sábado, 5 de julho de 2008

Guiné 63/74 - P3025: Os nossos regressos (7): Perdido, com um sentimento de orfandade, pelos Ritz Club, Fontória, Maxime, Nina... (Jorge Cabral)

1. Mensagem de Jorge Cabral, que foi Alferes Miliciano de Artilharia, comandante do Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, Sector L1 - Bambadinca, Zona Leste, 1969/71, autor da série Estórias Cabralianas (*)

Querido Amigo,vou fazer os possíveis para lá estar dia 5 [, no Maxime]. Sobre o meu Regresso já escrevi – estória 9, "Má chegada, pior partida"…, 19 de Abril de 2006. Volto porém ao tema e mais uma vez falo de mim… O Branquinho que tenha paciência, mas umbigo por umbigo, falamos sempre a partir do nosso.

Há tempos, mandei um apontamento que tu transformaste em estória, sobre a minha ida a Belel, no qual me interrogava sobre a razão de me terem mandado sem o Pelotão. Curiosamente, o Jaime Pereira, Ex-Alf Mil da CCaç 12, que alinhou nessa operação, e que pelos vistos não leu o meu relato, respondendo a uma dúvida, acabou por esclarecer, que fui como guia dos Páras (1). Guia eu? Mas o que é que não fui na Guiné?

Junto fotografia do Jovem Aspirante Cabral, com uma farda emprestada. Belo rapaz! Esteve em exposição na montra da casa onde foi tirada, mesmo defronte da Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. Claro que fez sucesso e provocou paixões… Outras estórias que hei-de contar… um dia.
Abraço Grande
Jorge

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(1) Com autorização do Jaime, anexo o e-mail recebido (**)


2. UM PENOSO REGRESSO (***)
por Jorge Cabral

No princípio de Julho de 1971 o meu Pelotão [ o Pel Caç Nat 63,] foi substituído em Missirá, pelo 52, do Wahnon Reis. Eu ainda lá permaneci, mas foi então que se iniciou o meu Regresso. Estava ansioso? Alegre? Triste? Não sei. Apreensivo, sim! Conseguiria ressuscitar o estudante teatreiro, cinéfilo e literato? Por onde andariam agora os amigos das Tertúlias. Que livros liam? De que falavam? E elas, elas, elas?

Ao ir para a Tropa rompera os vínculos. Praticamente não escrevera a ninguém. Que lhes iria contar? Como narrar o olhar do Malan, quando pisou aquela mina em Salá?

Fiquei mais três aborrecidas semanas em Missirá. E calculem que, com vinte e seis meses, alinhei ainda numa operação. Dois mortos, para jamais esquecer… Depois seis dias vazios em Bambadinca. O meu Pelotão estava na Ponte do Rio Undunduma e eu para ali, desalinhado sem saber o que fazer… Claro, logo de manhã…… tasca do Zé Maria [ a saída de Bambadinca, no cruzamento para Bafatá].

Finalmente foi marcada a data do meu embarque no Xime. A noite anterior passeia-a com o Pelotão e até de madrugada recordámos, prometemos, celebrámos… Essa foi a minha verdadeira despedida. A noite do Adeus!

No dia seguinte, o Branquinho acompanhou-me ao Xime. E lá parti rumo a Bissau.

Queria voltar de barco, ciente que precisava de pôr a cabeça em ordem. Mas não, vim de avião. Numa anterior colaboração, relatei a chegada – o ralhete do Pai, e a tristeza da Mãe.

Em Lisboa procurei os antigos Amigos. Uns haviam fugido, outros faziam perigosas “comissões” no Museu Militar, no Ministério do Exército, no Quartel General… Queriam eles lá saber da Guiné ou da Guerra…

Por mim sentia-me perdido, invadido por um sentimento de orfandade… Então desanuviei… estagiando entre copos e carinhosas damas, que até compreendiam a angústia do combatente.

Ritz-Clube, Fontória, Maxime, Nina, Cantinho dos Artistas… Cá, como lá, em Roma, fui sempre Romano.

Estágio concluído com distinção, acabei por assentar.

Da Guiné esqueci muito, mas não os inquebrantáveis laços de Fraternidade.

Iguais, nunca mais estabeleci com ninguém!

Jorge Cabral

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Notas de L.G.:

(*) Vd. o último poste > 20 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2862: Estórias cabralianas (36): Uma proposta indecente do nosso Alfero (Jorge Cabral)

(**) Email de 20 de Maio de 2008, enviado pelo Jaime Pereira ao Jorge Cabral:

Caro amigo Jorge Cabral:

Estive de férias e só hoje foi possível responder ao teu Email.

O Beja Santos não conhece nada das nossas vidas comuns…
Encontrei-o casualmente num restaurante da Rua de S. Paulo, próximo do local onde trabalho, a falar com uns Guineenses sobre a nossa zona de guerra. Meti conversa, disse-lhe que tinha estado na CCaç 12 entre 1971 e 1973, falámos sobre o Blogue do Luís Graça e não entrámos em pormenores.

Estive de facto pelo menos duas vezes em Missirá, onde fui sempre muito bem tratado por ti e pela tua malta…

Lembro-me que, da primeira vez, fiquei uma noite em Missirá a guardar as bajudas e as mulheres grandes do teu pessoal, enquanto o teu pelotão saiu num patrulhamento, creio que para a zona de Mato Cão.

Da segunda vez recordo-me que o BB [, major da CART 2917, Bambadinca, 1970/72,] me mandou reforçar a tua tropa com o meu pelotão porque havia indicações de que o bi-grupo de Madina/Belel ia retaliar sobre Missirá do ataque que a minha companhia e a dos páras tinham feito sobre o seu aldeamento, uma semana antes.

Deves por certo recordar-te desta Operação a Madina/Belel porque nos encontrámos no objectivo, tu a servir de guia aos páras e eu integrado na CCaç 12 e fizemos juntos o percurso de regresso via Enxalé.

Nesse dia se não tivéssemos tido o apoio dos T6 e a bolanha estivesse sem água, grande parte do pessoal da CCaç 12 tinha lá ficado…

Mas a primeira imagem que guardo de ti é do meu dia de chegada a Bambadinca… Tinhas tomado o teu banho fula no pavilhão dos oficiais, tinhas vestido um camuflado lavado que por certo foi retirado de uma das gavetas do armário do pessoal da CCaç 12, estavas deitado na cama que me estava destinada, com o pingalim a bater nas botas, olhaste para mim e para o Sobral e disseste:
- É o destino, periquitos, vieste para à Guiné, mas é o destino…

Recordar é viver… Vamos realizar o almoço da CCaç 12 em Lamego, no dia 31 deste mês de Maio. Se desejares ir, manda-me um Email…

Um grande abraço

JAIME PEREIRA


(**) Vd. último poste desta série > 4 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3021: Os nossos regressos (6): Regressei a olhar para trás...(Santos Oliveira)

Guiné 63/74 - P3024: Dicas para o viajante e o turista (6): Ecoturismo em Iemberém, no Cantanhez (Pepito)

Guiné-Bissau > Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da Semana > 5 de Maio de 2008 > "A aposta num turismo ecológico e responsável no Parque Nacional de Cantanhez é uma das prioridades para o desenvolvimento desta região do sul da Guiné-Bissau.

"De há dois anos a esta parte têm vindo a ser concretizada a construção de uma série de infraestruturas de acolhimento que permitem às pessoas que demandam estas paragens, instalarem-se de forma agradável, em casas que recuperam a forma de habitat tradicional e que garantem condições de higiene e limpeza.

"Gradualmente o número de turistas tem vindo a aumentar, sendo de assinalar a reserva já feita para este ano para a passagem do Natal e Ano Novo de um grupo de 7 pessoas"... Na foto os bungalows (em português legítimo, bangaló...) contribuídos em Iemberém no âmbito de um projecto de ecoturismo no Cantanhez.

Foto e legenda: Cortesia de: ©
AD- Acção para o Desenvolvimento (2008). Direitos reservados.


1. Mensagem do nosso amigo Pepito:

Luís

Não te esqueças que, tal como a AD é do Blogue, todo o pessoal da Tabanca Grande é da AD.

Claro que teremos o máximo prazer em apoiar a vinda da malta de Cacine (*).

(i) Podemos fazer a reserva para eles em Bissau (no site da AD estão as ofertas e preços que é natural que mudem com a subida do gasoleo, etc. e tal)

(ii) Asseguramos alojamento e comida em Iemberem (em Cacine não há nada) aos preços em vigor no ecoturismo:

- Bungalow de 2 camas: 15.000 CFA por dia
- Bungalow de 4 camas: 25.000 CFA por dia
- Casa de passagem: 5.000 CFA cada cama por dia
- Refeição: 2.500 CFA por refeição

(iii) Eles terão de alugar um carro em Bissau (nós podemos apoiar) para irem ao sul e estarem à vontade (**).

abraços e boas vindas ao pessoal
pepito
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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 4 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3020: Notícias da CCAÇ 799 (Cacine, Cameconde, 1965/67) (Arménio Vitória)
(...) "Assunto - Pedido de informação sobre viagem a Cacine

Caros amigos:

"Sou um dos muitos militares que cumpriu a sua comissão na Guiné, mais propriamente em Cacine.

"Organizamos regularmente os nossos encontros e sempre vem à baila o desejo de alguns em se deslocarem a Cacine. Por este facto já por várias vezes fiz algumas diligências tentando encontrar soluções e preços, não tendo até aqui sido muito feliz na procura. Apenas uma organização – o Hotel Rural de Uaque – me respondeu mas não fiquei muito convencido.

"Verifiquei agora que acabam de fazer uma deslocação ao Sul da Guiné em que todos estes problemas logísticos – transportes, alojamento, alimentação – tiveram de ser resolvidos. Daí este meu mail. Será que me podem indicar alguém que, tendo esta experiência, me possa ajudar a estudar a questão de uma eventual deslocação de um grupo que estimo ser de cerca de 20 pessoas a Cacine?" (...)


