sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Guiné 63/74 - P2540: Operação Macaréu à Vista - II Parte (Beja Santos) (20): A morte de Uam Sambu, na Missão do Sono, em Bambadincazinho

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Tabancas de Bambadincazinho onde estava instalada a Missão do Sono. Estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole. Foto do Luís Moreira (ex-alf mil da CCS / BART 2917, Bambadinca, 1970/71; BENG, Bissau, 1971; será gravemente na explosão de uma mina anticarro, em 13 de Janeiro de 1971, em Nhabijões, no mesmo sítio onde duas horas depois rebentaria outra mina que atingiu a viatura onde ia um Gr de Combate da CCAÇ 12, e onde seguia o editor do blogue) (1).

Foto: Luís Moreira (2005). Direitos reservados.

Cópia do poema escritoi por beja Santos, na morte do Uam Sambu: "O pseudopoema foi escrito logo a seguir à morte de Uam, penso que a 2 de Janeiro.Vim para Bissau a 12, reescreviu-o e enviei-o à Cristina, tal como se pode ver, cheio de dor.Estou doente, mas comecei a dormir melhor.Digo à Cristina que estou ansioso por a ver,suspeito que será em Fevereiro,não será assim. Saio de Bissau, e com o Pel Caç Nat 52 vamos para a operação Topázio Valioso" (BS).

Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.

Texto do Beja Santos (ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), remetido em 13 de dezembro de 2007:

Luís, tal como prometido, aqui tens mais um episódio esta semana. Seguem amanhã as capas dos livros. Se tivesses uma fotografia com a missão do sono do Bambadincazinho era o ideal. Creio que tens uma fotografia da vossa passagem de ano, na messe de sargentos. E, como sempre, temos a espelunca da ponte de Udunduma. Para a semana volto a interrogar o Queta e o Pires. Faltam-me cartas e as que tenho falam mais no casório do que nas coisas da guerra (vou casar por procuração no inicio de Fevereiro). Recebe um abraço do Mário.

Operação Macaréu à vista > Episódio XX

A MORTE DE UAM SAMBU

por Beja Santos

(i) Aquela tumultuosa noite de passagem de ano

Um pouco antes do lusco-fusco, o Setúbal levou-nos para a Missão do Sono, no Bambadincazinho, partíamos para uma emboscada visando proteger Bambadinca a partir da estrada de Mansambo, fazia parte do plano defensivo do quartel. O transporte por Unimog era obrigatório por causa das munições, pois caso houvesse flagelação das gentes de Galo Corubal, Bambadinca não podia ripostar na nossa direcção, seríamos nós a reagir ao fogo inimigo.

A velha Missão do Sono resistia de pé e ainda em bom estado, era uma daquelas construções coloniais típicas, rebocada de branco, bem telhada, paredes arejadas e com uma varanda simpática com tijolos, cuidadosamente cimentada. Em torno do edifício, a malta da engenharia com a tropa do batalhão fizeram um largo U que era uma barricada de bidões cheios de terra, com uma leve cobertura de cimento.

Era aí que passávamos a noite, duas sentinelas em permanência, não era recomendável pernoitar dentro da missão, uma simples roquetada podia fazer uma mortandade, abrigávamo-nos junto dos bidões, os cunhetes de granadas de bazuca e morteiro num espaço central, bem como os cunhetes de balas e o telefone de campanha. Pelas 6 da tarde, estávamos todos instalados, havia cantis e rações de combate, atendendo que se tratava de uma estadia de doze horas.

Há muito pouco a contar sobre estas noites de emboscada. Até ao anoitecer, estávamos entretidos a ver a população chegar e a partir de Bambadinca, havia gente a viver na região de Água Verde, mas também em Iero Nhapa, Aliu Jai, Sare Nhado e Queroane. Depois, crescia o silêncio total pontuado pelo piar das aves e o restolhar dos animais. À distância de dois quilómetros, talvez um pouco mais, os holofotes no quartel referenciavam com clareza a estrada para Mansambo. Mas a mata fechada era imponente, era dali que procurávamos ouvir os sons de uma intempestiva flagelação.

