domingo, 17 de janeiro de 2010

Guiné 63/74 - P5667: Da Suécia com saudade (19): Intervenção do Capitão Azevedo Martins, delegado do MFA de Angola à Assembleia de Tancos (José Belo)

1. Mensagem de José Belo (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref), com data de 17 de Janeiro de 2010:

Caros Camaradas e Amigos.
Em comentário, quanto a mim, pertinente, Carlos Vinhal salienta o facto de poucas "histórias e Histórias" haver publicadas pelos que... fecharam a porta... das guerras de África.

Em complemento ao meu poste sobre a descolonização, e a propósito do referido, aqui segue a intervenção do delegado do M.F.A de Angola (Capitão Azevedo Martins) à Assembleia dos Delegados do Exército que ficou conhecida como a Assembleia de Tancos (2 de Setembro de 1975).


"Estão presentemente sediados em Nova Lisboa um Comando de Agrupamento, um Batalhão de Cavalaria e um Batalhão de Infantaria. Não existe sequer uma arma pesada, e dos dois Batalhões, o de Cavalaria ainda poderá dispor de pouco mais de 100 homens para o combate, enquanto o de Infantaria não poderá dispor de NINGUÉM, pois é o Batalhão que veio do Luso e que os próprios soldados do Comando do Agrupamento e do Batalhão de Cavalaria apelidam do "Batalhão do pé descalço.

Este Batalhão, no seu deslocamento do Luso para Nova Lisboa, foi desarmado, e espancados alguns dos seus elementos, incluindo o próprio Comandante. Perderam-se cerca de 4000 armas, rádios, munições, material cripto, tudo em posse da Unita. Foi o próprio Chiwale, 2.º Comandante Militar da Unita, que ordenou esta acção contra o Batalhão, como represália por acções menos correctas das nossas tropas em Sá da Bandeira, das quais trataremos mais à frente. Deste Batalhão, soldados houve que chegaram a Nova Lisboa em cuecas, facto que terá traumatizado esses elementos, mas é agora trauma explorado para forçar a sua retirada imediata para Portugal, embora só tenha... 3 meses de comissão!

Ciganos, que fazem parte dos elementos do Batalhão, logo após a entrada no quartel que lhes foi distribuído, começaram com arrombamentos e roubos. Impossível é, e porque tudo já se tentou, convencer a maioria a pegar em armas, mesmo que seja para desempenhar a também nobre missão de sentinela. Os factos passados com este Batalhão, e com uma "espécie de Companhia" que apareceu em Nova Lisboa, muito contribuiram para uma quebra no entusiasmo com que os poucos mais de 100 homens do BCav vinham desempenhando árduas missões, mesmo fora da zona de acção, como foi a evacuação da população de Malange.

A "espécie rara de Companhia" que atrás referi é um bando, não digo armado, por à semelhanca do Batalhão, ter sido também desarmada pela Unita, quando do regresso de uma missão de Henrique de Carvalho para Luanda. O Comandante desta Companhia apareceu em Nova Lisboa escoltado por elementos da FNLA, brancos, armados, pedindo cerca de 2.000 mil rações de combate e alguns milhares de litros de gasolina. Refere-se que o dito Comandante da Companhia não estava sob qualquer coacção!

Peço aqui licença ao meu General para usar linguagem "vicentina"... mas estamos a averiguar casos de soldados que trocaram a sua ração de combate pela... "co.." de algumas desalojadas! É um tal Capitão França e Silva e a sua Companhia que recebe na ordem de dezenas largas de contos dos desalojados, aos quais já muito pouco resta na vida, e mesmo esta em risco de perder-se se nós não lhes valermos. São as acções deste mesmo Capitão ao entregar o quartel de Pereira de Eça em condições muito mais que cobardes como consta do auto de notícia, por mim escrito, em que fez entrar no Quartel elementos do MPLA e os dispôs em posições camufladas. Seguidamente foi comunicar à UNITA para ir receber o mesmo Quartel. O resultado não precisa de ser aqui descrito.

Mas não são só os Militares. É-o também um tal Encarregado do Governo que mesmo sabendo das carências dos refugiados se permitiu arrecadar seis ou sete toneladas de arroz, pois tinha no seu palácio albergados os Srs. Ministros da UNITA. Tive mesmo oportunidade de perguntar numa reunião, a este Encarregado do Governo, porque não estaria já hasteada no seu palácio a bandeira da Unita, tal o estado, sujo e esfarrapado, em que lá tinha hasteada a bandeira Portuguesa!

