alf Mil Comando, Brá, 1972/74


1. Mensagem do José Martins, enviaada em 19 do corrente ao A. Mendes (ex-1º Cabo da 38ª CCmds, Brá, 1972/74), com conhecimento aos editores do blogue:

Caro Amílcar, caros Camaradas:

Travei conhecimento com um novo amigo que, depois de alguns minutos de conversa animada, me disse ter tido um cunhado, chamada MIGUEL ÂNGELO LEAL, que foi Alferes Miliciano Comando, na Guiné nos anos de 1972 a 1974. Infelizmente veio a falecer num acidente aéreo, como tripulante dum avião da TAP.

Falou-me, o meu novo amigo, que o cunhado tinha sido condecorado por feitos em campanha. Ele viu a medalha e o diploma aquando da morte do cunhado, e agora, já que o cunhado era o enlevo da sua esposa, entretanto também falecida.

Sabendo da minha ligação afectiva a antigos combatentes e o meu interesse sobre estas matérias, perguntou-me se eu não poderia informar-me sobre a condecoração e as razões da sua atribuição.

Já procurei nos meus registos, mas nada encontrei (Os meus registos apenas apenas abarcam a Cruz de Guerra, Valor Militar ou Torre e Espada).

Pelas datas é provável que o Alf Mil Comando Leal tenha pertencido à 38ª CCmds. Será que o conheceste? Será que me podes dar algumas informação?

Um abraço do camarada
José Martins
Fur Mil Trms Inf
CCAÇ 5 - CTIGuiné
Canjadude, 1968/1970

Guiné 63/74 - P1991: O Simplex, o Kafka e o Batista ou a Estória do Vivo que a Burocracia Quer como Morto (João Tunes)


1. Com a devida vénia, reproduzimos aqui, com algumas pequenas adaptações, o seguinte post do nosso amigo e camarada João Tunes. É mais uma contribuição para que o caso Batista - o nosso morto-vivo do Quirafo, e futuro membro da nossa tertúlia - não morra na praia, e ele volte a recuperar o registo, na sua Caderneta Militar, da verdade e da memória a quem tem direito!... Vamos ajudá-lo a conseguir esta pequena vitória contra a burocracia sem rosto!... É também uma pequena homenagem ao Álvaro Basto e ao Paulo Santiago que se interessaram pelo caso (humano e militar) do António da Silva Batista. Vamos fazer chegar o caso dele até ao Chefe do Estado Maior do Exército, e por aí fora (se for caso disso). Vamos testar o tão badalado o Simplex, a vontade de transparência e de simplificação das relações entre os eleitos e os eleitores, o poder político e os cidadãos ! O Simplex não pode ser apenas Propagandex! E tem de chegar às repartições militares!

O Paulo Santiago, que é um homem generoso,solidário, emotivo e de grandes causas, deixou ointem este comentário no blogue do João Tunes: "João: Se o Batista lesse este teu post, ficaria agradecido, como ele não anda pela Net, agradeço eu, em seu nome. Sinto-me muito revoltado, mais ainda após ler o post do Luís e o teu. Apagarem anos e meses da vida de uma pessoa é uma canalhice, é uma filha da putice. Ainda não sei o que irei fazer, mas,quieto e calado não ficarei. Senti que, para ele, é mais frustante o não mencionarem o seu passado de prisioneiro de guerra que a não atribuição de qualquer pensão" (...). Hoje o Paulo já escreveu ao Coronel Ayala Botto, que foi ajudante de campo de Spínola na Guiné (vd. post anterior a este). Mais ideias, precisam-se! (LG).


Água Lisa (6), blogue de João Tunes > 23 de Julho de 2007 >
SIMPLEX E O VIVO QUE A BUROCRACIA QUER COMO MORTO


Também a guerra tem as suas burocracias. E, como qualquer burocracia, se não domada pelo sentido do humano, tende a tomar galopes soltos mesmo sem sinais humanos sentados na sela. Onde facilmente as vidas se perdem, ou se gastam, como é o caso das guerras, a burocracia da guerra pode cometer o mais caricato erro burocrático: trocar vivos por mortos, ou vice-versa.

Neste blogue [, link para o nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné,] reconstitui-se uma odisseia burocrática que começou na guerra colonial na Guiné e se espraiou no meio da papelada, esmerando-se em caprichos, com que os militares portugueses registam os que, da guerra, saíram vivos e mortos. Mostrando-se difícil que alguém dado como morto e enterrado, afinal estando vivo, recupere a cidadania da sua vitalidade (....).

Resumindo a história do ainda vivo cidadão António da Silva Batista, antigo soldado do Exército Colonial Português:


- Em 17 de Abril de 1972, em Quifaro (Guiné), uma emboscada montada pelo PAIGC provoca um número elevado de vítimas mortais: 11 militares portugueses, cinco milícias africanos e vários civis que eram transportados na coluna militar. O soldado Batista escapa com vida e é aprisionado pelos guerrilheiros do PAIGC, sendo levado por eles para a Guiné-Conacry. Através da Cruz Vermelha, o soldado Batista escreve várias cartas à família que nunca chegam ao seu destino.

- O soldado Batista é dado como morto pela burocracia militar portuguesa, um outro cadáver faz-lhe de corpo seu, é passada competente certidão de óbito, os restos mortais substitutos são entregues à família, que procede ao respectivo funeral, ficando com campa no cemitério da sua terra natal que passa a ser cuidada e transformada em culto de saudade pela família.

- Com o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, o PAIGC liberta o soldado Batista, entregando-o ao exército português. Em Setembro de 1974, passados 27 meses sobre a data da sua captura pelo PAIGC, volta a casa e à família. Visita a “sua campa” no cemitério (foto na imagem, publicada em 1974 no Jornal de Notícias) onde lê na lápide que lhe era dedicada “Em memória de António da Silva Batista. Falecido em combate na província da Guiné em 17-4-1972" e deposita uma coroa de flores sobre o corpo que lhe fizera as vezes.

- O ex-soldado Batista, cujo único documento de identidade era a sua certidão de óbito, vê-se em palpos de aranha para recuperar a sua condição de cidadão vivo. Se o Exército o dera como morto em combate, com certidão de óbito devidamente emitida, como podia passar a vivo e contado o tempo de ausência como prisioneiro? A burocracia reage como é timbre da burocracia. O ex-soldado Batista é reintegrado no rol dos vivos mas ainda hoje, continuando vivo, não conseguiu que a sua permanência no campo de prisioneiros do PAIGC lhe conste, na sua caderneta, como tendo sido em serviço militar.

A burocracia não permite que um vivo tenha estado vivo enquanto os papéis, os sagrados papéis da burocracia, assinalam que o vivo estava morto. Quando muito terá estado vivo mas, nos papéis, continua morto, ou pelo menos ausente em parte incerta. E se o ex-soldado Batista quisesse documentos conformes, respeitasse o papel da certidão de óbito e, em vez de andar a atrapalhar a burocracia, aceitasse que estava morto. Nem o Simplex resolve tão intrincado desrespeito à santa burocracia?