sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Guiné 63/74 - P2087: Estórias do Zé Teixeira (24): Vítimas inocentes (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)


José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , (1968/70)

Mais uma estória comovente do nosso camarada Zé Teixeira.
Tão fundo lhe tocou este acontecimento que lhe inspirou um pequeno, mas belo poema.

Sabe-se que todas as guerras fazem vítimas independentemente de se ser militar ou civil, homem, mulher ou criança. Toda a gente está sujeita ao acaso de uma bala ou granada perdidas.
O nosso conflito não foi excepção.

No caso vertente, foi uma inocente bebé a vítima de uma guerra, que como todas são injustas e nunca deviam sequer começar.
CV

Vítimas inocentes

Era meu hábito, bater uma soneca depois de almoço, tendo como companhia a minha Maimuna (A bebé que em Mampatá Forreá me fazia companhia diariamente).
Na primeira vez que o tentei fazer, o raio da miúda chorou todo o tempo, obrigando-me a ir perguntar à Ansaro, sua mãe, qual seria a razão para ela não querer dormir comigo. Aconselhou-me a deitá-la junto às minhas costas. A catraia agarrou-me na camisa de um lado e do outro e adormeceu toda a tarde.

Fenómeno estranho, mas natural em ambiente de guerra. Segundo a mãe, à noite amarrava-a às costas, deitava-se e assim dormiam as duas. Era uma forma segura de em caso de ataque, ao fugir para o abrigo, ter a certeza que levava a bebé com ela.

Guiné-Bissau, 2005> Zé Teixeira, não com a "sua" Maimuna, mas com um menino que a fará lembrar.

Mais tarde em Buba, sofremos um violento ataque às cinco da manhã. Alguns feridos na população civil, entre os quais a Suade, mãe de uma bebé que morreu carbonizada.
A jovem mãe chorava inconsoladamente e pedia com insistência que a deixasse morrer, quando eu, com cuidado a tratava dos diversos estilhaços que tinha espalhados pelo corpo, mas sem aparente gravidade de maior. Porque ainda não conhecia o seu drama, eu não estava a entender a razão do seu estado emotivo, que chegou a perturbar-me.

Logo que estabilizei a doente, parei todo o trabalho, apesar de haver mais feridos (ligeiros) à espera e procurei acalmá-la e assim pude ouvir, viver e entender a drama que a consumia.

Tinha por hábito deitar-se a dormir com a bebé amarrada às suas costas, como era vulgar vê-las, as mudjer garandi, ou mesmo as badjudas e badjudinhas (com os manos mais novos) durante o dia, a pilar o arroz.

Alta madrugada deu-lhe de mamar e deixou-se adormecer com a criança a seu lado.

Surgiu o inesperado ataque. Estonteada pelo violento estrondo arrancou para o abrigo e quando repara que não levava a bebé consigo, voltou para trás, mas não chegou a tempo. Uma granada assassina que ia direccionada para o local onde estava o obus, rebentou na crista da sua morança, projectou-a para o chão e carimbou-a com estilhaços.
Quando recuperou, já era tarde. A morança estava num braseiro e a sua bebé lá dentro, carbonizada.

A morte da sua filha tinha-lhe tirado o sentido da vida. Assumia toda a culpa no acontecimento. Se nunca fazia aquilo, mesmo quando se passava algum tempo sem visitas do bandido, havido um ataque uns dias antes, porque o fez naquela noite? Perguntava-se a si própria e chorava, chorava ...

Momentos difíceis que ainda hoje me arrepiam.
Pobre criança, vítima inocente de uma estranha guerra,
Pobre mãe que carregava as culpas que não eram suas.

Descarreguei minha raiva num poema que nesse dia fiz, à sombra do mangueiro que havia na parada, meu companheiro de longas horas, pela sombra e protecção que me dava sem cobrar alvíssaras.

Guerra, Sinal de Morte

Uma granada.
Vinda não sei de onde.
Lançada, não sei por quem.
Rebentou.
... E aquela criança,
Que brincava, além
A morte, a levou...
Na areia brincava...
E sua mãe,
Que seus paninhos lavava.
Estremeceu.
Por triste pressentimento.
Seu olhar volveu.
...Um grito
E desmaiou.
No preciso momento.
Em que seu filho morreu.

Zé Teixeira
______________

Nota do editor:

Vd. Último post desta série de

Guiné 63/74 - P2086: Guileje: Simpósio Internacional (1-7 de Março de 2008) (2): Programa provisório



Texto da responsabilidade da comissão organizadora (AD - Acção para o Desenvolvimento). Segundo o Pepito me garantiu ontem, em Lisboa (1), os membros da nossoa tertúlia serão bem vindos, no caso de quererem e poderem participar nesta iniciativa. Segundo alguns dos nossos camaradas e amigos estão já a organizar os preparativos para a viagem (por terra ou ar) à Guiné-Bissau, coincidindo com a realização do Simpósio. Envidaremos esforços para que possam obter o melhor dos apoios na Guiné-Bissau.

Por seu turno, a comissão organizadora apela a que os antigos combatentes portugueses que passaram por Guileje (entre 1964 e 1973) e queiram assistir ao Simpósio, procurem, entre a tralha velha que trouxeram de regresso a casa, algum recuerdo, objecto, documento associado a Guileje ou ao corredor da morte (por exemplo, aerogramas, documentos do PAIGC, documentos do exército português, fardamento, objectos de uso pessoal)... Há dias, um camarada nosso ofertou para o museu de Guileje o velho rádio transmissor que trouxe consigo para Portugal... Todos os camaradas e amigos que deram o seu contributo para a esta inicitivam (contando a história, fornecendo fotografias, etc.) farão parte de uma lista de amigos do futuro museu de Guileje (projecto a cargo do Nuno Rubim).

Sabe-se que o aquartelamento, abandonado pelos portugueses, foi ocupado pelo PAIGC e mais tarde destruído pelos sapadores do PAIGC, para prevenir qualquer veleidade de voltar a ser reocupado pelas NT (o que, de facto, nunca chegou a acontecer)... Um dos boatos que chegaram até hoje foi a sua destruição pelo força aérea, por ordem de Spínola... Sabe-se hoje que isso não foi verdade. O aquartelamento foi tomado com todo o armamento e recheio (incluindo um apreciável stock de bebidas que fizeram as delícias de muitos combatentes do PAIGC, em 22 de Maio de 1973 e dias seguintes) (LG).

Simpósio Internacional de Guiledje, Guiné-Bissau, 1 a 7 de Março de 2008 > Programa Provisório


Dia 29 de Fevereiro, 6ª feira

- Chegada dos Participantes

- Entrega de documentos e programa detalhado

- Jantar em conjunto


Dia 1 de Março, Sábado

7:00 H – Partida para Guiledje, com paragens no Saltinho, Ponte de Balana (Gandembel) e Corredor de Guiledje

12:00 H - Quartel de Guiledje: visita e almoço

16:00 H - Paragem em Medjo e Tchim-Tchim Dari

18:00 H - Chegada a Iemberém: acolhimento e jantar


Dia 2 de Março, domingo

7:30 H – Pequeno-almoço

8:30 H - Visita a Iemberém: Centro Materno-Infantil, Rádio e Televisão Comunitárias

9:30 H - Encontro com ex-guerrilheiros do PAIGC e ex-milícias portuguesas

12:00 H – Partida para Canamine:

- Visita a um acampamento do PAIGC em Cantanhez
- Passeio na Mata de Cantanhez em Canamine
- Almoço
- Eventual visita de barco a Cacine

17:00 H – Regresso a Iemberém

Dia 3 de Março, 2ª feira

Regresso a Bissau ao longo do dia, com possibilidade de visitar outros locais e tabancas.

Dia 4 de Março, 3ª feira

08:30 H – 10:00 H – Sessão solene de Abertura (Moderador: Roberto Quessangue, AD)

- Visita à Exposição Guiledje
- Alocução de Isabel Nosolini Miranda, Coordenadora da AD da Iniciativa Guiledje – Preservação da memória de Guiledje: objectivos, acções previstas, aspectos metodológicos e estado actual da Investigação.
- Alocução do Representante da População de Guiledje (a indigitar)
- Alocução de Sr. Embaixador de Cuba na República da Guiné-Bissau
- Alocução de Sr. Embaixador de Portugal na República da Guiné-Bissau
- Alocução de S. Excelência o Presidente da República de Cabo Verde (por confirmar)
- Alocução de S. Excelência o Presidente da República da Guiné-Bissau (por confirmar)


10:00 H – 10:20H – Pausa Café


Painel 1 > Guiledje e a Guerra Colonial/Guerra de Libertação (Moderador: João José Monteiro, Universidade Colinas de Boé)

10:20 H – 11:00 H – Leopoldo Amado (historiador guineense) – Génese e evolução do sentido estratégico-militar do corredor de Guiledje no contexto da guerra de libertação nacional.

11:00 H – 11:40 H – Agnelo Dantas (caboverdiano, ex-comandante militar do PAIGC) e Manuel dos Santos (caboverdiano, ex-comandante militar do PAIGC) – Amílcar Cabral e a componente militar do PAIGC: achegas para a compreensão dos meandros estratégicos e tácticos da guerra de libertação nacional.

11:40 H – 13:00 H – Debate

13:00 H – 14:30 H – Almoço

14:40 H – 15:20 H – Alfredo Caldeira, Fundação Mário Soares – A Operação Maimuna no Arquivo Amílcar Cabral.

15:20 H – 17:00 H – Carlos Matos Gomes – (Coronel do Exército Português) – A Guerra Colonial e a estratégia do Exército português no corredor de Guiledje. (Nota: por confirmar).

17:00 H – 17:40 H – Sandji Fati (Tenente-Coronel do Exército da Guiné-Bissau) – Subsídios para a História Militar da guerra de libertação no sul da Guiné-Bissau. (Nota: por confirmar).

17:40 - 18:40 H – Eduardo Costa Dias (Professor Titular do ISCTE - Instituto Superior das Ciências do Trabalho e Empresas, Portugal) – O papel e a influência recíprocas das dinâmicas socio-políticas e institucional-religiosa da África Ocidental na emergência do movimento de libertação nacional: o caso do PAIGC na Guiné-Bissau.

