sábado, 18 de agosto de 2007

Guiné 63/74 - P2060: Bibliografia de uma guerra (14) : o testemunho de Pedro Pinto Pereira. Memórias do Colonialismo e da Guerra (Dalila C. Mateus)


Cópia da capa do livro de Dalila Cabrita Mateus . Memórias do Colonialismo e da Guerra. Porto: Edições ASA. 2006. Colecção: Arquivos Históricos. 672 pp. Preço: 24,00 € (com IVA).

Fonte: © Edições ASA (2006) (com a devida vénia...).

Testemunhos da Guiné, de quem esteve do outro lado, são raros, como se a guerra naquela terra tivesse sido um caso menor. Pelo interesse e valor histórico, com a vénia devida a Dalila Cabrita Mateus (DCM), trancrevo excertos do longo e interessante depoimento prestado por Pedro Pinto Pereira (PPP) à autora, em Setembro de 2001 (páginas 547 a 569).
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Pedro P. Pereira nasceu em Bissau em 1926. Em Bissau concluiu o 5ª ano dos liceus. Em Portugal tirou um curso de Guarda-Livros. O seu tetravô, Honório Barreto, foi Governador. O avô foi director da Alfândega. E o pai, comerciante e vogal da Câmara de Bolama, terá sido arruinado pela Casa Gouveia, da CUF.

(....) Um primo seu, James Pinto Bull, foi secretário provincial e deputado pela Guiné à Assembleia Nacional. Um outro primo, Benjamim Pinto Bull, académico, foi agraciado com a Ordem do Infante. E um filho seu foi ministro da Administração Pública na Guiné (Kumba Yalá).
Foi preso pela PIDE em Março de 1966. Os agentes apoderaram-se, então, de duas medalhas com a efígie de Salazar, de que se confessa admirador. Uma emissão do PAIGC na Rádio Senegal afirmou que "até mesmo os seus cães...como o Pipi Pereira...foram parar ao campo de concentração" (1).
Levaram-no para a 2ª Esquadra da PSP, onde passou 335 dias. Em Fevereiro de 1967, por despacho do então ministro do Ultramar, Silva Cunha, foi-lhe fixada residência no Campo de S. Nicolau (Angola), onde permaneceu até Setembro de 1969.

Após a independência da Guiné, foi detido (pelo PAIGC) sob a acusação de ter sido fundador do Movimento de Libertação da Guiné (MLG).

Em 1976, intentou uma acção contra Portugal, sob a acusação de ter sido ilegalmente preso. Em 1992, Portugal foi condenado pela Comissão Europeia dos Direitos do Homem a pagar-lhe 800 contos.

(1) IAN/TT (Torre do Tombo), Arquivos da PIDE, Processo 641/61, PAIGC, 3º volume, "Emissão do PAIGC na Rádio Senegal, 8.02.1972, fls. 112 ss.
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Nota do co-editor: o depoimento de Pedro P. Pereira é extenso, a sequência é muitas vezes alterada, acontecimentos dos anos 60 misturam-se com alguns recentes, as opiniões pessoais abundam. Para melhor enquadrar os factos históricos, os que são dos nossos tempos, procurei sequenciá-los, respeitando o discurso do Pedro Pereira.
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" O primeiro governador da África Negra foi o meu tetravô, Honório Pereira Barreto. Embora não use Barreto, porque o governador apenas se "juntou" com uma prima minha, recusando-se a casar. Por isso, o meu avô não pôde usar o apelido. Mas foi o primeiro filho de Honório Barreto, que o mandou estudar em Portugal.
(...) mas não posso deixar de ter orgulho em ser descendente de Honório P. Barreto, que foi um grande governador, um grande defensor de Portugal. Grande mesmo, embora talvez prejudicando o próprio país, a terra que o viu nascer e que é a Guiné.
(...) naquela altura, quiseram tomar as ilhas de Bolama. Os ingleses foram lá com dois vasos de guerra e mandaram chamar o governador ao palácio. Sabe o que o governador fez? Foi a bordo de pijama e chinelos. eles é que deviam desembarcar e ir ter com o governador. Ele não se sujeitou àquele atrevimento de o mandarem chamar ao barco.

inauguração da estátua de Ulisses Grant (*) em Bolama (imagem in águalisa, de J. Tunes)
(...) O meu avô era de Cabo Verde, da Praia. Foi director da Alfândega da Guiné, primeiro substituto do juiz (...).
Mas o avô dele era biafada, de uma tabanca chamada Beduco.

(...) teve várias profissões (o pai, Vítor Gomes Pereira). Foi, por exemplo, comerciante: no seu tempo comprava 80 por cento dos produtos (mancarra, coconote), quando a CUF comprava 20 por cento. Então fizeram-lhe uma guerra terrível.
(...) Bastou dar o monopólio da exportação à Casa Gouveia, da CUF. Meu pai, natural da Guiné, era comerciante, empresário, comprava a mancarra e vendia-a para a Alemanha.

(...) Porque fui preso? Que me viram em casa de um rapaz chamado Mário Baldé, cujo pai fora criado na casa de meu pai.(....) Fui preso no dia 12 de Março de 1966. E acusado também de dar dinheiro para o partido, o que era mentira. Bem, tinha uma certa admiração pelo primeiro partido que existiu antes do PAIGC, que era o MLG (Movimento de Libertação da Guiné). O chefe desse partido era o Zé Lacerda, filho de um capitão português que viveu muito tempo em Bolama.
(...) Houve um desentendimento quando o Amílcar Cabral chegou à Guiné, como engenheiro agrónomo. De modo que dois rapazes de Cabo Verde, o Fernando Fortes e o Infante Souto Amado, foram ter com o Amílcar, e lá se fundou o PAIGC; também era a única maneira de Cabo Verde se tornar independente.

(...) (a sede da PIDE em Bissau), era ao pé do campo da bola, na altura o Estádio Nacional. Quem saía do Estádio para ir para a Praça do Império, era naquela rua. A primeira casa à direita de quem vai.

(...) (esteve em interrogatórios na Pide) Dois dias e tal.

(...) (o meu primo) Era o dr. James Pinto Bull. O pai dele era de origem inglesa, era da actual Serra Leoa. O Pinto era da irmã da minha mãe, e o Bull, do pai.

(...) (virei-me para o subinspector) O senhor já me devia ter dito (de que era acusado). Você fez isto e aquilo, mostrando-me as provas. Ou então mande-me para minha casa.(...)
Então isto é assim? Disseram-me que ia a tribunal, mas onde está o advogado, onde? Já passaram dois dias, e o meu advogado onde está? Veio cá para tratar comigo de uma procuração, e o senhor correu com ele, porque ele lhe perguntou o que é que eu tinha feito.
Este advogado era o dr. Macaísta Malheiros, que depois foi juiz.

(...) Mas voltando atrás. Não se atreveram a bater-me, mas eu também fui muito corajoso. (...) (estive) Sempre, durante trezentos e trinta e cinco dias preso na 2ª esquadra.

(...) Ouviu falar do dr. Henrique Medina Carreira? Foi ministro depois do 25 de Abril. É filho de António Barbosa Carreira, que só tinha a 4ª classe.
Esse Henrique Medina Carreira fez primeiro o curso de agente técnico de engenharia electrotécnica, depois foi para a Guiné trabalhar nos correios, esteve lá dois meses a trabalhar, mas foi ter com o pai e disse-lhe que se queria ir embora para estudar.
O pai respondeu-lhe que não tinha dinheiro, que dali não saía. Então ele foi ter com uma pessoa amiga do pai, um grande comerciante em Bissau, Mon Ali Amon, que também foi preso comigo.

(...) Mandaram chamar o Duarte Vieira, esse que tinha sido servente nas Obras Públicas e que chegou a tenente miliciano do Exército Português. (...) O tal Duarte Vieira, pediu a máquina de escrever e escreveu, escreveu, chamando-lhes nomes. Levou tanta pancada, que lhe quebraram a cabeça. Foi depois sepultado no cemitério.
(...) Mataram-no sim. Mas disseram que fugiu, que batera com a cabeça e morrera.

(...) (a acção contra Portugal) Meti. Foi o dr. Orlando Marcelo Curto que meteu a acção. Aqui em Portugal perdi três vezes. (...) Recorri sim, para a Comissão Europeia dos Direitos do Homem. E ganhei.
(...) Em 1976, mas só a ganhei em 1992, dezasseis anos depois.

(...) (quem assinou o despacho) Foi o dr. Silva Cunha, ministro do Ultramar e da Defesa. Foi ele que assinou a nossa deportação para Angola.
(...) Éramos catorze.
(...) O inspector Reis Teixeira disse que íamos para São Nicolau, que o governador-geral de Angola até tinha feito a proposta de voltarmos para a Guiné (Arnaldo Schulz, o então governador da Guiné, ter-se-á oposto). Estive em São Nicolau 56 meses.

(...) Que assistira ao fabrico de uma bomba. Quando eles (PIDE) é que tinham deitado uma bomba em Farim, onde mataram muita gente (**).

(...) (quem lançou a bomba?) Foi a PIDE que mandou, tenho a ceteza disso. Lançou a bomba para depois dizer que nós até matávamos africanos. Ali não havia quartéis, só havia casas comerciais, onde era fácil lançar bombas e fugir. Porque é que não lançavam as bombas nos quiosques, frequentados pelos militares portugueses? E iam deitar onde só estava a população?Queriam arranjar pretexto para fazer prisões. Havia, então, uma festa numa tabanca e morreram mais de cem pessoas. Isto passou-se no dia 1 de Novembro de 1965.

(...) Comigo foram o Fernando Fortes, o Souto Amado, e muitos mais. Esteve lá um europeu connosco, o Cordeiro. Ele era duro, insultava a PIDE na rua abertamente. Ele tinha dois cães, a um chamava "pide" e ao outro o nome de um inspector que estava lá.(...) Era um grande técnico de raios X.

(...) Saí em 18 de Setembro de 1969, às 5 horas da manhã. (...) E fui recebido pelo governador da altura, o general Spínola, quatro dias depois de lá estar.

(...) Olhe, já me esquecia de lhe contar. Na altura em que a PIDE me foi prender, roubaram-me medalhas de bronze com a figura de Salazar. Ainda hoje sou um grande admirador de Salazar. Sou admirador da sua honestidade, do seu valor. Até fui a Santa Comba Dão para conhecer a casa dele!

(...) (porque fui preso pelo PAIGC) Por ter fundado o partido MDG (Movimento Democrático da Guiné). Estive preso vinte e seis meses. No tempo de Nino Vieira também não me davam autorização para exportar, dava-na a toda a gente, menos a mim."
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(*)"Ulysses Grant foi um general e estadista americano, nascido em 1822 e falecido em 1885. Andou na Guerra do México, em 1847, e participou activamente na Guerra da Secessão, lutando ao lado dos Nortistas, tendo dado o golpe de misericórdia aos Sulistas em 1865. Candidato a Presidente dos Estados Unidos, venceu por maioria esmagadora, tendo governado de 1868 a 1876, como 18º Presidente. De 1877 a 1880 fez uma viagem triunfal em volta do mundo, onde foi sempre calorosamente recebido."
"Pois foi este famoso estadista que defendeu abertamente a posse da Guiné para Portugal. Em memória de alguém que, sendo grande, soube advogar com generosidade uma causa justa, o Governo Português encomendou a Manuel Pereira da Silva a respectiva estátua."
in Joaquim Costa Gomes - Três Escultores de Valia: António Fernandes de Sá, Henrique Moreira e Manuel Pereira da Silva. Ed. Confraria da Broa de Avintes.

