sábado, 13 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2175: Tabanca Grande (36): Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (CCS/BCAÇ 2845, Teixeira Pinto, 1968/70)



1. Mensagem do nosso novo camarada, Albino Silva, com data de 10 de Outubro de 2007

Caros Camaradas:

Junto envio os dados que me pedem para o Blogue, que aliás conheço bem, pois todos os dias lhe faço uma visita.

Chamo-me Albino F. P. Silva e moro em Esposende.

Posto: ex-Soldado Maqueiro N.º Mec 01100467

Unidade a que pertenci: CCS/BCAÇ 2845

Prestei serviço na Guiné de 1968 a 1970 em Teixeira Pinto

Junto envio a minha foto como militar, aprumadinho que era, uma à civil e ainda o emblema do meu Batalhão.

Um grande abraço para vocês que têm sido incansáveis nas informações que nos transmitem no dia a dia, falando no nosso passado que já tem uma certa idade, mas que nos está na memória, com tendência a não mais esquecer.

Tenho mais fotos para enviar sempre que seja preciso, pois estou ao dispor.

É evidente que futuramente falarei do meu Batalhão e de tudo que tenho conhecimento, mesmo relacionado com outras Companhias, enquanto comandadas por este Batalhão.

Tenho um Livro que eu próprio editei e que tem o título História da Unidade BCAÇ 2845 e que tem sido vendido na Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra, em Braga. Nele conto as histórias passadas com todas as Companhias do Batalhão, mas tenho outras que não foram lá contadas.

Abraços
Albino Silva
Ex-Sold Maqueiro
CCS/BCAÇ 2845

2. Comentário de CV

Caro Albino Silva, bem-vindo à nossa Tabanca Grande, onde poderás contar as tuas histórias e mostrar as tuas fotos.

Aconselho-te a enviares directamente para nós a tua correspondência, endereço luisgracaecamaradasdaguine@gmail.com

Não te preocupes com o estilo literário, pois na nossa Caserna convivemos e compreendemo-nos, independentemente da formação académica de cada um e do antigo posto militar que se teve.

O tratamento, por tu, institucionalizado pelo nosso Comandante Luís Graça, serve exactamente para aprofundar a camaradagem e a amizade entre antigos combatentes, que têm em comum as difíceis e incontáveis horas vividas na Guiné, aquando da nossa quase meninice.

Não posso deixar de transcrever um período da crónica escrita pelo grande mestre da literatura portuguesa, António Lobo Antunes, na Revista Visão de 4 de Outubro de 2007 e que poderás ver na íntegra no Post 2169 - De repente a certeza de ter voltado anos atrás e nós quase meninos, julgando-nos homens, nas Terras do Fim do Mundo, desamparados, a marcarmos cruzinhas nos calendários a cada dia que passava.

Para ti novo amigo
Um abraço da Tertúlia
Carlos Vinhal

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2174: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (5): Aquela Terceira Semana Prodigiosa de Setembro


Capa do romance policial de Agatha Christie, O assassinato de Roger Ackroyd. Lisboa: Livro so Brasil. s/d. (Colecção Vampiro). Capa de Cândido Costa Pinto.

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

Texto enviado, em 21 de Agosto último, pelo Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70).

Luís, aqui vai o quinto episódio. Prometo que o sexto seguirá até sexta feira. Julgo-te em férias, mais do que merecidas. Farei também uma semana de férias, até 3 de Setembro. Não te esqueças do meu pedido quanto ao Coronel Coutinho e Lima, o último comandante de Guileje. Um abraço do Mário.


Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (5): Aquela Terceira Semana Prodigiosa de Setembro


Ligeiro foguetório sobre Finete e Missirá


Tudo começou a 20 de Setembro de 1969,quando pelas 18h30, mal tínhamos chegado a Missirá, Finete foi flagelada durante uma hora. Não foi um ataque devastador, do alto dos abrigos e nas vigias dos sentinelas cedo se percebeu que era um tiroteio proveniente de um grupo pouco numeroso, vieram armados de morteiros e rockets, mas era um fogo intermitente, pausado e bastante económico, como se viessem só para cansar ou intimidar pelo factor surpresa daquele pânico repentino e não pelo caudal tumultuoso, avassalador da metralha.

Houve tempo para pedir a Bambadinca que fizesse fogo de morteiro sobre Malandim, notificando igualmente o Xime para estar atento, pois talvez viesse a ser necessário mais tarde foguear Chicri, infernizando-os na retirada para Madina. Feitos estes contactos, preparou-se uma coluna de auxílio a Finete que chegou a Canturé, já há muito cessara o fogo. Após uma caminhada prudente, encontrámos Finete moralizada, resistira bem com as suas Mauser, G3, dilagramas e o recém-chegado morteiro 60. Só destoara um ferido ligeiro e uma morança danificada. Para quem, como eu, vivia o espectro de um ataque intimidatório e brutal, susceptível de neutralizar por largos meses o destacamento onde íamos buscar os meios humanos para patrulhar Mato de Cão, o que acontecera era tranquilizador, o menor mal possível.

Mas não se confiava nestes pequenos surtos de fogo, a que Madina parecia querer habituar-nos. A 24 de Setembro de 1969, regressados igualmente ao anoitecer de Mato de Cão, a gente de Madina, de novo a partir das estrada de Cancumba, lançou um curto ataque com rockets que esvoaçaram sobre o quartel enquanto um punhado de atiradores metralhavam a porta de armas e três abrigos. Um morteiro flagelou meia dúzia de vezes o interior de Missirá, felizmente nas hortas e outros locais não habitados. Eu estava entregue aos cuidados do alfaiate Malâ Mané, um dos homens mais sorridentes que conheci, era um riso largo com dentes de ouro e óculos à Stevie Wonder e que veio de escantilhão atrás de mim, até sossegar dentro de uma vala, deixando-me entregue aos afazeres da resposta.



Amigos turras em Missirá ?


Foram escassos dez minutos em que a resistência firme, sobretudo dos morteiros e das bazucas, cortou cerce a intenção da gente de Madina em aterrorizar também com aquele fogo esparso e cadenciado, à semelhança do que fizera em Finete. Na manhã seguinte, verificámos com apreensão que o inimigo retirara a corta-mato, fugindo aos trilhos normais, que estavam armadilhados. Nessa manhã, alguns soldados diziam em voz alta:
-Estes gajos estão informados das picadas por onde não podem andar, têm amigos turras em Missirá.

Sempre procurei desqualificar este tipo de crítica, hoje sei que havia fundamento acerca da passagem de informações para a gente de Madina, a partir de Missirá e Finete. Não se devem esquecer os laços de sangue: havia mandingas de Missirá em Madina, balantas de Finete em todo o Oio.


As reivindicações dos caçadores nativos do pelotão


Depois da curta flagelação, recolhidas as amostras do fogo inimigo e verificada a inexistência de estragos, recolhemos aos leitos para sair pelas cinco e meia da manhã, pois havia patrulha de reconhecimento e pelas dez partiríamos para Mato de Cão. Exactamente quando saio ao alvorecer do abrigo para ir tomar uma chávena de café, descubro que tenho o pelotão formado em U à porta, impecavelmente indumentados, boina castanha na cabeça. O Domingos Silva apresenta o pelotão, limito-me a mandar descansar e regresso ao abrigo para me fardar a rigor. Regressado, igualmente de G3 no braço, pergunto ao que vêm. Noto que não estão presentes os furriéis nem os cabos brancos. É o mesmo Domingos quem vai ser o porta-voz: o Pel Caç Nat 52 está em Missirá desde 1967, tem vivido os patrulhamentos diários a Mato de Cão, ajudou a refazer o quartel, tem colaborado nas obras de Finete, consideram todos que chegou o momento de serem transferidos, merecem um pouco de repouso, vêm por este meio expressar ao seu excelentíssimo comandante os protestos da mais elevada consideração, não estão revoltados, sentem-se bem tratados mas acham que chegou a hora da mudança, o excelentíssimo alfero que providencie junto de Bambadinca para que haja uma transferência, tão depressa quanto possível, estamos cansados, este clima arrasa, o nosso inesquecível comandante é um exemplo de trabalho, parece que nasceu em África, é o pai de todos nós, queremos que ele parta connosco.

É uma longa oração, o Domingos está num momento feliz da oratória, não se ouve uma mosca, o meu olhar vagueia por todos estes semblantes rígidos, agora o meu olhar paira sobra as copas dos bissilões, desce como se pudesse ver Canturé, o coração aperta-se, é o pronuncio da despedida, começo a enfrentar o luto por essa Missirá inesquecível e profundamente amada. Com os olhos humedecidos, mas sem vacilar na voz, respondo-lhes que percebo o sentido da transferência e comunico que hoje mesmo procurarei expor em Bambadinca o que me acaba de ser pedido. O que se segue, deixa-os estupefactos. Digo-lhes que compreendo que tem havido muita canseira em Missirá mas que em Bambadinca nunca mais seremos esta família: ali trabalharemos em secções, andaremos a reboque de uma escala de serviços e de múltiplas necessidades, é mentira que descansaremos mais, não haverá Mato de Cão todos os dias, nem os reforços, nem as colunas de reabastecimento nem as obras, mas haverá colunas a qualquer hora, oiço o protesto dos camaradas que fazem emboscadas à volta de Bambadinca, eles devem falar com os camaradas de Bambadinca como eu faço. Garanto-lhes que tudo farei para que haja esta transferência, mas vou por arrasto, aqui ainda sinto dignidade, lá andaremos aos baldões da sorte a cumprir a escala de serviço e as necessidades operacionais, seremos uma serventia, cumpriremos as ordens dos outros. Vou com vocês, deixo o meu coração aqui.

Feito o reconhecimento, partimos para Mato de Cão, os batelões vieram à hora, avançámos para o quartel de Bambadinca, o Pires, o Teixeira e o Benjamim irradiaram para as sua missões, eu fui procurar o Comandante Corte Real.


Uma conversa extraordinária com todo o comando reunido


Jovelino Corte Real recebeu-me com deferência mas cedo observei que o olhar era gelado. E transmitiu-me as suas preocupações: era facto que Missirá e Finete estavam a sofrer pequenas flagelações, mas ele e o Major de operações estimavam que o inimigo circulava à rédea solta, parecia que tínhamos perdido a mentalidade ofensiva e queriam saber porquê.

Com o rosto afogueado pela torpeza da insinuação, pedi licença para responder na presença do Major de operações. Para minha surpresa, entrou igualmente o segundo comandante, o Major Cunha Ribeiro, presumo que acidentalmente. Aclarei a voz, procurando repor a verdade dos factos e sem me enervar: qualquer inimigo tinha, nas circunstâncias actuais, capacidade para pequenas, médias e grandes flagelações, ele estava informado dos nossos patrulhamentos diários, na época das chuvas há sempre mais gente doente, era do conhecimento do novo comando que Missirá ficara num escombro em meados de Março, era hoje de novo um destacamento graças aos soldados e à população civil, mesmo com algum apoio de Bambadinca e da engenharia de Brá. Quando chegara a Missirá, encontrara quase dois pelotões. Hoje tinha um pelotão e uma secção. Se o novo comando entendia que houvera perda de mentalidade ofensiva, em nome dos meus soldados pedia formalmente que fôssemos transferidos prontamente. Aliás, aproveitava para transmitir o pedido dos caçadores nativos que se encontram em Missirá há mais de dois anos e meio.