18:40 H – 20:00 H – Debate

20:30 – 22:30 - Jantar

Dia 5 de Março, 4ª feira

Painel 2 > Guerra Colonial/luta de libertação nacional: problematização conceptual, contextualização histórica e importância historiográfica (Moderador: Leopoldo Amado, historiador guineense).

09:00 H – 09:40 H – João Medina (Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, Portugal) – O lugar e o papel da guerra colonial na historiografia Contemporânea Portuguesa: tendências e perspectivas.

09:40H – 10:20 H – Josep Sánchez Cervelló (Professor Titular de História Contemporânea da Universidade Rovira I Virgili de Tarragona, Espanha) – A relação dialéctica entre o PAIGC e o MFA e o seu papel na caída do Estado Novo Português.

10:20 H – 11:00 H – Leonardo Cardoso (historiador guineense, INEP) – Alcance histórico de Guiledje no contexto geral da luta de libertação Nacional e independência da Guiné-Bissau.

11:00 H – 11:40 H – Julinho de Carvalho (caboverdiano, ex-comandante militar do PAIGC) – A importância estratégica de Guiledje no contexto geral da manobra militar do PAIGC e do Exército português na Guiné.

11:40 H- 12:20 H – Coutinho Lima, (Coronel do Exército Português na reserva e ex-comandante do COP 5) - Factos e condicionalismos relativos à evacuação pelo Exército português do aquartelamento de Guiledje.

11:20 H – 12:50 H – Debate

13:00 H – 14:30 H – Almoço

Painel 3 > O pós-Guiledje: efeitos, consequências e implicações político-militares do assalto ao aquartelamento (Moderador: Mamadú Djau, Director do INEP)

15:00 H – 15:40 H – Luís Moita (Professor Catedrático e Vice-Reitor da UAL - Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal) – Fundamentos e originalidade táctico-estratégicos da acção político-militar de Amílcar Cabral e do PAIGC no contexto dos movimentos de libertação do Terceiro Mundo.

15:40 H – 16:20 H – Óscar Oramas (Ex-embaixador de Cuba na República da Guiné-Conakry) – Contribuição e participação cubana na luta de libertação nacional da Guiné-Bissau: dados, números e factos. (Nota: por confirmar)

16:20 H – 17:00 H – Nuno Rubim (Coronel, ex-combatente português no aquartelamento de Guiledje, especialista em história militar) – A batalha de Guiledje: uma tentativa de reconstituição histórica em dioramas.

17:00 H – 17:40 H – Luís Graça (Sociólogo, Professor universitário, ENSP/UNL, Portugal; dinamizador do maior site dos antigos combatentes portugueses da Guiné) – Cerco de Guiledje: a experiência traumática vivenciada a partir do Quartel de Guiledje.

17:40 H – 18:10 H – Pausa Café

18:10 H – 19:00 – Debate


Dia 6 de Março, 5ª feira


Painel 4 > Guiledje: Factos, Lições e Ilações

(depoimentos e testemunhos de elementos da população, dignitários, testemunhos presenciais, régulos, ex-combatentes do PAIGC e ex-combatentes africanos do Exército português) (Moderadora: Isabel Buscardine, Ministra dos Combatentes da Liberdade da Pátria)

09:00 H – 09:15 H – A indigitar

09:15 H – 09:30 H – A indigitar

09:30 H – 09:45 H – A indigitar

09:45 H – 10:00 H – A indigitar

10:15 H – 10:30 H – A indigitar

11:30 H – 11:45 H – A indigitar

11:45 H – 12:00 H – A indigitar

12:00 H – 13:00 H – Debate

13:00 H – 14:30 H – Almoço


Painel 5 > As Iniciativa de Cantanhez e de Guiledje na óptica do desenvolvimento económico e social e sua correlação com o imperativo da salvaguarda da memória histórica da guerra (Moderador: Nelson Dias, UICN)

15:00 H – 15:40 H – Carlos Schwarz Silva (guineense, agrónomo, Director Executivo AD) e José Filipe Fonseca (guineense, agrónomo) – O desenvolvimento económico e social na zona de Guiledje: AD e dinâmicas de participação e organização comunitárias.

15:40 H – 16:20 H – Tomane Camará (AD) – (guineense, agrónomo, Director de Programas da AD) – Evolução das características ecológicas da zona de Guiledje: antes, durante e depois da guerra.

16:20 H – 17:00 H – Alfredo Simão da Silva (guineense, Director do Instituto de Biodiversidade e Áreas Protegidas - IBAP) – Imperativos de Desenvolvimento Sustentável e da Conservação da Natureza: Princípios e práticas no caso de Cantanhez

17:00 H – 17:40 H – Huco Monteiro (sociólogo, Universidade Colinas de Boé, Guiné-Bissau) - A intensa guerra de que o Sul da Guiné-Bissau foi alvo explica o seu ténue desenvolvimento relativamente às outras regiões do país?

17:40 H – 18:20 H – Pausa Café

18:20 H – 19:00 H – Debate

Dia 7 de Março, 6ª feira

10:00 H – 11:30 H – Sessão solene de Encerramento (Moderadora: Isabel Nosolini Miranda)

- Alocução do Representante dos participantes caboverdianos.
- Alocução do Representante dos participantes portugueses
- Alocução do Representante dos participantes cubanos
- Leitura do Documento final do Simpósio (Resoluções Finais).
- Alocução de S. Excelência o Senhor Primeiro-Ministro do Governo da Guiné-Bissau
- Alocução de Encerramento do Simpósio por S. Excelência o Senhor Presidente da Assembleia Nacional Popular da República da Guiné-Bissau.

Final dos trabalhos

Partida dos participantes

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post de 6 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2084: Guileje: Simpósio Internacional (1-7 Março de 2008) (1): Uma iniciativa a que se associa, com orgulho, o nosso blogue

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Guiné 63/74 - P2085: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (10): Enfermeiro em apuros

Raul Albino, ex-Alf Mil, CCAÇ 2402/BCAÇ 2851 (, Mansabá e Olossato, 1968/70)



Um enfermeiro em apuros
ou Um enfermeiro com muita sorte (1)

O relato que se segue é da autoria do 1.º Cabo Enfermeiro Carlos Manuel Furtado Costa, interessante na sua forma descritiva. O curioso é que este episódio passou-se no dia em que o quartel em Có foi atacado pela segunda vez. Ou seja, é mais um testemunho, numa perspectiva inesperada, a acrescentar ao relato do Segundo Ataque a Có (2), editado recentemente no blogue.

A sorte que ele teve foi bastante superior à que ele relata e só lendo com atenção o livro Memórias de Campanha da C. Caç. 2402 que ele possui, poderá então descobrir o porquê. Na altura em que produziu o texto, o livro ainda não tinha sido editado.


Guiné>> A tabanca de Có, incendiada, na sequência do segundo ataque ao aquartelamento, em 12 de Outubro de 1968.


Guiné> Có> Um abrigo atingido pelo violento fogo do IN, em 12 de Outubro de 1968


Guiné> Có> Dia 13 de Outubro de 1968> Da esquerda para a direita: Cap Vargas Cardoso (CMDT da CCAÇ 2402), Gen Spínola (em visita a Có), Alf Mil Raul Albino (CMDT interino no dia do ataque) e Alf Mil Caseiro.

Eis o seu relato:

Todos nós, companheiros de armas, temos histórias interessantes para contar, a maioria de cenas no palco de guerrilha. Eu, embora vivesse os mesmos cenários, recordo algumas cenas que servirão de boa disposição.

Assim, certo dia em Có, fui fazer uma injecção à esposa do senhor Mamadu Fodé e entrei em sua casa.

Ao preparar a seringa, já a senhora desnudava a sua enorme bunda. Confesso que tremi, pois não sendo a senhora uma beldade, tinha a vantagem de ter contacto diário com água e sabão.

Comecei por executar a injecção e mais nervoso fiquei ao ouvir os gemidos da minha doente, porque se alguém ouvisse tais gemidos, de certo pensaria logo noutra forma de penetração.

Já tremia é certo, mas tremi mesmo a valer por nesse preciso momento se desencadear um forte ataque ao nosso aquartelamento, ficando eu, por força das circunstâncias, muito junto aos nossos inimigos, ouvindo-os a falar, pegar fogo às tabancas e fazer tiro.
Quando dei por mim, encontrava-me escondido na parte lateral da porta do quarto com a seringa na mão.

Quando me pareceu tudo calmo tentei regressar ao aquartelamento – era já de noite – por isso fui recebido com alguns tiros dos meus colegas.

Nunca tive tanta sorte no mesmo dia:
1º- Não caí na tentação.
2º- Entrei são e salvo no quartel.
3º- A seringa e a agulha continuaram a fazer parte do espólio da Enfermaria.

Cabo Enfermeiro Costa


Raul Albino
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Notas do co-editor CV:

(1) - Subtítulo da responsabilidade do co-editor

(2) - Vd.Post de 31 de Julho de 2007> Guiné 63/74 - P2016: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (6): O grande ataque a Có, em 12 de Outubro de 1968

(3) - Vd. Último Post da série de 29 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2071: História da CCAÇ 2402 (Raul Albino) (9) : Incêndio de combustível perto do paiol

Guiné 63/74 - P2084: Guileje: Simpósio Internacional (1-7 de Março de 2008) (1): Uma iniciativa a que se associa, com orgulho, o nosso blogue

Lisboa, Campus da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa > 6 de Setembro de 2007 > Da esquerda para a direita, Nuno Rubim, Carlos Scharwz (Pepito) e Luís Graça. Para o Pepito, o nosso blogue fez a confluência de pessoas, memórias, sentimentos, ideias e afectos, tornando possível a realização, em Março de 2008, do Simpósio Internacional "A memória de Guiledje e a Luta de Libertação Nacional da Guiné-Bissau".