(**) Confirmado o incidente, a PIDE, em mensagem por rádio existente nos arquivos de Salazar, afirma que, no dia 1 de Novembro de 1965, cerca das 20 horas, fora lançado um engenho explosivo para o meio dos africanos que se encontravam num batuque em Farim. A explosão teria provocado 63 mortos e feridos, na sua maioria mulheres e crianças.
Foi detida meia centena de pessoas. Confissões obtidas levaram à detenção de um tal Issufo Mané, que declarou pretender atingir militares (?). Para o fazer, teria recebido 14 contos de Júlio Lopes Pereira, o qual, por seu lado, actuara por indicação do chefe da Alfândega de Farim, Nelson Lima Miranda. E este teria vindo a declarar que a bomba fora lançada a mando da direcção do PAIGC.
(AOS/CO/UL- 50-A, Informações da PIDE, 1965-1966, 86 subdivisões, pasta 2, fls. 636, 637, 638, 641 e 642).
O interessante é que Pedro Pinto Pereira, um adepto do regime e admirador de Salazar, atribua o incidente à própria PIDE. Aliás, fazendo-se eco da versão que, na altura, circulou entre a população africana, como o reconhece a própria Polícia (DCM).

Guiné 63/74 - P2059: Um disco oferecido pelo MNF, às NT, no Natal de 1973 (Álvaro Basto/Carlos Vinhal)

Álvaro Basto, ex-Fur Mil Enf, CART 3492/BART 3873, Xitole, 1971/74 (1)

1. Em conversa, aquando do almoço da minitertúlia de Matosinhos, no dia 8 de Agosto, no qual tivemos como convidado especial o nosso amigo Batista, dizia-me o Álvaro Basto possuir um LP que o Movimento Nacional Feminino (MNF) tinha oferecido no Natal de 1973.

Achei que tal objecto seria interessante mostrar aos visitantes da nossa Página, porque significava muito do que na época se fazia para levantar (?) o moral das nossas tropas.

Quem não se lembra das coisas mais desinteressantes, disparatadas e pouco úteis que nos ofereciam então ?! Desde medalhinhas de santos, em alumínio, maços de tabaco (de marcas que nós apelidavamos de mata-ratos), isqueiros (tipo petromax) e quejandos.

Confesso que não considero assim o caso vertente, pois ainda se pode reproduzir este vinil nos velhos gira-discos. Além disso, contém, no verso da capa, dedicatórias de figuras públicas da época, algumas das quais já falecidas, o que lhe confere um estatuto de raridade.


Foto 1> Frente da capa do disco


Foto 2> Verso da capa do disco, onde se podem ler (?) as dedicatórias

Fotos: © Álvaro Basto (2007). Direitos reservados.

2. Por que não são legíveis as dedicatórias, aqui vão reproduzidas, com a identificação dos seus autores.

- Que o Menino Jesus vos ponha no sapatinho uma menina muito bonita. Amália

- Com as saudações de simpatia do Jorge Alves

- Um abração do amigo que nunca vos esquece. Camilo Oliveira

-Do coração um beijinho muito sincero da amiguinha Hermínia Silva

- Com um abraço e até o mais breve possível Raúl Solnado

- Com admiração e respeito por todos vós. Um regresso muito breve. Fernanda Maria

- Para os soldados portugueses com abraço e afecto do amigo Ricardo Chibanga
- Também quero jogar nesta equipa da amizade do Movimento Nacional Feminino. Por isso chuto daqui um grande abraço para a malta toda. Eusébio

- Por maiores que sejam os oceanos que nos separam, nada consegue vencer o amor que me liga a todos vós, meus irmãos. Florbela Queiroz

3. E por que não indicar as faixas do disco?

Face A:
- Abertura - Lisboa; Trás-os-Montes; Moçambique; Ribatejo; Madeira; Beiras; Timor e Açores

Face B:
- Alentejo; São Tomé e Príncipe; Minho; Cabo Verde; Coimbra; Macau; Porto; Guiné; Algarve; Angola e MNF - Fecho.

Como se depreende, música para todos os gostos e quadrantes geográficos.
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Nota do co-editor CV:

(1) Vd. Post de 26 de Junho> Guiné 63/74 - P1888: Tabanca Grande (19): Álvaro Basto, ex-Fur Mil Enf, CART 3492/BART 3873 (Xitole, 71,74).

Guiné 63/74 - P2058: Estórias do Zé Teixeira (21): Fermero ká tem patacão prá paga, toma minha mudjer

José Teixeira, 1.º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , (1968/70). Sendo enfermeiro militar, proporcionou ajuda sanitária à população das tabancas por onde a sua Companhia passou. Dedicando todo o seu saber e desvelo à causa que tomou sobre os seus ombros, viveu estórias tocantes como esta.



Fermero ká tem patacão prá paga, toma minha mudjer
por Zé Teixeira (1)

De O meu diário

1969, 5 de Janeiro

Estou de volta a Mampatá , após uma coluna (de ida e volta) a Buba. Se todas as colunas decorressem como esta, não me importava de fazer colunas. Cerca de 400 homens em movimento.

Admiro esta população. Quando souberam que eu ia a Buba, vieram despedir-se de mim. As bajudas abraçavam-me… sei lá. Dá gosto viver com esta gente.

1969, 13 de Janeiro

Chamarra é o meu novo hatitat desde ontem. A despedida de Mampatá foi triste e chocante. Custou-me imenso deixar aquela gente que me ensinou que o africano é homem que sendo compreendido e ajudado, se dá numa amizade sincera. Muitos pediam que eu ficasse (*), outros para ir até lá, as bajudas beijavam-me, etc., etc...

Ao reler o diário que teimosamente fui escrevendo em cima dos acontecimentos, com o objectivo concreto de extravasar para o papel o que me ia na alma naquele exacto momento, esbarrei com estes dois pequenos textos, os quais posso afirmar encerram ou definem, quanto foi para mim agradável viver meio ano no convívio com aquela simpática gente, num “oásis” plantado em pleno teatro onde se praticava a mais dura guerra de guerrilha.

Passados que são trinta e nove anos, o meu pensamento mergulhou de novo em Mampatá Forreá. Pequena tabanca no sul da Guiné-Bissau situada a cerca de cinco quilómetros de Aldeia Formosa (Quebo). Cruzamento de quatro estradas (picadas), qual delas a mais apetecível para se passear acompanhado, no mínimo, com a G3 bem abastecida e em grupo destemido e disposto a vender cara a vida.

Não havia muito por onde escolher: uma direccionava-se para Gandembel, passando por Chamarra e Ponte Balana, continuando depois pelo corredor da morte até Guiledje.

Outra corria para Buba, passando por Uane (destruída e queimada pelo IN, onde tinham sido apanhados e feitos prisioneiros cinco camaradas em Maio último), Nhala e a temível bolanha dos passarinhos na Lagoa de Cufada.

Uma terceira, que lançando-se da direcção de Colibuia e Cumbijã, tabancas abandonadas recentemente, se partia em duas seguindo uma para Guiledje e outra para Buba, passando por Sinchã Cherno onde, quinze dias antes, eu vivera o drama de não poder valer a um camarada que partiu para o eterno aquartelamento, para desespero de todos nós.

A última, embora tivesse o seu fim em Bissau, passando por Aldeia Formosa, Saltinho, Xitole e Bambadinca, ficava-se por Aldeia Formosa, desde o fatídico dia 24 de Junho, em que o IN atacou Contabane, incendiou a tabanca, pondo a tropa e a população em fuga com a roupa que tinham no corpo.

Muitas cenas vividas me vieram à memória. Vou começar pela primeira.

Recordo a minha tímida chegada, integrado no 3.º Grupo de Combate para aqui destacado temporariamente em Agosto de 1968. Tinha como responsabilidade garantir a assistência, como enfermeiro, aos militares meus camaradas, ao pelotão de milícia e à população.

A forma como a população nos acolheu foi excelente. Tratava-se de uma pequena tabanca onde os habitantes não chegariam aos quinhentos, sem quartel, ficando os militares em abrigos construídos artesanalmente com troncos de madeira espalhados em redor da aldeia, para protecção da mesma.

Recordo o milícia que se dirigiu a mim, logo à minha chegada, dizendo que o pai “estava manga de doença”, “bariga e na dê” e “bariga ramassa” – suponho que me queria dizer que o pai tinha muitas dores de barriga e os intestinos presos.

Como ainda estava presente o enfermeiro que iria render (isto de aprendiz de enfermeiro passar a médico às três pancadas, não foi fácil para mim), pedi-lhe apoio para este problema e tive como resposta: - Este gajo é um chato. Tens ali uns comprimidos. Dá-lhe apenas um por dia. Não lhe dês o frasco, pois se o fizeres no dia seguinte está aqui de novo com a mesma ladainha e tu nãos tens remédio para o calares.

Cumpri as instruções do colega e o homem lá foi tirar as dores ao pai. Coitado.
Manhã cedo, lá estava o Suleimane: - “Fermero, parte quinino pra minha pai. Bariga na dê”.

Armei-me em xico esperto e acompanhei-o à morança para ver o pai, qual médico sabichão, sem conhecimentos, sem instrumentos, apenas com um frasco de pírulas castanhas que eram recomendadas para tirar dores em geral e nos pós-operatórios, aconselhando uma toma mínima de três por dia. Medicamento milagroso, cujo nome, por traição da memória, não consigo relembrar, mas que muito me ajudou a debelar dores a brancos e a pretos, que nos dezassete meses que se seguiram me procuraram, à procura de remédio para as suas maleitas, na ausência quase permanente de um médico.

Após uns minutos de difícil conversa, dado que o velho doente se exprimia apenas no seu dialecto, o filho palrava algumas palavras em português à mistura com crioulo que para mim ainda era chinês e eu fazia perguntas em português de Portugal, consegui deduzir que o homem não fazia o saneamento da tripa cagueira há mais de oito dias. A barriga parecia uma dura pedra. Ao fazer a apalpação como tinha visto o médico a fazer, provoquei a saída forçada de uma estrondosa e mal cheirosa bomba de gases, que por uns instantes perfumaram o ambiente, valendo-nos a porta que não havia e o telhado que era de capim, para desanuviar o ambiente.

Este acontecimento, acompanhado pela tomada de um dos comprimidos milagrosos, gerou temporariamente um aliviar das dores do velho, mas isso para mim não era solução.
Dirigi-me ao comandante do destacamento, o alferes José Belo, que depois de me ouvir atentamente, concluiu comigo que era urgente o doente ser visto por um médico, coisa rara por aquelas bandas, pelo que havia de ser pedida uma evacuação urgente, dado que a avioneta do correio só viria na Sexta-Feira e estávamos na Segunda.

Uma mensagem rádio para Aldeia Formosa, dali para Buba, suponho, e de lá para Bissau, com retorno a tentar saber da razão da urgência em pedir uma evacuação para a população. Resposta do alferes Belo: - Sou alferes atirador e não médico, o meu enfermeiro diz que não se responsabiliza, eu também não.