Na réplica, o Comandante suavizou o nível das críticas e prometeu reapreciar a situação nos próximos dias. Furioso com a injustiça da insinuação, virei as costas e desci apressadamente a rampa de Bambadinca, com a fome no corpo e na alma. E só depois de duas bifanas no Zé Maria é que ganhei coragem de me lançar na bolanha ainda enlameada, sem gozar a magnitude do palmar à distância.


Uma primeira conversa esotérica com o padre Lânsana Soncó



Anoitece quando empunhando o meu caderninho preto onde consta a palavra Soncó que tem lugar a minha apalavrada reunião com o Padre Lânsana, meu vizinho e admirado sábio. Estamos acompanhados pelo Benjamim e, sempre que necessário, Cherno traduz directamente para mandinga. Peço primeiro a Lânsana que fale sobra a duração da época das chuvas. Ele beberricara chá de erva cidreira e comera pãezinhos quentes preparados pelo Jobo, servindo-se generosamente de talhadas de marmelada. Respondeu dizendo que a época das chuvas vai desde o princípio de Março até finais de Outubro, mês em que normalmente já chove pouco. Recordou que é uma época com ondas de calor sufocante, grande trovoadas no princípio e no fim, redemoinhos que começam por ser manchas pretas que começam nas bolanhas e se transformam em colunas de ar destruindo tudo à sua passagem.

Perguntei-lhe depois quais as culturas desta época. Com gestos serenos, as suas mãos mascarradas pela tinta com que desenha elegantes caracteres árabes, ele que tem uma pose de Fu Manchu, fala do cultivo do milho preto e basil, da mandioca, do arroz e da batata doce. Observo que sobre a cultura de arroz tinha estado a conversar com o chefe da tabanca de Finete, N’cuia, um gentil balanta que me aturava estes interrogatórios. Afinal, muitas destas questões eram cuidadosamente versadas em livros publicados pelo Centro de Estudos da Guiné Portuguesa.

Perguntei-lhe à queima roupa se Missirá sempre existira com esta nome, ao qual ele respondeu:
-Só a partir do pai de Malã é que Mansacunda é que passou a chamar-se Missirá, em homenagem ao lugar santo.

Avancei depois para a questão delicada da lealdade dos Soncó e dos Mané à bandeira portuguesa. Como se estivesse a filosofar olhando para um ponto fixo, o padre lembrou que em todas as culturas há ressentimentos, traições, mudanças de opinião. Toda a gente sabia que Seco Soncó, um irmão de Malã que vivia em Canturé, nunca aceitara a escolha de Malã para régulo com o patrocínio das autoridades portuguesas, tinha logo apoiado o PAIGC desde o início da luta armada. E foi exactamente quando eu me preparava para fazer perguntas sobre a época seca que Umaru pedi licença para pôr a mesa, dez militares esperavam à porta da messe que acabassse aquela conversa esotérica. Lãnsana prometeu continuar a dar-me todos os esclarecimentos necessários.

Leituras: de Simenon a Agatha Christie

A casa do canal, de Georges Simenon não é um policial mas é um denso romance psicológico onde não vai faltar um homicídio. Uma jovem de dezasseis anos parte de Bruxelas para ir viver com familiares em terras flamengas, em Neroeteren. Ela chama-se Edmée, é cosmopolita e nunca se sentirá bem em meio rural, vendo os barcos passar entre comportas, no meio de tios e primos que chapinham passos na lama.

Para quem duvide que Simenon seja um grande escritor, este livro dissipará todas as dúvidas, tal a capacidade dos registos humanos, o poder descritivo perfeitamente controlado, os diálogos enxutos, a riqueza de pormenores da Bélgica profunda: os objectos domésticos, as conversas à mesa, o vestuário, a contenção dos sentimentos, o patinar na neve, o ciclo das estações. Edmée é assediada pelo primo primogénito, indiferente à paixão que desencadeara noutro primo que a irá assassinar, brutalizado pela perda. Leitura magnífica e não paro de acariciar a linda capa de Bernardo Marques, um modernista que soube elevar o design gráfico à categoria de grande arte.



Capa do romance de Georges Simenon, A Casa do Canal. Lisboa: Livros do Brasil. s/d.. Capa de Bernardo Marques.

Foto: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.


Soube-me bem reler O assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Christie. Para quem está esquecido, este romance dos anos trinta continua a ser uma singularidade nos anos sessenta: é o assassino que veste a pele de narrador, o Dr. Sheppard, médico de King’s Abbot, uma aldeola da Inglaterra rural. O romance deu controvérsia na época, a criadora de Hercule Poirot foi acusada de excesso e quebra de regras ao inviabilizar que o leitor pudesse participar na decifração do enigma. O que é importante é a textura com que a grande senhora do crime promove os inquéritos de Poirot, acolitado pelo próprio homicida e pela sua irmã bisbilhoteira. Uma obra prima absoluta, além do mais com uma bela capa do Cândido da Costa Pinto.


Estão a chegar alguns dias trágicos, para mim e para Missirá. Vem aí o colapso nervoso do [Furriel] Luís Casanova, que me vai deixar ainda mais sozinho; o correio de Lisboa faz-me descer às profundezas do inferno, há cóleras que se destilam em tinta, diferentes juizes e juízas que proferem sentenças de acusação, o possível casamento com a Cristina é censurado em coro; Missirá será de novo flagelada e depois, em meados de Novembro, por íncúria minha, deflagrará uma poderosa mina anti-carro em Canturé, agravando o moral das tropas.

Estamos numa época em que as chuvas são inclementes, os atoleiros das viaturas uma prática corrente, os soldados cada vez mais exaustos e a acreditar que a transferência [para Bambadinca] ia melhorar as coisas. É um tempo de prodígios, e Deus voltou a manifestar a Sua infinita misericórdia comigo. É um tempo em que se perderam vidas e em que julguei que Cherno Suane, o mais devotado dos amigos, ia morrer. Falemos então desse tempo.

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Nota de L.G.:

(1) Vd. post anterior desta série > 5 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2154: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (4): Cartas de Missirá, Setembro de 1969

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2173: Recordações do 1º Comandante do Pel Caç Nat 52 (Henrique Matos) (4): O capitão de 2ª linha Abna Na Onça, régulo de Porto Gole

Guiné > Zona Leste > Cuor > Missirá > 1966 >Alguns elementos do Pel Caç Nat 54 e da CCaç 1439 (sedeada em Enxalé), após o ataque ao destacamento de Missirá de 22 de Dezembro de 1966 (1).

Foto: © Henrique Matos (2007). Direitos reservados.


1. Mensagem do Beja Santos, enviada a 23 de Julho último ao Henrique Matos, com conhecimento aos editores do blogue:

Assunto: Surpresa para o Queta: o Queta responde! (2)

Querido 1º Comandante, o Queta sentou-se diante do computador, surgiu a imagem, ele ficou especado, o silêncio era de cortar à faca,depois, com a calma do costume, deu a sua opinião. Trata-se do régulo do Enxalé, o Capitão Abna Na Onça ( escrever-se-á assim?).

Seria Capitão da Polícia Móvel, morreu em 1967, no destacamento de Bissá (entre Porto Gole e Mansoa), uma roquetada que matou 7 dentro de uma cubata. Por favor, responde.

Hoje, trabalhei com o Queta as nossas memórias de Finete e os meses de Novembro e Dezembro de 1969, em Bambadinca. Não foi um período muito feliz, o 52 passou a ser um carro-vassoura, as emboscadas à volta da pista de aviação deram-me cabo do sistema nervoso. Um abraço do Mário

2. Resposta do Henrique Matos, no mesmo dia:

Assunto - Resposta ao Queta

Caríssimo:

Não há dúvidas que a memória do Queta está em ordem. Trata-se realmente do Capitão de 2ª linha Abna Na Onça, que era régulo de Porto Gole (não do Enxalé) e comandava a Polícia Administrativa, um grupo de pouco mais de 20 elementos que tinha uma farda esverdeada e estava armada com Mauser. Era um homem muito respeitado, não me esqueço que os soldados do 52 o tratavam por pai.

Morreu em Bissá (ele e muitos outros), um chão balanta dominado pelo IN, onde alguém se lembrou de montar um destacamento sem o mínimo de condições (3).

O Cap Mil Pires, um operacional de excepção, que comandou a 1439 (do Zagalo) no Enxalé e que infelizmente já não está entre nós, disse quando o major de operações de Bambadinca falou em abrir aquele destacamento:
- Bissá vai ser um inferno.
Ele sabia o que dizia.

Não sei se um dia vamos ter de falar sobre as asneiras que se fizeram, só porque um senhor sentado num gabinete com todas as mordomias tinha uma ideia e não conhecia minimamente o que passava no terreno. Isto saiu assim de rajada só para te responder ainda hoje.

Um grande abraço, Henrique

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Notas dos editores:

(1) Vd. posts anteriores:

14 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2105: Recordações do 1º Comandante do Pel Caç Nat 52 (Henrique Matos) (1): Ataque a Missirá em 22 de Dezembro de 1966 (Parte I)

14 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2107: Recordações do 1º Comandante do Pel Caç Nat 52 (Henrique Matos) (2): Ataque a Missirá em 22 de Dezembro de 1966 (Parte II)

6 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2158: Recordações do 1º Comandante do Pel Caç Nat 52 (3): O famigerado granadero do Enxalé, da CCAÇ 1439 (1965/67)


(2) Vd. posts de:

30 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1329: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (22): A memória de elefante do 126, o Queta Baldé

20 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2063: Álbum das Glórias (24): O pretoguês Queta Baldé, uma memória de elefante e um grandecíssimo camarada (Beja Santos)


(3) Vd. post de 1 Maio de 2005 > Guiné 69/71 - X: Memórias de Fá, Xime, Enxalé, Porto Gole, Bissá, Mansoa (Abel Rei)

(...) Em 15 de Abril de 1967,, as NT sofrem um duro revés em Porto Gale… 7 mortos:

Dia trágico, este, para quantos se encontravam no 'Inferno' de Bissá!

Em Porto Gole, estando de serviço à meia-noite, ouvi fortes rebentamentos, e enormes clarões, lá para as bandas de Bissá. Contudo não pude averiguar ao certo o local, onde durante mais de uma hora [houve] constante tiroteio (...). Procurámos entrar em contacto pela via rádio, mas eles não deram sinal, pelo que deduzimos ser alguma operação apoiada com os obuses de Mansoa, como muitas vezes estamos habituados (...).

De manhã, e como estava previsto, saíram os homens, que na véspera tinham chegado, mais alguns deste destacamento, cuja missão era levar para Bissá um abastecimento de alimentos e munições (...).

Partiram às seis e às sete chegaram cá civis para nos informarem de que Bissá tinha sido atacado e havia feridos a necessitarem de ser evacuados de helicóptero, pois o rádio deles estava avariado desde o princípio e não podia dar comunicação para nós, e o nosso, naquele momento para cúmulo do azar, também não obteve ligação com o Comando em Enxalé, tendo de ir pessoal em duas viaturas até lá levar a mensagem, demorando portanto, o socorro.

Por volta do meio-dia e picos, chegou o primeiro helicóptero, e para espanto nosso, com mortos e não feridos, como supúnhamos! Depois mais três aterragens: foram sete mortos no total, todos africanos.

