sábado, 21 de novembro de 2009

Guiné 63/74 – P5313: Estórias do Fernando Chapouto (Fernando Silvério Chapouto) (14): As minhas memórias da Guiné 1965/67 – Rotinas perigosas IV


1. O nosso Camarada Fernando Chapouto, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 1426, que entre 1965 e 1967, esteve em Geba, Camamudo, Banjara e Cantacunda, enviou-nos a 14ª fracção das suas memórias. Esta sua série foi iniciada em 29 de Agosto p.p., no poste P4877.

AS MINHAS MEMÓRIAS DA GUINÉ - 1965/67
Rotinas perigosas IV

Chegado a Cantacunda foi tempo de conhecer os cantos à casa, denotando, desde logo, que as instalações eram muito precárias. Pior só BANJARA, aonde me havia deslocado uma ou duas vezes para jogar futebol, após o que regressávamos a Camamudo.

Conhecidas as instalações, fomos visitar a Tabanca, contactar com os usos e costumes do pessoal na localidade (especialmente o das bajudas como é óbvio) e arranjar lavadeira.

Cantacunda era uma Tabanca muito estranha, notamos que a maior parte da população era muito desconfiada, de tal modo que não consegui, durante o mês e meio que lá estive, chegar a uma conclusão sobre as origens que motivavam essa desconfiança.

Detectamos a presença de várias pessoas estranhas à nossa tropa, que por ali circulavam, uns a apeados, outros de bicicleta, que habitualmente se juntavam sob os mangueiros a conversar, debandando quando nos aproximávamos. Perguntei aos soldados nativos, quem eram e donde vinham, mas ninguém me sabia, ou não queria, responder, em nítida posição de cumplicidade.

Assim, conhecidos os cantos da casa e da Tabanca, juntamos o pessoal necessário e procedemos ao reconhecimento da periferia, para nos certificarmos da vivência nos arredores da Tabanca, nomeadamente em algumas picadas. Numa delas verificamos sinais de movimentação humana, muito pouco vulgar, já para além da bolanha.

Regressados ao destacamento fui dar conhecimento ao Furriel Paio das minhas desconfianças, sugerindo-lhe que aquela picada mais movimentada fosse armadilhada. Ele concordou comigo e no dia seguinte, a seguir ao pequeno-almoço, falei com o Furriel Paio para que me cedesse nove ou dez soldados da companhia e um soldado nativo conhecedor desta ZO, equipados com o armamento usual, para efectuarmos um reconhecimento mais atento e pormenorizado à citada picada e montarmos então as tais armadilhas.

Muni-me de duas granadas defensivas e lá saímos. Passamos a bolanha e caminhamos mais um ou dois quilómetros. Escolhi um local que me parecia mais discreto, junto a uma pequena árvore com vegetação em volta, para colocar uma das armadilhas usando uma das granadas que eu transportava. Montei um círculo de segurança no perímetro, enquanto executava a montagem, acerca de um palmo do solo, dissimulada pelos arbustos que ali existiam dos dois lados do caminho (seguindo as instruções e conhecimentos que recebera nos “ranger’s”).

Para quem não sabe ou já esqueceu, estas colocações obrigavam a fazermos uma descrição da montagem da armadilha, com a sua localização exacta (indicando pelo menos um ponto de referência evidente e EXACTO do local), e, se necessário, elaborarmos um esboço ou esquema da colocação.

Tal se devia a que, posteriormente, serviria não só para comunicação a todo o pessoal da nossa Unidade, desta perigosa e mortífera existência, bem como em caso de nova decisão, se proceder à sua EXACTA desmontagem.

Cumprindo então as normas aprendidas, seleccionei uma árvore seca de grande porte com uma bifurcação enorme e utilizando a orientação possível e o medidor habitual (contagem de passos), elaborei o croqui (que aperfeiçoei quando cheguei ao destacamento), contendo todos os pormenores, para que, como foi dito, caso não fosse accionada a granada pelo IN, quem tivesse que executar a desinstalação não tivesse qualquer dúvida da sua exacta localização.

Escusado seria dizer aqui, que o mínimo erro na elaboração de um croqui desta natureza, poderia significar um drama humano fatal à NT.

Mais uns dias passaram, gastos em voltas pela Tabanca para conhecimento mais intestino dos movimentos de alguns elementos, que me pareciam esquisitos e na tentativa de compreender e assimilar o dialecto empregue pelos nativos, que foi coisa de que nunca consegui entender patavina (nem de fula, nem de mandinga), exceptuando apenas algumas palavras em crioulo, nada mais.

Digo que, também a minha, nossa, missão não era essa, mas sim defender e proteger a população, para que, com a nossa presença, se sentisse mais segura.

Aos fins de tarde, com o sol ameaça desaparecer, davam-se uns pontapés na bola, sem nunca conseguirmos onze “artistas” para cada lado, a que se seguiam os indispensáveis banhos, no belo “balneário” ali existente.

Foto do lavatório típico das péssimas condições existentes em Cantacunda

Mais uns dias de descanso se passaram, a que se seguiu um novo reconhecimento das picadas e, especialmente, a verificação do estado da armadilha que havíamos colocado, se tudo estava como deixáramos. Quando cheguei à árvore de referência, ordenei aos soldados que se dividissem em dois grupos e penetrassem para dentro do mato, ao longo da picada, até ao local da armadilha.

Toca a contar os passos seguindo o rumo da montagem, com cuidado, pois podia haver alguma surpresa até à armadilha e, para meu espanto, quando cheguei ao sítio da armadilha verifiquei que o fio estava partido, ou cortado. Analisei a armadilha e tudo estava normal, pelo que, pensei aqui há “gato”. Como levava a outra granada comigo, andei mais um quilómetro aproximadamente e montei-a num lugar muito estreito, com mato muito denso e com indícios de passagem de pessoas.

No regresso, ao passar pelo local onde se encontrava a primeira armadilha, introduzi uma cavilha em segurança na granada, mudei o fio de esticar, retirei a cavilha novamente e regressei ao destacamento, pois já estava na hora do almoço.

Aproximava-se o domingo de Páscoa e tínhamos agendado um jogo de futebol com a equipa de Capé, da parte da manhã. Era preciso ir à lenha para a cozinha e como o condutor estava atrasado, pediu-me que conduzisse eu a viatura. Lá fui eu num Unimog “dançarino”, até poucos quilómetros de Cantacunda, perto da bolanha, na direcção de Camamudo. Carregou-se a viatura e regressamos.

Eu carregava no acelerador e os nativos gritavam: - Força furriel!

E eu, extasiado, cada vez acelerava mais. O pior foi quando entrei num terreno arenoso e o Unimog, que já de si era muito instável e inseguro, guinou para um lado e para o outro e saiu da picada, obrigando-me a virar e a revirar o volante. Tive sorte, o veículo não saiu da picada e como não havia nada nas bermas, consegui dominar a direcção da viatura. Fiz uma tangente a uma árvore e retomei a picada. Milagrosamente chegamos todos inteiros ao destacamento, não ganhei para o susto mas ficou-me a experiência para o futuro. Aprendi a ter mais cuidado, pois com a carta de condução há apenas dois meses, não tinha qualquer noção de condução no mato.

Descarregada a lenha, subiram os jogadores da nossa equipa seleccionados para a viatura, pois o jogo era às dez horas. Capé distava cerca de 20 kms, cujo trajecto percorremos rapidamente, chegando antes da hora prevista. Como o pessoal já ia meio equipado, apenas tiramos o camuflado e começamos o jogo. Tudo correu bem excepto o resultado final do jogo. Fomos derrotados por 1-0.

Acabado o jogo regressamos a Cantacunda, tomamos banho e fomos almoçar com o restante pessoal da companhia, que já estava à nossa espera.

Foto da equipa de futebol de Capé capitaneada pelo bem conhecido Carlos Barbosa, filho do patrão da refinaria de cana de açúcar local. É o primeiro em pé, a contar da direita.

(Continua)

Um forte abraço do,
Fernando Chapouto
Fur Mil Op Esp/Ranger da CCAÇ 1426

Foto: Fernando Chapouto (2009). Direitos reservados.
__________
Nota de MR:

Vd. poste anterior desta série, do mesmo autor, em:

Guiné 63/74 - P5312: Historiografia da presença portuguesa em África (31): José Henriques de Mello, o primeiro fotógrafo de guerra português (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos*, (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Novembro de 2009:

Malta,
Resolvi separar as fotografias da guerra das da paz. É um álbum muito expressivo, revela-nos um fotógrafo excepcional. É claro que para mim o mais tocante passa pelo Cuor, está lá tudo desde Mato de Cão, as campanhas dentro do regulado, o ataque a Madina (será, mais de 50 anos depois, um dos santuários do PAIGC), pela primeira vez vi a corte de Infali Soncó, o mais rebelde entre os rebeldes.

Um abraço do
Mário


O PRIMEIRO FOTÓGRAFO DE GUERRA PORTUGUÊS:José Henriques de Mello

Retratos da Guiné antes dos conflitos de 1907 – 1908

Por Beja Santos



Numa edição da imprensa da Universidade de Coimbra (Novembro de 2008, 500 exemplares), fomos surpreendidos pela notícia de que o primeiro fotógrafo de guerra português operou na Guiné entre 1907 e 1908 tendo deixado um álbum com cerca de uma centena de imagens, provavelmente obtidas em 1907 e que deveriam estar destinadas a comercialização. Os organizadores não escondem a sua surpresa pelo tesouro cultural, histórico e etnográfico que representam estas fotografias, agora digitalizadas. O que nos enternece é a proximidade da câmara, fornecendo-nos admiráveis registos estáticos que desvelam usos e costumes dos colonos, a natureza das habitações indígenas, a vida clânica de diferentes etnias, com as suas hierarquias, a europeização e cristianização, as danças, a azáfama nas casas comerciais, as digressões do poder (como sua excelência o Governador a embarcar), as práticas católicas em Bolama, a vida do mercado na capital da colónia, por exemplo.