E ainda porque nos comprometemos numa intransigente isenção partidária, são acções como esta que estão na origem das represálias atrás denunciadas, e que agora põem em perigo cerca da meio milhão de vidas, preço demasiado caro, e alicerces demasiado frágeis para a construção do edifício que queremos para a liberdade do nosso povo. Ou sois capazes de nos dar resposta a estas apreenções, ou deveis, se alguma dignidade vos resta, dar-nos conta da vossa... impotência!

REFUGIADOS/NOVA LISBOA.
São já mais de 70.000, contando com a população da cidade que também quer regressar a Portugal. Para a semana serão mais de 100.000. Pouca comida há. Remédios também poucos ou nenhuns. Dos que há, ou houve, esses foram trazidos de Gabela aquando da evacuação da sua população, por arrombamento das farmácias existentes. Não há roupa e agasalhos, e é no chão que dormem. Faltam adjectivos para classificar as condições sub-humanas em que vive esta gente. Homens, mulheres e crianças. Crianças que já morrem por impotência dos próprios médicos, uma vez que não possuem os meios mínimos para exercer a sua profissão.

Mas um perigo, ainda maior que os tiros disparados por armas traiçoeiras, paira sobre Nova Lisboa. Refiro aqui que nos dias dos confrontos armados, os movimentos de libertação tiveram o cuidado de disparar para cima das instalações do recinto FINOL onde se encontrava elevado número de desalojados.

É CULPA VOSSA! Que nossa não é concerteza, embora sejamos nós que estamos a sofrer a impiedosa hostilidade dos que consideramos irmãos... e que vós considerais colonialistas. Os que lá estão não o foram, assim o demonstram as suas mãos de árduo trabalho.

DOS QUE AQUI ESTÃO... ALGUNS O TERIAM SIDO! Por duras que sejam estas palavras, ainda admitirei que alguns de vós as sintam como injustas. Mas se assim é, então provai-o por actos, dando-nos meios para cumprirmos a nossa missão, NEM QUE TENHAIS QUE SACRIFICAR EM PARTE; OU NO TODO... AS VOSSAS OPÇÕES POLÍTICAS!


No fim destas declarações o então General Otelo Saraiva de Carvalho, no calor do momento (?) disse:

- O que aqui foi dito sobre Angola deverá ser dito a todo o povo português!

Salgueiro Maia, e mais alguns Oficiais (3), ofereceram-se para, de imediato, partir para Angola.

Quantos tiveram oportunidade de ler, em comunicados oficiais, nos jornais, na televisão, ou na rádio, estas (entre outras) detalhadas, dramáticas e vergonhosas... informações?

Kíruna 17/Jan/2010
José Belo
__________

Nota de CV:

Vd. poste de 16 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5660: Da Suécia com saudade (16): Algumas considerações sobre a descolonização (José Belo)

32 comentários:

Anónimo disse...

Caro José Belo,

Não quero entrar em problemas fracturantes no Blog.

Só quero confirmar através do que escreves, que estavas bem informado!

Fica-me um problema inorme!

Se estavam os Homens do 25 de Abril, tão bem informados e sabendo do que poderia acontecer, porque o deixaram acontecer?

Aconselho a leitura de "Ficheiros Secretos da Descolonização de Angola" da Dra. Leonor Figueiredo.

Quanto ao pronunciamento de Otelo Saraiva de Carvalho e do falecido
Salgueiro Maia, como o nosso Blog se refere à Guiné em príncipio, gostava, já que julgo seres um ex-Capitão bem informado que escrevesses o que os mesmos falaram, disseram e fizeram quanto à Guiné.

São de grande responsabilidade, as palavras que hoje se possam dizer, pois alguns já partiram e não terão possibilidade de defenderem as suas versões.

Há quem cale e muito saiba!

Embora seja veridica a situação de: "Um soldado Português em cuecas".
Procure-se as causas e os responsáveis.

Dou-te a minha palavra de honra, que embora um simples furriel miliciano de operações especiais, jamais eu ou um soldado meu faria isso com vida.