Houve mais cinco feridos, sendo quatro nativos do Pelotão da Polícia Administrativa, e um branco da nossa companhia, que foi evacuado para Bissau.

Mas aconteceu o que não esperávamos, e eu confesso: apesar de estar cá há pouco tempo, vieram-me as lágrimas aos olhos. Houve choro de todos, com gritos e desmaios das mulheres que, como que adivinhando o que aconteceu, entraram de rompante dentro do destacamento, numa altura em que procedíamos à pesagem de peixe fresco chegado do rio...


Tinha morrido um capitão de 2ª linha, mais seis homens nativos, todos pertencentes à Polícia Administrativa e todos eles com as famílias cá na Tabanca em Porto Gole. Morria o homem, em quem se tinham fortes esperanças, para acabar com a guerrilha inimiga na zona, o capitão Abna Na Onça, por ser corajoso e respeitado por negros e brancos. Um homem que desde o início da guerra vinha enfrentando, com máxima inteligência, aqueles que o fizeram sofrer, matando-lhe toda a família (...).

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2172: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/69) (Idálio Reis) (11): Em Buba e depois no Gabu, fomos gente feliz... sem lágrimas (Fim)

Guiné > Região de Tombali > Gandembel > CCAÇ 2317 (1968/69) > Depois do abandono de Gandembel/Balana em 28 de Janeiro de 1969...

Em Buba, [, Região de Quínara,] durante os 3 meses de permanência [de 8 de Fevereiro a 14 de Maio de 1969], tomámos parte das forças de segurança na construção da nova estrada [Buba - Aldeia Formosa].

Foto 603 > Um camião-zorra para transporte das máquinas serviam de poiso ao pessoal apto para qualquer contrariedade.
Foto 601 > Um elevado número de nativos limpavam as bermas, com o uso de catanas.


Foto 602 > E dois tractores de rodas com bulldozer regularizavam os terrenos da faixa de implantação da estrada.

Foto 604 > Uma vista de Samba-Sabáli, uma antiga tabanca abandonada, que servia de posto avançado e permanente na segurança

Foto 605 > Aqui, já a estrada tinha sido beneficiada de uma primeira camada. Este morteiro fazia parte de uma segurança de rectaguarda.

Foto 606 > Todos os dias se deslocava um T-6. Esta aeronave aterrou coxa, e o seu piloto pode considerar-se um homem feliz, pois as bombas que se postavam sob o bojo, não rebentaram.

Foto 607 > E as minas anti-pessoais pareciam continuar em nossa perseguição...


Fotos: © Idálio Reis (2007). (Editadas por L.G.). Direitos reservados.

Assunto > A Companhia continuaria no Sul, bem próximo de Gandembel/Ponte Balana. Buba, a necessitar de grandes efectivos, foi o nosso destino, a perdurar até 14 de Maio de 1969. E finalmente o sossego de Nova Lamego, até ao regresso definitivo.




XI (e última) parte da história da CCAÇ 2317, contada pelo ex-Alf Mil Idálio Reis (ex-alf mil da CCAÇ 2317, BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana 1968/69) (1).Texto enviado em 28 de Fevereiro de 2007.

Caros Luís e demais companheiros da Tertúlia.

Chegados a Aldeia Formosa [actualmente, Quebo], foi-nos propiciado uns dias de descanso. Pela forma afectuosa como fomos recebidos, foram dias de expurgo, e também de recuperação. Também o da fuga à solidão, o do reencontro com nós mesmos, e estes poucos dias, de um maior convívio e solidariedade, soube-nos particularmente bem.



Segurança à construção da estrada Buba-Aldeia Formosa


Havia uma fundamentada esperança que a Companhia iria ser colocada num local de maior sossego, mas o que é verdade, é que a 8 de Fevereiro, parte-se para Buba.

E o objectivo estava definido, que era o de manter segurança aos trabalhos relacionados com a pavimentação da estrada de ligação entre estes 2 aquartelamentos [Buba - Aldeia Formosa].

E a execução desta empreitada, antevia-se desde logo, bastante complexa, pois que requereria grandes efectivos militares, a fim de manterem a necessária segurança às máquinas operadoras.

E os locais de implantação da estrada, vinham sendo fortemente fustigados por uma actuação empenhada e sistemática do PAIGC, que intentava contrariar, de todo, a realização dessa infra-estrutura rodoviária.

O bastião de Salancaur, como local de refúgio dos guerrilheiros do PAIGC, não era distante, e as suas acções de armadilhamento e de contacto directo com as NT, apareciam com bastante frequência, o que demonstrava uma forte obstinação tendente à sua não concretização. E agora, despreocupados de Gandembel, até podiam agir com maior poderio.


Buba: Sede do COP 4, sob comando do saudoso major Carlos Fabião


Buba era um pequeno agregado de população indígena, com uma larga rua de permeio, como que a ligar a pista de aviação com o rio Grande de Buba.

Os edifícios militares estavam na parte mais baixa, juntos ao rio. As instalações eram substancialmente melhores que as deixadas atrás, com pavilhões prefabricados a servirem de casernas, e onde todos os militares tinham direito a uma cama com colchão. Também a qualidade da alimentação, em nada se comparava com a que nos fora ofertada noutros tempos.

Estava sedeada em Buba um grande efectivo militar, onde se incluía uma das Companhias de Comandos, salvo erro a 15ª CCmds, para além da Companhia que aí estava há mais tempo — a CCAÇ 2382 —, a que se viriam juntar a minha e a CCAÇ 2381.

Todo este efectivo militar, estava sob o comando do saudoso major Carlos Fabião (2), que detinha o COP 4.

E durante estes 3 meses de permanência [de finais de Janeiro a Maio de 1969], a nossa acção incidiu na segurança da estrada, com as tropas a permanecerem em Buba, com excepção de algum tempo (cerca de 2 semanas) em que cada grupo de combate se deslocou por Nhala e Samba Sabáli.



De novo as minas e as emboscadas, mas sem consequências para a malta da companhia

Estivemos, por 3 vezes, directamente envolvidos com o inimigo, em forma de emboscadas, mas as consequências dos confrontos não foram graves. Recordo que num ataque a Samba Sabáli (uma das tabancas abandonadas, e que foquei atrás, quando me referi a essa data de 15 de Maio) haver 2 feridos, um dos quais com uma certa gravidade e que viria a ser evacuado para Lisboa.

Os patrulhamentos tinham a sua origem em Buba, faziam-se incidir essencialmente nas imediações da frente dos trabalhos da estrada, e eram realizados ao princípio da noite ou então antes do alvorecer. Desenvolviam-se a nível de Companhia, portanto com quantitativos considerados suficientes.

No que se relacionou com os trabalhos, era desenvolvido um grau de segurança da estrada, de cada lado da mesma, com um algum afastamento do seu eixo. Nestas andanças deste tipo, o meu grupo, foi apanhado mais uma vez por um enxame de abelhas, que se encontrava num carcomido tronco de uma velha árvore. Alguns foram picados por várias vezes, onde me incluí, e que o inchaço nos desfigurou durante um certo tempo.

Todos os dias, na deslocação para a frente dos trabalhos, havia que proceder à picagem da velha estrada. Num dessas vezes, levantámos 38 minas anti-pessoais.


Os cataneiros chegaram a recusar a ida para a mata

As máquinas, montadas as seguranças, começavam então a funcionar. A limpeza de uma larga berma era levada a efeito por um grande grupo de nativos não autóctones, cujos utensílios eram as catanas.

Estes grupos de cataneiros eram em geral bastante sacrificados, pois as armadilhas e as minas anti-pessoais eram sempre em grande número, e era raro o dia, que não houvesse feridos muito graves. Até que chegou um dia, que recusaram a ida para a mata.

Os ataques ao aquartelamento de Buba faziam-se com alguma frequência. E os abrigos eram apenas umas valas abertas para esse fim. Recordo, num desses ataques, a morte de um soldado da Companhia residente, que quando fugia para se refugiar nos abrigos, foi apanhado por um rocket, que o estropia muito marcadamente.

Das contrariedades provocadas aos cataneiros, assim como dos ataques perpetrados ao aquartelamento, Carlos Fabião considera que alguém da tabanca presta informações para o exterior. Era quase certo que no dia em que a tropa não se empenhasse nos patrulhamentos, que o PAIGC ousava enfrentar mais próximo do aquartelamento.


Spínola expulsa toda a população civil de Buba, acusada de traição


Este recado chega a Spínola que num certo dia chega a Buba, reúne a população para que fosse reconhecido os que transmitiam informações ao PAIGC. Perante o mutismo desta gente, Spínola considera-a traidora e, no dia seguinte, 2 LDG encostam a Buba, e toda a população é coagida a abandonar as suas casas. O destino que tomaram, não o sei, mas disse-se então que foram para o arquipélago dos Bijagós.

Mau grado esta afronta, a situação que se começou a viver em Buba, pareceu melhorar.


A recuperação da nossa auto-estima e a ida para o Gabu

Não se pode afirmar que a Companhia, durante este tempo de permanência em Buba, conheceu um clima de paz e serenidade. Havia por aqueles sítios, uma outra faceta da guerra, bem distinta da vivida em Gandembel, e que, em abono da verdade, não foi demasiado provocante, fundamentalmente porque já éramos gente mais crescida, só porque nos era fornecido o essencial: comida bastante e uma cama decente. Quanto foi importante a conquista desta emancipação!

Julgo, inclusive, que a Companhia recuperou muito a sua auto-estima, e algumas energias mais abaladas, iam-se revigorando.

De todo o modo, o dia 14 de Maio, com partida aérea para Nova Lamego, onde sempre permaneceu a CCS do Batalhão a que pertencíamos (o BCAÇ 2835) [então sob o comando do tenente-coronel Pimentel Bastos, o Pimbas] (3), representou para esta plêiade de homens sacrificados, o fim definitivo das hostilidades.

Por lá nos quedámos até ao fim da comissão, melhorando infra-estruturas no aquartelamento, fazendo pequenos patrulhamentos, mas nunca mais ouvimos o mínimo silvar de uma bala inimiga.

Aqui, encontrámos serenidade, e tornámo-nos outros, perdemos timidezas e inibições, ainda que sempre conscientes e previdentes. E também um certo bem-estar, um lenitivo fundamental para o encontro das estabilidades, da emocional à física, e que durante tanto tempo se tinham arredado de vez, inclementemente.

E aqui, fomos gente feliz, sem lágrimas! (4) ... E sobre os momentos de dor e de sofrimento, a CCAÇ 2317 nada mais tem a narrar. E porque considera que a guerra com que se confrontou, termina em Nova Lamego, também finda aqui a sua história.

E só me resta acrescentar, o quanto custou a esta Companhia, em termos humanos, o nosso sacrifício. Da frieza dos números, que agora aponto, talvez um dia me debruce com uma leitura mais atenta.

A Companhia sai para a Guiné, com 158 homens: 5 oficiais, 17 sargentos, 35 cabos e 101 soldados. A bordo do Uíge, a 10 de Dezembro de 1969, sob o comando de um único oficial (este escriba), chegam à unidade mobilizadora, o RI 15 de Tomar, 121 militares, com 11 sargentos, 29 cabos e 80 soldados; ficaram na Guiné, para a entrega do material, 1 alferes e 3 sargentos.