Dentro em breve será lançado uma página, na Net, sobre este simpósio, cujas despesas de organização serão parcialmente cobertas (em cerca de 40%) por uma doação do Governo Português. Na sua estadia em Lisboa, o Pepito teve um encontro com o Ministro do Defesa Nacional, Nuno Severiano Teixeira. O encontro irá reunir antigos combatentes da guerra colonial / guerra libertação da Guiné-Bissau (portugueses, guineenses, caboverdianos e cubanos), além de historiadores e outros especialistas oriundos de Portugal, Guiné, Cabo Verde, Cuba e Espanha. Iremos, muito proximamente, apresentar no nosso blogue o programa preliminar do Simpósio. (LG)

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.


Texto da responsabilidade da AD - Acção para o Desenvolvimento, a ONG guineense, fundada e dirigida pelo nosso amigo Pepito.


SIMPÓSIO INTERNACIONAL > “A Memória de Guiledje e a Luta de Libertação Nacional da Guiné-Bissau”


Entidades promotoras > AD, Universidade Colinas de Boé e INEP


Data de realização > 1 – 7 de Março de 2008

Local > Bissau, Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau


1. INTRODUÇÃO


O quartel de Guiledje é construído em 1964 no sul da Guiné-Bissau, na actual região de Tombali, a uma dezena de quilómetros da fronteira norte da Guiné-Conakry, ocupando o centro de um dispositivo que compreendia Bedanda, Gadamael, Cacine e Aldeia Formosa (Quebo).

A luta armada pela independência da Guiné-Bissau tem início em 1963 com o ataque ao quartel de Tite, rapidamente se alargando a todo o território, em particular ao sul do país. É assim que é no perímetro de Cantanhez (Guiledje fica na sua periferia) que vão surgir as primeiras zonas libertadas e começar a construir a identidade guineense, a partir de uma grande diversidade de grupos étnicos (nalús, sôssos, balantas, djacancas, fulas, tandas e outros), assente em formas organizadas de gestão política, administrativa, social e económica dos espaços livres e das comunidades locais que nelas vivem e que participam activamente no processo de criação de uma vida nova.

Para Amílcar Cabral, em 1972, o quartel de Guiledje era o mais bem fortificado da frente Sul, com bunkers de betão armado e cercado por uma mata densa e armadilhada.

Por isso, em Agosto ou Setembro desse ano, Cabral, num momento de muita tensão no seio do PAIGC em Conakry, confia a Osvaldo Lopes da Silva a tarefa de preparar as condições para um ataque em força ao quartel de Guiledje, afirmando: “Se este quartel cai, tudo à volta também cai”.

É após o assassinato de Cabral em Conakry, em Janeiro de 1973, que é posta em acção a Operação Amílcar Cabral, cuja preparação dura cerca de 3 meses, tendo-se iniciado o ataque a 18 de Maio e, passados 4 dias, depois de baixas no quartel e da mensagem enviada pelo Capitão Quintas [, comandante da CCAV 8350,] a Spínola afirmando “estamos cercados por todos os lados”, e na eminência do assalto final e do morticínio que se adivinhava, o seu Comandante, Major Alexandre Coutinho e Lima, decide ordenar a retirada do quartel de todos os militares e de cerca de 600 civis guineenses que lá se encontravam. Guiledje passava à história como o único quartel português abandonado pelas tropas coloniais.

Era dia 22 de Maio de 1973.

Quatro meses depois, a 24 de Setembro de 1973, reunia-se em Boé a primeira Assembleia Nacional Popular que declarava a existência de um Estado Soberano, a Republica da Guiné-Bissau, rapidamente reconhecido por grande número de países da comunidade internacional.

Menos de um ano depois, os militares portugueses, cientes do princípio do fim do império colonial, punham em marcha a revolução dos cravos e acabavam com uma ditadura de 48 anos, juntando Portugal à Guiné-Bissau como países livres.

Era dia 25 de Abril de 1974.

Porque, trinta anos depois, foram “estabelecidas as pontes emocionais entre aqueles que, em lados opostos da barricada, viveram com todo o seu ser, momentos de sangue, de sofrimento e de destruição, e que, hoje, se dão as mãos na construção de um mundo feito de compreensão, amizade e respeito mútuo, a história comum pode ser escrita, com objectividade, como legado às gerações vindouras” (

Porque é preciso explicar a História de forma interessante e compreensível é que surgiu a “Iniciativa Guiledje”.


2. Historial e Pertinência


Guiledje encontra-se integrada na Zona de Cantanhez, localizada no sul da Guiné-Bissau e é constituída em termos de formações vegetais pelo mangal, savanas herbáceas, arbóreas e palmar, onde existe o Maciço Florestal de Cantanhez, classificado como floresta densa seca com claros vestígios de mata primária. É integrada pelos estuários dos rios Cacine e Cumbidjan.

Desde 1991 que a ONG AD (Acção para o Desenvolvimento) através do PIC (Programa Integrado de Cubucaré) intervém nesta região, procurando um envolvimento consensual de todos os actores locais, comunidades, associações, poder tradicional e serviços públicos na discussão de alternativas ambientais, no quadro de uma gestão durável dos recursos naturais. Mobilizando os recursos humanos locais, populações, agricultores lideres, técnicos e políticos, valorizando os seus conhecimentos e promovendo uma maior responsabilização das comunidades de base na condução dos programas de desenvolvimento, procurando aplicar um conceito positivo de utilizar bem os recursos naturais, em vez de preservar não-utilizando, procurando a melhoria dos sistemas de produção tradicionais diminuindo a pressão sobre as florestas e levando os agricultores a apropriarem-se dos processos de gestão do espaço rural, na base de uma dinâmica de confrontação de posições e interesses contraditórios.

Esta abordagem metodológica visa igualmente conhecer melhor para gerir melhor, compreendendo o funcionamento global do ecossistema, dos equilíbrios naturais, da valorização dos recursos naturais, da identificação de zonas segundo vocações diferenciadas e criando mecanismos legislativos que assegurem por um lado uma melhor gestão, definindo competências que permitam articular a gestão dos recursos marinhos com a salvaguarda da Floresta de Cantanhez e, por outro, reforçar a capacidade organizativa, produtiva e decisória dos agricultores e pescadores locais, mormente pela via de uma educação ambiental em prol do desenvolvimento sustentável, portanto, contrários à adopção de práticas humanas nocivas susceptíveis de provocar a degradação dos recursos marinhos, das formações vegetais e da fauna selvagem, visando melhorar o nível de vida das populações, como forma de garantir o acesso à segurança alimentar, à saúde e ao ensino, especialmente das mulheres e crianças.


3. Uma abordagem histórica na perspectiva do desenvolvimento sustentável


No entanto, constituindo-se as povoações da zona um conjunto de diversas localidades a que se convencionou chamar de Corredor de Guiledje – justamente porque constituem, na sua diversidade, um prolongamento e uma herança histórico-cultural comum, gravitando as mesmas em volta de Guiledje (centro de articulação fundamental), concorrendo para isso, entre outras explicações possíveis, a importância de Guiledje no processo da luta de libertação nacional e, em razão disso, a relevância que assumiu depois da independência relativamente às tabancas ou povoações circunvizinhas que gravitam à sua volta.

É dessa realidade de que rapidamente dá conta a Direcção da AD, não somente pelas diversas formas como a vida das populações desta zona se entrecruzam com a sua importância histórica da luta de libertação em que foram actores e participantes activos, mas sobretudo pela forma como essa rica herança histórica interpela constantemente a vida das populações da área, apontando para a necessidade de melhor conhecer esse passado que comunica com o presente, mas também com o qual o presente dialoga, numa relação ambivalente de sentidos e significados que importa clarificar pela via do conhecimento da História reconciliada ou em vias de reconciliação consigo própria, em suma, uma perspectiva de conhecimento histórico despida de reminiscências colonial-traumáticas, portanto, capaz de integrar as heranças históricas da colonização e da libertação num quadro referencial patrimonial e cultural mais vasto, tanto mais que, uns e outros, os protagonistas dessa guerra colonial/de libertação, independentemente do lado da barricada em que se encontravam no passado, vivem hoje lado a lado, partilhando dificuldades, desafios e expectativas comuns relativamente ao desenvolvimento, o que de per si é demonstrativo de que o corredor de Guiledje, numa perspectiva dinâmica, é um espaço onde se entrecruzam olhares sobre o Outro e sobre a própria identidade, processo esse em que se vislumbram também significações com múltiplas variáveis e valências, reportando-se a necessidade de um maior conhecimento desse sujeito histórico, atendendo-se sobretudo ao facto de a Guiné-Bissau encontrar-se perante um dos maiores desafios que se lhe depara, que é o de preservar e reforçar a sua identidade enquanto Nação, consciente de que o conhecimento e a compreensão da sua História e, em especial, a da gesta de libertação nacional, é determinante para uma maior identificação colectiva à volta de valores comuns e para a procura e construção de um desafio histórico futuro em que todos se revejam e para o qual se mobilizem.


4. Objectivos do Simpósio Internacional sobre Guiledje


Basicamente, são as seguintes grandes linhas de força que circunscrevem os objectivos do Simpósio Internacional sobre Guiledje:

(i) Associar à metodologia de participação comunitária uma nova perspectiva de abordagem baseada no estudo e promoção do ensino da história, por forma a que, nos esforços de desenvolvimento, sejam devidamente enquadradas e capitalizadas as heranças e valências culturais portadoras de dinâmicas de coesão que, por isso, se afiguram necessários conhecer, compreender e promover, tanto mais que é absolutamente indispensável um maior esforço na procura e identificação colectiva dos valores comuns tendentes à construção de um desafio histórico futuro em que todos se revejam e para o qual se mobilizem;

(ii) A transmissão da História, atendendo sobretudo ao facto de as testemunhas vivas estarem já a desaparecer, promovendo a necessidade de levar as pessoas a compreender o que se passou antes por intermédio do registo e da preservação do património cultural, de molde a que a sua apropriação – sobretudo por parte da geração que não a viveu – se processe num contexto favorável que facilite a passagem do testemunho a outro e para que esse, por sua vez, se torne numa nova testemunha e seu porta-voz;

(iii) No âmbito da salvaguarda e preservação do património histórico de Guiledje, tanto quanto possível, proceder a recolha, classificação e preservação de vestígios históricos, bem como do registo magnético ou iconográfico (fotos, filmes, etc.) dos protagonistas ainda vivos da História, com vista a constituição de um acervo documental em permanente actualização;

(iv) Forjar uma maior aproximação entre as partes envolvidas no conflito político-militar entre a Guiné-Bissau e Portugal.