Depois disto tudo! Sou forças-me a um certo (nacionalismo) e louvar os briosos soldados que oriundos das mais reconditas aldeias deste Pais, me acompanharam nas matas e bolanhas da Guiné.

Esses sim mereciam uma estátua nas praças da sua Pátria!

Perdoa! Sei que estou a extravasar.

Ao editor e coeditores peço desculpa de ir um pouco além do devido. Mas o soldado Português para mim é sagrado.


Cá vai para essa terra gelada, o caloroso abraço do tamanho do Cumbijã,

Mário Fitas

Anónimo disse...

Obrigado, José Belo por nos forneceres este importantíssimo documento, que vou imprimir e colar-lhe a introdução do Cap. Azevedo Martins, que transcreveste no outro poste.
Um abraço,
Carlos Cordeiro

Anónimo disse...

O que o José Belo aqui nos prova, é sabido, na pele e na alma, por milhares de portugueses, por negra e traumatizante experiência própria.

Mas se alguém tiver ainda alguma dúvida, sobre este período vergonhoso e agoniante, eu posso oferecer-lhe um CD com 25 fotos dos horríveis massacres em Luanda, em 1975.

Brancos negros e mestiços às centenas, mortos às molhadas a apodrecer ao sol, enchiam os passeios das ruas em Luanda.

Em vez de "exemplar descolonização" eu chamo-lhe exemplar... MORTANDADE!"

Com os melhores cumprimentos para o José Belo e demais tertulianos e Amigos,

Magalhães Ribeiro

José Belo disse...

Caro Amigo e Camarada.Dizes,e muito bem:-Há quem cale e muito saiba!Eu,ajuntaria que,na maioria dos casos:quem mais fala menos sabe!Apesar de,compreender que é mais fácil falar do que nao gostamos de ouvir,á distancia de todo um Continente.Apesar de aí nao viver há mais de trinta anos reconheco-me no nosso querido Portugal melhor que nunca.Concordo em absoluto quando J.Brás afirma:a inevitabilidade das perdas quando acontecem mudancas sociais e políticas como as que aconteceram entao". Como Tu,e por certo muitos,incomodo-me(e o termo é suave)com os pormenores destas declaracoes do Delegado Militar de Angola.Tenho infelizmente comigo uma cópia escrita das mesmas,que guardei aquando da reuniao de Tancos,sinto hoje,que nao posso ,nem devo,pretender que elas nao existem.Ele foi apoiado pelos outros Delegados do M.F.A de Angola,entre eles o Capitao de Artilharia Simoes,que ao falar,referiu casos de revoltas de Unidades,alem de várias atitudes de indisciplina grave.terminou salientando a sensacao de "abandono a que teriam sido votados".Os mais ingénuos e ignorantes,terao conseguido,á sua maneira,sublimar muitos dos detalhes desagradáveis e sujos,resultantes das profundas convulsoes políticas em que participaram(alguns)ou,se viram arrastados (outros).Quando será,entao,altura "conveniente" para se colocarem estas perguntas,por muito que os nossos alicerces de valores ideológicos,e nao só,estrebuchem? Sao contradicoes profundas entre elevados ideais,e as consequências trágicas que situacoes de profundas transformacoes sociais acabam por trazer sempre a tantos indivíduos. PS)Como deves compreender,nao posso,nao devo,nem quero,ter pretensao de pronunciar-me sobre Otelo de Carvalho,e muito menos sobre Salgueiro Maia,por quem sempre tive grande respeito como Homem,Cidadao,Militar,e nao menos...AMIGO. Um grande Abraco.

Joaquim Mexia Alves disse...

Caro José Belo

Já no texto do José Brás eu digo algumas coisas sobre esta situação que se viveu em Angola, o que agora também confirmas com este documento das próprias "autoridades".

Também em Lourenço Marques se viveram momentos indescritiveis, (tinha lá um irmão meu), e precisamente na altura em que me ía lá deslocar.

Conversaremos sobre isto seguramente outras vezes, pois eu, vivi esta situação na pele.

Abraço camarigo para ti e para todos

Carlos Vinhal disse...

Caro Mário Fitas
Julgo que foste tu quem disse há dias, ser um velho militar do tempo da farda amarela.

Pois é, desde o tempo dos militares da farda amarela até ao dos SUVs, vai uma diferença de comportamentos maior do que o tempo que os separa.