Há as perdas: 9 mortos (1 alferes, 1 furriel e 7 soldados), 18 evacuados para Lisboa (7 feridos graves, 5 por doença e 6 feridos menos graves), e 4 não regressam por mudança de Companhia. Há ainda 2 elementos, que saem antecipadamente: 1 cabo — o nosso Lamego e o Comandante de Companhia, para continuar a sua carreira militar como oficial superior de Infantaria.

Não nos foi possível contabilizar os evacuados para Bissau, e que iam regressando mais tarde ao nosso seio, mas as estimativas de quem viveu sempre de perto os 23 meses de comissão, apontam para valores da ordem das 4 dezenas.

Com imenso gosto, procurei corresponder ao que tinha prometido. É uma narração sucinta, mas que terei oportunidade de vir a pormenorizar muitas das facetas aí insertas. Continuarei sempre atento ao blogue, que considero de excepcional valia para o conhecimento da guerra colonial na Guiné, dos seus tempos e dos seus sítios.

Por isso, em nome da minha Companhia, um firme agradecimento ao nosso editor.
Bem hajas, Luís.

Só mais dois aspectos finais:

(i) Amiudadas vezes me têm afirmado, que a nossa ida para Gandembel, é resultado de uma oferta voluntária por parte do Comandante da Companhia. Por desconhecimento, não posso, nem devo confirmar. O que sei, é que este oficial do quadro, não possuía nenhuma comissão em teatro de guerra.Contudo, o que sempre me causou uma certa perplexidade, é que as Companhias do Batalhão se esparsaram pela Província, sem dependência da CCS, o que não era usual.

(ii) O feitiço lançado a este vosso escriba, que no seu itinerário como militar, passou por duas Lamegos. A serrana Lamego, num curso de operações especiais, ainda no quartel velho, e onde morreram 2 companheiros que tombaram do alto da torre da igreja, quando faziam o slide. E esta Nova Lamego, hoje Gabú, da ardente e multifacetada Guiné.E se não fora as saudades a minarem e a proximidade do regresso, a passagem por esta última, saber-me-ia bem melhor que as piratarias da dureza 11 e quejandas, só suplantadas devido à porfiada ajuda prestada pelo meu velho parelha Amaro.

Para todos, um cordial abraço do Idálio Reis.


Comentário do editor L.G.:


1. Querido amigo e camarada Idálio: Não há, na guerra, um fim feliz, como no cinema. Mas gostei de saber que os últimos meses dos homens-toupeiras de Gandembel/Balana permitiram-vos retemperar as forças para o regresso à Pátria, à Mátria ou à Madrasta da Pátria...

Continua a dar-nos notícias da tua/nossa gente, cuja epopeia tão bem soubeste evocar e descrever nesta fotobiografia... O teu testemunho honra-nos a todos e orgulha os editores e autores do blogue bem como todos membros da nossa Tabanca Grande. A fotobiografia da CCAÇ 2317, escrita pelo teu punho, foi um dos momentos altos do nosso blogue.

Faço daqui um veemente apelo a um editor português que arrisque publicar, em livro, esta extraordinária aventura de 9 meses no corredor da morte. Porque não o Círculo de Leitores ? L.G.

_____________

Notas de L.G.:

(1) Vd. posts anteriores:

16 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1530: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (1): Aclimatização: Bissau, Olossato e Mansabá.

(...) A CCAÇ 2317 chega a Bissau a 24 de Janeiro de 1968. Uma aclimatação de 2 meses, o quanto bastou para enveredar por um sinuoso rumo, a uma fatídica zona do Sul da Província. Aí, num local estranho da região do Forreá e apenas no efémero prazo de 11 meses, houve lugar às facetas mais pérfidas da guerra, em que do mito e do mistério sobrou só o nome: Gandembel/Ponte Balana (...).

9 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1576: Fotobiografia da CAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (2): os heróis também têm medo

(...) Após o Treino Operacional, a Companhia segue rumo ao Sul da Província. Poucos dias em Guileje, para então nos coagirem a ir para as cercanias do "corredor da morte", a fim de se construir de raiz, um posto militar fixo, em Gandembel e Ponte Balana Em Guileje, a guerra não se fez esperar, e dolosamente começou a insinuar as suas facetas mais pérfidas, com as ocultas ciladas montadas na vastidão dos nossos olhares e a espreitarem o horror a todo o instante (...).

12 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1654: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (3): De pá e pica, construindo Gandembel.

(...) Em Gandembel, vinga a insensatez, a obrigarem-nos a penar um inextinguível tempo de arrastados sacrifícios. Do período mediado entre o início da construção do aquartelamento e a chegada da energia eléctrica, a 9 de Maio (...) O dia 8 de Abril de 1968 alvoreceu para um conjunto de homens inquietamente sós, desunidos de um futuro confiante, porque, por mais que se procurasse predizer, não lhes era possível reconhecer se se podia atingir. Um imenso manto de silêncio ali estava especado, com secretas sombras negras a envolver-nos (...).

2 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1723: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (4): A epopeia dos homens-toupeiras.

(...) Instalação e início da construção do aquartelamento de Gandembel. Ilustração fotográfica: Incluí o período de tempo entre 8 de Abril de 1968 - partida de Guileje para Gandembel e início da construção do aquartelamento de Gandembel - e a chegada da energia eléctrica, a 9 de Maio de 1968(...).

9 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1743: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (Idálio Reis) (5): A gesta heróica dos construtores de abrigos-toupeira em Gandembel.

(...) Instalação e início da construção do aquartelamento de Gandembel (continuação) > Ilustração fotográfica: Incluí o período de tempo entre 8 de Abril de 1968 - partida de Guileje para Gandembel e início da construção do aquartelamento de Gandembel - e chegada da energia eléctrica, a 9 de Maio de 1968 (...).

23 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1779: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (6): Maio de 1968, Spínola em Gandembel, a terra dos homens de nervos de aço.

(...) A generosidade de um punhado de gente jovem, onde os ecos dos seus ais de desespero e dor, não ressoavam para além da região do Forreá. Gandembel/Ponte Balana, de 9 de Maio a 4 de Agosto. (...) A época plena das chuvas aproximava-se, começava a fazer surtir os seus benéficos efeitos, o que para nós incidia muito especificamente na água que o rio Balana pudesse debitar. Este, logo que retomasse alguma capacidade de vazão, significaria que a tão ansiada água já abundaria, e as restrições ao consumo que tinham prevalecido até então, evolavam-se no tempo (...).

21 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1864: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (7): do ataque aterrador de 15 de Julho de 1968 ao Fiat G-91 abatido a 28.

(...) Os ataques e flagelações mantinham-se a um ritmo praticamente diário, a que nos íamos habituando, pois que a generalidade das detonações era resultado da acção de morteiros 82, e a maioria das granadas continuava a deflagrar na periferia. Os morteiros ainda não estariam devidamente assestados, e tornava-se necessário e urgente ter que acabar as obras do aquartelamento, com condições mínimas de segurança (...).

8 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1935: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (8): Pára-quedistas em Gandembel massacram bigrupo do PAIGC, em Set 1968.

(...) Uma longa vida em Gandembel suspensa da decisão do Comandante-Chefe. E ante tantas adversidades, num ápice tudo se esfuma da forma mais indigna: o abandono. Gandembel/Ponte Balana, de 4 de Agosto às vesperas do Natal de 1968. (...) A catástrofe de 4 de Agosto foi demasiado punitiva e voraz, criando um profundo sentimento de perda. E, atendendo às circunstâncias com que nos deparávamos no quotidiano, reconheci na pungente dor do luto, que a Companhia perdia temperamento e vivacidade, com as vontades a fenecerem. (...) A deslocalização de um permanente efectivo de pára-quedistas foi fundamental para o surgimento de uma fase de muita maior tranquilidade, que resultou numa acentuada diminuição belicista por parte do PAIGC (...).

19 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1971: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (9): Janeiro de 1969, o abandono de Gandembel/Balana ao fim de 372 ataques

(...) Seria uma lembrança do Natal, que se aproximava? Não o foi, pois que até lá não recordo qualquer confronto, mínimo que seja. Pelo Natal, dada a solenidade do dia, chegam 2 helicópteros: um trazendo o bispo de Madarsuma, vigário castrense das Forças Armadas e um repórter do extinto Diário Popular, de nome César da Silva; outro, com Spínola e elementos do Movimento Nacional Feminino. (...) À alvorada do dia 28 [de Janeiro de 1969], o armamento pesado é desactivado, a bandeira nacional é arriada, o gerador é colocado num Unimog, e eis que partimos em definitivo de Gandembel, passámos por Ponte Balana (ali ao lado) a buscar o grupo que aí estava e seguimos para Aldeia Formosa. (...)

18 de Setembro de 2007>Guiné 63/74 - P2117: Fotobiografia da CCAÇ 2317 (1968/70) (Idálio Reis) (10): O terror das colunas no corredor da morte (Gandembel, Guileje)

(...) As colunas de reabastecimento para Gandembel / Ponte Balana. Tanta ousadia cerceada no passo incerto, e a folha fustigada pelo sopro de um fornilho, já não encontra outro sítio para cair, senão em corpos dilacerados (...).

(...) As colunas de reabastecimento que se contextualizam com Gandembel, ficaram gravadas nos caminhos do desalento, do pesadelo e horror. E por isso, procuravam protelar-se até soar o grito da clemência, pois os bens essenciais estavam a esgotar-se, e o espectro da fome, em forma de um tipo de alimentação quase intragável, pairou algumas vezes em Gandembel.E esta desapiedada e frustrante sensação de um forçado isolamento, também contribuiu em muito para o alquebramento das forças físicas e morais, tão vitais para ousar enfrentar com denodo as vicissitudes que se nos deparavam quotidianamente.

(...) Restar-me-á apenas tentar alinhavar o último capítulo, que se prende com a permanência da Companhia em Buba, e que se prolongou até 14 de Maio de 1969 (...).



(2) Sobre o major Carlos Fabião em Buba:

4 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2080: Estórias do Zé Teixeira (22): Tuga na tem sorte

4 de Abril de 2006 > Guine 63/74 - DCLXVIII: O major Fabião e o furriel Samouco, da CCAÇ 2381 (1968/70)

Vd. também, entre outros, os posts:

17 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1436: Dossiê O Massacre do Chão Manjaco (Afonso M.F.Sousa) (1): Perguntas e respostas

8 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXXIV: Antologia (37): Carlos Fabião, o conciliador

5 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 : DCLXXV: O outro Carlos Fabião (3) (Rui Felício)

5 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXXIII: O outro Carlos Fabião (1) (J. Vacas de Carvalho)

2 Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCLXV: Depoimentos sobre Carlos Fabião (1930-2006)

(3) O tenente-coronel Pimentel Bastos foi originalmente o comandante do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), antes de ser alvo de punição disciplinar por parte do Com-Chefe:

22 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1304: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (21): A viagem triunfal do Pimbas a terras do Cuor
28 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1124: Fotos falantes (Torcato Mendonça, CART 2339) (2): A vida boa de Bambadinca, no tempo do Pimentel Bastos
30 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1041: O Pimbas e os outros (Jorge Cabral)
16 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1035: Ainda sobre o Pimbas, com um quebra-costelas para o Beja Santos (Paulo Raposo)
4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1025: Tenente-coronel Pimentel Bastos: a honra e a verdade (Luís Graça)
4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1028: O Pimbas que eu (mal) conheci (Jorge Cabral, Pel Caç Nat 63)
1 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1012: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (3): Eu e o BCAÇ 2852, uma amizade inquebrantável )
31 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1008: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (2): o saudoso Pimbas, 1º comandante do BCAÇ 2852
(4) Por analogia com o título do romance de João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas, Grande Prémio de Novela e Romance APE, 1989. João de Melo, nasceu nos na Ilha de S. Miguel, Açores, em 1949, pertencendo à geração da guerra colonial (esteve em Angola, entre 1971 e 1974, como furriel miliciano enfermeiro).
"A experiência da Guerra Colonial foi pela primeira vez tematizada em 1977, com A Memória de Ver Matar e Morrer. Em 1984, publicou Autópsia de um Mar em Ruínas, onde a barbárie da guerra é filtrada pelos olhos de um furriel enfermeiro, cargo que assumiu em Angola.Os livros de contos Entre Pássaro e Anjo e Bem-Aventuranças completam o testemunho apresentado nos romances".