Muito pouco se sabe sobre José Henriques de Mello, que partiu da ilha de Santiago, onde trabalhava em fotografia na cidade da Praia e de onde partiu para a Guiné para acompanhar a expedição militar. Certo e seguro é que a sua ida à Guiné o transformou no primeiro fotógrafo de guerra português, o primeiro a estar presente numa frente de combate e a enviar para os jornais os seus instantâneos. Há provas de que ele se encontrava na Guiné em pelo menos fins de 1907, daí o apaziguamento das imagens, os momentos de doce convivência que antecedem os conflitos que irão abrasar o Leste e a região de Bissau. Mello é nome que não consta no nome da fotografia em Portugal e historiadores como António Pedro Vicente ficaram surpreendidos com a elevada qualidade destes disparos fotográficos. Sabe-se que Mello emigrou para os Estados Unidos mas perdeu-se-lhe o rasto.

Neste livro surpreendente, Mário Matos e Lemos descreve a actividade do Governador Muzanty, as fricções que teve com os comerciantes da Guiné, dá-nos um quadro da situação política e económica da colónia depois da desafectação de Cabo Verde refere os massacres conhecidos por o “desastre de Bolor” em que foram massacrados mais de 100 soldados e grumetes ao serviço da bandeira portuguesa por guerreiros Felupes, em 29 de Dezembro de 1878. Dois historiadores acidentais irão depor sobre a natureza dos conflitos que irão por em confronto as tropas portuguesas e os seus aliados contra os régulos sublevados: Nunes da Ponte e Pinheiro Chagas. Observa ainda Mário Matos e Lemos que no final do século XIX os dirigentes monárquicos encaravam a possibilidade de entregar a exploração da colónia a companhias soberanas ou majestáticas, como forma de travar a presença do comércio internacional na região (sobretudo belgas, alemães, franceses e ingleses) as instalações militares ou eram muito fracas ou estavam degradadas. A Conferência de Berlim (1884 – 1885) reclamara como princípio essencial da legitimidade da soberania a ocupação efectiva do território, o que vai desencadear campanhas de pacificação na Guiné, em Angola e Moçambique. As campanhas anteriores às do Governador Muzanty foram, regra geral, mas sucedidas, perpetuando-se os problemas com os Papéis de Bissau, os levantamentos na região do Oio, os resultados eram sempre provisórios, ninguém queria pagar o imposto de palhota. E assim chegámos às campanhas de 1907 e 1908, iremos ver as fotografias de José de Mello no Cuor e na região de Bissau.

Quem pretender obter este álbum que é uma verdadeira preciosidade, pode contactar a Livraria Ferin, a obra custa 25 euros (Livraria Ferin, telefones 213424422 / 213469033 ou e-mail livraria.ferin@ferin.pt).


Régulo de Fulas e seus Ministros

Teatro de Bolama

Costume de europeus estrangeiros. Aperitivo (antes do jantar)
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 17 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5287: Notas de leitura (34): As Lágrimas de Aquiles, de José Manuel Saraiva (Beja Santos)

Vd. último poste da série de 14 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5269: Historiografia da presença portuguesa (30): O primeiro fotógrafo de guerra português andou no Cuor, Guiné, em 1908! (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5311: Tabanca Grande (189): António Manuel Tavares Oliveira, ex-Fur Mil da 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4615/73 (Os Pifas), Bassarel, 1973/74

1. Mensagem do nosso novo camarada António Manuel Tavares Oliveira, ex-Fur Mil da 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4615/73, Bassarel, 1973/74, com data de 19 de Novembro de 2009:

Bem haja quem dá continuidade ou conhecimento dos nossos camaradas.

Descobri o teu site, que considero muito bom e com muita importância de conteúdo.

Estive na Guiné de Outubro de 1973 a Setembro de 1974, em Bassarel, Teixeira Pinto, na 3.ª Companhia do BCaç 4615 (Os Pifas)

Tenho feito todas as diligências para encontrar maralhal que lá tenha estado e para isso já contactei o quartel de Évora, mas não possuem dados nenhum do pessoal.

Evidentemente que reconheço que deverá ser difícil, pois já o foi assim em 1973, quando formamos o Batalhão e verificámos que os soldados e cabos presentes não constavam nas listas dos que iriam embarcar no Niassa. Viemos a saber mais tarde que esses elementos estavam em Elvas e os que estavam connosco iriam para Angola. A caminho de Lisboa, mais concretamente em Vila Franca de Xira é que se deu o encontro e a troca de tropas. Só no Niassa é que se fez a chamada e então ficamos a saber quem era quem. Coisas da nossa guerra.

Mas esta história irei contar mais adiante.
Agora gostaria de encontrar mais alguém, além do J. J. Rodrigues, que por sinal esteve comigo e era o Baga.

Sou António Manuel Tavares de Oliveira, morador em Vila Nova de Gaia e fui furriel Miliciano.
Cheguei a Lisboa no dia 13 de Setembro de 1974 e veio comigo uma gazela, a bordo do Niassa.

Os nossos carros tinham a pomba pintada e éramos “Os Errantes”.

Companheiro Luís Graça. Agradeço que me coloques nessa maravilhosa página.

Contacto: antavol@hotmail.com

Um abraço
A. Tavares


2. Comentário de CV

Caro António Oliveira, peço que te assines assim porque já cá temos um António Tavares. Sê bem aparecido na nossa Caserna Virtual que é este Blogue do Luís Graça, destinado aos camaradas que, à sua maneira, combateram na Guiné e que querem de boa fé contribuir na feitura deste espólio de estórias/histórias e experiências vividas e contadas na primeira pessoa.

Partimos do princípio que quem fazer parte desta comunidade, e a ela se apresenta, lê e aceita as normas afixadas no lado esquerdo da nossa página.

Porque nunca é demais lembrar, aqui as deixo:

O que nós (não) somos... Em dez pontos!

(i) Os amigos e camaradas da Guiné têm como maior denominador comum a experiência de (ou a relação com) a guerra colonial, a guerra do ultramar ou a luta de lilbertação na Guiné, entre 1963 e 1974.

(ii) Muitas outras coisas os podem separar (a ideologia política, a religião, a nacionalidade, a origem social, a etnia, a cor da pele, as antigas patentes e armas, etc.), mas essas não são decisivas.

(iii) Quanto ao seu blogue, não é nenhum porta-estandarte, nenhum porta-voz, nenhuma bandeira de nenhuma causa...

(iv) Somos independentes do Estado, dos partidos políticos e das associações da sociedade civil que de uma maneira ou de outra possam representar e defender os direitos e os interesses dos ex-combatentes portugueses (ou guineenses).

(v) Somos sensíveis aos problemas (de saúde, de reparação legal, de reconhecimento público, de dignidade, etc.) dos nossos camaradas e amigos, incluindo os guineenses que combateram, de um lado e de outro. Mas enquanto comunidade (virtual) não temos nenhum compromisso para com esta ou aquela causa por muita justa ou legítima que ela seja.

(vi) Em todo o caso, a solidariedade, a amizade e a camaragem são valores que procuramos cultivar todos os dias.

(vii) Cada camarada e amigo que aqui escreve, compromete-se a respeitar a orientação editorial e as normas éticas do blogue, mas representa-se apenas a si próprio.

(viii) Não somos historiadores. Também não somos nenhum portal noticiososo, não temos jornalistas profissionais, não temos a obrigação de cobrir a actualidade dos nossos dois países, Portugal e a Guiné-Bissau.

(ix) Somos apenas um grupo de amigos e camaradas da Guiné, incluindo familiares de camaradas desaparecidos ou mortos, durante e depois da guerra.

(x) Publicamos narrativas, histórias, estórias, documentos, relatórios, fotos, vídeos, etc., relacionados com a nossa vivência comum, a guerra, de que fomos actores e vítimas, protagonistas e testemunhas.

Tabanca Grande; As Nossas 10 Regras de Convívio
O nosso blogue é também uma Tabanca Grande Originalmente, chamámos-lhe Tertúlia. Tabanca é um termo mais apropriado: nela cabem todos os amigos e camaradas da Guiné.

Neste espaço, de informação e de conhecimento, mas também de partilha e de convívio, decidimos pautar o nosso comportamento (bloguístico) de acordo com algumas regras ou valores, sobretudo de natureza ética:

(i) respeito uns pelos outros, pelas vivências, valores, sentimentos, memórias e opiniões uns dos outros (hoje e ontem);

(ii) manifestação serena mas franca dos nossos pontos de vista, mesmo quando discordamos, saudavelmente, uns dos outros (o mesmo é dizer: que evitaremos as picardias, as polémicas acaloradas, os insultos, a violência verbal);

(iii) socialização/partilha da informação e do conhecimento sobre a história da guerra do Ultramar, guerra colonial ou luta de libertação (como cada um preferir);

(iv) carinho e amizade pelo nossos dois povos, o povo guineense e o povo português (sem esquecer o povo cabo-verdiano!);

(v) respeito pelo inimigo de ontem, o PAIGC, por um lado, e as Forças Armadas Portuguesas, por outro;

(vi) recusa da responsabilidade colectiva (dos portugueses, dos guineenses, dos fulas, dos balantas, etc.), mas também recusa da tentação de julgar (e muito menos de criminalizar) os comportamentos dos combatentes, de um lado e de outro;

(vii) não-intromissão, por parte dos portugueses, na vida política interna da actual República da Guiné-Bissau (um jovem país em construção), salvaguardando sempre o direito de opinião de cada um de nós, como seres livres e cidadãos (portugueses, europeus e do mundo);

(viii) respeito acima de tudo pela verdade dos factos;

(ix) liberdade de expressão (entre nós não há dogmas nem tabus); mas também direito ao bom nome;

(x) respeito pela propriedade intelectual, pelos direitos de autor... mas também pela língua (portuguesa) que nos serve de traço de união, a todos nós, lusófonos.

Caro António Oliveira, já que te instalaste, convido-te a começares a escrever e a enviar os teus textos (em formato Doc), assim como as tuas fotos (em formato JPEG) devidamente legendadas para poderem figurar na nossa página.

Em nome da tertúlia, deixo-te um abraço de boas-vindas.