No contexto dos estudos das guerras coloniais/guerras de libertação, promover e estimular acções de parceria susceptíveis de propiciar oportunidades de pesquisa e/ou elaboração histórica sobre Guiledje, mormente, junto de investigadores nacionais e estrangeiros, visando não somente uma maior divulgação da História de Guiledje, mas igualmente promover a necessidade de colocar todo o corredor de Guiledje na agenda dos decisores em matéria do desenvolvimento económico e social.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Guiné 63/74 - P2083: Em busca de... (10): Coutinho e Lima, o comandante do COP5 que decidiu abandonar Guileje e foi acusado de deserção (Beja Santos)

Guiné > Região de Tombali > Guileje > 22 de Maio de 1973 > A retirada, dramática mas ordeira, das tropas portuguesas, por decisão, à revelia do Comando-Chefe, do major Coutinho e Lima, comandante do COP5.

Foto de origem desconhecida, editada por nós, e gentilmente cedida pelo Pepito, fazendo parte do acervo fotográfico do Projecto Guiledje ( © AD - Acção para o Desenvolvimento ). Seria importante incluir o testemunho do actual coronel, na reforma, Coutinho e Lima, nos trabalhos do Simpósio Internacional de Guiledje, a realizar na Guiné-Bissau, de 1 a 8 de Março de 2008.

1. Mensagem do Beja Santos, com data de 20 de Agosto último:

Luís, passei uma semana de férias e recomendo as Astúrias a toda a gente. Seguia na excursão o Coronel José Galamba de Castro, com duas comissões na Guiné, a primeira em Mansabá e a segunda no Comando Chefe, de 72 a 74.

Falou-me detalhadamente no Coronel Alexandre Coutinho Lima, que abandonou Guileje em 1973. Ele foi o único oficial do quadro preso por deserção, visto que, contrariando as ordens do Comandante Chefe, abandonou Guileje com duas companhias e toda a população civil (1). Acordei com o Coronel Galamba de Castro procurar estabelecer um contacto contigo para veres se gostarias de ter a versão do Coutinho Lima sobre tal episódio. Se quiseres, dou-te os contactos telefónicos.

Quanto ao mais, espero hoje mandar-te o 5º episódio da nova série [da Operação Macaréu à Vista], e se possível ainda esta semana mandar-te um outro episódio, pois farei a última semana de férias a seguir. Vi hoje o apontamento sobre o Queta (2), que muito te agradeço. Recebe toda a cordialidade do Mário.

___________

Notas de L.G.:

(1) O então major de artilharia Alexandre da Costa Coutinho e Lima era o comandante do COP 5, na altura da batalha de Guileje e Gadamael. Segundo informação do Nuno Rubim, a primeira unidade a ir para Guileje foi um Grupo de Combate reforçado da CART 494, em Jan / Fev de 1964. A Companhia estava a instalar o quartel em Gadamael.

Só mais tarde é que um grupo da CART 495, em final de Fevereiro desse ano, foi reforçar a guarnição até à chegada das primeiras forças da CCAÇ 726, em 31 de Outubro, permanecendo ainda algum tempo em sobreposição.

A CART 494 era comandada pelo então Capitão Coutinho e Lima, "que assim fica para sempre ligado ao início e fim de Guileje" ... Não sei se o Nuno Rubim ou o Pepito, já conseguiram contactar pessoalmente o Coutinho e Lima, e assegurar a sua decisiva contribuição para a preservação da memória de Guileje.

A história de Guileje/Gadamael precisa desta testemunha-chave, que nestes útimos trinta e tal anos tem-se remetido a um voluntário (?) silêncio. O coronel na reforma Coutinho e Lima terá, à inteira disposição, o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, para nos contar, sem quaisquer reservas, se assim o entender, a sua versão dos dramáticos acontecimentos de Guileje/Gadamael de Maio/Junho de 1973 e inclusive poderá defender a sua honra como oficial e como português, uma vez que terá sido tratado - em meu entender - pela hierarquia militar de então como um autêntico bode expiatório da falência da política spinolista.

Agradeço ao Beja Santos este precioso contacto, sugerindo-lhe que forneça directamente ao Nuno Rubim, ao Pepito e a mim próprio o contacto telefónico dos coronéis José Galamba de Castro e Alexandre da Costa Coutinho e Lima. O convite que endereço ao Coronel Coutinho e Lima também é, obviamente, extensível ao Coronel Calamba de Castro. O editor do blogue, Luís Graça.

Vd. posts de:

31 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1478: Unidades de Guileje: Coutinho e Lima, ligado ao princípio e ao fim (Nuno Rubim)

2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCI: Antologia (6): A batalha de Guileje e Gadamael (Afonso M.F. Sousa / Serafim Lobato)

(2) Vd. post de 20 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2063: Álbum das Glórias (24): O pretoguês Queta Baldé, uma memória de elefante e um grandecíssimo camarada (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P2082: História da CART 2340 (Ferreira Neto) (4): Baixas sofridas

Ferreira Neto, ex-Cap Mil, CART 2340 (Canjambari, Jumbembem e Nhacra,
1968/69) (1)


Baixas Sofridas:

(1) Mortos em Combate:



Em 15 de Fevereiro de 1968

Soldado Radiotelegrafista 05407067 João Lourenço Nunes
Soldado Nativo 82039064 André Pinto CCAÇ 3
Soldado Nativo 82053763 Coli Candé CCAÇ 3

Em 26 de Março de 1968

Soldado Cond Auto 00271767 Manuel dos Santos Cravo

(2) Mortos por Desastre:

Em 15 de Agosto de 1969

Soldado Milícia 24767 Mudo Silá 108 CMIL

Mortos por Doença:

Em 3 de Agosto de 1968

Fur Mil 03703065 Aurélio Raul da Silva Brochado

(3) Feridos em Combate evacuados para o HMP:

Em 26 de Março de 1968

1.º Cabo Aux Enf 02049967 Carlos Alberto Costa Leitão da Graça
1.º Cabo Atirador 01253867 Humberto Alfredo Gonçalves Vicente

Em 15 de Janeiro de 1969

Soldado Atirador 00256767 Joaquim Domingues

Em 26 de Março de 1969

1.° Cabo Atirador 02643867 Horácio Correia da Silva
1.° Cabo Atirador 03375067 José Alcides Fernandes
1.° Cabo Atirador 01148567 José Gonçalves da Cunha

Em 29 de Maio de 1969

1.° Cabo Cozinheiro 11096667 António Frederico Alho

(4) Feridos em Desastre evacuados para o HMP:

Em 25 de Abril de 1968

Soldado Nativo 82046962 Agostinho Mendes CCAÇ 3

Em 22 de Maio de 1968

1.º Cabo Atirador 00679767 Manuel Luís da Silva Pereira

(5) Doentes evacuados para o HMP:

Em 3 de Agsto de 1968

1.º Cabo Atirador 00234067 José Fernando Madeira Valentim
Soldado Básico 09731166 Joaquim Morais

Em 12 de Dezembro de 1968

Soldado Atirador 00069365 João da Silva Almeida

Em 19 de Dezembro de 1968

1.º Cabo Atirador 01280867 José Alves de Sousa

Em 22 de Dezembro de 1968

Soldado Cond Auto 02921367 Domingos Afonso Leite

Em 28 de Fevereiro de 1969

Soldado Atirador 00007866 José da Silva Rodrigues

Em 21 de Março de 1969

Soldado Atirador 00200267 Artur Gomes Alves
Soldado Atirador 00269266 Manuel Macedo Fernandes
Soldado Atirador 02444467 José da Rocha Sousa

Em 29 de Março de 1969

Soldado Atirador 02457567 Manuel Barbosa de Castro

Em 11 de Abril de 1969

Soldado Atirador 01878667 José Alberto Gregório

Em 18 de Abril de 1969
Soldado Atirador 03772467 Joaquim Carlos Martins Osório

Em 8 de Maio de 1969

1.º Cabo Atirador 00874367 António Paz de Caldas
Soldado Tica 04147767 Joaquim António Fonseca Barbosa

Em 9 de Junho de 1969

Soldado Cozinheiro 07151567 António Jorge Paradela
Soldado Atirador 09413767 Nuno Figueiredo Ferreira
Soldado Atirador 09642367 Manuel das Neves Quintino

Em 16 de Junho de 1969

1.º Cabo Atirador 01990267 António Manuel Soares Marques

Em 31 de Julho de 1969

Soldado Atirador 02001167 Manuel da Silva Ribeiro

Ferreira Neto
ex-Cap Mil
CART 2340 (1968/69)
___________________

Nota do co-editor CV:

(1) Vd. posts anteriores:

30 de Agosto de 2007> Guiné 63/74 - P2072: História da CART 2340 (Ferreira Neto) (1): Mobilização, Deslocamento para o CTIG e Alteração ao Dispositivo

1 de Setembro de 2007> Guiné 63/74 - P2075: História da CART 2340 (Ferreira Neto) (2): Actividade inimiga

3 de Setembro de 2007> Guiné 63/74 - P2079: História da CART 2340 (Ferreira Neto) (3): Actividade das NT

Guiné 63/74 - P2081: Cusa di nos terra (7): Susana, Chão Felupe - Parte III: Trabalho, lazer, alimentação, guerra, poder (Luís Fonseca)

Foto 1> Lindo pôr-do-sol no Chão Felupe

Recebemos do nosso camarada Luís Fonseca, ex-Fur Mil Trms (CCAV 3366/BCAV 3846, Susana e Varela, 1971/73), o seu terceiro trabalho sobre os Felupes.


