sábado, 20 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3220: Convívios (83): Almoço anual de Confraternização do pessoal da CCAÇ 763 (Mário Fitas)

COMPANHIA DE CAÇADORES 763 - NOBRES NA PAZ E NA GUERRA

ALMOÇO ANUAL DE CONFRATERNIZAÇÃO – 14 de Setembro de 2008

A Concentração dos ex-militares e familiares efectuou-se frente ao Convento de Mafra estando como representante do falecido Coronel Carlos Alberto da Costa Campos Comandante da CCAÇ 763 em 1965/1966 seu filho Luís Costa Campos.

Pelas 12H00 os convivas, dirigiram-se para a Quinta do Cangalho, onde se efectuaria o respectivo Almoço e Convívio no restaurante do mesmo nome “O Cangalho”. Após o bacalhau no forno o cordeiro também no forno sobremesas e respectivos digestivos com óptimos momentos de convívio, o nosso Comandante orador em serviço, Amadeu Carreira 1.º Cabo Escriturário, da Moita dos Ferreiros vizinho do nosso Chefe de Tabanca, deu início aos momentos solenes com 1 minuto de silêncio pelos camaradas mortos em combate e pelos que cá também já partiram.
Seguidamente o nosso sempre dinâmico Fernando Albuquerque leu e informou das mensagens enviadas dos colegas que não puderam estar presentes e dos amigos que se lembraram de nós: O nosso Fernando Oliveira 2.º Sarg Mil AP Ranger do Pelotão de Morteiros 912; do Alf Mil Hugo Moura Ferreira da CCAÇ 1621 que nos rendeu em Cufar, em seu nome e do Braima Baldé; do Fur Mil Benito Neves da CCAV 1484 que foram nossos companheiros por Áfiá, Camaiupa, Cabolol; do António Salvador da CCAÇ 4740 que nos fez a surpresa da sua presença acompanhado de sua esposa, etc., etc.





Seguiu-se um momento complicado, quando o Fur Mil Op Esp Mário Fitas disse um poema do Luís Graça já publicado no blogue, pois houve pessoal, que ficou um pouco emocionado, e lá houve alguns olhos com pérolas (e não foram só as mulheres).(*)



Seguiram-se palavras do Alf Mil Op Esp Artur Teles e Jorge Paulos que a seguir se transcrevem:

Palavras do Alf Mil de Op Esp Artur Teles

Companheiros e Amigos

Começo por saudar todos os presentes, por mais este agradável convívio, como a CCAÇ 763 sempre soube fazer, e agradecer:

- Aos que o tornaram possível, o incansável Mário Ralheta, bem apoiado pelo Fernando e o Acúrcio (desta vez foi mais curta a intervenção dos outros membros da comissão);
- Aos companheiros da CCAÇ 763;
- A indispensável presença dos nossos Familiares e Amigos sem os quais estes encontros não teriam o mesmo sentido;
- A presença especial dos familiares do Coronel Costa Campos, referência 1.ª da CCAÇ 763.

Há 43 anos atrás, neste dia 14 de Setembro, em 1965, pelas 5h30m da madrugada atingíamos a tabanca de Cantumane, integrados na Operação Rastilho. Foi mais uma das nossas muitas operações na Guiné. Nela faleceu o Martinho e tivemos 8 feridos. Não vou entrar em pormenores.

Não podemos deixar de recordar aqueles tempos, por isso aqui estamos mais uma vez, confraternizando e falando dos episódios passados e das nossas vidas de hoje.

É bom poder fazê-lo, porque alguns companheiros já ficaram pelo caminho.

Mas isto foi sobre o passado, e quanto ao presente, ou ao que se seguiu àquele período ? Julgo interessante referir alguns factos bons e também alguns maus:

1.º - Os maus

- Cufar parece ter-se transformado num dos maiores centros de encaminhamento de droga em África;

- Numa viagem para a África do Sul, passei pelo Maputo, em Moçambique, antiga Lourenço Marques. Comecei a filmar a cidade normalmente. Vi-me em sérias dificuldades para não ser preso, pois precisava de autorização para filmar. (tipo licença de isqueiro)

2.º - Os bons

- Lembram-se do tristemente famoso Tarrafal , na Ilha do Sal ? Por acaso repararam nos excelentes Hoteis, caros, mas não deixam de ser excelentes, construídos naquela ilha, onde não havia uma só arvore ? Achei interessante trazer e afixar fotografias de uma revista de turismo.

- Na Africa do Sul, os Zulus, têm uma tabanca, tal e qual os Balantas, organizaram-se, têm um cicerone deles que explica tudo em inglês, como funcionam, o chefe da aldeia, as mulheres e a organização da família. Têm restaurante todo equipado, show de dança, tudo o que o turista quer ver, até cerveja fazem durante a visita.

- Parece que vão aparecer 10 voluntários para a nova comissão!

- Também se ofereceram para dizer umas coisas uma meia dúzia deles!

- No passado dia 2 de Setembro nasceu o meu 5.º neto! ( é um bocadinho mau ser mais um rapaz, já são 5, e a rapariga não aparece) mas sempre aumenta a natalidade!

Bom, desejos a todos um bom regresso, muita saúde e que tudo corra bem até ao nosso próximo encontro.
Para terminar, e como diriam os meus conterrâneos alentejanos:
Viva a CCAÇ 763 e vivam todos quantos estão, vivam todos quantos estão e viva a CCAÇ 763!

Palavras do Alf Mil Jorge Paulos

Companheiros e Amigos

Estamos mais uma vez reunidos no nosso tradicional almoço anual, para podermos rever-nos e relembrar os tempos em que, em conjunto, vivemos a grande aventura da Guiné.

Foi um momento marcante para todos nós, jovenzinhos de pouco mais de vinte anos, que, de repente, nos vimos longe da nossa terra e dos nossos familiares, de arma na mão para combater, sem sabermos bem porquê, num local onde tudo era novidade.

Enviados para o Sul, mais concretamente para Cufar, deparámos com um terreno plano mas cortado por imensas linhas de água, com pântanos, tarrafe, bolanha e mata. Sempre que nos tínhamos de deslocar era preciso caminhar quilómetros para contornar os rios ou, então, atravessá-los com água pela cintura ou, muitas vezes com água até ao pescoço (os mais baixos que o digam), sempre na iminência de uma escorregadela na lama que formava o leito dos riachos.

Depois, durante um largo período de tempo, enquanto nós próprios e sublinho nós próprios, íamos construindo os abrigos em adobes (adobes são uma espécie de tijolos feitos de lama que era amassada com os próprios pés e depois secos ao sol), vivemos em buracos por nós escavados, que mais pareciam covis e onde, durante a noite, acordávamos, muitas vezes, a ser mordidos por formigas, que ao serem por nós sacudidas, separavam a parte de trás e mantinham a cabeça agarrada ao nosso corpinho.

À volta de Cufar havia quatro tabancas:

- Impungueda
- Iusse
- Mato Farroba e
- Cantone

A população nativa era quase toda Balanta, bem constituída fisicamente (sim, sim os homens e as mulheres), que se alimentavam principalmente de arroz, que mascavam tabaco, que se dedicavam à agricultura, que o casamento era contratado com o pai da mulher e, que tinham várias mulheres (eram polígamos).

Na altura em que lá chegámos, toda a população se encontrava do lado do inimigo e fugia das tabancas sempre que nos dirigíamos para lá.

No lado oposto às povoações estava a mata e era ali que se acoitavam os que denominávamos de turras, onde havia, pelo menos, dois acampamentos, um em Cufar Nalu e outro em Cabolol.

As primeiras saídas da Companhia foram, essencialmente, para reconhecer o terreno e nos habituarmos aos novos equipamentos. Na prática, muita coisa difere da teoria e, por exemplo, rapidamente percebemos que não era possível andar de capacete, que em vez de nos proteger, só servia de empecilho.

A 14 de Maio de 1965, partimos para a nossa primeira aventura.

Emociono-me sempre que recordo esse nosso feito.
Conquistar o acampamento de Cufar Nalu, que se dizia inexplorável e, no meio da emoção natural do momento, haver um soldado a desfraldar uma bandeira portuguesa que levara, sem que praticamente ninguém soubesse, é algo que merecia ser bem mais destacado do que alguns feitos que, apesar de importantes, não põem em jogo a própria vida.

Mas sobre este memorável dia e dos pormenores inesquecíveis, então vividos, já vos falei noutra ocasião.
Por isso, vou hoje relembrar a Operação Trovão, que aconteceu no dia 16 de Julho de 1965.

Cerca de um mês antes, mais concretamente, a 15 de Junho de 1965, a Companhia tinha levado a efeito a Operação Saturno, na região de Cabolol, onde tivemos quatro feridos, um dos quais teve de ser evacuado para Bissau.
O grupo inimigo estava fortemente armado, ofereceu enorme resistência, mas, ainda assim, conseguimos conquistar e destruir o acampamento que eles ali tinham localizado, capturando diverso material de guerra.

Um mês depois o Comando do Batalhão enviou-nos um guia que afirmava que lá havia outro acampamento que carecia de ser destruído.

Embora as informações que tínhamos fossem contraditórias, foi planeada a Operação Trovão para cumprir a ordem do Comando do Batalhão.

Com o guia a indicar-nos o percurso, batemos a região e apenas encontrámos os restos do antigo acampamento que tínhamos anteriormente destruído.

É então que o guia nos encaminha na direcção de uma pequena povoação – Cantumane – onde, ao entrarmos, fomos, inesperada e violentamente atacados por um numeroso grupo, que nos esperava emboscado na orla da mata.

Nos primeiros momentos ficámos completamente desarticulados, com a agravante de eles terem lançado granadas de fumos para junto das colmeias de abelhas que ali estavam estrategicamente colocadas e, cujos enxames nos atacaram, obrigando parte significativa do pessoal a debandar para a bolanha, onde se rebolaram no chão molhado para se libertarem das abelhas, tendo alguns ficado de tal forma picados que no dia seguinte tiveram de sofrer tratamento adequado para atenuar os enormes inchaços que apresentavam.

Apesar da situação crítica, conseguimos recompor-nos e, mercê da coragem demonstrada por alguns dos presentes e, dos eternamente por nós recordados Sargento Melo e Furriel Lema, heróis para sempre, repelimos o ataque e, ainda os perseguimos dentro da mata, causando-lhes algumas baixas.
Do nosso lado, o Sargento Barcelos foi gravemente atingido, tendo vindo a falecer alguns dias depois, visto que a bala encontrada era de aço e tinha trespassado o rádio que ele levava, indo-se alojar no fígado.

Discreto, mas sempre pronto a cumprir a sua missão, o Sargento Barcelos é um exemplo de um profissional que perdeu a vida ao serviço da Pátria.

Afinal, acabou por se confirmar as suspeitas iniciais de que o guia era falso e, o seu objectivo, era conduzir-nos ao local onde fomos emboscados.

Mas, Companheiros, cabe aqui lembrar que, apesar disso ou, talvez por isso mesmo, passados oito dias, no dia 24, já estávamos na Operação Vindima, a caminho de Cobumba, pela estrada que tinha 80 abatizes, cercámos a povoação e trouxemos um nativo, contra o qual havia uma ordem de captura, (1) mostrando assim que ali estávamos prontos e sem quaisquer receios.

Mas, se é verdade que nunca virámos as costas ao combate, é bom também destacar que fomos capazes de construir uma Escola para as crianças nativas das populações próximas, que foi inaugurada em 1 de Dezembro de 1965, com 108 alunos, a quem foram facultados livros e outro material escolar por nós angariado.