Inactivos, aproveitávamos para conversar em voz baixa: quem estava doente, quem queria ir de férias, com mais discrição alguém perguntava ao alferes se este podia adiantar duzentos ou trezentos escudos, seguiam-se as explicações intermináveis, a cerimónia de um choro, uma mãe muito doente, um paizinho no hospital, a compra de um rádio, dar dinheiro ao irmãozinho que ia para Bolama, há sempre argumentos de toda a ordem para pedir dinheiro emprestado ou adiantado. Depois, chegava a modorra, lá nos aconchegávamos na friagem da noite, levávamos mantas e adormecíamos aos três e quatro, o Domingos umas vezes, outras o Queirós, outras o Benjamim, outras o Barbosa, iam chamar de duas em duas horas os novos sentinelas. Quem podia dormia, os outros procuravam dar repouso ao corpo, recordavam quem os esperava em Portugal, o que fazer depois do fim da guerra. E assim chegávamos ao amanhecer.

Só que naquela noite tudo aconteceu às avessas, por capricho do destino. Do Xime primeiro, do outro lado do Geba, depois, começou um medonho foguetório quando precisamente se deu a passagem de ano. No caso do Xime era horrível de se ver, o céu rasgado pelas descargas do fogo das espingardas metralhadoras, das saídas de morteiro e bazuca, mas havia o incompreensível silêncio do inimigo que não se apresentava.

Irei escrever à Cristina:

“Era meia noite e estava eu em ânsias, impressionado com o potencial de fogo, supondo que aquela flagelação arrasaria o quartel. Liguei para Bambadinca (maior deste chama maior desse, proponho ir auxiliar força atacada, escuto, e depois de um longo silêncio com o ruído de fundo do costume, o maior daquele avisou-me que eram tiros de festa, devia haver ali uma boa bebedeira, que o maior deste não se preocupasse). Quando nos preparávamos para descansar, foi a vez do fogo de Mansambo, desta vez nem usei o telefone de campanha, não chegaram instruções de Bambadinca. A partir das 2 da manhã, demos por finda a preocupação com o tiroteio dos outros, a sua exuberância de reveillon na floresta. E depois da tempestade veio a bonança. Mal sabia eu que estava no princípio dos meus azares”.

O Setúbal já nos tinha avisado que viria o Xabregas ao amanhecer, eu que não estivesse preocupado. Assim que clareou, todos de pé, arrumadas as mantas, satisfeitas as necessidades mais prementes nas redondezas, esperámos a tiritar a aproximação dos faróis do Unimog, procurando desentorpecer os músculos. Assim foi naquele amanhecer de 1 de Janeiro de 1970. O Xabregas trouxe um burrinho, o que significava dez militares sentados, 20 a pé. Dez não, um outro saltava para o lado do condutor, mais um outro encavalitava-se junto do alferes. Uam Sambu senta-se ao pé de mim e diz a Quebá Sissé:
- Sobe Doutor, dá cá a mão! - Vejo o riso feliz e sempre aberto de Quebá Sissé, segue-se o estrondo inusitado de uma rajada de G3, procuro levantar-me, oiço gritos de aflição, imprecações, um coro desorientado de protestos, e é nisto que Uam me cai nos braços enterrando-me no assento:
- Alferes, estou morto!”

Com Uam no meu colo, vejo o seu peito esburacado, os lábios num esgar de dor, o olhar a esmorecer, o sangue passa para a minha farda em abundância. O burrinho corre em poucos minutos nas mãos expeditas do Xabregas até à enfermaria. Vou a correr tirar da cama o Vidal Saraiva que se debruça atarantado sobre Uam com o peito tracejado por diferentes perfurações. Cá fora, desenrola-se uma outra tragédia, há quem ameace o Doutor, ouve-se a palavra assassino, ouvem-se as expressões impensadas do costume. Ora, tinha sido o mais estúpido dos acidentes, o malogrado Doutor ao subir metera o dedo no gatilho e fulminara Uam, o Doutor era a alma mais pacífica do 52, ninguém lhe conhecia azedume, aguentara estoicamente todos os comentários ao seu trabalho de cozinheiro. Percebendo que era necessário pôr termo àquela ira dementada, disse ao Domingos:
- Não quero aqui ninguém, tudo para a tabanca, tu desces imediatamente com eles e explicas que foi um acidente, quem tocar no Doutor tramo-lhe a vida.

Dita a bazófia, acerquei-me da marquesa onde o Vidal Saraiva me avisou:
- Só por milagre se salva, tem os órgãos vitais atingidos, veja o sangue aos cantos da boca, pulmões e rins têm lesões que presumo serem irreversíveis. Vamos ver como é que ele se aguenta até Bissau.

A DO chegou rapidamente e lá fomos todos a acompanhar o moribundo até à pista de aviação, Binta, a mulher do Uam, gritava o seu desespero, o Pel Caç Nat 52 assistia ao transporte de Uam num silêncio total, estarrecido. Dispersámos, o Vidal Saraiva era o mais acabrunhado entre nós.