Teu novo camarada e amigo
Carlos Vinhal
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 20 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5305: Tabanca Grande (188): Jorge Narciso, ex-1º Cabo Esp MMA, BA 12, Bissalanca, 1968/69

Guiné 63/74 - P5310: O assédio do IN a Guidaje (de Abril a 9 de Maio de 1973) - II Parte (José Manuel Pechorrro)

1. Segunda parte de um trabalho relacionado com a actividade do PAIGC na zona de Guidaje em Abril/Maio de 1973, enviado pelo nosso camarada José Manuel Pechorro, ex- 1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 19, Guidaje, 1971/73, em mensagem do dia 29 de Setembro de 2009:


O ASSÉDIO DO IN A GUIDAGE
De Abril a 09 de Maio de 1973

Parte II

Dia 8 de MAIO de 1973, Terça-feira

Na véspera, deitei-me cedo e adormeci profundamente.
Pelas 01.15 horas fomos arrancados da cama por estrondos fortíssimos. Saltei do colchão e magoei-me no joelho, chegando sonâmbulo ao Posto de Rádio. A seguir vieram as granadas de morteiro. Passei a flagelação junto ao Operador de Transmissões, em serviço. O IN, em número não estimado, visou com 3 foguetões de 122mm e morteiro 82, rampas de lançamento na região de Samoge. Passaram por cima do recinto, caindo a cerca de 500 a 1000 metros, dentro do Senegal e na bolanha, onde viria a ser encontrada a empenagem de um. Base de fogo de morteiro na região do marco 126. Durou 10 minutos. Foi boa a reacção das NT, com o obus, morteiro 81 e armas ligeiras (desnecessárias). Só tivemos um ferido ligeiro.

Bigene foi flagelado ao mesmo tempo com foguetões e canhões sem recuo.
Trocámos opiniões e voltámo-nos a deitar, depois de cifrado o RELIM, comunicando o acontecido a Bissau. Lá fora a noite está escura e cai cacimba, bem fresquinho. Custou-me a adormecer novamente.

Nota: A guarnição de Guidaje possue 3 obuses 105 mm (do Pel Art 24) e 1 mort 81 mm.

SURPRESA!
Passadas 2 horas (04,40), fui novamente acordado pelo estalar das granadas de 82 mm. Pela primeira vez, durante mais de 16 meses, com a CCaç 19, somos atacados 2 vezes no mesmo dia. Durou 20 minutos. Resposta com morteiro 81 e obuses, como deve ser. Na população 1 ferido ligeiro. Não ripostamos com armas ligeiras, como no anterior, o que me agradou.
Mais uma mensagem a codificar e uma noite quase sem dormir, é o que eles nos arranjam, os turras!

O dia amanheceu bonito, mas húmido, com vestígios de neblina. Quase todos saímos para ver os possíveis estragos e os sítios dos rebentamentos. Alguns em tronco nu, em cuecas e chinelos nos pés, saboreando a manhã. Já se notava o bater do milho nos pilões de madeira, executado pelas bajudas.

Por volta das 06 horas começou-se a ouvir os motores de viaturas ao longo dos marcos da fronteira: Senegal marco 126; Facã, interior TN.

- Esta é boa! Então os cabrões (dizia alguém), de dia vêm de camioneta a 500 ou 1000 metros do arame farpado? Que falta de respeito!

Disparámos 4 granadas de morteiro 81, na sua direcção. A guarnição em grupos discutia o assunto.

SERÁ AINDA SURPRESA?
Decorridos 15 minutos (6,15h), soam as Kalasknikoy e as metralhadoras ligeiras Dactarevy, instaladas no lado de lá da bolanha (Rep do Senegal). Quase na água e camuflados, nos arbustos e arvoredo, em frente da pista de aviação e da caserna do 2.º Pelotão. Logo se seguem os rebentamentos das granadas dos RPG`s, acompanhadas de morteiro 82.

Estávamos agrupados no patamar de cimento que ladeia o edifício do Comando, defronte da Secretaria: eu, o Cap Mil Inf José Vicente Teodoro de Freitas, o Sold Inf Trms Correia, o 1.º Cabo Trms Janeiro e o Sarg Oliveira (que substituiu os que morreram). Um grupo que constituía um belo alvo! Aos primeiros disparos fugimos, num relâmpago, para o Posto de Rádio. Fuga milagrosa, a Secretaria foi atingida, sendo a porta arrancada por um RPG… Escapámos!

Foto cedida pelo 1.º Cabo Radiotelegrafista Janeiro, alentejano


Demorou um bocadinho a nossa retaliação e, esta foi valente.
Os militares reagiram, metidos nas valas, ripostamos com armas ligeiras (G3 e HK), morteiro 60 e 81 e obuses. Alguns dos nossos quase completamente nus, corpos suados e sujos do pó e da terra, com cartucheiras no corpo. Dormiam quando se deu o festival de fogo. Rogam-se pragas, dizem-se palavrões e dão-se berros. Só presenciando!
No outro lado do Posto Transmissões ouvi africanos dizerem:

- Estão a abusar, vamos agarrá-los e mostrar que não somos para brincar.

Um que se deslocava pediu-me os carregadores, dei-lhos, recebendo em troca os vazios.
Logo que as granadas e as rajadas abrandam a nossa gente atravessa o arame, passa a pista, mete-se na bolanha, com água! Durante a sua travessia são alvejados com rajadas de espingardas automáticas. Mas não param os nossos, perseguem o adversário surpreendido que certamente não esperava esta nossa reacção, e retira para o interior do país vizinho, através do arvoredo e do matagal. É provável que o IN já não tivesse munições.

Era o 3.º ataque e apesar do futuro não se mostrar nada prometedor (durante o tiroteio imaginei que queriam tomar o quartel), senti-me orgulhoso do nosso feito. Foi uma coisa louca, audaciosa e inconsciente, é verdade, mas um dos slogans dos nossos comandos, é: “A AUDÁCIA PROTEGE OS VALENTES”.

Se nos assediam pela retaguarda, forçando através do reordenamento, seria um problema, pois ficámos com um efectivo reduzido no nosso perímetro defensivo.
Viveram-se momentos de certa euforia.
O IN estimou-se em 80 elementos, durante cerca de 20 a 30 minutos alvejou o aquartelamento e a povoação. Sofreu baixas, durante a perseguição os nossos avistaram guerrilheiros amparados, rastos de sangue, etc. Capturados 3 carregadores Kalasknikoy, 1 cartucheira tripla, 1 cinturão e 1 cantil.

Nas NT: 1 ferido grave. Na população 3 graves (sendo 2 senegaleses) e 3 ligeiros. Um nativo ferido, depois de assistido na Enfermaria, como o sangue trespassasse as ligaduras, fez-me lembrar um perdigueiro.

Danificadas parcialmente: A Enfermaria, Secretaria e 2 casas civis.

Às 09,55 horas, outra flagelação, com morteiro 82. Durante 20 minutos. Da região de Fajonquito e do lado contrário, Facã. Resultou 1 ferido grave e 2 ligeiros. Na população 2 ligeiros.

Foto cedida pelo 1.º Cabo Radiotelegrafista Janeiro, alentejano

Os rebentamentos, na sua maioria são dentro do nosso recinto e ao redor do aquartelamento, são fortíssimos, parecendo trovões potentes em noite de violenta trovoada.
Alguns passam a mostrar-se pálidos e preocupados, mas sem perderem a cabeça. Metidos nos buracos abrigos, valas e casernas abrigo em betão armado. Ninguém sai. É o silêncio pesado.
Não reparamos nos cantares das aves, no Sol que já cai bastante quente e não se vêem as ovelhas a pastar.
Parece uma povoação e quartel fantasma…
Um Unimog trabalhando no meio da parada, abandonado pelo condutor, que entretanto se esqueceu. Uma viatura vertendo gasóleo do depósito e outra com os pneus furados ou traçados. Vive-se um filme, real e autêntico!

Fui até à caserna do 1.º Pelotão, onde conversei com o Garcia, 1.º Cabo Mecânico. Estava com ele, quando surge a 5.ª flagelação (por volta das 12 ou 13 horas), desta vez do lado das casernas do 3.º e 4.º Pelotões, com armas ligeiras, RPG,s e morteiro 82, também do lado de lá da bolanha, território Senegal.

A minha arma desapareceu, apercebi-me ter sido um soldado que a utilizou, quando correndo se foi refugiar na vala.
Abriguei-me com o 1.º Cabo Garcia, no ninho da metralhadora pesada, de que é responsável. Ao tentar manejá-la, entalou-se. O palavreado dele, muito sério, mas com piada, provocou-me o riso, que contive a muito custo, intercalado, no matraquear do tiroteio e estrondos das explosões.

A nossa resposta foi diminuta, mas de vez em quando lá trabalhavam as metralhadoras ligeiras HK e G3. Atitude realista para quem possuísse estas armas e para a gravidade da situação. O poupar munições era importante.
Regressei ao Posto de Rádio.

O grupo IN, não estimado. Houve quem afirmasse que avistou atacantes que tentaram aproximar-se do arame farpado. (?) Durou 30 minutos. As NT com mais 1 ferido ligeiro.
Bigene, apesar de sofrer flagelações, precisamente na mesma hora, auxiliou com 3 granadas de obus 140 mm, que caíram mesmo em cima deles. O raio de acção da sua artilharia ultrapassa o nosso perímetro.
Solicitou-se o auxílio da FAP, cedeu vir depois de muita insistência. Os Fiat`s pediram para todos se meterem nas valas ou abrigos, pois iam bombardear de bastante alto e muito próximo do arame farpado, com ameixas de 500 ou 750.
Um graduado que não consigo recordar, disse para avisarmos os que estavam nas valas do reordenamento, viradas para o Samoje, para se baixarem. Eu e outro camarada das Transmissões corremos a comunicar este pedido!

Foto cedida pelo 1.º Cabo Rádiotelegrafista Janeiro

Alguns elementos da população captaram e interpretaram mal, dado não perceberem bem o português; certamente julgaram tratar-se de aviões dos turras que iam actuar (?). Foi o pânico. Algumas crianças, mulheres, homens e velhos, abandonam os abrigos na povoação, para se acolherem nas casernas dos soldados. Deixando-nos baralhados.
Bombardeada a zona do fogo IN, com êxito, segundo tudo indica, provocando baixas que o entreteve durante a tarde e a noite.