Foi com enorme alegria e, porque não dizer orgulho, que em Março de 1966, surgiu junto ao Aquartelamento um grupo de cerca de 100 mulheres das diversas tabancas vizinhas, que vieram agradecer a protecção que lhes havíamos dado no transporte do arroz para Catió e, também, mostrarem-nos a sua satisfação pela existência da escola para as suas crianças.
Com diversos vivas e palmas, pediram para dançar e ali ficaram, toda a tarde num convívio alegre, que era, afinal, o resultado da forma, como, aos poucos, tínhamos sido capazes de reconquistar a sua confiança.

Por isso, Companheiros, este relembrar do nosso passado comum, quase que só pode ser relatado entre nós, porque é muito difícil transmitir a quem lá não esteve, o ambiente, a comoção, os sentimentos por vezes contraditórios, o medo e a necessidade de o dominar e ultrapassar, a tristeza da perda de um dos nossos e a alegria final do regresso a casa, com a sensação de que tínhamos sido capazes de cumprir a nossa missão.

Em Novembro de 1966, os rapazitos que em 11 de Fevereiro de 1965 tinham partido para a guerra, eram agora homens que iniciavam uma nova luta.

Que as novas gerações reconheçam, ou não, quanto nos devem, para poderem agora viver sem tais riscos, não nos é indiferente, mas o mais importante é, nós próprios, estarmos conscientes do nosso decisivo contributo para a paz deste País, mantendo o nosso lema:

“NOBRES NA PAZ E NA GUERRA”

Companheiros e Amigos,
desejo para todos vós e para as vossas famílias tudo de bom, porque todos bem o merecem.

Viva a COMPANHIA de CAÇADORES 763

Pelas 17h00 o bolo foi partido pela Helena Fitas e Alf Mil Jorge Paulos, uma taça à saúde de todos.
O regresso começou, porque Braga, Viana do Castelo, Porto, Marinha das Ondas, Albufeira, Quarteira, Olhão, etc.,etc…. ficam longe.

Nota de Mário Fitas
(1) Malam Cassamá

Para todos o abraço de sempre do tamanho do Cumbijã.
Mário Fitas

Foto 1 > Início da concentração frente ao Convento de Mafra

Foto 2 > Ouvindo o poema do Luís Graça, houve pérolas nos olhos, e não foram só de mulheres

Foto 3 > O Amadeu Carreira e Fernando Albuquerque fazendo a leitura das mensagens

Foto 4 > Alf Mil Op Esp Artur Teles lendo a sua mensagem

Foto 5 > Alf Mil Jorge Paulos lendo a sua mensagem

Foto 6 > Helena Fitas e o Alf Mil Jorge Paulos, partindo o Bolo
___________________

Nota de CV

(*) - Vd. poste de 11 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3193: Blogpoesia (25): Hoje tenho pena de nunca ter escrito um aerograma a uma madrinha de guerra (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P3219: Homenagem aos Ten Pil Av Lobato e Pessoa e, Enf Pára-quedista Gisela (Nuno Almeida)


Mensagem de 17 de Setembro de 2008, do nosso camarada Nuno Almeida, ex-1.º Cabo MMA de Heli, BA12, 1972/73 (1).

Olá Camaradas
Junto envio foto actual para completar os vossos arquivos.

Apesar de pouco contribuir com a minha verbe, sou um visitante assíduo do blogue e sempre atento ao que cá se escreve, por isso ao ler a nota do Beja Santos, Guiné 63/74 - P3132: Notas de leitura (10): A minha Jornada em África (Beja Santos), fiquei imediatamente interessado no livro "A Minha Jornada em África" de António Ramalho da Silva Reis e publicado pela Editora Ausência.

Porque estive dois meses internado no HM241 de Bissau, entre 25 de Novembro de 1972 e 25 de Janeiro de 1973, onde fui operado 4 vezes em 25 dias, tenho uma enorme dívida de gratidão por todos quantos ali prestavam serviço, é, para mim, fundamental ter acesso a este relato da vivência de quem do outro lado da barricada (doente/enfermeiro) via a situação daqueles que dependiam das suas capacidades para sobreviverem aos ferimentos sofridos.

Sobre o que o Beja Santos diz sobre o Tenente Lobato, é sintomático de como os heróis da Guerra, que fomos obrigados a combater, são esquecidos pela História e remetidos a uma insignificância, para que não se dimensione o que foi, na realidade, a juventude de toda uma geração.

Guiné-Conacri > Conacri > Instalações do PAIGC > 1970 > Prisioneiros portugueses, fotografados pelo fotógrafo húngaro Bara István (nascido em 1942).

Fonte / Source: Foto Bara > Fotogaleria (com a devida vénia / with our best wishes...)


O Tenente Lobato foi um mártir, durante muitos anos prisioneiro, sem saber se regressaria ao seio dos seus, torturado fisica e psicologicamente, nunca uma Lei foi promulgada onde verdadeiramente se desse o valor a essa condição de prisioneiro e se compensasse, devida e correctamente, os anos de ausência e sofrimento que ele e muitos outros como ele sofreram.

Foto do Tenente Lobato quando, no passado dia 31 de Maio de 2008, os Especialistas da Força Aérea, que serviram na Guiné, o homenagearam com o respeito que ele nos merece. Junto e ladeando-o estão o Victor Barata e o Carlos Wilson organizadores deste evento.

Neste almoço de confraternização foram igualmente homenageados o Ten Pil Av Pessoa e a sua esposa Enfermeira Pára-quedista Giselda, ele abatido em 1973 por um míssil e ela representando todas as Enfermeiras Pára-quedistas que tantas vidas salvaram com a sua coragem e prontidão na recuperação de feridos em zonas de combate.

Foto da evacuação do Ten Pessoa, assistido pela enfermeira na altura e actual esposa, a nossa muito querida camarada da armas Giselda.

Capa do livro Liberdade ou Evasão; Autor: António Lobato; Colecção: Memória do Tempo; Editor: Rui Rodrigues; Editora: Erasmos. © ERASMOS e António Lobato.
Neste livro, António Lobato conta o seu percurso na FAP desde a incorporação em Setembro de 1957, até ao dia 22 de Novembro de 1970, dia em que finalmente libertado, após sete anos e meio de cativeiro. Pelo meio ficam três tentativas de fuga frustradas. Por se tratar do militar português que mais tempo esteve prisioneiro do IN, pela forma como sobreviveu às condições mais adversas a que o ser humano pode ser submetido e porque nunca traíu a Pátria nem os camaradas que no terreno continuavam a lutar, António Lobato é digno da nossa admiração, estima e reconhecimento. CV


Foto e legenda de Carlos Vinhal
__________________

Nota de CV:

(1) - Vd. poste de 10 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1941: Estórias (nem sempre) vistas do ar (Nuno Almeida, ex-1º Cabo Mecânico de Heli, FAP)

Embarquei para a Guiné (BA12 - Bissalanca) em 27-01-1972 e fui ferido na mata de Choquemone - Bula , ao proceder a uma evacuação de dois feridos, debaixo de intenso fogo de metralhadoras e morteiros, em 25-11-1972.

Fui evacuado para o Hospital Militar de Bissau, onde fui sujeito a 5 intervenções cirúrgicas, no espaço de 25 dias, e evacuado para Lisboa em 27-01-1973 (para vir morrer ao pé da família!!!).

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3218: Operação Macaréu à Vista - II Parte (Beja Santos) (44): Em Bissau, no julgamento de Quebá Sissé


Texto de Mário Beja Santos
ex-Alf Mil,
Comandante do Pel Caç Nat 52,
Missirá e Bambadinca,
1968/70

Fotos (e legendas): © Beja Santos (2008). Direitos reservados.



Operação Macaréu à vista

Episódio XLIV

EM BISSAU, NO JULGAMENTO DE QUEBÁ SISSÉ
Beja Santos

As pequenas coisas da vida militar na época das chuvas


O Pel Caç Nat 52 de hoje pouco tem a ver com aquele que eu recebi em 4 de Agosto de 1968. Despedimo-nos comovidamente de Domingos Silva, regressa a Bissau, está ainda indeciso se irá trabalhar no comércio ou como professor. Não sei como é que hei-de agradecer-lhe toda a sua colaboração, a sua bravura, ao longo de todo este tempo. Recebemos mais uma ordem de transferência de praças, chegarão três soldados do Saltinho e saem outros três para o Depósito de Material em Brá. Um deles é Quebá Sissé, que dentro de dias será julgado no Tribunal Militar em Bissau, por homicídio involuntário. Sairão também Mamadu Silá e Adulai Djaló. Cherno já me avisou que se irá inscrever nos Comandos quando eu me for embora. Cibo Indjai voltou para Missirá, fez troca com um soldado do Pel Caç Nat 53, a sua paixão pela caça não tem limites. Acabo de receber uma carta de Jolá Indjai, foi considerado curado da sua tuberculose, está em convalescença, foi visitar a família a Farim, promete dar mais notícias em breve. A nota macabra é o pedido de transferência de Uam Sambu, falecido há cerca de seis meses, apeteceu-me não responder, mas era indispensável esclarecer e pugnar por um substituto. O furriel Pires, Bacari Soncó e Queta Baldé foram louvados pelo o Comandante Militar.

Tinha acabado de jantar quando chegou Amadu Só, fula do Cossé, estatura média, cara cheia de cicatrizes, linda pronúncia de português, riso aberto, aprumo incomum. Fez-me continência com um grande estalar de calcanhares, pediu-me para o ajudar com uma viatura, tinha a mulher e bagagem no cais, seguiu depois para uma das moranças alugadas pelo Rendeiro, junto da rampa para o quartel. Conversámos, esteve em Gandembel, um quartel já abandonado pelas nossas tropas, considerado como posição insustentável. Bambadinca está sob invernia, as bolanhas alagadas, as noites a esfriar e as manhãs de calor sufocante. Albino Amadu Baldé, o Príncipe Samba, prontificou-se a dar aulas aos mais atrasados, coxeia, é impossível voltar à vida operacional. Quanto a furriéis, estou neste momento sozinho: o Cascalheira seguiu para Bissau, o Pires está na CCS, o Ocante jaz na cama cheio de vermes, palúdico. Tenho, pois, o pelotão transfigurado mas sempre em actividade. De manhã passámos três horas na lama enquanto Spínola visitava os Nhabijões acompanhado por uma equipa da TV, ouvimo-lo três horas encharcados, debaixo de chuva, a fazer promessas ao megafone, recorrendo a intérpretes balantas e mandingas.


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Espectacular vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido leste-oeste, ou seja, do lado da grande bolanha de Bambadinca

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista aérea da tabanca de Bambadincazinha (D), a sudoeste de Bambadinca, a escassas centenas de metros do centro (A)....Em primeiro plano, a estrada nova (C) para o Xime (posteriormente alcatroada) e, mais acima, a antiga estrada (B), paralela à pista de aviação.... Atravessando a tabanca de Bambadincazinho (D), seguia-se em estrada (picada...) até aos aquartelamentos de Mansambo, Xitole e Saltinho (E). Vê-se ao fundo a bolanha de Bambadinca... Era em Bambadincazinho que ficava a antiga Missão do Sono, em cujas instalações ficava, todas as secções, um Grupod e Combate para velar pelo bom sono dos seus senhores ofciais superiores do batalhão que dormim no quartel, a menos de um quilómetro...

