sábado, 8 de março de 2008

Guiné 63/74 - P2618: Uma semana inolvidável na pátria de Cabral: 29/2 a 7/3/2008 (Luís Graça) (1): Regresso a Bissau, quatro décadas depois...


Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > O cartaz de boas-vindas... Durante uma semana seremos objecto de uma amizade e hospitalidade inexcedíveis...

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > Chegada do avião semanal da TAP, com os tugas e outros estrangeiros que vieram ao Simpósio Internacional de Guiledje (1 a 7 de Março de 2008)...

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > O omnipresente Pepito, cérebro e coração deste Simpósio, que não precisa de se pôr em bicos de pés, sempre discreto e encantador, cultivando deliberadamente um low profile... Ele e a sua orquestra de gente magnífica, como teremos oportunidade de constatar ao longo de uma semana cheia de emoções... Do ponto de vista da organização, o simpósio esteve perfeito, considerando os mil e um constrangimentos e dificuldades existentes neste país de África que nos trata com um enorme carinho...

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > O Pepito fazendo questão de cumprimentar todos os seus convidados, oradores e demais participantes do Simpósio: neste caso, os três Gringos de Guileje, O Zé Carioca, o Abílio Delgado e o Sérgio Sousa (aqui em primeiro plano, de costas).

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > A Maria Alice...Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > Um homem com três comissões na Guiné, e que nesta semana irá experiementar momentos de grande felicidade, o hoje coronel de artilharia, na situação de reserva, Coutinho e Lima, que era em 22 de Maio de 1973 o major que comandava o COP5... Descobri que era meu vizinho: eu moro em Alfragide e ele em Benfica...

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > Sapa VIP > O major da Guarda Fiscal Sado Baldé e o seu grande amigo e membro da nossa Tabacanca Grande, o Paulo Santiago (que veio na caravana autómóvel que partir de Coimbra em 21 de Fevereiro)

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > Alguns dos amigos e camaradas que nos foram esperar ao aeroporto: Da esquerda para a direita, o Álvaro Basto, mais um amigo do Porto (cujo nome não retive, e que não fez tropa na Guiné), o Carlos Silva e o célebre Camilo (que eu conheci pessoalmente na ocasião e que vou reencontrar, no dia seguinte, no Saltinho onde tem uma morança, de fazer inveja a qualquer um de nós, no Clube de Caça, na margem direita do Rio Corubal, junto à ponte do Saltinho)

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > Quatro grandes amigos e camaradas da nossa Tabanca Grande: da esquerda para a direita, o Xico Allen, o Armindo Ferreira (que foi Fur Mil na CCAÇ 1565, Jumbembem e Canjambari, 1966/68), mais o Álvaro Basto e o Zé Teixeira...

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > O Pedro Lauret, o nosso gentleman e único representante da Armada Portuguesa... É comandante de mar e guerra na situação de reforma, além de dirigente da Associação 25 de Abril (A25A) e animador do respectivo blogue, Avenida da Liberdade...

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > Em primeiro plano, o Carlos Matos Gomes, um homem do MFA da Guiné e um celebrado autor de romances de guerra como Nó Cego, Soldadó ou Fala-me de África (sob um pseudónimo literário, Carlos Vale Ferraz).

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > O historiador Julião Soares Sousa, natural de Bula, o primeiro guineense a doutorar-se pela Universidade de Coimbra (2008)...

Guiné-Bissau > Bissalanca > Aeroporto Osvaldo Vieira > 29 de Fevereiro de 2008 > A caminho do hotel: em primeiro plano, o Luís Moita e o Josep Cervelló; em segundo plano, a Alice e o Patrick... Durante um semana, o convívio entre nós, portugueses e estrangeiros alojados no Hotel Azalai, em Santa Luzia, foi de uma grande qualidade humana... Não gosto da palavra estrangeiro: tirando os cubanos, todos nos expressávamos em português...

Guiné-Bissau > Bissau > 29 de Fevereiro de 2008 > Mercado da Chapa... Percurso entre o aeroporto, em Bissalanca, e o Hotel Azalai, o famoso QG, a antiga messe e as instalações de oficiais superiores, durante a guerra colonial...

Guiné-Bissau > Bissau > 29 de Fevereiro de 2008 > Mercada do Chapa > Estrada que vem do aeroporto para o centro de Bissau... A missão de cada guineense é sobreviver dia-a-dia... Mais de 90% dos guineenses deverão viver na economia informal (que termo tão irónico ou cínico!)...

Guiné-Bissau > Bissau > Bairro de Santa Luzia > Hotel Azalai > O Alfredo Caldeira, ladeado pela Diana Andringa, sua esposa, e dois jovens colaboradores da Fundação Mário Soares, a Catarina Santos e o Vitor Ramos, que já estavam em Bissau quando chegámos e que lá continuaram depois do nosso regresso a casa... A sua missão principal foi montar a exposição Memória da Luta de Libertação Nacional, em Bissau, e que também pode ser vista na página da Fundação Mário Soares... Um belíssimo trabalho que mereceu a unamidade dos aplausos... A Fundação Mário Soares não só participou como apoiou o Simpósio Internacional de Guiledje, tendo preparado nomeadamente um conjunto de documentos e fotografias relacionadas com Guiledje, com recurso tanto ao Arquivo Amílcar Cabral como ao nosso próprio blogue.

Guiné-Bissau > Bissau > Hotel Azalai > 29 de Fevereiro de 2008 > Os nossos companheiros Alfredo Caldeira e Diana Andringa...

Guiné-Bissau <> Hotel Azalai > 29 de Fevereiro de 2008 > A Diana Andringa com o nosso globetrotter Xico Allen que se desloca à Guiné pela enésima vez... O Xico passou pelo nosso hotel só para perguntar se estava tudo bem... Ele, o Armindo Ferreira e mais um camarada, natural do Algarve, cujho nome não retive... Nem uma cerveja o Xico quis aceitar... É um menino de coração de ouro, mas que me pareceu cansado das duas viagens, terrestres, que fez à Guiné só durante o mês de Fevereiro...

1. Amigos e camaradas: Cá estamos de novo para retomar o convívio do nosso blogue. Acabamos de chegar de Bissau, ontem, por volta das 21h. Todos os participantes do Simpósio, guineenses, caboverdianos, cubanos, portugueses e outros europeus, reconheceram que se tratou de uma iniciativa histórica, que teve muito impacto a nível local. Durante uma semana, Guiledje esteve nas bocas de todo mundo, na pátria de Amílcar Cabral. Houve cobertura mediática do acontecimento que suscitou inclusivamente o interesse dos representantes máximos do Estado guineense: o Presidente da República, o Presidente da Assembleia Nacional e o o 1º Ministro...

Na quinta feira, dia 6, uma delegação de ex-combatentes portugueses (cerca de duas dezenas) foi recebida em audiência pelo 1º primeiro Martinho N'Dafa Cabi, e depois pelo Presidente da República da Guiné-Bissau, general João Nino Vieira... Ao fim da tarde, o chefe de estado guineense fez questão de se deslocar ao hotel onde decorreu o Simpósio Internacional Guiledje na Rota da Independência da Guiné-Bissau, não só para esclarecer, com o seu testemunho pessoal, alguns aspectos menos conhecidos da batalha de Guiledje, mas também para assistir à exibição do documentário, de 100 minutos, As Duas Faces da Guerra, de Diana Andringa e Flora Gomes. O tempo foi escasso para vos mandar estas simples notas de apontamentos, e algumas das fotos e vídeos que fiz (e que foram muitas, para aí uns cinco ou seis gigas)... Espero, de algum modo, com estas notas de reportagem compensar a minha ausência no blogue e sobretudo a pena que muitos de vocês terão tido de não poderem acompanhar-nos nesta visita memorável, que nunca mais se irá repetir... Para todos nós, e não apenas para mim, é daquelas coisas que iremos recordar com saudade e gratidão... L. G.



2. Uma semana inolvidável na Pátria de Cabral: 29/2 a 7/3 de 2008 (1): 6ª feira, dia 29 de Fevereiro, regresso a Bissau, quatro décadas depois…

Texto e fotos: © Luís Graça (2008). Direitos reservados

Regresso à Guiné. 37 anos depois. É duro, é uma provação. Tenho sentimentos ambivalentes. Quero e não quero ir. Há o Graça que quer ir, o fundador e o editor deste blogue; e o Henriques que não quer, o velho tuga, o furriel miliciano, apontador de armas pesadas de infantaria que esteve na CCAÇ 12, em Bambadinca, em 1969/71, e a quem deram uma G3 de atirador de infantaria… Durante muito tempo, todos nós quisemos esquecer a Guiné, ao mesmo que alimentámos o desejo secreto, voyeurista, de lá voltar… Eu decididamente não teria lá voltado se não tivesse surgido a oportunidade que representou, para mim e outros camaradas, a realização do Simpósio Internacional Guiledje na Rota da Independência da Guiné-Bissau, que vai começar amanhã e prolongar-se até 7 de Março de 2008.