O Sol está muito quente, faz imenso calor. O resto do dia foi passado em sossego. Todos precisávamos de descanso. A calma levou-nos à meditação.
Não há dúvida, querem acabar com a nossa presença neste local, é o que penso intimamente. Mas vão ter que lerpar, às dezenas ou centenas!

As relações tornaram-se pesadas, frias ou silenciosas, não se conversa, mas vai aparecendo sempre alguém que diz uma piada, forçada, neste clima sufocante.
Não se fez comida, nem estamos dispostos a ir para o refeitório, debaixo da chapa de zinco. Passamos a ração de combate, que não apetece ou não temos vontade de comer.

Como nos queixamos que temos poucas munições, é organizada uma coluna auto à pressa, com 4 viaturas, que parte de Binta para Guidaje, escoltada por 2 Pelotões de Farim, do BCaç 4512 e CCaç 14 nativa. Iniciou a marcha já tarde, pelas 18 horas.

De Guidaje, picando o itinerário, sai bi-grupo de combate ao seu encontro no CUFEU, onde montam segurança. No quartel e povoação ficamos só com 2 Pelotões e o da Artilharia 24.
Esta tabanca queimada e abandonada, no começo do terrorismo na Guiné, é local estratégico e de grande importância. O terreno é ideal e apropriado para emboscadas às colunas apeadas ou auto.
Por volta das 20,30h regressaram ao quartel, consequência das viaturas não aparecerem e existirem dificuldades nas comunicações via rádio, por as pilhas estarem fracas certamente.

O movimento auto com cerca de 65 homens não dá sinal de si! Nem responde às chamadas dos rádios, que fazem Binta e Guidage? Encalharam e não querem quebrar o silêncio da noite para não serem detectados? Desligaram os rádios? A humidade do local e a neblina impedem?

Para se ir à cantina, levamos a arma e as cartucheiras, atravessando a parada a correr.
Deitamo-nos a pensar nos que estão isolados na estrada, na escuridão e isolamento. Que se passará? Domina-nos a ansiedade e a preocupação.

Torna-se nítida a ronda do IN com as viaturas (estrada Senegal – Facã) e dentro do TN. Transportam material bélico, no regresso evacuam feridos e mortos, certamente. Agora abusam! É de noite e de dia. Os ruídos dos motores ouvem-se perfeitamente, devem estar muito perto. Provoca abalo psicológico, no silêncio da noite. Não estarão a utilizar a estrada até ao CUFEU e...?

Na emissora do PAIGCV a Maria turra, afirma:

- GUIDAJE e BIGENE terão que cair em 15 dias!


9 de Maio de 1973, Quarta-feira

Não foram evacuados os feridos graves, requereu-se a sua transferência para Bissau, a FAP não se atreveu a vir buscá-los, temem os mísseis terra-ar, o que torna vulnerável os nossos aviões.
Este problema cria um clima emocional dos diabos. Amanhã poderemos ser nós, sem um braço ou uma perna, esvaindo-nos em sangue, sabendo que é o fim. Além da nossa solidariedade para com os que padecem, nada podemos fazer. Quem os tem por perto não descansa devidamente.

Logo de manhã cerca 06 horas, já com o Sol a bater forte, apercebemo-nos que a coluna de reabastecimentos está sendo atacada. Encontra-se para cá do Genicó, a uns 3 quilómetros... (?) Trazidas pelo vento ouvem-se as explosões dos RPG`s e as granadas dos nossos dilagramas e morteiro 60.

Milagrosamente conseguimos contactá-los, no começo do barulho. Pediram que solicitássemos a Binta socorro imediato. Ligámos também para a base de Bissalanca, cujo Comandante acabou por ceder aos nossos rogos.

Que aconteceu? Accionaram uma mina anti-carro, ficando impedidos de prosseguir. Aguardaram reforços dos pelotões da CCaç 19, esperançados no nascer do dia.
Detectados e já noite, sofreram flagelação e investida, em terreno não favorável. O IN entrincheirado atrás de abatizes e covas(?) actuou.
Segundo voz corrente comandados por cubanos. A mim parece-me que são guerrilheiros de elite, vindos da Rússia e Conacry, onde foram preparados e treinados.

Hoje de manhã executaram o assalto, com grande poder de fogo. A coluna aguentou várias investidas.
O bi-grupo enfraquecido pelas baixas fugiram ou retiraram para Binta, a corta mato, amparando os feridos. Abandonaram as viaturas carregadas (2 Berliet e 2 Unimog) com o material que não consumiram.

Foram socorridos pelos seus camaradas do Destacamento de Binta.

Falou-se que tiveram 10 feridos graves, cerca de 15 ligeiros e 4 mortos:

- CCaç 14, Fur Mil At 13969971, Arnaldo Marques Bento, de Vila do Conde
- CCaç 14, Sold At Lassana Calisa, 82121669, de Bentém – Nova Lamego
- 1.ª CCAÇ/BCaç 4512/72, 1.º Cab Mil Inf 089943371, Bernardo Moreira de Castro Neves, de Valongo.
- 3.ª CCAÇ/BCaç 4512/72, Sold At 06853872, António Júlio Carvalho Redondo, de Barrela–Vreia de Jales–Vila Pouca de Aguiar.

Deve ter custado aos rapazes, para não deixarem o reabastecimento, aguentaram sitiados, sem comunicações. Penso nos gemidos e lamentações dos feridos, a escuridão, os gritos de guerra dos adversários, o som das armas automáticas, o medo. Aguentaram, não fugiram!

A FA acorreu e não actuou logo com receio de matar alguém das NT, em sítio não localizado. Acabou por bombardear e incendiar as viaturas a fim de impedir a sua captura. Tinham avistado pessoas em cima delas… Tentaram contacto com a coluna, não obtendo resposta e confirmando via rádio com Binta e Guidage, chegou à conclusão que eram turras…

Que baixas sofreu nestes ataques à coluna o IN? (Segundo informação 13 mortos confirmados…)

A guerrilha terá conseguido retirar algum material? Passados dias fomos flagelados com granadas de morteiro 81 mm.

Obs: Ler GUIDAJE - A PRIMEIRA GRANDE EMBOSCADA em 8/9 Maio 73 - P4957: Tabanca Grande (173): Manuel Marinho, ex-1.º Cabo da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4512, Farim e Binta (1972/74).

O fracasso da coluna vai entusiasmar o PAIGC, que mobiliza mais forças de outras bases para esta zona, com o fim de isolar por completo Guidage e impedir quaisquer tentativas de auxílio em géneros alimentícios ou munições.
Foi necessário organizar e realizar uma operação conjunta das NF em grande escala, para contrariar o IN.

O DESALENTO - Tantas Vidas, do Oficial Comando Virgínio Briote, com a devida vénia

A 2 GComb da CCaç 3 africana, sediada em Bigene, comandados pelos Alf Mil Inf José Manuel Levy Soeiro, da Lourinhã e José Manuel Nogueira Pacheco, que operam na zona do Samoge, montando segurança, é dada ordem para seguirem a corta mato até Guidage a fim de reforçar a sua guarnição, onde chegam por volta das 18,30horas, o que nos animou um pouco.

Durante o dia, 4 flagelações.
Dispararam de várias bases: Samoge – Facã – Fajonquito - Quelhato, principalmente.

- 18,10h, volta a música do morteiro 82, do lado da estrada; foram 10 minutos. Na população 1 ferido ligeiro;

- 22,40h, mais 10 minutos. Não respondemos a fim de pouparmos as granadas. População 2 feridos graves e 2 ligeiros;

- 23,30h, outra com o mesmo tempo, sem consequências.

- Executaram mais uma, da qual não recordo pormenores.

Não será mesmo um cerco? E a estrada, será possível passar no futuro? Os factos sucedem-se, não sabemos donde aparecerão ou se acabam.

A população passa praticamente os dias e as noites dentro ou próximo dos seus abrigos, debaixo de terra. A maioria só faz o comer indispensável, o que leva os soldados africanos a passar mal, pois quase todos são desarranchados.
Não nos visitam as crianças que nos rodeavam remexidas e sorridentes, mostrando os seus dentes brancos.

Um aquartelamento e reordenamento, interligados, envolvidos com arame farpado duplo (iluminados à noite por holofotes eléctricos), valas e abrigos, com lutadores maduros e experientes, é um osso duro de roer.
O passado da nossa CCaç 19 teve peso possível e condicionou a elaboração do plano geral do cerco a Guidage.

Em conversação via-rádio, o CMDT do Cop 3, Ten Cor António Correia de Campos, ao ouvir que os militares negros estavam abatidos moralmente retorquiu:

- Sei como são os negros. Os africanos só desmoralizam quando vêem os brancos ceder primeiro. Amanhã realiza-se nova coluna e estarei aí convosco!

Deitei-me cansado e desejando que as nossas tropas ultrapassassem o Cufeu com êxito.

Eu, junto homenagem ao Alf Preto. Foto cedida pelo 1.º Cabo Rádiotelegrafista Janeiro


Emboscada à coluna auto Guidaje - Binta
Morte do Alf Mil Inf Op Esp, da CCaç 19 (CCaç 2781), António Sérgio Preto, natural de Quintanilha – Bragança; Emboscada à coluna auto Guidaje-Binta, em 29/6/1972.


O primeiro tiro isolado disparado de cima de árvore, atingido no pescoço, saiu debaixo do braço. Encontra-se sepultado em Vale de Frades - Vimioso, no continente.

Foi vingança? Comandou Operação Sopapo nos corredores do Samoge, teve contactos com o IN provocou-lhe 8 mortos e vários feridos. Apanhado à mão, o chefe de grupo turra LASSANA JATA, ferido com certa gravidade.

Obs:

- No dia 10 de Maio de 73, a CCaç 19 só teve 5 mortos negros no CUFEU, que deixou no terreno. Os únicos que teve na estrada durante o cerco.