(**) Vd. postes anteriores desta série sobre dicas:

6 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2508: Guileje: Simpósio Internacional (1 a 7 de Março de 2008) (16): Dicas para o viajante (Vitor Junqueira)

15 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1281: Dicas para o viajante e o turista (5): em Bissau, procurem os poetas (Paulo Santiago)

8 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1259: Dicas para o viajante e o turista (4): Um cheirinho a alecrim & rosmaninho (Luís Graça / Jorge Neto)

8 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1258: Dicas para o viajante e o turista (3): transportes colectivos: o táxi, o toca-toca e o candonga (Luís Graça / Sofia Branco)

7 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1255: Dicas para o viajante e o turista (1): A experiência e o saber do Vitor Junqueira

Guiné 63/74 - P3023: Convívios (68): Pessoal da CART 6250/72, 28 de Junho de 2008 na Maia (José Manuel Lopes)


José Manuel Lopes
Ex-Fur Mil Op Esp
CART 6250 (Os Unidos de Mampatá)
Mampatá
1972/74

1. Mensagem do nosso camarada José Manuel Lopes de 1 de Julho de 2008:

Desta vez os organizadores foram o Escurinho e o Raul Moreira da Maia, o local a casa deste um sítio muito agradável.

Logo pela manhã começaram a chegar, carregando os merendeiros e as arcas com as bebidas.


Foto 1> Foto de família tirada ainda pela manhã, assim os que chegaram após o meio-dia não ficaram no boneco.

Foto 2> À chegada de cada elemento se repetem os abraços e os sorrisos abrem-se, ninguém consegue esconder o que lhe vai na alma.

Foto 3> Este ano foi o ano das surpresas, apareceu o velhinho enfermeiro Teixeira que nos precedeu em Mampatá e deixou todos ansiosos por lá voltar, depois do relato da sua visita aquela sua e nossa terra. Também apareceu um Pirata de Guileje. Ambos confraternizam com uma bajuda que nunca falta à festa.
Foto 4> Dois enfermeiros que estiveram am Mampatá e que pelo trabalho desenvolvido lá deixaram amizades sem conta. O Teixeira e o Carvalho.

Fotos e legendas: ©
José Manuel (2008). Direitos reservados.

Para o ano o encontro será nas Medas, Gondomar em casa do Carvalho.
José Manuel Lopes

Guiné 63/74 - P3022: Tabanca Grande (78): Luís Dias, ex-All Mil da CCAÇ 3491, Dulombi e Galomaro (1971/74)




Luís Dias (1)
Ex-Alf Mil
CCAÇ 3491
Dulombi e Galomaro
1971/74


1. No dia 3 de Julho, recebemos do nosso camarada Luís Dias uma mensagem com o seu contributo para a série Os Nossos Regressos, de que está encarregue o nosso camarada Virgínio Briote, e as fotos da praxe para a nossa fotogaleria.

Caro Luís

Apoiando a iniciativa que a Tabanca Grande está a levar a cabo e relacionada com o tema do "Regresso", junto te envio o meu regresso à metrópole para, caso o entendam, fazerem a publicação no blogue. Junto também duas fotos, como é da praxe, e que ainda não tinha enviado, uma tirada na Guiné e outra recentemente.

Um abraço
Luís Dias

2. Deste modo fica oficialmente apresentado à Tertúlia o Luís Dias que tem um blogue dedicado à sua Companhia, a CCAÇ 3491, em http://wwwccac3491guine7174.blogspot.com/.

Dizia o Luís Dias no seu primeiro contacto com o nosso Blogue:

Caro Luís Graça & Camaradas da Guiné:

Dou-lhe os meu parabéns pelo vosso excelente blogue e pela oportunidade que dão aos ex-combatentes da Guiné de poderem confraternizar, trocar ideias e informações sobre momentos tão importantes da sua vida e que passados tantos anos ainda hoje os revivemos com uma certa paixão. (...)


Aconselho o nossos tertulianos a visitar o Blogue da CCAÇ 3491, porque tem lá bons artigos e fotografias publicados. É bom acedermos as páginas dos nossos camaradas, porque todos temos algo para comunicar e receber.

Da nossa parte contamos sempre com a colaboração do Luís Dias, sem prejuizo do seu trabalho na Página dedicada à sua Companhia.

Para ti Luís, um abraço dos editores e da tertúlia em geral.
CV
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Nota de CV

(1) Vd postes do Luís Dias de:

19 de Junho de 2008> Guiné 63/74 - P2967: O caso do embaixador português em Bissau (1): Protestos (Luís Dias)

16 de Junho de 2008> Guiné 63/74 - P2952: In memoriam (4): O meu amigo Alferes Farinha dos Santos (Luís Dias)

30 de Maio de 2008> Guiné 63/74 - P2901: O Nosso Livro de Visitas (15): Luís Dias, ex-Alf Mil da CCAÇ 3491 (Dulombi e Galomaro, 1971/74)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Guiné 63/74 - P3021: Os nossos regressos (6): Regressei a olhar para trás...(Santos Oliveira)

Tenho alguma dificuldade em dar um contributo que tenha algum interesse de divulgação. Foram momentos estendidos pelo tempo, que se amalgamam em contraditórias alegrias e profundas desilusões.
Não entendo que possuam estatuto de serem publicados. Entretanto assim se passou.


O meu regresso não foi interessante nem romântico


Fui mobilizado no regime de rendição individual, com destino ao Pel de Morteiros 912.

Oito dias no N/M Manuel Alfredo, a magicar sobre a Guerra que ainda não conhecia e levando sob Comando noventa praças que foram distribuídas por Cabo Verde e a maioria para Bissau.





Não fui abrangido no tempo de regresso conjunto, por um escasso mês (o Pelotão regressou aos 22meses), pelo que fiquei órfão dos meus Camaradas.


O Cmdt do BCaç. 1860, Ten.Cor. Costa Almeida, tudo fez para que continuasse sob as suas Ordens no Bat. que Comandava em Tite. Porém o CEM entendia que já tinha decorrido demasiado tempo de permanência pela Ilha do Como, por Cufar e Tite (Zonas de intervenção activas), pelo que havia que me dar descanso.
Sinceramente, era-me penalizante ter tempo para pensar no Passado, Presente e desconhecer o Futuro.
Fiquei em Bissau, a aguardar e a "construir" o tempo de embarque. Uma verdadeira "seca". A ansiedade matava-me lentamente. Sem acção militar e sem mais nada para fazer, Bissau foi um tormento, ou um pesadelo…

Como as Rendições individuais normalmente se prolongavam no tempo em mais 4 a 6 meses (aos 28 a 30 meses), requeri o meu regresso na data do final de Comissão (24 meses) sendo a viagem paga a minhas expensas. Deste modo, obtive a aprovação e fui "corrido" do alojamento por conta do Estado.
Regressei, extremamente ansioso e, recordo-me, sempre a olhar para trás. Não se me afigurava a minha partida como real.


Com o Sr. Taufic Saad no avião para Lisboa

No mesmo avião um velho conhecido, o Senhor Taufik Saad, que tentou, insistentemente (sem sucesso), que aceitasse o seu convite que me formulara tempos antes, para reconstituir e dirigir a sua equipa de Segurança Pessoal que tinha no Líbano. Apenas queria o meu "método de organização", que nem sequer precisava de me expor, etc, etc. O vencimento era mesmo tentador, mas não pude e nem queria aceitar porque, alegava, estava cheio da Guerra, não tinha aceite as condições do Exército, mesmo com as benesses que oferecia (eram também do seu conhecimento) e a minha Família me aguardava para constituir um Lar.
Lá se ficou no Aeroporto de Lisboa com a oportunidade de emprego. Nunca mais soube dele e tenho imensa pena.

Promovido no DGA

Apresentado no DGA, fui conduzido ao Oficial de Dia, um Tenente, que, com a minha Guia de Marcha na mão e para meu espanto me interpelou deste modo:

- O nosso Sargento não acha que tem as divisas ao contrário?. Mesmo em sentido (que já não fazia sentido nenhum) não resisti a olhar para os ombros. Que não, as Divisas (de Furriel) estavam correctamente colocadas, disse. Ele, muito sério, ordenou que o seguisse. Atravessámos a parada na diagonal, ele abriu uma porta, entrou (era tudo escuro, muito escuro) e mandou que eu também entrasse e…fez-se luz conjuntamente com um grande grito de Parabéns, colectivo, de camaradas, Oficiais e Sargentos.

Chorei como um velho, mas tive uma festa única, em todo o tempo de tropa, também por não ter que pagar nada. Impuseram-me uma nova Boina Preta já com o Emblema Ranger (a que usava tinha o de Artª) e umas divisas igualmente novas correspondentes ao meu fardamento (fundo preto).

Recordo-me que recebi esta honra das mãos dum Sarg Ajudante, por ser o mais velho na idade, segundo os oficiais presentes. Ali mesmo fui informado da minha promoção no CTIG, um mês antes (que desconhecia por completo), mas que os papéis e a OS (Ordem de Serviço) não estavam de acordo. Fiquei perplexo.
Só que, por isso, teria de ficar pelo DGA até à resolução do problema.
Uns dias depois, nada resolvido, fui chamado ao Cmdt e informado do pagamento de 8 dias de Sargento acrescidos do diferencial de um mês do que deveria ter auferido no CTIG.
…Dinheirito saboroso!...

Fiquei expectante e a minha preocupação aumentou com a informação de que para não se criarem outros problemas, a Guia de Marcha do CTIG (que indicava Furriel Miliciano) seria a que apresentaria na GNR cá da Terra.
O que queria era vir embora e assim se fez.

O meu regresso não foi interessante nem romântico…mas a Vida continua até aqui e agora.

