sábado, 2 de maio de 2009

Guiné 63/74 – P4275: Tugas - Quem é quem (4): João Bacar Jaló (1929-1971) (Magalhães Ribeiro)



Já muito se disse no blogue sobre um dos maiores Heróis da Guerra na Guiné, o Capitão Graduado João Bacar Jaló (JBJ), Comandante da 1ª Companhia de Comandos Africanos (1970/71).


No entanto, creio que o documento que hoje aqui anexo (cuja única indicação é que é uma publicação do SPEME - Serviços de Propaganda do Estado Maior do Exército, Bissau, Junho de 1971), onde se apresenta uma sua pequena biografia, ajudará, com certeza, a complementar o nosso conhecimento daquele homem, que serviu exemplarmente mais de 22 anos o nome de Portugal e o Exército Português, tendo falecido em combate, em 16 de Abril de 1971.

Gostava de fazer um apelo a quem melhor conheça o modo como ele morreu, para que nos ajude a esclarecer se o que me contaram é verdade, e que é a seguinte: O JBJ quando saía para uma missão levava, habitualmente, várias granadas presas no suspensório ao nível do peito. Nesse dia 16 de Abril, tal como diz na brochura, ele acorria em socorro de um dos seus homens feridos, progredindo em sua direcção e, ao passar sob uma árvorezita, um dos seus galhos engatou-se numa das argolas das granadas, acabando por a despoletar.


Ao aperceber-se do clique da espoleta da granada, e da eminente explosão da mesma, o JBJ gritou para os homens que o rodeavam: - CUIDADO! – tendo-se lançado de imediato para o solo e tentado abafar sob o seu corpo a consequente explosão.


Mais me contaram que todas as outras granadas que ele transportava, explodiram também por “simpatia”, tendo-lhe mutilado horrivelmente o corpo.


Será esta a Verdade?



Na foto de Jorge Caiano (Post P3879), podemos ver o malogrado JBJ, em Fá Maninga, em 1970, no dia do juramento de bandeira da 1ª Companhia de Comandos Africanos. É o 5º homem de pé, na segunda fila, da esquerda para a direita.



Na foto à esquerda (Post 2569), JBJ em Catió, em 1967, ainda Tenente de 2ª linha (a que fora promovido por distinção em 1965) .



Foto e legenda: © Benito Neves, ex-Fur Mil da CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67). Direitos reservados.



.



Nesta foto (à direita) de Abril de 2006, do Virgínio Briote (Post 2569) vê-se a lápide funerária de JBJ no Cemitério em Bissau.



Reprodução de um folheto, datado de 1971, da responsabilidade do SPEME - Serviços de Propaganda do Estado Maior do Exército, CTIG, Bissau, Junho de 1971 (pp. 9-13):






Magalhães Ribeiro,

Ex-Fur Mil Op Esp/RANGER, Mansoa, 1974.

___________

Notas de MR:

Ver artigos de:

20 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2569: Tugas - Quem é quem (3): João Bacar Djaló (1929/71) (Virgínio Briote)


10 de Dezembro de 2007> Guiné 63/74 - P2340: Pami Na Dondo, a Guerrilheira, de Mário Vicente (5) - Parte IV: Pami e Malan são feitos prisioneiros (Mário Fitas)

4 de Novembro de 2007>
Guiné 63/74 - P2239: Tugas - Quem é quem (2): António de Spínola, Governador e Comandante-Chefe (1968/73)

23 de Outubro de 2007>
Guiné 63/74 - P2207: Tugas - Quem é quem (1): Vasco Lourenço, comandante da CCAÇ 2549 (1969/71) e capitão de Abril

Ver também:

20 de Maio de 2007>
Guiné 63/74 - P1769: Estórias do Gabu (4): O Capitão Comando João Bacar Jaló pondo em sentido um major de operações (Tino Neves)

8 de Fevereiro de 2007>
Guiné 63/74 - P1502: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (8): Com Bacar Jaló, no Cantanhez, a apanhar com o fogo da Marinha

30 de Maio de 2006>
Guiné 63/74 - DCCCXIX: Do Porto a Bissau (23): Os restos mais dolorosos do resto do Império (A. Marques Lopes)

31 de Maio de 2006>
Guiné 63/74 - DCCCXXVII: A 'legenda' do capitão comando Bacar Jaló (João Tunes)

11 de Junho de 2005>
Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P4274: Blogpoesia (43): A história de Portugal em sextilhas (Manuel Maia)

1. Mensagem, com data de 16 de Fevereiro último, de Manuel Maia (*), ex-Fur Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine, (1972/74), a quem já chamámos, meio a sério, meio a brincar, o Camões do Cantanhez , o bardo de Cafal Balanta (*)


HISTÓRIA DE PORTUGAL EM SEXTILHAS


Agora que se aponta para uma Europa una, de nacionalismos esbatidos, uma Europa desprovida de fronteiras,onde o tempo de forma inexorável dita as suas leis propiciando o esquecimento desta panóplia de culturas - enxamear de povos onde as diferenças por que se bateram tantos dos nossos avoengos poderão vir a ser ignoradas - creio ser justo trazer à liça algo da chamada "História do passado" em que se enaltece a importância do papel individual, se referenciam batalhas (episódios marcantes desses nacionalismos), se descrevem factos isolados,sem denotar preocupações de cariz conjuntural.

A forma encontrada,numa poesia onde a sextilha foi a aposta, procura num tom despretensioso relembrar feitos relevantes de figuras prenhes de prestígio,que por mérito próprio souberam alcandorar-se a um lugar de destaque no seio deste povo a caminho da nona centúria.

Trata-se de uma forma diferente de abordagem da História, utilizando a rima como veículo de apoio ou, se quisermos, aproveitando toda a musicalidade da poesia, aflorar o passado num balizamento que vai da ancestralidade até ao último quartel do século XX.

São duas as faixas de leitores a atingir;

(i) O universo escolar,num posicionamento de apoio ao manual escolhido,
possibilitando ainda ao docente - através de pequenos pormenores evocadores -
o situar no tempo de determinados factos rememorizadores do enquadramento pretendida;

(ii) E o indivíduo,com hábitos de leitura, ou não, que frequentou a escola primária no período anterior à revolução abrilina, incapaz de resistir à nosltalgia desse período epocal, podendo ainda neste item englobar as largas centenas de milhar na diáspora para os quais,estou certo,a linguagem simples será factor primordial de acessibilidade.

O Autor: Manuel Maia



1 - D´Iberos pelos Celtas invadidos
resultam Celtiberos já fundidos,
gerando os lusos genes que hoje herdamos.
Depois Alanos, Vândalos, Suevos,
Romanos, Godos ´inda outros coevos,
com Mouros, mesclam sangue que ostentamos.


2 -Na tribo lusitana resistente,
que ao invasor romano fará frente,
um nome sobressai entre os demais.
Das armas, Viriato, um amador,
até então não mais do que pastor,
destroça afamados generais.


3 -Pretor Vetílio, Fábio Emiliano,
Nigídio, Lélio, até Serviliano,
caíram derrotados, perdedores.
Mais tarde Roma envia Cipião
que usa como arma a vil traição,
morrendo o luso às mãos de embaixadores.


4 -Sertório Quinto, general romano,
tornou-se um dia chefe lusitano,
gigante a combater as legiões.
Tal como em tempos idos,Viriato,
foi alvo de hediondo assassinato,
dinheiro de Perpena fez traições...


5 -De Munho e Ouruana, a sorte quiz
nascesse em Ribadouro, Egas Moniz,
da corte um rico-homem, mui sagaz.
Por Britiande em Lamecenses terras,
prepara infante Afonso para as guerras
que a vida a um rei ousado sempre traz...


6 -Mercê do seu empenho e honradez,
logrou o fim dum cerco, certa vez,
a Guimarães vergada ante invasor.
Infante à vassalagem condenado,
Moniz, de fiador fica obrigado,
falhou promessa Afonso, incumpridor.


7 -De corda no pescoço e pé descalço,
tal como um condenado ao cadafalso,
partiu Egas Moniz para Toledo.
Palavra foi penhor de homem honesto,
família solidária com seu gesto,
disposta a dar a vida vai sem medo.