Mas já houve mais resistências ou defesas, há uns tempos atrás, quando recebi o convite dos organizadores do Simpósio. Agora os dados estão lançados, é tarde demais para hesitações. Vou à Guiné, não em romagem de saudade (acho piroso o termo…), mas pura e simplesmente em trabalho. Quero convencer-me disso. É mais fácil assim. Racionalizo, logo passo o teste.

Chego ao aeroporto da Portela às 8h da manhã. Por sorte o avião é só às 10.30h…. É que, com as pressas, a excitação da partida, o stresse dos preparativos da última hora, esquecemo-nos dos bilhetes em casa… Eu e a Alice, que é uma mulher habitualmente super-organizada, e que fez questão de me acompanhar (Acho que, da parte dela, que não conheceu o Henriques, este gesto é uma belíssima prova de amor para com o Luís Graça…). Lá se telefona ao João, que vai a caminho de casa, depois de nos deixar no aeroporto… para ir recuperar os bilhetes. Felizmente temos tempo…

Entretanto o primeiro camarada que encontro no aeroporto o Carlos Silva, que é do meu tempo de Guiné, mas que eu não conhecia pessoalmente, tendo estado lá para os lados de Farim… Fur Mil da CCAÇ 2548 / BCAÇ 2879 (Jumbembem, 1969/71)... Disse-me que mora em Massamá. Tem ao lado a esposa que, ao ver a Alice, mostrou pena em não poder vir… De facto, haverá mais senhoras inscritas no Simpósio…

Fazemos horas. Pergunto pelo representante do Instituto Valle Flor, o Gonçalo Marques, que ficou de nos trazer uma série de volumes (livros, DVD…), com destino à AD. Podemos levar 30 quilos de bagagem... A pouco e pouco chega o resto da maralha (um termo que ainda é do meu tempo de tropa, o que significa que há sempre uma certa regressão nestas viagens de retorno ao passado):

(i) junta-se a nós o Carlos Matos Gomes, o coronel na situação de reserva que nos Comandos passou pelas três frentes de guerra, incluindo a Guiné (em 1972/74), autor de romances de Nó Cego, Soldado e Fala-me de África ( e cujo nome, para orador no Simpósio, fui eu próprio a sugerir à organização, na impossibilidade - ou recusa, não sei ao certo – de vir o Aniceto Afonso);

(ii) o capitão de mar e guerra Pedro Lauret, membro da nossa tertúlia, dirigente da Associação 25 de Abril, e que era imediato do NRP Orion em Maio/Junho de 1973, por ocasão da ofensiva do PAIGC, contra os três G: Guidaje, a norte; Guileje e Gadamel, a sul;

(iii) o coronel Coutinho e Lima (o homem do COP 5 que entrou em rota de colisão com Spínola, ao decidir abandonar Guileje, em 22 de Maio de 1973);

(iv) o Luís Moita, professor catedrático e vice-reitor da UAL – Universidade Autónoma de Lisboa), fundador do CIDAC (uma organização não governamental portuguesa de cooperação para o desenvolvimento que dirigiu durante 15 anos, entre 1974 e 1989; é um grande amigo da Guiné-Bissau, que conhece bem);

(v) o Eduardo Costa Dias (professor de Sociologia e de Estudos Africanos, coordenador científico dos Programas de Mestrado e de Doutoramento em Estudos Africanos do ISCTE, que eu conheço dos meus tempos de estudante, e que já veio dezenas de vezes à Guiné, sendo especialista em dinâmicas sócio-religiosas e políticas na África Ocidental)…

Há ainda o Alfredo Caldeira (Administrador do Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares, e membro do Conselho Geral da mesma Fundação), e a esposa, Diana Andringa, membro da nossa tertúlia, jornalista e cineasta, co-autora com o guineense Flora Gomes do documentário As Duas Faces da Guerra (Portugal, 2007), para além do José Marques, jornalista do Correio da Manhã, e de dois recém-doutorados em história contemporânea, os guineenses, a viver em Portugal, Leopoldo Amado (natural do sul da Guiné, vive em Lisboa) e o Julião Soares Sousa (natural de Bula, vive em Coimbra)….

Esqueci-me de dizer que, em Lisboa, há mais gente que se junta a nós, e noemadamente de língua espahola: os cubanos Óscar Oramas (antigo embaixador de Cuba na Guiné-Conacri e autor de uma biografia sobre Amílcar Cabral), bem como Ulisses Estrada (que foi um dos combatentes da 1ª leva, em 1966, e que lutou ao lado do Domingos Ramos, tendo-o visto morrer em 1966, num ataque a Madina do Boé)… Há ainda o catalão Josep Sánchez Cervelló, professor universitário, em Tarragona, especialista em história sobre o 25 de Abril e a descolonização portuguesa, e o francês Patrick Chabal, profundo conhecedor da vida e obra de Amílcar Cabral…

Bom, o avião vai a abarrotar… Há uma elite guineense que viaja e que é cosmopolita. Mas a maioria é gente que vive e trabalha em Portugal e noutros países, utilisando a placa giratória que é Lisboa… Sem os guineeneses da diáspora e as suas remessas em dinheiro, o povo da Guiné-Bissau morreria de fome, diz-me o Lepoldo… Mas a pátria de Amílcar Cabarl não tem sequer uma companhia de bandeira. Para Bissau voam apenas a TAP, à sexta, e a TACV, ao domingo…

A viagem Lisboa-Bissau não é barata (eu paguei quase 1100 euros pelo bilhete de ida e volta da Alice), nomeadamente para o Francisco Mendes que vai aqui a meu lado, e volta a Cachungo (leia-se Catchungo), ao seu chão manjaco, para matar saudades, visitar os parentes, beber o seu vinho de palma… Talvez dê um salto à Gâmbia onde tem irmão… Está em Portugal há vinte e tal anos… Mora em Cacém. Tem um negócio próprio, segundo percebi pelos contactos de telemóvel que fez a meu lado, antes da partida. Deve ter trabalho uns anos na construção civil, até montar o seu próprio negócio. Gente empreendedora, os manjacos da diáspora guineense…

Em suma, vou encontrando a malta que vai ao Simpósio: por exemplo, a malta dos Gringos de Guileje, a CCAÇ 3477, que emocionados com a perspectiva de voltar à Guiné: Abílio Delgado, ex-capitão da companhia (mora hoje na Ericeira); José António Carioca, ex-Fur Mil Trms (vive em Cascais); Sérgio Sousa ...

As bagagens vão marcadas com uma fila vermelha, para facilitar as operações de desembarque… O avião descola por volta das 10.30h da manhã. O ambiente é de alguma excitação, própria de um grupo em formação, e que irá passar uma semana inolvidável na Guiné-Bissau. Amanhã de manhã, partiremos de jipe a caminho do coração do Parque Nacional do Cantanhez, em Iemberém (ou Jemberém, na antiga carta de Cacine) o onde a AD tem projectos e instalações de apoio.

Os tugas (termo outrora depreciativo, usado pelos guineenses como sinónimo de colonialistas portugueses) voltam à Guiné, agora em missão de paz e de amizade… No aeroporto temos uma recepção VIP, com a própria senhora ministra dos Antigos Combatentes da Pátria a saudar-nos, para além dos nossos amigos da AD – nomeadamente o omnipresente Pepito – e, surpresa das surpresas, os nossos camaradas da Tabanca Grande que fizeram a viagem de jipe, pela rota Porto-Coimbra-Bissau… A ocasão para dar um grande abraço de reencontro e saudação ao Xico Allen, ao Álvaro Basto, ao António Pimentel, ao Zé Teixeira, ao Paulo Santiago e demais tugas que integraram a caravana… Dizem-que a malta de Coimbra vai ficar, em Bissau, para desalfandegar o contentor de vinte e tal toneladas que traz ajuda humanitária… É gente solidária e generosa, que eu, infelizmente, não irei conhecer pessoalmente.

Também conheci pessoalmente o major Sado Baldé, da Guarda Fiscal, que é um grande amigo do Paulo Santiago, do Carlos Santos e do Julião. Levei-lhe medicamentos, a pedido do Paulo Satiago e do Carlos Santos, e que lhe foram entregues em mão. O Sado Baldé merece, há muito, figurar na lista dos membros da nossa Tabanca Grande. Foi através dele que chegámos ao conhecimento do paradeiro do Paulo Malú, que comandou, em 17 de Abril de 1972, a terrível emboscada do Quirafo… O filho do antigo régulo Suleimane, do Saltinho, é uma de gentileza e afabilidade inexcedíveis, que me fez logo lembrar os soldados fulas da minha companhia de caçadores, a CCAÇ 12, e os tempos de instrução que passei em Contuboel.