- O que descrevo foi o que vivi, vi, li e ouvi. Poderá ter erros de pormenor, dos quais desde já peço desculpa.

- Longe de mim tentar julgar os actos de alguém.

- Não procuro a auto promoção, mas a CCaç 19 merece ser recordada. Principalmente os soldados negros que sofreram e sofrem injustamente na pele as consequências da nossa saída da Guiné.

- O meu agradecimento ao Manuel Marinho.

Cumprimentos a todos,
Agradecido, o camarada,
José Manuel Simoa Pechorro
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de Guiné de 19 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5300: O assédio do IN a Guidaje (de Abril a 9 de Maio de 1973) - I Parte (José Manuel Pechorrro)

Guiné 63/74 - P5309: Blogpoesia (58): Para os amigos e camaradas da Guiné que esta noite tiveram insónias (Luís Graça)

Lisboa > Largo da Madalena >  Pormenor da calçada à antiga portuguesa, à entrada da Igreja da Madalena..."Ontem não foi sexta-feira 13, mas bem podia ter sido" (jornal de caserna)

Foto e texto: Luís Graça (2009). Direitos reservados


[Instruções: Para ler com o melhor sorriso da Gioconda. Para todos os amigos e camaradas da Guiné que, sendo-o, são meus amigos e camaradas. Esta adenda impunha-se, por causa das minas e armadilhas da (in)comunicação humana ]

Juram, os amigos,
que a amizade não se esgota
nas questões de lana caprina.
Nem se dilui na espuma dos dias.
Testa-se e reforça-se na provação.
Dizem outros que eles, os amigos,
devem ser para as ocasiões.
Todas as ocasiões?
As pequenas e as grandes ?
As boas e as más ?
Sobretudo as más ?
A estação seca e a estação das chuvas ?
A paz e a guerra ?
Ou tudo isso é letra morta ?
Que os amigos conhecem-se
na adversidade,
diz o provérbio.
E os camaradas, na guerra,
diz o Marques.
E os colegas nas tainadas,
dizia  o António, meu instrutor
de minas, fornilhos e outras armadilhas da vida.
Quem em caça, política, guerra e amores se meter,
não sairá quando quiser.
Sairá ou não ?
Os amigos, os verdadeiros e os falsos,
conhecem-se nas ocasiões.
Que a adversidade é o teste da amizade.
A prosperidade traz amigos,
a adversidade os afasta,
diz o chinoca da minha rua,
que não tem amigos,
a não ser o dicionário de português-cantonês,
do outro António, o Abreu,
que o poderia ter escrito.
Que no céu se fazem amigos;
e,  no inferno, inimigos,
canta o poeta, cego,
tocador de cora,
deambulando de tabanca em tabanca,
no que resta do regulado de Joladu.
Que a amizade é um edifício
que leva uma vida a construir,
e que num minuto pode ruir,
garante o Esquilo Sorridente.
No aperto do perigo, conhece-se o amigo.
Essa  é a verdade, Abílio,
e a verdade é um osso duro de roer,
até para o cão que rói o osso,
na opinião do Pires, que na Guiné teve um cão.
Que os amigos fazem-se,
praticando a amizade:
tal como os caminhos que
se não se usarem,
ganham espinhos, ervas, silvas,
moitas, carrascos,
pedras soltas, calhaus, pedregulhos,
tornam-se abatizes, obstáculos, cabeços, colinas, montanhas.
Ou na versão de um velho homem grande,
africano, de Contuboel,
algures na velha Guiné agora Bissau:
A amizade é uma picada
que desaparece na areia, na bolanha ou no mato,
se não a usares todos dias,
Não aceito que digas:
- Amigo não empata amigo,
citando o Paulo, a caminho de Santiago.
Por que o amigo é isso, Vasco,
tens toda a razão,
que o amigo é para se usar,
se guardar
e se resguardar.
(Obrigado, Cordeiro, pela precisão!).
Para se resguardar das pontadas de ar,
dos tiros tensos do canhão sem recuo
e das emboscadas.
Não é para se usar, expor e deitar fora,
na berma do caminho.
A amizade não é um objecto descartável,
manda o filósofo Juvenal dizer no seu último mail.
(Ou foi o Sócrates, o grego,  antes da cicuta ?).

A conselho amigo, não feches o postigo,
além de que
amigo diligente é melhor que parente.
Sobretudo se te dói o dente.
E já que  tens  físico amigo, manda-o a casa do teu inimigo.
Dinis, que foi rei, mandou lavrar cantiga de escárnio e mal dizer:
quem seu inimigo poupa, às mãos lhe morre.

Mas atenção,
amigo disfarçado, inimigo dobrado,
escreve o ranger, o Eduardo.
E o que fazer ao amigo que não presta
e à faca que não corta ?
Que se percam, pouco importa,
decreta o Hélder,
pela telegrafia sem fios.
Também se diz que os amigos novos
metem os velhos no canto ou a um canto.
Se não se diz, pensa-se.
Será assim, mana Giselda,
que os amigos também cansam
como a sarna na pele,
como a pele e as suas sete camadas ?
Os amigos têm prazo de validade ?,
pergunto ao Briote.
Uma questão que nada tem de metafísica:
Ovo de uma hora,
pão de um dia,
vinho de um ano,
mulher de vinte,
amigo de trinta
e deitarás boa conta.
Amigo, vinho e azeite... o mais antigo.
O vinho e o amigo, quer-se do mais antigo,
recomendam o Jorge, que é engenheiro,
mais o Picado, que foi agrónomo.
E o que farei dos meus novos amigos, Virgínio ?
Faz como o vinho, Zé Manel,
se forem bons,
mete-os a envelhecer em cascos de carvalho.
E por que é que os amigos dos meus amigos meus amigos são ?
É como os filhos do meu filho, serão dele ou não…
Que ao menos, Jorge, cresçam Narcisos no teu jardim.

Que sei eu, meus amigos e camaradas da Guiné ?
Só sei do desalento
e da morte na alma
e da terrível secura na garganta
e das lágrimas que não podíamos chorar
quando trazíamos, do mato, os camaradas  mortos,
às costas...
Só damos valor às coisas, Reis,
o Humberto, o Ilídio (e quem mais ?),
quando elas nos faltam,
e aos amigos
quando fazemos o luto pela sua perda.

São tantos os estereótipos, meus amigos e camaradas,
sobre os amigos e a amizade.
Não falo, Nino, dos teus inimigos
que esses são os mais previsíveis,
estão sempre do outro lado da ponte,
que à volta eles cá te esperam.
Amigo verdadeiro, esse vale mais do que dinheiro,
meu pobre Amadu Dajaló,
bom crente, bom muçulmano,
bravo combatente,
leal aos teus amigos tugas,
tu a quem já te acusaram de mercenário.
Mas vale a morte que tal sorte,
quando os amigos que tens não os tens.
Como os velhos elefantes, voltas para o teu chão,
para morrer entre os teus
e seres enterrado debaixo do teu poilão.
O próximo teste, Henriques,
é quando ganhares o Euromilhões.
Ou quando ficares esticado no caixão,
ao comprido:
será que lá terás  todos os gatos pingados da companhia ?
Antes boa que má companhia,
nem que seja a do gás e electricidade.
Amigos, amigos, negócios à parte,
dizia o nosso primeiro,
que quem vai à guerra dá e leva.
Quem te avisa, teu amigo é,
li uma vez no bilhetinho anónimo
do tempo da delação e do inquisidor-mor.
Quem seu amigo quiser conservar,
com ele não há-de negociar.
E será que se pode blogar ?
Longe da cidade,
tanto melhor.

Mas... quem tem amigos, não morre na cadeia,
nem no exílio, dourado,
seja feio ou belo,
e mesmo que se chame José, o viking.
Um rico avarento não tem amigo nem parente.
As boas contas fazem os bons amigos.
Ao bom amigo, com o teu pão e o teu vinho.
Ao rico mil amigos se deparam,
ao pobre até seus irmãos o desamparam.
Os camaradas dizem:
Lourenço, connosco ninguém fica para trás...
Aquele que me tira do perigo, é meu amigo.
Bocado comido não faz amigo,
porque não é partilha, Belarmino.
Defeitos do meu amigo ?
Lamento, meu caro Jorge, mas não maldigo
o teu alterego Cabral.
Em tempo de figos, não há amigos.
Chacun que se governe, Carlos,
em caso de peste (de que Deus nos livre!).
Ou de ataque de abelhas.
Ou de pânico.
Ou de fobia.

Muitos conhecidos, poucos amigos:
não é nenhuma heresia,
é palavra do Senhor,
e o Senhor esteja contigo,
meu camarigo Joaquim  Mexia,
e com todos nós, filhos da humanidade,
de Abel e Caím.
Guarda-te do alvoroço do povo, Martins,
 e de travar com o doido.

Mas se calhar não há maior amigo do que o Julho
com o seu trigo que dá pão.
Olha, mulher, se não tens marido,
pouca sorte a tua,
não tens amigo e acabas na rua.
Amigo mesmo é aquele que sabe o pior
a teu respeito
e mesmo assim... continua a gostar de ti,
mesmo que tenhas perdido a tua caderneta de vôo,
meu inFélix piloto de Allouettes...

Quando uma pessoa perde dinheiro, perde muito;
quando perde um amigo, perde mais;
quando perde a coragem e a fé, perde tudo.
Difícil, meus amigos e camaradas da Guiné,
é ganhar um amigo numa hora;
fácil é ofendê-lo
e perdê-lo num minuto.
José dixit, da sua janela do Fundão que dá para a Gardunha,
a Serra da Estrela e a cova da Beira.