A todos, o abraço, do

Santos Oliveira
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Adaptação e substítulos: vb

(1) Fernando Santos Oliveira, 2.º Sarg Mil Armas Pesadas Inf.ª, Como, Cufar e Tite, 1964/66

(2) Artigos relacionados de:





Guiné 63/74 - P3020: Notícias da CCAÇ 799 (Cacine, Cameconde, 1965/67) (Arménio Vitória)



Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Cacine > Viagem de Cananima a Cacine, através do Rio Cacine > 2 de Março de 2008 > Simpósio Internacional de Guileje (1-7 de Março de 2008) > Visita dos participantes ao sul > O pescador, natural dos Bijagós, que nos levou, na sua canoa senegalesa, motorizada, na viagem de ida e volta. É um dos dirigentes da Associação Quitapesca de Cacine. Em Cacine não há qualquer estrutura hoteleira. Também não há viagens regulares no Rio Cacine, que é muito largo neste ponto.


Foto: © Luís Graça (2008). Direitos reservados.

1. Mensagem do nosso visitante Arménio Vitória, com data de 2 de Julho:

Assunto - Pedido de informação sobre viagem a Cacine

Caros amigos

Sou um dos muitos militares que cumpriu a sua comissão na Guiné, mais propriamente em Cacine.

Organizamos regularmente os nossos encontros e sempre vem à baila o desejo de alguns em se deslocarem a Cacine.

Por este facto já por várias vezes fiz algumas diligências tentando encontrar soluções e preços, não tendo até aqui sido muito feliz na procura. Apenas uma organização – o Hotel Rural de Uaque – me respondeu mas não fiquei muito convencido.

Verifiquei agora que acabam de fazer uma deslocação ao Sul da Guiné em que todos estes problemas logísticos – transportes, alojamento, alimentação – tiveram de ser resolvidos.

Daí este meu mail. Será que me podem indicar alguém que, tendo esta experiência, me possa ajudar a estudar a questão de uma eventual deslocação de um grupo que estimo ser de cerca de 20 pessoas a Cacine?

Desde já os meus agradecimentos e os meus cumprimentos
Arménio Vitória


2. De imediato foi lançado um SOS a alguns amigos e camaradas no nosso blogue com experiência de viagens à Guiné:

Amigos e caramaradas: Alguém quer (e pode) dar uma ajuda ao Arménio Vitória, que estve em Cacine ? Eu fui a Cacine, em Março de 2008, mas fui à boleia... Ou melhor: fui através da melhor agência de viagens e de organização de eventos que se chama AD - Acção para o Desenvolvimento... Claro que o meu exemplo (e de outros amigos e camaradas, convidados para participar no Simpósio Internacional de Guileje) não seerve, proque tive/tivemos tratamento VIP...

De Bissau a Cacine, serão mais de 300 km... Julgo que no tempo das chuvas é praticamente impossível lá chegar por terra... Não há outro transporte... Mesmo no tempo seco, há um série de problemas logísticos para lá se chegar... a começar pelo transporte, o alojamento, a alimentação... As estruturas de apoio ainda são muito incipientes. Mas os nossos amigos da AD - Acção para o Desenvolvimento, que estão a apoiar os projectos de eco-turismo no Cantanhez, podem dar umas dicas...

Este mail é também dirigida a alguns dos nossos camaradas com mais experiência de viagens à Guiné (por terra e por ar...). Um Alfa Bravo (abraço). Luís

PS - Arménio: já diz-me qual era a tua unidade, e em que altura estiveste lá... E ficas convidado para integrar a nossa Tabanca Grande, ou sejam, a malta que está registada no nosso blogue e colabora regularmenet com fotos, histórias, etc.


3. Mensagem a seguir, do Arménio:

Desde já agradecido pela informação e pela presteza no seu envio.

Estive em Cacine/Cameconde integrado na C Caç 799, comandada pelo então Cap Silva Viegas, de 1965 a 1967.

Terei muito gosto em participar nesta ideia que acho interessantíssima, embora a minha colaboração não tenha grande valor: sou um “esquecido militante” só tendo vagas memórias daquilo por que passei. Não é doença, felizmente, é feitio… ou defeito!

No entanto como estou a organizar o encontro da minha Companhia que se realizará daqui a uns meses, aproveitarei para pedir o contributo de quem tenha jeito e queira escrevinhar umas coisas e fornecer fotografias.

Desde já um grande agradecimento pelo blogue; é com grande gosto que o leio atentamente, já que através dele recordo e às vezes vivo momentos extraordinários que passei na Guiné. Companheirismo, amizade, entreajuda, foram sentimentos que nas situações extremas que ali vivemos adquiriram um significado que não é descritível e que é bom recordar de vez em quando. O vosso blogue proporciona isso.

Um abraço
Arménio Vitória

Guiné 63/74 - P3019: Blogoterapia (60): O arco-íris é lindo por que tem sete cores diferentes (João Dias da Silva)

1. Mensagem, com data de ontem, enviada pelo nosso camarada João Dias da Silva, ex-Alf Mil Op Esp, CCAÇ 4150, Cumeré, Bigene e Guidaje, 1973/74 (1):

Luís, co-editores e restantes camaradas, em especial o Alberto Branquinho e o Henrique Cerqueira (2).

Os postes P3011 (do Branquinho, com fotos de despojos humanos) e P3017 (em que o Henrique discorda da sua publicação), bem como os teus (Luís Graça) comentários, levam-me a tecer algumas considerações, sem o mínimo propósito, adianto já, de iniciar ou alimentar qualquer polémica:

Não concordo com a maior parte do que o Henrique escreveu e não posso estar mais de acordo com a opinião do Luís, sem maniqueísmos, até porque, como em tudo na vida, as coisas não são tão lineares assim. E não concordo porque não se limpa uma casa varrendo o lixo para debaixo dos tapetes ou, dito de outro modo, porque uma catarse só se faz se "agarrarmos o touro pelos cornos", se enfrentarmos tudo e todos sem deixar de fora ou esquecer nada nem ninguém.

Aliás, já o escrevi aqui, a propósito de uma outra troca de opiniões, que estava convencido que 34 anos constituiriam um período de tempo suficiente para que as questões fossem abordadas de forma mais racional. Verifico, como então tinha verificado, que assim não é e que muitos de nós ainda não conseguiram enterrar muitos dos seus fantasmas, infelizmente para eles, penso eu, porque isso deve ser muito doloroso. Atrevo-me mesmo a dizer que dificilmente poderão desfrutar em pleno de muito do que é dito/escrito/mostrado no nosso blogue. E digo isto sem quaisquer moralismos ou numa posição de sobranceria e muito menos de recriminação, porque percebo e entendo muito bem a situação, pois passei por ela (neste aspecto os meus primeiros anos pós-regresso da Guiné foram complicados, mas felizmente ultrapassados).

Por outro lado, não há meias verdades nem meias informações: ou se diz tudo ou não se levanta apenas a ponta do véu. A informação correcta e total nunca fez mal a ninguém. Estou convencido que muitos dos problemas por que passam as gerações mais novas prendem-se com o facto de não tendo quem as informe (alguns dos que têm a obrigação de informar, formando, retraem-se por convicção ou... por incompetência), vão procurá-la onde não devem e, sobretudo, às escondidas. E isto é válido para qualquer área.

Já que falei em jovens, e mesmo parecendo que está fora de contexto, acrescento que a minha (nossa, no fim de contas) geração tem muito de que se penalizar por ter "dourado a pílula" em relação à educação dos filhos, o que lhes trouxe ou tem trazido problemas de vária ordem para encarar e ultrapassar as dificuldades que a vida lhes (nos) vai pondo à frente.

Por último, e digo-o com a maior das sinceridades, o que mais me chocou foi a última frase do Henrique – "... se ainda estiver admitido neste blogue ..." –, porque o direito a discordar e a manifestar, de forma elevada, obviamente, a discordância é inalienável e intocável e confunde-se com a própria dignidade da pessoa humana.

Se, por mera hipótese, tal acontecesse neste blogue, nada mais era necessário para que de um momento para o outro toda a credibilidade, consideração, respeitabilidade e transparência iriam por água abaixo. O arco-íris é bonito porque é composto por sete cores diferentes!...

Um abraço para todos

João Dias da Silva

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Notas dos editores:

(1) Vd. poste de 6 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2812: Tabanca Grande (66): João Dias da Silva, ex-Alf Mil Op Esp da CCAÇ 4150 (Guiné 1973/74)

(2) Vd. poste de 3 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3017: Blogoterapia (59): Fotos chocantes de "despojos humanos" (Henrique Cerqueira)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Guiné 63/74 - P3018: Os nossos regressos (5): Refazer a vida (Carlos Vinhal)



Carlos Vinhal
Fur Mil Art MA
CART 2732
Mansabá
1970/72



Refazer a vida

Se a última noite passada em Mansabá tinha sido um desassossego, a última passada em Bissau, não lhe ficou atrás.
O pessoal todo alvoroçado, adivinhando as poucas horas que faltavam para o regresso.

O dia aprazado para o embarque era 19 de Março (Dia do Pai) de 1972, às 16 e 30h, o local de partida o Aeroporto de Bissalanca. Quantos pais estariam naquele momento ansiosos pela melhor prenda que jamais iriam receber, o seu filho de volta.

No início de Março, já a CART estava acantonada nos Adidos, Bissau tinha sido, mais uma vez, fustigada com foguetões enviados pelo PAIGC. Desta feita a zona atingida foi a do Aeroporto. Logo os mais afoitos se esforçaram em recolher notícias sobre possíveis estragos nas pistas, não fosse o diabo tecê-las e nós termos de ficar mais uns tempos em Bissau. Tudo bem, felizmente. As metralhas cairam longe do objectivo.

Fevereiro de 1972> A última foto em Bissau


O último dia

Voltemos ao dia 19 de Março, dia de todos os útimos acontecimentos, começando pelo pequeno-almoço.

Por sorte, tocou-me o último Sargento de Dia à Companhia, começado no dia anterior e que terminaria assim que abandonássemos as instalações dos Adidos.
Em princípio tudo estava programado para correr normalmente, não fosse um acto de indisciplina por parte de um dos nossos militares que resolvendo antecipar a peluda, achou que já não devia seguir a disciplina imposta, mas necessária.