Fotos: ©
Humberto Reis (2006)


O novo comando do BArt 2917 procura averiguar como trabalhamos. Ontem à noite apareceram dois majores no Bambadincazinho, de supetão, para saber se estávamos a cumprir a emboscada, chovia torrencialmente, estiveram pouco tempo, não percebi exactamente o que esperavam encontrar. É o ramerrão da época das chuvas, tudo alagado, temporais inusitados, a natureza desolada, mas o meio dia sempre com calor sufocante. O jovem Mamadu Soncó, filho do picador Quebá, anunciou-me por carta que quer vir estudar para Lisboa e pediu-me a morada de todos os meus familiares. Entrou-me no quarto, estavam lá o Abel Rodrigues e o Moreira que o ouviram atónitos: Mamadu Soncó recusa-se a voltar a Missirá, quer dormir aos pés da minha cama para ter a certeza que o levo para Lisboa, trouxe mantas e um saco com roupa... Arranjei uma questiúncula com o ajudante do capelão que me apanhou a roubar um pacote de velas na igreja, estamos com poucos petromaxes na ponte de Udunduma, gosto de adormecer a ler umas páginas. Esta é a época das chuvas em que leio aos bochechos “Vermelho e Preto”, de Stendhal, tempo de encontros e desencontros, ao amanhecer vamos picar a estrada até Amedalai, há uma coluna de vacas que parte para o Xime e daqui para Bissau, numa LDM chegará um novo contingente militar, irei conhecer um alferes de Ponta Delgada que andava no liceu quando lá fiz uma palestra. Passaram três anos, estamos certamente irreconhecíveis. A vida continua, até consegui que Serifo Candé e Ussumane Baldé vão passar férias a Bolama. Insistentemente, vou perguntando à Cristina se já conseguiu alugar casa, encontrou uma na Avenida do Brasil, três divisões a um preço módico, gostou, pede-me a opinião.

As descobertas surpreendentes de D. Violete

Estou a chegar do Xime quando recebo uma mensagem de D. Violete para ir à escola. Deixa as crianças a gralhar, avançamos para a varanda da sua casa, D. Ema sorri e anuncia que vai fazer um chá. D. Violete tem o entusiasmo estampado no rosto, sabe que me vai maravilhar, esclarece que os oincas aproveitaram a destituição de Abdul Indjai como régulo de Oio e do Cuor para ocuparem este regulado. Mostra-me o “Anuário Colonial” de 1916, retiro uma citação do antigo governador da Guiné, Carlos Pereira: “No regulado do Cuor, situado na margem direita do Geba, defronte de Bambadinca, habitavam até 1908, beafadas cujo chefe era Infali Soncó, destituído nesse ano. Depois de ter sido destituído, os beafadas abandonaram o Cuor, indo uns para o Oio e outros para Quínara. O governador dessa época investiu como régulo do Cuor o indígena Serua Abdul Indjai. Este chefe vinha de um grupo étnico diferente, não pôde conseguir povoar o Cuor com gente do seu grupo étnico. E como o território é pobre, foi abandonado por Abdul e ocupado imediatamente pelos oincas”. Não deixei de manifestar a minha estranheza com a presença destes oincas, seguramente que eles passaram a povoar o regulado na região ocidental, entre Madina e Gambiel. Tinha mais perguntas a fazer quando me encontrasse com Malã Soncó. Mas as novidades não ficavam por aqui, D. Violete encontrara elementos sobre a habitação dos mandingas num livro de 1948, uma projecto dirigido pelo comandante Teixeira da Mota. Levei para o meu quarto e passei para o meu caderninho viajante:

“Os mandingas constroem nas imediações das bolanhas usando como materiais o bambu, palha, madeira, corda e barro, aproveitando também a casca do ramo da palmeira e tiras de junco.

Constroem da seguinte maneira. Fazem uma circunferência que delimita o interior da habitação. Segue-se uma cerimónia que consiste em deitar uma pequena porção de água na extremidade superior do pau que serve de eixo ao desenho da casa. Nas extremidades abrem buracos e fixam-se prumos de bambu que vão formar um entrançado circular. Em seguida, arma-se o telhado constituído por bambus inteiros ligados entre si por anéis de tiras do mesmo material. A estrutura do telhado é armada entre quatro forquilhas. Sobre o telhado aplica-se a palha. Só então é que se procede ao revestimento da parede com lama amassada no próprio local”.

Amanhã devolvo este livro e os apontamentos inéditos sobre a Guiné da autoria do general Henrique Dias de Carvalho, que prestou relevantes serviços em Angola. Em, 1898, este oficial general foi convidado pelo Marquês de Liveri a organizar com Vítor Cordon a Companhia de Comércio e Exploração da Guiné. Viveu aqui cerca de dois anos, reuniu muitos dados científicos e estava a organizá-los quando faleceu. Não encontrei muitas novidades, mas fiquei surpreendido com alguns dados da navegação do princípio do século. Segundo ele, nas estatísticas de 1901 a 1904 figuram os vapores mercantes alemães, ingleses, franceses, portugueses e belgas servindo o comércio de Bissau a Bolama. Os números impressionam: alemães, 116; portugueses, 74; ingleses, 47; franceses, 11; belgas, 1. Começo a perceber o plano expansionista alemão, em directa rivalidade com franceses e ingleses na África Ocidental, no princípio do século XX. Tenho mais perguntas a fazer ao comandante Teixeira da Mota.


Guiné <> Sector L1 > Bambadinca > Cuor > Missirá > Pel Caç Nat 52 (1968/70) > "O mais controverso cozinheiro do mundo, Quebá Sissé, o Doutor (fotografia de Luis Casanova).


O julgamento de um homicida involuntário

“Doutor”, o mais amável dos cozinheiros, olha fixamente o juiz, tem o olhar líquido, os braços pendem, desajeitados, vem com a farda n.º 2, imaculada. Escondeu à pressa o seu cachimbo num dos bolsos das calças. Compreendo a tensão do “Doutor”, tudo isto é bizarro, ele recebe este julgamento com a maior das incompreensões. Pela segunda vez, venho depor a este tribunal.

Voltei ao Tribunal Militar de Bissau, cheguei ontem ao princípio da tarde, a maior parte dos amigos e conhecidos já cá não estão, cumpri o ritual da ida às compras, uns escassos livros, mais um disco, satisfiz a lista de encomendas dos soldados, abracei o Emílio Rosa no BEng 447, vou hoje jantar lá a casa, espero ainda ter tempo de ir até ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa. Nos CTT, tive êxito nas chamadas para a Cristina, a minha Mãe e o Ruy Cinatti. Este último perguntou-me se eu já estava em Lisboa. Quando partes, quando regressas, quanto mais tempo dura essa comissão? A todos procuro serenar, prometo ligar novamente à Cristina e à minha Mãe.

Bilhete Postal > Guiné Portuguesa > 118 – Vista aérea de Bissau. Fotografia verdadeira – Reprodução proibida. Edição Foto Serra. C.P. 239 – Bissau… Impresso em Portugal. Sem data.

Foto: © Beja Santos (2006). Direitos reservados. Foto alojada no álbum de Luís Graça > Guinea-Bissau: Colonial War. Copyright © 2003-2006 Photobucket Inc. All rights reserved.


Ao fim da tarde de ontem, tal como combinado, encontrei-me com o “Doutor” numa cervejaria ruidosa, ali para os lados do Comando Naval, o Mário. Seguimos pelo cais fora, procurei, de uma forma pausada, convencer Quebá Sissé que era indispensável explicar ao juiz que a G3 que vitimara Uam Sambu estava com a patilha na segurança, fora um puríssimo acidente a arma ter-se destravado quando ele subira para o burrinho, naquele malfadado amanhecer de 1 de Janeiro de 1970. Informei-o que tinha três louvores, o último dos quais realçava as suas qualidades humanas, o seu brio militar, a sua compostura e dedicação às tarefas que lhe foram incumbidas, ao longo de mais de quatro anos, era matéria a seu favor. O “Doutor” tudo ouvia, parecia que estava a interiorizar a sequência do interrogatório na sala do tribunal, em vez de um julgamento seria uma operação com perguntas e respostas. Convidei-o para jantar, fomos ao Solar dos 10, insisti que desse respostas directas e completas ao juíz, que fosse firme em invocar a sua total inocência e o seu arrependimento. Quebá Sissé estava tão desamparado, as linhas do rosto tão acentuadas, a tristeza tão à flor da pele desde que despejara quatro tiros na tábua do peito de Uam Sambu, que me senti na obrigação de o acompanhar até para os lados do Bairro da Tchada, onde ele pernoitou. E lá fui para o Vaticano III, ajoujado com os sacos das compras.

Estava uma manhã típica da época das chuvas quando entrei pelos corredores do tribunal onde se ajuntavam vários arguidos e testemunhas. Houve tempo para recapitular os possíveis quesitos, depois a chamada vociferante do meirinho separou arguidos e testemunhas, Quebá Sissé despediu-se súplice, por ele tínhamos entrado na sala de audiências de braço dado, ele ter-me-ia dado luz verde para aguentar o interrogatório pelos os dois. A atmosfera era sufocante e quando fui chamado estoirou um relâmpago sobre Bissau, ocorreu-me que acabara de subir ao palco como numa peça de teatro. Não exagero, tinha dormido bem, estava absolutamente convicto que o “Doutor” sairia ilibado, resolvi exceder-me no meu testemunho perante um juiz macambúzio e distraído. Sim, o comportamento cívico e militar de Quebá Sissé era inexcedível, amigo das crianças, a quem oferecia todas as sobras das nossas refeições, estóico na cozinha, a aguentar todas as críticas, voluntário para os serviços mais duros, largava a panela da sopa e seguia para os reforços ou para as colunas, sempre na vanguarda, com um sorriso, ninguém lhe conhecia acidez ou amargura. Sim, era amicíssimo de Uam Sambu, uma amizade comprovada, ninguém conhecia entre os dois mais do que amizade e só amizade. Sim, a nota de assentos espelhava os primores de carácter deste destemido e abnegado soldado, há muito que devia ser apontado pelos seus serviços distintos, a distracção era minha. Sim, dera ordens e confirmara que todas as armas estavam em segurança, fora um acaso brutal e fortuito que aquela patilha tivesse passado para a posição de fogo na altura em que Quebá Sissé subia para o burrinho. Sim, podia comprovar a consternação sentida por todos, Quebá Sissé e Uam Sambu eram a camaradagem personificada. A sentença só a conheci mais tarde, foram uns brandos dias de prisão, todas as atenuantes tinham sido tomadas em consideração, com aquela nota de assentos e com um comportamento tão irrepreensível pena mais suave não era possível. À porta do tribunal recebo o sol o cru na face, só penso em fugir. Tenho uma viagem no Dakota na manhã seguinte, Quebá Sissé segue para o seu quartel, o Depósito de Adidos, em Brá, despedimo-nos, dou-lhe garantias de que a sua vida militar não sofrerá mais castigos, já bastou o sofrimento daquela descarga de tiros no camarada, situação mais azarada não pode haver.

Abraço-o, nunca mais o voltarei a ver, ficará para todo o sempre a lembrança do seu sorriso meigo e inocente, dos meninos a quem ele saciava o apetite, do seu andar cambaleante como se estivesse permanentemente em risco de cair para o lado. Subitamente, cai chuva torrencial, em minutos o Bissau Velho ressuma de humidade, entro no Café Central para uma refeição ligeira, quero passar umas horas a ver papéis ao lado do Museu de Bissau, no Centro de Estudos da Guiné Portuguesa.

Descubro a figura grandiosa do alferes Geraldes

Não sei, claro que não posso saber, mas nunca mais lerei um texto tão épico acerca de um oficial destacado no Geba, ou onde quer que seja. Com a ajuda daquele diligente, prestável e silencioso funcionário do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, manuseio despachos oficiais, documentação enviada para a metrópole e referente às mais desvairadas situações. É no meio desta papelada, numa atmosfera de sufocante humidade, com as janelas a gotejar e a reflectir todas as luzes acesas da sala, que leio a carta do governador Pedro Ignacio de Gouveia para o Ministro da Marinha e Ultramar, com data de 4 de Maio de 1883:

“Ilustríssimo e excelentíssimo senhor,

Em princípios de Março, os fulas pretos agrediram a pequena povoação de São Belchior, na margem, onde existiam alguns grumetes de Bissau, gente pacífica, que faziam algum comércio com os poucos recursos de que dispunham.