Guiné 63/74 - P2171: Álbum das Glórias (30): O seu a seu dono: o monumento da CCAV 8350, os Piratas de Guileje (A. Marques Lopes)



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Guileje > Abril de 2006> O monumento, em forma de pirâmide, construído em 1973 pelo pessoal da CCAV 8350, Os Piratas de Guileje. O trabalho de restauro e preservação é da AD - Acção para o Desenvolvimento, a ONG guineense, fundada e dirigida pelo nosso amigo Pepito, no âmbito do Projecto Guiledje.

Fotos: © A. Marques Lopes (2005). Direitos reservados.



1. Mensagem do A. Marques Lopes:

A fotografia colocada hoje no P2170 não é de Barro (1). É da CCAV 8350, os Piratas de Guileje, mobilizada no Regimento de Cavalaria 3, em Estremoz. É um monumento em forma de pirâmide, que ainda está em Guileje, e eu, em Abril de 2006, tirei estas fotografias às três faces.


2. Comentário dos editores:

O Blogue errou. Damos a mão à palmatória. Aqui fica a correcção. Obirgado mais uma vez ao A. Marques Lopes, sempre atento, oportuno e... solidário.

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Nota dos editores:

(1) Vd. post de 9 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2170: As Duas Faces da Guerra: Espero ver alguns de vós na estreia do filme em Lisboa (Diana Andringa)

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2170: As Duas Faces da Guerra: Espero ver alguns de vós na estreia do filme em Lisboa (Diana Andringa)

Guiné-Bissau > Guerra de libertação, guerra colonial, guerra do ultramar, o verso e o reverso, ou as duas faces, as múltiplas facetas, de uma dura e terrível realidade, a da guerra de 1963/74 ... O filme-documentário, de 1 hora e 40m, da portuguesa Diana Andringa e do guineense Flora Gomes terá a sua estreia, em Lisboa, no dia 19 de Outubro, 6ª feira, 23h00, no grande auditório da Culturgest, no âmbito do DocLisboa2007 , o 5º Festival Internacional de Cinema Documental (18-28 de Outubro de 2007). Haverá outra exibição, dia 22, 2ª feira, à mesma hora, no Cinema Londres (Sala 1).

Foto: Programa do doclisboa2007: 5º Festival Internacional de Cinema Documental, 18-28 de Outubro de 2007 (com a devida vénia...). Não temos legenda, mas pelo que se depreende da foto três guineenses (entre eles, um militar com galões de coronel) posam, para o fotógrafo, junto ao monumento de uma antiga unidade das NT, a CCAÇ 3, julgo eu... (embora as insígnias sejam de... cavalaria). Divisa: Glória com Valor... A ser o monumento (ou o que resta dele) da CCAÇ 3, a que pertenceu o A. Marques Lopes, a foto terá sido tirada em Barro.


1. Mensagem que o editor do blogue mandou à Diana Andringa:

Cara amiga Diana:

Obrigado pela sua lembrança e gentileza (1). Os meus parabéns pelo filme, parabéns pela sua persistência, empenho e paixão pela Guiné e os guineenses. Ao fim de 40 anos, alguém teria que fazer um filme-documentário sobre as "duas faces da guerra".

Lancei um desafio à malta da nossa tertúlia, para irmos ver o filme em conjunto... Pelo menos os que moram aqui na área da Grande Lisboa... Sei que é a desoras... De qualquer modo fiz a divulgação devida... Mas o nosso blogue está inteiramente disponível para um texto seu ou do Flora... Disponha. Até ao DocLisboa2007 podemos falar muito mais do v/ filme.

Seria interessante também que pudesse ser exibido e discutido em Bissau, no próximo Simpósio Internacional de Guileje (1-8 março de 2008), que está a ser organizado pela AD (2) . Vou contactar o Pepito (3). Sei que o filme vai estrear esta semana em Bissau. Saudações. Luís Graça


2. Resposta da jornalista e realizadora Diana Andringa :


Por enquanto aceito os parabéns pela persistência, pelo filme prefiro esperar que o veja...

Sei que o Pepito (3) já o viu, no Centro Cultural Português em Bissau - onde estreou dia 5 e houve, segundo me disseram, uma enchente, entusiasmo, emoção, palmas, risos, loas, algumas críticas (cada participante tem na cabeça um filme a que o nosso não pode, obviamente, corresponder, acontecerá o mesmo em Lisboa) e onde vai ser repetido hoje - e talvez também em Iemberem, perto de Guilege, para onde um grupo da Fundação Mário Soares, que está a trabalhar com os arquivos guineenses, o levou, e onde foi visto com entusiasmo, apesar de muitos não conseguirem seguir as intervenções em português.

Já escrevi também ao Pepito a dizer que terei muito gosto em que o filme passe na TV comunitária que estão a criar. E claro que, se ele quiser, será com todo o gosto que verei o filme exibido no Simpósio de Guilege.

Tenho pena de não ter podido acompanhar a estreia em Bissau, até porque acredito que o filme será visto de forma diferente na Guiné, em Portugal e em Cabo Verde e, se alguns risos podem ser comuns (nomeadamente nas falas de um dos entrevistados, o "mais velho" Sulei Baldé), a emoção variará, já que, ainda que se não queira, os "nossos" mortos pesam sempre mais que os do adversário.

Aqui, uma antiga aluna minha, que não conhece a história deste tempo, chorou ao ouvir e ver dois soldados contarem a história terrível que viveram com 22 anos. Para vocês, essa história será quase banal, mas recordará outras, próximas. Na Guiné, cada imagem de arquivo é uma galeria de mortos: na luta de libertação ou nos conflitos posteriores.

Espero ver alguns de vós na estreia em Lisboa (4). Mais tarde, se quiserem, poderemos organizar outros visionamentos.

Abraço,

Diana

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Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 8 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2165: As Duas Faces da Guerra, filme-documentário de Diana Andringa e Flora Gomes, no DocLisboa2007 (18-28 Outubro 2007)

(2) Vd. posts de:

6 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2084: Guileje: Simpósio Internacional (1-7 Março de 2008) (1): Uma iniciativa a que se associa, com orgulho, o nosso blogue

7 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2086: Guileje: Simpósio Internacional (1-7 de Março de 2008) (2): Programa provisório

(3) O Pepito já me respondeu:

Luís: Por nós, a visualização do filme durante o Simpósio (2) é uma óptima ideia. Eu gostei muito do filme e da abordagem.

abraço
pepito

(4) Já vários camaradas responderam positivamente ao meu desafio e convite:

Gabriel Gonçalves, Humberto Reis, José Martins, Luis R. Moreira, Mário Fitas... (Cito de cor).

Acho que a melhor data é a da estreia, dia 19, 6ª feira, às 23h. Além disso, o auditório da Culturgest é grande (600/700 lugares), não havendo à partida problemas de lotação esgotada... Oxalá houvesse! Falaremos dos pormenores, através de e-mail.

Guiné 63/74 - P2169: Antologia (63): Zé, meu camarada, eras um dos nossos e cada um de nós um dos teus (António Lobo Antunes, Visão, 4 Out 2007)

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Visão, 4 de Outubro de 2007 > Crónica do António Lobo Antunes (com a devida vénia à revista e ao autor...).

Imagem digitalizada por Zé Teixeira. Alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.


1. Mensagem, com data de 5 de Outubro de 2007, enviada pelo nosso querido amigo e camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , 1968/70), actualmente residente em Matosinhos, bancário, reformado:

Caríssimos editores

Na revista Visão desta semana vem este extraordinário artigo sobre a morte de um camarada que o escritor António Lobo Antunes escreveu (1).

Creio que com a devida vénia merece ser dado a conhecer a todos os antigos camaradas.

Devo dizer que quem mo trouxe foi o meu filho, com o seguinte comentário:
-Trago-te um artigo sobre a morte de um antigo combatente que me fez chorar (2) (3).

Bom fim de semana

J. Teixeira
Esquilo Sorridente
__________

Nota dos editores:

(1) Vd. post 6 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2161: Pensamento do dia (12): Camarada, uma palavra que só quem esteve na guerra entende por inteiro (António Lobo Antunes)
(2) O escritor reencontrou os seus camaradas do Leste de Angola 34 anos depois do regresso a Lisboa. Nesse espaço de tempo, morreu um dos seus grandes amigos desse, o coronel Melo Antunes (1933-1999).
Vd. o seguinte recorte de imprensa:

António Lobo Antunes reencontra camaradas de há 34 anos
Ana Vitória
Jornal de Notícias, 19 de Novembro de 2005
"Estes são mais que meus amigos. São meus camaradas". Visivelmente emocionado, o escritor António Lobo Antunes abraçou, um a um, chamando-os pelos nomes, cada um dos seus companheiros da comissão de serviço militar obrigatório que desempenhou em Angola, entre Janeiro de 1971 e Março de 1973. Há 34 anos que não via muitos deles. Ontem, juntaram-se todos na Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa, a mesma de onde, há 34 anos, partiram, a bordo do navio Vera Cruz para a Guerra Colonial.
O momento do encontro, carregado de emoção e com lágrimas mal contidas, teve como pretexto o lançamento de "D'este viver aqui neste papel descripto - Cartas da guerra", uma compilação das cartas que António Lobo Antunes, quase diariamente, escreveu na época à sua mulher que ficara em Lisboa.
"Temos todos uma ligação muito forte. Só quem passou por aquilo pode compreender. Partilhamos muita solidão, muito sofrimento, muitos silêncios - e muito medo. Por isso o que nos liga a todos é indestrutível. Este livro é também uma homenagem a cada um dos meus camaradas. Aos vivos que aqui vieram, e aos que já não estão entre nós", disse António Lobo Antunes.
Muitos dos camaradas de guerra que ontem o acompanharam no lançamento do livro, organizado pelas duas filhas do escritor, Maria José e Joana Lobo Antunes, pisaram pela segunda vez o átrio da Gare Marítima de Alcântara. "Só estive aqui há 34 anos, quando parti para Angola e isto era um mar de gente com lenços brancos e lágrimas a despedir-se de nós; e a agora, para o lançamento do livro. Ainda estou um bocado atordoado. Voltar aqui é como reabrir as feridas que a guerra, de uma maneira ou de outra deixou em todos nós, mesmo nos que por ela passaram sem serem feridos". As palavras são de Luís Oliveira, que se tornou conhecido em Angola como o Pontinha (porque morou lá perto) e que ontem mereceu particular atenção por parte do "senhor Dr. Lobo Antunes", que insistentemente reclamava a sua presença.
"Na tropa acabei por ser cozinheiro. Era eu que preparava as refeições do senhor Dr. Cozinhava-lhe uns petiscos, tirava-lhe as espinhas do peixe. Deixava o prato impecável, como ele gostava. Levava uma hora a comer a sopa e hora e meia a saborear o conduto. Sabia que ele escrevia mas nunca nenhum de nós leu esses escritos".
Nestas "Cartas da guerra" agora editadas, como sublinhou João Paixão, da editora Dom Quixote, o que perpassa de uma forma mais marcante é "a força dos silêncios e das ausências". E como diria a filha do escritor, Maria José, "publicar estas cartas é recusar o esquecimento".