A meio da tarde recebemos novo rádio a comunicar a vinda da avioneta e lá vamos nós com o velho, a caminho de Aldeia Formosa, sem as devidas e normais cautelas, próprias de quem está em zona de guerra, sem azar, por aquele dia.
Embarcou pai e filho com destino ao hospital de Bissau, ficando eu aliviado em consciência e livre de um chato que deixou de me pedir “mesinho para pai di mim”.

Uns dias depois o filho regressou. Pude saber que o pai fora operado de urgência e estava recuperar bem.
Dois meses depois regressa o velhote, com outra cara, sem dores e até ao meu afastamento de Mampatá, nunca mais deu problemas.

Foi uma entrada de leão a minha, em Mampatá, por força das circunstâncias, mas que de algum modo marcou toda a relação entre a população nativa e a tropa, nos seis meses que por ali estacionamos. Ficou para mim o melhor quinhão, naturalmente. O Suleimane, quando o pai regressou curado, dirigiu-se a mim para me agradecer do seguinte modo: - ”Fermero, ká tem patacão prá paga. Toma minha mudjer. É tua mudjer”.

... E ficamos os dois abraçados.

Zé Teixeira
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Nota do autor

(*) Soube já em Chamarra que o alferes da milícia e chefe de tabanca Aliu Baldé e o sargento da milícia Amadu foram a Aldeia Formosa pedir ao Major Azeredo, para eu ficar em Mampatá, enquanto houvesse tropas da minha companhia no Sector – tinha ficado o 2.º Grupo de combate em Chamarra.

Como tal não era possível dado que em Mampatá tinha sido colocado um segundo pelotão de milícia com um africano como enfermeiro, fui então colocado na Chamarra com prejuízo para o meu colega, que foi com a Companhia para Buba, montar segurança na construção da estrada, tendo eu sido mandatado para ir uma ou duas vezes por semana a Mampatá atender e assistir a população.
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Nota do co-editor CV:

(1) Vd. último post desta série> 12 de Agosto de 2007> Guiné 63/74 - P2042: Estórias do Zé Teixeira (19): A vaca que deu sorte.

Guiné 63/74 - P2057: Questões politicamente (in)correctas (32): O monumento em Barcelos aos mortos do Ultramar (Luís Carvalhido)

O Luís Carvalhido, membro da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra (APVG), foi soldado de transmissões da CCS do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74). É natural de (e residente em) Barcelos. Pertence à nossa tertúlia desde Abril de 2005, tendo entrado pela mão do Sousa de Castro, do mesmo batalhão (CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/74).

Foto: Jornal de Barcelos. 9 de Julho de 2003 (com a devida autorização) (1)


1. Mensagem do nosso camarada Luís Carvalhido, com data de 14 de Julho:


Assunto - Barcelos Popular, 27/06/2007, página 5

Meu caro Luís:

Na data supra referida o Director do jornal Barcelos Popular, no seu editorial, fez uma análise medonha ao comportamento dos veteranos de guerra, nas províncias ultramarinas.

Segue a resposta que amanhã lhe vou entregar em mão. Se achares de interesse, podes redestribuir.

Um abraço,
Luís Carvalhido

2. O editor do blogue mandou-lhe, entretanto, a seguinte mensagem, em resposta ao camarada Luís Carvalhido:


Luís: Não tens cópia, em suporte digital, do editorial em causa ? Fui ao sítio do jornal mas não consegui localizar o dito editorial. Eles chegaram a publicar a tua resposta ? Se sim, diz quando, em que data...

Temos que ser objectivos e imparciais, publicando os dois pontos de vista... Não gostaria que isto parecesse uma polémica local, paroquial, no contexto de Barcelos (cidade, de resto, de que eu gosto, tal como toda a região)...


Tens que me dizer o que se passou exactamente: Barcelos inaugurou um monumento aos mortos do ultramar, o jornal (que é ideologicamante mais próximo da esquerda, é isso ?) não gostou e desancou... Tu respondeste, usando o trocadilho e a ironia (director inferior / geração superior)... Enfim, para garantir o pluralismo, eu preciso da outra peça... Pode ser ? Um abraço do Luís Graça e dos co-editores, CV e VB.


3. Em 27 de Julho último, o Carvalhido eslcareceu as minhas dúvidas:


Meu caro Luís:

Para que entendas a questão: Em Barcelos criou-se uma comissão para a feitura de um monumento ao combatente, vulgo veterano de guerra.

Este Director, presumivelmente homem de esquerda, contra a qual nada tenho, malha em tudo aquilo que lhe parece espiga, caindo na tentação de misturar alhos com bogalhos. Nada disso me importa desde que os factos relatados coincidam com total verdade e imparcialidade histórica.

Em nome de coisas que assisti na Guiné, tal como vós aliás e em nome do princípio de quem não esteve lá não pode saber nem pode sentir, considerei importante vir a terreiro dar a minha humilde opinião.

Como saberás, para nós nesta causa não deve existir esquerda nem direita, mas tão sómente aquilo que cada um perdeu... aquilo que cada um sentiu... mas muito mais importante: aquilo que cada um ainda não esqueceu.

Um abraço do companheiro ao dispor, relançando daqui o apelo a qualquer um de vós que por perto passe não hesite em me contactar. Estarei sempre disponível para um abraço.

Em breve recebes tudo aquilo a que me estou a referir.

Um abraço

Luis Carvalhido

4. Nova mensagem do nosso camarada de Barcelos:


Caro Luís:

Tal como combinado sou a enviar o artigo [editorial de 27 de Junho de 2007, publicado na página 5, sob o título Guerra Colonial: o último dos monumentos] que me levou a ir ao Barcelos Popular, entregar em mão aquela resposta que te enviei. Segue, noutro email, a resposta que adequei ao Jornal de Barcelos, uma vez queo Director editorialista [do Barcelos Popular] não foi capaz de me dizer nada, ou de escrever nada daquilo que eu lá deixei.

Um abraço
Luis Carvalhido

5. Artigo de opinião enviado pelo Luís Carvalhido ao Barcelos Popular ( auto-intitulado "semanário regional, democrático e independente "):

Um Director inferior faz parecer inferior uma geração superior

Senhor director do Barcelos Popular, li o seu editorial de 27 de Junho findo [vd. imagem em anexo, em cópia digitalizada do polémico artigo]. Devagar, devagarinho, como mandam as regras, tentei entender as suas críticas, à feitura do tal monumento que classifica de várias maneiras, todas elas muito pouco abonatórias.

Naturalmente que a sua opinião face ao monumento não me incomoda muito, até porque não faço parte da Comissão Organizadora. No entanto, como homem da tal ocupação, já não posso calar-me ao ler tamanhas obscenidades, provocadas a meu ver, por uma enorme falta de conhecimentos da realidade, ou por qualquer tipo de obaudição. Naturalmente que se fosse uma pessoa qualquer, não perderia tempo com a questão mas como o senhor é um ilustre Director, de um jornal da cidade, não posso deixar de lhe perguntar algumas coisas importantes, para depois lhe poder dar outras informações mais próximas da realidade.


Que idade tinha em 1961, no início da guerra colonial? E que idade tinha em 1974, data em que a mesma acabou? Era filho de uma família rica? Que formação política tinha nessa ocasião? Naturalmente que lhe faço estas perguntas porque penso, que foi um dos que fugiu graças ao poder económico da família.

Não quero crer que seja mais um daqueles que em Abril ainda andavam com as fraldas sujas e que pouco tempo depois já arvoravam em pseudo qualquer coisa. Já agora, antes de lhe dizer o que representa o monumento, porque me parece que o senhor Director nunca terá investigado o suficiente acerca do assunto, ou então terá lido aqueles que escrevem o que o momento dita, permita-me que lhe diga que fui um SOLDADO deste país e que prestei serviço na Spinolândia de Janeiro de 1972 até Abril de 1974.

Por este tempo de aprendizagem, atrevo-me a deixar-lhe outro tipo de informações que não contêm qualquer saudosismo bolorento. Inicio esta lição, dizendo-lhe que um batalhão com cerca de seiscentos homens apenas tinha cerce de dúzia e meia de SOLDADOS do quadro. Sendo assim e se ainda se lembra da regra de três simples, pegue num milhão de homens e veja quantos são os tais que mataram sadicamente, acobertados pela cédula salazarista.

Depois, senhor Director, deixe-me dizer-lhe o que pode representar o tal hediondo monumento: ele simboliza enaltecimento ao tal milhão de oprimidos que não tinham condições económicas para fugir.

Sim, senhor Director, ou será que já se esqueceu que éramos um povo pobre e que muitos, desse tal milhão, viviam na miséria? O senhor não, de certeza, por aquilo que as suas palavras deixam entender. Ele também simboliza a perda dos melhores anos da vida de um jovem; tempo de procura e tempo de decisões.
Embora só sejam cerca de onze mil os oficialmente reconhecidos, o monumento, senhor Director, também representa aqueles que caíram, vitimados pela tal opressão e pela falta de meios de fuga. Ele representa coxos, cegos, manetas e amputados da mente, vítimas para a vida inteira de outro tipo de opressão.

E não estarão lá representadas as mulheres e os filhos daqueles a quem ofende? Não serão estas mulheres e estes filhos tão sofredores, como aqueles que aprecem em primeiro plano? E, se o senhor soubesse um pouco de nada, disto, perceberia que esse monumento também lembra, pelo menos na nossa memória, os soldados africanos que tombaram do outro lado e do nosso lado. Mas isso, senhor Director, só nós é que sabemos porque o senhor e os outros não aprenderam.

Eu sei que isto já vai longo e eu teria muito, mas mesmo muito mais, para dizer se não soubesse o quanto é difícil arranjar um cantinho de opinião no seu jornal. Eu sei, que a si, tudo isto lhe parecerá pouco e eu até o compreendo, mas espere até lhe dizer o que representa o monumento. Ele representa um milhão de mães Portuguesas que não tinham dinheiro para mandar fugir os filhos e que sabiam menos de objecções de consciência que o senhor Director e os outros politicamente instruídos.

E para não mencionar muitas outras coisas, deixe só lembrar-lhe que o monumento também representa aqueles que, a um tempo, matavam e estropiavam; no outro, abriam estradas, construíam hospitais, ensinavam a ler e a escrever Português, curavam feridas, davam vacinas e praticavam medicina.
Não queremos branquear nada, senhor Director, e tal como o senhor não desejo a guerra. O monumento também afirmará isso, mas esta é a nossa história que só peca pela falta de qualidade com que os intelectuais deste país a escrevem ou a pintam. E já agora, para terminar, deixe lembrar-lhe, que o senhor, ao chamar a Câmara para o assunto, cometeu um erro, mais um, pois devia lembrar-se que também ocupa o lugar de director de um jornal, porque existem assinantes, pelos quais não demonstrou qualquer respeito, uma vez que usou o seu poder para entrar pelas casas dentro, ofendendo muitos que nelas moram.

Envergonhemo-nos, sim: da sua pequeníssima e pobre análise à questão e da utilização medíocre que deu à página cinco do Barcelos Popular da data supra referida.

Luís Carvalhido – Guiné 1972 / 1974

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Excertos do editorial do director José Santos > Guerra colonial: o último dos monumentos


A iniciativa de construir, no concelho, um monumento de homenagem aos ex-combatentes nas antigas colónias não é nova nem tampouco inédita no nosso país.