Os fulas pretos, capitaneados por Deusá, queimaram as cubatas, levando prisioneiros, dez homens e duas mulheres, todos cristãos.

Depois deste ataque à povoação, foi Deusá com a sua corte para os lados de Geba, e parece que receando-se de algum agravo da parte do Governo Português, que ultimamente não tem poupado os díscolos, apresentou-se ao comandante do presídio de Geba, o alferes Francisco António Marques Geraldes, levando-lhe um presente de vacas e não lhe falando em nada do ocorrido.

Aquele oficial, sabendo então do procedimento do chefe em São Belchior, recusou-lhe e exigiu-lhe os prisioneiros que ele conservava em seu poder; o chefe intimidou-se e entregou os homens, pois as duas mulheres iam a caminho do Indornal, que fica a pouco mais de um dia proximamente ao SE de Gâmbia e dois dias proximamente ao NE de Selho.

Aqueles mulheres iam fazer naturalmente parte do serralho do régulo Dembel, potentado por entre os fulas pretos e pai do agressor Deusá.

Deusá desculpou-se com o chefe do presídio de Geba, dizendo ignorar que São Belchior pertencia aos portugueses, entregando três dias depois os prisioneiros, explicando a impossibilidade da entrega das duas mulheres.

Aqui principia a fase brilhante e digna do alferes Francisco António Marques Geraldes, participa o ocorrido para o seu imediato chefe, o comandante militar de Bissau, e dizendo que ia buscar as mulheres, estivessem onde estivessem, pedindo para ser relevado de não esperar autorização superior.

Põe-se este oficial a caminho, acompanhado apenas de um enfermeiro ao serviço na praça, António Mendes Rebelo, de José Lopes, comerciante em Geba, e quatro grumetes para conduzir a pequena bagagem da expedição, levando fazendas, tabaco e cola na diminuta importância 35$000 reis, para lhe facilitar a passagem nos caminhos das diferentes povoações que tinha de atravessar.

Aí vai este oficial, convencido da sua nobre causa, em condições excepcionais, sem cómodos, sem força, levando consigo a ideia inabalável de que devia exigir e havia de trazer as duas mulheres cristãs. Chegado à tabanca do régulo Umbucú, apresentou-se-lhe completamente uniformizado, dizendo quem era e qual era o seu destino. Este régulo, bastante poderoso e dominando o território vizinho de Geba, recebeu-o admiravelmente e ofereceu-lhe três cavalos para fazer a jornada e quatro fulas armados para o acompanharem, e seu filho para lhe servir de guia o obviar a algumas dificuldades de ocasião.

Andando nove a dez horas por dia, percorreu aquele trajecto sob um sol ardente, bebendo má água, seguindo tranquilo e cônscio de que realizava a sua nobilíssima ideia.

Expôs ao régulo Dembel o fim da sua visita, declarando-lhe as boas relações que tem havido entre o Governo Português e os da sua raça; que não poderia acreditar que ele, régulo, permitisse as correrias dos seus, o que obrigava o Governo Português a usar de represálias, concluindo por exigir as duas mulheres e uma indemnização para aqueles que sofreram na agressão em São Belchior.

O régulo ouvi-o no mais profundo silêncio a peroração do oficial e considerou-a caso tão melindroso que só depois de conferenciar com o seus “maiores” lhe poderia responder. No dia seguinte mandou-o chamar e disse-lhe que estava pronto a entregar as duas mulheres que o seu filho tinha mandado para ali; que a indemnização aos roubados não podia ser a que ele entendia dever satisfazer, pois havia pouco tinham sido devoradas pelas chamas duas populações importantes; que também ia mandar cavaleiros buscar seu filho para o repreender e proibir-lhe de fazer guerra sem ordem dele.

Convidou-o a esperar pelo regresso do filho.

Apareceu o filho Deusá e foi severamente repreendido pelo pai, entregando este as duas mulheres e 40$560 réis para distribuir pelos prejudicados de São Belchior.

O oficial saiu do Indornal sendo acompanhado por Mussá, sobrinho e sucessor do régulo Dembel e seu primeiro cabo de guerra, em quem deposita toda a confiança.

Causou espanto no Indornal a aparição do oficial, pois ali nunca esteve um europeu, chegando a pedir-lhe para descalçar as botas, duvidando se também o corpo era branco.

Ex.º Sr., Um oficial que assim procede, nas condições e fim nobre como realizou esta expedição, parece-me merecedor de uma remuneração condigna, que à munificência régia lhe apraza conceder. Este oficial levou a sua abnegação a querer custear as despesas à sua custa, não obstante os seus pequenos vencimentos, e só instado é que se resolveu amandar para a junta da fazenda a despesa feita.

Deus guarde a V. Ex.ª Palácio do Governo em Bolama, 4 de Maio de 1983. Pedro Ignacio de Gouveia, governador.”

Leio e releio, é impossível encontrar prosa mais bela para um gesto tão sincero. Devo estar emocionalmente a esgotar-me, não consigo reprimir as lágrimas, encontrei um alferes de Geba que não rouba, não intriga, não maltrata, arrisca tudo para ir buscar quem estava à sua guarda. O alferes Geraldes fez 54 léguas e cumpriu, entrou no mato onde nenhum branco fora. Anoiteceu e quando aquele diligente, prestável e silencioso funcionário me informou que estava na ordem de encerrar o serviço deve ter pensado que eu tinha recebido uma má notícia e disse-me: “Não se preocupe, trate de si, eu espero um bocadinho até se sentir melhor.

Sempre a pensar no alferes Geraldes e na sua viagem ao Indornal fui até à Sé de Bissau e depois segui para casa da Elzira e do Emílio Rosa.

Duas belas leituras entre Bissau e Bambadinca

Li “A Ásia a caminho da Europa”, de Franz Altheim. É um trabalho do pós-guerra, um ensaio sobre as especificidades deste dos continentes, no exacto momento em que as fronteiras asiáticas avançaram até ao Danúbio, já não estão nos Urais. O historiador reflecte sobre a grande China e como esta empurrou diferentes povos em direcção à Europa, no tempo em que o Império Romano do Ocidente colapsava. Fala dos hunos e de outros bárbaros e da fragilidade destes curtos impérios que irão desaparecer com as invasões árabes e Carlos Magno. Numa outra vertente do ensaio, fala do reino iraniano dos Sassânidas, quais as suas afinidades com a cultura ocidental, quais as suas diferenças no seu modelo feudal. As sucessivas deslocações da Ásia para a Europa foram fugazes, encontraram a resistência na concepção do Estado, a religião separou tudo radicalmente depois. Um belo ensaio para se perceber como a cultura não se rende aos caprichos do instante nem da conjuntura.



É um livro fascinante, foi um prazer revê-lo, 40 anos depois, com os reforços culturais entretanto chegados, fica-se até a perceber melhor o distingue Europa e Ásia, como viajam as ideias nestes continentes. Foi editado na prestigiada Enciclopédia LBL (Livros do Brasil Limitada), tradução de Aníbal Garcia Perira, s/data. Frantz Altheim escreve este admirável ensaio logo a seguir à derrota da Alemanha, em que tudo indicava uma redução territorial da Europa. A estrada da seda foi sempre o elo de ligação entre continentes, depois a China expandiu-se, deslocando povos em direcção ao Bósforo e ao Danúbio. Os Hunos estiveram prestes a conquistar o moribundo Império Romano do Ocidente, vieram depois as invasões bárbaras que permitiram ao cristianismo um desempenho religioso e temporal. Com o exemplo dos Sassânidas, ficamos a perceber como as grandes potèncias asiáticas, até aos árabes, tiveram um projecto que incluía pensamento europeu mas nada tinha a ver com a religião e a cultura que vieram a definir a Europa. Um grande ensaio sobre a especificidade dos dois continentes.





Leitura surpreendente foi também “O Tio prodigioso”, de Fredric Brown, um grande escritor de ficção científica que por vezes investe na literatura policial. Neste género, ele é bastante singular. Numa artéria do proletariado de Chicago, o linotipista Wallance Hunter aparece assassinado e roubado. O seu filho, adolescente e também trabalhador, vai pedir ajuda ao tio Ambrósio que trabalha num circo. O homicídio é um mero expediente para deambularmos em atmosferas verdadeiramente neo-realistas, gente de carne e osso, relações afectivas esquivas e sofredoras, dramas passionais e a sordidez do crime para usufruir os benefícios de um seguro de vida. Ambrósio e o seu sobrinho Eddie, que não se viam há um ror de tempo, afeiçoam-se. Eddie larga o seu trabalho e vai para uma banda do circo, feliz por tocar no seu trombone de profissional. Um policial muito diferente de tudo quanto tenho lido até agora.




N.º 56 da Colecção Vampiro, capa de Cândido Costa Pinto, tradução de Mário Quintana revista por Lima de Freitas. Hoje não seria classificado como romance policial e memo na época denota as preocupações sociais como as obras de John Dos Passos ou John Steinbeck. Em meio proletário, em Chicago, Wallace Hunter, é assassinado num beco. Ed, o filho, pede ajuda ao tio Ambrósio que trabalha num parque de diversões. Os dois vão procurar, em paralelo com a ionvestigação policial, descobriri o criminoso. O móbil é um seguro de vida envolvendo a madrasta de Ed e um amigo de Wallace. A estrutura do romance é muito simples, viva e directa. Houve um crime que aproximou tio e sobrinho, Ed abandona tudo e todos e vai trabalhar com o tio Ambrósio no parque de diversões, este oferece-lhe um trombone de profissional. Um bom Fredric Brown, um grande escritor eclético, ainda hoje uma referência na ficção científica.




Em Bambadinca fico a saber que o mês de Julho, à porta, vai ser passado entre a ponte de Udunduma, curtas estadias nos Nhabijões e muita segurança diária nos trabalhos do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. Vou conhecer o engenheiro Semedo e uma face terrífica do ódio racial. O melhor é contar já a seguir.
_________________

Nota de CV

Vd. último poste da série de 12 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3195: Operação Macaréu à Vista - II Parte (Beja Santos) (43): Um grande ataque a Demba Taco

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3217: Notícias da Casa da Guiné-Bissau em Coimbra (2): Programa das comemorações dos 35 anos de independência

Guiné-Bissau > Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da Semana > 14 de Setembro de 2008 > "Um grupo de 11 guineenses da Guiné-Conakry (Nanias) fez recentemente uma visita ao pólo de desenvolvimento do ecoturismo de Cantanhez, para um intercâmbio de experiências, uma vez que eles estão envolvidos num programa similar no seu país, na Ilha de Nuno Tristão.

"Foram recebidos por Abubacar Serra (de camisa branca) que manifestou o interesse no incremento da ideia da criação de um Parque Transfronteiriço que uniformizasse as disposições em relação aos recursos naturais, à defesa dos corredores de animais selvagens e à implantação de uma série de locais turísticos.

"Os visitantes ficaram muito impressionados pela excelente integração da população local na gestão do Parque e, em especial, com as opções arquitectónicas simples e bonitas dos bungalows de Iemberém".



(Aproveitamos para saudar o Abubacar Serra, técnico da AD, director do PIC - Programa Integrado de Cubucaré, e que segundo informações do nosso amigo Pepito, em Lisboa, teria tido recentemente alguns problemas de saúde. A ser verdade, desejamos-lhe rápidas rápidas e pleno restabelevimento, por que a Guiné-Bissau e o Cantanhez, muito em particular, precisam da sua grande competência e forte empenhamento).