O dia de chegada do avião da TAP é de festa, em Bissalanca… Centenas de pessoas, não sei mesmo se alguns milhares, concentram-se aqui, só para ver a chegada do avião e dos seus felizes passageiros… As mesmíssimas cenas de há 39 anos quando cheguei do Niassa em Bissau (1): os meninos e as meninas que vendem mancarra, a banana, ou que te pedem o jornal e a revista que trazes do avião…

Mas o país e a gente não são mais os mesmos: a Guiné-Bissau hoje faz parte do seio das Nações e quer manter vivos os sonhos que levaram Amílcar Cabral e os seus camaradas do PAIGC a lutar contra um regime político, e não contra os portugueses… Irei ouvir isto todos os dias, até 7 de Março de 2008, quando terminar o Simpósio e eu regressar a casa…

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Nota de L.G.:

(1) Eu próprio já aqui evoquei, na 1ª série do nosso blogue, a minha viagem no T/T Niassa, em finais de Maio de 1969: vd post de 23 de Junho de 2005 >
Guiné 63/74 - LXXVI: (i) A bordo do Niassa; (ii) Chegada a Bissau


(...) Desembarcamos numa cidadezinha térrea, de casas de adobe, rachas de cibe e chapas de zinco, com quintais cheios de mangueiras, e onde em dois ou três quarteirões, feitos a régua e esquadro, se concentram a administração e o comércio.

Nas ruas, sujas das primeiras enxurradas de Maio, meninos e meninas vendem mancarra (começo a aprender as minhas primeiras palavras de crioulo). Gilas, de balandrau branco, óculos de sol e transistor a tiracolo, mercadejam bugigangas de contrabando. Os sons, os sabores e as cores de África baralham-me os sentidos e as emoções.

A esta hora da manhã, já as esplanadas estão cheias de tropa à civil, beberricando cerveja, enquanto no mastro da fortaleza oitocentista da Amura flutua uma descolorida bandeira verde-rubra. Indiferente aos velhos canhões de bronze, uma mulher passa com o filho às costas e um balaio à cabeça.

Canoas talhadas em grossos troncos de poilão partem do mítico cais do Pijiguiti, sulcando as águas lamacentas da Ria, em busca de mafé. Ronceiros aviões levantam voo de Bissalanca e, no meio da praça do Império, em cima de um Unimog, de pé e de braços abertos, alguém de nós, exclama:
- Camaradas, cinco séculos de história vos contemplam!" (...).

Guiné 63/74 - P2617: Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos (Virgínio Briote)

Imagens do lançamento do Diário da Guiné, do Mário Beja Santos


1. Mensagem do Albano Costa, a quem agradecemos o trabalho e a arte

Caros amigos,

Escolhi estas fotos entre algumas mais para o Briote e o Vinhal, já que o Luís ainda vem com os hábitos africanos e já não está habituado aos hábitos europeus.
As fotos que tenho para enviar para os colegas da tabanca grande vou seleccioná-las e prometo que as vou fazer chegar ao seu destino.

São (...) fotos, agora escolham ou então metam todas, o Beja Santos merece.

Um abraço,

Albano Costa

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A Tertúlia na Sociedade de Geografia de Lisboa. Em primeiro plano à direita, o Jorge Cabral, o Henrique Matos e o Mexia Alves, todos bons conhecedores das Terras dos Soncó e do Pel. Caç. Nat. 52.

O Mário cumprimenta o Embaixador da Guiné-Bissau.

O Dr. Constantino Lopes da Costa, rodeado pela Eduarda, mulher do Albano e pelo Galissá.

A mesa com o Mário Beja Santos (que não escondia estar a viver um dia muito feliz), o General Lemos Pires, o Embaixador da Guiné-Bissau, Dr. Constantino Lopes da Costa, o Mário de Carvalho e a responsável pela Editora.

A Korá nas mãos do Galissá. Na primeira fila, o Hélder de Sousa, o António Santos, o Mário, o Marques Lopes, o Carlos Cardoso, o Rui A. Ferreira e o Coronel Diamantino Gertrudes da Silva. Nas outras filas, o Fernando Franco, o Carlos Marques dos Santos, o Fernando Chapouto...A imagem é música. Pena é não a podermos levar aos Camaradas que não puderam estar presentes.


Enquanto o Galissá dava explicações de Korá, o Beja Santos dedicava o seu Diário da Guiné ao Henrique Matos, o 1º Comandante do Pel Caç Nat. 52.

Na bicha de pirilau, chegou a vez do João Parreira

Já quase no final, o reencontro do Mário Beja Santos com o Cor Cunha Ribeiro, seu antigo Comandante.

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2. Mensagem do Joaquim Mexia Alves, que com a licença dele, subscrevemos.
Caro Mário Beja Santos

Foi linda a festa, pá!...

Foi lindo o convivio, (não falemos do bacalhau!), foi linda a conversa, foi lindo o riso, foi lindo a visita à Sociedade de Geografia, foram lindos os "discursos", foi lindo o som da Guiné, foi linda a tua emoção, foram lindas as cervejas que ainda bebi a matar saudades, ah, e o livro é lindo!

Não vale a pena dizer mais nada, porque não há mais palavras para dizer o que vai no coração.
Ah, e senti um grande orgulho em ter sido Comandante do 52!
(...).
Mário, mais uma vez parabéns e um grande abraço do

Joaquim Mexia Alves

sexta-feira, 7 de março de 2008

Guiné 63/74 - P2616: O Simpósio de Guiledge na RTP África. (Virgínio Briote)

Chegam-nos notícias e imagens do Simpósio.

O agradecimento ao Rui Fernandes pelo envio da mensagem que nos dá conta que o Simpósio de Guiledge foi relatado na RTP África.

Repórter África de 2008.03.03 nesta página http://ww1.rtp.pt/multimedia/?tvprog=10184&idpod=12164 (aos 10,38')
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O regresso a Guiledge

Trinta e cinco anos depois, ex-combatentes reencontraram-se. Combateram em lados opostos num dos cenários mais violentos da Guerra na Guiné.

Tudo o que se passou faz parte do passado, mas faz parte da história, afirmou para a câmara Dauda Dabó, ex-combatente do PAIGC.

Entre muita gente, conseguimos ver o Coronel Coutinho e Lima, o José Teixeira, o Comandante Pedro Lauret e o Coronel Nuno Rubim.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Guiné 63/74 - P2615: Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos (Virgínio Briote)


Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos

1. Mensagem que o Fernando Santos e Oliveira, o nosso homem de um Cachil que parece nunca ter existido, nos enviou há tempos:

Não vou estar, fisicamente, na “abertura” Oficial e solene do teu livro. Mas quero, com esta antecedência, deixar dito que estou muito grato pela força que tiveste em escrevê-lo; eu também serei beneficiário particular da parte da História (real ou ficcionada, ou ambas) que ali descreverás.

De qualquer modo, há por lá sempre o dedo da inspiração sofrida (que o não foi) pela vivência na proximidade e envolvimento na Guerra.

A todos os que de uma forma ou de outra (não sei o mail do Henrique Monteiro) contigo deram a colaboração para a afirmação que já é real, estendo a minha capa, para que, contigo, possam caminhar em Honra merecida.

Sabe, eu sou dos “velhos de 64” a quem a vida já deu muito; mas também sei que ainda existem muitos de nós, “escondidos e envergonhados” que bem poderiam, igualmente, contribuir para um conhecimento mais próximo da realidade do impacto, ou primeiro choque, que todos tivemos com o início da Guerra.
Acho que já estou divagando…
Mereces as maiores felicidades neste Lançamento. Isso, é o que importa agora.

Saudações amigas, do
Santos Oliveira

2. A nossa resposta ao Fernando e a todos os que não puderam estar presentes:

Caro Fernando,

Estou a chegar a casa da sessão de lançamento do livro do Mário Beja Santos. Foi uma cerimónia bonita. Quase cinquenta Camaradas que todos nós vamos conhecendo dia a dia melhor e algumas, poucas, Mulheres sem nome como bem comentou o João Tunes.

Sem contarmos, apresentou-se para almoçar o General Pezarat Correia, isto para falar de Oficiais-Generais. Porque estiveram Camaradas com que não contávamos, como também não esperávamos as palavras, escassas, do António Graça de Abreu, o feliz autor do excelente relato documental dos últimos anos da nossa presença naquelas terras, o Diário da Guiné, Lama, Sangue e Água Pura.