Hoje é o amanhã
que tanto nos preocupava ontem, Mário,
li isto no teu diário,
nas páginas dos feriados  e dos Dias de Todos os Santos...
Mas não menos sábia do que a do meu amigo Cherno
é a sabedoria do mongol:
O vitorioso tem muitos amigos, fracos,
mas o vencido tem bons amigos, valentes.
E até o otomano aprendeu à sua custa:
Quando o machado entrou na floresta,
as árvores disseram:
- O cabo é dos nossos,
mas a lâmina de aço... não a estamos a reconhecer.
Resta-nos a doce memória do passado,
As toponímias da nossa peregrinação trágico-marítima,
do Pijiguiti ao Xime,
de Bolma a Buba.
O que foi duro de sofrer,
lá longe da Pátria,
é agora doce de recordar,
no lar, no doce lar.
Olha o Cufeu, Amílcar,
olha o Cufar, Fitas!
Planta hoje a semente da amizade,
mesmo que não sejas lavrador,
para colheres amanhã a flor da gratidão.
Ser amigo é ser generoso,
é dar antes de te pedirem,
é um gesto gratuito.
Quiçá o mais puramente gratuito dos teus gestos.
Ou será interesseira, a amizade ?
Para mim, não é  como dar aos pobres...
Aí emprestas a Deus,
tu que és Paulo e Lage, tu que és pedra,
e Deus paga-te em vida ou na morte,
com os dividendos do poder,
da glória,
da fama,
da riqueza
ou da eternidade.
Se estás tão cansado, meu amigo,
Junqueira, Condeço, Tavares,
que não possas dar-me um sorriso,
eu deixo-te o meu,
a ti que és Victor,
E In Hoc Signo Vinces.
Volta o teu rosto na direção do sol, Miguel,
que és o mais strelado de todos nós,
para que as sombras fiquem para trás.
Não, nunca digas:
- Chega-te para lá,
que me tapas o meu sol.
Por que o sol quando nasce devia ser para todos.
As lágrimas dos bons caem no chão,
para poderem vir a engrossar os rios da revolta
e da indignação.
Inútil tentares juntar as tuas mãos,
João, José, Joaquim,
se elas não estiverem vazias,
diz o meu guru do Tibete,
agrilhoado.
Os amigos escolho-os eu,
os parentes são os que Deus me deu.
Quando estás certo,
ninguém se lembra;
quando estás errado,
ninguém esquece.

À laia de conclusão,
meu amigo e camarada,
de A a Z:
Antes de começares o trabalho de mudar o mundo,
dá  três voltas dentro de tua casa...
E sobretudo não esqueças a lição
sobre a parábola da Sabedoria e da Asneira:
Para os erros alheios
temos os olhos do lince;
para os nossos próprios,
os olhos da toupeira.

Luís Graça

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5308: O Nosso Livro de Visitas (70): Daniel de Matos, ex-Fur Mil, CCAÇ 3518 (Gadamael, 1972/74)

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão,  Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, junto aos  "restos de Gadamael", fortemente atacada pela artilharia do PAIGC.

 Foto: © Jorge Canhão (2007). Direitos reservados.

 1. Mensagem de 18 do corrente, do Daniel Matos, ex-Fur Mil da Companhia Independente, madeirense, CCAÇ 3518 (Gadamael, 1972/74)

Assunto - Marados de Gadamael

Caro Luís Graça,

Há pouco enviei um comentário para o blog, mas como não tenho a certeza de que a respectiva expedição se tenha realizado a contento, transcrevo-a por esta via.

Li, entretanto, a sua observação sobre um antigo convite que me fez para colaborar com o blog, escrevendo alguns testemunhos do tempo da guerra, nomeadamente sobre os Marados de Gadamael, e ao qual nunca cheguei a responder. Não foi por preguiça, terá sido por falta de disposição e de tempo, pois além da actividade profissional dedico-me a outras, não me sobrando muitas horas para a família, sequer.

Curiosamente, em tempos idos, um dessas actividades foi precisamente a escrita, procurando passar para o papel uma espécie de "História da Companhia".

Porém, nos convívios anuais que efectuamos no continente (a 3518 era uma Companhia madeirense) fui verificando que um mesmo acontecimento era relatado por cada um de nós de maneiras por vezes bem diferentes e, não querendo fazer prevalecer o que os meus olhos viram e a minha leitura dos factos, resolvi alterar tudo para o campo da ficção, seguindo cada personagem outros caminhos, ao sabor da pena.

Isso veio a dar origem a um livro que estou agora a rever. Alguns contos foram publicados de forma avulsa, e premiados por alguns municípios. Mas como ficção pura, não creio que seja matéria que interesse ao blogue.

Também o meu amigo de longa data A. Marques Lopes, membro do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, já insistiu comigo para escrever e eu nunca correspondi a esse pedido. O mesmo agora o fez o ex-alferes Juvenal Candeias (da 3520, de Cacine).

Penso em breve libertar-me de algumas ocupações e, mal isso aconteça, prometo compartilhar algumas memórias convosco.

Cordiais saudações.
Daniel de Matos

2. Comentário de L.G.:

Tratemo-nos por tu, o que facilita a comunicação (o pôr em comum) entre dois camaradas da Guiné. Obrigado pelo teu mail. I want you... Tu interessa-nos, as tuas histórias interessam-nos. Temos falado pouco ou nada de Gadamael, com excepção do período de Maio/Junho de 1973, em que o PAIGC concentrou a sua artilharia sobre este aquartelamento, depois da retirada de Guileje (22 de Maio de 1973). Temos falta, inclusive, de fotos de Gadamael. Os teus textos serão bem vindo, mesmo os literários, os contos, aquilo a que tu chamas ficção - já aqui publicámos alguns, de outros camaradas,  a par de poemas, etc. O Juvenal também já me falou em ti. Veio isto a propósito do infortúnio dos teus camaradas Ferreira e Telo, mortos em Guidaje e cujos restos mortais foram recentemente trasladados...

Tomo boa nota do que referes no teu comentário ao poste: o Telo já havia sido ferido numa mina em Gadamael e estivera hospitalizado em Lisboa, antes de regressar à Guiné "para morrer em Guidaje".

Entretanho, registo também com apreço a mensagem do teu e nosso amigo Juvenal Candeias, ex-Alf Mil, CCAÇ 3520 (Cacine, 1972/74)

"Luís,
Na sequência do teu pedido, no blogue, sobre encontrar alguém da 3518 que escrevesse alguma coisa, contactei o Daniel Matos, que me parece a pessoa melhor colocada para o fazer e que é 'boa gente'. Sei que ele já te contactou e que brevemente vai começar a escrever. Missão cumprida.
Um abraço. JC!"

Ficamos, pois, por aqui. Cumpres as regras da praxe, pagas a jóia (2 fotos + 1 história) e passas a ter a senha e a contra-senha para ingressares na Tabanca Grande, que já é maior do que a de Gadamael do teu tempo... Ou não ?

Fica bem. Dá notícias. Ficamos na expectativa de sabermos a história dos Marados de Gadamael.

__________

Nota de L.G.:

Último poste da série > 3 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5199: O Nosso Livro de Visitas (69): António Marquês, ex-Fur Mil da CCAÇ 4810 (Moçambique, 1972/74)

Guiné 63/74 - P5307: Da Suécia com saudade (16): É neste caldo de cultura que o nosso blogue é grande (José Belo)

1. Mensagem do José Belo (*), ex Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref, a viver na Suécia, desde 1976:


Caros Camaradas e Amigos!

(Já com malas feitas,  pela quarta  vez, para partir em férias com a família,e quem tem família sabe como isto é!)

Mais uma menos útil tempestade de navegação. E, por muito que, aparentemente, a alguns custe a compreender,todas estas "tricas" mais não serão que um simples APONTAMENTO DE FIM DE PÁGINA quando estudiosos futuros se debrucarem sobre o riquíssimo conteúdo do Blogue.

As memórias, relatos e interpretações que continuamente chegam à Tabanca Grande são trazidos por indivíduos de todas as origens sociais, com os mais díspares graus de educação escolar, de todos os locais do país, e que durante o seu serviço  militar na Guiné desempenharam todas as possíveis funções dentro da instituição militar.


Os acontecimentos não foram observados por um único par de olhos, mas sim por olhos com diferentes níveis de capacidade de intrepretação e observação, não esquecendo os diferentes níveis de sensibilidades individuais.


É NESTE SOMATÓRIO QUE A TABANCA GRANDE É TÃO RICA!

 Se a isto se adicionar o facto destes relatos se terem prolongado ao longo de, pelo menos, uma década, temos como feliz resultado serem estas vivências transmitidas por OBSERVADORES QUE OCUPARAM OS MESMOS LOCAIS NO ESPAÇO MAS NÃO NO TEMPO!

 Aquartelamentos, destacamentos, tabancas, tipo de operações, tipo de armamento, zonas mais ou menos perigosas, Altos Comandos, tudo nos é fornecido de modo a vir a ser possível em futuro mais ou menos próximo (espero!) uma compilação única e detalhada do que foi aquela década.

Quanto a mim não será ISTO que é a Tabanca Grande ?

Estocolmo 20 Nov 2009

José

___________

Nota de L.G.:

Vd. último poste da série > 10 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5250: Da Suécia com saudade (15): Ainda Spínola, a honradez e o carácter de um jovem militar (José Belo)

Guiné 63/74 - P5306: Tabanca de Matosinhos (13): Jantar de Natal de 2009 no dia 12 de Dezembro no Restaurante do Café das Artes, Porto (Álvaro Basto)

1. Transcrição do P273* da Tabanca de Matosinhos convidando todos os ex-combatentes da Guiné e seus familiares para o tradicional Jantar de Natal

Face ao crescimento exponencial do número de inscrições para o nosso jantar anual de Natal, vimo-nos forçados a alterar o local do mesmo.

Assim, o jantar realizar-se-á na mesma no dia 12, já não em Matosinhos no restaurante Milho Rei, mas sim no Porto.

Por sugestão de um dos nossos camaradas, escolhemos o Restaurante do Café das Artes localizado no terraço do edifício do Teatro do Campo Alegre.

Vamos pagar 20,00 €uros e a ementa será constituida por:

Entradas,
Bacalhau com broa, batatas e legumes,
Bolo-rei e rabanadas de sobremesa.
Para terminar, café e digestivos.
Os vinhos serão os da Quinta Senhora da Graça do Zé Manel

Aspecto da sala de jantar

Como ir

Localização

IMPORTANTE
É necessário quanto antes proceder à marcação do jantar já que se prevê uma grande afluência e, atempadamente teremos de indicar no restaurante o número de pessoas para que a comida não falte.