Foto e legenda: AD - Acção para o Desenvolvimento (2008). Direitos reservados (com a devida vénia...)


1. Mensagem recebida da Casa da Guiné em Coimbra, através do seu presidente, o nosso amigo Julião Soares Sousa, guineense, investigador, doutorado em História Contemporânea, que conhecemos na sua terra natal, por ocasião do Simpósio Internacional de Guileje (1-7 de Março de 2008) em que participámos como conferencistas (LG):


Guiné-Bissau: comemorações dos 35 anos de independência > Programa (provisório) > De 18 de Setembro a 18 de Outubro de 2008, – Coimbra


18 de Setembro:

16h30 – Apresentação do programa das comemorações à Comunicação social

20/09/2008:

16h30 – Jogo de futebol entre antigos jogadores guineenses residentes em Portugal e a selecção da Guiné e Cabo Verde do distrito de Coimbra.

20h00– Jantar de confraternização.

00h00 – Grande convívio na Via Latina.

23/09/2008 –

Inauguração do ciclo de conferências: Guiné-Bissau 35 anos de Independência (sessão inaugural com a presença do Doutor Leopoldo Amado, Historiador guineenses).

24/09/2008

17h00 – Documentário: “As duas faces da Guerra”, filme-documentário de Flora Gomes e Diana Andringa (com a presença de Diana Andringa), seguido de Debate.
Concerto do Grupo Cabaz/músicas de José Carlos Schwarz (*)

26/09/2008

21h00 – Grande Sarau Cultural (auditório do IPJ - Instituto Português da Juventude)

Convívio na Discoteca Massas.


16/10/2008 –

17, 30 – Inauguração de uma exposição de fotografias e de slides alusivos à guerra colonial e à proclamação da independência da Guiné (Casa Municipal da Cultura) (curta actuação de um Grupo)

18/10/2008 –

10h00 – Visita guiada das crianças e adolescentes guineenses ao Portugal dos pequenitos

11h00 – Passeio de barco pelo rio Mondego (Basófias)

11h45 – Lançamento de balões (com as cores da bandeira guineense junto ao rio Mondego. Encerramento de actividades.
_________

Nota de L.G.:

(*) Artista e patriota guineense (1949-1977) > Vd. poste de 22 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2203: Artistas guineenses (2): José Carlos Schwarz (Didinho/Virgínio Briote)

Guiné 63/74 - P3216: História da CCAÇ 2679 (3): A primeira saída para o mato (José Manuel Dinis)


1. Mensagem do dia 16 de Setembro de 2008, do nosso camarada José Manuel Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, (Bajocunda, 1970/71), com mais uma das suas estórias.

Olá pessoal da tabanca!
Depois da descrição da viagem desde o Funchal até Nova Lamego, e daí para Piche, hoje envio o terceiro relato sobre a CCAÇ 2679: A primeira saída para o mato.
Lá vai.

2. A primeira saída para o mato
Por José Manuel Dinis

Em 22 de Fevereiro de 1970 a Companhia saíu para o mato numa primeira missão de reconhecimento da zona envolvente de Piche, identificação de alguns caminhos que, derivando da localidade, podem incluir trilhos de penetração do IN, sobretudo na direcção do Corubal. E servia para identificação e controle de comportamentos.

Os quatro pelotões, verdinhos, muito verdinhos, cautelosos na movimentação e manutenção das distâncias, de entre dois a três metros, silenciosos em geral, com os sentidos a quererem casar-se com o ambiente, mas descuidados, porque compactos em trilhos abertos, marginais a bolanhas, e condicionados pelo medo de enfrentar o mato, onde imaginávamos um turra em cada árvore, o perigo iminente.

Antes de sairmos, cada pelotão teve uma conversa breve, apelativa à calma, ao espírito de grupo e, se necessário, à resposta organizada a qualquer acção do IN.

Passei revista às armas e, relativamente a três ou quatro que desconfiei poderiam disparar sem nexo, por minha conta, retirei os percutores.

Com um pisteiro local a revelar-nos o percurso, iniciámos a marcha, particularmente atentos ao alinhamento dos que nos precediam, na intenção óbvia de evitar minas antipessoais ou outros engenhos. Lembro-me de ter visto uma granada defensiva, portuguesa, nova, a pouco mais de um metro da fila de pirilau, deixada cair por alguém que seguiria na frente, e pedi a quem ia na minha frente, em voz baixa, que passasse palavra a transmitir a ocorrência. Eu iria a meio da longa fila, pelo que, provavelmente, a mensagem não chegou ao capitão, e a granada lá ficou à espera de quem a levasse mais tarde. Pelo caminho matutei se seria uma situação fortuita, ou uma armadilha, e, nesse caso, eu era um dos habilitados à averiguação.

Ainda fui a pensar que deveríamos ter parado, mas, por outro lado, prosseguido, evitámos uma eventual situação de perigo. Embrenhado nestes pensamentos ocorreu-me a máxima transmitida pelo engenheiro, alferes-instrutor:

- Nunca se armem em parvos.

Este axioma adoptei-o como divisa pessoal no que concerne a minas e armadilhas. Mas eu tinha adquirido os conhecimentos, e a partir de então, mais tarde ou mais cedo, teria de os aplicar. Apesar disso, quanto mais tarde, melhor, e senti-me confortado.

A fila prosseguia como que indiferente.

O patrulhamento durou cerca de cinco horas, e aparentemente de pouco nos serviu, mas deu-nos uma ideia sobre o terreno, atenuou os primeiros medos, deixou indicações sobre o comportamento do pessoal.

O regresso a Piche foi a tempo de almoçar, pelo que, após as formalidades, dirigimo-nos à messe, um alpendre acanhado e desconfortável, onde não cabiam todos em simultâneo, nos antípodas das novas construções do aquartelamento.

Nós, os da 2679, fomos comer em segunda ou terceira leva, e o que nos foi servido, foi uma sopa leofilizada, com uns supostos e escassos pedacinhos de legumes a flutuar, e o caldo insalubre, praticamente ausentes o sal e o azeite. A seguir, foi servida uma pequena quantidade de bianda com estilhaços, em estado de pré-argamassa.

Nesta fotografia, evidencia-se o elevado moral das NT, superiormente autorizados a manifestarem-se contra a fome no mundo.

Para contrariar tão frugal refeição, funcionava ali à vista a casa Tufico, onde esportulei os primeiros pesos naquela terra, para pagamento da substantiva sandes e cervejola, a Superbock, que só conheci na Guiné. Depois seguram-se uns digestivos na Cantina, a acompanhar a cavaqueira das curiosidades.

O Serviço Postal Militar parecia ser a única infra-estrutura de apoio às frentes de combate que funcionava exemplarmente. O correio constituía o único elo de ligação com a Metrópole, por isso era tão importante, mesmo quando não adiantava nada, mesmo quando evidenciava o divórcio entre dos cenários de guerra com a indiferença na Pátria distante, mesmo quando transmitia noticias indesejáveis, como rompimentos amorosos.

Fomos informados, pela tarde, sobre a actividade operacional de cada grupo, a iniciar no dia seguinte, consubstanciada em montagem de embocadas, nocturnas e diurnas, patrulhamentos, operações, protecções a trabalhos nas picadas, escoltas em colunas auto, etc., acções que caracterizariam a nossa actividade naquele sector da Zona Leste, enquanto domiciliados em Piche.

Nesta fotografia pode apreciar-se uma parte do esquema defensivo de Piche, onde abundavam valas arejadas, a partir das quais, os façanhudos recepcionavam as maluqueiras inimigas, procedendo sem dó nem piedade à limpeza dos mais afoitos que, seguidamente, sugeitavam-se à aprendizagem dos bons ensinamentos do corão. Finalmente, a fraternidade celebrava-se com música.

Fotos e legendas: © José Manuel Dinis (2008). Direitos reservados


Pelas 21h00 chegou o bendito cabrito à suite três. Àquela hora, na Guiné, já a maioria do pessoal estava a descansar. Por outro lado, a situação inusitada não tinha a divulgação que gera os grandes quoruns, e, assim, eu, o Zé Tito, o Branco da Silva e, talvez mais um ou outro, tivémos que devassar o amplo tabuleiro, onde pontificava o preceituado cabrito, cheiroso e corado, acolitado pelas saborosas batatinhas, em cama de cebola e alho, com um piri-piri contido e adequado, tudo regado com um indiscutível vinho, que fez a nossa delícia. Claro, na suite nunca faltaram os géneros bebíveis, e alguém providenciou cerveja, vinho do Reno, wisky e Perrier, em dose generosa, que não se brinca com necessidades estomacais e dionísicas.

Adormeci satisfeito.

P.S. (Naqueles tempos felizes anda não havia P.S.) - Anexo outro mail com retratos alusivos.

Um abraço para o Pessoal.
José Manuel Dinis
___________________

Nota de CV

(1) - Vd. último poste da série de 13 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3203: História da CCAÇ 2679 (2): A caminho de Piche (José Manuel Dinis)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3215: Convívios (82): Almoço da CART 3492, no dia 25 de Outubro de 2008 em Monte Real (Joaquim Mexia Alves)

A pedido do nosso camarada Joaquim Mexia Alves, damos notícia do Almoço da CART 3492 que se vai realizar na Pensão Montanha, em Monte Real no próximo dia 25 de Outubro.

Transcrevemos, com a devida vénia, a notícia publicada no blogue XITOLE (1)


ALMOÇO DA CART 3492 - 2008

Na Guerra Construindo a Paz, divisa da CART 3492

Está finalmente decidido o local e data do almoço da nossa companhia CART 3492 em 2008.
Tudo teve de ser alterado, não só o local em primeiro lugar escolhido, porque o espaço já estava ocupado, bem como a data, por dificuldades "logísticas" o que a alguns até veio dar muito jeito.
Então o almoço será em:
.
Pensão Montanha - Monte Real, no dia 25 de Outubro.
.
O almoço será constituído por:

Entradas: Morcela, lentriscas, etc
Sopa
Bacalhau
Carne de porco à alentejana
Sobremesa com doce
Vinho
café

Preço do almoço por pessoa: 16,00€

Dormida sem pequeno almoço, para casal: 20,00€

Dormida sem pequeno almoço, para uma pessoa: 17,00€
.
Para quem veio o ano passado é no mesmo sítio, não tem que enganar!
Para quem vem a primeira vez, o modo de chegar é a A17 que sai da Marinha Grande, (continuação da A8) e vai até Aveiro e vice versa.
Tem uma saída mesmo em Monte Real (2Kms), pelo que não tem que enganar também!

O ponto de encontro será no parque das Termas de Monte Real, ao fundo da Avenida junto aos Balneários, a partir das 12 horas, (meio dia), e o almoço será a partir das 13 horas.

Este ano devemos contar com a presença de camaradas da Companhia que fomos substituir, CART 2716 e da que nos substituiu 2ª CCaç do BCaç 4616.

Marcações para o almoço e possível estadia para a noite, (por causa dos copos), podem contactar o Álvaro Basto - 965031310, ou Joaquim Mexia Alves - 962108509.

Está tudo mobilizado para esta operação de alto risco e importância, visto que todos somos necessários para que a operação corra bem.
_______________

Nota de Carlos Vinhal

(1) - O Blogue XITOLE é, segundo se pode ler no topo da página, o Ponto de encontro para partilhar histórias, experiências, vivências e "documentos", (sejam eles quais forem), de todos aqueles e aquelas que passaram pelo Xitole, seja em que altura e por quanto tempo tenha sido. Espaço de viver a camaradagem que nos uniu e ainda une.