O Sargento de Dia à Unidade, deu-me instruções para ocupar determinadas mesas que estariam destinadas à CART 2732.
A malta começou a entrar e alguém resolveu sentar-se a uma mesa que não nos estava destinada. Fiz-lhe ver que deveria ir para junto dos seus camaradas entretanto já devidamente sentados, ao que ele se negou. Repeti-lhe mais uma vez a ordem e porque a desobediência continuasse, perdi a cabeça e levei-o para junto dos colegas ao empurrão.
Gerou-se alguma confusão, hoje reconheço que a minha atitude foi excessiva, mas na hora fiz-lhe ver que até ao último minuto a ordem e a disciplina eram para se cumprir.

No princípio da tarde lá fomos transportados para o Aeroporto, não ouvindo desta vez pelo caminho, como no longinquo dia 17 de Abril de 1970, os miúdos a gritarem: “Periquito vai pró mato...”

Procurámos em vão, na pista, o abençoado avião, mas nem sinais dele. Logo veio a notícia de que o vôo estaria atrasado cerca de duas horas. - Mais duas horas na Guiné. Não podia ser.

Os relógios que por ali marcavam a passagem do tempo, reuniram-se para fazer greve de zêlo, trabalhavam sim, mas de acordo com as leis vigentes, ou seja, cada hora com sessenta minutos e cada minuto com sessenta segundos. Quais maus funcionários públicos, não se compadeciam com as urgências de cada um, a Lei é para se cumprir escrupulosamente.

De quando em vez procurava-se no céu um pontinho que fizesse adivinhar a esperada aeronave, da qual nem sabíamos a cor.

Ao fim de uma eternidade chegou o nosso transporte que após despejar quem trazia, começou a engolir as nossas malas. Pelas 18,30h chegou a nossa vez de voar.

O regresso

Com o último olhar, despedimo-nos da Guiné e dos seus rios, das suas tabancas, da sua beleza natural, dos seus perigos, trazendo as suas gentes no coração. Mais do que nunca nesta hora, a lembrança dos camaradas que não puderam partilhar estes momentos de felicidade, por terem falecido durante a Comissão, vieram à lembrança, fazendo libertar uma lágrima teimosa.

Para a esmagadora maioria dos militares da CART seria a primeira viagem de avião, mas o nervosismo do batismo de vôo, diluiu-se no nervosismo próprio de quem estava ansioso pelo regresso. Os TAM estavam equipados com os majestosos Boeings 707 320C. Serviço de bordo impecável em nada diferente do das carreiras comerciais, excepção feita aos assistentes de bordo que eram militares, como não podia deixar de ser.


Boeing 707 320C dos TAM
Foto retirada do site do Centro de Documentação 25 de Abril, Universidade de Coimbra, com a devida vénia

Confesso que nunca vi um Boeing andar tão devagar, veio primeiro a noite antes que se avistasse Lisboa. A malta a bordo era um misto de emoções, uns muito alegres outros nem por isso e alguns vinham como que anestesiados, não acreditando numa oferta daquelas. Para lá tinham ido num porão do Ana Mafalda, mal instalados e mal comidos. Para casa traziam-nos num luxuoso avião, servidos com todos os requintes.

Às voltas por Lisboa

Pelas 23,30 horas de Portugal, na noite fria de 19 de Março de 1972, poisa em Figo Maduro a nossa aeronave trazendo de volta homens cheios de esperança para recomeçarem uma vida interrompida há já tanto tempo.

Algumas centenas de pessoas esperavam os militares continentais, já que os madeirenses só no dia seguinte voariam para o Funchal.

Eu já sabia que não teria ninguém à minha espera. O meu camarada e ainda hoje amigo, Dias, residente nos arredores de Vila Nova de Famalicão, tinha-me prometido boleia até casa, mas na hora verificou que a família apenas trazia de reserva um lugar para ele. Para compensar levava-me as malas, ficando eu assim livre desse incómodo.

Faltavam no entanto os últimos procedimentos militares.
Após alguns momentos junto dos familiares, fomos transportados, a monte, em camionetas Morris, quem não se lembra delas, com a caixa equipada com um banco corrido de cada lado, tapada com uma lona, mas aberta atrás e à frente, apanhando o vento daquela fria noite lisboeta, para o Hospital da Estrela. Bom começo para quem vinha do tórrido calor da Guiné, mas que importava, já não precisavam de nós saudáveis.
Fizemos alguns exames para despiste de alguma coisa mais complicada, acho eu e, já a madrugada ia alta, nos puseram a caminho do RAL1, pois faltava saldar as contas com a Tropa. Ainda bem porque eu estava tesinho que nem um carapau seco e nem dinheiro tinha para vir para casa.

Tentei ficar com o cartão de militar, mas como o sorja me ameaçou não me pagar se não o entregasse e o dinheiro era importante para mim naquela situação, rendi-me à evidência.
Deram-me umas massas correspondentes ao vencimento até à data de passagem à disponibilidade, 11 de Abril de 1972. Bem bom, pensei, quase um mês pago para não fazer nada.

Passadas umas horas, cada um começou a ir para seu lado. Os de Lisboa desapareceram, os de fora que tinham família, também e vejo-me praticamente só em Lisboa, alta madrugada, não sabendo sequer para onde era o norte. Um taxista que passava, em busca de alguma corrida mais compensatória, perguntou-me de onde era e como eu dissesse ser do Porto, interessou-lhe o cliente. Demos umas voltas para ver se aparecia alguém para completar o carro, mas ao contrário, encontrámos um outro táxi já com três camaradas que vinham para a zona de Santo Tirso e que procuravam um quarto elemento. Descartei-me do meu motorista de ocasião, mudei de táxi e... EN1 fora nos pusemos a caminho da Cidade Invicta.

Estava uma madrugada húmida com vestígios de ter chovido. Para quem se lembra, a EN1, apesar de ser o principal eixo Norte-Sul, era uma estrada má, com muitos buracos, onde se perdia imenso tempo a escolher os mais pequenos na tentativa de poupar a mecânica dos automóveis. Como é dos livros, em tempo de chuva os buracos engordam.

Para se fazer uma ideia do tempo que se demorava a fazer o Lisboa-Porto, saímos da capital pouco passava das cinco horas da manhã e chegámos à Ponte Luís I um pouco antes das 11.
Para facilitar a vida aos meus camaradas que continuavam viagem, fiquei ao fundo da Av. dos Aliados.

Finalmente na santa terrinha

Respirei fundo. Que estranho, as pessoas andavam nas suas vidas completamente descontraídas, as mulheres eram todas tão bonitas. Eu ainda fardado, olhar estranho, mirando tudo e todos, sorvendo sofregamente aqueles momentos, exibia na manga do blusão um dístico com a palavra Guiné e por cima do bolso esquerdo a Medalha Comemorativa das Campanhas da Guiné, mas ninguém reparava em mim. Apetecia-me gritar:- Vejam, sou eu, acabo de chegar da Guiné. - Que se danem.

Procurei a praça de táxis. Ali estava, no mesmo sítio. Em Portugal, naquele tempo poucas coisas mudavam. Estava tudo bem.
- Para a Rua D. Nuno Álvares Pereira, 799, Matosinhos, se faz favor.

Entretanto começou tudo a ficar mais familiar. As ruas, as casas, as pessoas... Chegados, pedi ao motorista do táxi para esperar um pouco, subi o pequeno lance de escadas que me levava ao pequeno pátio e bati à porta. O meu coração não cabia dentro do peito. Quem viria abrir? Oxalá fosse ela. A porta abriu, apareceu a madrasta que me disse que a Dina não estava, porque tinha ido a casa de uma irmã que havia casado uns meses antes.

Desci as escadas desiludido, triste e magoado. Toda a gente sabia que eu chegava naquela manhã. Incompreensível a sua atitude. Nem parecia dela.

Com semblante carregado pedi ao homem que me levasse para Leça da Palmeira. Chegados junto à Igreja, pedi para me deixar ali, paguei e percorri as poucas centenas de metros que me separava de casa. Confesso que a esta distância não me lembro de me ter cruzado com alguém conhecido, o que é improvável. Sei que não troquei palavra com ninguém. Ao dobrar a esquina da minha rua, vejo ao fundo, junto à nossa porta o meu pai que deve ter passado ali a manhã toda à minha espera, para que eu visse que ele já estava refeito de uma crise cardiovascular de que tinha sido vítima no mês anterior. Disso viria a falecer anos mais tarde.

Depois de um efusivo abraço, entrámos em casa. Apareceu logo a minha mãe que estranhamente chorava... porquê se eu já ali estava, definitivamente são e salvo? Segundos depois apareceu a razão do meu viver, que esteve escondida todo o tempo que eu dediquei aos meus pais.

Ainda hoje lhe digo que a alegria de a ver na companhia dos meus pais, à minha espera, foi menor que tristeza que senti quando em sua casa me disseram que estaria em casa da irmã. Ninguém compreendia como vínhamos tão fragilizados psicologicamente daquelas terras. Não se admitiam jogos nem brincadeiras naquelas horas do reencontro com a vida dita normal. As provações foram tantas... os reencontros tão difíceis...

Passados os primeiros dias em que tive ocasião de rever todos os amigos e refazer a minha vida social, a ordem era ver como estava a minha situação profissional.
Quando fui incorporado já era funcionário público, embora em regime de Assalariado de caráter permanente, pelo que tive de ver como estava a minha situação. Consultei o Chefe que informou que o meu lugar me aguardava e que continuava a ganhar 1700 escudos mensais, o mesmo que ganhava quando fui para a tropa. - Qual quê? Como me vou casar? Tenho 24 anos, três dos quais perdidos como militar.
Foi-me prometida promoção condigna e futura integração na carreira correspondente às funções que exercia.

Voltei ao trabalho no dia 17 de Abril de 1972 e fiquei a saber que tinha sido aumentado em 900 escudos. Com 2600 escudos já dava para casar desde que a futura esposa desse uma ajuda.
Mais tarde, em Janeiro de 1973, fui integrado na nova categoria, tendo novo aumento e o caminho aberto para progredir profissionalmente, como veio a acontecer.

Em Agosto do mesmo ano de 1972 dissemos ambos o sim que se mantém após 36 anos já volvidos.