Depois, sabes como é, o pessoal atrasou-se quase uma hora para a visita guiada à Sociedade de Geografia. Mas fomos bem conduzidos a ver o primeiro padrão espetado por Diogo Cão algures nas margens de um dos grandes rios da Guiné. E a tumba que guardou anos e anos na Índia os ossos do Afonso de Albuquerque. E outro padrão português na foz do rio Zaire.


O bacalhau do almoço não estava muito famoso, aliás julgo que defrontámos um sucedâneo do dito, como costuma dizer o Quitério, o grão-mestre das mesas deste país. Assim, tivemos que meter águas num Solmar que, aproveite-se para dizer, já viu melhores dias.
Regressados à Sociedade, entrámos para a sala do lançamento do livro.
Aproveitando a presença e a disponibilidade do Coronel Gertrudes da Silva cedemos-lhe a palavra com muito gosto. Abriu o nosso Camarada Rui Alexandrino Ferreira que fez a apresentação do orador.
O tema que o Coronel começou a abordar tratava da Guerra da Guiné no contexto da Guerra Colonial. Um trabalho interessante que merecia outro destaque, com tempo mais adequado. E para ser discutido com a Tertúlia. Infelizmente, começa a escassear-nos o tempo para escutarmos a memória viva dos que estiveram na primeira linha dos acontecimentos.

Com o tempo a correr contra nós, atrasados já mais de uma hora, o Beja Santos pediu ao Galissá para ir afinando a Korá. Com mais ou menos volume regulado à mão no sintetizador, ia-nos abrindo o apetite para sonoridades tão familiares.
Galissá.

Quando demos por ela, a sala a deitar por fora, vimos o Beja Santos a assinar o livro a um espectador e quando deixámos de olhar para o lado, tínhamos uma fila de mais de 10 pessoas. Uma hora ou mais foi quanto nos custou pôr ordem na ordem de trabalhos. Para trás já tinha ficado a discussão sobre os assuntos do nosso blogue, só faltava agora também ficar para outras horas a apresentação oficial do livro do Mário...
A custo, começou o General Lemos Pires a apresentação do diário de um alferes em terras dos Soncó. Discretamente, apareceram na sala o Embaixador da Guiné e o General Garcia dos Santos. Sem lugar na mesa para o Embaixador, sentámo-lo, discretamente também. Posta a organização ao corrente, logo se arranjou lugar para o Ilustre convidado. Que, diga-se, é um Guineense como nós conhecemos no nosso tempo. Simpático, simples, que nem os sete anos no Tarrafal modificaram. Por mim falo, fiquei com pena de não ter sido mais habilidoso, podia ter aproveitado para puxar pelas memórias daquela vida.
Seguiu-se o Mário de Carvalho, escritor de obras muito lidas. Discurso com a marca do Mário da Carvalho, voz bem sincronizada diminuída por uma sala sem grandes condições acústicas.
O Mário Beja Santos fechou a sessão, oferecendo à Sociedade de Geografia dois (?) aerogramas da correspondência que teve o privilégio de manter com o Almirante Teixeira da Mota, o Ilustre estudioso das gentes e dos rios da Guiné.
E tenho dito, já passa das onze da noite. Amanhã seguem as fotos que o Albano Costa, de Guidage e de Guifões, foi fazendo da sessão. Um abraço,
vb
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Notas:

1. Presente também a Susana e o Filipe do projecto Ignara. Um projecto que deve merecer toda a nossa atenção e apoio e que prometemos acompanhar.
2. Os vinhos para o almoço, foram oferecidos e transportados para a Casa do Alentejo pelo José Manuel Lopes e outro Camarada que esteve em Mampatá, a quem peço desculpa por não ter retido o nome. De qualidade superior, o tinto servido (Quinta Srª da Graça, 5030-429, S. João de Lobrigos, Douro. Tels.: 916 651 639 / 916 651 640. Mail: quinta.graca@mail.pt) merecia outro bacalhau. O José Manuel Lopes encarregou-me de fazer a entrega ao Luís Graça de uma garrafa de Vinho Fino Velho, da Quinta da Srª da Graça, Reserva Particular.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Guiné 63/74 - P2614: Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos (Virgínio Briote)

Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos

Amanhã, 6 de Março, na Sociedade de Geografia de Lisboa





O mérito do Diário é, em grande parte, pessoal, devido não só ao grande talento do Mário, mas também à sua enorme capacidade de trabalho e à sua persistência. Desde há um ano a esta parte que o Mário levou a peito este tremendo desafio que foi reconstituir as suas vivências e as suas memórias do Cuor, da sua querida Missirá, dos seus homens do Pel Caç Nat 52, das suas milícias (Missirá e Finete), da sua grande família do Cuor, dos Soncó aos Mané, sem esquecer Bambadinca e a sua ambiência, os camaradas milicianos com quem conviveu e fez operações.

Palavras do Luís Graça, o nosso fundador e mentor do blogue, que a certa altura acrescenta:
Eu sou testemunha, insuspeita, de que o Mário trabalhou de maneira sistemática, disciplinada, quase obsessiva.Como nos bons velhos tempos, em que ele era o verdadeiro senhor do Cuor, o nosso Tigre de Missirá (…).
O Mário está de parabéns, mas também todos nós que, de uma maneira ou de outra, temos alimentado (com as nossas histórias, apontamentos, comentários, fotografias, mapas, relatórios) essa torrente, esse macaréu de emoções, sentimentos e imagens que dão vida, cor, consistência, humanidade e dramatismo aos mais de meia centena de episódios já escritos, semana a semana, pelo Beja Santos.
O Mário será o autor mas nós, todos nós, temos lá as nossas dedadas...(…). O que me orgulha é que este blogue está uma alforge de talentos, de gente que sabe contar estórias, e é dotada de grande sensibilidade e humanidade, e muitos deles escrevendo só com um dedo.
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1. Almoço: Presenças confirmadas

1. Henrique Matos
2. A. Marques Lopes
3. António Graça de Abreu
4/5. António Santos e Esposa
6. Delfim Rodrigues
7. Mário Fitas
8. Rui A. Ferreira
9. Raul Albino
10/11. Carlos Vinhal e Esposa
12/13. Albano Costa e Esposa
14/15. Carlos Marques dos Santos e Mulher Teresa M. Santos
16. Hélder Pereira
17. Júlio Pinto
18. José Monteiro
19. José Manuel Bastos
20. Filipe Ribeiro
21. Mário Beja Santos
22. Fernando Chapouto
23. Manuel Chamusca
24. José Aurélio Martins
25. Carlos Murta
26. Manuel Paes (?) e Sousa
27. Carronda Rodrigues
28. Marinho
29. Heitor Gouveia
30. V. Briote
31. Custódio Castro
32. Carlos Santos
33. João Parreira
34. Diamantino Gertrudes da Silva
35. Alfredo Carvalho Rodrigues
36. Fernando Franco
37. Jorge Cabral
38. Carlos Américo Cardoso
39. José Manuel Lopes
40. José Pedro Rosa
41. José Manuel Viegas
42. J. Mexia Alves
43. António Ferronha
44. Mamadú Alfa Baldé
45. Maria Irene F. Briote
46. Helder Sousa
47. Constantino Neves

2. Programa:

13h00: Almoço na Casa do Alentejo
14h30: Visita guiada à Sociedade de Geografia de Lisboa
16h00: Reunião dos Camaradas presentes na Sociedade de Geografia
18h00: Espectáculo de korá, por Braima Galissa
18h30: Apresentação do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos.
Preside à sessão o Senhor Embaixador da República da Guine-Bissau, Dr. Constantino Lopes da Costa. Intervenções de Mário Beja Santos, Mário de Carvalho e General Lemos Pires.
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Guiné 63/74 - P2613: Notícias do Simpósio de Guileje.(Virgínio Briote)

A Guiné vista do ar. O Cacheu e as bolanhas, paisagens de uma beleza que, na altura em que lá estivemos, nem sempre as conseguíamos ver. Com a devida vénia ao Carlos Silva, também presente nesta romagem à Guiné e às suas gentes.

Uma mensagem muito breve do Luís Graça

A nossa Guiné


Amigos e Camaradas co-editores, CV e VB:

Vou hoje fazer a minha apresentação...

Não vos tenho ligado nenhuma. Chego tarde e nem sempre apanho rede. Bissau vive às escuras. No hotel há luz e rede sem fios...
Vou ver se amanhã mando alguma coisa para o blogue...

Faço votos para que o dia de amanhã, seis, corra bem, aos dois e ao restante pessoal, e especial ao nosso Beja Santos.

Vai ser um grande dia, Mário!... Passei por Mato Cão e Finete, vindo do sul (Guileje/Jemberem).

Bambadinca deixou-me deprimido... Mas as grandes bolanhas trazem-nos a nostalgia do passado.