De facto, em muitas outras terras de Portugal (…) , esta mal disfarçada intenção de branquear um passado de crime e ocupação selvagem que a todos nos devia envergonhar, tem sido intencionada omitida a pretexto de um alegado tributo aos que ingloriamente tombaram no campo de batalha (…).

Para este peditório não damos. Mesmo que por detrás do movimento barcelense se encontre gente de bem e imbuída das melhores intenções. E a Câmara – eleita em regime democrático – tem a obrigação de obstar à concretização de 8uma obra que (…) só nos envergonha.

______________
Nota de L.G.:

(1) Vd. 21 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P977: Antologia (52): A guerra que Portugal quis esquecer (Luís Carvalhido, ao Jornal de Barcelos)

Meu caro Luís.
Na data supra referida o Director do jornal Barcelos Popular, no seu editorial fez uma análise medonha ao comportamento dos veteranos de guerra, nas províncias ultramarinas.
Segue a resposta, que amanhã lhe vou entregar em mão. Se achares de interesse, podes redestribuir.

Um abraço

14/7/07

Um Director inferior, faz parecer inferior uma geração superior.

Senhor director do Barcelos Popular, li o seu editorial de 27 de Junho findo. Devagar, devagarinho como mandam as regras, tentei entender as suas críticas, à feitura do tal monumento, que classifica de várias maneiras, todas elas muito pouco abonatórias. Naturalmente que a sua opinião face ao monumento não me incomoda muito, até porque, não faço parte da Comissão organizadora, no entanto, como homem da tal ocupação, já não posso calar-me ao ler tamanhas obscenidades, provocadas a meu ver, por uma enorme falta de
conhecimentos da realidade, ou por qualquer tipo de obaudição. Naturalmente que se fosse uma pessoa qualquer, não perderia tempo com a questão mas como o senhor, é um ilustre Director, de um jornal da cidade, não posso deixar de lhe perguntar algumas coisas importantes, para depois lhe poder dar outras informações mais próximas da realidade.
Que idade tinha em 1961, no inicio da guerra colonial? E que idade tinha em 1974, data em que a mesma acabou? Era filho de uma família rica? Que formação politica tinha nessa ocasião? Naturalmente que lhe faço estas perguntas porque penso, que foi um dos que fugiu graças ao poder económico da família. Não quero crer, que seja mais um daqueles, que em Abril ainda
andavam com as fraldas sujas e que pouco tempo depois, já arvoravam em pseudo qualquer coisa. Já agora, antes de lhe dizer o que representa o monumento, porque me parece que o senhor Director nunca terá investigado o suficiente acerca do assunto, ou então terá lido aqueles que escrevem o que o momento dita, permita-me que lhe diga que fui um SOLDADO deste país e que prestei serviço na Spinolandia de Janeiro de 1972 até Abril de 1974. Por este tempo de aprendizagem, atrevo-me a deixar-lhe outro tipo de informações, que não contêm qualquer saudosismo bolorento. Inicio esta lição, dizendo-lhe que um batalhão com cerca de seiscentos homens apenas tinha cerca de dúzia e meia de SOLDADOS do quadro. Sendo assim e se ainda se lembra da regra de três simples, pegue num milhão de homens e veja quantos são os tais que mataram sadicamente, acobertados pela cédula salazarista.
Depois senhor Director deixe-me dizer-lhe o que pode representar o tal hediondo monumento: ele simboliza enaltecimento ao tal milhão de oprimidos que não tinham condições económicas para fugir. Sim senhor Director, ou será que já se esqueceu que éramos um povo pobre e que muitos, desse tal milhão, viviam na miséria? O senhor não, de certeza, por aquilo que as suas palavras deixam entender. Ele também simboliza a perda dos melhores anos da vida de
um jovem; tempo de procura e tempo de decisões. Embora só sejam cerca de onze mil os oficialmente reconhecidos, o monumento senhor Director, também representa aqueles que caíram, vitimados pela tal opressão e pela falta de meios de fuga. Ele representa coxos, cegos, manetas e amputados da mente, vitimas para a vida inteira de outro tipo de opressão. E não estarão lá representadas as mulheres e os filhos daqueles a quem ofende? Não serão
estas mulheres e estes filhos tão sofredores, como aqueles que aprecem em primeiro plano? E, se o senhor soubesse um pouco de nada, disto, perceberia que esse monumento também lembra, pelo menos na nossa memória, os soldados africanos que tombaram do outro lado e do nosso lado. Mas isso senhor Director, só nós é que sabemos porque o senhor e os outros não aprenderam.
Eu sei que isto já vai longo e eu teria muito, mas mesmo muito mais para dizer se não soubesse o quanto é difícil arranjar um cantinho de opinião no seu jornal. Eu sei, que a si, tudo isto lhe parecerá pouco e eu até o compreendo, mas espere até lhe dizer o que representa o monumento. Ele representa um milhão de mães Portuguesas que não tinham dinheiro para mandar fugir os filhos e que sabiam menos de objecções de consciência que o senhor Director e os outros politicamente instruídos. E para não mencionar muitas outras coisas, deixe só lembrar-lhe que o monumento também representa aqueles, que a um tempo, matavam e estropiavam; no outro, abriam estradas, construíam hospitais, ensinavam a ler e a escrever Português, curavam
feridas, davam vacinas e praticavam medicina. Não queremos branquear nada senhor Director, e tal como o senhor não desejo a guerra. O monumento também afirmará isso, mas esta é a nossa história, que só peca pela falta de qualidade com que os intelectuais deste país a escrevem ou a pintam. E já agora, para terminar, deixe lembrar-lhe, que o senhor, ao chamar a Câmara
para o assunto, cometeu um erro, mais um, pois devia lembrar-se que também ocupa o lugar de director de um jornal, porque existem assinantes, pelos quais não demonstrou qualquer respeito, uma vez que usou o seu poder para entrar pelas casas dentro, ofendendo muitos que nelas moram.
Envergonhemo-nos sim: da sua pequeníssima e pobre análise à questão e da utilização medíocre que deu à página cinco do Barcelos Popular da data supra referida.

Luís Carvalhido – Guiné 1972 / 1974

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Guiné 63/74 - P2056: Convívios (24): Notícias de convívios de Unidades que estiveram no TO da Guiné (Jorge Santos, Carlos Vinhal)

Para conhecimento de todos os frequentadores da nossa Página, damos notícia de convívios de Unidades que estiveram no TO da Guiné.


Companhia de Transportes 2642 (1969/1971)
No dia 25 de Agosto realiza-se o Convívio na Batalha, na Quinta de Santo Antão. A concentração é às 10h30 junto ao Mosteiro, seguindo-se missa às 11 horas pelos camaradas falecidos. Contacto: Armindo Neves 919 279 970 / E-mail: armindoneves@netcabo.pt





Companhia de Caçadores 1426 (Geba, 1965/1967
No dia 8 de Setembro realiza-se o Convívio em S. João da Ribeira (Rio Maior).
Contacto: Fernando 243 949 744





Companhia de Artilharia 2519 (1969/1971 )
No dia 8 de Setembro realiza-se o 5.º Convívio em Boleiros (Fátima).
Contacto: Henriques Martins 212 901 490




3.ª Companhia de Artilharia do Batalhão de Artilharia 6523 (1973/74)


No dia 8 de Setembro realiza-se o Convívio anual perto das Termas de S. Vicente, na Estrada entre Penafiel e Paredes.
Local de concentração junto ao Quartel da GNR, ex-Regimento de Artilharia Ligeira N.º 5, às 10 horas


Companhia de Caçadores 4541 (Caboxanque, 1972/1974)
4541
No dia 22 de Setembro realiza-se o 7.º Convívio na zona da Gafanha da Nazaré. Contacto: Guilhermino 914 679 51


Companhia de Polícia Militar 590 (1963/1965 )

No dia 23 de Setembro realiza-se o Convívio em Pombal.
Contacto: Domingos 212 740 744


Companhia de Caçadores 763 (Cufar, 1965/1966)

No dia 23 de Setembro realiza-se o Convívio em Ameirim.
Contacto: Albuquerque 214 684 787 – 914 908 920


Companhia de Artilharia 2714 (Mansambo, 1970/1972
No dia 29 de Setembro realiza-se o Convívio em Fátima.
Contacto: Mário 969 069 348


2.ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4612/72 (Jugudul, 1972/1974
No dia 29 de Setembro realiza-se o Convívio no Fundão.
Contacto: Barata Ascensão 275 951 743 / Santos Costa 966 042 248



Companhia de Caçadores 4540/72 (Cabo Xanque, 1972/1974
No dia 6 de Outubro realiza-se o 4.º Convívio no “Complexo Turístico D. Nuno”, na Estrada Minde-Boleiros-Fátima.
Contacto: Virgílio Carvalho 249 831 228 – 969 619 102



3.ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4612/72 (Mansoa, 1972/1974
No dia 13 de Outubro realiza-se o 18.º Convívio em Foros de Almada (Infantado).
Contacto: Alberto Melo 969 690 551 - Jorge Canhão 912 748 556 /mail: jorgea.ferreira@netcabo.pt



Batalhão de Cavalaria 1905 (CCS/CCav 1649/1650/1651)
(Guiné 1967/1968)
No dia 20 de Outubro realiza-se o 9.º Convívio em Celeiro – Reguengo do Fétal, no restaurante “Pérola do Fetal”, junto à EN 356 (entre Fátima e a Batalha). Contacto: António Paulo 917 416 460 – 243 329 924 – scalabis44@yahoo.co.uk

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Nota dos editores:

O Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné,agradece a preciosa colaboração do nosso companheiro Jorge Santos , que nos forneceu os elementos indispensáveis para a elaboração deste Post com notícias de convívios de Unidades que estiveram no TO da Guiné.

Guiné 63/74 - P2055: Estórias de Mansambo (Torcato Mendonça) (7): Eleições à vista...

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Mansambo > Candamã > CART 2339> 1968 > O Alf Mil Torcato Mendonça

Texto e foto: © Torcato Mendonça (2007). Direitos reservados.

1. Mensagem do Torcato Mendonça;:
Caro Luis. Julgava-te de férias. Porventura estás e o post do Poilão foi inserido por algum dos nossos Camaradas Co- Editores. Pelo sim pelo não espalhei os endereços. Vão navegando ciber espaço fora e levem a carta, não a Garcia… mas ao Luis, ao Virgínio, ao Carlos ou a quem a apanhar.

Efectivamente estas árvores tinham um significado especial para os guineenses. Qual? Não me lembro, mas envidarei esforços a sua procura!

Porque escrevo?! Porque os poilões abrigavam gentes, protegiam-nas, tinham eventualmente algo de sagrado e, isso afirmo e relato no texto que te envio, recebiam nos seus braços ou ramos as descargas da fúria dos Céus. Se tiveres tempo passa os olhos… digo-te, caro amigo, nunca tinha ouvido tamanho urro nesse encontro e nessa explosão de afectos. Nunca mais montei, em vida minha, um fornilho.Nem montarei…fornilhos, off course … o resto, bem.

Este texto está nas Estórias do José... Aquele abraço forte a um ou aos três e que em trovoadas tenham sempre um poilão, ou algo semelhante, a proteger – vos.