ESPERAMOS PELA VOSSA MARCAÇÃO ATÉ AO DIA 09 DE DEZEMBRO

Marca a tua presença para o email: tabancapequena@gmail.com

Não te esqueças de trazer uma pequena lembrança por pessoa, no valor máximo de 3.00 €uros, para partilharmos entre os convivas.

__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste da Tabanca de Matosinhos com data de 19 de Novembro de 2009 > P273-O nosso jantar de Natal

Vd. último poste da série de 19 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5298: Tabanca de Matosinhos (12): O orgulho de pertencer à Tabanca de Matosinhos (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P5305: Tabanca Grande (188): Jorge Narciso, ex-1º Cabo Esp MMA, BA 12, Bissalanca, 1969/70

O Jorge Narciso, hoje (2009, foto à esquerda) e ontem (1967, cartão da BA 1, com 17 anos). Esteve na Guiné ntre Março de 1960 e Dezembro de 1970.


1. Texto e fotos do Jorge Narciso, ex-1º Cabo Esopecialista MMA (BA12, Bissalanca, 1968/69), enviadas em 13 do corrente:

Aí vai o percurso do Jorge Narciso, na FAP, arrumado cronologicamente... entre os 17 (nasceu em Maio de 1949) e os 21 anos (Dezembro de 1970)

(i) Out 66/Set 67 - 3ª/66 - BA 2 / Ota - Recruta e Curso MMA.

(ii) Meados de 67 - Centro de Inspecções (em resposta a concurso interno, ao qual concorremos 3 alunos): Inspecção (durante cerca de 3 semanas), para o Curso de Sargentos Milicianos Pilotos, do qual , e apesar de considerado Apto, fui preterido por elementos ainda civis (que tinham ficado adiados em Inspecção anterior), reinspeccionados na mesma altura

(iii) Out 67/Mar 69 - BA 1 / Sintra - Linha da frente dos T-37

(iv) Inicio de 68 - 1ª Nomeação (já não me recordo para onde), sendo no entanto imediatamente desnomeados, 7 dos 8 MMA, colocados na BA1, por considerados imprescindíveis ao serviço !!! (tem uma história que talvez um dia venha a contar), tendo o 8º classificado (como sabemos, as nomeações eram por ordem decrescente de classificação na especialidade) sido premiado com uma colocação ou em Cabo Verde ou S. Tomé (de certeza uma destas, sinceramente já não me lembro qual)

(v) Abr de 69 - 2 ª Nomeação, já perfeitamente inesperada para mim e outro companheiro, com mais de 30 dos 48 meses de contrato cumpridos, os restantes eram de 6 anos, sendo então os 3 piores classificados ido para... a Beira e os 4 melhores para... a Guiné (epilogo da história que atrás refiro).

Na passagem pela Inspecção médica, pré-embarque, os Serviços detectaram na minha ficha o registo anterior de aptidão para a Pilotagem, sendo-me proposta a troca imediata de Bissau por S. Jacinto, ao que perguntei qual a contrapartida no tempo de serviço me foi respondido que teria de assinar um novo contrato, agora de 6 anos, ao qual apenas seria descontado o tempo de recruta (3 meses) que já tinha cumprido na Ota. Ou seja, somado esse novo tempo ao entretanto já cumprido, seriam (sem nó) mais de 100 meses no total…Proposta recusada.

(vi) Abr de 69/Dez de 70) - BA 12 / Bissalanca - Linha da frente dos Alouette III (onde ao fim de pouco tempo, e devido à tardia nomeação, apesar dos meus 20 anos, comemorados aliás no Saltinho durante uma missão de abastecimento, era o cabo especialista mais antigo - tempo de FAP - da mesma linha).

Fiz ali algumas centenas de horas de voo, só não sei quantas, porque a minha caderneta de voo (que não sei porquê me obrigaram a entregar no regresso, diziam que para entrega posterior) está em parte incerta, se é que ainda existe (penso que não é caso único)

(vii) Dez de 70 - BA 1 / Sintra - Disponibilidade ... (ainda com 21 anos e 50 meses e picos de FAP, dos quais só me contam os 19 que estive na Guiné para efeitos de Segurança Social porque não trabalhei, antes de 1971)

Ilustrando agora o percurso acima, junto (sem exagerar a quantidade) mais algumas fotos:

Sintra > BA 1 > 1967 > o Pessoal (estou assinalado pela seta) da linha de frente dos, entretanto abatidos, T-37 cujo Comandante de Esquadra (à época Ten Cor Amaral) também na foto, reencontrei na Guiné. Num destes aviões (aliás o que está exposto em pedestal à entrada da BA1 - Matrícula 2424) tive o meu baptismo de voo (Foto à esquerda).

O. Pinto - Foto do chefe Oliveira Pinto (que muitas dezenas de membros da linha doshelis reconhecerão de imediato, pelos muitos anos que ali passou), neste caso no intervalo duma operação em Buba (está datada de Dez 69), comigo (de camuflado) com o Gabriel (fato de voo e a abastecer) e um dos miúdos nativos que como era habitual por ali cirandavam (Foto à direita).

Heli - Na linha, com um heli tão limpo que até parece que saiu duma estação de serviço, apesar do enquadramento talvez melhor esta para me identificar que a tipo passe.. (Foto à esquerda)

Petisco - Algures ainda em 1969. Pessoal da linha (sou o 5º a contar da direita - de camuflado) dos Helis, petiscando: ou um porco do mato ou uma gazela (pato da bolanha só por uma vez, pois mesmo com dois dias em vinha de alho, era igual a peixe assado), que de vez em quando marchavam. (Foto a em baixo, a seguir).

Únicas nostalgias que me ficaram de todo este tempo, para além do convívio com alguns companheiros mais próximos, que apesar de tudo se vai concretizando, quer através do telefone e dos outros novos meios de comunicação, quer presencialmente através de encontros mais ou menos regulares, ficaram-me dois desejos, ainda não satisfeitos:

1º - Voltar a voar de Heli: por impedimento profissional, não o fiz em 2006 em Beja, em que foi dada a oportunidade (boleia/voltinha) aos presentes durante a homenagem à minha ex- Esquadra "Os Canibais". Este estou a ver que vai ter de ser satisfeito em heli de turismo.

2º - Voltar um dia à Guiné, revisitando em passeio sereno, descontraído e sem traumas, locais e gentes (e situações associadas) guardados há 40 anos na memória, dum (então) menino de 20 anos, com cargas, cujo contexto seguramente se revelará agora completamente diferente.

Este parece finalmente, com o projecto em curso, com alta probabilidade de concretização. Vejo que as inscrições vão gradualmente aparecendo e, grão a grão ...

Um abraço. Jorge Narciso
(Está também em linha no blogue
Especialistas da BA12, Guiné 1965/1974)


2. Comentário de L.G.:

Como dizia há dias o teu/nosso camarada Miguel Pessoa, o primeiro piloto da FAP a ser 'strelado', em 25 de Março de 1973, sob os céus de Guileje, a rapaziada do Exército conhecia a Guiné por baixo e vocês por cima... Enfim,. duas perspectivas complementares, a celestial e a terrena. Falta aqui a abordagem, mais líquida, da Marinha (que anda rarefeita)...

Fora de brincadeiras, cada um de nós terá ao seu bocado de Guiné, que é como quem diz, do inferno, da terra e do céu... Jorge, estás apresentado à Tabanca Grande, onde há de tudo um pouco: casernas, hangares, aeródromos, heliportos, bases navais, quartéis, destacamentos, bolanhas, lalas, pontes, palmeiras, poilões, irãs, tempestades tropicais e sei lá o que mais... Isso terás que ser tu a descobrir... Acomoda-te a um canto e saca de lá das tuas memórias...

Um dia destes dou-te um abraço, ao vivo, no Cadaval ou na Lourinhã... Até lá, felicitemos por esse mundo ser pequeno e o nosso blogue... parecer grande (*). Um Alfa Bravo. Luís

___________________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes anteriores:

14 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5270: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (18): O Jorge Narciso e o Humberto Reis reencontram-se, 40 anos depois...

28 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5176: FAP (35): O trágico acidente aéreo de 25 de Julho de 1970, no Rio Mansoa (Carlos Coelho / Jorge Félix / Jorge Narciso)

Guiné 63/74 - P5304: As minhas memórias da guerra (Arménio Estorninho) (1): Todos temos uma hora de sorte e uma hora para morrer

1. Mensagem de Arménio Estorninho*, ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70, com data de 15 de Novembro de 2009:

Camarada e amigo Luís Graça,

As estórias que vou contar interligam-se, relacionam-se com a desdita sina já descrita em parte por outros camaradas, relativamente a um dos dois militares falecidos, em Aldeia Formosa, ao anoitecer do dia 22/01/69, devido ao acidente com a detonação de uma granada de mão, sobre um telheiro da messe dos Sargentos e por outra situação vivida por mim, aquando um forte ataque in ao Quartel de Buba, na madrugada de 14/02/69, na sorte que me bafejou e a muitos camaradas, se bem me lembro a CCaç 2317 “Os Mártires de Gandembel” também lá estavam de passagem.
[...]


Antecedentes dos acontecimentos

Estando o comando da minha Unidade CCaç 2381, colocado em Aldeia Formosa (Quebo), Dezezembro de 1968/Janneiro de 1969, fui convidado pelo Fur Mil Auto Rodas, Bertino Cardoso, para ir a Bissau, com a finalidade de frequentar um curso sobre reparação e funcionamento de motores-geradores eléctricos, que iria decorrer no Quartel da Engenharia em Brá. Também do quartel de Aldeia Formosa e com o mesmo fim, deslocou-se um soldado que fazia parte da CCaç 1792, Os Lenços Azuis, o qual identifico por aquele que tinha as funções de electricista e de cantineiro no bar das praças. Diga-se que quanto à viagem ela foi efectuada em Dakota e que maravilha de passeata. Foi o melhor que se pôde arranjar para sair do mato. Hoje qual seria o estado de espírito para viajar naquele meio aéreo velhinho e já monte de latas?