(3) Para saberes mais sobre o escritor e o homem:
Blogue Orgia Literária > Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes
Portal da Literatura > António Lobo Antunes (n. 1942)
Site não oficial sobre António Lobo Antunes > Biografia
Wikipédia > António Lobo Antunes

Guiné 63/74 - P2168: Estórias avulsas (7): Cabra Maria (Ferreira Neto)



Ferreira Neto, ex-Cap Mil, CART 2340 (Canjambari, Jumbembem e Nhacra, 1968/69).








Guiné > Região do Óio > Vista aérea de Canjambari> Sede da CART 2340
Foto: © Ferreira Neto (2007). Direitos reservados.
Cabra Maria

O meu Vagomestre de seu nome Ferreira, decidiu comprar ao pessoal da tabanca uma cabra ao qual pôs o nome de Maria.

Pois a cabra deu à luz dois cabritos que se puseram muito bonitos com o andar do tempo.

Sentinelas atentas

Após o nosso banho fresco, ao fim da tarde de determinado dia, andava eu com o Alferes Silva passeando ao longo da pista, que se situava num dos lados do aquartelamento.

A nossa amena cavaqueira foi de súbito interrompida pelo estampido de uma arma, cujo projéctil passou por cima das nossas cabeças a uma boa altura.

Dirigimo-nos apressadamente para a entrada do aquartelamento, onde deparamos com a sentinela de olhos arregalados, que interpelada por mim disse que tinha disparado por ver turras, no fim da pista.

Deu-me vontade de lhe dar dois estalos e perguntei-lhe se eu e o alferes tínhamos tal aspecto e se o fôssemos, andávamos a passear em pleno dia pela pista.

Susto para ambas as partes…

Na noite seguinte outro estampido. Tratei de indagar o que se passava. Foi-me dito que tinha sido mais uma vez uma sentinela (não a mesma, felizmente), que tinha pressentido um movimento no capim e tinha disparado pelo sim pelo não. Muito bem.

E agora voltamos à Maria e aos seus filhotes, que aparentemente não tinham a ver nada com a história.

O nosso Vagomestre queixou-se dizendo que um dos cabritinhos tinha desaparecido.
Após busca encetada por ele, foi encontrado no meio do capim, morto com uma bala de G3. Tivemos rancho melhorado.

O meu comentário para o Alferes Silva foi o seguinte:
-Ainda bem que esta sentinela não esteve de serviço ontem.

Ferreira Neto
ex-Cap Mil
CART 2340
________________
Nota de CV:

(1) Vd. Post de 26 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2134: Estórias de vida (6): A minha convocação para o Curso de Capitães Milicianos (Ferreira Neto)

Guiné 63/74 - P2167: Breve história da CCAÇ 4540 (Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74) (Vasco Ferreira)

CCAÇ 4540 “ Somos um Caso Sério“ Guiné 1972/1974


Breve história da CCAÇ 4540
Vasco Ferreira

A CCAÇ 4540 foi constituída no Regimento de Infantaria de Tomar em 1972.

Chegada à Guiné: 19 de Setembro de 1972
Partida da Guiné: 24 de Agosto de 1974

Estivemos em:

De 18 de Outubro de 1972 a 09 de Dezembro de 1973 em Bigene ,( COP3), no norte da Guiné perto da fronteira com o Senegal onde fomos render a CART 3329.

De 12 de Dezembro de 1972 a 17 de Agosto de 1973 em Cadique, (COP4), no Sul da Guiné.

De 08 de Setembro de 1973 a 24 de Agosto de 1974 em Nhacra ,(COP8), zona do Cumuré, onde fomos render a CCAÇ 3477.



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cacine > Cadique > Junho de 2007 > Pedras que falam da CCAÇ 4540 - "Somos um Caso Sério" - que passou e montou a tenda, na margem esquerda do Rio Cumbijã, de 12 de Dezembro de 1972 a 17 de Agosto de 1973.


Foto: © Pepito / AD - Acção para o Desenvolvimento (2007). Direitos reservados.


Missão em Cadique

Chegamos na LDG “Bombarda” pelas 09h00 do dia 12 de Dezembro de 1973 a Cadique, situada na península dos rios Cumbijã e Cacine no sul da Guiné, no âmbito da Operação “Grande Empresa” que visava a recuperação da zona do Cantanhez com o auxílio da FAP e de um Bi-Grupo da CCP 121.
Neste dia compareceu o Excelentíssimo General António de Spínola que acompanhou sempre de perto o desenrolar da Operação.

Os primeiros dias da instalação do pessoal foram penosos, em virtude de não existir nenhuma estrutura militar, apenas a mata exuberante, compacta e de difícil penetração. Existiam algumas tabancas dispersas ocupadas pela população da área onde predominavam os velhos e crianças. O principal aglomerado Pop é Cadique Nalú.
O terreno era plano, a norte é delimitado pelo rio Bixanque, que desagua no rio Cumbijã, a sul pelo rio Macobum, a leste pela mata do Cantanhêz até ao entroncamento de Jemberém e a oeste pelo rio Cumbijã.

A actividade operacional incidiu sobremaneira, o esforço desta CCAÇ com o começo da concretização do projecto da construção da estrada alcatroada Cadique–Jemberém na actividade de protecção aos trabalhos e segurança às máquinas empenhadas na construção da respectiva estrada, numa região considerada área libertada pelo PAIGC

Na parte económica–social, foram construídos, o Reordenamento do Aldeamento da população de Cadique, Posto Escolar, Posto Sanitário. Foi em homenagem aos Reordenamentos do Cantanhêz que foi construído o monumento no Largo CCAÇ 4540, que passados 34 anos ainda recorda a nossa presença.

Outros testemunhos foram construídos:

Lápide de homenagem In Memoriun ao soldado Victorino Susano Simão falecido em combate em 23 de Junho de 1973.

No dia 22 de Julho de 1973 chegou a Cadique a 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4514 que veio render a CCAÇ 4540, Cadique a partir desta altura ficou a constituir Sede de Batalhão, “ O Batalhão do Cantanhêz”.

Foi a 17 de Agosto de 1973 que a CCAÇ 4540 disse adeus a Cadique no meio de copiosa chuva, que não quis colaborar na despedida, embarcando a bordo da LDG “Montante”, rumo a Bissau.

A nossa homenagem aos GCOMBS da CCP 121, que permitiram aos nossos militares a observação do modo de comportamento e da preparação com que a tropa especial pára-quedista foi dotada para este tipo de operações. Muito se aprendeu no convívio estabelecido dentro e fora do Aquartelamento entre os militares de ambas Companhias.

Vasco Ferreira
ex-Alf Mil
________________
Nota de CV:

(1) Vd. Post de 2 de Agosto de 2007 >Guiné 63/74 - P2022: Em busca de... (8): Cadique Nalu... e da malta da CCAÇ 4540 (1972/73) (Vasco Ferreira)

Guiné 63/74 - P2166: Convívios (32): Combatentes da Guiné da Freguesia de Guifões-Matosinhos, V.N.Cerveira, 5 de Outubro de 2007 (Albano Costa)




XII Encontro/Convívio de ex-Combatentes da Guiné da Freguesia de Guifões-Matosinhos em Vila Nova de Cerveira, 5 de Outubro de 2007







Em mensagem de 7 de Outubro de 2007, o nosso camarada e fotógrafo oficial do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, Albano Costa, dava-nos conta de mais um Encontro de ex-Combatentes da Guiné, da Freguesia de Guifões, Concelho de Matosinhos.

Caro Luís Graça:

Dia 5 de Outubro, é a data em que os «guineenses» de Guifões se juntam para festejarem mais um convívio, que já leva doze anos de existência e pelo andar da carruagem, não se vislumbra abrandamento.

Este convívio que nasceu com a finalidade de se saber quantos cidadãos desta Freguesia passaram por terras da Guiné desde o início da guerra até ao seu término (63/74), tem vindo a realizar-se sempre nesta data.

Os ex-combatentes da Guiné da Freguesia de Guifões, formaram às 8h30, em frente à Igreja Matriz e, em coluna de reconhecimento, lá foram em duas berliés, rumo a Vila Nova de Cerveira, passando por Braga, pequena paragem, rumando em seguida a V. N. de Cerveira, ao Restaurante Braseirão do Minho, onde emboscaram à volta da mesa a devorar os respectivos alimentos, previamente escolhidos pelos oficiais de dia.

Assim foi passado o dia em ambiente de grande alegria, não faltando até um pé de dança para ajudar à festa.

Já na parte final, foi entregue uma lembrança alusiva a este evento, que foi oferecida pela Junta de Freguesia de Guifões, na pessoa do Senhor Presidente Carmin Cabo, que se fez acompanhar de sua esposa. Presente esteve também o pároco da freguesia, Pe. Américo Sá Rebelo, que prestou serviço militar na Guiné como Capelão.

O Restaurante Braseirão do Minho, prestou um bom serviço às 95 pessoas presentes, pois a festa tamtém foi extensiva aos familiares dos 38 ex-combatentes que se reuniram para confraternizar e recordar um pouco do que foi o período em que estiveram na guerra colonial. É sempre um momento alto, falando-se de tudo um pouco, até do nosso Blogueforanaevaotres.blogspot.com, num ambiente salutar e de grande camaradagem.

Antes do destroçar e do regresso ao destacamento, cantou-se o Hino Nacional.

Um abraço,
Albano Costa


Foto 1> A partir o bolo> Pe. Américo Rebelo; Delfim Neves; Isidro Ventura; Albano Costa; Neca Matos e Carmin Cabo, Presidente da Junta de Freguesia de Guifões


Foto 2> Os ex-militares participantes no almoço.

Fotos: © Albano Costa (2007). Direitos reservados.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2165: As Duas Faces da Guerra, filme-documentário de Diana Andringa e Flora Gomes, no DocLisboa2007 (18-28 Outubro 2007)

Foto: O Sítio do Sindicato dos Jornalistas (2001) (com a devida vénia...)

1. Mensagem da Diana Andringa (jornalista, portuguesa, n. em Angola, em 1947 )

Luís Graça,

Admitindo que alguns frequentadores do blogue tenham curiosidade em ver este documentário, mas não sejam frequentadores do DocLisboa (1), aqui ficam as informações tiradas do programa do dito (levem a figura de referência à conta dos meus cabelos brancos...).

Abraço,

Diana

Flora Gomes

Foto: Agência Bissau (com a devida vénia...)