Um abraço,

2. Estórias de Mansambo (7) > Eleições à vista, por Torcato Mendonça (Subtítulos do editor L.G.)


Com Setembro [de 1969 já bem lançado, sentia-se no ar um sentimento, um olhar diferente, um novo tema nas conversas, quiçá uma nova ou novas preocupações. Estávamos já no vigésimo mês de comissão. Fim quase á vista.

Recebi a ordem e não a esperava. As ordens cumprem-se. Os apetites, os nossos desejos, as nossas vontades, pouco ou nada têm a ver com as ordens recebidas. São-nos transmitidas, aceitamos e iremos, depois, transmiti-las a outros. Foi o que fiz. Reuni com o Grupo e disse:
-Amanhã vamos para Candamã. Preparem-se para estar, lá e em Afiá, cerca de um mês, ou acontece o mesmo da última vez que lá estivemos.

Na última vez, que para lá tínhamos ido, disseram-nos ser por poucos dias. Estivemos quase um mês. Foi demasiado duro. Falta de mantimentos, de roupa, de tudo que nos desse o mínimo de condições de vida. Ainda por cima estávamos em plena época de chuvas. Três breves episódios dessa estadia:

Salada de beldroegas, pu erva roubadas aos cabritos


A falta de tabaco e de tudo, levou-nos a quebrar regras. Um caçador de confiança e devidamente instruído, levou um bilhete ao Capitão Jerónimo, da 2405, em Galomaro. Dois dias depois aí estava ele, de volta, com tabaco L M e outros artigos. Festa e partilha do material recebido.

O Manuel, alentejano de Odemira, descobriu na pastagem dos cabritos uma erva parecida a beldroegas. Apanhou e veio mostrar-me. Os meus conhecimentos de botânica eram insuficientes. Reuniram-se dois ou três entendidos e sentenciaram:
- São beldroegas, pelo aspecto e sabor.

Perante isto declarei que os cabritos se lixassem e as ditas fossem em salada transformadas. Ao princípio eram três ou quatro a consumir o petisco. Depois, se não eram todos…lastimo. Salada para vários dias. Até que o vegetal se finou, os cabritos já tinham ficado sem pastagem naquela zona e, agora nós sem a deliciosa salada.


Spínola e o moral das tropas


Uma manhã sente-se o som de um helicóptero. A confusão habitual, ordens de: monta segurança, veste roupa que é o Spínola… depressa aterrou o aparelho… efectivamente, era o General e o séquito habitual.

Apresentei-me, calçado com botas sem meias, calções que tinham sido calças cubanas, T-shirt outrora branca e um quico regulamentar. Haja Deus. Ao menos o quico. Acompanhavam-me militares com fardamentos, cabelos e barbas a precisar de melhor atavio e tratamento. O Comandante – Chefe conhecia a malta do mato…conversa breve… devíamos ter ficado cá uma semana e já lá vai quase um mês… Bateu com o pengalim na bota, olhou para o major Bruno, fixou-me e disse: - O moral é baixo? Eu respondi: <- Não é o moral, meu general, é o estômago, a roupa e mais algumas coisas. Ele olhou-me, através do vidro do olho direito e pestanejou com o outro. Aí vem bronca, pensei eu. Nada disso. Lançou brevíssima prelecção e despediu-se. Horas depois novo reboliço: aí vem ele…aí vem ele… mas era só o heli, com piloto e mecânico. Traziam umas caixas com os cumprimentos do Com-Chefe. Bolachas, conservas, colas e fantas. A acompanhar dois objectos especiais – uma garrafa de uísque e uma caixa de barbeiro. Dividimos e, nesse dia ou no outro, o quinhão que pertencia á malta de Afiá lá chegou. Talvez, três dias depois fomos rendidos. Por isso desta vez, quem vai para o mar avia-se em terra, íamos devidamente preparados e até com determinado material. Chamemos-lhe de sapador.


Um festival de fogo de artifício

Uma vez chegados a Candamã e Afiá, fizemos uma exaustiva inspecção á defesa. Tinham havido ataques fortes, principalmente em 30 de Julho a Candamã. Isso originou, posteriormente, operações com êxito na destruição da base IN, pelos Paras do COP 7 e militares da 2339,CCaç 12, Pel Caç. Nativos.

Reforçamos pois a defesa. Na última vez, que lá estivemos, utilizamos e, deram bom resultado a repelir o IN aquando dos ataques, granadas iluminantes de morteiro 60. Singelo contributo aos heróis do 1º Grupo da 2339, que sustiveram os ataques.

Desta vez resolvemos montar seis fornilhos de disparo eléctrico, dispostos em leque, virados para a hipotética zona, de onde vinham os ataques. O material fora o trazido de Mansambo. Avisámos a população: toda aquela zona junto ao arame farpado, acrescentámos outras para disfarçar, está minada. Perigo relativo mas…

Talvez, na segunda semana de Outubro, recebi uma mensagem da Companhia. Dia, talvez 10 ou 11, soldados…. indicava quais… abandonam esse e serão rendidos por igual número idos deste. Motivo: participação na votação para as eleições a 13 do corrente...

Ainda me perguntaram porque não ia (só votei em 25 de Abril de 75) e o que haviam de fazer… votem, bebam uns copos em Bafatá e etc…

Chegado o dia, vieram uns e foram os votantes. Creio que no dia seguinte, estávamos em época de chuvas, levantou-se tremenda tempestade. Chuva, trovoada a merecer abrigo rápido. Fui para a tabanca dos géneros, enfermaria e mais o que fosse preciso. Estávamos a conversar, de repente ouviu-se um estrondo enorme. Parecia que o céu desabava e a terra abanava. Seguem-se sons menores e o grito – ataque. Fuga para valas e abrigos, ligeira confusão, gritos, dois ou três militares caídos no chão junto á árvore grande. Ao longe, correndo na nossa direcção, a gritar, vinha o furriel Rei e outros. Mau. Alto e para o ataque.

Que tinha acontecido? Uma descarga eléctrica, enviada pelo S. Pedro, bate na árvore – que protegia a cozinha, posto de sentinela, o meu refeitório e escritório, etc – faz ricochete, ou gera um campo eléctrico, destrói a antena horizontal do rádio, desce e, depois de o queimar, vai pelos fios accionando, em simultâneo, os seis fornilhos. Por isso aquele tremendo barulho. No abrigo só estavam granadas de RPG2 e outras munições não eléctricas. As da Bazuca 8,9 estavam noutro abrigo ou em Afiá. Sorte a nossa.


Ferragudo, o ladrão cded chispes de porco holandês


Mas o pior estava para vir. Tínhamos três homens meios grogues. Dois, depois de ligeiro tratamento, recuperaram. Havia, no entanto, um que estava meio desmaiado. Era o Ferragudo, cozinheiro na tropa, pescador no porto de Portimão. Felizmente tínhamos um homem, o Barros, habituado a desmaios daquele género. Rápido, depois de abanar o Ferragudo, pediu:
- Tragam o azeite e uma colher.

Aparece o azeite e o Barros despeja, três ou quatro colheres do dito, goela abaixo do Ferragudo. Este estrebucha, joga as mãos á garganta, revira os olhos e urra. Pede ajuda o Barros. Levantam o doente. É prontamente agarrado, apertado e sacudido pela cintura. De repente dá-se o milagre. Vomita desalmadamente o cozinheiro glutão. Talvez dois ou mais chispes de porco holandês. Pancada nas costas, água goela abaixo e dá-se a recuperação. Eu assistia. meio incrédulo, a toda aquela cena.

O Ferragudo, ainda meio atordoado olhava-me. Apesar da vontade de rir, olhei para ele e disse:
- És um ladrão, roubas com a tua gula os teus camaradas, vai haver porrada, desaparece, só voltas próximo do jantar. Não há feijão com chispe. É indigesto ou não é, algarvio da porra?

Foi-se o cozinheiro pescador, ou vice-versa. Porrada não houve. Nenhum militar teve qualquer castigo, posto na caderneta, devido a castigo por mim dado.

Rimos e gozámos durante uns dias. Distracções singelas. Viver naquelas condições era difícil. Á noite nos abrigos, por debaixo, do que nos servia de leito, se não tínhamos cuidado as rãs cantavam o seu Sole Mio, a água caía ora nos pés, ora noutro lado. Dormia-se…o tempo passava lentamente… e o Império esfarelava-se!

Saímos de Candamã a 24 de Outubro [de 1969 ] e não mais voltámos. Apesar das más condições, principalmente na época de chuvas, recordo aquela gente com saudade.
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Notas de L.G.:

(1) Vd. posts anteriores:

14 de Março de 2007> Guiné 63/74 - P1594: Estórias de Mansambo (Torcato Mendonça, CART 2339) (1): A dança dos capitães

16 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1666: Estórias de Mansambo (Torcato Mendonça, CART 2339) (2/3): O Zé e o postal da tropa

25 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1785: Estórias de Mansambo (Torcato Mendonça, CART 239) (4): Burontoni, mito ou realidade ?

27 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1892: Estórias de Mansambo (Torcato Mendonça, CART 2339) (5): O Casadinho e o Bessa, os mortos do meu Gr Comb, os meus mortos

7 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1929: Estórias de Mansambo (6): Matilde

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Guiné 63/74 - P2054: Macaréus (José Martins / Carlos Vinhal)

José Martins , ex-Fur Mil Trms, CCAÇ 5, 1968/70 (Canjadude)

Caros Tertulianos:

Tem este pequeno apontamento a missão de levar até vós o conteúdo de uma mensagem do nosso mui estimado camarada José Martins.

Em mensagem dirigida a Luís Graça, Carlos Vinhal, Virgínio Briote, Mário Beja Santos e Joaquim Mexia Alves, dizia José Martins em 26 de Julho passado:

Boa tarde, quase noite, camaradas:

Não podia deixar de manifestar a alegria pela notícia da breve publicação do livro do Mário Beja Santos, dado à luz no nosso blogue.

Vamos fazer festa, necessariamente. O Mário está de parabéns.

Para o Mexia Alves, também lhe quero expressar a minha alegria e amizade. Não comandei um Pelotão de Caçadores Nativos, mas comandei uma Secção de uma Companhia Nativa, um pouco maior, mas também formada por homens que ainda hoje dizem que, por terem jurado a BANDEIRA DO PORTUGUÊS, não podem jurar outra bandeira.

Para os nossos editores o agradecimento, sempre pequeno e nunca esgotado, pelo esforço diário dispendido.

Em anexo quero deixar a todos, a passagem dum relato de viagem que é neste momento a minha leitura de fim de tarde/principio da noite.


Um abraço para todos do

José Martins

CCAÇ 5 /1968/1970

PS - A quem possa interessar!

Fiz hoje entrega, na Biblioteca do Estado Maior do Exército, de um conjunto de jornais de unidade - O RONCO - editado no Centro de Instrução Militar em Bolama, contendo os números de finais de 1969 a meados de 1971.Deixam de estar na minha posse e passam para o património comum, a fim de poderem ser consultados.
_________________

Nota do co-editor CV:

Vou transcrever o capítulo 9 da página 107 (página apresentada na imagem), do livro As viagens do Bispo D. Frei Vitoriano Portuense à Guiné, de Avelino Teixeira da Mota, Publicações Alfa (com a devida vénia), porque tem uma curiosidade acerca do macaréu.