À tarde fomos trabalhar para Galomaro, levámos coisas a Madina Bonco, depois Bafatá, à noite voltámos à missão do sono. Escrevi à Cristina:

“Pelas 10 da noite desse 1 de Janeiro, o Reis telefonou da ponte de Udunduma dizendo que tinha um soldado gravemente ferido. Lá fomos e trouxemos um apontador de morteiro que estava com uma mão escavacada pelos impactos de uma morteirada. Logo a seguir foi a nossa vez de voltarmos para a ponte”.

Era assim esta nossa guerra sem feitos épicos, só mágoas e canseira. No dia seguinte, chegou-nos a notícia de Bissau: Uam finou-se no bloco operatório.

(ii) As minhas recordações de Uam

Quando cheguei a Missirá, no início de Agosto de 1968, Uam tinha sido evacuado na véspera, com o peito estilhaçado, em resultado de ter tocado nos fios de uma armadilha. Só o conheci em Abril de 1969, quando regressou totalmente restabelecido. Escrevi dele no meu caderninho de viagem, convencido que dominava a prosa poética: “É um azeite de palma com ceptro de maracujá, enfeitado com bicos de periquitos no seu guarda de corpo”.

Vinha do Morés, sabia rir devagar, possuía um andar elegante, o seu comportamento militar era o de um herói. Conhecera ferimentos graves em duas emboscadas. Os seus estilhaços formavam nódulos no peito, e por isso ele ia a Bambadinca extrair insólitos pedaços de ferro e aço que deixava o médico pasmado. Era um prazer passar, nas noites de Missirá, um pouco na sua companhia quando eu o visitava no reforço. Ouvi-lhe contar narrativas guerreiras mansoanques, eu ficava deslumbrado. Ao fim da tarde, ele despia o camuflado, adornava-se de amuletos e fetiches punha um manto com as cores de Navarra, lembrava-me um Zulu.

Numa das minhas conversas com Lânsana, perguntei-lhe se os mansoanques eram islamizados. O padre de Missirá respondeu-me que os mansoanques eram totemistas, acreditavam nos elementos da natureza, nas pilhas de fogo, nos símbolos aquáticos, eram gente sem deus. Quando fomos destacados para Bambadinca, o estado de saúde do Uam tinha-se agravado, já não podia fazer operações, tal a sua fragilidade.

Talvez o tenente Pinheiro tenha razão, eu estou a amalucar, quando o helicóptero o leva para Bissau e Binta Sambu arranca os cabelos, transida com o arame farpado profundo, eu inventei uma lenda. Que um anjo lhe acobertara a nudez e que o dia se estava a avermelhar num calor de tornados e febres. Que Uam corria velozmente para o céu onde foi recebido em festa e que o Uam se torcionava ao som de um batuque trepidante. Ele fumava um canhoto (cachimbo), para mim ele tinha morrido de olhos abertos, lembrava-me do que me tinha dito Mamadu Camará de uma emboscada que o 52 sofrera em Canturé, em 1967, ele em cima de um Unimog, de pé, reagiu à emboscada, estava em dia fasto, nenhuma bala lhe roubou a vida.

No meu quarto, escrevo poema para Uam Sambu, uma coisa sem importância que vou mandar num aerograma para a Cristina:

Canhoto chupado, preto mansoanque, manto
de Navarra, um gamo antigo.

Nascera na hora de batuque, acima do Oio,
tabanca era Sambu.
No peito, traços de estilhaços, mas estilhaços
O níquel da vida...


E digo à Cristina que estou doente, incapaz de resumir em meia dúzia de linhas tudo o que me vai na alma. E termino: “Desejo ardentemente o nosso encontro, começar a fazer-te feliz.”


Copia da obra Casa Grande e Senzala, do brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987). Edição: Livros do Brasil, Lisboa. "Esta obra,tal como Sobrados e Mucambos,entusiasmou-muito: estava finalmente a confrontar-me com um colono retratado a corpo inteiro, o que era impossível na Guiné. Curiosamente, voltei a ler este livro quando fiz História do Brasil" (BS).
Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.