2. As Duas Faces da Guerra

19 Out. 23.00 - Culturgest (Grande Auditório)

22 Out. 23.00 - Cinema Londres (Sala 1)

As 2 Faces da Guerra [I] de Diana Andringa e Flora Gomes, 100'

Portugal, 2007.

Diana Andringa, figura de referêcia do jornalismo televisivo português, e Flora Gomes, o mais importante cineasta guinenense (com presença regular em Cannes e Veneza), acordaram fazer um documentário a quatro mãos e duas vozes sobre a guerra colonial.

Luta de libertação para uns, guerra de África para outros, o conflito que, entre 1963 e 1974, opôs o PAIGC às tropas portuguesas é descrito de maneira diferente nos livros de história dos dois países. Mas não são só estas as "duas faces" desta guerra. Para lá do conflito, houve sempre cumplicidades entre as duas partes: "Não fazemos a guerra contra o povo português, mas contra o colonialismo", disse Amílcar Cabral, e a verdade é que muitos portugueses estavam do lado do PAIGC.

Não por acaso, foi na Guiné que ganhou forma o Movimento dos Capitães que levaria ao 25 de Abril. De novo duas faces: a guerra termina com uma dupla vitória, a independência da Guiné e a democracia para Portugal. É esta "aventura a dois" que o filme conta, pelas vozes dos que a viveram.


Fonte: doclisboa2007 (1) (com a devida vénia...)

3. Também o A. Marques Lopes, sempre atento ao que se passa na Guiné-Bissau, mandou-nos a seguinte notícia do portal Notícias Lusófonas, com data de hoje:

«As Duas Faces da Guerra» estreia no Centro Cultural Português [em Bissau]

O filme-documentário "As Duas Faces da Guerra", realizado pela jornalista portuguesa Diana Andringa e pelo cineasta guineense Flora Gomes, estreia sexta-feira no Centro Cultural Português na Guiné-Bissau.

"As Duas Faces da Guerra" foi rodado ao longo de seis semanas e inclui uma série de entrevistas e depoimentos de pessoas que viveram o período da guerra colonial, refere um comunicado da Embaixada de Portugal em Bissau.

Durante seis semanas, os realizadores percorreram as regiões guineenses de Bissau, Mansoa, Geba, Bafatá e Guilege, e estiveram em Cabo Verde e Portugal para recolherem os depoimentos de pessoas que viveram a guerra colonial.

A banda sonora do filme-documentário inclui música portuguesa, guineense e cabo-verdiana da época.

4. Comentário de L.G.:

Felicito os realizadores e faço, aqui, desde já, um convite e um desafio para vermos em conjunto o filme: refiro-me naturalmente a todos os amigos e camaradas da Guiné que residam na área da Grande Lisboa. Vale ?
_________

Nota de L.G.:

(1) doclisboa2007: 5º Festival Internacional de Cinema Documental, 18-28 de Outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2164: PAIGC - Instrução, táctica e logística (4): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (IV Parte): Emboscadas (A. Marques Lopes)



Guiné > Região do Cacheu > CCAÇ 3 > Barro > 1968) > Os temíveis jagudis, o Grupo de Combate do Alf Mil Marques Lopes, montando uma emboscada aos guerrilheiros do PAIGC

Fotos: ©
A. Marques Lopes (2005). Direitos reservados.


Mensagem de 13 de Setembro de 2007, do A. Marques Lopes (natural de Lisboa, hoje coronel DFA, na reforma, e residente em Matosinhos), com mais um texto extraído do Supintrep, nº 32, de Junho de 1971:


PAIGC > Instrução, táctica e logística > IV parte (1)

[Fixação do texto: A.M.L. e editor L.G]

Imagens digitalizadas por © A. Marques Lopes (2007). Direitos reservados.

TÁCTICA > Emboscadas

(Continuação)


(4) Esquemas Representativos de Técnicas Doutrinárias

Dos cadernos de apontamentos do chefe de grupo João Landim, foram extraídos os seguintes esquemas relativos à emboscada.

(4a) Emboscada a uma coluna auto





Comentário: A figura mostra-nos uma emboscada montada nos moldes habituais.


(4b) Emboscada a uma embarcação




Comentário: A figura mostra-nos um bigrupo ocupando uma posição de emboscada contra uma embarcação. O local foi escolhido numa curva do rio, verificando-se da parte do IN uma preocupação na montagem de um eficiente sistema de segurança. De salientar a existência de locais de reunião pré-determinados.


(5) Casos reais descritos com base em relatórios elaborados pelas NT


(5a) Emboscada na estrada Bindoro-Jugudul

Nesta emboscada, realizada por efectivos da ordem de bigrupo, o IN conseguiu resultados assinaláveis mercê da técnica utilizada e da agressividade que demonstrou. Dadas as circunstâncias que antecederam o desencadear da acção, admite-se que a população possa ter colaborado com o IN, coactivamente ou de livre vontade, fixando as NT na zona de morte.

1. Descrição da acção

O IN istalou-se de ambos os lados da estrada articulando-se em dois grupos desfasados cerca de 50 metros, e utilizando como única protecção árvores de pequeno porte e o mascaramento oferecido pelo capim, com cerca de um metro de altura.

O grupo mais avançado, relativamente à testa da coluna, (a que chamaremos Grupo 1) ocupava posições distando entre 5 e 20 metros da estrada. A cerca de 30 metrops deste grupo o IN colocou uma mina que deixou a descoberto no leito da estrada.

Mais avançado, e apenas a um metro da estrada colocou o grupo de detenção à frente, em condições de bater frontalmente a viatura imobilizada, ou os seus ocupante quando tentassem a remoção da mina..

Na estrada, frente ao Grupo 1 encontravam-se alguns elementos da população que pediram boleia pelo que a viatura da testa parou para os transportar para Jugudul.

A paragem da viatura neste local colocou-a no centro da zona de morte do Grupo 1. Imediatamente após a paragem, a viatura foi atingida por um disparo de LGFog seguido de apreciável volume de tiro de armas ligeiras e lançamento de granadas de mão, colocando fora de combate a quase totalidade dos elementos das NT nela transportados.

A segunda viatura, embora fora da zona de morte, parou, sendo alvejada por disparos de LGFog, Mort 60 e granadas de mão, não tendo sido no entanto directamente atingida.

Após a neutralização do pessoal transportado na primeira viatura, aproveitando o efeito surpresa e o tempo necessário ao pessoal da segunda viatura para organizar a reacção, o Grupo 1 foi à estrada, ao assalto, levando consigo armamento (1 LGFog 8,9 cm e 5 Esp Aut G3), um emissor receptor THC736-AVP1, artigos de fardamento e equipamento, e retendo um elemento das NT e uma rapariga da população, esta posta em liberdade daí a dois dias.

Imediatamente após a acção o IN retirou, utilizando um trilho diferente do usado na aproximação.

A reacção das NT foi grandemente prejudicada pela altura do capim, pela superioridade numérica do IN, e pelo dispositivo por ele implantado no terreno. A acção dos elementos das NT, transportados na segunda viatura, mantidos debaixo de fogo do Grupo 2 limitou-se a uma reacção pelo fogo que não obstou ao assalto realizado pelo Grupo 1.

2. Procedimentos especiais a assinalar:

- Escolha de um itinerário onde o trânsito das colunas das NT constituía rotina, e portanto onde as medidas de segurança certamente teriam abrandado.

- Escolha de um local de emboscada suficientemente próximo da povoação ocupada pelas NT e portanto um local onde as NT estariam certamente em confiança.

- Aproveitamento do mascaramento oferecido pelo capim crescido, conjugado com uma instalção a curta distância da estrada, permitindo por conseguinte uma acção fulminante e a utilização eficiente de armamento ligeiro e granadas de mão.

- Colocação de uma mina, a descoberto, a cerca de 30 metros do local de etenção da coluna (admitindo-se que a mina assim a descoberto tivesse a finalidade de conseguir a imobilização da coluna dentro da zona de morte ou que o IN estivesse a proceder à sua instalação quando da chegada dos elementos da população).

- Utilização de elementos da população para detenção da coluna. (Embora esta utilização não tenha ficado perfeitamente esclarecida admite-se como muito provável que os elementos da população soubessem da presença IN, quer por se terem apercebido dos elementos emboscados a tão curta distância, quer pela presença da mina a descoberto).

- Uma boa coordenação dos grupos executantes, por forma a impedir a reacção eficiente das NT, e a cortar inclusivamente as possibilidades de envolvimento dos grupos IN.

- Retirada coordenada seguindo um grupo In não estimado por um itinerário, fazendo crer às NT ser essa direcção geral de rotina, enquanto o restante pessoal do bigrupo seguia por um local completamente diferente fazendo-se acompanhar do pessoal e material capturado.

- Utilização do E/R [emissor / receptor] capturado para, utilizando-o ou forçando o operador rádio à sua utilização, comunicar com a sede do Batalhão, dizendo não haver qualquer actividade.

- Rapidez no desenrolar da acção e retirada, não permitindo às NT prontamente saídas dos aquartelamentos mais próximos uma perseguição efectiva.

3. Conclusões

O modo como a acção se desenrolou revela, da parte do grupo executante:

- Um planeamento cuidado;
- Uma boa técnica de execução;
- Agressividade;
- Boa coordenação da acção por parte dos grupos executantes.

4. Esquema da emboscada:





(5b) Emboscada a uma coluna auto na estrada Mansoa-Infandre

1. Descrição

Em 12 de Outubro de 1970, às 12h00 uma coluna constituída por 2 viatutras saíu de Mansoa de regresso ao Infandre, donde havia saído na manhã do mesmo dia. Quando cerca das 12h30 atingiram o local MANSOA 5F8-35, local esse onde habitualmente costumavam apear com vista a tomar um dispositivo que lhe garantisse segurança sofreram uma emboscada, ficando as viaturas, que seguiam a uma distância de 80 metros, dentro da zona de morte (2).

A emboscada foi desencadeada com grande volume de fogos, tendo a viatura que seguia à frente, em virtude de o condutor ter sido logo atingido, saído o itinerário imbilizando-se dentro do mato.

A viatura da rectaguarda parou, logo que desencadeada a acção, imobilizando-se também a cerca de 90 metros da primeira.

O enorme volume de fogos atingiu a totalidde dos elementos que constituiam a escolta e de tal modo que o IN fez o assalto capturando grande quantidade de material, géneros e artigos de cantina.

Uma força de socorro vinda de Mansoa levantou uma mina anti-carro junto da berma da estrada, bem como uma mina A/P colocada sobre o itinerário de retirada. Encontrados ainda alguns dispositivos para armadilhamento, abandonadas por falta de tempo para a sua colocação.
Supõe-se que era intenção do IN armadilhar os corpos dos mortos.

2. Procedimentos especiais a assinalar

- O IN montou uma emboscada numa extensão de cerca de 200 metros e que implicou a utilização de elevados efectivos estimados segundo o relatório da acção em cerca de 100 elementos fortemente armados, o que se conclui pelo volume e variante de fogos desencadeados.
- A maneira como foi desencadeada a acção leva a admitir que seja intenção do In passar a utilizar efectivos elevados neutralizando totalmente as escoltas, e passando a efectuar o assalto com vista à capura de material e ao aprisionamento das NT.