9 - No domingo seguinte, 4 de Abril (1694), que foi Domingo de Ramos, feitas as cerimónias da igreja, acabámos a visita desta ilha, e na maré da tarde nos partimos para a povoação da Geba, e dois filhinhos do rei, que não tinham sete anos de idade, se vieram connosco para a chalupa e foram em nossa companhia.

Tivemos desde Bissau para Geba uma feliz viagem, sem embargo de ser aquele rio um dos mais perigosos que se navegam por aquelas partes, onde, durando o vazante da maré nove horas, à enchente dura somente três, causa por que as águas vivas padecem facilmante naufrágio as lanchas dos grumetes descuidados, pela grande violência e repentina pressa com que entram as águas pelo rio acima, e a esta apressada inundação chamam os naturais bacaréus.

(1) Na mesma página, em nota de rodapé pode ler-se:

(1) - Macaréu é o termo correcto. É acertada a observação sobre a duração dos períodos de vazante e de enchente.

Guiné 63/74 - P2053: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (7): o pelotão dos bravos na Ilha de Jete

1. Mensagem do Raul Albino, ex-Alf Mil, da CCAÇ 2402

Caro Luís e editores,


Aqui vai o texto nº 7 das Memórias de Campanha da CCAÇ 2402 (1). Por acaso, não pensava enviar este episódio, mas como o Luís me pediu no último mail que me enviou, que relatasse alguma coisa sobre o destacamento na Ilha de Jete, faço-lhe hoje a vontade.

Um abraço a toda a equipa,

Raul Albino


Destacamento na Ilha de Jete



1º Pelotão no destacamento da Ilha de Jete

No dia 24 de Setembro de 1968, seguiu o primeiro Grupo de Combate reforçado com alguns elementos dos outros grupos, a ocupar a Ilha de Jete, comandado pelo Alferes Brito, com a missão de montar instalações para as tropas e captar a população da área através de assistência directa às gentes nativas e contactos com os seus chefes.
Esta decisão estratégica de destacar este grupo para Jete reduziu substancialmente a capacidade operacional da restante companhia sediada em Có, sobrecarregando os restantes grupos com as actividades militares atribuídas à Companhia. Este enfraquecimento da defesa de Có poderia ter causado sérios reveses às nossas tropas, como o demonstra o segundo ataque ao quartel de Có, um dos mais violentos de toda a nossa campanha na Guiné, que só por sorte não teve consequências mais dramáticas (Ver 2º Ataque a Có em 12/10/68). Estes militares de ocupação da Ilha de Jete, voltariam a Có no dia 1 de Dezembro de 1968, com a sua missão cumprida.


À esquerda, o Nelinho com os galões de alferes e o furriel Bragança
Fotos e legendas: © Raul Albino (2007). Direitos reservados.


O nosso soldado Manuel Vicente Fernandes, mais conhecido por Nelinho, cedeu-nos algumas fotografias do tempo em que por lá permaneceu. Numa delas o Nelinho apresenta-se com os galões de alferes, pedidos ao Alf Brito para tirar a fotografia, fazendo a família pensar que ele tinha sido promovido. Brincadeiras inofensivas ... Escreveu o Nelinho juntamente com as fotografias que enviou à família:
“Ofereço à Minha Querida Mãe para ver nos estados em que a gente se encontra a dormir, pois como está a ver, é nessa barraca que aí vê onde nós dormimos quatro e a nossa miséria é essa que se vê. Adeus.”


Depoimentos de quem lá esteve

Os depoimentos que se seguem, mantiveram o texto original, só corrigidos alguns erros gráficos essenciais. Preferi assim, para manter a maneira de se expressar dos autores, mesmo à custa de alguma forma de expressão menos perfeita.

Texto da autoria de José Manuel Ferreira:

O dia mais inesquecível, não sei a data, foi na véspera de ir para a Ilha de Jete em que o Capitão Vargas Cardoso me informou que no dia seguinte ia para a tal ilha. Eu não tinha roupa, pois tinha dado a lavar à minha lavadeira de nome Amália. Então não estive com meias medidas, saí pela porta de armas sozinho, sem imaginar o perigo que corria desarmado, pedi ao militar para me deixar sair e saí sem dar conhecimento ao nosso capitão. Fui à procura da casa da Amália no meio das tabancas e da população nativa para trazer a roupa. Só depois de entrar no quartel é que reflecti no tremendo disparate que tinha acabado de fazer. O então capitão nunca chegou a saber. Acabei felizmente por não ser capturado pelos turras, mas não escapava de uma porrada.

José Manuel Ferreira

Texto da autoria de António Fangueiro da Silva, mais conhecido por Silva Condutor:

O primeiro pelotão foi destacado para a Ilha de Jete com mais alguns elementos de outros pelotões, ao todo eram trinta e seis homens. Esta ilha tinha poucos habitantes e era a base da raça Papel que eram pescadores e da raça Fula. Aí não havia guerra, mas construímos uma base com abrigos, utilizando como materiais as palmeiras, terra e muita força dos nossos delgados braços, um traçador de serrar e um machado que era manobrado por todos. No pelotão tínhamos o lenhador, o soldado Paiva, que tinha uma força fora do comum. Os abrigos foram feitos para todas as secções e comando, mas enquanto estes não se encontravam prontos, dormíamos em tendas de oito pessoas e colchões pneumáticos. O Alferes Brito, que era o comandante do destacamento, recebeu ordem para ir à outra ilha para trazer a população que quisesse vir para a nossa. Íamos ao porto que era uma parte da ilha que tínhamos armadilhado com granadas para o inimigo não entrar, no entanto, tivemos de retirar as armadilhas para podermos ir à outra ilha a pé aproveitando a maré baixa. Como entretanto eu disse que a maré demorava seis horas a vazar e seis horas a encher, ficando nós durante esse período à mercê do inimigo, ele pensou então melhor e não fomos, tendo assim de armadilhar o porto outra vez. O nosso sistema de comunicação era por meio de rádio, sendo a energia fornecida por um gerador Manual que era da guerra de 1914, tendo de dar à manivela para gerar corrente. Quando a malta precisava do rádio, normalmente os acumuladores estavam em baixo e dávamos à manivela e nada, ninguém respondia do comando da ilha que pertencia a Teixeira Pinto. Numa das vezes que não tínhamos rádio, o barco que nos trazia os mantimentos também avariou e não veio durante oito dias, não tendo nós de comer e beber. Esta falta de contacto levou o Alferes Brito a ter receio de importunar o comando. Este acontecimento levou a que eu tivesse uma chatice com o Alferes, dizendo-lhe que tinha de fazer rádios, assim não dava, pois estávamos a passar mal, ao ponto dos nossos lábios com sede se assemelharem aos dos pretos, todos inchados e gretados. Ele entendeu e disse ao Vito para fazer os rádios, mas eles não respondiam. Em Có ouviram o rádio, tendo o Capitão Vargas mandado o padeiro fazer trinta e seis pães e, como estava lá uma avioneta, o capitão pediu para eles nos mandarem dessa forma. Quando a avioneta pairou no ar, lançou os sacos que pareciam sacos de correio, mas o nosso desejo era que fosse pão. Quando os sacos se aproximaram vimos que eram maiores que os sacos de correio e exclamámos que era pão e fomos todos a correr, de forma a cada um ser o primeiro, não aguentando mais a fome. Viemos então embora para Teixeira Pinto e tivemos de receber cuidados médicos. Nesta ilha havia um negro que era cabo e mandava na população, ele tinha dezasseis mulheres, tendo eu curiosidade de saber como era a vida dele, disse-me que ficava uma semana com cada uma. Depois disse-me que ia falar com o Alferes, pois os soldados andavam com as suas mulheres, respondi-lhe que de nada adiantava, corria o risco de algum soldado lhe bater, decidiu então nada dizer.

Silva Condutor

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Nota dos editores:

(1) Vd. post anteriores:

15 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1282: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (1): duas baixas de vulto, Beja Santos e Medeiros Ferreira

6 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1343: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (2): O primeiro ataque ao quartel de Có, os primeiros revezes do IN

12 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1516: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (3): Combatentes, trolhas e formigas bagabaga

13 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1658: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (4): Uma emboscada em Catora e um Lobo Mau pouco predador

28 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1790: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (5): Protecção a uma coluna logística Bula/Có

31 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P2016 : História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (6) : O grande ataque a , em 12 de Outubro de 1968

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Guiné 63/74 - P2052: Cusa di nos terra (5): Susana, Chão Felupe - Parte I (Luís Fonseca)

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Varela > Iale > 2004 > Festa da saída da Cerimónia de Circuncisão (fanado, em crioulo) da etnia Felupe em Iale.



Conforme o prometido, aqui está o novo trabalho do nosso camarada Luís Fonseca, ex-Fur Mil de Transmissões (CCAV 3366/BCAV 3846, Suzana e Varela), sobre os Felupes e seus costumes.

Meu caro Luis Graça:

Depois do que li na mensagem recebida, devo dizer que me foi atribuída uma missão de enorme responsabilidade.

As notas tomadas ao longo de um período de tempo, cerca de dois anos, não poderão comparar-se com o conhecimento de alguém que sentiu e viveu o pulsar daquelas gentes. Refiro-me com todo o respeito e admiração ao Dr. Artur Augusto da Silva [, pai do nosso amigo Pepito].

Já agora vou tentar obter o livro Usos e costumes jurídicos dos Felupes da Guiné, da sua autoria. Certamente que, com a sua leitura, os meus parcos conhecimentos ficarão deveras enriquecidos, podendo igualmente desfazer algumas das minhas (ainda muitas) dúvidas.

Mas uma vez que fui eu quem abriu o jogo e não renegando as dificuldades, tentarei que algo de proveitoso possa merecer a vossa atenção.

E agora, se autorizado, vamos ao que aqui me trouxe: CHÃO FELUPE.





Guiné> Chão Felupe> Padrão

Não sei se o Pepito sabe, também, da existência de um marco que refere o local da primeira (?) casa felupe. Situa-se no caminho entre Suzana e o chamado porto novo (Rio Defename) onde embarcavam e desembarcavam as NT, depois de abandonado o porto velho por apresentar grandes dificuldades, no canal, com as marés.

Deixem-me dar nota que, quando soube do destino da minha unidade, ainda nas Transmissões (QG) onde passei alguns dias, me foi dito que a zona era relativamente calma mas com uma população meio esquisita. Mais ponto menos ponto o que o Carlos Fortunato transmite nas suas postagens.

O tempo viria a desmentir algumas, confirmar outras e acrescentar mais umas quantas.

É evidente que para um pira com penugem rala num mundo que não era o seu, com aquelas informações os receios aumentaram. De um IN atrás de cada árvore, passei a ter um IN mais um Felupe, não sabendo qual o que representaria maior perigo.

Tal deixaria de ocorrer passado algum tempo após a chegada a Suzana.

A minha primeira impressão foi a de ter chegado a um local que não fazia a mínima ideia de ainda existir, Bissau embora uma cidade pequena, tinha os seus subúrbios onde se deparavam algumas cenas pouco ortodoxas, na visão de um europeu. Todavia o que se me oferecia ver ultrapassava tudo o que seria expectável. Indumentária (?), dialecto (?,) homens com arco e flecha (?) os camaradas da 2538 (do capitão Rey Vilar, na altura já do Alf Mil Borlido) tinham inteira razão em terem adoptado "Os Alterados" como nome de guerra.