Dediquei parte da minha vida a servir o Estado. Fi-lo entre 1966 e o ano 2000, sendo que entre 1969 e 1972 o fiz, usando uma farda e uma arma.
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Nota de CV

Vd. último poste da série de 2 de Julho de 2008> Guiné 63/74 - P3015: Os nossos regressos (4): Dois anos perdidos naquela terra, quente, húmida e vermelha...(Torcato Mendonça)

Guiné 63/74 - P3017: Blogoterapia (59): Fotos chocantes de "despojos humanos" (Henrique Cerqueira)

1. Mensagem de Henrique Cerqueira, ex-Fur Mil do BCAÇ 4610/72/743.ª Companhia, Biambe4.º Gr Comb, CCAÇ 13, Bissorã):

Bom dia, Camarada Luís Graça

Hoje resolvi escrever sobre o artigo do nosso camarada Branquinho (1). É que foi com alguma surpresa, e até incredibilidade, que ao ler o artigo sobre os "Despojos Humanos" deparo-me com uma série de fotos no mínimo chocantes.

Não será pelo facto de serem fotos aterradoras, pois que infelizmente quase todos nós convivemos de perto com situações idênticas e até hoje em dia somos invadidos com imagens idênticas ou ainda piores, que nos entram pela casa dentro através das televisões oriundas das mais diversas guerras actuais. Mas aí ainda se vai entendendo, devido ao jornalismo demasiadamente desenfreado e com total desrespeito pelos valores humanos.

Também posso dar algum benefício de dúvida a quem na época se recriou a tirar este tipo de fotos (pois que na época a inconsciência estava minada pela falta de formação militar e até de acção psicológica virada para o âmbito de guerra). Agora neste preciso momento, em que todos nós tentamos ainda enterrar os nossos Fantasmas , deparamos com fotos de camaradas nossos que MORRERAM e que são agora expostos como se de UM MATADOURO SE TRATASSE.

Perdoa-me, Camarada Luís, mas eu penso que não foi uma atitude acertada ao publicarem estas fotos.

Quando cheguei ao Biambe em 1972 e me atribuíram uma espécie de quarto no aquartelamento e, quando fiquei só, deparei-me com um troféu que o meu antecessor deixou num frasco, que eram duas orelhas supostamente de um inimigo. Fiquei chocado com tal troféu e em segredo eu próprio fiz uma espécie de funeral a essa parte do corpo de um ser humano.

Ainda hoje sinto tristeza ao me lembrar de tal episódio, daí o meu total desacordo na publicação destas fotografias, pois que me faz pensar que quando foram tiradas e guardadas todo este tempo, foi como se de um Troféu de Guerra se tratasse.

Penso assim que neste momento deveríamos ser um pouco mais cuidadosos e, quem sabe, ir ao fundo das gavetas e destruir algumas das más lembranças e se calhar algumas das nossas piores atitudes como seres humanos que, por este ou outro motivo, mesmo que impulsionados por situações a que fomos empurrados,umas veses obrigados, outras por instinto animalesco que de uma forma outra estaria enraizada em nós [...].

Vou terminar este meu parecer, mas quero ainda esclarecer que escrevo estas linhas movido por uma certa tristeza e alguma raiva. Daí que me desculpem todos, se não estão de acordo com o escrito. É que, como de costume, eu normalmente só escrevo o que o meu coração manda e faço-o tal e qual como penso. Por tal, meu amigo Luís Graça, se achares que não vale a pena publicar, estás como sempre à vontade para o fazer.

Quero ainda dar uma nota muito positiva para o que se tem escrito sobre o tema que foi lançado que é o após, o regresso à Metrópole (2). Logo que possa, e se ainda estiver admitido neste blogue, escreverei algo sobre o dito tema.

Um abraço para ti Luís Graça e restantes camaradas da TABANCA GRANDE
Henrique Cerqueira
Ex-Fur Mil
Batalhão 4610/72
Biambe, Bissorã,
1972/1974

2. Comentário de L.G.:

(i) É saudável discordarmos uns dos outros, e sobretudo apresentarmos as razões por que discordamos desta ou daquela orientação, atitude, acção, omissão... Discordar não é conflito nem delito.

(ii) A decisão foi minha, e de mais minguém, a de "ilustrar" (não gosto do termo, mas não me ocorre outro) o poste do Branquinho com as imagens (macabras) de "despojos humanos" que, presumo, tenham sido enterrados, depois de fotografados, no "biotério" do Hospital Militar de Bissau, se é que o hospital tinha biotério...

(iii) Calculei os riscos e os estragos. Pela segunda vez, pisei deliberadamente o risco. E também propositadamente reproduzi o comentário que o Carlos Vinhal já tinha feito, através do correio electrónico do nosso blogue, a respeito dessas imagens.

(iv) Na altura já não sei se respondi ao Carlos Vinhal. De qualquer modo, nem todas as questões que levantamos, a nós próprios ou aos outros, têm resposta. Recuso o "voyeurismo", a morbidez, a pornografia, a exploração estética da morte e do horror... mas há às vezes tenho dificuldade em estabelecer a linha de fronteira. Eros e Tanatos, amor e morte, são uma terrível dicotomia, com que nunca saberemos lidar bem (ou com que sempre lidaremos mal)...

(v) O que nos incomoda nas imagens da morte na guerra ? Há um pudor, por parte dos velhos guerreiros, dos antigos combatentes, em relação à morte, aos cadáveres, aos despojos humanos da batalha... Curiosamente, também os médicos lidam mal com isso... Como se ambos soubessem que a Morte/Tanatos acaba sempre por triunfar contra tudo e todos, o Amor/Eros, a vida, a ciência, a tecnologia, a nossa doce e terna ilusão de eternidade... Por isso fazemos monumentos (funerários) aos nossos mortos, aos nossos combatentes, aos nossos heróis...

(vi) Na aldeia global, a morte não é mais sinónimo de horror porque chega a nossas casas através do ecrã-tampão, do ecrã-filtro do nosso televisor... Já nada nos tira o apetite (nem a seguir o sono) à hora do telejornal, à noite, ao jantar... A televisão banalizou a morte, o horror, a guerra em directo...Do Iraque ao Darfur...

(vii) Em contrapartida, as imagens do fotojornalista que chegam à World Press Photo, através de um processo de selecção de um júri, profissional, conceituado, plural e internacional - muitas delas sobre o horror da guerra e da violência - têm como objectivo, explícito, COMUNICAR comigo, e implícito, PROVOCAR-ME, CHOCAR-ME, MEXER COM AS MINHAS EMOÇÕES, INTERROGAR-ME, SACUDIR A MINHA INDIFERENÇA, SENSIBILIZAR-ME, etc.

(viii) Os nossos filhos, que felizmente não foram à guerra, TÊM O DIREITO SABER QUAL O EFEITO (DEVASTADOR...) QUE AS NOSSAS TECNOLOGIAS DA MORTE, nossas e do PAIGC, tinham sobre os nossos corpos, sobre os corpos dos nossos camaradas, sobre os corpos dos nossos inimigos... Das minas anti-pessoais aos fornilhos, dos obuzes 14 às bombas de napalm, das granadas de RPG7 aos morteiros 120...

(ix) E o que é a guerra se não um imenso matadouro, Henrique ? Repara que estas imagens são descontextualizadas, não permitindo em caso algum identificar quem que seja... Por outro lado, não são nem podem ser lidas como troféu de guerra (Nada te autoriza essa leitura...).

(x) É preciso "exorcizar os nossos fantasmas" (coisa que andamos a tentar fazer há 40 anos, ao que parece em vão...). Concordo contigo. Mas será através da denegação ? Da ocultação dos cadáveres, das orelhas, das cabeças, das pernas, dos despojos... ? Da destruição das imagens, dos signos, dos vestígios, dos documentos, das narrativas ?

(xi) Não creio que alguém se pudesse recriar (o termo é teu) , no então HM 241, e muito menos o nosso camarada Carlos Américo Cardoso, ex-1º Cabo Radiololista (que já deu provas de ser uma camarada com valores, com sensibilidade, com sentido de solidariedade, etc.)...

(xii) Vamos censurar as nossas próprias narrativas ? Vamos decidir que frases como esta são inaceitáveis porque podem ferir a nossa sensibilidade, ou a sensibilidade de alguns de nós, dos nossos velhos, das nossas criancinhas ?

Entra no recinto do aquartelamento a viatura de caixa aberta, com os pedaços dos corpos. Curiosos agarram-se às cancelas e espreitam.
– Foda-se! Parecem todos pretos! (1)


(xiii) Agradeço muito a tua participação no bogue, com o teu comentário, ainda para mais para me criticares enquanto editor. É um direito mas também uma obrigação que tu tens, enquanto mebro da nossa Tabanca Grande.

(xiv) Em contrapartida, estranho o teu último parágrafo: "Quero ainda dar uma nota muito positiva para o que se tem escrito sobre o tema que foi lançado que é o após, o regresso à Metrópole (2). Logo que possa, e se ainda estiver admitido neste blogue, escreverei algo sobre o dito tema"...

Não aceito a tua insinuação (involuntária...) de que alguém possa ser expluso deste blogue por uma "delito de opinião" ou por fazer críticas ao(s) editor(es)...

Um Alfa Bravo (abraço) do Luís.

_________

Notas dos editores:

(1) Vd. poste de 1 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3011: Não venho falar de mim... nem do meu umbigo (Alberto Branquinho) (3): Fornilhos e despojos humanos

(2) Vd. poste de 2 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3015: Os nossos regressos (4): Dois anos perdidos naquela terra, quente, húmida e vermelha...(Torcato Mendonça)

Guiné 63/74 - P3016: Em busca de... (32): Margarida Dahaba, professora, filha do 2º Sargento Fodé Dahaba (M. Ribeiro de Almeida / J.M. Gonçalves Dias)

Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Ilha de Bolama > Bolama > CART 3492 > 1972 > Pessoal da CART 3492 posando juntamente com um grupo de bajudas e crianças. Da direita para a esquerda: Alf Gonçalves Dias (4º Pelotão), Furriel Duarte (4º Pelotão), Alf Mexia Alves (1º Pelotão), Alf Barroso (3º Pelotão), Furriel Pires (1º Pelotão), "homem da minha confiança" (JMA)

Fotos: © Joaquim Mexia Alves (2006). Direitos reservados


1. Mensagem de Miguel Ribeiro de Almeida


Exmo. Sr.
Luís Graça (e co-editores e tertulianos do blog),

Tomei há pouco tempo conhecimento do vosso magnífico blog. Queria dar-vos os meus sinceros parabéns pela qualidade do mesmo, pelo contributo que presta à história contemporânea do nosso país, pela mensagem de amizade e confraternização que veicula, e por não deixar morrer a memória de uma guerra para a qual foram mobilizados tantos jovens portugueses.