8 -Sensível à grandeza de atitude,
responde com a mesma magnitude
Afonso que é monarca de Leão.
Recusa o sacrifício,um acto nobre,
faceta de humanista que descobre
a força enorme que há num coração...


9 -D' Henrique e Teresa, Afonso foi gerado,
e em seus hercúleos ombros sustentado
o reino, Portugal, que impõe respeito
às c´roas de Castela e da Moirama,
na ponta de uma espada que reclama:
"P´ros povos, liberdade é um direito!"...


10 -Em S. Mamede vence a mãe,Teresa,
Cerneja com Leão deu-lhe a certeza
que Ourique contra Mouros confirmou:
Fadado foi p´ra rei por ser audaz!
Vencendo em Valdevez vai selar paz,
com Leoneses donde se soltou...


11 -Com Vico a rubricar (um cardeal)
acordo feito sob ordem Papal,
de mil cento e quarenta e três datado.
Zamora foi o palco escolhido,
e ali p´las duas partes é assumido
que passe a reino o que era só condado.


12 -Forais a muitas terras concedidos,
vantagens, privilégios repetidos,
dão a argamassa ao reino, as suas bases...
Religiosas Ordens e Cruzados
nas lutas contra os Mouros são usados,
pretextos pela Fé, bem eficazes.


13-Ao Papa é vassalagem prometida.
Quatro onças foi a tença exigida
p´ro fausto alimentar na Santa Igreja.
Presúrias são criadas p´ra defesa
de terras que à moirama em luta acesa,
se ganham com peleja após peleja...


14-Defesa e crescimento, uma constante
em prol do reino, sempre a todo o instante,
motivação do nosso fundador.
Coimbra tem o corpo sepultado
daquele agora aqui tão evocado,
Afonso Henriques, rei "Conquistador".


15-Da corte já arredio, ex-cavaleiro,
homiziado, agora bandoleiro,
"Geraldo Sem Pavor", arrependido.
P´ra resgatar as culpas do passado,
assalta, noite adentro, acto arrojado,
"Yeborah", mourisca, decidido.


16-Surpresa e rapidez na ousadia
de ataque a cada homem da vigia,
permitem franquear portas da entrada.
Tomando então cidade facilmente
Geraldo a entrega ao rei como presente
que dele o faz alcaide, de assentada...


17-D.Fuas foi de Afonso companheiro,
mui destro a cavalgar, bom marinheiro,
das duas artes granjeando fama.
De Porto-Mós, alcaide o fez el-rei
mais tarde o almirante -mor da grei
que destroçou galés da vil moirama.


18-Sitia Porto-Mós, Gamin o Mouro,
enraivecido, igual na arena, ao touro...
mas nessa noite azar lhe bate à porta.
Sabendo da incursão estando em Leiria,
D. Fuas acorreu com maestria,
de madrugada, ataque mouro aborta...


19-Desbaratando a tropa, os chefes prende,
Gamin, forçado, ali logo se rende
levado p´ra Coimbra, onde o rei mora.
D. Fuas por Afonso foi louvado,
além de enormemente agraciado,
p´lo acto cometido em boa hora...


20-Lisboa sofre ataque via mar,
galés mouriscas querem saquear
a urbe p´ros negócios atraente.
D. Fuas vai armar alguns navios
e ao largo do Espichel vence os gentios
ganhando a admiração de toda a gente.


21-De volta p´ra Lisboa amplia a frota
vogando, encontra Mouros que derrota,
em Ceuta, onde alguns barcos apresou.
Lisboa o vê chegar triunfalmente,
p´ro ver partir de novo, para sempre,
´smagada a frota lusa, se finou...


22-Gonçalo Mendes,velho Lidador,
de mil batalhas justo vencedor
cavalga a céu aberto o alazão.
Luzente cervilheira, duro arnez,
pesado lorigão, grande altivez,
o tronco erguido, a Toledana à mão.


23-Fronteiro foi de Beja,com valor,
noventa e cinco anos de vigor,
fidalgo a boa luta não renega.
Sabendo d´agarena posição
avança peito aberto p´ra misssão
ciente da vitória na refrega.


24-O mês é Julho, o sol abrasador,
um magrebino chefe é opositor
´stá em luta aberta a cruz e o crescente.
Astuto Almoleimar, chefe berbére,
alfange à cervilheira lhe desfere,
do golpe o velho luso se ressente.


25-Rasgada a carne o ombro esmiuçado,
ficou o Lidador muito abalado,
mas firme sem perder da luta o norte.
Avança qual cruzado contra o mal
cravando a Toledana no gorjal,
do mouro que se esvai até à morte.


26-De rubro sangue a terra está tingida,
centenas são os corpos já sem vida,
rasgados por espada ou azagaia.
Dois nomes entre todos são destaque,
o mouro Almoleimar, chefe de ataque,
e o velho Lidador, homem da Maia.



27-Seguindo o pai na saga aventureira,
tomou Alvor e Silves, Albufeira,
D. Sancho, novo rei, "Povoador".
Mas cedo irá mudar sua estratégia
devido à Moura concertação régia
que reconquista as terras de Almansor.


28-Tarefa passa a ser o povoar
da terra vasta com gente a minguar
que obriga a ser estrangeiro, um bom recurso.
Com bispos teve atritos importantes
mas tudo ficaria como dantes
co´a Igreja a dominar no seu percurso.


29-O fruto da união de Dulce e Sancho,
Afonso mui doente,um corpo ancho,
de lepra sofredor, sobreviveu.
À Santa Senhorinha é atribuída
a milagrosa cura então sentida
que o rei, erguendo templo, agradeceu.


30-Dos seis Afonsos, "Gordo" foi segundo,
nutrindo pelo reino amor profundo,
ao clero e nobres vai impor travão.
Fez lei para as desamortizações,
obriga a comprovar as doações,
mercê d´Inquirições feitas então.


31-Não tinha " O Gordo" o gosto pela espada,
visando antes ter "casa arrumada",
daí sua apetência administrativa.
Criou as Leis Gerais, ineditismo,
mostrou lá por Tolosa brilhantismo
na briga ao Infiel, mui positiva...


32-Seu filho, Sancho, ascende ao trono luso,
sujeito a mil pressões fica confuso
cedendo ao clero,às tias, à nobreza.
Mau grado as lutas mouras ter vencido,
poder real ficou enfraquecido,
no ar pairava a dúvida, a incerteza.


33-Notável na refrega, este monarca,
que o Alentejo logo todo abarca,
tomando aos Mouros Elvas, Juromenha,
depois Serpa, Aljustrel, Mértola, Moura,
rumando p´ro Algarve, "qual vassoura",
"limpeza" de Tavira logo engenha.


34-Raptada foi rainha a contragosto(?),
prostrado fica rei face ao desgosto,
sentiu monarca, fôra abandonado.
Estratégia irmão montara com o clero,
levando o Papa a impor golpe severo,
sofrido, viu seu trono ser cassado.


35-"Capelo" inseguro co´a nobreza,
lidando com o clero sem firmeza,
sofreu deste suprema humilhação.
Mostrando ter do Papa grande medo,
deposto foi enviado p´ra Toledo
p´ra lá viver sem digna condição.

Manuel Maia

[Fixação / revisão de texto: L.G.]
_________

Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 27 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4087: Blogpoesia (33) : O bardo de Cafal Balanta (Manuel Maia)

Guiné 63/74 - P4273: Recortes de imprensa (17): Engenhos explosivos do nosso tempo continuam a matar, desta vez na região de Mansabá (Nelson Herbert)

1. Engenhos exlosivos do tempo da guerra colonial, deixados no terreno pelas NT ou pelo PAIGC (minas, armadilhas, bombas...), continuam infelizmente a matar, quase meio século depois de se ter iniciado a luta armada...

(Nas fotos, do Xico Allen, tiradas em Sinchã Jobel, na região de Bafatá, em 22 de Abril de 2006, vemos bombas da Força Aérea Portuguesa que foram lançadas sobre a base do PAIGC, durante a guerra, e que não chegaram a explodir; na foto da esquerda, o nosso amigo e camarada A. Marques Lopes) (*).