Chão Felupe - Parte III:

Os Felupes são essencialmente agricultores, contrariando a ideia pré-concebida de serem apenas ferozes guerreiros, dedicando-se também à pecuária e à pesca o que os levou a preferir viver entre o Casamance e o Cacheu, região com maior pluviosidade, óptima para a lavoura e capim para o gado.

Dedicam-se principalmente à cultura do arroz. Geralmente são os homens que preparam os campos para o plantio, enquanto as mulheres plantam, transplantam, semeiam e colhem o arroz!!!

E os homens? Esses ajudam na sementeira e na colheita.

Durante a época seca os homens dedicam-se a reparar as moranças, a caçar (com arco e flecha e, para caça mais grossa azagaias), fazer ou reparar ferramentas para a agricultura, cintas para a subida às palmeiras e colher vinho de palma. Devo acrescentar que não me recordo de alguma vez ter algum elemento, quer da população, quer do Pel Caç Nat 60, referido a utilização de qualquer tipo de veneno. Pelo menos nas vezes que com eles partilhei refeições de mato não senti qualquer efeito. E provei algumas iguarias.

Para qualquer Felupe que se preze é vergonhoso não ter que fazer na época seca (Outubro a Março) que não seja fumar o seu cachimbo e beber vinho de palma, pelo que a caça representa uma fuga.

Mas o espírito guerreiro não se perdeu. Embora não tenha nunca conseguido confirmar, foi relatado que, anteriormente à nossa guerra, se defrontavam as tabancas de Bolor e Jufunco, num confronto destinado a saber quem guardaria uma âncora (?) que já vinha do Séc XIX, talvez que o Pepito tenha alguma informação sobre o assunto, de uma luta antiga com os portugueses (Desastre de Bolor - 1879?). É bom não esquecer que os Felupes de Jufunco (Djufunco) se revoltaram, igualmente, em 1905 e 1933 e que os de Suzana o fizeram em 1934 e 1935.


Foto 2> Felupes lutando


Durante a minha estadia e no final da época seca realizava-se um torneio destinado a escolher o melhor lutador. A luta era uma espécie de luta greco-romana, mas com regras muito particulares. Como acontece em muitos lugares do mundo, particularmente aqui, os jovens são o orgulho das suas aldeias, pelo que o apoio destas ao seu lutador é total.

O vencedor é determinado por eliminação sucessiva nos combates e passa a disfrutar de enorme prestígio perante todas as aldeias, situação que se mantém até ao próximo torneio.


Foto 3> Luta entre Felupes


Do que me apercebi a prosperidade dos Felupes pode ser medida de três formas: número de filhos, número de vacas e quantidade de arroz guardado.

Para esta etnia é preferível comer só arroz, a ter que matar um animal. Mais, preferem (preferiam) uma alimentação mais reduzida ou mesmo pedir ajuda à tropa a terem que reduzir o seu stock de arroz.

O que me impressionou foi o não haver, entre eles, pobres, na acepção exacta da palavra, uma vez que dividem entre si o que possuem. Os parentes, de outra tabanca, são um último recurso.

Por falar em alimentação a sua dieta consiste, na base, em arroz, mandioca e peixe (e que óptimo peixe eles podem comer, em variedade e qualidade). Os alimentos são geralmente cozidos e, em ocasiões especiais, fritos.

A carne de animais de criação (suínos, bovinos, caprinos e galináceos) só é usada quando existe uma recepção a visitantes que mereçam consideração ou quando houver prática de cultos religiosos.

Foto 4> Mercado Felupe


Por norma alimentam-se da mesma tigela, colocada no chão e no centro da divisão. Os homens podem usar colher enquanto as mulheres e as crianças usam, com extrema perícia, as mãos. A esquerda funciona como prato e a direita serve para pegar o arroz e levar os alimentos à boca.

O Rei come isoladamente, longe do olhar de qualquer súbdito, sentado no seu trono (um banco baixo que mais ninguém pode utilizar sob pena capital).

A vida, acima de tudo, a palavra como garantia (e nós tivemos prova disso), o desapego a futilidades são a sua forma de estar e de ser.

Os mercados são, ou eram, de troca directa, produto por produto, o dinheiro não tem, ou não tinha, qualquer interesse. Uma galinha valia um cesto de mandioca ou duas cabaças de vinho de palma.

O seu ritmo de vida era marcado pelo nascer ou pôr do Sol, também para eles o astro-rei.

E por hoje já chega.
Kassumai

Texto e fotos: © Luís Fonseca (2007). Direitos reservados)
____________________

Nota do co-editor CV

(1) Vd. post de 31 de Agosto de 2007 sobre os Felupes e seus costumes> Guiné 63/74 - P2074: Cusa di nos terra (6): Susana, Chão Felupe - Parte II: Religião (Luís Fonseca)

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Guiné 63/74 - P2080: Estórias do Zé Teixeira (23): Tuga na tem sorte (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)


Em mensagem dirigida ao blogue, o nosso camarada José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , (1968/70) mandou-nos mais uma das suas notáveis estórias. Esta descreve uma situação de ataque ao aquartelamento de Buba, momento em que se vivem situações aflitivas, ridículas, de sorte ou azar, e muita, mas mesmo muita confusão.

Temos também o relato de um encontro amistoso entre inimigos, no HM 241, durante o qual o nosso camarada ficou a saber que teve imensa sorte ao ter sido abortada uma saída para o mato, de um grupo de combate em que ele estava integrado, pois o IN tinha-lhes preparada uma recepção em grande.


Guiné-Bissau> 2005> Zé Teixeira, no Cais de Buba, matando saudades


2. Tuga na tem sorte!

Eram quatro horas da manhã do dia 14 de Fevereiro de 1969, quando acordei com o ruído provocado por um colega, que animado por uma cervejica a mais, se veio deitar. Apesar de estar com o fato que minha mãe me deu no momento em que iniciei a caminhada da vida, o calor era tanto que a transpiração se tinha alojado no lençol, no terceiro andar da camarata onde tinha poiso para dormir.
Em noites assim quentes tinha por hábito, antes de me deitar, meter-me debaixo do chuveiro, deixar correr a água uns minutos e de seguida estender-me no leito, com o corpo bem molhado, à espera que o sono chegasse.
Outros camaradas adoptaram o sistema de encher o estômago com umas bazookas, bem fresquinhas, deixando que os vapores do álcool os ajudasse a passar para o lado do morfeu, o deus dos sonhos.

Por mais voltas e reviravoltas que desse na tarimba, o sono recusava-se a voltar, pelo que resolvi repetir a dose de chuveirada e voltei para o leito.

Após dois dias seguidos de saídas para protecção aos trabalhadores, na construção da estrada Buba/Aldeia Formosa, ia ficar um dia no quartel de serviço à Enfermaria se nada houvesse de anormal por parte do IN que exigisse mudança de planos.

Estava uma noite daquelas em que não se vê nada a um palmo do nariz. Só quem por lá passou é que sabe o que são estas noites e o medo que metiam, sobretudo para quem estava de sentinela, emboscado no mato ou em marcha para alguma operação surpresa.

Estendido de novo na cama, agora com o corpo bem fresquinho, tentava conciliar o sono, antes do burburinho da partida para os trabalhos da estrada dos grupos de combate escalonados, previsto paras seis da matina.

Alvorada atribulada
Deviam ser umas cinco horas quando o IN resolveu antecipar a alvorada, com 14 canhões s/recuo, quatro morteiros 120, bazookas e lança rockets, sem faltar as célebres costureirinhas, tudo em simultâneo e a cerca de duzentos metros do aquartelamento.

É fácil adivinhar a estrondosa alvorada, que se estendeu por longos e angustiantes minutos, animada pelo nosso morteiro de 80 mm, mais os de 60 que foram aparecendo, mais os obuses de 10,5 e mais as G3 que não podiam faltar nesta animada festa de alvorada.

Claro que eu, estando acordado, fui dos primeiros a chegar à meta, perdão à vala que se estendia em serpentina pela parada fora, vendo logo de seguida, centenas de corpos vestidos, à moda do pai Adão, mergulharem a grande velocidade, sem pedirem licença a quem tinha chegado primeiro. Foi um tudo ao molho e fé em Deus que originou alguns arranhões, hematomas e gritos, com palavras pouco agradáveis ao ouvido, à mistura.

Estranha forma de acordar as três Companhias Operacionais e a 15.ª de Comandos, se a memória não me atraiçoa.

Uma das primeiras granadas esmagou-se ali bem perto contra a parede do depósito da água, junto da minha caserna, fez um buraco e rebentou, deixando estilhaços em tudo o que era chão e... água, que rapidamente correu para a vala também, ensopando os corpos que lá se refugiaram. Foi o suficiente para acordar os mais retardatários, pois que os “velhinhos” impulsionados por uma mola invisível, ao ouvirem (acordarem) o som das saídas, lá longe, ou pelo grito “aí vem eles, filhos da puta, saltaram num ápice da cama e foram-se esconder na bendita vala, que tantas vidas salvou. Apenas um, por lá se deixou ficar, impávido e sereno, o colega, que me tinha acordado, cerca de uma hora antes e que só acordou horas depois, sem ter dado por nada do que entretanto aconteceu, tal era a “ramada”.

Mais rebentamentos se seguiram na parada, junto à Messe, junto à Enfermaria, na cozinha, etc. Depois foram-se perdendo por outras direcções que em nada nos afectaram, mergulhando a maioria no rio e na floresta em frente.

Perante tão poucos estragos, perguntei a mim próprio se de facto o IN estava ali para nos fazer guerra, ou apenas nos queria acordar. Da refrega tivemos um ferido ligeiro.

Sair de imediato, sim ou não?


Iniciadas as tréguas, são de imediato mobilizados dois Grupos de Combate (os que iriam ficar no Quartel durante o dia), para iniciarem a perseguição, tendo como enfermeiro de serviço, a minha pessoa.

Formados junto à saída para a pista de aviação, aguardávamos ordem de partida, quando o seu Comandante, o saudoso Alferes Barbosa (já falecido), repensa a estratégia e decide ir junto do Major Carlos Fabião, propor que a nossa saída se fizesse um pouco mais tarde, depois da aviação bater o terreno, pois o dia estava ainda a clarear. O risco de o IN estar emboscado por perto, a proteger tão grande arsenal, era evidente e uma perseguição desacautelada podia ser fatal.