Devo dizer-vos que me emociono ao ver fotos e ao ler textos do vosso blog, que tão bem descrevem e documentam os anos de guerra na Guiné.

Eu tinha 9 anos quando se deu o 25 de Abril, e da guerra guardo ainda na memória as imagens de entrevistas a soldados, na TV (creio que em épocas festivas, enviando mensagens para as famílias, estarei certo?), as conversas que ia ouvindo e os telegramas de papel amarelo [, os aerogramas,] que chegavam da Guiné, onde o meu tio - José Maria Gonçalves Dias, Alferes Miliciano - combateu, entre 1971 e 1973.

Pertenceu, primeiro, à CART 3492 [, unidade de quadrícula do Xitole,] e depois ao CCS do BART 3873. Esteve em Bambadinca.

Lisboa > Hospital Militar Princiapal > 1969 > Fotografia do 2º sargento Fodé Dahaba, "com um sorriso muito triste, tirada nos jardins do Hospital Militar Principal em Lisboa"... Pertencia ao Pel Caç Nat 52 (Bambadinca, Missirá ). Foi gravemente ferido em 22 de Fevereiro de 1969, na Op Anda Cá, na região do Cuor, a norte do Rio Geba. Foto : © Beja Santos (2006). Direitos reservados

O meu tio vai regularmente aos convívios de confraternização com os seus antigos camaradas da Guiné, por isso creio não ter perdido o contacto com nenhum. No entanto, como não domina estas coisas cibernáuticas, pediu-me para eu fazer uma pesquisa relativamente a um antigo camarada, o 2º Sargento Fodé Dahaba, de uma Companhia de Comandos Africanos (peço desculpa se a denominação não for exactamente esta), de quem ficou muito amigo, bem como da sua filha Margarida Dahaba, a quem viu nascer.

O meu tio sabe que a Margarida é professora primária em Portugal, e gostava muito de a contactar. Será que alguém do vosso blog o poderia ajudar a localizá-la?

Pelas pesquisas que fiz no vosso blog, parece-me que o 2º Sargento Fodé Dahaba vive em Lisboa, pois encontrei uma foto dele, seguida de um texto do Dr. Beja Santos, embora este texto seja de 2006. Podem confirmar-se se assim é, ou se neste momento se encontra a residir na Guiné-Bissau?

Desde já vos agradeço, em nome do meu tio, toda a ajuda que me puderem prestar. E, mais uma vez, as minhas sinceras felicitações pelo vosso magnífico trabalho.

Saudações cordiais a todos,

Miguel Ribeiro de Almeida

2. Comentário de L.G.:

Obrigado, em meu nome e dos demais amigos e camaradas da Guiné, pelas suas referências elogiosas que fez ao nosso blogue e ao nosso trabalho de preservação e divulgação das memórias da guerra colonial na Guiné.

Do seu tio encontrámos uma foto, tirada em Bolama, e que nos foi enviada pelo Joaquim Mexias Alves, seu camarada da CART 3492 (estiveram juntos no Xitole, pelo menos alguns meses, em 1972; e deve-se ter encontrado várias vezes em Bambadinca, depois da transferência do Joaquim para o Pel Caç Nat 52).

O Fodé Dahaba pertencia a esta mesma subunidade, o Peltão de Caçadores Nativos, nº 52, comandado então pelo Alf Mil Beja Santos (1968/70). O Fodé foi gravemente ferido em combate em 22 de Fevereiro de 1969. Foi evacuado posteriomente para o Hospital Militar Principal, em Lisboa, na Estrela. Deve ter regressado à Guiné posteriormente, e terá sido nessa altura, circa 1972/73, que o seu tio o conheceu. Imagino que tenha voltado de novo a Portugal, por razões médicas ou outras. Talvez o nosso camarada Beja Santos o possa ajudar, com informação mais detalhada, sobre o seu paradeiro actual bem como o da sua filha Margarida Dahaba, que hoije deverá ter cerca de 35 anos. Diz você que é professora do 1º ciclo do ensino básico. Espero que, com a nossa ajuda, a possa localizar e contactar. Vou fazer um apelo a todos os nossos amigos e camaradas. Poderá também contactar o seu camarada Beja Santos, actualmente assessor principal do Instituto do Consumidor (antiga Direcção-Geral do Consumidor), ao Saldanho. Boa sorte nas tuas diligências. E dá um Alfa Bravo (abraço) ao teu tio. Luís.

_________

Nota de L.G.:

(1) Vd. poste de 23 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1542: Operação Macaréu à Vista (Beja Santos) (34): Uma desastrada e desastrosa operação a Madina/Belel

(...) "Uma das cenas mais horríveis que presenciei em toda a minha vida

"De imediato, fui comunicar o sucedido aos dois capitães propondo que assim que houvesse luz eu avançaria para Madina sem perda de tempo. Ainda insisti na separação dos dois destacamentos, sem qualquer sucesso. Cerca das 5h da manhã avançámos fora de um trilho batido. Logo a seguir, Fodé Dahaba detecta uma mina antipessoal, pedi-lhe para ficar ali com a missão de afastar as tropas deste local. Relata-se que havia um segundo engenho, os meus soldados disseram-me mais tarde que não.

"Toda a tropa de Missirá avançava para o acampamento de Madina, ouvia-se distintamente os pilões a funcionar e cânticos de mulheres quando uma explosão ensurdecedora encheu os ares, e após um angustiante silêncio ouviram-se os urros de dois homens. Retrocedo e vou ver uma das cenas mais horríveis que me foi dado presenciar em toda a minha vida: era uma fossa imensa, polvilhada de pedaços de metal, lá dentro agonizava um soldado e na berma gemia o Fodé sem
uma perna e um pedaço de uma mão.

"Seguiu-se uma conversação duríssima em que eu pedia compreensão para avançar imediatamente sobre o objectivo, ao qual me foi respondido que os feridos graves tinham prioridade, que era melhor retirar para perto e pedir uma evacuação. De uma retirada para transportar feridos fomo-nos progressivamente afastando de Medina e pelas 8h da manhã eu sabia que a operação estava completamente perdida. Os rádios que não funcionaram na véspera passaram agora a funcionar, o desânimo aumenta, aqueles gritos de um soldado que vai morrer e de outro que vai ficar estropiado contagiam o moral das tropas. Já não estamos a evacuar feridos, estamos a recuar em direcção a Missirá enquanto se passa por rádio a batata quente para o PCV" (...).

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Guiné 63/74 - P3015: Os nossos regressos (4): Dois anos perdidos naquela terra, quente, húmida e vermelha...(Torcato Mendonça)

Meus Caros Camaradas,

Antes que o texto tenha destino de império, sem reler atentamente segue ciberespaço fora…mais rápido do que o Uíge, mais curto do que o previsto. Menos intimista, menos agressivo… em resumo, suave…em português suave…o regresso dos guerreiros ou os restos do império.

Cuidado, muito cuidado. Só fala assim quem lá foi, sentiu a vida a ir e vir, o cheiro doce da morte, a violência do "assalto", o incómodo do "toque" físico e o sobressalto do pesadelo de visão ou sono interrompido…ou chorou de raiva ou dor pelo camarada desfeito, ali na terra estendido...caramba porquê???!!!

Envio tri-abraços fortes e até,

Torcato Mendonça
__________

O REGRESSO

Dia ansiosamente esperado.

Tinha vindo, dias antes, para Bissau. Juntamente com o comando e a "secretaria" fora o último Grupo a sair de Mansambo.

O Uíge chegou, com mais um carregamento de militares, dois ou três dias antes do dia da partida deles.
Ficou afastado, entre o cais e a ilha. Era namorado da marginal, por quem ia embarcar num desejo de rápida penetração em cópula que tardava.

Finalmente o dia chegou. Amanheceu diferente, menos quente, mais mexido, com corridas, ordens rápidas, formatura, desfile com fanfarra e discursos dispensáveis. Depois acalmou mais com a curta viagem em coluna auto até ao cais. Esperava-se e desesperava-se.

Vinha a comandar a Companhia e não sabia se embarcava ou não. Ficara na Comissão Liquidatária, juntamente com dois sargentos e um amanuense. Um alferes estava no hospital, outro tinha menos um mês de comissão e esperava ordem de embarque, ainda o outro tinha chegado cerca de um mês antes, juntamente com um sargento, para preparar a chegada. Restava um, ele!
Podia, e devia, ser substituído pelo capitão com quase um ano de comissão a cumprir. Desejo de todos; ele, porque partia já, os sargentos e mesmo o capitão porque eram profissionais. A guerra terminara e já não precisavam dele. Além disso “aquilo” convinha ser tratado por profissionais. Eles lá sabiam porquê…estavam na terceira comissão. Profissionais! Pedido feito e negado. Reformulado e nem sim nem não, ”nim”, ou mais um sim. Esperava agora, ainda, arriscava e desesperava, Tentava manter a calma que aqueles anos lhe ensinaram. Mas, voltar a aturar burocratas…antes o mato.

À hora aprazada começa o embarque.