Pode ser visitado em http://pontedosfulas.blogspot.com/

Pelo que já li, pode encontrar-se lá algumas intervenções do nosso camarada Joaquim Mexia Alves.

Guiné 63/74 - P3214: Venturas e Desventuras do Zé do Ollho Vivo (Manuel Traquina) (3): Contabane, 22 e 23JUN68: O Fur Mil Trms Pinho e os seus rádios

Guiné > Região de Tombali > Contabane > CCAÇ 2382 (1968/70) > Uma monumental baga-baga (candidato ao concurso O Melhor Baga-Baga da Guiné...), nas proximidades de Contabane, uma tabanca e destacamento destruídos na sequência do ataque, de três horas, levado a cabo pelo PAIGC em 22 de Junho de 1968. Contabane foi então abandonado pelas NT e pela população. Mais tarde será feito um reordenamento, mesmo frente ao Saltinho. Por lá passou o nosso camarada Paulo Santiago, quando foi comandante Pel Caç Nat 53 (1970/72). A povoação hoje chama-se Sinchã Sambel.

Foto: © Manuel Traquina (2008). Direitos reservados

1. Já aqui publicámos duas ou três histórias do Manuel Traquina, ex-Fur Mil da CCAÇ 2382, Buba, 1968/70, a última das quais foi o relato do ataque à povoação de Contabane, ocorrido em 22 de Junho de 1968 (*). O nosso camarada está connosco desde o início do ano de 2008, honrando-nos com a sua presença na Tabanca Grande. Sabemos que vive em Abrantes, eastando reformado como técnico do Instituto do Emprego e Formação Profissional. Sabemos ainda que tinha por hábito escrever pequenas histórias no seu tempo de Guiné (onde andou por Buba, Aldeia Formosa, Contabane, entre 1968 e 1970). E que já publicou cinquenta artigos , alguns com fotogografias, na imprensa regional (Jornal de Abrantes) relacionados com as suas memórias de guerra. Ficamos, por fim, felizes por saber que tenciona reunir estas estórias em livro. E mais felizes ainda por ele continuar a mandar-nos material para publicar no blogue...

O Traquina é um excelente contador de estórias/histórias, que merece ter a sua série própria, como o Juvenal Amado, o José Teixeira, o Torcato Mendonça, o Jorge Cabral, o Paulo Santiago, o Beja Santos e tantos outros. A partir de agora as suas estórias não serão mais avulsas. Não consegui falar com ele ao telefone, mas deduzo que ele queira dar seguimento, no blogue, a essas estórias. Começamos a série com esta evocação do ex-Fur Mil Trms Pinho, há tempos falecido. (Esta é a nossa melhor maneira de homenageá-lo e de manifestar a nossa solidariedade à sua família enlutada.) (LG)


2. Histórias de Manuel Traquina (3): O Pinho e os seus rádios
por Manuel Traquina (**)

O Furriel Pinho, da especialidade de transmissões, era o encarregado do equipamento rádio da companhia [, a CCAÇ 2382]. Para seu azar, os aparelhos que lhe foram confiados, bastante usados, já com alguns anos de guerra, normalmente estavam avariados. Por outro lado, ele próprio dizia que não percebia grande coisa daqueles aparelhos, e para quem o conheceu e com ele conviveu naqueles tempos de guerra diga-se que era dado à boa paz. De facto, não tinha nascida para a guerra.

Instalados que estávamos na aldeia de Contabane, ao nosso amigo Pinho não lhe faltavam dores de cabeça com os seus rádios, por isso ele se tinha deslocado ao aquartelamento de Aldeia Formosa, a fim de proceder à reparação de algum material. Porém o comandante daquela unidade, e daquela zona operacional, ameaçava-o constantemente com punições, se não conseguisse que os rádios funcionassem.

Naquela noite, em Aldeia Formosa, ouviu-se um bombardeamento na direcção de Contabane, e foi visível também o clarão do incêndio que destruíu a aldeia. Mais uma vez os rádios de Contabane estavam “mudos”. O comandante chama o Pinho e dá-lhe as seguintes ordens:
- Logo que comece a amanhecer vai pôr pernas a caminho de Contabane, com dois milícias (soldados guineenses) e quero aqueles rádios a funcionar.

Naquela zona, de certo modo perigosa, de madrugada lá partiu ele com aqueles dois guarda-costas. Os cerca de quinze quilómetros que separavam as duas localidades foram percorridos pelo mato, era preciso evitar trilhos concorridos e a própria estrada.

É bom que se diga que o Pinho estava na Guiné havia pouco mais de um mês. Também tinha dúvidas sobre até que ponto poderia depositar confiança naqueles dois acompanhantes. Pelo sim pelo não, optou por pô-los a andar à sua frente e segui-los de arma na mão... Ao narrar esta sua aventura o Pinho costumava dizer:
-Se caísse um coco naquele caminho, acho que me borrava todo.

Mas depois desta grande aventura , na madrugada daquele dia, 23 de Junho de 1968, o Pinho lá chegou a Contabane, são e salvo, e só então compreendeu a mudez daqueles malfadados rádios!... É que eles estavam irremediavelmente perdidos, carbonizados no incêndio provocado pelo ataque do inimigo, que naquela noite destruiu a Aldeia.

Passados que foram já quarenta anos sobre este acontecimento, e porque o falecimento deste meu grande camarada e amigo ocorreu recentemente, vítima de doença incurável, daqui lhe rendo a minha homenagem e envio sentidas condolências a sua esposa e Filho.

Manuel Batista Traquina

PS - Na foto um enorme Baga-Baga, na zona de Contabane, arquitectura da formiga guineense.
_________

Notas de L.G.

(*) Vd. poste de 19 de Agosto de 2008 > Guiné 63/74 - P3141: Venturas e Desventuras do Zé do Olho Vivo (2): O ataque de 22 de Junho de 1968 a Contabane

(...) "Tinha anoitecido e, de repente, algumas explosões deram início a um ataque que se ia prolongar por cerca de três horas, as balas incendiarias atravessavam a palha que servia de cobertura à tabanca onde o ferido começava a receber o soro. Disse ao Chambel e ao Coelho que tínhamos que sair daqui imediatamente com o ferido, porém ele, já mais endurecido pela guerra, reunindo as suas débeis forças, arrastou-se até à porta e, no escuro, sem que nos apercebêssemos desapareceu rastejando. Só na manhã seguinte o voltámos a ver, quando da chegada do helicóptero que o evacuou bem como a outros feridos.

"Foram cerca de três horas de bombardeamentos em que a aldeia ficou reduzida a cinzas, mais parecia um inferno. No final foi uma forte trovoada que transformou a cinza em lama, onde quase não havia onde nos abrigar. Não tenho dúvidas de que nós os militares que naquela tarde fomos à água, passámos muito perto do local onde o inimigo preparava o ataque e só não fomos feitos prisioneiros porque o objectivo era o ataque.

"Apesar do grande aparato e grande potencial de fogo, sofremos apenas três feridos, dois dos quais de maior gravidade. Porém, quase todo o património da companhia ali ficou reduzido a cinza, os rádios, os géneros alimentícios, o equipamento de enfermagem, tudo ali ficou carbonizado. Grande parte dos militares ficaram apenas com a roupa que tinham vestida.

"Na manhã seguinte um helicóptero evacuou os feridos, alguns militares apressaram-se a escrever um ou outro aerograma meio queimado e enlameado que foi entregue ao piloto do helicóptero. Era a parte psicológica a funcionar, pretendiam partilhar aquele momento de desânimo com alguém do coração.

"Contabane foi totalmente evacuada de população e militares, saímos dali moralmente destroçados, alguns apenas de calções, sapatilhas e a sua G3, mas vivos para suportar muitos outros ataques e emboscadas durante os vinte e dois meses que se seguiram. Já no termo da comissão viemos encontrar na cidade de Bissau o milícia que ao pisar a armadilha foi amputado de um pé, e que naquela cidade tentava sobrevier como engraxador de sapatos" (...).


(**) Vd. postes de:

2 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2500: Venturas e Desventuras do Zé do Olho Vivo (1): CCAÇ 2382 - A hora da partida

19 de Agosto de 2008 > Guiné 63/74 - P3141: Venturas e Desventuras do Zé do Olho Vivo (2): O ataque de 22 de Junho de 1968 a Contabane

14 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2944: Convívios (66): Pessoal da CCAÇ 2382, no dia 3 de Maio de 2008 na Vila de Óbidos (Manuel Batista Traquina)

23 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2791: Álbum das Glórias (46): O distintivo da CCAÇ 2382, 1968/70 (Manuel Baptista Traquina).

13 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2533: O cruzeiro das nossas vidas (10): Fui e vim no velho e saudoso Niassa (Manuel Traquina)

2 de Janeiro de 2008> Guiné 63/74 - P2399: Tabanca Grande (47): Manuel Traquina, ex-Fur Mil, CCAÇ 2382 (Buba, 1968/70)

Guiné 63/74 - P3213: O Nosso Livro de Visitas (28): Homenagem aos ex-combatentes da Guiné (Júlio Pinto)

1. Mensagem do nosso camarada Júlio Pinto, ex-2.º Sarg da CART 769, (Angola, 1967/69), com data de 13 de Setembro de 2008

Amigo Luís Graça,

Eu sou aquele combatente de Angola que um dia me dirigi a si para saber notícias sobre o desaparecimento do meu amigo e colega da juventude, Fur Mil Júlio Lemos, da CCAÇ 797 que esteve na Guiné, em Tite de 1965 a 1967 (1).

Já tenho muita informação sobre o sucedido e sinto-me muito mais aliviado. Obrigado a si e aos tertulianos.

Mas agora o motivo de me dirigir novamente a si, é outro.

Eu estive no nordeste de Angola na fronteira com o ex-Congo Belga, mas sempre atento ao que ia sucedendo tanto em Moçambique como na Guiné e não há dúvida que os jovens deste País, mais sacrificados, foram aqueles que tiveram de passar pela Guiné, pois a Guiné era um Vietname em ponto mais pequeno. Numa área tão pequena, tantos e tantos jovens para sempre ficaram.

Assim quero aqui prestar a minha HOMENAGEM a todos aqueles que estiveram na Guiné e para quem houve regresso, aos que pagaram com vida a defesa da Guiné espero que Deus lhes tenha reservado um lugar especial, pois eles merecem.

Os meus cumprimentos
Júlio Pinto,
Ex-2.º Sarg Mil
CART 769
Angola 1967/69


2. Comentário de CV

Caro Júlio Pinto

Se não te importas, à maneira da Tabanca Grande, vamo-nos tratar por tu.

Ficamos satisfeitos por te termos sido úteis na busca da causa do falecimento do teu amigo de infância, nosso malogrado camarada, Júlio Lemos.

Aceitamos e agradecemos a tua homenagem em nome de todos quantos combateram na Guiné. Sentimo-nos honrados pelo teu reconhecimento.

Na verdade neste TO, as condições de clima e terreno eram particularmente difíceis. O território ocupado por nós e pelo PAIGC, por vezes, estava separado por escassos quilómetros. Na Guiné, a guerra fazia-se quase porta a porta, mal se podendo sair do arame farpado em muitos quarteis. Permito-me salientar as ZA junto às fronteiras e no sul do território onde havia grandes dificuldades operacionais.

Ou era o IN, que por se infiltrar a partir principalmente da Guiné-Conacri, dificultava o movimento das NT, quer flagelando os quarteis, quer atacando colunas auto e embarcações da Marinha, quer as condições do terreno no tempo das chuvas, que danificavam irremediavelmente as picadas, dificultando o fornecimento de víveres e munições aos aquartelamentos, originando muita carência alimentar, escassez de meios de defesa e principalmente sérias dificuldades na evacuação de feridos e mortos.