O fim de semana no sul foi fantástico. O Pepito e os amigos são impecáveis e de uma grande hospitalidade.
O Simpósio está a correr muito bem...





O Nino esteve na inauguração e cumprimentou alguns de nós.


O embaixador português limitou-se a ler uma mensagem do Ministro da Defesa.... Há cada burocrata .... Nem uma palavra para os compatriotas!...


Já fiz 3 gigas de fotos e filmes, até ontem...

Um abraço a todos.

Luís
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Nota de vb para o Luís Graça:

Do que tenho conhecimento (os Camaradas da Tertúlia não têm dado referências) o Simpósio está a passar praticamente despercebido em Portugal. Televisões, rádios, jornais (excepto uma página de ontem do J. Marques do Correio da Manhã), têm ignorado o acontecimento. O que é uma pena, dada a importância da oficialização da Paz entre os ex-Combatentes, que a outra, a política há muito que está feita, felizmente.
E se não forem os participantes a dar notícias do Simpósio...
Dá um grande abraço a essa gente ( não sei se posso dizer mais de duzentos abraços, espero que sim), ao Pepito e aos seus ajudantes do Simpósio, ao Nuno Rubim e aos Camaradas da Tertúlia por essa magnífica Reunião de Concórdia e de Paz.

terça-feira, 4 de março de 2008

Guiné 63/74 - P2612: Estórias cabralianas (33): Quatro Madrinhas de Guerra (Jorge Cabral)

A Madrinha de Guerra, a Professora e o Alferes Inconveniente



Madrinhas de Guerra? Pois também herdei uma.

Uma não, quatro. Emprestado ao Pelotão, havia um Cabo velhinho, o Carvalho, que se correspondia com catorze. A bem dizer não fazia mais nada. Logo pela manhã, montava a banca e escrevia, escrevia…

Acabada a comissão, Carvalho distribuiu as madrinhas. Das quatro que me calharam, três duraram pouco, o que não me admirou. Para cada uma, inventara uma estória, assumindo diferentes personagens e construindo cenários, nos quais a realidade da guerra surgia transmutada, mais parecendo um antigo romance de cavalaria.

Uma porém aguentou. Muito jovem, interna num Colégio alentejano, confessou que quando não percebia o que eu queria dizer, perguntava à Professora de Português.
Foi da Professora que recebi uma queixa, endereçada ao senhor Comandante, S.P.M. 5358, denunciando a falta de pudor do correspondente.

Que havia sucedido? Na altura, logo após a visita do Amoroso Bando das Quatro (1), uns violentos ardores urinários atingiram metade do Pelotão, deixando-me preocupado, até porque o médico do Batalhão, o Drácula, castigava quem se apresentasse sofrendo daqueles males.
Talvez por essa preocupação e não sei a que propósito, tinha inserido na missiva a expressão “onírica gonorreia”.

Respondi à Professora, dando-lhe toda a razão, o atrevido já fora castigado. “Calcule Senhora Professora que a dita deixou de ser onírica, e agora é bem real!”.
O certo é que deixei de ter Madrinha de Guerra!
Mas acreditem ou não, quando passo na Cidade alentejana, onde ela estudava, sinto sempre os tais ardores…
Stress literário pós- venéreo?

Jorge Cabral


(1) Já relatada no Blogue.

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(1) Vd. lista das estórias até agora publicadas

20 de Abril de 2007 > Guiné 63/7 4- P1682: Estórias cabralianas (1): A mulher do Major e o castigo do Alferes (Jorge Cabral)
Quando de Missirá me deslocava a Bambadinca, seguia sempre a mesma rotina. Primeiro visitava o Bar do Soldado, até porque aí tinha que liquidar as despesas alcoólicas efectuadas pelo meu Soldado Ocamari Nanque, que se encontrava preso. (...)

23 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1688: Estórias cabralianas (2): O rally turra (Jorge Cabral)Numa tarde de tédio convenci o motorista da viatura existente em Missirá, um humilde Unimog, a dar um passeio. Pretendia visitar o Enxalé, seguindo pela estrada de Mato Cão, pela qual não passava qualquer veículo há muito tempo. (...)

23 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1689: Estórias cabralianas (3): O básico apaixonado (Jorge Cabral)
O Pel Caç Nat 63 esteve quase sempre em Destacamentos. Comigo em Fá e Missirá. Antes no Saltinho, e depois no Mato Cão. Para os Destacamentos eram mandados os especialistas que a CCS [do Batalhão sediado em Bambadinca] não queria. Assim, tive maqueiros que não podiam ver sangue, motoristas epilépticos e até um apontador de morteiros cego de um olho. Tudo boa rapaziada, aliás! (...)

18 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLVIII: Estórias cabralianas (4): o Jagudi de Barcelos.
Dos quatro Comandantes de Bambadinca que conheci, apenas o Polidoro Monteiro me mereceu consideração. Dos outros nem vou dizer o nome, e de dois a imagem que guardo é patética . Assim, no rescaldo do ataque ao Batalhão, lembro o primeiro, à noite, de G-3 em bandoleira, pedir-nos:- Se houver ataque, acordem-me (...).

23 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXXV: Estórias cabralianas (5): Numa mão a espingarda, na outra...
Penso que, já em 1971, apareceu no Batalhão [de Bambadinca], um Alferes de secretariado, corrido de Bissau, por via de uns dinheiros. Chegou acompanhado de uma dama, sobre a qual corriam os mais variados boatos. Dizia-se, calculem, que ela tinha sido uma prenda de aniversário ao Alferes, enviada pelo pai, milionário do Porto. (...)

13 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXIV: Estórias cabralianas (6): SEXA o CACO em Missirá Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.-Alfero, Alfero, é Spínola! - gritam os meus soldados (...).

17 de Março de 2006 > Guiné 63/74 - DCXXXIX: Estórias cabralianas (7): Alfero poi catota noba Finda a comissão, calculem (!), fui louvado. O Despacho do Exmo. Comandante do CAOP Dois referia, entre outros elogios, a minha “habilidade para lidar com a tropa africana e populações”, a qual me havia “granjeado grande prestígio”. Esquecido, porém, foi o essencial – evitei a dezenas de Bajudas o repúdio matrimonial e a consequente devolução do preço. Essa tão meritória actividade, sim, teria merecido, não um simples louvor, mas uma medalha (...).

13 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCC: Estórias cabralianas (8): Fá Mandinga no Conde Redondo ou o meu Amigo Travesti
Na década de 80, dava aulas nocturnas numa Escola na Duque de Loulé e costumava descer a Avenida para tomar o Metro. Eis que uma noite, me vejo perseguido por um Travesti que me grita:- Meu Alferes! Meu Alferes! Alferes Cabral!... Tomado de terror homofóbico parei, negando conhecer a criatura, de longas pernas e fartíssimos seios. (...)

20 de Abril de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXVII: Estórias cabralianas (9): Má chegada, pior partida Com destino à Guerra, viajei no Alfredo da Silva, quase um cacilheiro, durante doze dias. Em primeira classe, sete oficiais e uma dona puta em pré-reforma habitavam um ambiente de opereta, jantando de gravata, com a estafada dama na mesa do comando. Depois havia a valsa… Cheirava a mofo, a decadência, ao fim do Império (...).

3 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P836: Estórias cabralianas (10): O soldado Nanque, meu assessor feiticeiro
Desde que cheguei, e durante o primeiro ano, o Pel Caç Nat 63, foi pluriétnico. Mandingas, Fulas, Balantas, Manjacos, Bigajós, estavam representados. Pluriétnico e plurirreligioso, com um Manjaco, Pastor Evangélico, um Marabú Mandinga Senegalês, vários adoradores de muitos Irãs, e até alguns crentes na Senhora de Fátima, vivendo todos em Paz ecuménica, sob a batuta do Alferes agnóstico com tendências panteístas, que pensava que nada o podia surpreender (...).

4 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P936: Estórias cabralianas (11): a atribulada iniciação sexual do Soldado Casto
À noite, após o jantar, nós os nove brancos do Destacamento, continuávamos à mesa, conversando. Falávamos de tudo, mas principalmente de sexo, mascarando a nossa inexperiência, com o relato de extraordinárias aventuras que assegurávamos ter vivido. O nosso motorista havia até desenhado num caderno as várias posições, indagando de cada um:- E esta, já experimentaram? (...)

20 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P974: Estórias cabralianas (12): A lavadeira, o sobretudo e uma carta de amor
No dia seguinte a ter ocupado Fá Mandinga, apresentaram-se no quartel as lavadeiras, cinco ou seis bajudas, todas alegres e simpáticas. Uma, Modji Daaba, chamou-me logo a atenção pelo seu porte e beleza. Bonita de cara e perfeita de corpo, possuía um ar nobre e altivo que me cativou. Imediatamente a contratei como minha lavadeira exclusiva, tendo acordado uma remuneração superior na esperança de algumas tarefas suplementares… (Periquito, ainda não sabia, que com as bajudas mandingas era praticamente impossível ir além de algumas carícias peitorais…). (...)