No ultramar, mal se soube do 25 de Abril, foi um desmobilizar automático das responsabilidades. Embora não estando na tropa nessa altura, felizmente, comparo o ser graduado do Exército, nesse tempo, ao ser professor do ensino actualmente. Completa bagunça. Nem os graduados de então, nem os professores de agora, tinham e têm a cobertura dos seus superiores hierárquicos para poder exercer uma autoridade que se quer responsável e responsabilizadora.

Por outro lado, não venham dizer que certos comportamentos dos militares tinham a ver com o facto de estarem apanhados ou de ter acontecido o 25 de Abril. Na tropa, a deficiente formação cívica vinha ao de cima, mercê de um hipotético poder e uma impunidade adquiridos pelo vestir da farda e uso da arma.

Por aqui me fico, porque o Relatório trazido a lume pelo José Belo, é mau de mais para corresponer à realidade. E é verdadeiro, infelizmente.
Um abraço
Vinhal

Anónimo disse...

Caro José Belo

Já comentei o teu post anterior sobre o que se passou na “nossa” Guiné, que é o que eu penso.

Agora este documento importante sobre a situação em Angola, envergonha e ilustra de forma muito clara mais uma fase da dita “descolonização exemplar”.

Nós fomos combatentes na Guiné, e somos cáusticos com os nossos camaradas que entendemos que se portaram menos bem na Guiné, mas se os compararmos com estes casos, fomos todos heróis e honramos os nossos compromissos até ao fim.

Se o assunto não fosse tão sério, dizia que se trata de um relato de banditismo mas infelizmente foi o que se passou, e sinceramente fico incomodado.

Já agora, sabes se alguém foi punido?

Um abraço

Manuel Marinho

Anónimo disse...

José Belo, já te tinha dito no post que publicaste anteriormente, que aonde tu punhas pontos de interrogação, eu já tinha tirado todos esses pontos de interrogação, porque para mim eram apenas afirmações.

Como o Blog é particularmente sobre a Guiné, jamais pretendi referir-me a Angola, embora tenha sido ali que que incidia o interesse internacional.

José Belo, tu como emigrante, tens uma visão mais abrangente sobre isto tudo, e gostava de te dizer que eu sou RETORNADO de Angola, (1957-1974), e, infelizmente, essa de militares em cuecas, e os vandalismos que podiam ter sido evitados, assim como os crimes da Guiné, posso provar, não aqui, que tudo podia ser evitado, pois houve tempo para preparar tudo em condiçãoes.

Os movimentos deram tempo suficiente para tudo se resolver da nossa parte sem atritos.

Fomos desorganizados, e incompetentes, e não vale apenas mencionar que a culpa é deste ou daquele, porque já deve ser mesmo complexos nossos para resolvermos os nossos problemas.

Tambem fui emigrante no Brasil, e depois na Guiné.

Mas a panorâmica melhor que tive daquilo que nós somos, foi quando fui "marcado" como RETORNADO.

Permitiu-me ver, pelo canto do olho, a pequenez de certos momentos históricos.

Deita tudo cá para fora José Belo.

Antonio Rosinha

José Belo disse...

Caro Camarada Manuel Marinho. As décadas passadas sao já algumas,e os "contextos"de entao,estao já a tornar-se demasiado esbatidos na memória colectiva.Isto, para nao referir geracoes posteriores que,hoje ,de isso nada sabem.Felizmente?Infelizmente? A procura aberta por parte de alguns altos responsáveis de entao de encontrar solucoes neo-colonialistas para problemas cada vez mais incontroláveis,apoiando-se abertamente nos Estados Unidos (nao esquecer o encontro com Nixon nos Acores)levaram ao apoio "automático"por parte de alguns a grupos combatentes opostos,com as consequências que se sabe. O "GRANEL" foi de tal ordem que,na grande maioria dos casos graves....punicoes..."cá tem!". Um abraco.

Anónimo disse...

A 7 de Setembro de 74, como sabemos, foram assinados os "acordos de Lusaka", que estabeleceram o cessar-fogo com início às zero horas do dia 8.
No dia 30 desse mesmo mês - 22 dias depois - 10 militares açorianos (só tenho informação dos açorianos)do BCaç 4811/72 (BII 18) morrem: 6 em combate e 4 por acidente (informações oficiais).
Como terá sido isto possível?
Nem se pode imaginar o que terão sofrido as famílias, numa altura em que já contavam os dias para terem os seus familiares de volta ao lar.
Um abraço,
Carlos Cordeiro

Anónimo disse...