Foi então a força dispensada.

Ao nascer do sol, veio a aviação, explorou o terreno e lá seguiu um Grupo de Combate a fazer o reconhecimento.
Verificou-se no local de onde partiu o ataque os indicadores do equipamento utilizado, com marcas de sangue, o que quer dizer que, no retribuir pouco amistoso de cumprimentos, acertámos no alvo. Regressaram com umas dezenas largas de invólucros, para registo histórico da festa de alvorada tão despropositada.
Os trabalhos na estrada nesse dia começaram mais tarde.

Eu segui para a Enfermaria, tratar arranhões, hematomas, unhas dos pés partidas ou arrancadas, uma ou outra ferida mais grave em resultado do conflito entre um corpo humano em fuga para vala protectora e um obstáculo mais agressivo, que lhe fazia barreira.

Os caixotes onde guardávamos os nosso parcos haveres, eram metidos debaixo da cama e à noite serviam de suporte (escadote) para os camaradas que tinham de subir para as tarimbas do 2.º e 3.º andares. Em caso de ataque nocturno, tornavam-se num perigoso impecilho na fuga apressada para a vala ou abrigo.

Feridos graves, houve um. Da parte da população houve alguns bem graves, tendo morrido carbonizada uma criança e foram queimadas nove moranças.

Encontro imediato com o IN

Um ano depois, já em Bissau a aguardar a embarque de regresso, fui ao Hospital Militar visitar o querido amigo Dr. Azevedo Franco e acompanhei-o na visita clínica aos seus doentes de ortopedia, entre os quais os IN aí internados em enfermaria própria. Um doente especial chamou-me a atenção pela sua história. Tinha sido ferido pelas nossas forças com uma rajada na perna que lhe atingiu também a barriga, ficando de intestino a céu aberto. Aguentou três dias enterrado no tarrafo de uma bolanha, até ser feito prisioneiro e enviado para o HM 241 em estado crítico. Estava safo, apesar de manco para toda a vida. Era apresentado como referência, pela sua capacidade de resistência.

Tentei entabular conversa e obtive como resposta: - “A mim ká sibe portugué, a mim ká miste papeia cum tuga”. Ao que eu ripostei: - Ká na tem probleminha, e, fui dar duas de conversa com o vizinho.

No dia seguinte ao entrar na enfermaria, notei-lhe um sorriso e fui cumprimentá-lo. Fiquei por ali cerca de meia hora, a falar em crioulo, das “nossas guerras”. Por onde andámos, onde nos cruzámos sem nos ver e nos cumprimentámos, nas linguagem da guerra maldita que nos separou até aquele momento. Talvez, não o afirmo, tivéssemos falado das razões que nos assistiam e fizeram de nós inimigos sem nos conhecermos tão pouco. A sua história de guerrilheiro começava com o início da guerra. Tinha corrido já a Guiné toda, mas nos últimos três anos estacionara no Sul, onde foi ferido e feito prisioneiro, precisamente o chão por eu andei também.

Ao saber que eu tinha estado em Buba, perguntou. Estavas lá naquele ataque que fizemos antes do sol chegar? (1)

Ao responder-lhe afirmativamente, continuou: - Logo que nosso ataque terminou, a tropa ia sair pelo portão da pista e recuou. Que pena! Eu estava logo ali à frente, emboscado, na curva da estrada, (para Sinchã Cherno) junto à berma da pista, à vossa espera. Tínhamos muito material a proteger e vocês tinham a mania de vir logo a correr atrás de nós... ia ser “manga de ronco”.
Pois... e eu estava lá, nesse grupo !

Tuga na tem manga di sorte! Um sorriso e um abraço talvez tenha selado este feliz momento.

A conversa continuou, enquanto o médico fazia a sua visita clínica.

Houve ainda outro dia em que pude voltar a falar com ele. Como gostava de ter gravado as nossas conversas, já que estes momentos jamais sairão da memória. Já com muito pó, a memória recusa-se a deitar cá para fora, tantos momentos, dias, horas, minutos marcantes, bons ou menos bons daquela vida de “guerrilheiro à força”.

Guiné-Bissau> Sare Tuto> 2005> Hoje, tal como ontem, encontro com o ex-IN. Na foto, ex-combatente do PAIGC que actuava em Buba.

Dantes era penoso reviver estes momentos, a mente recusava-se sem o espírito saber porquê. Traziam dor, amargura e sofrimento.
Hoje torna-se gratificante deixar a memória recuar e patinar naquele pântano, reviver, re-analisar ponto por ponto, acção por acção, gesto por gesto e redescobrir-me de novo.

Notas do Zé Teixeira:

(1) - De recordar em Outubro seguinte houve um ataque a Buba muito mais perigoso, com tentativa de assalto desenvolvido do lado da pista, precisamente pelo local onde este “nosso amigo” tinha estado emboscado, enquanto do lado do rio atacavam com artilharia pesada.

Este sim era para arrasar Buba com tentativa de penetração por parte do IN.
Pelos documentos que foram apanhados ao Capitão Peralta, (um croquis muito bem elaborado) foi possível verificar que este fez um estudo aprofundado de Buba e esquematizou o ataque de forma (aparentemente) tão bem organizada, que seriam “favas contadas” e Buba seria o seria o principio do fim, como o foi posteriormente Guiledje e Guidadje. Alguns pormenores, no entanto, segundo o Major Carlos Fabião (a) deitaram tudo a perder:

a) - O estudo do terreno pelo Peralta foi feito com a maré cheia. Um rio só, grande e largo. O ataque foi desenvolvido em noite de maré vaza, logo em vez de um rio só e grande apareceram-lhe também vários braços de rio. Foi a confusão total, pois tinha mandado avançar as tropas pelo meio do capim e montar o equipamento em determinado sítio junto à água, no meio do capim, em vez de água, havia muita terra à frente, sem capim, o que provocou a confusão.

b) - O Peralta ao fazer o reconhecimento deixou vestígios de passagem de pessoas que foram detectados pelas nossas forças. Foi decidido pelo Comando Militar de Buba, chefiado pelo Carlos Fabião, que um Grupo de Combate ficasse no exterior durante a noite.

Quando iniciaram o ataque, as tropas IN que se preparavam penetrar na povoação, viram-se confrontadas com um ataque pela retaguarda e fugiram.

Por outro lado, os fuzileiros reagiram a quente e contra-atacaram rapidamente junto ao rio, o que originou a debandada geral do IN.

Pregaram sim, um grande susto à nossa gente.

Seria interessante recolher o testemunho do comandante Júlio de Carvalho, que acompanhou o Capitão Peralta no estudo e comandou este ataque.

Felizardo fui eu, que entretanto já me tinha retirado para Empada e apenas ouvi lá de longe, o “manga de sakalata” em Buba.

(a) - Carlos Fabião em “A Guerra de África” por José Freire Antunes, Volume I, edição do Círculo de Leitores

José Teixeira
ex-1.º Cabo Aux Enf
CCAÇ 2381
_________________________

Nota do editor:

Vd. Último post desta série de 2 de setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2078: Estórias do Zé Teixeira (22): Saiu-lhe a sorte grande (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Guiné 63/74 - P2079: História da CART 2340 (Ferreira Neto) (3): Actividade das NT




Ferreira Neto, ex-Cap Mil, CART 2340 (Canjambari, Jumbembem e Nhacra, 1968/69)






História da CART 2340

Actividade das NT

Fevereiro – 1968
Operações:

Amigo Bom

Dia 13 - 2 Grupos de Combate (um Grupo da CART e um Grupo da CCAÇ 3 ), que constituíam o agrupamento III, da referida Operação, deslocaram-se para Jumbembem, onde pernoitaram.

Dia 14 - O agrupamento III, deslocou-se para a antiga povoação de Sare Samba Seidi, situada na margem Leste da Bolanha de Sinchã Mansaroto, onde pernoitaram.

Dia 15 - Às 08h00, por ordem transmitida pelo PCV, o agrupamento III assaltou o acampamento IN de Sinchã Mansaroto.
As NT por falta de experiência iniciaram logo a destruição do acampamento.
O IN emboscado nos arredores do mesmo, contra atacou as NT que destruíam o acampamento, constituído por cerca de 80 casas em 500 metros de extensão.
Só um grupo de combate conseguiu manter ligação com o PCV que pediu o apoio aéreo.
Uma parelha de T-6 veio apoiar o agrupamento que já se encontrava disperso.
Do combate resultou: 10 mortos IN confirmados e outros mortos e feridos prováveis. As NT sofreram 1 morto e 4 feridos africanos (dois soldados e dois carregadores).
O Agrupamento não conseguiu ligação entre os seus grupos dispersos, que retiraram em direcção a Jumbembem. Um dos Grupos permaneceu na zona de acção durante algumas horas, só retirando mais tarde.
Durante a acção um dos comandantes do pelotão e uma praça tentaram arrastar um morto e um dos feridos, no entanto, cansados e perante a ameaça de caírem em poder do IN e por não terem munições foram obrigados a abandoná-los.
As forças constituintes do agrupamento III regressaram no dia seguinte a Canjambari.

Da nossa acção resultou o seguinte:

80 Casas de mato destruídas
5 Cunhetes de munições destruído
3 Metralhadoras pesadas destruídas




Foto 1> Guiné> Canjambari 1968> Ex-Cap Mil Ferreira Neto

Comentário:
Foi a nossa primeira operação. Dias antes fui convocado para Farim, a fim de tomar conhecimento dos planos. O Comandante do Batalhão 1932, ao qual a minha Companhia independente estava agregada, disse-me que a minha Unidade iria tomar parte da operação conjunta com a CART 1691, pelo que eu disponibilizaria dois Grupos de Combate e que iria ser comandada por um dos alferes. Não sei se o Comandante do Batalhão ou outro dos oficiais superiores sugeriu que era melhor ser eu a comandar para ver como era e que além disso o meu pessoal como inexperiente só daria apoio à companhia actuante.