Como deves saber, para se navegar nos rios da Guiné, mesmo nos principais, estávamos sujeitos às marés, pelo que até esta circunstância denunciava o momento da nossa passagem. Eles sabiam quando nos deviam esperar.

Viveram-se horas muito difíceis e mesmo a tropa especial, como os Comandos, Páras e Fuzileiros Navais passaram momentos dramáticos nas bolanhas, rios e matas daquele pequeno território. Não podemos esquecer os nossos bravos pilotos da nossa Força Aérea que arriscavam o material e principalmente a própria vida, para tentar chegar onde mais ninguém chegava.

Não se pode no entanto passar para segundo plano Angola e Moçambique, onde camaradas nossos passaram também maus bocados, embora com mais possibilidades de rotação para zonas menos más. Na Guiné não havia essa possibilidade, porque até Bissau chegou a ser atacada algumas vezes com foguetões.

Queremos que te consideres amigo da nossa Tabanca Grande e aparece sempre que queiras.

Um abraço fraterno da Tertúlia.
Carlos Vinhal
_____________

Nota de CV

(1) - Vd. postes de 18 de Setembro de 2007

Guiné 63/74 - P2115: Em busca de...(12): Notícias do desaparecimento de Júlio Lemos, ex-Fur Mil da CCAÇ 797, Tite, 1965/67 (Júlio Pinto)

Guiné 63/74 - P2116: Fur Mil Júlio Lemos, da CCAÇ 797, morto em Rio Louvado, por ferimentos em combate (A. Marques Lopes)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3212: Tabanca de Matosinhos (1): Apresentação e Golpe de mão à casa do Delfim Santos (José Teixeira)

Matosinhos > Restaurante Casa Teresa > 9 de Abril de 2008 > Reunião habitual, às 4ªs feiras, da Tertúlia de Matosinhos, a que compareceram desta vez os seguintes camaradas da Guiné, da esquerda para a direita: de pé, A. Marques Lopes, João Rocha, Eduardo Reis, José Teixeira, Armindo; na primeira fila, Jorge Félix, Xico Allen e Silvério Lobo... À entrada da Casa Teresa, o António Pimentel.

1. Apresentação da Tabanca de Matosinhos

A Minitertúlia de Matosinhos nasceu há já algum tempo. Agora vai ter o seu nome oficializado, parece que de acordo com os seus principais mentores, como Tabanca de Matosinhos. Acredito que o Luís se sinta honrado por ter uma congénere no Norte, perfeitamente autónoma, com fins diferentes, mas irmã no espírito de camaradagem, convívio e troca de ideias entre camaradas que fizeram a sua guerra na Guiné (*).

Na verdade o início deste simpático e bem disposto grupo começou com os camaradas do Blogue do Luís, senão todos, pelo menos alguns. Discute-se a Guiné, onde estiveste, quando foste, qual a tua Companhia, quem era o teu Comandante e por aí fora.

Muito importante, fala-se da Guiné-Bissau de agora. Alguns dos elementos do grupo já a visitaram mais que uma vez, porque sentem e vivem a necessidade daquela gente, a quem a liberdade merecida não trouxe ainda o bem-estar e o mínimo de condições para uma vida condigna. Têm lá verdadeiros amigos, não só entre antigos camaradas de armas, mas também, pasme-se, entre antigos combatentes do PAIGC, que não negam a sua estima ao inimigo de ontem que hoje consideram irmãos.

As reuniões de trabalho começaram na Casa Teresa e nelas podem participar todos os ex-combatentes da Guiné (e não só) de todos os pontos de Portugal. Começa-se a pôr um problema logístico, pois a capacidade da Casa fica pelas costuras às quartas-feiras. A realidade é esta, o Contigente é grande e o Refeitório começa a ficar pequeno.

Na Casa Teresa, nas mesas do lado, já ninguém estranha que estes avozinhos falem alto e se portem mal, qual grupo de adolescentes. E não são? Pergunto eu. Afinal, ali não se recua ao tempo de uma adolescência mal vivida, interrompida por uma guerra que os (nos) marcou para sempre?

Lá que é bonito de se ver, é.

Diz a propósito o Zé Teixeira, o nosso Enfermeiro de Mampatá:

Alguém nos batizou de Mini-tertúlia de Matosinhos. Não sei quem foi, nem interessa. De Matosinhos herdou o nome por ser o lugar da concentração.

Creio não errar ao afirmar que os fundadores são o Xico Allen, de Gaia, e o Santos, da Póvoa de Varzim, que de vez em quando se encontravam para conversar e iam à Casa Teresa.

Em 2005 apareci eu, após a nossa ida (os três à Guiné) e adoptámos o principio de nos encontrarmos às quarta-feiras para almoçar e conviver. Depois chegou o Marques Lopes, o Álvaro... hoje estávamos 14, mas já contei 25 convivas.

Pretende ser um ponto de encontro de todos os camaradas que passaram pela Guiné, de qualquer ponto do País, que nos queira honrar com a sua presença. E se aparecer alguém que não tenha passado pela Guiné, é bem vindo, como já conteceu recentemente com um coronel que fez a sua guerra em Moçambique e ficou encantado com a fraternidade que o grupo expira.


Feita esta introdução e porque a Tabanca de Matosinhos (TM) tem um historial operacinal já muito considerável, comecemos, não pelo princípio como seria lógico, mas pelo fim, ou seja, um assalto no dia 10 de Setembro à casa do camarada Delfim Santos, em Rio Mau, Vila Verde, Braga, terra de muitos perigos, onde é precisa a maior atenção para evitar os efeitos secundários do Verde.

Carlos Vinhal

2. Assalto à Casa do Delfim Santos

Texto e fotos do José Teixeira

A Tabanca de Matosinhos fez um assalto à casa do Delfim Santos.

O camarada Delfim Santos, um dos fundadores da Tabanca, há uns meses que deixou de aparecer.

Era urgente verificar o que se passava, pelo que foi decidido fazer um assalto à sua linda e bem tratada quinta que possui no Ângulo 40, em Rio Mau, Vila Verde, Braga. O coronel na reforma, Marques Lopes, assumiu o comando das operações organizando devidamente os participantes no assalto.

A preparação para o “ataque”, vendo-se na imagem o Zé Manel, o Barroso, o Lobo, o Machado, o Guimarães, o Xico Allen e o Artur Ribeiro (periquito nestas andanças, que expressa um certo ar de preocupação)

Consultado o visado, aí vamos nós no dia previsto, 10 de Setembro de 2008, estrada fora.

Catorze (14) camaradas, alguns já conhecedores do local, pelo que não foi preciso picar a estrada nem usar o GPS, seguem caminho armados de um forte apetite. Para transporte, o Barroso teve a amabilidade de trazer o seu salta pocinhas de nove lugares. Mais duas viaturas conduzidas pelo Xico e pelo Carvalho. Este último para azar próprio viu-se em palpos de aranha para nos encontrar, correndo o risco de se perder e não participar na operação, pelo que teve de ser apanhado à mão quase a chegar ao destino.

Já no local, o Marques Lopes prepara a estratégia, sob o olhar atento do Delfim Santos, do Silvério Lobo e do Artur Ribeiro, agora um pouco mais confiante.

Esperavam-nos o Delfim Santos e a sua esposa, Maria Idalina, que nos receberam principescamente.

Uma visão da espectacular quintinha que a família Santos possui em Rio Mau, Vila Verde

Depois de afectuosos cumprimentos, o que permitiu dispensarem-se as G3ertrudes, uma visita às espectaculares instalações, um passar de olhos à bem tratada quinta e ao ambiente envolvente que é no mínimo cativante, fomos ao assalto da bela sardinha que a Maria Idalina, muito discretamente, já tinha preparado. Seguiu-se um franguinho pica no chão apetitoso e, para atestar, uma feijoada.

Um aspecto do repasto, sob o olhar atento do anfitrião

O Zé Manel, como sempre o tem feito desde a sua entrada na Tabanca, trouxe o vinho da Régua, para não destoar com a qualidade do petisco. No entanto faça-se justiça ao excelente verdinho que o Santos cultiva e tinha disponibilizado.

De nada valeu a insistência do Santos e da esposa:
– Comam! Comam! Há ali mais comida.

Pareciam leões esfomeados. O que nos safou, foram os digestivos finais, que iam pondo alguns de nós, KO.

Um pouco exaustos de tanto sacrifício, ainda nos apareceu um bolo especial, para acompanhar com um espumante de alto gabarito.

Deu para desenferrujar um pouco a língua, até porque nos fez companhia um camarada novo nestas lides, oriundo dos Catedráticos de Empada e posteriormente da CCAÇ 18, de Aldeia Formosa – O Artur Ribeiro.

Em amena cavaqueira, vendo-se o Artur Ribeiro a explicar-nos como se processou a desmobilização dos seus soldados africanos da CCaç 18, de Aldeia Formosa, em 1974. Segundo ele, todos os soldados de origem guineense, integrados no Exército Português, foram convidados a virem para Portugal, ou aceitarem a desmobilização e receberem 90 contos contra a entrega da G3. Todos os seus homens preferiram ficar nas suas terras com a família e receber os 90 contos. Ele deixou-lhes a G3 (contra as ordens que tinha) bem como as munições que quiseram, mais um conselho: 'Desapareçam por uns tempos para o Senegal'.

Os participantes, com os anfitriões, ficando de fora apenas o fotógrafo e autor desta noticia – o Zé Teixeira. Na fila de trás: Artur Ribeiro, Pimentel, Barrosos, Machado, Guimarães, Pires, Custóias, D. Idalina e o Santos. Sentados: O Marques Lopes, João Rocha, Xico Allen, Lobo, Carvalho e Zé Manel.


A conversa ia longa, tal como a tarde ia alta, e, porque o casal que tão bem nos recebeu, ainda tinha de preparar o jantar para comemorar os primeiro aniversário da sua filhota Marília, a quem desejamos as maiores felicidades, foi decido levantar a emboscada e partirmos de regresso ao Porto.

Bem hajam, Delfim e Idalina. Prometemos voltar.

Para a semana há mais... na Casa Teresa (enquanto lá coubermos)

José Teixeira, editor da Tabanca de Matosinho.

__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 5 de Dezembro de 2007> Guiné 63/74 - P2329: O Hino de Gandembel cantado ao vivo na já famosa Casa Teresa, em Matosinhos, sede da delegação Norte da Tabanca Grande

Guiné 63/74 - P3211: PAIGC: Instrução, táctica e logística (15): Supintrep, nº 32, Junho de 1971 (XV Parte): Os Armazéns do Povo (A. Marques Lopes)

Guiné > Possivelmente numa base do PAIGC, no sul, na região fronteiriça > Visita de uma delegação escandinava às regiões libertadas > Novembro de 1970 > Foto nº 28 > Transporte de sacos de arroz em viaturas soviéticas. Segundo a inteligência militar portuguesa, o PAIGC dispunha, na Guiné Conacri, de cerca de 40 camiões russos (havia dois modelos, o Gaz e o Gil) , que faziam o transporte dos abastecimentos de Conacri até a Kandiafara e, depois de queda de Guileje, em 22 de Maio de 1973, até mesmo para lá das fronteiras... O grande celeiro do sul abastecia de arroz as populações sob controlo do PAIGC; os excedentes eram exportados, nomeadamente para a região norte. Havia uma rede de Armazéns do Povo que ia de Conacri até ao interior das regiões libertadas. Essa rede, mal ou bem, funcionava e terá permitido o desenvolvimento de uma "economia de guerra", que muitos de nós, antigos combatentes portugueses, conhecia mal ou até desconhecia...