... Cessar-fogo em Moçambique.
Carlos Cordeiro

MANUEL MAIA disse...

CARO ZÉ BELO

O QUE O ZÉ BELO AFIRMA AQUI SERVE PARA DESMISTIFICAR AS AFIRMAÇÕES DE ALGUNS BILTRES POLÍTICO/MILITARES SOBRE A SUA "DESCOLONIZAÇÃO EXEMPLAR"

QUALQUER TRIBUNAL MARCIAL EDE QUQLQUER PAÍS DO MUNDO PUNIRIA AQULE GENTE,EM PORTUGAL...FORAM LOUVADOS E DERAM-LHES RICOS CARGOS PUBLICOS E IMENSAS PREBENDAS.

É DISTO QUE O PAÍS SE DEVE ENVERGONHAR.

MIGUEIS DE VASCONCELOS HOUVE-OS NUM PASSADO DISTANTE MAS TIVERAM O TARTAMENTO CORRECTO,ADEQUADO...

DEPOIS DA GOLPADA,FOI O QUE SE VIU.

ABRAÇO
MANUEL MAIA

Torcato disse...

Mandei ás urtigas o que tinha a fazer. Vim ler os postes relacionados com colonização/descolonização e outros que tencionava ler com mais atenção e estavam marcados.
Não quero por agora falar muito. Em mail escrevi aos Editores e nem reli. Muito do que se passou era, quer quando aconteceram quer posteriormente, do conhecimento de muita gente. Mesmo na Guiné os assassinatos dos que ao nosso lado combateram, o caciquismo, estou a ser suave, português suave, que ao longo destes anos se passou e passa por lá. Isso não desculpabiliza a colonização e o "destroçar" em partilha (Berlim finais do SecXIX) todo um continente. E pós independências...
Meu Caro José Belo um abraço e foi, quanto a mim, pertinente o levantar destas questões. E agora?
Bem fico por aqui e vou ler...para não dizer asneira alguma...
Um forte abraço do Torcato

Anónimo disse...

Obrigado José Belo pela divulgação deste documento histórico. Eu vivia então em Nova Lisboa, donde saí em Outubro de 75, não me lembro o dia, à boleia no Boeing da Força Aérea. Até Luanda foi de pé porque não havia lugar para sentar. Senti na pele tudo o que se passou naquela cidade e ouvi contar estas histórias e ainda outras, com mais ou menos pormenores. Como já disse há tempos noutro comentário, ainda está muita gente viva e com muito poder, a quem não interessa que se saiba o que se passou com a vergonhosa descolonização. Mas continuamos a ser um país de brandos costumes e por isso temos o que merecemos.
Um abraço e haja saúde, como se diz na minha terra(Açores).
Henrique Matos

Jose Manuel disse...

Camaradas,
O texto que o Zé Belo nos trouxe ao conhecimento, revela como o golpe do 25 de Abril não foi suficientemente, ou minimamente, pensado.
Revela como os responsáveis, dando-se conta antecipadamente da impotência, prepararam a solução "democrática" para despacharem as soluções para os partidos.
O pior, porém, é que no dia seguinte o poder estava na rua.
Ora, a população farta, acolhia todas as manifestações contra a guerra com gaudio. Daí, o êxito de "nem mais um soldado para África".
A ligação, a cadeia hierárquica, e a assumpção de responsabilidades por parte dos comandos nas três frentes, primeiro claudicou, depois pode ter sido manipulada, sem consideração pela defesa da ordem e da continuidade social.
Portugal devia ter negociado com o poder da força.
Todavia, após tantos anos de guerra, já não havia moral para corporizar a necessária evolução política para a descolonização, com o necessário apoio das FA.
Se Salazar tivesse aceite as condições da Carta das Nações, que dava 30 anos para a potencia colonial desenvolver os territórios colonizados e, nesse prazo, sugeitar-se a referendo sobre a vontade dos naturais, entre a independência e a federação, provavelmente seria esta a escolha, durante os anos 80, na medida em que se assistia a um desenvolvimento económico e social muito grande, na ordem dos 15% em Angola e Moçambique.
Como alguém referiu, assim, aconteceu a descolonização possível. E impune.
Como refere o Henrique, ainda haverá muita gente a quem não interessa mexer no assunto.
No entanto, enquanto cidadãos livres, é importante seguirmos estas peças da história recente, no sentido de melhor conhecermos e evitarmos o polvo que nos tolhe.
A não ser que aceitemos de bom grado o peso da bota.
Abraços fraternos
J.Dinis

Joaquim Mexia Alves disse...