Chegados ao Quartel da Engenharia, em Brá, Janeiro de 1969, na primeira vez em que eu pisava terras de Bissau, foram efectuadas as devidas apresentações. No dia seguinte iniciou-se o curso que iria decorrer sem período determinado de aulas, tendo logo sido a minha intenção fazer render o peixe, isto é prolongar o tempo ao máximo, dado que por parte dos instrutores não havia qualquer inconveniente, de modo que retardasse o regresso à Unidade, e fazer um mês de justas e baratas férias.

Só que o bom do soldado que me acompanhou não esteve de meias modas, oito dias depois já pretendia regressar, porque na vida civil tinha a profissão de electromecânico, por isso já usufruía de boa prática e de conhecimentos teóricos. Pensou este que na Unidade não se deslocava para fora do arame farpado, julgando que fazia falta no aquartelamento e que era necessário ao Capitão. Contudo, deduzi que a sua pretensão seria mais por falta de dinheiro, dado que a cidade de Bissau era convidativa a gastar-se muito mais do que no interior, e ele como cantineiro era de poucos gastos.
Para o demover, fiz-lhe uma proposta, se houvesse saídas, e conforme os meus gastos, ele dispunha de importância de igual valor, não tendo o mesmo aceite, por isso de nada mais errado podia haver.

Diga-se que eu e o ex-1.º Cabo Escriturário, António Soares, da minha Companhia, tínhamos um mini-laboratório de fotografia, instalado no aquartelamento, do qual obtínhamos alguns proventos e podia por isso também despender de mais algum dinheiro. Conquanto contrariado tive que anuir, para evitar chegar posteriormente à Unidade e ter sanções disciplinares, o que não era conveniente.
Para o efeito, organizei o regresso via Aeroporto de Bissalanca, fizemos o devido embarque em Dakota, e seguimos para as respectivas Unidades.

Foto 8 > Bissau > Brá > Janeiro de 1969 > Quartéis e estrada do Aeroporto.

Foto 9 > Bissau > Janeiro de 1969 > Junto ao Parque Teixeira Pinto (Praça dos Combatentes da Liberdade), de passeio pela cidade, estando à esquerda um ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas que também estava a frequentar o curso sobre geradores eléctricos. Penso que a sua Unidade fosse das áreas de Jumbembem, Cuntima ou Cajambari, não tenho de memória qualquer identificação concreta.

Foto 12 > Bissau > Março de 1970 > uma avenida, estando eu e o ex-1.º Cabo Escriturário, António Soares, de Vinha da Rainha - Soure.

Aldeia Formosa (Quebo), em data posterior a 04 de Janeiro de 1969, quando regressei a este aquartelamento, o Comando e Serviços, da minha Unidade CCaç 2381, já se tinha deslocado para Buba, por ter-lhe sido atribuída a missão de dar segurança ao início dos trabalhos de abertura da nova estrada entre Buba e Aldeia Formosa. Do mesmo somente ficaram o Fur Mec Auto Rodas, Bertino Cardoso e o Condutor Auto O Caldas, incumbidos de efectuar a entrega das viaturas que estavam a cargo da nossa Companhia, para outra que as ia receber (penso de que era a CArt 2414), só que o Furriel Tac Tac entregou-me a pasta e embrulha. Desenrascou-se embarcando numa avioneta para Buba.

Feito o protocolo de entrega das viaturas a um Alferes Miliciano, o qual teve algumas hesitações de aceitação, mas ponderou, porque dialogando concluímos que as nossas habilitações literárias eram idênticas. Após (e logo por sorte), aterrou ali o tal velhinho Dakota, que também ia fazer escala em Buba. Para evitar, como era de todo inconveniente efectuar o percurso em coluna auto (veja-se foto 7), que estava marcada para 21/01/69, solicitei verbalmente o pedido de embarque ao Comandante do meio aéreo, o que foi aceite, mas só com guia de marcha. Depois, requeri as ditas guias num ápice e ala que se faz tarde!. Lá nos fomos juntar ao Comando da Companhia.
Relativamente à dita Aldeia Formosa (que de nada tinha), foi mais um obstáculo ultrapassado, dizendo-lhe até à vista, e não levando boas recordações.

Foto 7 > Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa (Quebo) > Julho de 1968 > Com a viatura destruída por mina a/c. Era a do Rádio de Transmissões, tendo ocasionado a morte do Operador. A coluna que saíra de Buba, em 25/07/68, onde seguiam os três obuses de 14cm. Na traseira da carroçaria, vi que o Capitão Ricardo Rei, o homem do bigode, da CCaç 1792, Os Lenços Azuis, ia atrás sentado e com as pernas suspensas. Teve a sorte pelo seu lado, caso o rebentamento fosse na roda de trás, era ele que morria. Militar de valor e amigo, conta-se que só teve promoções até Tenente Coronel e que já não está entre nós.


Seguiram-se os acontecimentos com sortes diferentes

Aldeia Formosa (Quebo), ao anoitecer do dia 22/01/69
No que concerne a este acidente, serão narrados factos do meu conhecimento e os que me foram contados por fonte que considerei fiel, pois o já mencionado soldado electricista e cantineiro da CCaç 1792, Os Lenços Azuis, presumo que se chamava José Pereira da Costa, natural de Castelo Branco ou Manuel da Silva Carrola, natural da Covilhã, era do seu hábito ir ligar o gerador eléctrico e só depois é que jantava. De seguida, dava dois dedos de conversa no átrio da messe dos sargentos para passar o tempo e fazer a hora de abrir o bar da cantina, que se situava nas proximidades. Contudo, estava no lugar errado há hora errada, tudo calmo e de repente algo muda com uma detonação. Uns ficam feridos, outros fogem para se abrigarem, pensando que se tratava de um ataque IN. Quanto ao presumível soldado, correra para se proteger no abrigo da cantina e teve um fim trágico.

Conquanto, no quartel de Buba, pela noite, eu ouvia as inusitadas passagens de meios aéreos, o que era anormal e por isso interrogávamo-nos sobre o que sucedera para os lados de Aldeia Formosa.

Viemos posteriormente a saber do acidente e que no mesmo houve a lamentar dez feridos e duas mortes, um deles fora encontrado na cantina já sem vida, motivado por um estilhaço da granada alojado no tórax, com derramamento interno.

Houve um suspeito pelo acidente, segundo constou tratou-se de um soldado que posteriormente andava pelo aquartelamento dando mostras de desvairo e a chorar, por isso e a fim de ser interrogado, fora enviado para Bissau. Nada mais se soube.

Buba, 14/02/69, pelas 5h,15m da manhã
Grupo IN desencadeou forte ataque ao aquartelamento. Estando eu deitado, de imediato levanto-me e corro para a porta da caserna, com a intenção de dirigir-me para a vala, como era normal. Quando ia a meio do percurso, houve a detonação de uma granada de canhão s/r, penetrando na parede da caserna e vergando a estrutura de um beliche. Estando prestes a sair, entre várias explosões, dá-se em particular a de uma granada, no depósito de água, o que me fez retroceder e proteger-me entre caixas que se encontravam debaixo de camas.

Foto 10 > Guiné > Região de Quinara > Buba > Aquartelamento > Fevereiro de 1969 > Tendo em fundo o depósito de água, uma caserna e a árvore poilão, onde havia um posto de sentinela (nota-se a guarita) e, até lá ter falecido um camarada aquando ataque IN.

Provavelmente, se já tivesse ultrapassado o vão da porta, pelo fogo de artifício que se apresentou no exterior, os estilhaços teriam feito muita mossa na minha roupinha de baptismo.
Foram dois momentos de sorte para mim e para outros camaradas, estando, entre eles, dois que pertenciam à CCaç 2317. Por incrível que pareça, foram acordados após o ataque terminar. Pensaram eles que estavam nos buracos das toupeiras em Gandembel. Tal era o hábito, mesmo com tanto fogacho já não ligavam.
Havendo a excepção de um cozinheiro, que quando preparava os pequenos-almoços no refeitório das praças que, devido à detonação de uma granada IN, ficou ferido e veio a falecer.

Porque fui buscar as memórias ao Baú, e por vezes elas prega-nos partidas, se lhes parecer algum pormenor menos certo aproveito para pedir desculpa.

Penso que assim foi colocada mais uma peça no puzzle, sobre aquela fatídica noite e da desdita sina que estava traçada para um militar, que precipitara o encontro com a morte prematura e estúpida. Solicito a quem souber que identifique a qual me referi, sendo ele bom camarada, responsável, zeloso, voluntário e considerar-se imprescindível no quartel. Mas não se recordou de quando da instrução militar, dos constantes ensinamentos que na tropa não se deve ser voluntário, também não foi o único infelizmente, pois acontecera com tantos outros militares em situações diferentes. Aquela viagem inoportuna poderia ter-me sido também fatal, mas fiquei ileso fisicamente. Recordo-me dos tempos idos com o célebre grito exclamando: - “Tirem-me daqui… estou farto disto..!,” que sem excepção afectara psiquicamente a todos.

Por hoje é tudo, dando-te um forte aplauso de incentivo, que é de louvar a tua
disponibilidade, assim como dos co-editores, de tanto quanto possível poderem apresentar o blogue de forma organizada, para que possamos manter viva a nossa mística de ex-combatentes, sobre tempos idos tão difíceis e que nos valorizaram como homens.

Alonguei-me demais no escrever pois, como bom algarvio, tenho dificuldade em terminar o texto, isto é como o comer e o guerrear, o mal é começar!
De acordo com o solicitado vou enviar as fotos da praxe, assim como de outras e identificadas tanto quanto possível.

Cordiais saudações, e, recordando com o complicado vocabulário e pontuação de, “djubi, amim mist parti manga di mantenhas pra abó, bai suma pra manga dêl escamaradas di tertúlia, járame ánãni.” (i.e., do crioulo: olha, eu quero dar muitos cumprimentos para ti, vai igual para todos os camaradas da tertúlia, obrigado está bem).
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 18 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5293: Tabanca Grande (187): Arménio Estorninho, ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas da CCAÇ 2381 (Guiné, 1968/70)