Fonte: Nordic Africa Institute (NAI) / Foto: Knut Andreasson (com a devida vénia... e a competente autorização do NAI) (As fotografias tem numeração, mas não trazem legenda. Legendagem de LG).

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Rio Udunduma > 1970 > Como já aqui escrevemos, noutro poste, a economia guineense dependia também da produção pecuária que por sua vez estava dependente da prática da transumância, prática essa que a guerra veio limitar ou inviar...

As manadas de gado dos fulas, povo originalmente de pastores nómadas, eram um sinal exterior de riqueza e de status social do seu dono. Por essa razão, os fulas tinham tradicionalmente relutância em alienar esse património... Por morte do dono, os animais eram abatidos para alimentar o choro, uma festa que se prolongava por vários dias, dependendo da posição hierárquica do defunto na sociedade fula...

Com a guerra, a entrada de dinheiro nas tabancas fulas fazia-se por duas vias: o pré dos soldados africanos e das milícias e as vendas de gado vacum aos militares portuguesas, compensando a quebra da produção da mancarra, devido à guerra... O porco era criado pelos povos animistas e ribeirinhos: balantas, manjacos, papéis... Havia por vezes conflitos com a população local, devido a abusos dos militares (que roubavam ou matavam vacas, porcos, cabritos ou galinhas)...

Durante a Operação Lança Afiada (8 a 18 de Março de 1969), as populações sob controlo do PAIGC, no triângulo Xime-Bambadinca-Xitole, sofreram grandes perdas de gado... Muitos animais foram abatidos a tiro, nalguns casos foram, inclusive, levados até ao aquartelamento do Xitole onde foram abatidos e consumidos (*) (LG).

Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)
.


Continuação da publicação do Supintrep, nº 32, de Junho de 1971, documento classificado na época como reservado, de que nos foi enviada uma cópia, através de mais de um dúzia de mails, entre Setembro e Outubro de 2007, pelo nosso amigo e camarada A. Marques Lopes, Cor DFA, na situação de reforma, que é residente da Tabanca de Matosinhos, a maior das tabancas da nossa Tabanca Grande...

Este texto já circulou pela nossa tertúlia, através de mensagem de 23 de Setembro de 2007. Esta série tem vindo a ser publicada, com alguma irregularidade, desde há um ano (**), e está longe de ter chegado ao fim. A divulgação deste e doutros documentos sobre a organização e o funcionamento do PAIGC é meramente ididáctica, não implica, por nossa parte, qualquer juízo de valor. E, não é de mais referi-lo, não é um documento de PAIGC (embora utilize fontes escritas e orais ligadas à guerrilha que então nos combatia) tem como origem o próprio Com-Chefe da então província portuguesa da Guiné. Trata-se de Subintrep que foi distribuído aos comandos das unidades do CTIG em Junho de 1971.(Supintrep: Do inglês, Supplementary Intelligence Report, ou seja, Relatório de Informação Suplementar.) (LG)


AGRICULTURA, PECUÁRIA E INSTALAÇÕES COMERCIAIS

(1) Produção agrícola nas “regiões libertadas”; pecuária



Em todas as “áreas libertadas” do Sul da Província a produção das culturas alimentares tem registado elevado crescimento, tanto como resultado do aumento das superfícies cultiváveis com ainda em consequência de melhores cuidados atribuídos a essas culturas.

Efectivamente, apesar da redução do tempo útil de trabalho motivado pela crescente actividade das NT, muitas bolanhas têm sido aproveitadas, o que se traduz num aumento de produção de arroz em percentagens que chegam a atingir de ano para ano os 20%. As “áreas libertadas” do sul são mesmo já autosuficientes para satisfação das suas necessidades alimentares, sendo os excedentes da sua produção de arroz enviadas para o exterior, para distribuição a outros locais onde a produção não atinge os níveis necessários.

O mesmo não acontece no Norte da Província. Aqui a população, tradicionalmente mais ligada a outras culturas, não produz arroz em quantidades suficientes para se abastecer, pelo que são enviadas regularmente colunas à fronteira para transporte desse produto para o interior.

Outras culturas alimentícias, tais como mandioca, batata doce, milho e legumes, subsidiárias na ração alimentar da população, têm tido também apreciáveis aumentos de produção. O desenvolvimento da cultura de féculas e legumes abre novas perspectivas para a utilização de um sistema alimentar novo, reduzindo o uso do arroz, quer na frequência quer na proporção.

Ainda nas “áreas libertadas” do sul, nomeadamente nas regiões de Catió e Cacine, as populações têm-se dedicado ainda ao desenvolvimento das culturas frutíferas, tendo os cuidados prodigalizados no tratamento permitido a obtenção de uma abundante produção de anazes, bananas, papaias, laranjas, etc.

Igualmente se refere, dada a importância de que se reveste, a especial atenção que tem sido dada ao tratamento de gado e animais de criação.

Como factores decisivos no desenvolvimento da produção agrícola e pecuária que se verifica especialmente nas “áreas libertadas” do Sul, refere-se, por um lado, a existência de agrónomos especializados na Rússia e Cuba e, por outro, o intenso trabalho político levado a efeito no seio das massas rurais, convencendo-as da importância que representa o desenvolvimento agrícola das “áreas libertadas”.

A fim de recompensar os que mais se esforçam no trabalho dos campos, o Partido institui prémios para os melhores produtores.


(2) Empresa de comércio geral (Armazéns do Povo)


Em fins de 1965 afirmava Amilcar Cabral:

“Na Guiné, em dois anos e meio de luta armada, libertámos cerca de metade do país. Nas regiões libertadas estamos a construir uma vida nova, temos várias dezenas de escolas, instalámos comércio para abastecer as populações em artigos de primeira necessidade através dos Armazéns do Povo, criámos serviços de assistência sanitária e vários outros organismos que definem o novo Estado em formação”.

O objectivo do PAIGC, ao levar a cabo estas iniciativas, foi o de criar condições que estabelecessem bases de uma sociedade nova. No que diz respeito aos Armazéns do Povo teve-se em vista a sua criação satisfazer as necessidades de abastecimento das populações, fornecendo-lhes artigos de uso corrente para seu consumo em troca de produtos agrícolas que, por sua vez, são trazidos para o exterior onde são vendidos, revertendo os lucros dessas transacções para os cofres do Partido.

Verifica-se, assim, que os Armazéns do Povo permitiram a valorização do trabalho do povo, na medida em que trouxeram uma solução ao problema da comercialização, da agricultura e artesanato, já que, como se referiu, os produtos agrícolas (arroz) e, provavelmente, os artigos de artesanato funcionam como moeda de troca.

Estes Armazéns não são contudo, em princípio, destinados a auferir lucros. Dando para já uma experiência útil na futura organização do comércio, os Armazéns do Povo têm como objectivo, na hora actual, servir como elo e ligação com as massas, representando por si só uma arma poderosa ao serviço dos interesse do povo e do Partido, não só do ponto de vista económico mas também, e especialmente, do ponto de vista político.

Através deles, na medida em que evita as transacções comerciais nos nossos estabelecimentos, o PAIGC procura o nosso "isolamento" ao mesmo tempo que garante a segurança das suas "áreas libertadas". Dum modo sumário e face aos elementos disponíveis, é a seguinte organização e funcionamento da Empresa de Comércio Geral do PAIGC, a qual depende, para efeitos de organização do Departamento da Organização e Questões Internas e para efeitos da prestação de contas do Departamento de Economia e Finanças.

Esta tem em Conacri o órgão de abastecimento central – os Armazéns Centrais – e “antenas” em todas as “regiões libertadas” – Armazéns do Povo -, designados também por Depósitos, os quais são numerados, encontrando-se à frente deles um responsável, possuidor de conhecimentos genéricos de contabilidade.

Como se referiu, os Armazéns Centrais abastecem estes Depósitos com artigos de consumo corrente nomeadamente açúcar, sal, conservas, roupas e calçado, enviando à data da expedição dos artigos uma "factura" na qual constam discriminadas as quantidades e valor da mercadoria.

Muito embora seja utilizado o dinheiro, o mais vulgar é o sistema de permuta em que os podutos agrícolas, especialmente o arroz, ou msmo o gado, funciona como "moeda" de troca, sendo os produtos obtidos na troca enviados aos Aramazéns Centrais com nota de remessa, local onde essa distribuição é devidamente escriturada em mapas dos quais se junta o Mapa de Distribuição de arroz.

Admite-se, para facilidade de transporte, que parte desses produtos sejam enviados directamente às bases logísticas sem passar pelos Armazéns Centrais,embora estes movimentos em mapa sejam sempre feitos nestes armazéns creditando-se às Bases que directamente receberam os produtos.

Todos estes movimentos são contabilizados, sendo feitas periodicamente inspecções tendentes a verificar a “situação” em que se encontram os depósitos.

Nestes, diariamente, é elaborado um mapa relativo às receitas diárias, no qual são escriturdas as mercadorias saídas e a entrada de produtos.

Anda se conhece os movimentos dos Depósitos um documento nota de crédito.

__________

Nota de L.G.:

(*) Sobre a Operação Lança Afiada, comandanda pelo então Cor Hélio Felgas, vd. os seguintes postes, na I Série do nosso blogue:

15 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLIII: Op Lança Afiada (1969): (i) À procura do hospital dos cubanos na mata do Fiofioli (Luís Graça)

9 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXI: Op Lança Afiada (1969) : (ii) Pior do que o IN, só a sede e as abelhas (Luís Graça)

9 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIII: Op Lança Afiada (1969): (iii) O 'tigre de papel' da mata do Fiofioli (Luís Graça)

14 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIX: Op Lança Afiada (IV): O soldado Spínola na margem direita do Rio Corubal (Luís Graça)

(**) Vd. último poste desta série:

22 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2124: PAIGC - Instrução, táctica e logística (1): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (I Parte) (A. Marques Lopes)

24 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2126: PAIGC - Instrução, táctica e logística (2): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (II Parte) (A. Marques Lopes)

1 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2146: PAIGC - Instrução, táctica e logística (3): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (III Parte) (A. Marques Lopes)

8 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2164: PAIGC - Instrução, táctica e logística (4): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (IV Parte): Emboscadas (A. Marques Lopes)

29 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2228: PAIGC - Instrução, táctica e logística (5): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (V Parte): Flagelações (A. Marques Lopes)

4 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2327: PAIGC - Instrução, táctica e logística (6): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (VI Parte): Minas I (A. Marques Lopes)

17 de Janeiro de 2008 > Guine 63/74 - P2446: PAIGC - Instrução, táctica e logística (7): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (VII Parte): Minas II (A. Marques Lopes)

19 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2454: PAIGC - Instrução, táctica e logística (8): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (VIII Parte): Minas III (A. Marques Lopes)

13 de Fevereiro de 2008 Guiné 63/74 - P2535: PAIGC - Instrução, táctica e logística (9): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (IX Parte): Defesa anti-aérea (A. Marques Lopes)

7 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2730: PAIGC - Instrução, táctica e logística (10): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (X Parte): Organização defensiva (A. Marques Lopes)

15 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2762: PAIGC: Instrução, táctica e logística (11): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (XI Parte): A máquina logística (A. Marques Lopes)

17 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2955: PAIGC: Instrução, táctica e logística (12): Supintrep nº 32, Junho de 1971 (XII Parte): Saúde (A. Marques Lopes)

7 de Julho de 2008 >Guiné 63/74 - P3032: PAIGC: Instrução, táctica e logística (13): Supintrep, nº 32, Junho de 1971 (XIII Parte): Armamento (A. Marques Lopes)

4 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3170: Instrução, táctica e logística (14): Supintrep, nº 32, Junho de 1971 (XIV Parte): Educação (A. Marques Lopes)