É mais uma história trágica...Tivémos conhecimento desta notícia da Agência Lusa, através do nosso amigo, guineense, Nelson Herbert, correspondente de A Voz da América:


Bissau, 30 Abr (Lusa) - Um engenho explosivo da guerra colonial matou duas crianças e feriu gravemente dez pessoas na localidade de Djendú, a 80 quilómetros da capital da Guiné-Bissau, informou um responsável da aldeia situada nos arredores de Mansabá.

Citado pela rádio privada Galáxia de Pindjiguti, Malam Cissé informou que o engenho explodiu quarta-feira à tarde quando as crianças estavam a assar a castanha do caju e as mulheres na extracção do óleo de palma.

“As crianças assavam a castanha do caju, como fazem quase todos os dias, as mulheres estavam a extrair o óleo de palma, de repente há um estrondo enorme na aldeia. Foi uma tragédia. Uma menina morreu logo ali, a outra viria a falecer a caminho do hospital”, declarou Malam Cissé.

Este responsável pediu às autoridades centrais em Bissau que façam deslocar técnicos ao local para que possam vistoriar a aldeia.

“Temos medo. Quem sabe não haverá lá mais engenhos explosivos”, afirmou Cissé.
De acordo com este responsável, a ‘Tabanca’ (aldeia) de Djendú “está de luto” pela morte das duas crianças, mas também “apreensiva”, uma vez que dez pessoas foram atingidas pela explosão, encontrando-se internadas em diferentes hospitais do país.
“Só Deus sabe o que vai acontecer a essas pessoas”, declarou Malam Cissé, acrescentando que a população está com medo dos engenhos explosivos.

“Quem nos garante que podemos apanhar o nosso caju sem correr o risco de pisar numa bomba?”, questionou Malam Cissé, sublinhando que o engenho que explodiu estava na aldeia “há muitos anos”. MB.


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Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 16 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXIII: Do Porto a Bissau (17): Finalmente entrámos em Sinchã Jobel (A. Marques Lopes)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Guiné 63/74 - P4272: O Nosso Livro de Visitas (59): Em busca de Pami Na Dono, a guerrilheira (Branco Alves / Mário Fitas)

Cascais > 9 de Abril de 2009 > Comemorações da Batalha de La Lyz (Flandres, Bélgica, I Guerra Mundial, 9 de Abril de 1918) > "Embora tarde, não quero deixar de enviar as fotos referentes às comemorações da batalha de La Lyz no passado dia 9 em Cascais. Guarda de Honra e Guiões da Associação de Comandos, Liga dos Combatentes e Associação de GEs. O porta guião da Liga dos Combatentes, Orlando Rosa, pertenceu à C.CAÇ 1567, Guiné" (MF).

Cascais > 9 de Abril de 2009 > " Foto: o primeiro do lado direito é Mário Fitas, ex-Fur Op Esp, CCAÇ. 763, Cufar, tendo à sua direita Luciano Mourão, Presidente da Junta de Freguesia do Estoril que pertenceu à C.CAÇ 816 em Bissorã. Ao lado do Gen Chito Rodrigues, o dr. António Capucho, presidente da Câmara de Cascais, seguindo-se o Comandante Naval de Cascais" (MF)

Fotos (e legendas): © Mário Fitas (2009). Direitos reservados.



1. Mensagem de Branco Alves, com data de 27 de Abril:

Meus Caros Luís Graça & Camaradas da Guiné

Há alguns meses ao procurar a palavra GUINÉ, deparei casualmente com algo que desconhecia, ou seja, este admirável PONTO DE ENCONTRO dos ex-militares que de passagem por aquela TERRA se transformaram de adolescentes em homens numa rápida, dificil e desconhecida transição.

Tenho saboreado, por um lado com alguma tristeza mas por outro com um pouco de orgulho escondido, a generosidade da juventude daquele tempo que se entregou, dando a própria vida em muitos casos, e o esforço e dedicação em tudo o mais que lhe era exigido, com um esgar de esforço num momento breve para no seguinte irradiar a satisfação do sorriso no cumprimento da obrigação.

Algumas vezes viajo acompanhando os excelentes contadores de histórias no deambular das suas narrativas que tão sabiamente transmitem a sua vivência daquele tempo. OBRIGADO A TODOS ... e que apareçam muitos mais.

Tenho adquirido, sempre que possível, alguma literatura respeitante ao tema da GUINÉ BISSAU e acompanho com bastante preocupação o desenrolar sinuoso da vida daquele país; há algum tempo algumas publicações, referidas no blogue, chamaram a minha atenção, vou encontrando uma por outra, mas há uma delas que por mais voltas que tenha dado em livrarias que não consigo encontrá-la: Trata-se de Pami Na Dono, a Guerrilheira, de Mário Vicente Fitas.

Será possível encaminharem-me no sentido de obter essa publicação ? Agradeço e fico a aguardar a vossa informação, se assim o entenderem.

Bem, meus caros, certamente que perguntarão, e com bons motivos, quem é este pendura; pois estive na GUINÉ entre Fevereiro de 1970 a Janeiro de 1972 em EMPADA, BUBA e BISSAU, integrado na CART 2673, LEÕES DE EMPADA, como Alferes Miliciano e o meu nome é Branco Alves.

Um grande abraço para todos, Branco Alves.


2. Resposta do Mário Fitas, autor do livro em questão:

Caro Branco Alves,

É com imenso o gosto que te ofereço o livro Pami na Dondo, a Guerrilheira, basta dizeres para onde queres que o envie.

Antecipadamente chamo a atenção que o livro não é uma grande obra literária, mas sim um documento de grande valor para análise do que foi a Guerra na Guiné.

Fui Fur Mil de operações especiais, da CCAÇ 763, companhia em quadricula no sector de Cufar, um pouco abaixo de Empada.

A CCAÇ 763 fez a sua comissão toda em Cufar. Actuando desde Cufar a Cobumba e passando para o outro lado do Cumbijã: Camaiupa, Cachaque, Cabolol, Cobumba, Flaque Injã, Caboxanque, Cadique, Darsalame, cruzamento de Salancaur/Mejo, etc...as suas bolanhas, matas, pântanos e rios, foram itinerários das férias deste BANDO em terras da Guiné, por isso com alguma experiência (vivida).

Como o rio Cumbijã é bastante longo, envio um abraço do seu tamanho.

Mário Fitas


PAMI NA DONDO, A GUERRILHEIRA
Autor: Mário Vicente [Mário Fitas]
Prefácio: Carlos da Costa Campos, Cor
Capa: Filipa Barradas
Edição de autor
Impressão: Cercica, Estoril, 2005
Patrocínio da Junta de Freguesia do Estoril
Nº de páginas: 112

Advertência: Trata-se de uma obra de ficção, embora inspirada em factos reais, em especial na actuação da CCAÇ 763, os Lassas, que estiveram e viveram em Cufar, no sul da Guiné, nos anos de 1965 e 1966.

__________

Nota do Editor:

Vd. último poste da série de 24 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4074: O Nosso Livro de Visitas (58): Carlos Ventura, ex-combatente da Guiné da CCAV 3406/BCAV 3854 (Nova Lamego, 1972/74)

Guiné 63/74 - P4271: Dossiê Guileje / Gadamael 1973 (10): Respondendo ao João Seabra (António Martins de Matos)

1. Mensagem, com data de 19 de Fevereiro último , de António Martins de Matos (que foi Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74, e que é hoje Ten Gen Res):


Amigo Luis: Tinha prometido não voltar ao tema Guileje.Atendendo que este é mais Gadamael e que o João Seabra merece uma resposta, junto te envio um comentário ao seu texto.

Um abraço
António Martins de Mato.


2. Dossiê Guileje / Gadamael (10) > Resposta ao João Seabra

Caro amigo:

Os meu respeito e admiração por tudo o que passaste em Guileje e Gadamael. Gostei dos teus comentários, quando me bates, és construtivo. Só isso me faz voltar ao tema que considerava terminado.

Sobre a data da ida a Kandiafara, estou 98% seguro de ter sido em 18 Junho de 1973.