(iii) As minhas recordações do Xabregas

Chamava-se Mário Dias Perdigão e quando o voltei a ver, no fim dos anos 80, trabalhava na Trevauto, na rua de Arroios, em Lisboa. Eu representava o Ministério do Ambiente no Conselho de Prevenção do Tabagismo, que funcionava num serviço do Ministério da Saúde, ali perto. Um dia, olho para o balcão de atendimento da Trevauto, o rosto daquele homem que escrevia atentamente num livro de encomendas, era-me familiar. Entrei, apontámos um dedo um ao outro e houve gritaria no reencontro. Deu-me o seu cartão, queria que eu fosse a sua casa. Todos os meses se repetia o ritual, eram uns minutos de recordações de Bambadinca e arredores.
- Oh meu alferes, lembra-se quando fomos ao Xitole e a GMC rebentou os pneus debaixo de uma mina? Os sapadores vieram, não havia novidade, mudámos os pneus, lá seguimos para o Xitole e para o Saltinho... Oh meu alferes, e se aquele gajo que matou o outro no dia 1 de Janeiro [de 1970] tem enfiado uma rajada em nós? As coisas que vivemos, meu alferes!.

Até que um dia passei por ali e não vi o Xabregas no balcão, o que me surpreendeu já que poucos meses antes o tinha encontrado uma noite no Café Império, e ficara aprazada uma nova visita com almoço, depois de uma das minhas reuniões do Conselho de Prevenção do Tabagismo. Dirigi-me a um outro colega e pedi para falar com o Xabregas:
-O senhor não sabe? O Mário Perdigão morreu com cancro, no fim foi quase fulminante. Não o avisaram?.

Saí cá para fora, apatetado. O Xabregas era um dos meus telefones para o passado, nunca aceitamos estas separações sem um grito de revolta. Limpei os olhos humedecidos, continuei a caminhar, mas mais lentamente, a refazer-me da perda.


(iv) Leituras, entre Bambadinca e Bissau

No inicio do ano, numa operação no Xitole, a Navalha Polida fez-se um prisioneiro em Satecuta (3). Dias depois, ambos algemados, partiremos para Bissau, ele para ser interrogado, eu para fazer tratamento às minhas insónias. Até lá, foi o penar do costume: colunas, Nhabijões, reabastecimentos de emergência, ponte de Udunduma. O Cherno procurava lançar a lenda que eu era um guerreiro imortal, mostrando a minha camisa perfurada pelas balas que tinham atingido Uam. Creio que uma conversa em privado falando-lhe na sorte e no destino não o convenceu. Até hoje.


Capa do romance policial de Elleru Queen, A Porta do meio. Lisboa: Livros do Brasil, s/d. Colecção Vampiro.

"Percebo como Ellery Queen passou de moda. Eram tramas de perspicácia, ajustes de contas densamente elaborados, por vezes ao arrepio da informação sumária que se fornecia ao leitor. Aqui, é inteiramente impossível supor-se que um pássaro possa fugir com uma metade de tesoura e fazer recair as suspeitas sobre uma inocente. Uma boa capa de cândido da Costa Pinto, tradução de Wilson Velloso, revisão de Baptista de Carvalho". (BS).

Foto: © Beja Santos (2007). Direitos reservados.


Não é possível ler na ponte de Udunduma depois de anoitecer, mas até lá desforro-me. Primeiro um Ellery Queen original, com os seus crimes da mente, bem elaborados, vinganças que acabam no caixão. Desta feita, a famosa escritora Karen Leith, meio americana, meio japonesa, aparece morta no seu gabinete de trabalho, cá fora estivera sempre a filha do Dr. MacClure, o noivo de Karen e prestigiadíssimo médico, não há outro acesso possível que a porta sempre vigiada. Todos as suspeitas recaem sobre Eva McClure. Ellery, detective por acidente, vai descobrir na sua investigação diferentes ajustes de contas do passado remoto, descobre que Karen obrigava a irmã a escrever as obras primas que passavam por ser dela, que houvera um hara-kiri, que um pássaro levara a arma, que o Dr. MacClure preparara a frio uma tenebrosa vingança. Uma porta do meio, entre o gabinete da vitima e o sótão era a chave do mistério. A Porta do Meio é uma obra digna da Colecção Vampiro e das construções cerebrais de Ellery Queen.

Prato de substância da semana foi Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, um estudo monumental sobre a origem da família brasileira no colonialismo português. E, de facto, estão ali elementos que mostram ao colonizador e a sua obra: o carácter português, entre o fatalismo e os rompantes do heroísmo, a sua capacidade de adaptação, a nova agricultura escravocrata e o nascimento de uma sociedade colonial e patriarcal. Os brancos na casa grande e os negros na senzala, a vida dura, a construção de um equilíbrio feito de antagonismos: na economia e na cultura, com europeus e indígenas, no mundo agrícola e na extracção mineira, com os jesuítas e os fazendeiros, os bandeirantes e os senhores do engenho, os bacharéis e os analfabetos. Nascia um modo novo com mestiços e filhos naturais, o cristianismo lírico à portuguesa, uma hospitalidade única no mundo. É uma leitura estimulante, vou levar Gilberto Freyre e a Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro para Bissau.