- Refere-se a colocação de uma mina A/C com dispositivo anti-levantamento e ainda uma A/P implantada sobre o itinerário de retirada. Salienta-se ainda ter sido intenção do In armadilhar os cadáveres, o que não chegou a fazer por falta de tempo, ocasionada pela pronta intervenção das NT.

- A maneira como a acção foi desencadeada revela da parte do In um elevado grau de instrução.

3. Croquis da emboscada IN na região de Infandre


(5c) Emboscada a uma coluna auto na estrada Piche-Nova Lamego

1. Descrição

Em 10 de Novcembro de 1970, às 8h00, uma coluna auto escoltada por efectivos da ordem do grupo de ombate saíu da povoação de Piche com o seguinte dispositivo:

Viatura 1 – White
“ 2 – Unimog c/ 1.ª secção
“ 3 – GMC c/ civis
“ 4 – Unimog c/ bagagens
“ 5 – Unimog c/ 2.ª secção
“ 6 – Unimog c/ carga
“ 7 – GMC c/ bidons vazios
“ 8 – Unimog c/ 3.ª secção
“ 9 – White

À velocidade normal e respeitando uma distância de 50 metros entre 2 viaturas consecutivas, a coluna, ao atingir o pontão do Rio Bentem foi surpreendida pelo desencadear de fogo de LGFog e Armas Ligeiras o qual, vindo do lado direito da picada, incidiu sobre as duas primeiras viaturas. De salientar que junto ao pontão já se encontrava uma viatura das obras de estrada, a qual estava a ser carregada com areia por três civis.

A acção IN durou cerca de 20 minutos, não tendo sido possível às NT efectuar qualquer manobra de envolvimento dado não só o reduzido efectivo mas também pela dispersão em que os vários núcleos se encontravam.

A reacção das NT foi feita apenas pelo fogo, tendo sido batidos os itinerários de retirada com fogos de morteiro. Posteriormente, uma força saída da povoação de Piche constatou pelos trilhos deixados que o grupo IN seria constituído por efectivos da ordem dos 30 elementos.

2. Procedimentos especiais a assinalar:

- A actuação do In enquadra-se nos moldes habituais, sendo de salientar que a emboscada foi montada sensivelmente no local onde em tempos havia ocorrido outra.

- Os efectivos reduzidos que constituíam a escolta impossibilitaram a constituição de uma força que pelo fogo e movimento tentasse o envolvimento do grupo IN.

- A realização da coluna era do conhecimento do IN pela circunstância de se encontrar no local uma viatura civil que não foi molestada. Isso poderá provar que o objectivo do In era realmente a coluna auto.


Esquema de uma emboscada na estrada Piche -Nova Lamego a uma coluna auto das NT



(5d). Emboscada a uma coluna na estrada Farim-Jumbembem

1. Descrição

Em 14 de Dezembro de 1970, pelas 7h00, um grupo de combate saíu de Farim iniciando a picagem para Lamel no itinerário que posteriormente iria ser percorrido por uma coluna auto que transportava pessoal para trabalhos de desmatação.

No Bolumbato o grupo foi alcançado pela coluna auto, que ali ficou aguardando que a picagem prosseguisse até à ponte de Lamel onde se procederia ao encontro com forças vindas de Jumbembem. Cerca das 9h20, quando o grupo que procedia à picagem se encontrava aproximadamente a 800 metros da ponte de Lamel, os elementos que seguiam à frente verificaram a existência de pegadas na estrada e avisaram do facto para a rectaguarda. Imediatamente foram dadas instruções para se redobrar a vigilância. Então, para a rectaguarda e sensivelmente a meio do dispositivo tomado pelo grupo, deu-se um grande rebentamento acompanhado de intenso tiroteio vindo do lado norte da estrada (ver colocação do pessoal conforme o croquis).

O grupo caíra numa emboscada montada pelo IN que se encontrava instalado bastante próximo da estrada (posteriormente foram verificadas várias posições a uns 10 metros da berma). A proximidade e o forte potencial de fogo desencadeado (lança-rockets, morteiro 60 e armas ligeiras) era tal que impediu a manobra, permitindo apenas a reacção pelo fogo.

Alguns elementos do grupo IN falavam correctamente português, tendo até um soldado das NT ao avistar um elemento fardado de camuflado, perguntado se pertencia à milícia ao que o outro respondeu que sim e para pararem o fogo. Nesse momento, avistou outro IN atrás de um morro apontando um lança-rockets. Deu uma rajada nessa direcção ao mesmo tempo que se lançava ao solo. Ouviu então dizer repetidas vezes: “Avança a Secção 3”. Em face disso recuou rastejando para prevenir os camaradas do que se passava.

Passado algum tempo ouviram-se os ruídos das viaturas da coluna que se aproximava, tendo o IN feito fogo na direcção das mesmas. Com a aproximação da coluna auto o In deixou de fazer fogo e rompeu o contacto. O facto das forças da escolta terem reagido com fogo de armas ligeiras, contribuíu para que o In retirasse. O tempo que mediou entre o início da emboscada e a chegada das viaturas, foi cerca de 20 minutos.

Entretanto ouviu-se o ruído da coluna que se dirigia de Jumbembem para Lamel. Como ainda faltavam 800 metros para finalizar a picagem, prosseguiu-se e fez-se o encontro com as forças de Jumbembem, após o que a coluna se pôs em movimento. Cerca de 500 metroa a sudoeste da ponte de lamel, a viatura da frente accionou 1 mina A/C que a picagem não detectara, ficando parcialmente destruída e ferido gravemente um soldado daquela coluna. Frisa-se que este último troço de estrada foi picado novamente após o encontro até ao local da emboscada. A mina A/C accionada pela viatura, fora colocada num terreno pedregoso, que dificultava a sua detecção, pelo simples processo de picagem.

Entretanto chegou de Farim uma força de reforço dando-se início à batida que não pudera ser feita anteriormente. Reconstituiu-se a localização do grupo de combate quando do início da emboscada iniciando-se então a batida. A uns 10 metros da estrada, foi descoberto um carreiro paralelo àquela e numa extensão que abrangia todo o grupo de combate.

Ao longo desse carreiro foram localizadas grandes quantidades de invólucros de armas ligeiras e duas posições com o terreno queimado peloa gazes expelidos dos lança-rockets. A posição do morteiro não foi localizada, mas não há dúvidas do seu emprego. Seguidos os carreiros de retirada IN foram localizados vestígios de sangue em três locais diferentes e bocados de algodõ, bem como mais invólucros de armas ligeiras, que devem ter sido utilizadas para a protecção da retirada IN. Os carreiros de retirada convergiam a cerca de 1 km da estrada e iam dar a um carreiro único, este bem batido, por ser utilizado frequentemente, e que atravessava a bolanha,dirigindo-se paraFambantã. Seguido esse carreiro e como nada mais se passou a força regressou.

3. Procedimentos especiais a assinalar

- Tratava-se de um Grupo numeroso, bem treinado e com determinação de ir ao assalto, o que é demonstrado pelas vozes de comando ouvidas.

- A zona de morte era extensa, tendo o início da emboscada sido feito com uma mina A/C, comandada e colocada não na parte superior do terreno, mas sim pela valeta como a figura demonstra: - O local de rebentamento da mina foi bem picado e observado, pois foi precisamente nele que foram verificadas as pegadas. A mina estava mesmo colocada junto à valeta e fora do rodado das viaturas. Quando foi accionada o elemento mais próximo estava a uns 4 metros e portanto sem qualquer possibilidade de ter sido accionada pelas NT. A uns 10 metros da cratera foi encontrado o travesão da mina A/C junto a uma árvore e um morro de baga-baga, lugar onde foi detectada uma posição de lança-rockets e armas automáticas; foi possivelmente desta posição que o IN fez accionar a mina.

- A mina que foi accionada pela viatura estava colocada em terreno pedregoso (escapou a uma dupla picagem) e estaria colocada para ser accionada por forças que se deslocassem naquele sentido e que viessem em nosso socorro.

- O terreno onde se efectuou a emboscada era próprio para a mesma, pois o capim era bastante alto.

- O IN, ao falar correctamente o português e vestido de camuflado, tentou aproveitar-se do facto procurando fazer com que as NT deixassem de fazer fogo.

- De salientar que este processo de implantação de minas foi já detectado no TO.


Esquema de uma emboscada a uma coluna na estrada Farim-Jumbembem:




(5e) Emboscada a uma coluna auto das NT


1. Descrição

Em 15 de Dezembro de 1970, às 6h00 saíu do destacamento X das NT um grupo de combate com a missão de manter segurança a um troço compreendido entre X e um local que designamos por Y. Meia hora mais tarde foi atingida a bolanha Z que corta o referido troço, tendo as NT feito reconhecimento pelo fogo não só porque a zona apresenta nesta altura densa vegetação mas também porque, do antecedente, o In tem escolhido esse local para montagem de emboscadas.

Transposta a referida bolanha e 1 Km após ela, o IN fez accionar uma mina A/P reforçada e comandada, após o que desencadeou a emboscada com fogos de RPG 2 e armas ligeiras automáticas. As NT reagindo pelo fogo e movimento obrigaram o In a retirar, tendo a retirada deste sido protegida com fogos de Mort 82. Feita a batida ao local, verificou-se que o IN dispunha de 30 abrigos individuais, dispostos paralelamente à estrada e a uma distância desta de 5 a 6 metros. Os abrigos foram feitos aproveitando a protecção de troncos que se encontravam caídos no local. A posição do Mort 82 encontrava-se a cerca de 1 Km a W do local onde se desencadeou a emboscada.

2. Procediments especiais a assinalar

- O In sabedor que as NT passavam a efectuar reconhecimentos pelo fogo na bolanha Z, montaram emboscada numa posição diferente da habitual, muito embora num local próximo, o que não deixa de significar a sua predilecção por determinados locais.

- A acção foi iniciada com o accionamemnto de uma mina A/P comandada por um elemento encarregado de puxar um cordel, acção essa que iniciaria a cadeia de fogo. Esse elemento estava protegido por 02 elementos armados com armas automáticas.

- O IN logo após o desencadeamento da emboscada flagelou com grande volume de fogos a cauda da coluna, com vista a impedir qualquer manobra de envolvimento.

- O IN utilizou, para proteger a retirada das suas forças, fogos de Mort 82 (16 granadas).

- O IN utilizou troncos caídos sob a protecção dos quais construiu abrigos individuais.

- Dos abrigos saím trilhos que se reuniam junto a uma árvore de grande porte, facilmente referenciada, da qual partia um trilho único que se dirigia paraa posição do Mort 82.

(Continua)

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Notas de L.G.:

(1) Vd. posts anteriores:

22 de Setembro de 2007 >
Guiné 63/74 - P2124: PAIGC - Instrução, táctica e logística (1): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (I Parte): Formação e treino (A. Marques Lopes)

24 de Setembro de 2007 >
Guiné 63/74 - P2126: PAIGC - Instrução, táctica e logística (2): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (II Parte): Instrução militar (A. Marques Lopes)

1 de Outubro de 2007 >
Guiné 63/74 - P2146: PAIGC - Instrução, táctica e logística (3): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (III Parte): Deslocamentos (A. Marques Lopes)

(2) Vd. post de 7 de Outubro de 2007 >
Guiné 63/74 - P2162: O fatídico dia 12 de Outubro de 1970 - Emboscada no itinerário Braia/Infandre (Afonso M. F. Sousa)