Uma das nossas grandes dificuldades era a língua, pois era sempre necessário um interprete, com os inconvenientes de uma tradução para creoulo e depois para português.

O dialecto Felupe, que acabou por dar ao povo que o fala o seu nome, é um dos dialectos djola falado na Guiné, sendo o outro o bayote, o djola é uma das vinte e quatro línguas diferentes faladas entre o rio Gâmbia e o baixo Casamance, integradas segundo creio no grupo guineo-senegalês.

Mas algo saltava à vista, mais notório depois do período de sobreposição que terminou a 31 de Maio de 1971.




Guiné> Chão Felupe> Vencedor de uma luta

Para os Felupes havia duas guerras.

Uma com os senegaleses que insistiam em roubar vinho de cobiçar as badjudas.

A outra com qualquer intromissão no seu conceito de território fosse de quem fosse.

As NT serviam de polícia de uma fronteira que para eles nunca existiu, nunca se importando com a assinatura do Tratado de Berlim (1886), que politicamente os dividiu. Os trilhos existiam, as trocas comerciais faziam-se, existiam famílias que, dentro do espirito felupe, trabalhavam terras do lado de lá quando era necessário e as suas próprias butondas (bolanhas) na Guiné.

Aliás o arroz era a base da sua alimentação em face das condições propiciadas pelos terrenos alagadiços.

A nossa zona de acção (Suzana) estendia-se desde Colage até Varela, delimitada a Norte pela fronteira com o Senegal e a Sul pelo rio Cacheu, prolongando-se ambas, como é óbvio, até ao Atlântico.

Nesta área encontravam-se cerca de 20 povoações ou pequenos núcleos, alguns com menos de meia dúzia de moranças. Suzana, (nome de mulher) a mais populosa e sede da CCAV, Arame, Bugim, Ejatem, Cassolol, Cassolol Catétia, Cassolol Indiame, Caroai, Basseor, Sucujaque, Catões (Butame, Joninque, Cassica e Calenquim), Igim, Jufunco, Ossor, Bolor, Lala, Elia e Varela.

Pena que na excelente colecção de mapas, não exista o relativo à foz do Cacheu, abrangendo a Ponta de Jufunco e a Ponta de Bolor, e que englobaria alguns dos núcleos populacionais atrás referidos.

Organicamente a CCAV 3366, cedeu um GC para Antotinha (Ingoré) e outro para S. Domingos, quando esta povoação passou a ser considerada um alvo preferencial, face à sua localização na área de penetração para o chão manjaco (corredor de Campada), restando dois GC, um para Varela e outro para Suzana, que recebeu um reforço precioso em termos militares, o Pelotão 60 (Pel Caç Nat 60), constituído por elementos de etnia Felupe e que serviu para consolidar uma excelente relação com a população.

Roncos nos primeiros meses, apenas uma flagelação, 14 de Agosto, um óptimo sinal.

Aliás na mesma altura de rotação das NT, também o PAIGC fez rodar os seus homens na zona de M'Pack, Oussouye e Ziguinchor.

E por ora não me alongo mais. Da próxima, espero dizer algo sobre as suas crenças e a sua forma de trabalho.

Texto e fotos:
Luis Fonseca
(ex-Fur Mil Tms CCAV 3366)
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Notas dos editores

(1) Vd. post de 10 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1939: Susana, região de Cacheu: fantasmas do passado (Pepito)

(2) Vd. post de 24 Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCL: Preocupação com a situação humanitária em Susana e Varela (região do Cacheu) (Luís Graça)

(3) Vd. post de 11 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri (Luís Graça)

(4) Vd. a excelente página do Carlos Fortunato, que lidou com balantas e felupes > Guiné - Os Leões Negros > CCAÇ 13 > Bolama > Felupes

(...) "Adversários temíveis, os felupes possuem elevada estatura e grande robustez física. São referidos como praticantes do canibalismo no passado, são coleccionadores de cabeças dos seus inimigos que guardam ou entregam ao feiticeiro, e usam com extraordinária perícia arcos com setas envenenadas."Embora se assegure que o canibalismo pertence ao passado, não era essa a opinião das restantes etnias, as quais referem igualmente que estes fazem os seus funerais à meia noite, pendurando caveiras nas copas das arvores, e dançando debaixo delas. O felupe é conhecido como pouco hospitaleiro para com as restantes etnias, pelo que existe da parte destas um misto de animosidade e desconhecimento."Os felupes são igualmente grandes lutadores, fazendo da luta a sua paixão. Este desporto tão vulgarizado nesta etnia, prende-o, empolga-o, constituindo o mais desejado espectáculo" (...)

(5) vd. post de 11 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1942: Susana, chão Felupe (Luís Fonseca, CCAV 3366, 71/73)

Guiné 63/74 - P2051: Os pára-quedistas no mítico Cantanhez: Operação Tigre Poderoso (II parte) (Victor Tavares, CCP 121 / BCP 12)

Segunda e última parte do texto enviado em 2 de Julho de 2007 pelo nosso camarada Victor Tavares (ex-1º Cabo Pára-quedista, CCP 121/BCP 12, Brá, 1972/74). Fixação do texto e subtítulos, da responsabilidade do editor L.G.

Cantanhez > Operação Grande Empresa (Comando Chefe) / Operação Tigre Poderoso (BCP 12) > De 12 Dezembro de 1972 a 19 de Janeiro de 1973. Continuação (1)


14 de Dezemro de 1972

Patrulhamento feito pelo 2º Pelotão sem qualquer tipo de incidente. No entanto, detectámos trilhos recentes de passagem de canhão sem recuo com rodas. Seguindo o rasto, este veio a desaparecer junto ao local onde atravessaram o rio.

Também passámos por um Tabancal escondido debaixo de um arvoredo imenso, o que tornava aquela zona escura. Ali não entrava o mais pequeno raio de sol, era arrepiante aquele local. Passámos revista a todas as Tabancas e a alguns abrigos, encontrando alguns invólucros de granadas de canhão sem recuo. Também aqui encontrámos dois idosos e uma mulher mais nova e que foram interrogados pelos nossos intérpretes. Como era habitual, nada diziam.

16 de Dezembro de 1972: abatado um guerrilheiro

O 1º Bigrupo de combate da CCP 121 do qual eu fazia parte , foi emboscado por um grupo de guerrilheiros do PAIGC que se estimava em cerca de 15 elementos e que estavam fortemente armados e muito bem posicionados. Felizmente tivemos sorte de não termos sido atingidos pelos primeiros tiros e rebentamentos. Reagimos de forma eficaz ao fogo inimigo que perante a nossa reacção se pôs em debandada deixando no terreno um dos seus elementos já sem vida e várias armas ligeiras, 1 kalachnikov, 1 PPSH e 1 Simonov e granadas de RPG 2 e RPG 7, estas já com as cargas propulsoras enroscadas, preparadas para serem disparadas naquele ataque, o que não veio a acontecer derivada a eficácia do nosso fogo.


18 de Dezembr de 1972. abatido um apontador de Degtyarev pesada

Patrulhamento de Cadique até às Caxambas Balantas e regresso. Nesta última localidade aonde havia bastantes Tabancas [moranças], depois de se passar revista às palhotas e quando já nos encontrávamos todos fora da zona do aldeamento, tivemos contacto de fogo com um grupo do PAIGC que se encontrava emboscado criando uma zona de morte para quem seguisse a picada. Só que nós, ao abandonarmos o local revistado, fizemo-lo a corta mato o que lhes dificultou de certa forma a manobra de acção.

Este grupo estimava-se entre 8 a 10 guerrilheiros, dos quais abatemos o apontador de 1 Degtyarev Pesada com prato superior. As nossas forças não tiveram qualquer problema embora o contacto durasse vários minutos e o inimigo possuisse um bom apoio bélico (as armas capturadas Degtyarev pesada, 1 PPSH ou costureirinha, e uma de repetição, além de várias granadas de RPG2).


19 de Dezembro de 1972: apanga, em emboscada, uma enfermeria armada com uma Kalash

Mais um patrulhamento - era o prato do dia -, desta vez na direcção de Cadique Yalla, manhã cedo. Estávamos a andar seguindo por uma picada já há muito tempo que não era utilizada, chegámos então a outra que seguia na perpendicular àquela que seguíamos.

Esta era a velha estrada que dava para Jamberem e que viria mais tarde a ser aberta e alcatroada entre Cadqieu e o lugar atrás referido. Passada esta, seguimos a corta mato em direcção a uma bolanha. Nesse percurso passámos por um aldeamento já há muito desabitado: as Tabancas, cerca de meia dúzia, estavam todas em ruínas; nas imediações destas existiam vários Mangueiros e Cajueiros assim como bastantes Bananeiras.

Aqui estacionámos por alguns minutos, num canto do velho aldeamento, talvez local de alguma horta, com meia dúzia de pés de piri-piri que pareciam plantas ornamentais, carregados com o seu fruto de várias cores e com uma imponência de cerca de um metro a metro e meio de altura, Fizemos uma monda rápida aà malaguetas que não eram muito grandes mas que deu para encher os dois bolsos laterais das calças, que não eram nada pequenos .

Entretanto seguimos o rumo previsto para passado algum tempo chegarmos a uma picada que tomámos e nos levou até junto da orla da mata. Era bastante utilizada, atravessava uma Bolanha de grande dimensão, com 500 a 600 metros de largura.

Não arriscámos a travessia da mesma por se tornar perigoso, continuámos a marcha, agora a corta mato, a uma distância de alguns metros da picada. A mata nesta zona era semiaberta, de fácil progressão. Andados mais ou menos 1000 metros, a Bolanha era mais estreita naquele lugar e continuava a alargar logo de seguida, Foi então aqui que atravessámos para o outro lado da Bolanha.

Aí, já era Cadique Yalla. Até aqui tudo tinha corrido dentro da normalidade, a mata deste lado não tinha nada a ver com a de onde tínhamos acabado de sair, era mais fechada e com árvores de grande porte.

Fomos também chamados a atenção para nos deslocarmos com redobrados cuidados, havia informações de movimentos de guerrilheiros e a possibilidade de existirem um grupo de mulheres armadas, isso veio a confirmar-se num pequeno contacto que tivemos passado pouco tempo depois de entrarmos na mata densa que antecedia um pequeno Tabancal quase na orla da mata e que não se referenciava a mais de 20 a 30 metros.

Foi aqui que, deslocando-nos a corta mato nos apercebemos das Tabancas. Avançando para as mesmas com rapidez, tomámos de assalto esta pequena povoação sem qualquer reacção armada por parte dos presentes.

Feita revista às habitações, encontrámos varias peças de fardamento e munições de armas ligeiras. Interrogadas as pessoas ali presentes, nada adiantaram para justificarem a presença das munições.

Partindo deste local, seguimos novamente a corta mato, agora abandonando a orla da mata e progredindo mais no seu interior durante mais de uma hora, acabámos por chegar a uma picada bastante batida, onde montámos uma emboscada.

Passado algumas duas dezenas de minutos eis que se começa a ouvir vozes várias que se iam aproximando e que entram na zona de morte: eram 4 mulheres já de idade avançada umas com balaios à cabeça, outras com eles debaixo do braço e dois garotos. Atrás destas seguia uma mulher de cerca de 30 anos com um pano sobre o ombro direito que cobria uma arma. É então dada ordem através de sinais para tentar capturar a mulher armada de surpresa, evitando fazer fogo. Foi o que veio a acontecer.