Durante o dia fomos lá por três vezes, no total entregámos 36 bombinhas (12 de cada vez), das que o José Casimiro Carvalho, também ele “Pirata do Guileje” diz que “até abanam os tomates”.

Da primeira vez receberam-nos com Strelas, antiaérea de 37 mm e quádruplas de 12,7 mm. Da segunda vez, com as antiaéreas de 37mm e 12,7 mm. À terceira já não disseram nada.

Resultados, só os do PAIGC nos poderão informar.

Cabe aqui um parêntesis para registar o modo interessante como os nossos amigos da Guiné Bissau vêm a guerra, e como nós vamos aceitando este estado de coisas.

Só ... grandes operações ....,grandes vitórias, ... grandes destruições.

Em relação à FAP, abateram 400.000000000 aeronaves!!!

Alguém já viu, leu algo sobre os seus desaires?

Nesta história Guileje/Gadamael, tiveram alguma baixa? Ou foi só malhar nos tugas?

Simpósio cá, lá, acolá, não querem, não podem, não sabem?

Na mesma onda está o documentário da Diana Andringa, As duas faces da Guerra. Com todo o respeito por “gregos e troianos”, só vi uma das faces da guerra, a outra foi pura e inexplicavelmente esquecida.

A haver um prémio para reportagens tendenciosas, ... está no papo.

Voltando ao tema... Quanto ao pedido de apoio do Cap Folques - “ Ó Tigres, não se vão embora que estes gajos querem-me deixar aqui sozinho” - , ele não comandava Pára-quedistas mas sim Comandos Africanos.

Também eu penso que o BCP 12 e os seus homens deveriam ter sido homenageados pelo que fizeram na Guiné, em especial durante o Maio/Junho 73.

Finalmente e em relação a um tema que é amiúde relatado, a falta de regulação do tiro do obus 14 cm, onde o ónus da ineficácia é sempre atribuído à FAP e que, como dizes, terá feito com que os projécteis tenham sido distribuídos “in the middle of nowhere”, cá vai mais uma acha para a fogueira:

A pergunta é: Porque razão os obuses de 14 cm não estavam reguladas?

O que diz o livro do CL [Coutinho e Lima], página 44 - “em virtude das restrições do emprego dos meios aéreos, não tinha sido possível fazer a regulação do tiro do material de 14 cm”. ~E na página 78 volta a afirmar que “os obuses não foram regulados por falta de meios aéreos”.

Terá sido mesmo assim? Analisemos a situação.

Os obuses eram três, só dois foram para o Guileje, isto em 16 de Maio, (cinco dias antes da retirada), um deles estava inoperativo, ou seja, APENAS UM OBUS PODIA SER REGULADO.

Ainda assim, a regulação poderia ter sido feita, pois que as restrições da FAP resumiam-se a aterrar e descolar de Guileje, os aviões podiam voar a 6000 pés, altitude mais que ideal para o regular o tiro da artilharia.

Pergunta que deixo no ar:

“ALGUEM PEDIU A REGULAÇÃO DO TIRO DE ARTILHARIA PARA O ÚNICO OBUS OPERATIVO DE GUILEJE?”

Um abraço

António Martins de Matos


PS - Acabo estes temas sem estar seguro como se escreve a palavra, Guileje com J ou Guilege com G. (**)

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Notas de L.G.:

(*) Vd. último poste desta série > 23 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4239: Dossiê Guileje / Gadamael 1973 (9): Eu, a FAP, o BCP 12 e a emboscada de 18 de Maio (João Seabra)

(**) Vd. poste de 29 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2800: Em bom português nos entendemos (1): Guidaje e não Guidage (Luís Graça / Carlos Rocha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa)

Vd. texto relacionado > Guileje (e não "Guiledje")

Guiné 63/74 - P4270: Blogpoesia (42): Reflexão - É mais fácil (Juvenal Amado)

1. Mensagem de Juvenal Amado (*), ex-1.º Cabo Condutor, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1972/74, com data de 25 de Abril de 2009:

Caros camaradas Luís, Carlos, Virgínio e restante Tabanca Grande

A razão de cada um embora de respeitar, é necessáriamente diferente.
Assim o que é fácil para uns é dificil para outros.

Foi o que os soldados que em 25 de Abril de 1974 nos devolveram.
A nossa opinião e o direito de anuir ou de discordar como um direito mais elementar.

Hoje na A. R. um ex-militar de Abril chorou. Independentemente da sua bancada politica, foi importante a razão porque chorou.

Um abraço
Juvenal Amado


É MAIS FÁCIL

É mais fácil ignorar, do que constatar.

É mais fácil abdicar, do que reagir.

É mais fácil acreditar em Deus, do que não acreditar.

O acreditar pressupõe que, nos momentos em que nada mais há, essa certeza ajuda-nos a suportar as mais duras provas.

Aceitar o desígnio de Deus e resignar, dizem que também facilita.

Às vezes é mais fácil morrer, que viver.

Para os que acreditavam nos valores da Pátria, foi mais fácil aceitar a guerra, do que para os eram contra.

A guerra teve intervenientes e interesses diferentes;

Uns foram porque convinha à sua vida profissional. Para esses foi fácil.

Contaram as comissões.

Outros foram para a guerra convictos, de que a causa era justa e eram mandatários de um direito divino, sobre os povos africanos sobre alçada do Estado Novo, onde até Deus estava com as cores da nossa Bandeira.

Para estes também foi mais fácil.

Depois houve os outros. Os que foram à força, e que embarcaram engolindo as suas convicções antiguerra e anticoloniais.

Quando à soma dos dias se somaram os mortos, os feridos e evacuados.

Contaram os dias e os meses.

Foi muito difícil.

A carga é mais leve ou mais pesada, consoante a razão que a carrega.


Juvenal Amado
25.04.2009
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 18 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4207: In Memoriam (20): Para o António Ferreira e demais camaradas mortos no Quirafo (Juvenal Amado)

Vd. último poste da série de 25 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4249: Blogpoesia (41): "Para quê, Soldado?" (Luís Dias)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Guiné 63/74 - P4269: Agenda Cultural (10): Ciclo de Encontros Guerra Colonial: Realidade e Ficção - Alverca do Ribatejo (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos, ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70, com data de 15 de Abril de 2009:

Meu prezado Carlos, Não consegui abrir o documento que diz Guerra Colonial. Vê se tem interesse, por favor.
Um abraço do Mário

2. Conteúdo da mensagem (e seus anexos) referida por Beja Santos:

Exmo. Senhor,

No seguimento da nossa conversa telefónica, junto envio um resumo das sessões do ciclo de conferencias, conforme o que me solicitou. Envio também os materiais de divulgação para a sua sessão.

Cumprimentos
Ana Sousa

CICLO DE ENCONTROS GUERRA COLONIAL: REALIDADE E FICÇÃO
BIBLIOTECA MUNICIPAL DE ALVERCA DO RIBATEJO


Cartaz que anuncia a intervenção do nosso prezado camarada Mário Beja Santos, na 7.ª Sessão do Ciclo de Encontros, a ter lugar no dia 23 de Maio próximo, na Biblioteca Municipal de Alverca do Ribatejo.

“Guerra Colonial: Realidade e ficção”

1ª Sessão - 8 de Março, pelas 15.30h, com o Professor Doutor Rui de Azevedo Teixeira, na Biblioteca Municipal da Quinta da Piedade.

Biografia do autor convidado:
Alferes dos Comandos em Angola (1973-75);
Licenciatura e Mestrado em Filologia Germânica ;
Doutor em Letras (Aachen / Alemanha);
Docente Universitário em Angola e Moçambique;
Professor na Universidade de Colónia e na Universidade Aberta (desde 1998);
Autor dos livros “A Guerra Colonial e o Romance Português: agonia e catarse”, “A Guerra e a Literatura”, “O Fim do Império e a Novelística Feminina”, “O Leitor Hedonista: Sobre o Romance Português e Outros Textos” e “Uma Proposta de Cânone”;
Presidente da Comissão Organizadora e organizador dos volumes de textos das Actas dos I e II Congressos “A Guerra Colonial: Realidade e Ficção”;
Consultor do documentário “Anos de Guerra. Guiné 1963-1974” (RTP 1);
Autor do documentário “A Guerra Colonial: Realidade e Ficção” (UA / RTP 2).