Meu camarigo Henrique Matos

Muito provavelmente vieste num Boeing cujo comandante seria o meu grande amigo Ten Cor Luís Quintanilha.

Lembro-me de ele chegar a Luanda, vindo de Nova Lisboa e me dizer que tinha batido todos os recordes de passageiros a bordo de um 707, dizendo que vinha pessoal de pé!!!


Tempos duros, muito duros!

Abraço camarigo para todos

Joaquim Mexia Alves disse...

Meu caro José Dinis e todos os camarigos

O mais triste é que ainda há alguns politicos e não só, que se ufanam da "descolonização exemplar"!

Se ao menos tivessem a humildade de dizer que dadas as circunstâncias, (o que é discutível), não conseguiram fazer melhor!

Abraço camarigo para todos

Anónimo disse...
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José Belo disse...

"A debelidade do Exército foi,sobretudo,obra do poder político derrubado em Abril de 74,e nao,uma consequência única da revolucao". (Cito o SR.Coronel David Martelo no livro:As Mágoas do Império.) O termo "revolucao" é,muito utilizado em conjunto com "ABRIL".Ou ainda...Exército/Revolucao/Abril. Nao se deverá esquecer que o "pronunciamento militar"da MADRUGADA de 25 de Abril,era composto por elementos com motivacoes muito dísparas e de modo algum revolucionárias. Foi gracas ao entusiasmo e vontade das massas populares que de imediato invadiram as ruas,que este inicial "pronunciamento" acabou por se transformar...no 25 de Abril Á TARDE...em possibilidades futuras de profundas transformacoes sociais. Muitos dos implicados na MADRUGADA de Abril,viram-se,entao obrigados a.....acertar o passo! Alguns com bem maiores dificuldades que outros. A imagem é bonita,espalhada internacionalmente,e Histórica;mas nao se deve esquecer que os cravos vermelhos nao vinham colocados nas pontas das G-3 á saída dos Quarteis. Foi o Povo,nas ruas,que lá as colocou. Honra seja feita aos Militares por as nao terem retirado! Nao terá sido só a "debelidade do Exército ,criada por Salazar" apontada no início deste comentário como também o facto de,e ainda citando David Martelo:-Nenhuma outra potência colonial teve de proceder á descolonizacao de um território em SIMULTÂNEO com uma revolucao na respectiva metrópole. Um abraco.

Anónimo disse...

Sobre este assunto, desculpem-me fazer de diabo.

Quase 36 anos depois: sem ter estado metido nas revoluções; executando o meu trabalho diário aqui na província e apanhando por tabela quando ainda não estava psicologicamente estabilizado; depois de todo "o pó" levantado por aqueles tempos "frenéticos" dos idos de 74 e 75 ter sido lavado por tantas águas invernias e estivais,
ser-me-ia fácil, formular agora juízos de valor sobre o que poderia e deveria ter sido feito em "tempos sossegados e calmos".

Assim, deixo apenas estas perguntas, para que me esclareçam.
Como foi na Argélia?
Foi exemplar a saída da França?
Vivia-se na França um "clima" como aquele que se viveu em Portugal?

Não me batam muito, porque já não tenho cabedal para aguentar...

Que os erros do passado sirvam pelo menos para no presente (em que reina a calma e a paz) se fazer melhor, são os meus votos.

Abraços
Jorge Picado

José Belo disse...

Caro Camarada. Argélia,Rodésia,antigo Congo Belga,Vietnam-Francës,Sahara Ocidental-Espanhol,Indonésia-Holandesa,Malásia-Inglesa,Palestina...etc,etc,etc. Infelizmente,companhia nao nos falta. Precisamente como apontas,permite-me repetir o que David Martelo salientou:"Nenhuma outra potencia colonial teve de proceder á descolonizacao de um território em SIMULTÂNEO com uma revolucao na metrópole". Um abraco amigo.

manuel maia disse...