Quando as primeiras mulheres se encontravam já perto do final da zona emboscada e verificando que estas não eram seguidas por Guerrilheiros, avançaram rapidamente 4 ou 5 Pára-quedistas em direcção À picada, não havendo hipóteses de reacção da mulher armada, que não esboçou qualquer movimento, sendo desarmada sem problema. Transportava uma Kalashnikov e 3 carregadores.


Tomado de assalto mais um populoso aldeamento


Posto isto, levantamos a emboscada, seguindo pela picada em direcção ao aldeamento que ficava a cerca de 500 metros. Ao aproximarmo-nos do mesmo, saímos da picada e formámos em linha para avançar sobre o objectivo com poder de fogo caso houvesse qualquer reacção armada por parte dos habitantes do mesmo, o que não veio a acontecer felizmente.

Tomámos de assalto este local colhendo de surpresa a grande quantidade de habitantes. Este aldeamento era enorme teria mais de 30 Tabancas , que foram passadas em revista , tal como dois abrigos à prova de artilharia aonde se encontrou vario fardamento e equipamento.

Foi aqui em Cadique Iala que comprámos várias galinhas nheques, para fazermos os nossos petiscos, o que até aí não era possível. Até construímos um galinheiro de onde nos abastecíamos para fazer as tainadas.

Entretanto iniciámos o regresso a Cadique City fazendo deslocar connosco alguns habitantes e a mulher capturada, utilizando a picada que atravessava a Bolanha e um pequeno rio servindo de ponte um tronco de arvore. Fizemos o resto do percurso sem problemas.

22 de Dezembro de 1972: captura do comandante do bigrupo de Malan Camará

Dia 22 de dezembro, o primeiro bi-grupo da CCP 121 parte para mais um patrulhamento desta vez com destino as Caxambas Balantas, depois de andadas algumas horas atravessando matas, bolanhas e rios alguns de difícil passagem derivado ao imenso lamaçal e arvoredo rasteiro ou Tarrafo aonde nos enterrávamos até à cintura e por vezes mais a cima, tendo que ser ajudados pelos camaradas que mais rapidamente chegavam a margem segura.

Fomos entretanto aproximando-nos da zona onde se pretendia descobrir uma base IN que, segundo informações do pessoal capturado, era bastante utilizada e frequentada pelos Guerrilheiros.

Progredindo a corta mato, lá fomos andando com grande dificuldade rompendo floresta muito serrada. A determinada altura e já numa zona da mata mais aberta, detectámos varias valas – abrigo, local onde os Guerrilheiros estacionavam em segurança e onde se instalavam para emboscar as nossas tropas. A cerca de 50 metros dali passava um trilho paralelo as valas.

Estacionamos durante cerca de 15 minutos sem que o IN se revelasse, retomando a marcha com atenção redobrada. A mata tinha árvores imponentes, o sol não entrava por lado algum, parecia noite em alguns locais.

Entretanto retomámos a marcha até que os homens da frente apercebendo-se de movimento de pessoas que passavam no trilho atrás referido que ficava do nosso lado direito, pararam, o que aconteceu com os restantes quase por simpatia, passando sinal do que se estava a passar.

Referenciámos três pessoas desarmadas que seguiram o seu destino. Aqui montámos uma emboscada. Passados cerca de 10 minutos aparece uma mulher com uma criança as costas também no mesmo sentido. Poucos minutos passaram e aparecem pela mesma picada mas no sentido inverso 4 Guerrilheiros armados. Quando estes se aproximavam dos nossos homens da frente , estes abriram fogo abatendo de imediato 2 guerrilheiros ferindo os outros dois, tendo um deles conseguido fugir. Capturámos o outro, sendo ele o comandante de bigrupo de Simbeli, Malan Camará.

Neste contacto foram apreendidas 2 Kalashnikov, 4 granadas de RPG 2 e 1 RPG 2.

Entre o Natal de 1972 e o fim de ano

Entre o Natal de 1972 e o fim de ano, o destacamento de Cadique foi atacado por várias vezes, sempre à canhoada, todas caindo dentro da nossa zona ou seja no perímetro do destacamento. Isto no dia 26.

No inicio da noite do dia 27, novo ataque à canhoada, nesta mesma noite cerca das 23 horas, novo ataque desta vez de armas ligeiras vindo os guerrilheiros até bem perto de nós, ao arame farpado, como se costuma dizer (porque não o tínhamos.

Posso considerar que a táctica utilizada foi perfeita porque quando foi feito o ataque à canhoada, o mesmo foi para permitir a aproximação dos guerrilheiros até cerca de 30 metros das nossas posições. Foi um ataque bem organizado pelo inimigo mas que não lhes trouxe qualquer proveito, porque a maioria dos Pára-quedistas já se encontravam nas valas onde durante a noite se descansava. Estas tinham sido abertas nos dias anteriores, não tivemos qualquer ferido durante este ataque, porque tínhamos todo o nosso armamento e equipamento preparado e à mão para estas eventualidades. D.desta forma reagimos pronta e eficazmente a este ataque.

No dia seguinte fomos passar busca às posições inimigas e encontrámos um morto com uma arma Kalashnikov e uma mochila com material de primeiros socorros e alguns papéis .

Entretanto tinha passado o Natal de 1972. Ao almoço e ao jantar, como não tínhamos condições para cozer pão, tivemos que fazer as primeiras refeições quentes com bolachas de água e sal a substituir o pão.

Entretanto foi destacado para nos fazer companhia um Bigrupo da Companhia de Caçadores Pára-quedistas 123 (CCP 123) e uma Companhia do exército que viria a ficar no destacamento e os Pára-quedistas a fazer patrulhamentos e operações na zona de Cadique, Cafal Balanta, Cafine e na zona de Cacine-Jamberem e em toda a mata do Cantanhez.


9 de Janeiro de 1973: abatidos mais dois guerrilheiros e capturada mais uam enfermeira

Tivemos dois violentos contactos com as forças do PAIGC nas zonas alagadiças de Cacine, durante a acção Escorpião Claro, onde abatemos dois Guerrilheiros e ferimos vários, como viemos a confirmar no reconhecimento posteriormente feito , onde eram visíveis abundantes rastos de sangue. Capturámos vários equipamentos de guerra, e também uma enfermeira. De salientar que o PAIGC tinha um grupo armado formado por mulheres do qual esta enfermeira fazia parte activa, como se veio a confirmar.

Nesta acção, a CCP 121 além de vário equipamento atrás referido capturou 1 LGFog RPG 2, 5 espingardas Mosin Negant, 5 granadas de canhão sem recuo,11 granadas de RPG 2, 2 granadas de mão ofensivas e 460 munições para armas diversas.

Durante o restante tempo que aqui permanecemos com saídas diárias, apenas tivemos pequenos e esporádicos contactos como IN sem relevância.

Foi a partir desta altura que as acções operacionais das nossas tropas tivera, um significativo abrandamento, porque as forças do PAIGC tinham sido enfraquecidas pelas constantes acções das nossas forças.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. posta de 9 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2038: Os pára-quedistas no mítico Cantanhez: Operação Tigre Poderoso (I parte) (Victor Tavares, CCP 121 / BCP 12)

Guiné 63/74 - P2050: Cruzeiro das nossas vidas (9): Do Funchal para Bissau no Ana Mafalda (Carlos Vinhal)

Carlos Vinhal, ex-Fur Mil MA, (CART 2732) Mansabá , 1970/72


Viagem em Primeira Classe no navio Ana Mafalda (1)

Antes do embarque, quando se começava a estruturar uma Companhia, havia um sem número de tarefas burocráticas a cumprir que competiam principalmente aos sargentos do Quadro.

No GAG2 (S.Martinho-Funchal-Madeira) formavam-se, simultaneamente duas companhias, a CART 2731 para Angola e a CART 2732, a minha, para a Guiné.

Os respectivos sargentos não tinham mãos a medir tanta era a burocracia e nós, os cabos milicianos, futuros camaradas de classe, bem nos apercebíamos disso. Contudo, como tínhamos que ministrar o treino operacional aos militares que nos haviam de acompanhar, achávamos que já tínhamos trabalho que chegasse.


Funchal, 1985> O Cais era assim no dia 13 de Abril de 1970.

Verdade se diga que nos fins de semana, além dos serviços ao quartel e passear pelo Funchal atrás das miúdas, não tínhamos mais nada para fazer e os desgraçados dos sargentos nem sábados nem domingos gozavam.

Num qualquer sábado de Março de 1970, estava eu e o meu camarada Carneiro em amena cavaqueira na caserna, quando o sargento Rita da CART 2732 veio ter connosco a pedir-nos ajuda.

A nossa Companhia não tinha Primeiro Sargento indigitado e os dois Segundos tinham que superar essa falha para dar conta a tanto trabalho. Anuímos logo de boa vontade até porque estávamos aborrecidos por não termos nada que fazer. Assim trabalhámos toda a tarde desse Sábado e o Domingo seguinte até muito tarde.

Claro que, a partir desse dia, nos tornámos colaboradores oficiais dos sargentos Rita e Santos, praticamente até à data de embarque, ajudando no preenchimento da imensa papelada e ocupando assim as nossas horas de ócio. Tudo feito sem esperar alguma recompensa, como é bom de ver.

Entretanto o tempo foi passando, e no dia de saída para a Guiné, 13 de Abril de 1970, já a bordo do navio “Ana Mafalda”, o sargento Rita veio ter comigo e com o Carneiro para nos dizer que não precisávamos de procurar alojamento a bordo, pois iríamos no camarote deles que tinha quatro beliches.

Ficámos contentes, pois ficaríamos mais bem instalados que os restantes camaradas furriéis.

Os camarotes dos oficiais e, dos sargentos do quadro, eram no casario superior do navio enquanto que os furriéis iam nos camarotes do casco, junto à linha de água.

Já agora, diga-se que os soldados e cabos iam nos porões, instalados de qualquer maneira. Para piorar a situação, o navio já trazia dos Açores uma Companhia açoriana com o mesmo destino que o nosso, a Guiné.

Nós os quatro, mais os nossos alferes e os oficiais da guarnição do Ana Mafalda fazíamos as refeições na sala de jantar principal do navio.
Havia um senão, que era a etiqueta que impedia de se comer em quantidade, mas tudo bem, como diz o ditado: - Não há bela sem senão.

Todas as tardes tinhamos direito a chá e bolachas, servido com todos os requintes.

A viagem correu muito bem, sempre com mar chão, com direito a ver peixes voadores em exibição, sem pagar mais por isso.

Finalmente, no dia 17, ao levantar, quando espreitámos pelas janelas do camarote, tivemos a primeira impressão da paisagem da Guiné. Estávamos fundeados ao largo de Bissau, tendo o desembarque acontecido pelas 16 horas.
Os Adidos esperava-nos para nos lembrar que tinha chegado ao fim o (primeiro) cruzeiro da nossa vida.

Carlos Vinhal
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Nota de C.V.:

(1) Vd. Post de 17 de Abril de 2007> Guiné 63/74 - P1671: Efemérides (2): Há 37 anos a CART 2732 desembarcava em Bissau (Carlos Vinhal)