2ª Sessão - 31 de Maio, pelas 16.30h, com o escritor Carlos Vale Ferraz, na Biblioteca Municipal de Alverca.

Notas biográficas do autor convidado:
Carlos Vale Ferraz (pseudónimo literário de Carlos Matos Gomes), foi oficial do exército. Cumpriu comissões durante a Guerra Colonial em Angola, Moçambique e Guiné nas tropas especiais “Comandos”.
Publicou os romances Nó Cego, ASP – de Passo Trocado, Os Lobos Não Usam Coleira, O Livro das Maravilhas, Flamingos Dourados e a novela Soldadó.
Colaborou com Maria de Medeiros no argumento do filme Capitães de Abril. É autor do guião da série de televisão “Regresso a Sizalinda”, com base no romance Fala-me de África.
Autor e Co-autor de várias obras sobre a história da guerra colonial: Guerra Colonial, Moçambique 1970: Operação Nó Gordio e Guerra Colonial: um Repórter em Angola.

3ª Sessão - 19 de Junho, às 21.30h, com as Dr.as Lídia Jorge e Carina Santos, na Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira,

Bibliografia da escritora Lídia Jorge:
Romance:
O Dia dos Prodígios (1960)
O Cais das Merendas (1982 – Prémio Município de Lisboa)
Notícias da Cidade Silvestre (1984 – Prémio Literário Município de Lisboa)
A Costa dos Murmúrios (1988)
A Última Dona (1992)
O Jardim sem Limites (1995 - Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa)
O Vale da Paixão (1998 – Prémio Bordallo da Literatura da Casa da Imprensa; Prémio D.Diniz da Fundação da Casa de Mateus; Prémio PEN Clube Português de Ficção; Prémio Máxima de Literatura; Prix Jean Monnet de Literatura Européenne, European Writer of the year)
O Vento Assobiando nas Gruas (2002 – Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, 2003 – Prémio Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, 2004)
Combateremos a Sombra (2007)

Contos:
A Instrumentalina (1992)
Marido e outros Contos (1997)
O Belo Adormecido (2004)

Teatro:
A Maçon (1997)

Infantil:
O Grande Voo do Pardal (2007)

Bibliografia de Carina Santos, Mestre Interdisciplinar em Estudos Portugueses:

Ensaio:
A escrita feminina e a guerra colonial”, Editora Vega, 2003. Este trabalho inovador analisa o global da escrita feminina sobre o período da guerra colonial e, assim, o entendimento feminino de uma guerra de homens, pelas mulheres apenas sentida.

4ª Sessão – 27 de Setembro, às 15.30h, com o jornalista Joaquim Furtado, na Biblioteca Municipal de Alverca.

Jornalista de rádio e televisão, Joaquim Furtado foi o locutor que, na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, leu o primeiro comunicado do MFA no Rádio Clube Português.
Sendo, autor de diversos programas, destacam-se “Os anos do Século” e mais recentemente, a série “A guerra”, galardoada com o Grande Prémio Gazeta, atribuída pelo Clube de Jornalistas. Com este programa televisivo, dedicado à guerra em que os portugueses se viram envolvidos em África, estamos perante uma investigação baseada numa cuidadosa e criteriosa pesquisa de arquivo, mas cuja construção narrativa, ao cruzar géneros jornalísticos diferenciados, possibilitou uma reconstituição de grande significado documental que, simultaneamente, permite uma melhor compreensão e abre novas perspectivas de abordagem sobre um período e acontecimentos de importância fundamental na nossa História recente.

5ª Sessão – 29 de Novembro, às 15.30h, com o escritor e ex-combatente, António Brito, na Biblioteca Municipal da Quinta da Piedade.

António Brito
Nasceu em Coimbra e é licenciado em Direito.
Antigo combatente da Guerra Colonial, aos 18 anos alistou-se nas Tropas Pára-quedistas, sendo mobilizado para Moçambique onde combateu nalgumas das mais importantes operações militares contra os guerrilheiros nacionalistas.
Colaborou em jornais de Moçambique e Portugal, trabalhou em multinacionais e escreveu argumentos e guiões para televisão. O romance “Olhos de caçador”, embora sendo uma obra de ficção, é baseado nas vivências africanas do autor na guerra de guerrilhas no antigo território português do Índico.

Olhos de Caçador” – Sinopse

“Olhos de caçador conta-nos a história de Zé Fraga, soldado mobilizado para a guerra colonial em Moçambique. Contrabandista e passador de emigrantes, vivia de expedientes e pequenos golpes nas serranias das Beiras e na fronteira com Espanha, até ao dia em que é preso, alistado e mobilizado compulsivamente para África. O passado rústico na fronteira vai fazer dele o soldado mais adaptado à dureza do mato africano, tornando-o uma referência de coragem e liderança para os soldados da Companhia. O seu comportamento ousado e provocador fá-lo confrontar-se com o comandante, mas é admirado pelos colegas do pelotão e temido pelo inimigo.

6ª Sessão - 28 de Março, às 15.30h, com a presença de dois autores do nosso concelho, Cristina Silva e Carlos Coutinho, na Biblioteca Municipal da Quinta da Piedade.

Biografia de Cristina Silva
Cristina Silva nasceu em 1964. É docente universitária, leccionando as cadeiras de Psicologia da Comunicação e da Linguagem e Seminário de Estágio no Instituto Superior de Psicologia Aplicada.
Doutorada em Psicologia da Educação, especializou-se na área de aprendizagem da leitura e da escrita, desenvolvendo investigação neste domínio com obra científica publicada em Portugal e no estrangeiro.
Em 2002 efectuou as primeiras incursões no domínio da literatura, tendo publicado até ao momento os romances: Mariana, todas as cartas (2002), Bela (2005), À meia-luz (2006) e As fogueiras da inquisição (2008)

Biografia de Carlos Coutinho
Carlos Alberto da Silva Coutinho nasceu em 1943. Mobilizado para a guerra colonial, passou dois anos em Moçambique como enfermeiro militar de Neuropsiquiatria.
Muito empenhado na agitação política, participou num movimento espontâneo e nunca articulado de criadores de cantigas de protesto que esteve na origem do “Cancioneiro do Niassa”. Regressado a Lisboa em 1969, enveredou pelo jornalismo e integrou-se mais profundamente na luta política contra o regime e a guerra colonial, vindo a ser preso em Fevereiro de 1973. Foi libertado em 26 de Abril de 1974, com a Revolução dos Cravos, tendo retomado a sua carreira jornalística em paralelo com uma actividade literária diversificada, de onde se destacam as novelas “Uma noite na guerra” e “O que agora me inquieta”, para além de diversas peças de teatro e de textos na área do jornalismo.

7ª Sessão - 23 de Maio, às 15.30h, com o Dr. Mário Beja Santos, na Biblioteca Municipal de Alverca.

Era uma vez um menino alferes que chegou à Guiné e foi lançado no regulado do Cuor, no Leste, em 1968. A sua missão principal era proteger o rio Geba, garantindo a sua navegação, indispensável para a continuação da guerra. O alferes comandava dois aquartelamentos e alguns dos soldados mais valentes do mundo: caçadores nativos e milícias, gente que vivia no Cuor, em Missirá e em Finete. Mas havia outras missões, para além de proteger o rio: emboscar, patrulhar, minar, atacar e defender, garantir um professor para as crianças, reconstruir os quartéis flagelados, levar os doentes ao médico, praticar com o régulo, um destemido Soncó, neto de Infali Soncó que derrotara Teixeira Pinto no dealbar do século XX. Era uma vez um alferes que aprendeu a trabalhar com um morteiro 81, a emboscar na calada da noite, a enterrar os mortos e a levar os moribundos às costas. Era uma vez um alferes que se deslumbrou com as terras dos Soncó e que resolveu escrever um diário para se manter vivo e lembrar aos entes queridos que se estava a fazer um homem. A partir daquela guerra, Cuor e os Soncó viveram para sempre no coração do alferes. Era uma vez…”
Documentos de Divulgação em anexo.