28 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1128: Estórias cabralianas (13): A Micá ou o stresse aviário (Jorge Cabral)
Terminada a especialidade de Atirador de Artilharia, permaneci como aspirante, em Vendas Novas, na respectiva Escola Prática. Aí me atribuíram variadas funções, Justiça, Acção Psicológica e Cultural, Revista Literária, etc, etc, pelo que quase nunca fiz nada. Quando me procuravam num lado, estava sempre no outro…Na Justiça, creio que apenas dei andamento a um processo, enviando uma deprecada para Angola, a perguntar se o Furriel Patacas possuía três mãos. (...).

24 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1313: Estórias cabralianas (14): Missirá: o apanhado do alferes que deitou fogo ao quartel (Jorge Cabral)
Julgo que aconteceu em Março [de 1971]. O dia decorrera em Alegria. Chegara a Missirá uma arca frigorífica a petróleo, oferta do Movimento Nacional Feminino, e cedo começaram as libações.Seriam três ou quatro da manhã, sou abruptamente despertado. Tiros (?). Rebentamentos (?). Fogo! Saio do abrigo nu, e deparo com meio quartel a arder.Ataque nunca podia ser! O Tigre [Beja Santos] já estava na Metrópole, Missirá era agora um oásis de paz, vigorando um tácito pacto de não-agressão (...).

14 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1344: Estórias cabralianas (15): Hortelão e talhante: a frustração do Amaral (Jorge Cabral)
Chamavam-lhe, os africanos, o furriel Barril, não sei se pela sua compleição física, se por via da fama e do proveito que ganhara como bebedor quotidiano e calmo. Estou a vê-lo ao serão, bebendo à colher, com paciência e estilo, enquanto o alferes declamava, e o maqueiro Alpiarça escrevia a uma das dezenas das madrinhas de guerra. (...)

14 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1369: Estórias cabralianas (16): As bagas afrodisíacas do Sambaro e o estoicismo do Sousa
Aos Domingos vestíamo-nos à paisana e dávamos longos passeios à volta da parada, imaginando praças, avenidas, ruas, adros de igreja e até estações de comboio. Depois entrávamos na Cantina e invariavelmente pedíamos 'Um fino e tremoços' (...).

10 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1419: Estórias cabralianas (17): Tirem-me daqui, quero andar de comboio (Jorge Cabral)
Creio que foi em Fevereiro de 1971, que em Missirá, recebi a ordem de Bissau – um dos furriéis passava a ser Professor, com dispensa de toda e qualquer actividade operacional. Ponderada a situação, optei pelo Amaral , cujo porte rechonchudo e as maçãs do rosto vermelhuscas, lhe davam um ar prazenteiro e bonacheirão, nada condizente com as funções de comandante de secção combatente (...).

26 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1463: Estórias cabralianas (18): O Dia de São Mamadu (Jorge Cabral)
Entre os dez militares metropolitanos do Destacamento de Missirá, apenas o Alferes era do Sul e de Lisboa – um rapaz de Alvalade, passeante da Praça de Londres e frequentador do Vává. Todos os outros, furriéis, cabos, e adidos especialistas, vinham do Norte ou das Beiras. (...).

18 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1534: Estórias cabralianas (19): O Zé Maria, o Filho, Madina/Belel e um tal Alferes Fanfarrão (Jorge Cabral)
Bambadinca era então para o Alferes, feito nharro de Tabanca, a Cidade. Para lá ir, fazia a barba, aprumava o seu único camuflado apresentável, munia-se de alguns pesos e, acima de tudo, preparava o relim verbal sobre ficcionadas aventuras operacionais, que iriam impressionar o Comandante. Antes de entrar no Quartel, habituara-se a abancar no Gambrinus local, o tasco do Zé Maria, bebendo, petiscando e conversando. Um dia encontrou o Senhor Zé Maria, muito preocupado. O filho adolescente que estudava em Lisboa, ia chumbar. (...)

20 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1679: Estórias cabralianas (20): Banquetes de Missirá: Porco turra e Vaca náufraga (Jorge Cabral)
Em Missirá comíamos, praticamente todos os dias, arroz acompanhado ora de pé de porco, ora de atum ou cavala, com muito pão e sempre altas doses do insípido vinho quarteleiro, o qual, segundo se dizia, era cortado com cânfora, para diminuir os ímpetos...

24 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1696: Estórias cabralianas (21): O Amoroso Bando das Quatro em Missirá (Jorge Cabral)
Nos Destacamentos em que vivi, todos eram bem recebidos, à boa maneira da gente da Guiné, cuja cativante hospitalidade foi muitas vezes confundida com subserviência ou portuguesismo. Djilas, batoteiros profissionais, artesãos, doentes, feiticeiros, alcoviteiros, parentes dos soldados, visitavam o aquartelamento e às vezes ali permaneciam, fazendo negócios, combinando casamentos, tratando-se ou tratando, ou simplesmente descansando. Desconfio mesmo que alguns guerrilheiros terão passado férias em Missirá (...)

12 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1752: Estórias cabralianas (22): Alfa, o fula alfacinha (Jorge Cabral)
No final do ano de 1970, apresentou-se em Missirá um soldado fula – chamemos-lhe Alfa – vindo da prisão de Bissau, onde cumprira pesada pena. Razão da punição – ausência ilegítima durante cento e oitenta dias, quando após intervenção cirúrgica no Hospital Militar Principal, desaparecera em Lisboa. Impecavelmente fardado, com blusão e tudo, usava uma vistosa popa e farfalhudas patilhas, conservando sempre um palito dependurado ao canto da boca. Falava um calão lisboeta e aparentava ser um verdadeiro rufia alfacinha.(...)


5 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1816: Estórias cabralianas (23): Areia fina ou as conversas de Missirá (Jorge Cabral)
Conheci muito bem o Alferes que esteve em Missirá nos anos de 1970 e 1971. Diziam que estava apanhado, mas penso que não. Era mesmo assim. Quem com ele privou em Mafra e Vendas Novas certamente o recorda, declamando na Tapada: No alto da Vela / Fui Sentinela / de coisa nenhuma / Quem hei-de guardar / Quem irei matar… (...).

19 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1857: Estórias cabralianas (24): O meu momento de glória (Jorge Cabral)
Manga de ronco, Pessoal! Spínola veio a Fá, visitar os Comandos Africanos e praticamente toda a população das Tabancas vizinhas compareceu. Homens e Mulheres Grandes, belas Bajudas, e muitas, muitas crianças. A Pátria, pois então… E uma Guiné melhor. O Caco entusiasmou-se. Tanto, que optou por ir de viatura para Bambadinca. E lá partiu em coluna, comandada pelo Capitão João Bacar Djaló (...).

29 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1900: Estórias cabralianas (25): Dois amores de guerra e uma declaração: Não sou pai dos 'piquinos Alferos Cabral' (Jorge Cabral)
E o Amor, existiu? Não falo de mulheres grandes a partir catota, nem de bajudas a partir punho, e muito menos das rápidas e alcoolizadas visitas às casas de prazer, para... mudar o óleo. Amor mesmo, paixão, dele para ela, dela para ele. Difícil, raro, mas aconteceu. Contaram-me que uma bajuda que tivera um filho do Furriel X, o seguiu até Bissau, e na hora da partida do navio entrou na água com o bebé, tendo morrido ambos…

27 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2135: Estórias cabralianas (26): Guerra escatológica: o turra Boris Vian (Jorge Cabral)
Fá Mandinga fora sede de Batalhão e de Companhia, possuindo muitas e boas instalações. Chegados em Julho de 1969, optámos por ocupar apenas dois edifícios. Quanto aos restantes, convenci o Pelotão, que o respectivo acesso estava minado, razão porque só eu lá poderia entrar. É que vislumbrara duas belas e isoladas vivendas, as quais intimamente destinara a uso próprio. Uma serviria para encontros amorosos. Na outra, utilizaria a casa de banho, lendo e meditando... E assim se passou (...).

22 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2204: Estórias cabralianas (27): Turra desenfiado encontra Alferes entornado (Jorge Cabral)
Já é noite cerrada e o Alferes de Missirá continua em Bambadinca. Numa mão o copo, na outra, o pingalim, encostado ao balcão do Bar, declama. Trata-se do longo poema de Jacques Prévert, “L’orgue de Barbarie” (2). É interrompido, engana-se, esquece-se, volta atrás, mas não desiste. Moi je joue du piano / Disait un / Moi je joue du violon / Disait l’autre (...).