Foi o que aconteceu. Só que quando seguíamos em direcção ao objectivo recebo ordens para atacar umas casas de mato que se encontravam à nossa esquerda. Assim fomos, atacámos, incendiámos. Estando abrigados atrás de montes de baga-baga, eu dizia aos meus homens: - Calma, o pior já passou.
Mas não, o IN como era normal, quando se sentia atacado, abandonava o seu poiso e guarnecia os seus morteiros previamente instalados fora do acampamento e com o tiro regulado para o mesmo. As NT, foram literalmente, dispersas em vários grupos. O meu composto apenas por mim, dois soldados nativos, o soldado clarim, o rádio telefonista e dois carregadores. Para orientação dispus de uma bússola, oferecida pelo meu compadre, que me permitiu atingir Jumbembem.

A realçar, quando atravessávamos uma bolanha, ouvimos via rádio ordem do Major de Operações instalado no avião, que iam bombardear a bolanha, disse ao rádio telefonista: - Avisa que estamos no meio da bolanha.
Resultado só havia comunicação num sentido. Estávamos a pôr pé em terreno seco, quando ouvimos as granadas rebentarem atrás de nós.

O relatório que fiz sobre a Operação não agradou ao Major que me convocou para Farim e disse, que o relatório não justificava a minha acção. Respondi-lhe que relatava a verdade. Depois de troca de impressões pouco amistosas, ofereceu-se para redigir o relatório. Sem comentários.

As nossas relações a partir daí não foram das melhores. Em futuro próximo tentou sem êxito culpar-me de certos fracassos da sua responsabilidade.

Meses mais tarde, soube através do Capitão Miliciano adstrito à Acção Psicológica, de alguns factos que originaram a situação relatada.

Dentro da Acção Psicológica dia 13 ou 14 de Fevereiro, foi detectado o acampamento, que eu ataquei. Foram lançados panfletos convidando o IN a entregar-se pois que a tropa era boa etc. etc.

Resultado o IN, destacou um Bigrupo do Senegal, que fixou por flagelação o pessoal de Jumbembem, passando nas calmas a reforçar o acampamento objecto do meu ataque.

Março – 1969

Dias 25/26 - Na execução da Ordem de Operações n° 6, do COP 3, 2 Grupos de Combate emboscaram o Corredor de Sitató, em Dando Mandinga.

Dia 26 - 09h00, houve contacto com grupo IN, constituído por cerca de 10 elementos. As NT, causaram ao IN um morto confirmado e a apreensão de armamento e documentos.

Factos Importantes:
Dia 24 - Comandante Militar, Chefe dos Serviços de Saúde, uma equipa médica e o Comandante da CART, chegaram Canjambari com o fim de inspeccionarem o pessoal. O resultado da inspecção deu como operacionais 3 oficiais, 4 sargentos e 38 praças.

Comentário:
Antes de ir de licença tive informação de que alguns dos meus soldados urinavam ou evacuavam sangue. Suspeitei do pior, de haver mais atacados pelo mal, mas que por pudor não confessavam. Por isso, formei a Companhia e disse: - Sei que alguns de vós tem estes sintomas e que por vergonha não dizem. Quero também informar-vos que se trata de uma doença que tem cura desde que seja tratada a tempo, portanto quem tem estes sintomas dê um passo em frente.
Logo cerca de meia dúzia o fizeram.
Dei ordem para o furriel de transmissões, enviar para Farim uma mensagem relatando o facto.

Quando regressei de licença, em Bissau tomei conhecimento que uma equipa médica e comando militar se iam deslocar a Canjambari, pelo que integrei essa equipa.

Na reunião havida na Sede da Companhia, foi parecer da equipa médica que os soldados contagiados e provavelmente a maioria da Companhia estariam contaminados pelas águas. (Tinha sido uma época anormalmente seca. O poço que dispunha no aquartelamento tinha secado e a nossa fonte de água era proveniente um poço de grande diâmetro situado fora do perímetro do aquartelamento cheio de animais rastejantes mortos).

Uma das altas patentes militares teve então a ideia de que a água devia ser fervida, respondendo então um dos médicos que tal não poderia ser feito para a água do banho.

Resultado, a Companhia tinha que ser evacuada na quase totalidade para Bissau.

Abril – 1969

Dia 12 - 2 Grupos de Combate emboscaram o Corredor de Sitató em Dando Mandinga com contacto. O IN pôs-se em fuga tendo sido abatido 1 elemento ao qual foram capturados documentos.

Outras acções:
Dia 3 – 1 Grupo de Combate fez e recolha em Canjanbari-Praça duma Companhia de Pára-quedistas que actuou na zona de Canjambari IN.

Factos Importantes:
Dia 2 - Cerca das 19h30, devido a um curto-circuito, manifestou-se um incêndio numa caserna-abrigo que se propagou a um paiol existente no mesmo abrigo, tendo-a destruído completamente.

Comentário:
Tínhamos recebido há poucas horas o municionamento proveniente de Farim.
Foi uma noite autenticamente de S. João. Granadas de bazuca, de morteiro, cartuchos de G3, etc. tudo a ir pelo ar. Ninguém foi ferido. No entanto as viaturas estiveram em perigo, valendo a acção de dois elementos da Companhia para evitar o pior.

Anos mais tarde soube numas das reuniões anuais, que o tal curto-circuito, foi devido a uma churrascada de chouriço, que provocou o incêndio.

No dia seguinte, como atrás descrito, recolhemos os pára-quedistas. Durante a refeição da noite foi-me dito confidencialmente pelo Tenente-Coronel dessa Unidade, que era ideia do Comando Territorial, que eu permaneceria em Canjambari apesar da minha Companhia estar na sua quase totalidade em Nhacra. Ainda mais, os Pára-quedistas seriam os indigitados ou uma Companhia de Comandos, mas que eles se tinham manifestado contra e parece que Spínola aceitou, o que me custa a crer.

Dias depois recebo a visita do General Spínola, que me disse ir mandar abrir um furo artesiano e até construir uma piscina. Perguntei-lhe quando estava previsto reunir-me com os elementos sobreviventes à doença, ao grosso do pessoal que estava em Nhacra.

A resposta foi aquela, que eu já sabia: - Você fica aqui até ao fim da sua missão.
Eu muito inocentemente disse: - Sr. Governador, parece -me lógico reunir-me à Companhia que trouxe da Metrópole.
Ao que ele retorquiu: - Já disse fica aqui nomeado por escolha.
Se eu fosse oficial do Quadro não havia dúvida que ficaria todo babado. Era um Miliciano…

E assim foi. Fui mesmo o último a deixar Canjambari em fins de Junho.

Junho - 1969

Factos Importantes:
A CCAÇ 2533 que veio substituir a CART 2340, em Canjambari, chegou a esta localidade no dia 3 de Junho de 1969, recebendo o Treino Operacional que durou até ao dia 17 de Junho de 1969.

Entretanto o pessoal recuperado recolhia a Nhacra, onde a pouco e pouco se ia integrando na actividade operacional.

A partir do dia 12 de Junho o pessoal da CART, passou a executar a actividade operacional em virtude da companhia que ocupava Nhacra, ter ido ocupar outro sector.

A actividade no sector de Nhacra, foi de moldes diferentes daqueles do sector de Canjambari. Assim todas as operações realizadas foram de carácter rotineiro, sendo de realçar a quantidade de acções realizadas

As patrulhas eram essencialmente de contacto com as populações, visando uma acção psicológica, e a recolha de notícias, pelo que, normalmente um enfermeiro as acompanhava.

As emboscadas tendiam a evitar que pessoal fizesse cambanças ilegais nos rios Geba e Mansoa, e nos caminhos de prováveis infiltrações IN.

NOTAS SOLTAS:
A tabanca de Canjambari era constituída por 6 casas e 80 nativos. A de Jumbembem, maior número de casas e cerca de 400 nativos.

Tive o gosto, numa das primeiras acções de conquistar a população de instalar luz eléctrica nas casas dos homens grandes.


Foto 2> Guiné> Canjambari> Capitão Ferreira Neto parte mantanha com Homem Grande



Foto 3> Guiné> Canjambari> Ferreira Neto com crianças nativas



Foto 4> Guiné> Canjambari> Distribuição de mangos pela população



Foto 5> Guiné Canjambari> Inauguração de furo artesiano. Primeiros clientes


Fotos: © Ferreira Neto (2007). Direitos reservados.

Como Capitão sempre fui criticado pelos meus alferes, porque só os avisava no dia de acção.

Quando recebia de Farim, o envelope com o carimbo Secreto, já sabia que ia haver bernarda.

Lia a ordem de operações e era um só preocupado com o que iria acontecer.

E eram os constantes adiamentos das Operações que me mantinham numa expectativa constante e desgastante.

Disse simplesmente aos alferes: - Se eu vos informar, vocês dizem aos furriéis, estes aos soldados, estes ao pessoal da tabanca e estes… Já basta um preocupado.

E a propósito de Operações Militares.
Recebi como de costume o envelope secreto. A Operação Heróis Ilustres marcada, creio, que para Agosto de 1968, resumidamente era qualquer coisa como isto:
Dez grupos de combate, que montariam emboscadas em pontos diferentes e a determinadas horas diferentes. Cada grupo actuaria na sua vez após o bombardeamento (APAR) do objectivo, tomaria de assalto o mesmo e iria emboscar noutro ponto a uma determinada hora.
Isto para os dez grupos com objectivos diferentes movendo-se com capim com dois metros de altura.
Não queria acreditar no que lia, mas que poderia fazer? Como de costume não transmiti aos alferes.
Adiamento sucessivos e entretanto chega a minha vez de entrar de licença. Chamei o alferes Mota, o mais antigo, e mostrei-lhe a ordem de operação.

Exclamação dele: - Meu capitão, isto é de doidos!

Desejei-lhe felicidades e parti.

Não há dúvidas que essa minha licença foi vivida com o que poderia ter acontecido.

Quando regressei estava tudo muito calmo e a minha primeira pergunta foi como tinha corrido a Operação. Então o alferes com a alegria estampada no rosto disse-me que não se tinha realizado.