8ª Sessão – 18 de Junho, às 21.30h, com Dalila Cabrita Mateus, na Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira.
Esta sessão, com o título específico “Sobre a Guerra Colonial”, será apresentada por Dalila Cabrita Mateus, Doutora em História Moderna e Contemporânea e Investigadora do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa (ISCTE).
Obras publicadas sobre a temática da Guerra Colonial:
Memórias do colonialismo e da guerra / Edições Asa, 2004
A Pide/DGS na Guerra colonial: 1961-1974 / Terramar Editores 2004
A luta pela independência / Editorial Inquérito, 1999

Outras sessões previstas sem convidado definido:
26 de Setembro
29 de Outubro
28 de Novembro
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 24 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4244: Agenda Cultural (10): Ciclo Temático "Portugal e a Memória, Guerra Colonial", 24 de Abril a 9 de Maio de 2009, em Torres Vedras

Guiné 63/74 - P4268: Bandos... A frase, no mínimo infeliz, de um general (17): Até que a voz me doa (Manuel Maia)

1. Mensagem de Manuel Maia (*), ex-Fur Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine, (1972/74), com data de 28 de Abril de 2009:

Ainda e sempre, e "até que a voz me doa", proclamarei a minha revolta contra os insultos de que fomos alvos indefesos (não estávamos presentes para rebatermos de imediato as aleivosias proferidas por A.B. no excerto do programa "Guerra" de Joaquim Furtado passado na RTP...) A este propósito não sei até que ponto seria de pensar fazer chegar o nosso blog a Joaquim Furtado, para que ele próprio pudesse daí tirar as ilações óbvias...

Das sextilhas que ora envio como forma de repúdio pelo silêncio mantido desde então pelo general, estou em crer que te enviei duas juntamente com umas oitavas na outra semana,ou duas atrás...

Agradeço que confiras, e confirmes, por favor, e se acaso o entenderes publica-as agora com estas, retirando as tais duas repetidas...

Um abraço para toda a tabanca.
Manuel Maia


Na ostentação de estrelas imer´cidas,
à custa de mil "bandos" conseguidas,
não sabe a criatura o que é vergonha.
O homem dos ray-ban,narciso feito,
carrega a lataria presa ao peito
mostrando pouca honra e muita ronha...

Acreditei que espicaçando a B.
"êsta" reagiria,ja se V.
engano meu,mutismo é sepulcral.
Os mortos mereciam mais respeito
daí esta evolta no meu peito
contra a desfaçatez do general...

Tem sangue de barata o "nosso herói"
sem pingo de vergonha,o que mais dói,
na ´sp´rança de que o tempo sare as feridas...
Por mim, jamais, prometo, ver esquecidos
a humilhação, o insulto dirigidos
a todos quantos lá deixaram vidas...

Um homem quando grande de verdade
assume os erros, mostra humildade,
lhaneza de carácter e lisura.
Quando estes atributos estão ausentes
assiste-se a posturas deprimentes
tal qual as teve a dita criatura...

Se escriba da VISÃO fez "mea culpa"
mostrando dignidade na desculpa,
porfia o estrelado em ser teimoso.
A cada dia o dito evidencia
ausência dum bom chá que lhe daria,
o porte de "homem grande" não vaidoso.


OBS: Caso para dizer: - O nosso Manuel não desiste
CV
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 29 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4263: Bandos... A frase, no mínimo infeliz, de um general (16): Não devemos desistir e remeter-nos ao silência (Manuel Maia)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Guiné 63/74 - P4267: O Nosso IV Encontro Nacional, Ortigosa, Monte Real, 20 de Junho de 2009 (3): Primeira lista de inscritos (Editores)


IV ENCONTRO NACIONAL DA TERTÚLIA
LUÍS GRAÇA & CAMARADAS DA GUINÉ


Caros camaradas e amigos tertulianos:

A sondagem que esteve patente na nossa página, para escolha da data do nosso próximo Encontro, deu os resultados que acima se apresentam (vd. gráfico).

Embora por pequena margem, ganhou o dia 20 de Junho: 27 votos num total de 64. Se considerarmos que votaram mais 5 na data seguinte (27 de Junho), o mês de Junho (sábados, 20 e 27) arrecadam 50% dos votos...

Em face dos resultados, resolvemos avançar com esta data (sábado, 20 de Junho de 2009) para não perdermos mais tempo.

Pede-se aos camaradas que já se tinham inscrito e que ainda o não fizeram, o favor de reconfirmarem a inscrição.

As inscrições devem ser feitas para mim, Carlos Vinhal, concentrando assim toda a informação num só local ou pessaoa.

Quando se inscreverem, digam sempre o nome da vossa bajuda, de onde se deslocam e, caso precisem, peçam a reserva para a dormida.

Em princípio ficaremos, os que assim quiserem, na Pensão Santa Rita, a mesma do ano passado. As instalações são razoáveis e tem parque privativo para o carro.

Como aconteceu em anos anteriores, os tertulianos poderão fazer-se acompanhar de outros camaradas não pertencentes à nossa Tertúlia. Todos os ex-combatentes serão bem-vindos.

Escusado será lembrar que uma inscrição atempada evita muito trabalho ao nosso camarada Mexia Alves, pois junto à data do Encontro tem de andar a correr todos os dias para o Restaurante para actualizar o número de participantes.

Para os mais distraídos fica a informação de que o IV Encontro será no mesmo local do III, Ortigosa, MOnte Real, Leiria, e o Restaurante será o mesmo, Quinta do Paúl.

Os do Norte têm como novidade a A17, a partir da A25, que tem uma saída para Monte Real. Chegando à EN 109 segue-se para sul, em direcção a Leiria.

Esquema de localização e de como chegar à Quinta do Paúl.


Lista provisória de inscritos

António Graça de Abreu - Cascais
António Martins de Matos - Lisboa
António Santos e Graciela - Loures
Artur Soares - Figueira da Foz
Belarmino Sardinha e Antonieta - Odivelas
Benjamim Durães - Palmela
Carlos Silva e Germana - Lisboa
Carlos Vinhal e Dina - Leça da Palmeira, Matosinhos
David Guimarães e Lígia Maria - Espinho (a confirmar)
Delfim Rodrigues - Coimbra
Eduardo Magalhães Ribeiro e Fernanda - Porto
Fernando Oliveira e Maria Manuela - Porto
Giselda Pessoa - Lisboa
Hernâni Acácio Figueiredo - Ovar
Humberto Reis e Maria Teresa - Alfragide, Amadora
Jaime Machado e Maria de Fátima - Lavra, Matosinhos
Joaquim Mexia Alves - Monte Real
Jorge Cabral - Lisboa
Jorge Picado - Ílhavo
José Brás - Montemor-o-Novo
José Casimiro Carvalho e Esposa - Maia (a confirmar)
José Manuel Matos Dinis - Cascais
José Pedro Neves e Ana Maria
Juvenal Amado - Fátima
Luís Graça e Alice - Alfragide, Amadora
Luís Moreira - Lisboa
Manuel António Rodrigues - Mortágua
Manuel Augusto Reis - Aveiro
Miguel Pessoa - Lisboa
Raul Albino e Rolina - Vila Nova de Azeitão
Ribeiro Agostinho e Elisabete - Leça da Palmeira, Matosinhos

Em próximo poste serão divulgados os preços do almoço e da dormida. Estas informações serão recolhidas pelo camarada Mexia Alves na próxima semana.