14 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2350: Estórias cabralianas (28): O Hipopótamo, as Formigas e o Prisioneiro (Jorge Cabral)
Nem me lembro qual o Periquito que se apresentou naquele dia em Fá. Mas sei que ao anoitecer, saiu, equipado e armado, cumprindo a minha ordem. Objectivo: caçar um hipopótamo (...).

16 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2354: Estórias cabralianas (29): A Festa do Corpinho ou... feliz o tuga entre as bajudas, mandingas e balantas (Jorge Cabral)
Porque estamos no Natal, recordas o teu de 1969 e um ataque a Bissaque. Eu passei o meu em Fá, e dias antes, noite dentro, quando já o comemorava por antecipação, acorri a defender a Tabanca de Bissaque, guiado pelo Marinho.Este era um velho, seco e pequenino, guardião das instalações de Fá, desde os anos 50(...).

21 de Dezembro de 2007 >. Guiné 63/74 - P2369: Estórias cabralianas (30): Um Natal em Novembro (Jorge Cabral)
Amanheceu igual, só mais um dia em Missirá. Para o Mato Cão, vai o Alferes, uma secção, e o maqueiro Alpiarça. É lá chegar, esperar, ver o barco e voltar. Não há tempo para o sonho – do outro lado nem Gaia, nem Almada…Já estamos de regresso, ouvimos restolhar. Vem aí gente. Neste lugar só podem ser os turras. Claro que, como sempre, o Alferes empunha apenas o seu pingalim e, em vez do camuflado, enverga camisa branca e calções de banho (...).

28 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2386: Estórias cabralianas (31): As milagrosas termas de Missirá (Jorge Cabral)
A fim de prevenir abusos, a segurança à Fonte, no banho das bajudas, pertencia em exclusivo ao Alferes, o qual nos primeiros tempos guardou uma prudente distância, depois foi-se aproximando e acabou no meio delas, esfregador e esfregado com sabão vegetal, após o que branqueava os dentes com areia. Diziam que aquela água possuía propriedades terapêuticas, curando todos os males de pele, não havendo lica que lhe resistisse (...).

10 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2426: Estórias cabralianas (32): Nanque, o investigador (Jorge Cabral)
O Alferes era calmo. Afável, prazenteiro, nunca se irritava. Naquela tarde porém explodiu. É que constatou que as valas estavam a ser utilizadas como retretes.

(2) Vd. postes de:


9 de Outubro de 2006 >
Guiné 63/74 - P1161: O nosso Major Eléctrico, 2º comandante do BCAÇ 2852 (Beja Santos)

15 de Setembro de 2006 >
Guiné 63/74 - P1076: O álbum das glórias (Beja Santos) (4): eu e o coronel Cunha Ribeiro, o nosso 'major eléctrico'

Nota de L.G.: (...) "Major do BCAÇ 2852 [Bambadinca, 1968/70]. Substituiu em Setembro de 1969 o major Viriato Amílcar Pires da Silva, transferido por motivos disciplinares. Foi vítima de acidente grave com um jipe. Era mais conhecido, na caserna - e nomeadamente pela malta da CCAÇ 12 - como o 'major eléctrico', devido à sua energia" (...).
É hoje Coronel, na reforma. Seu nome completo, Ângelo Augusto da Cunha Ribeiro. Já compareceu a alguns convívios do pessoal do BCAÇ 2852.

Guiné 63/74 - P2611: O Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos, na Imprensa. (Virgínio Briote)


O Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos na Comunicação Social


O nosso Camarada Mário Beja Santos tem recebido ao longo destes dias vários convites para falar do seu livro, Diário da Guiné.

Assim, entre outras entrevistas, vai estar na Antena 1 e na Antena 2 (RDP), com emissão a partir do noticiário das 8 horas de amanhã e a ser repetida ao longo do dia.

E, amanhã ainda na Antena 1, Francisco José Viegas vai ter o Mário em estúdio.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Guiné 63/74 - P2610: Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos (Virgínio Briote)

Lançamento do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos

6 de Março, 5ª Feira, na Sociedade de Geografia de Lisboa


Da revista do Círculo de Leitores. Enviado por Abreu dos Santos.


Almoço: Presenças confirmadas

1. Henrique Matos
2. A. Marques Lopes
3. António Graça de Abreu
4/5. António Santos e Esposa
6. Delfim Rodrigues
7. Mário Fitas
8. Rui A. Ferreira
9. Raul Albino
10/11. Carlos Vinhal e Esposa
12/13. Albano Costa e Esposa
14/15. Carlos Marques dos Santos e Mulher Teresa M. Santos
16. Hélder Pereira
17. Júlio Pinto
18. José Monteiro
19. José Manuel Bastos
20. Filipe Ribeiro
21. Mário Beja Santos
22. Fernando Chapouto
23. Manuel Chamusca
24. José Aurélio Martins
25. Carlos Murta
26. Manuel Paes (?) e Sousa
27. Carronda Rodrigues
28. Marinho
29. Heitor Gouveia
30. V. Briote
31. Custódio Castro
32. Carlos Santos
33. João Parreira
34. Diamantino Gertrudes da Silva
35. Alfredo Carvalho Rodrigues
36. Fernando Franco
37. Jorge Cabral
38. Carlos Américo Cardoso
39. José Manuel Lopes
40. José Pedro Rosa
41. José Manuel Viegas
42. J. Mexia Alves
43. António Ferronha
44. Mamadú Alfa Baldé
45. Maria Irene F. Briote

Programa:

13h00: Almoço na Casa do Alentejo

14h30: Visita guiada à Sociedade de Geografia de Lisboa

16h00: Reunião dos Camaradas presentes na Sociedade de Geografia

18h00: Espectáculo de korá, por Braima Galissa

18h30: Apresentação do Diário da Guiné, 1968-1969: Na Terra dos Soncó, do Mário Beja Santos: Preside à sessão o Senhor Embaixador da República da Guine-Bissau, Dr. Constantino Lopes da Costa. Intervenções de Mário Beja Santos, Mário de Carvalho e General Lemos Pires.
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Guiné 63/74 - P2609: Convívios (41): 2º Pelotão da 3ª Companhia do COM, 1º turno, Jan 66: Mafra, EPI, 27 de Abril de 2008 (A. Marques Lopes)

1. Mensagem do nosso Camarada A. Marques Lopes:

Caros camaradas:

Agradeço que publiquem este apelo que, creio, não está desfasado do blogue. Penso que muitos da lista abaixo o consultarão. E é o seguinte:


No dia 27 de Abril próximo o 2° Pelotão da 3.ª Companhia do Curso de Oficiais Milicianos do 1.º turno/Janeiro de 1966 vai juntar-se em Mafra na EPI - Escola Prática de Infantaria. São eles:

-Adolfo de Jesus Rodrigues Bexiga
-Alfredo Manuel Ribeiro Parreira
-Aníbal António Dias Tapadinhas
-Augusto Jorge de Melo Felix
-António Alves Pereira
-Anfômo Manuel M. Cardoso
-António Manuel Marques Lopes
-Armando Simões Ferreira
-Carlos Alberto da Costa Fonseca de Sousa
-Eduardo Cristóvão Gil de Oliveira
-João Filipe Pilar Baptista
-Joaquim Benevenuto Carreiras
-Jorge Emídio G. Raposo Magalhães
-José Augusto de Azevedo e Silva
-José Francisco Rosa
-José Henrique de Carvalho Gonçalves
-José Joaquim Relvas Realinho
-José Manuel da Conceição Lopes Azevedo
-José Nuno Firmo Botelho de Andrade
-Manuel Arnaldo dos Santos Silva
-Mariano João Alves Pimenta
-Mário Ferreira Lopes Pereira
-Miguel Leitão Xavier Chagas
-Nelson Jorge Santos Godinho Parreira
-Orlando de Melo Cardoso Rodrigues
-Pedro José de Gusmão Calheiros
-Pedro Melo Santos Lima
-Rui António dos Santos Silva e Cunha
-Rui Manuel Duarte Baptista
-Fernando Mário Pereira Rodrigues Pais

Notas:

- Falta o Herculano de Carvalho, que foi comando na Guiné, infelizmente já falecido.
- Estará presente o nosso instrutor, o Ten Chung-Su-Sing, agora Coronel Comando na reserva.

Vão os nomes dos elementos porque não há contacto de todos e, como disse, creio que muitos consultarão este blogue. Será um domingo todo preenchido, entre as 10 e as 17 horas, com visitas à EPI, e descerramento de uma lápide alusiva ao acontecimento, visita ao Palácio Nacional de Mafra, seguido de almoço na Tapada Real (pratos de caça), culminando com visita à respectiva fauna/flora, em comboio apropriado para o efeito.