A causa disse-me, foi o General Spínola ter ido ao comando do Batalhão, e ao ver o plano das operações, o ter rasgado na cara do comandante, dizendo: - Mais uma Operação condenada ao fracasso.

O Alferes Pereira, Comandante do Pelotão Nativo da CCAÇ 3, era um excelente alferes, beirão, pequenino, era adorado pelo seu pessoal. Era ele que guardava o dinheiro e controlava os gastos dos soldados. Isto devia-se sobretudo, aos consumos de cerveja. Tudo corria bem e quando necessário havia os correctivos por parte do alferes que tinha de saltar para chegar à cara do prevaricador que sempre aceitava o correctivo por estar de acordo com o seu sentido de justiça.

O Pereira termina a sua comissão e é substituído por outro alferes ao qual recomendei que procedesse da mesma forma. Tal não aconteceu, e comecei a ter problemas devido às bebedeiras frequentes que o pessoal nativo tomava. Decidi que o cabo cantineiro tomasse nota das garrafas consumidas (67 cl). Para meu espanto verifiquei que o consumo médio era de nove garrafas por soldado. Quer dizer que havia alguns que superavam aquele número.

Quero referir-me também ao nativo da tabanca de nome Sori.

Este fula-forro, tinha um carácter muito inventivo, de tal forma que tomou a iniciativa de fazer na sua casa um dispositivo anti-morteiro, o seu telhado era constituído por uma caixa cheia de areia. Era o único da sua etnia e muito invejado pelo restante pessoal da tabanca.

Outro lado, era a nobreza do seu carácter. Certo dia, apareceu-me fazendo queixa de um soldado-auto, que lhe tinha morto uma galinha com a viatura. Disse-lhe: - Não te importes Sori, que o soldado paga-te a galinha. Ao que ele respondeu: - Capitão, não é pela galinha, mas sim pela forma que o soldado me tratou.
Chamei o soldado obrigando-o a pedir desculpas e pagar a galinha.

Em 10 de Setembro de 1968 a 15.ª Companhia de Comandos reforçou Jumbembem, no mês seguinte a 7 de Outubro, foi considerada inoperacional.

Em 2 de Novembro a 16.ª Companhia de Comandos reforçou Jumbembem. Cerca de um mês depois queriam também considerar-se inoperacionais. Só que desta vez o Comandante do Batalhão se impôs, dizendo que tinha uma companhia com 13 meses, outra com 11 meses e outra com 7 meses e nunca foram consideradas inoperacionais com a mesma actividade operacional dos Comandos. De relevar que as referidas Companhias de Comandos tinham alimentos frescos quando necessitavam e fornecidos via aérea e nós as outras uma vez por mês, via terrestre.

Era norma antes do embarque fazer as análises. Devido às demoras que normalmente se verificavam entre estas e o embarque era como certo muitos voltarem a serem infestados por parasitas.

Tal facto levou as chefias a procederem às referidas análises após o embarque. No Uige tínhamos um Capitão Médico que chefiava a correspondente equipa. Estas análises eram as rotineiras e tal como se faziam em terra.

Contactei o médico citado e relatei-lhe o que sucedera à minha Companhia. Em boa hora o fiz, porquanto o médico me disse que tais análises não estavam previstas.

Aconselhou-me a fazer pular o meu pessoal, antes da recolha da urina, pois que, se tornava necessário fazer soltar os vermes que se alojavam na parede interna da bexiga.

Assim procedi, e coloquei o pessoal aos pulos na coberta do navio, tal como uma dança guerreira índia. Eu próprio, no meu camarote, fiz uma sessão de pulos.

Resultado. Detectados cinco casos de contaminação.

Haveria mais histórias para contar, pequenas histórias, no entanto relevantes para o enriquecimento do carácter de quem as viveu.

Ferreira Neto
ex-Cap Mil
CART 2340
___________________

Notas do co-editor CV:

Vd. Post de 30 de Agosto de 2007> Guiné 63/74 - P2072: História da CART 2340 (Ferreira Neto) (1): Mobilização, Deslocamento para o CTIG e Alteração ao Dispositivo

Vd. Post de 1 de Setembro de 2007> Guiné 63/74 - P2075: História da CART 2340 (Ferreira Neto) (2): Actividade inimiga

domingo, 2 de setembro de 2007

Guiné 63/74 - P2078: Estórias do Zé Teixeira (22): Saiu-lhe a sorte grande (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)

José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , (1968/70).


Saiu-lhe a sorte grande,

por Zé Teixeira (*)

Os trabalhos da construção da estrada de Buba para Aldeia Formosa decorriam em ritmo acelerado. O estado físico e psicológico dos operacionais das três Companhias de Caçadores (1) envolvidas directamente na segurança do projecto estava em queda livre.

O cansaço provocado pelo vaivém diário na protecção à maquinaria, debaixo de sol abrasador e as constantes investidas do IN em emboscadas, montagem de minas e ataque ao aquartelamento, aliados à deficiente alimentação em resultado de escassez de mantimentos, provocada pelo afundamento de um barco carregado com produtos alimentares, segundo constou, foram quebrando as resistências humanas daquela juventude.

Todos os dias de manhã a fila, à porta do gabinete médico, ia engrossando. As queixas eram de toda a ordem, salientando-se a fraqueza física e o cansaço. Apareciam dores de toda a espécie, as mais estranhas e em todo o corpo.

A minha profunda homenagem de gratidão ao querido amigo Dr. Azevedo Franco, pela forma como soube sempre acolher e como actuou em defesa da saúde dos seus homens. Dispensava atenção e carinho. Ouvia toda a gente, mesmo aqueles que tentavam, através da manha, safar-se. Ele, que nos conhecia bem, algumas vezes lhes deu cobertura, com um ou dois dias de baixa, comentando comigo:
- Aí vem mais um! Já sei o que ele quer.

Para além da medicação apropriada possível, não hesitava em dar baixa sempre que lhe parecia necessário, para salvaguarda da saúde, correndo riscos pessoais, pois a quebra foi tão elevada que chegou a atingir cerca de 50% do pessoal activo.

Como resultado, apareceu por lá o homem do monóculo e pingalim. Juntou o pessoal presente, das cinco Companhias e botou discurso apelando ao sentido patriótico que, segundo ele, nos unia naquele inóspito local, derivando de seguida para a forma de superar as nossas carências alimentares. Voltando-se para o médico insistia:
- Estes homens o que precisam é de umas picas (2), aponta Bruno(3)-. Ao que o Dr. lhe respondeu:
- Frescos, meu Comandante, peixe, carne e descanso é o que esta gente precisa.

Uns dias depois, aparece uma Dornier com dois médicos idos de Bissau para fazerem um levantamento da situação ou seja todos os militares com baixa foram chamados a uma Junta Médica, para apreciar o seu estado de saúde.

Independentemente dos resultados quase nulos desta operação, surgiram outras situações de camaradas a tentar a sua sorte.

O meu prezado amigo Luís, não o Graça, mas outro da CCAÇ 2317 que tinha vindo de Gandembel, chegou à minha beira e comentou:
- Eu queria safar-me uns dias, mas não tenho de que me queixar! Estou cansado de tanta marcha!
Perguntei:
- Nunca tiveste uma doençazita?
- Sim. Tive uma úlcera no estômago, mas curei-a antes da tropa!
- Ainda te lembras dos sintomas e das dores que tinhas?
- Ah isso lembro-me bem. Sei os sintomas todos.
- Então porque esperas? - E marquei-lhe a vez.

Após uma nervosa hora na fila, lá foi chamado. O que se passou lá dentro não sei, mas um quarto de hora depois saiu com uma viagem até Bissau.

Com um ano e pouco de Guiné e oito meses no inferno de Gandembel, nunca mais lhe pus o olho em cima.

Entretanto as nossas Companhias separaram-se, pois a CCAÇ 2317 pouco tempo depois foi para Nova Lamego (Gabu).

O resultado final soube-o há algum tempo atrás, quando o encontrei no convívio da sua Companhia, no qual tive o prazer de estar presente a convite do Idálio Reis, a quem agradeço a cortesia.

Após cerca de um mês no Hospital de Bissau em exames, o médico deu-lhe alta, por não acusar nenhuma doença no estômago. Mas este médico foi de férias e o substituto ao analisar o seu processo e, vendo ali um conterrâneo, perguntou-lhe se era de Lousada e, ao receber uma resposta afirmativa, identificou-se.

Depois de localizados no terreno e nas famílias a que pertenciam, o mesmo médico perguntou-lhe se queria ser evacuado para Lisboa. Ora, não se pergunta a um cego se quer ver, com o devido respeito que tenho pelos invisuais.

Uns dias depois seguia para Lisboa e foi para o Hospital Militar Principal onde ficou uns meses em observações e em exames que davam sempre inconclusivos. Acabou por ser dado como apto a regressar à Guiné e foi colocado na sua Unidade Mobilizadora, à espera de transporte para regressar à Guiné.

O tempo foi passando e com o regresso da sua Companhia foi desmobilizado, entrando na tão desejada peluda.
- E o estômago, como está ?
- Até hoje não me queixo de nada e nunca entrou lá para dentro qualquer mezinho para curar uma doença que não tive, mas que me safou.

Zé Teixeira
ex-1.º Cabo Aux Enf
CCAÇ 2381
__________

Notas de Z.T.:

(1) Havia ainda uma Companhia de Fuzas e outra de Comandos, estacionadas em Buba, que desenvolviam um trabalho de patrulhamento e protecção indirecta.

(2) Na altura o Capitão Almeida Bruno, seu Ajudante de Campo. Daqui resultou mais um apelido para o Caco, o Aponta,Bruno

(3) POassados uns dias, no barco de produtos alimentares lá veio um grande caixote cheio de medicamentos. Por ordem do médico devolvi tudo a Bissau com a indicação de que não tínhamos efectuado tal encomenda.
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Nota do editor:

(*) Vd. último post desta série> 18 de Agosto de 2007> Guiné 63/74 - P2058: Estórias do Zé Teixeira (20): Fermero ká tem patacão pra pagá, toma minha mudjer.