Tudo pronto. O Uíge zarpa, lentamente, ao encontro da barra do Geba e do Atlântico. Viagem de seis dias ou sete até ao seu País e á ponte…a ponte!
Ficou no convés, via Bissau a afastar-se e pensava: vou ou ainda me mandam regressar? Aos poucos a terra afasta-se e ali fica, procurando respostas para tantas dúvidas. Será que regresso a esta terra ou vou para a vida civil; continuo a estudar ou vou fazer o quê; militar ou civil? Logo se vê…logo se vê…

Dois anos perdidos naquela terra, quente, húmida e vermelha. Dois anos da sua vida ali ficaram, os seus verdes anos, a que se juntavam mais dois. Estava com quase vinte e cinco. Não, acabara de fazer vinte e cinco. E agora?



Vinha mais adulto, mais velho, mais cicatrizes físicas e mentais ou de alma. Gaita onde estará a alma? Ontem ou hoje procura-a e não sabe. Talvez se tivesse uma ou soubesse onde estava a sua fosse mais fácil. Sentia vir diferente. Amarrotado pela vida passada naqueles dois anos, onde não fora ele, sendo, onde tanto vira, sentira de mau e menos mau. Onde sentira até onde pode ir a solidariedade e a camaradagem dos homens em gestos abnegados ou até onde, esses mesmos homens podem ir em bestialidade e violência. E ele era diferente? Claro que não! E agora? Por agora, ali estava no final da tarde, encostado, a um poste no convés do barco tal qual fizera, aquando da partida, dois anos antes no Ana Mafalda.


Memórias

Regrediu no tempo e, em velocidade superior á da luz passaram aqueles dois anos pela sua mente. O embarque, a viagem, Cabo Verde e Bissau na chegada sentindo o calor e a humidade a subirem, a encharcarem o corpo e a saírem em água e toxinas por todos os poros.
Parecia ter passado tanto tempo e só foram dois anos. A ida para o primeiro aquartelamento no Leste, Fá Mandinga. O sentir aqueles cheiros, as gentes, os sons da mata, a rápida habituação a uma terra tão diferente.
Treino operacional no Xime, nomadizações, emboscadas e seguranças a Mato Cão, a primeira operação com assalto e destruição a Galo Corubal. Recordava esses dois anos cheios de tanto e para quê? Sofreram na Companhia, fora os militares africanos, oito mortos, dezenas de feridos e alguns com gravidade. Tantos, demasiado sofrimento imposto aqueles homens, quase ainda meninos na partida, hoje endurecidos por dentro e por fora. Continuava pensando e vendo a terra já longe, a noite a chegar e preferiu descer ao camarote.

O Comandante das tropas embarcadas era o Tenente-coronel Pimentel Bastos, seu antigo comandante em Bambadinca.
Viagem a decorrer normalmente até uma madrugada, talvez não longe das Canárias, quando o mar se enfureceu e as vagas cresceram. Abanava o Uíge e roncava com a hélice a sair da água. Desceu ao porão. Lá estavam os soldados amontoados entre malas, vómitos e um cheiro de arrepiar. Os escravos do século XX sofram que a Pátria vos agradece. Subiu e sentia já a mudança, a revolta a subir.
Continuaram a viagem. Finalmente o jantar de despedida. Iam desembarcar no outro dia. Comeu e muito mais bebeu até sentir o álcool a tomar conta dele.
Dormiu pouco e em sobressalto. Todos madrugaram ainda sem Lisboa á vista.
Pouco depois aí estava ela, a capital do império a esboroar-se, e, antes dela, a Ponte… a Ponte. Finalmente a ponte e a concretização do seu sonho - passar dor debaixo da dita - passou, mão esquerda a acariciar o estômago e a direita a saudar a montanha de aço e o sorriso a afugentar os últimos vapores de álcool.

Ficaram ao largo. Depois lentamente a acostagem à Rocha de Conde de Óbidos. A saída ordenada, a fuga para junto das famílias. Nova despedida, mais um parvo desfile e embarque em autocarros até Évora.
Dia longo, burocracias resolvidas já com a noite avançada. No dia seguinte mais burocracias, almoço no Fialho e regresso ao quartel. Ultimas assinaturas, despedida do Comandante Coronel Branco do 1904 de Bambadinca e virou civil. E agora? E agora?
Falou com um telefonista, pediu-lhe para lhe encontrar um táxi para corrida de cerca de quatrocentos quilómetros e esperou.
Já de noite chegou a casa. Finalmente.

E agora?

Tratou, desesperadamente, de se habituar a ser civil. Tentou esquecer mas ia e vinha em tormento, em saudade, em algo que, ingenuamente pensou definitivamente ter desaparecido. Mas o som do heli, o foguete, a voz mais alta, o copo a virar copos…sabe lá.
Hoje tem memórias, continua com incertezas, recorda datas que o marcaram, gentes que gostou ou detestou.

Ficou diferente. Melhor, pior? Diferente…
A sua vida civil. Bem sai fora deste contexto…
__________

Adaptação e substítulos: vb

(1) Torcato Mendonça, ex-Alf Mil CArt 2339, Mansambo, 1968/69

(2) Vd. artigos de:

1 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3012: Os nossos regressos (3): Ficámos a ver Lisboa do navio (José Teixeira)

1 Julho > Guiné 63/74 - P3007: Os nossos regressos (2): Finalmente, cheguei, estou vivo, não se assustem, sou eu, o Joaquim (J. Mexia Alves)

26 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2987: Os nossos regressos (1): Lisboa, dois anos depois (Virgínio Briote)

Guiné 63/74 - P3014: Fuzileiro uma vez, fuzileiro para sempre (José Macedo, EUA)


1. Mensagem de 13 de Fevereiro último, do nosso camarada José Macedo (ou Zeca Macedo), um cabo-verdiano da diáspora, que foi FZE [Fuzileiro Especial] no DFE 21 na Guiné em 1973/74, e que hoje é advodado nos States, para onde imigrou em 1977 (1). Pelo atraso na divulgação da mensagem - devida a falha técnica (2)... - pedimos desculpa ao nosso camarada e ao restante pessoal da Tabanca Grande.

Luis:

Obrigado por me teres apresentado oficialmente na Tabanca Grande (1). Só tenho um reparo a fazer: chamaste-me, Ex-Segundo Tenente Fuzileiro. Não há Ex-Fuzileiros. Como deves saber, Fuzileiro Uma Vez, Fuzileiro Para Sempre.

Falei hoje com o Coronel Raul Folques, que conheci na Guiné e que foi comandante de uma Companhia de Comandos Africanos, em Brá. Matámos as saudades sobre os tempos passados na Guiné e algumas operacões que fizeram na Cobiana, que ficava na área de Cacheu, Frente Cantchungo-Biambe, que era onde estive estacionado com o DFE 21.

Um abraço amigo

Zeca Macedo (2)

2. Mensagem anterior, de 25 de Janeiro

Luis:

Graças à Tabanca Grande, descobri o e-mail dele, através de uma correspondência com o Comandante Pedro Lauret, falei com o Comandante Alves de Jesus (GNR) que comandou o DFE 4 na Guiné (na altura primeiro tenente) e que esteve em Guidaje em 73, na mesma altura que estive no DFE 21 (Fuzileiros Africanos).

Acho que mencionei ter estado na Guiné de 72-74. Puro engano; estive lá de 73-74. Depois de ter lido o artigo sobre o MNF e a Cilinha Supico Pinto, desenterrei uma foto tirada aquando da visita dela ao DFE21, em Vila Cacheu. Assim que tiver uma oportunidade elá sera enviada para que lhe dês o encaminhamento que julgares apropriado.

Um abraço amigo

José J. Macedo
DFE 21, Guiné
73-74

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Notas dos editores:

(1) Vd. poste de 13 de Fevereiro de 2008 >
Guiné 63/74 - P2532: Tabanca Grande (56): José J. Macedo, ex-2º tenente fuzileiro especial, natural de Cabo Verde, imigrante nos EUA

(2) O Zeca mandou-nos também uma foto de um "Cabo FZE do DFE21, expert no manejo da MG 42 e mecânico extraordinário dos motores Mercury que usávamos nos Zebros em que fazíamos os patrulhamentos do Rio Cacheu e seus afluentes"...

Por razões que ainda não descortinámos, essa foto desapareceu dos nossos ficheiros. Ficamos a aguardar um 2º envio, se o Zeca Macedo achar que vale a pena...

Há dias publicámos a foto de antigo FZE, guineense, do DFE 21, hoje régulo de Cananima (que fica frente a Cacine): vd poste de 29 de Junho de 2008 >
Guiné 63/74 - P2994: Uma semana inolvidável na pátria de Cabral (29/2 a 7/3/2008) (Luís Graça) (17): Cacine, a voz dos abandonados (I)

Guiné 63/74 - P3013: Reordenamentos (1): Gadamael, o primeiro, na sequência da retirada de Sangonhá e Cacoca em meados de 1968 (António J. Pereira da Costa)










Guiné >Região de Tombali > Gadamael - Porto > 1968 > A construção do primeiro reordenamento do CTIG, na opinião do Cor Art António J Pereira da Costa.


Fotos: © António José Pereira da Costa (2008). Direitos reservados.





Guiné >Região de Tombali > Gadamael - Porto > s/d > Tabanca, reordenada pelas NT.

Foto: Autores desconhecido. Álbum fotográfico Guiledje Virtual. Gentileza de: © AD -Acção para o Desenvolvimento (2007).







Guiné-Bisssau > Região de Tombali > Sector de Cacine > Cacine, na margem esquerda do Rio Cacine > 2 de Março de 2008 > Simpósio Internacional de Guileje (1-7 de Março de 2008) > Visita dos participantes ao sul > Por aqui passou a CART 1692... Esta tosca placa, em cimento, diz-nos que em dois dias, de 16 a 18 de Abril de 1968, foi construído este abrigo, em tempo seguramente recorde, a avaliar pelas "60 bebedeiras neste 'priúdo'... TRABALHO RÁPIDO" (sic).

Foto: © Luís Graça (2008). Direitos reservados.

1. Mensagem do Cor Art António José Pereira da Costa:


Em Maio/Junho de 1968, o Gen Spínola [, então ainda brigadeiro, ] determinou o abandono dos quartéis de Sangonhá (1) e Cacoca. Houve que transportar, para Gadamael e Cacine, a população que ali residia e que, em Cacine, ficou instalada na antiga Missão do Sono que agora já não existia, visto que a doença estava erradicada.