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Notas dos editores:

(1) Vd. postes de:

18 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXXVII: O meu Natal de 1969 em Bambadincazinho (Luís Graça)

23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)

" (...) O dia 13 [de Janeiro de 1971] seria uma data fatídica para as NT, e em especial para a CCAÇ 12 cujos quadros metropolitanos estavam prestes a terminar a sua comissão de serviço em terras da Guiné. Eis o filme dos acontecimentos (...)"


(2 Vd. post de 8 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2513: Operação Macaréu à Vista - Parte II (Beja Santos) (19): O Natal de 1969 em Bambadinca e na Ponte do Rio Udunduma

(3) Vd. poste de 7 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXII: Assalto ao destacamento IN de Seco Braima, na margem direita do Rio Corubal (Janeiro de 1970, CCAÇ 12, CAÇ 2404, CART 2413) (Luís Graça)

(...) "Em 2, às 5h00, dava-se início à Op Navalha Polida para uma batida à região de Galo Corubal-Satecuta-Seco Braima, e em que participaram 3 Gr Comb da CCAÇ 12 (Dest A), além de forças da CCÇ 2404 (Dest B) e CART 2413 (Dest C), [estas duas últimas sediadas, respectivamente, em Mansambo e Xitole].
No dia seguinte, às 3h30, os Dest B e C iniciaram o movimento em direcção a Satecuta. E uma hora mais tarde o Dest A começou a deslocar-se para a região de Seco Braima, tendo ouvido por volta das 7h00 ruídos do pilão e vozes humanas.

Dirigindo-se imediatamente nessa direcção, o Dest A [CCAÇ 12] teve de cambar um curso de água, utilizando uma ponte submersível feita de troncos de cibe, deixando então de ouvir as vozes por se encontrar numa baixa.

Entretanto, o 4º Gr Comb ficava emboscado junto ao ponto de cambança. Continuada a progressão ao longo da margem, ouviram-se de novo vozes. Feita a aproximação de maneira cautelosa, verificou-se que havia ali um destacamento avançado do IN que deveria constituir o dispositivo de segurança próxima da tabanca de Seco Braima.

Como era impossível qualquer manobra de envolvimento sem ser detectado, devido ao capim e à vegetação arbustiva, o Comandante do Dest A deu ordem para que os homens da frente fizessem um assalto imediato. O acampamento foi atacado à granada de mão, tendo-se ouvido gritos lancinantes de dor.

Apesar de surpreendido, o IN reagiu rapidamente com armas automáticas, ao mesmo tempo que retirava, levando dois corpos de arrasto (no terreno havia sinais de arrastamento de 2 corpos através do capim e vestígios de sangue).

Concentrando o fogo na direcção da retirada do IN, os 2 Gr Comb (1º e 2º ) do Dest A tomaram o acampamento que era constituído por 5 casas de mato. Feita a batida a zona, encontrou-se o seguinte material:

5 granadas de RPG-2,
1 carregador de Metralhadora Ligeira Degtyarev,
2 lâminas 18 cartuchos,
além de vários utensílios e um balaio cheio de arroz.

Entretanto, já os Dest B e C tinham atingido o acampamento de Satecuta, de resto abandonado. Porém, devido aos rebentamentos que se ouviam da direcção de Seco Braima, alguns elementos IN, de passagem em Satecuta, foram alertados e na fuga seriam interceptados pelo Dest C [CART 2413] que abriu fogo sobre eles. 0 IN reagiu da vários pontos da mata. Na perseguição as NT fizeram um prisioneiro que ficara para trás, ferido.

Quase simultaneamente os 2 Gr Comb do Dest A em Seco Braima começariam a ser flagelados com canhão s/r e mort 82, instalados na margem esquerda do Rio Corubal, em frente de Ponta Jai. Foi entretanto pedido apoio aéreo e dada ordem de retirada pelo PCV. Enquanto os bombardeiros T 6 martelavam as posições do IN, as NT retiraram mas ordenadamente.

Os 3 Dest encontraram-se na estrada por volta das 13h00, tendo o Dest C seguido para o Xitole e os Dest B e A para Mansambo em coluna apeada (até à Ponte dos Fulas e ponte do Rio Bissari, respectivamente).

Em resultado da acção das NT, o IN teve 2 mortos prováveis e vários feridos confirmados, além dum capturado" (...).

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