Um abraço e até breve
CV
__________

Nota de CV:

Vd. poste de 14 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4186: O Nosso IV Encontro Nacional, Ortigosa, Monte Real, 6 de Junho de 2009 (1): Abertura das hostilidades (Editores)

Guiné 63/74 - P4266: Louvores e condecorações (7):O 10 de Junho de 1973 - Um louvor, uma estrada e suas gentes: Cadique/Jemberém (António Manuel da Conceição Santos)

 



António Manuel da Conceição Santos 
Ex-Furriel Miliciano de Operações Especiais - RANGER da CCAÇ 4540






CCAÇ 4540 – CADIQUE (Região de Cantanhez – zona libertada) 1972 a 1974 

Breve resumo da minha trajectória na Guiné 


Desembarquei na Guiné em 26 de Outubro de 1972.
Como a CCAÇ 4540 já se encontrava no Norte da Guiné na localidade de Bigene, mandaram-me para lá com uma guia de marcha (transporte em coluna terrestre). Quem emitiu a guia de transporte não sabia as dificuldades que se deparavam para lá chegar, por esta via. Tenho impressão que, se não me tivesse "desenrascado", ainda hoje andava à procura de uma coluna militar com o mesmo destino. 
Todavia, encontrei em Bissau, um sargento meu amigo, cá dos "Algarves", que se prontificou a ir comigo ao Quartel-general de Bissau e responsabilizar-se pelo meu transporte até Bigene. 

Como ele era da marinha e precisamente nessa semana (finais de Outubro/1972) se deslocava a Bigene, para efectuar um reabastecimento à nossa Companhia de Caçadores, deu-me "boleia" e assim cheguei à minha guerra. 
A 12 de Dezembro de 1972, desembarcamos em Cadique – região de Cantanhez – zona libertada do PAIGC, cuja história conto e ilustro neste texto. 
Em finais de Agosto 1973, regressamos a Bissau e fomos colocados a 8 de Setembro de 1973 em Nhacra, ficando eu a comandar a secção de Ensalmá, que efectuava o controlo de viaturas que circulavam numa pequena estrada, que passava sob uma pequena ponte junto a esta localidade, muito próxima de Bissau. 
Em 25 de Agosto de 1974 regressei à Metrópole no paquete UÍGE, que chegou a Lisboa em 30 do mesmo mês, tendo passado à disponibilidade em 22 de Setembro de 1974. 
"10 de Junho de 1973" 
UM LOUVOR, UMA ESTRADA E SUAS GENTES 
Estávamos a 12 de Dezembro de 1972, quando desembarcámos de bordo, da LDG BOMBARDA, na localidade de Cadique, situada na península dos rios Cumbijã e Cacine. Levávamos como missão, recuperar a zona de Cantanhez ao PAIGC. Tal feito foi conseguido com o auxílio da Força Aérea Portuguesa e um bi-grupo da Companhia de Caçadores Paraquedistas – 121. Sua Exª O General António de Spínola (Governador e Comandante-Chefe das Forças Armadas), acompanhou sempre de perto o desenrolar desta operação que ainda tenho no meu pensamento. Foi designada por: “GRANDE EMPRESA” e durou até ao dia 17 de Agosto de 1973.  

Tudo foi muito difícil. Não havia nenhuma estrutura montada, a situação era de total isolamento e a logística era muito precária. Mas começamos por ir desbravando a mata que, naquela região era muito densa. Depois com a ajuda de máquinas de engenharia militar construímos as nossas “fortalezas”, uns pequenos buracos feitos no chão, tapados com paus de palmeiras e terra por cima (não fosse cair alguma morteirada lá em cima). Abrimos estradas, poços e construímos um heliporto e um cais. Assim criamos as mais ínfimas e elementares condições para sobreviver. 
Mais à frente da nossa posição, existia uma ou outra “tabanca” dispersas, ocupadas por velhos e crianças, pois os mais novos debandaram e juntaram-se ao PAIGC. Fomos desbravando a mata com muito custo e suor. O sol não nos ajudava muito, com um brilho intenso, passava repentinamente a escuro e barulhento. Trovoadas e chuvas intensas, faziam de nós farrapos humanos, mas lá conseguimos montar o nosso aquartelamento dentro de uma clareira que conquistamos àquela mata tropical. 
Assim, embora o terreno fosse plano estávamos cercados, por um lado por uma extensa bolanha, e pelo outro lado, pela extensa mata de Cantanhez até à aldeia de Jemberém. A Norte passava o Rio Bixanque que desagua no Cumbijã e a Sul tínhamos o Rio Macobum. Rodeados de mosquitos por todos os lados. 

Um pouco mais distante, mas não muito, encontramos a aldeia de Cadique Nalú e de Cadique Imbitina, com a existência de alguma população e um pouco mais a Norte, encontramos a aldeia de Cadique Iala, um importante aglomerado populacional. 
A minha CCAÇ 4540 (Companhia de Caçadores), esteve quase sempre acompanhada por uma Companhia de Paraquedistas, depois por uma Companhia de Fuzileiros e, finalmente, por uma Companhia de Comandos.  

Os primeiros contactos que tivemos fisicamente com os turras, eram quase diários, pelo que optamos pelas emboscadas. Nestas confrontações posso afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que a seguinte era sempre mais difícil que a anterior. Muitas foram as nossas acções programadas e concretizadas com a intenção de por fim à intensificação dosa ataques do inimigo que, cada vez mais, se fazia sentir naquela região de Cantanhez. 
Tinha que se fazer alguma coisa para por fim àquela flamejada situação. Então, politicamente, foi decidido construir uma estrada desde Cadique a Jemberém. 
Para tal, foi desbravada a floresta, palmo a palmo por uma Companhia de Engenharia Militar sendo que, a nossa Companhia de Caçadores 4540 ficou incumbida de fazer a protecção diária à obra, aos adstritos trabalhos da construção da estrada (*) e aos respectivos trabalhadores militares e civis. 
10 de Junho de 1973 
Assim, no dia 10 de Junho de 1973, em Cadique, fomos atacados com tiros de canhão sem recuo e morteiradas de 82, bem como com fogo de canhão 6F7-66 e 6F5-95. Nesse dia estávamos a descarregar a LDG “Bombarda”, que tinha vindo reabastecer as nossas tropas. Foi um inferno, só assim sei descrever, felizmente não houve vítimas, mas a destruição foi enorme. 
De imediato, as nossas tropas reagiram ao fogo do IN (inimigo) com morteiros de 60, bazucas, G3 e HK21, tendo também a LDG "Bombarda" reagido ao ataque do IN e, em simultâneo, foi pedido, por nós, apoio de fogo com obus a Cufar. 

Estava eu a chegar ao acampamento numa Berliet atestada de mantimentos que tinha ido carregar à LDG, quando subitamente, fomos atacados com artilharia pesada já dentro do acampamento. 
Acto contínuo (poucos dias antes tinha visualizado a zona numa carta militar), orientei o tiro do morteiro 81 para um “azimute” virtual, afim de determinar a localização do IN e, calculando mentalmente a distância então visualizada, fiz calmamente "cantar" o seu tubo. A raiva era tanta que acertei em cheio na base de fogo do IN, tendo-se feito um silêncio profundo e terminado o tiroteio de ambos os lados. 
Por estes factos fui assim, naquele dia 10 de Junho de 1973, louvado pelas altas patentes militares, pela eloquente maneira como reagi debaixo do intenso fogo IN. Fi-lo fora da minha posição de defesa, tornando-me útil ao acorrer de imediato ao espaldão do morteiro 81 e ao ser ainda o primeiro homem a reagir, acertadamente, ao ataque do IN. 

Após a construção daquela estrada, deixamos Cadique. É certo que ficámos com saudade, pois foi com muito sacrifício que ajudamos a construir aquela estrada. Posteriormente, colaboramos na construção de várias tabancas naquelas aldeias perdidas no mato e contrubuímos para o desenvolvimento e a prosperação daquela região de Cantanhez.  
Lá ficou um pedaço de nós todos, do nosso suor e muitas lágrimas derramadas e partilhadas com as nossas mães. Os nossos pais aguardavam desesperadamente o nosso regresso, pois as notícias tardavam e os meios de comunicação eram deficientes. Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que se ouvia o helicóptero chegar trazendo os nossos aerogramas. Eram notícias da civilização que se dissipavam à medida que se deixava de ouvir o ruído daquela máquina voadora. 