Os contactos podem ser feitos para:

- José Manuel Lopes Azevedo (965009913)
- A. Marques Lopes (938013725)

Abraço,
A. Marques Lopes
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Fixação de texto: vb

Guiné 63/74 - P2608: Poemário do José Manuel (1): Salancaur, 1973: Pior que o inimigo é a rotina...

1. Nova série onde serão publicados, com regularidade, os poemas do José Manuel (ou José Manuel Lopes), ex-Fur Mil Op Esp, CART 6250, Mampatá, 1972/74 (1). Poema sem título, enviado em 29 de Fevereiro de 2008.

Pior
que o inimigo
é a rotina
quando os olhos já não vêem
quando o corpo já não sente
quando já se não recorda
o nosso último abraço
e a arma se tornou
um apêndice do braço
pior
é quando nos esquecemos
dos afagos e carícias
que uma mão pode fazer
da mensagem e melodia
que uma canção pode conter
pior
que as chagas nas virilhas
ou o aço a entrar no corpo
são os delírios sem sentido
e o procurar esquecer
as pessoas mais queridas
pior
é o despertar
do mal que há em nós
e é preciso pensar
e é preciso parar
e é preciso sentir
que ainda estamos a tempo

josema
Salancaur
Março 1973
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Nota de L.G.:

(1) Vd. poste de 27 de Fevereiro de 2008 >Guiné 63/74 - P2585: Blogpoesia (8): Viagem sem regresso (José Manuel, Fur Mil Op Esp, CART 6250, Mampatá, 1972/74)

Guiné 63/74 - P2607: In Memoriam (3): Camacho Costa morreu há cinco anos (Torcato Mendonça)

1. Mensagem do Torcato Mendonça (ex-Alf Mil, CART 2339, Mambambo, 1968/69):

Meus Caros Editores

Ontem foi homenageado um Amigo meu. Foi combatente na Guiné. Faleceu, vítima de cancro do pulmão, há cinco anos. Parece ontem e estes óculos são uma… ou eu envelheço rapidamente. Melhor…o oxigénio repara os óculos…não queria chatear mas um dia falaram aqui em homens que combateram ou se piraram da Guiné. Este não foi guerreiro e certamente não desejava isso. Mas certamente foi útil naquele País…

Recuperei parte de um escrito antigo.

Um abraço,

Torcato Mendonça
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2. Combatente na Guiné
por Torcato Mendonça
Serviu aquela Terra, as suas Gentes e, principalmente, as Nossas Tropas mais pela palavra, pelo acto cultural do que pela arma. Provavelmente, mesmo sendo militar, nunca deu um tiro. Mas foi um Combatente, mais um que serviu a Pátria na Província da Guiné.

Conto, voltando à infância longínqua de dois sexagenários. Recordemos então:

Era um miúdo franzino, cabelo liso, despenteado, esvoaçando ao vento e de pele morena. Aparecia sempre pelas férias escolares. Não sei ao certo quando nos conhecemos ou nos vimos pela primeira vez. De muito tenra idade certamente, numas férias escolares, mesmo antes de termos entrado nessas lides. A sua mãe era professora, leccionava na zona de Lisboa mas voltava sempre, nas férias, à sua terra natal, também a dele e a minha por adopção.

Brincávamos com os outros miúdos da nossa idade, aos ninhos e à passarada, no rio em fuga aos progenitores e a vários jogos, apelidados hoje de tradicionais. Crescemos cimentando a amizade que só os miúdos, com a sua sã convivência, conseguem. Fomos para a escola e mais tarde para o colégio, mantendo o grupo unido.


Ele, lá longe, fazia o mesmo percurso, escola, talvez o liceu, o colégio e, se bem me lembro, como os estudos não tinham os resultados desejados pelos pais, foi até Tomar – colégio mais apertado…. As férias continuavam a ser tempo de união, de brincadeiras, de conversas, de outras vivências e convivências, próprias de jovens que, sem darem por isso, foram crescendo.

Ele era diferente. Não só pelo cabelo liso, despenteado e desalinhado. Ele também o era. Mais sensível, mais dado a leituras, escrita, música, poesia e já o teatro. Alegre, de sorriso e piada fácil, preocupava-se mais com o seu sonho, o seu modo de estar e amar a vida do que com os estudos impostos. Conversávamos longamente.
– Lê isto que eu escrevi ou escuta este poema.


Um dia apareceu com uma máquina de filmar… outro sonho. Começamos a contactar menos devido áà roda da vida. Eu num lado, ele no mundo do espectáculo ou da escrita. Teatro, jornalismo e outras deambulações. Víamo-nos, de quando em vez por Lisboa… que saudade e que recordações…

Chegou o dia, aquele dia, a que aos homens da minha geração era posto ponto e vírgula, senão mesmo ponto final. Tempos de humilhação, de desrespeito pela nossa cidadania.
Fui cumprir o serviço militar. Ele foi depois.

Um dia o encontro dramático, ainda hoje arrepiante. Ambos tínhamos ido para a Guiné.
Regressávamos de uma operação, cansados, fartos e com o Geba ali perto. Como vinha á frente informaram-me:
- Cuidado, pois há periquitos a fazer segurança.


Passa palavra, olhos mais abertos. Mais á frente faz-se o encontro. Não pára, só olha e descomprime um pouco.

Vindo do mato a voz de alguém a dizer o meu nome. Olho nessa direcção. Direito a mim, corre um militar com um banana na mão. Olho e não acredito. Estupidamente pergunto:
- Zé, que fazes aqui?


Ele abraça-me, olha-me com as lágrimas a escorrerem-lhe pela face magra. Aperto-o pelos ombros. Não sei se disse algo a tentar reconfortar.

Não era lugar para o Zé Manuel. Combinamos encontrarmo-nos em Bambadinca. Assim o fizemos e o Zé Manel contou-me a sua vida no Xitole ou Saltinho (2406?, não sei).
Mostrou-me as mãos com calos e sinais de bolhas. Aquilo não era para ele nem para nenhum de nós. Só que eu e outros fazíamos a nossa guerra e já tínhamos muito tempo de mato.

Falei com o Capitão dele. A resposta foi, se bem me lembro, esse poltrão nem cavar sabe, isto não é o teatro.

- Nem eu sei cavar,  meu Capitão.

Curiosamente, em futuros encontros, o meu relacionamento com este Capitão foi bom. Compreendi-o. Não gostava de Teatro… Abreviemos.

Pouco tempo depois o Zé estava em Bissau. Perdeu-se, um soldado ou cabo atirador ou telegrafista mas a Rádio em Bissau [, o PFA - Programa das Forças Armadas, ] ganhou um radialista. E não só. E não só.

Eu há cinco anos, como passa depressa o tempo, perdi mais um amigo de infância.

Foi ontem homenageado, pela estação de televisão onde mais trabalhava. Assisti. Ouvi as palavras habituais mas ainda bem que o recordaram. Merecia. Hoje alinhei estas palavras pela saudade que sinto, dele e de outros desse tempo que, desta vida, partiram.
Descansa em Paz, meu querido José Manuel Camacho Costa.


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José Camacho Costa (n. Odemira, 8 de Junho de 1946 - m. Lisboa, 1 de Março de 2003), actor português.

(i) Era licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa; 


(ii) Foi crítico de cinema entre 1973 e 1978;

(iii) Mas foi ao teatro, principalmente à comédia portuguesa que mais se dedicou: entre 1976 e 2000 participou em mais de vinte produções dos teatros do Parque Mayer;

(iv) Trabalhou também com os Artistas Unidos onde foi dirigido por Jorge Silva Melo;


(v) Com mais de dez participações no cinema, em filmes como Manhã Submersa de Lauro António, Saudades para Dona Genciana de Eduardo Geada, O Testamento do senhor Napumoceno da Silva Araújo de Francisco Manso ou Ilhéu da Contenda de Leão Lopes;

(vi) Popularizou-se com a sua presença regular nas principais séries televisivas de humor portuguesas, como Os Malucos do Riso de Marecos Duarte (SIC);

(vii) O papel mais conhecido e mais cómico foi o Lelo cuja etnia era cigana, também o mestre André, mendigo, alentejano entre outras personagens;

(viii) Morreu a 1 de Março de 2003, vítima de um cancro pulmonar.

Foi sem dúvida uma grande perda para o humor nacional e sempre sera recordado por todos nós.Não há nimguém como ele.


em Wikipedia
(com a devida vénia)...
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Fixação de texto: vb

Vd. postes anteriores desta série, In Memoriam:

31 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1805: In memoriam (1): Adeus, Zé Neto (1929-2007) (José Martins, Humberto Reis, Luís Graça, Virgínio Briote e outros)

6 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2033: In Memoriam (2): O saudoso Amaral da horta e dos presuntos de Missirá (Jorge Cabral / António Branquinho)