Foram feitas mais de 30 colunas em pouco mais de 15 dias. À chegada foi necessário construir as casas com o auxílio do pessoal da CART 1692 (2). Pela sequência das fotos é possível ver que se podem construir casas a partir do telhado. A qualidade das fotos não será a melhor, mas este poderá ter sido o primeiro Reordenamento da Guiné (3).

Julgo que terá interesse para o blogue.

Um Abraço do

António Costa

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Notas de L.G.:

(1) Sobre Sangonhá , vd. postes de:

23 de Fevereiro de 2008 >Guiné 63/74 - P2574: Estórias de Guileje (9): O massacre de Sangonhá, pela Força Aérea, em 6 de Janeiro de 1969 (José Rocha)

25 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2579: Álbum Fotográfico do Hugo Moura Ferreira (3): Em Sangonhá, a sul de Gadamael, com a CCAÇ 1612 (1968)


(2) Na página do Jorge Santos, encontrei referência a um encontro da CART 1672 (1967/69). Elemento de contacto: Armando Marques > Telemóvel: 939 823 397


(3) Sobre a política de reordenamentos, vd. os seguintes postes:


12 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2100: A Política da Guiné Melhor: os reordenamentos das populações (1) (A. Marques Lopes / António Pimentel)

16 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2108: A Política da Guiné Melhor: os reordenamentos das populações (2) (A. Marques Lopes / António Pimentel)


Vd. também sobre o reordenamento de Nhabijões (Sector L1, Bambadinca):

22 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCII: O reordenamento de Nhabijões (1969/70) (Luís Moreira)

23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)(Luís Graça)

23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCIX: Luís Moreira, de alferes sapador a professor de matemática (Luís Graça)

28 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXCIV: Nhabijões: quando um balanta a menos era um turra a menos (Luís Graça)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Guiné 63/74 - P3012: Os nossos regressos (3): Ficámos a ver Lisboa do navio (José Teixeira)

Guiné > Região de Tombali >Aldeia Formosa >CCAÇ 2381 (1968/70) > O Maioral Zé Teixeira,1º cabo enfermeiro, junto ao obus 14 que batia a zona fronteiriça...




- Tirem-me daqui! Tirem-me daqui!

...Era o grito que mais se ouvia nos últimos meses de Guiné, sobretudo depois da estúpida morte do Conceição Caixeiro (1).

A reentrada no Niassa em fins de Abril de 1970 foi o primeiro sinal de que era chegada a hora do regresso, passados quase vinte e quatro meses num ambiente de guerra activa.

Quatro camaradas tinham ficado pelo caminho. Alguns mais tinham antecipado o seu regresso, feridos e estropiados. Nós, os restantes, de olhos postos no mar alto, a tentar divisar Lisboa, dizíamos adeus à Guiné, com promessa de não mais voltar. Puro engano que o tempo se encarregou de esclarecer, pois a maioria de nós, hoje, sonha em voltar, agora voluntariamente para rever as amizades deixadas, e foram tantas, passar pelos locais onde viveu, onde sofreu, situações de luta e tantas de alegria. Situações que nos marcaram por toda a vida.

Nunca mais se via Lisboa

O nascer e o pôr-do-sol, marcava os dias e as horas, que teimavam em não passar. Lisboa teimava em não aparecer no horizonte visual. Faziam apostas sobre o dia e a hora da chegada. Manhã cedo toda a gente vinha para a amurada do barco, à procura de sinais da terra abençoada. Muitos ali ficaram de guarda, dia e noite na esperança de serem os primeiros. Até que se nota à distância uma mancha negra.
- Terra! Terra! Lisboa à vista!

Toda a gente acorre, surgem de todo o lado. É quem mais espreita. Eu não via nada, a não ser uma agitação febril de um vai e vem, um apontar de dedos, acolá, lá longe … Demasiado lento para a nossa pressa o barco lá se foi aproximando, e a noite também, para nosso azar. Vamos desembarcar de noite, dizia-se.
- Como vou localizar de noite a minha mãe ? - interrogava-se alguém.
- Vamos ficar no barco até de manhã, tem lá jeito desembarcarmos de noite!


Uma longa noite, com Lisboa ali tão perto

Certo é que a noite chegou e nós ficamos a ver Lisboa, do navio enquanto os nossos familiares ficaram a ver navios. A marginal iluminada, os carros a passar, as pessoas. E, nós a duzentos metros da costa, tão pertinho!

Noite longa das mais longas das noites, e sem sono, tal como nas emboscadas da Guiné. Agora sem medos nem fantasmas, cantava-se em grupos mais ou menos homogéneos. Sonhava-se acordado com os abraços e beijos que iríamos distribuir na manhã seguinte.

Um barco acordado toda a noite à espera de um novo dia, o qual seria de facto a reentrada numa nova vida, a nossa, a verdadeira, a que desejávamos construir. O mágico dia da peluda há tanto tempo sonhada e desejada.

Mal o sol nasce, começa a atracagem e as correrias pela amurada à procura dos familiares que no cais nos aguardavam. Muitos deles, vindos de terras distantes, passaram ali a noite, apreciando o espectáculo que ao longe se vislumbrava no barco.

Juntamente com cinco camaradas, empunhávamos um cartaz identificativo pré-acordado com as nossas famílias. Corremos o barco de lés a lés à procura de sinais de localização das mesmas, para desembarcarmos ao seu encontro. A alegria é enorme quando um de nós ouve chamar pelo seu nome. Segue-se, outro e outro, até ficar eu sozinho. O tempo vai passando o barco esvazia-se e eu continuo à procura dos meus.

Um camarada volta ao barco com o caniche, todo orgulhoso pois o animal reconheceu-o, passados dois anos de ausência. Por simpatia ficou comigo algum tempo. Enrolo o cartaz e continuo desesperadamente à procura. Ao longe vejo um rosto conhecido. Salto de contente. Expresso a minha alegria batendo com o pau do cartaz na borda do barco, mando beijinhos e sou correspondido, mas...esta visão varre-se de imediato da minha memória.

Não era a minha mãe e continuo desesperadamente à procura, deixando a minha família expectante no lugar onde a tinha visto, à espera que eu descesse do barco. Eram, a minha cunhada, meu irmão e minha mãe. Estranharam que eu continuasse a correr o barco de uma ponta à outra. Chamam por mim, mas eu estava cego e surdo.


A minha Mãe?

Fui dos últimos a descer. Entrego os meus haveres à guarda numa família de um camarada e amigo. Agora no cais, continuo à procura. Aparece-me a namorada. Encontro feliz. Pergunto-lhe pela minha mãe. Ela tinha vindo de véspera e marcaram encontro também ali no cais. Agora somos dois à procura, vais ser fácil pensei eu. De facto meu irmão agarra-me por um braço e diz-me com ar de zangado:
- Vem daí, a nossa mãe espera-te além!

Minha mãe recebeu-me com lágrimas de tristeza, pois para ela, eu desprezei a família, a mãe por troca com a namorada.

Após o espólio regresso a casa na manhã seguinte. Confesso que só ao chegar a Gaia e ver o meu Porto, senti que verdadeiramente estava fora da guerra. A recepção foi fria e estranha de tal modo que uns dias depois pensei em sair de casa. Queria fugir daquele ambiente que não me compreendia. Toda a gente afirmava que eu os tinha visto, atirado beijos, dito adeus, quando estava no barco e continuei sem lhes ligar à procura da namorada, enquanto os outros corriam a abraçar os pais e irmãos.

Eu negava. Rebatia que não tinha visto ninguém, que até cheguei a chorar de desespero, mas passava por mentiroso.

Passados uns dias, minha irmã que não tendo ido a Lisboa esperar-me, estava um pouco à margem do problema, foi ao meu quarto desejar-me boa noite e ficou a conversar comigo, pois só ela procurava entender-me.
- Sabes Zé, eles (minha mãe, irmão e cunhada) devem ter alguma razão, quando dizem que te viram, com um cãozito ao colo, e com um pau na mão. Dizem até, que tu quando vista a Glória (minha cunhada) saltaste de alegria e bateste com o pau na borda do barco, assim. Truz! truz! pegando no mesmo pau no qual estava embrulhado o cartaz que trouxera da Guiné.

Este truz truz reavivou-me a memória perdida. Num ápice, revi toda a cena; a minha cunhada a chamar-me, a acenar-me com a alegria natural de um encontro tão querido e há tanto tempo desejado, os meus gestos, a minha alegria…

Corri ao quarto da minha mãe, acordei-a e num longo abraço, bem sentido e selado pelas lágrimas, reencontrei-me e reencontrei a minha mãe.

Poderá parecer uma história, mal contada, mas foi a realidade do meu atribulado regresso, que teimava em não relembrar nem tão pouco escrever, mas o blogue prega-nos destas partidas.

Um abraço.

Zé Teixeira

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Adaptação e substítulos: vb


(1) Vd. poste de 11 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - DXXIV: Estórias do Zé Teixeira (2): o Conceição ou o morrer de morte macaca

(...) "O Conceição era uma camarada de Lisboa, que tanto quanto eu sabia, não tinha pais e vivia com a avó. Era um moço muito alegre e passava o dia a cantar.

"Já perto do fim da comissão, em Empada (está na parte do diário que não enviei para o blogue), estava na retrete ... e a cantar. Não ouviu as saídas de morteiro que nos foram enviadas do cimo da pista e controladas via rádio por alguém lá dentro ou junto ao arame farpado. Uma das primeiras rebentou no telhado da retrete e projetou-o para trás, esmagando parte da nuca contra a parede" (...).

(2) Vd. artigos de

1 Julho > Guiné 63/74 - P3007: Os nossos regressos (2): Finalmente, cheguei, estou vivo, não se assustem, sou eu, o Joaquim (J. Mexia Alves)

26 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2987: Os nossos regressos (1): Lisboa, dois anos depois (Virgínio Briote)

(2) José Teixeira, ex-1.º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada ,1968/70