Dizia um, olha o meu filho já diz papá… mais ao lado, dizia outro com a voz triste e meio chorosa, chorosa sim, porque estava angustiado, que a namorada não aguentava mais tão longa separação e que sua mãe estava a passar mal. Outros encostados aos troncos das árvores, estavam em silêncio, daquele silêncio que todos nós já estávamos habituados, até que se ouviu um camarada, que olhando para o infinito do céu, murmurou: “Não tenho notícias da minha gente... há mais de três semanas que não recebo nenhum aerograma, não sei o que fazer”. 
Tudo isto meus amigos, meus camaradas de armas, marcou-nos de facto e como disse o nosso Capitão Manuel Varanda Lucas: “Pedaços de nós todos ficaram indissoluvelmente ligados para sempre a Cadique”.
Por muito que nós tivéssemos feito, ficou ainda muito por fazer, nomeadamente, não conseguimos transmitir os nossos usos e costumes às gentes daquelas aldeias, que viviam em tribos e se vestiam apenas com uma tanga. O seu modo de estar na vida, a sua alimentação era muito deficiente e o conceito de trabalho não existia. Estes nossos valores inquestionáveis não foram aceites por aquelas raças Balantas e Nalus. 
Hoje, tal como no passado, devemos erguer a nossa voz, para que as Organizações Internacionais interfiram junto dos mais jovens, na tentativa de encontrarem melhor sorte de vida. 

E a nós, “gentes” que tão bem, melhor do que nos ensinaram, soubemos defender a nossa Pátria, quais “Bandos” porque somos agora intitulados, mas que jamais ousamos voltar as costas ao perigo, mesmo nas mais sangrentas confrontações (e agora deixo de utilizar o termo IN), com os guerrilheiros do PAIGC. 

Que ousadia meu Deus, utilizar aquele termo de “bandos” que ofendeu muitos milhares de ex-militares que passaram por Angola, Moçambique, Guiné ou Timor. Quantos lá não ficaram, quantos regressaram mortos ou feridos, quantos não ficaram inutilizados para o resto da vida, quantos meu Deus?! 

Passados tantos anos, muitos ainda sofrem de doenças graves e apresentam traumas da guerra. 

Quantos não vieram sem pernas, ou sem braços?!

Quantos são aqueles que hoje nos apelidam de “Bandos”? 

Tu que está a ler este texto, dizes para contigo, conhecido “somente um”, que Deus o perdoe porque não sabe o que diz. 
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(*) - Estou a construir um blogue, cujo endereço é: http://www.umraiodeluzefezseluz.blogspot.com/, onde coloquei um ficheiro: “A MINHA GUERRA 1972 a 1974 Guiné” onde se pode ver essa mesma estrada e uma das aldeias. 
(António Manuel C. Santos, Ex-Furriel Miliciano de Operações Especiais/RANGER) 

Guiné 63/74 - P4265: Estórias avulsas (10): De que me lembro é dos mosquitos e do Lion-Brand (Fernando Oliveira)

1. Mensagem de Fernando Oliveira, ex-Fur Mil Rec Inf, Guidage e Mansoa, 1968/70, com data de 22 de Abril de 2009:

Amigo Carlos,

Já vi a minha apresentação na Tabanca e o texto que te enviei na altura. Obrigado pela tua disponibidade.

Hoje envio-te outro texto [já foi publicado no meu
blogue
no dia 14 deste mês], que fica ao teu dispôr, se considerares que é de publicar e, em caso afirmativo, quando achares coveniente, ok?

Este texto, como o outro que te referi no mail do pedido de admissão, também têm como objectivo a procura dos meus camaradas da especialidade. Vamos lá ver se consigo algum contacto.

Um abraço e saúde, sempre!
Fernando Oliveira


A minha tropa [2]

Guiné -> Guidage -> Nov.68 a Fev.69 [1]

Corria o mês de Setembro/68, na altura dava formação a recrutas em Vila Real, quando tive conhecimento da minha mobilização para a Guiné em rendição individual. E foi também deste modo que a mobilização saiu em sorte à maior parte dos meus camaradas de especialidade, todos eles colocados de norte a sul do país em diversas unidades militares. Com mais cinco ou seis, que, entretanto, foram deslocados para outros destinos ou funções, tínhamos feito parte do pelotão de RecInfo, em Tavira, durante o último trimestre do ano anterior.

Após uma viagem de cinco dias a bordo do Uíge, eu e os outros vinte e poucos daqueles camaradas, promovidos a furriéis milicianos por antecipação, por força da mobilização para o Ultramar, desembarcámos em Bissau na tarde de 28-10-1968.

Foi-nos dada formação militar específica durante duas semanas no SIM/CTIG em Bissau, com vista à criação de uma rede do serviço de informações por toda a Guiné. Findo esse período, tomámos, então, conhecimento dos sítios para onde cada um de nós seria deslocado, sendo notório para todos que a separação operacional do grupo começava naquela altura.

A mim, calhou-me ser enquadrado no destacamento de Guidage, situado no norte, junto da fronteira com o Senegal. Aos meus camaradas saiu-lhes a colocação individual em vinte e tal aquartelamentos ou destacamentos das nossas tropas na Guiné.

Um ou dois dias depois daquela comunicação, fui transportado, de manhã cedo, ao aeroporto militar de Bissalanca, perto de Bissau. E passado pouco tempo estava instalado dentro de um Dakota para um voo até Farim. Fiz a viagem sentado num dos bancos de cordas, existentes de cada lado do interior do avião.

Após a aterragem no campo de aviação de Farim e feitas as habituais diligências de apresentação ao respectivo comando, foi-me dito que a coluna militar para Guidage sairia apenas na manhã do dia seguinte. Nessa noite, se me recordo bem, fiquei instalado num barracão ou num hangar junto do aeródromo. E pela primeira vez tomei contacto com a realidade dos mosquitos na Guiné, que atacam em força e de qualquer jeito. Como no sítio não havia mosquiteiros, a alternativa foi a utilização do Lion (1) durante toda a noite.

Com uma noite mal dormida, na manhã seguinte apresentei-me junto do militar responsável pela coluna que ia sair de Farim. E não refiro que ia sair para fazer o trajecto de Farim até Guidage, pois recordo vagamente que o destino final do grosso desta coluna foi outro e que, pelo caminho, num cruzamento de picadas (2) estava à nossa espera uma coluna vinda de Guidage. Mas, como digo, a esta distância de 40 anos, a lembrança não é firme (3). Recordo ainda que a coluna saída de Farim era composta por um comboio extenso de viaturas, com vista ao transporte de militares, civis e abastecimentos diversos. Na cabeça da coluna e um pouco distanciada das restantes, creio que seguia uma viatura anti-minas, precedida de soldados a picar o caminho para detectar minas enterradas no chão. Não me lembro quantas horas demorou esta deslocação terrestre, nem sei se avistei Guidage ainda naquela manhã ou se a tarde já tinha avançado.

O certo é que cheguei ao destacamento de Guidage. Em que dia?... Não me recordo, sei apenas que estávamos em Nov/68.

Notas:

(1) Aquele nome era a marca de um produto, de cor verde, formatado em tiras finas e em espiral, que se colocava em cima de uma pequena base metálica. Queimando-se a ponta exterior da espiral, então, o produto ardia lentamente e deixava o ar impregnado de um odor que afugentava os mosquitos.

(2) Designação dada aos caminhos ou trilhos de terra, que serviam de acesso entre povoações e/ou instalações das nossas tropas ou do inimigo. Uns mais largos, outros mais estreitos, todos de difícil trânsito, quer pela possibilidade de colocação de minas por parte do inimigo, quer pelos efeitos alagadores da época das chuvas.

(3) Neste texto, como em outros que tenciono escrever a respeito da minha tropa na Guiné, há certas imprecisões acerca de alguns factos ou de datas. E agora não os posso confirmar, porque, devido às voltas e reviravoltas da minha vida pessoal, já não existem as centenas de cartas, aerogramas e fotos que enviei de lá durante dois anos.

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Notas de CV:

(*) Vd. postes de:

19 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4214: Tabanca Grande (135): Fernando Oliveira, ex-Fur Mil Rec Inf (Guiné, 1968/70)
e
21 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4225: Estórias avulsas (30): Periquitos empoleirados numa GMC (Fernando Oliveira)

Vd. último poste da série de 22 de Abril de 2009 : Guiné 63/74 - P4235: Estórias avulsas (31): Recordar aos poucos ou circuncisão espectacular (Hélder Sousa)