CAMARADAS,

Não posso deixar de concordar com o Zé Dinis quando diz que os "responsáveis" não executaram um golpe minimamente pensado e que depois atiraram a"criança" para os braços dos políticos...

já as afirmações do coronel Martelo,na minha perspectiva não passam de uma tentativa desesperada muito ao estilo corporativista de defesa intransigente dos interesses de determinado grupo profissional,no sentido de alijar culpas nas costas alheias.
Claro que a "teimosia" dos líderes do 24 abril não pode ser ignorada,mas daí a imputar-lhe culpas alheias...

Bastaria ter a idade que temos e estar minimamente atento, sem qualquer enfeudamento político partidário, para nos apercebermos que ALGUNS DOS LÍDERES MILITARES dessa altura,eram pessoas
pouco mais que acéfalas...
O seu comportamento ao longo dos tempos é suficientamente elucidativo...

Se fizermos um flash -back encontraremos indivíduos a quem o posto de cabo do rancho( sem desprimor para estes esforçados militares)seria o mais consentâneo com as suas aptidões de "comando"...

O país foi obrigado a suportar as suas diatribes e presunção,prepotência e reconhecida incapacidade intelectual...

Alguns tiveram mesmo comportamentos criminosos,tendo-lhes sido passada,vergonhosamente, uma esponja sobre tais indignas atitudes...

Não me parece pois correcta qualquer tentativa de branqueamento,
como parece ter sido intenção de alguns...

e mais não digo.

manuel maia

manuel maia disse...
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Anónimo disse...

Pois é meu grande (não só no tamanho) camarigo Mexia Alves, possivelmente o comandante do Boeing era o teu amigo Quintanilha. Grande homem devia ser, além de um bocado temerário. Deixou-nos encher o porão do avião com a tralha possível e a bordo não cabia mais ninguém. Quando saiu da placa e tomou a taxiway em direcção à cabeça da pista acelerou e entrou na pista já largado com a ponta da asa quase a roçar o chão e comeu a pista toda para levantar. Vi a cena em directo porque, como já disse, ia de pé. Mas chegamos bem a Luanda que era o que interessava.
Aquele abraço Henrique Matos

Jose Manuel disse...

Camaradas,
Hoje li esta casualidade quase feita para encaixar na matéria em apreço:
"Neste sentido e porque os Oficiais formados nos anos 60 fugiram dos locais de combate, o Exército desmoronou-se; a cadeia de comando partiu-se; o Exército deixou-se vencer; a Academia Militar falhou na selecção e formação psicológica das futuras elites militares que, sem solução à vista e vendo-se ameaçadas pelos milicianos, que mais não eram do que as suas muletas, correram à procura da "democracia salvadora", para a qual ainda tinham menos vocação do que para a vida militar".
Extraído de "Elites Militares e a Guerra de África, de Manuel G. Rebocho, Roma Editores, pg.363.
Trata-se de uma interessante interpretação da Guerra de África, que contém ideias resistentes a algumas eventuais correcções.
Se anteriormente já se malhou na mediocridade política desde antes do inicio das hostilidades, agora, abre-se uma janela de apreciação sobre a resultante mediocridade de acção e protecção às fornadas de oficiais das F.A.
Para ler num esforço de compreensão, sem veleidades de corrigir alguma coisa ou imputar responsabilidades extemporâneas.
Abraços fraternos
JDinis

Joaquim Mexia Alves disse...

Meu Caro Henrique Matos

O Luís Quintanilha era sem dúvida um tipo temerário e um grande piloto.

Lembro-me bastante bem desse dia em que ele em Luanda me dizia que não sabia como tinha tirado o avião do chão, mas que também não ia deixar as pessoas para trás!

Mais tarde, quando de uma greve de pilotos nos Açores, ou coisa parecida, foi o único que colocou o 707 na pista antiga de Ponta Delgada, (se não estou enganado), para resolver alguns problemas inadiáveis.

Também esteve na guerra, mas em Angola.

Julgo que nesse vôo de Nova Lisboa também ia o Ten. Cor. Pil. Carlos Lavrador, outro grande amigo também infelizmente já falecido num estúpido acidente de avião, tal como o Luís Quintanilha.
Abraço camarigo para ti e para todos

Anónimo disse...
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José Belo disse...

Caro Luis Henriques. Nao sei se esteve presente na Assembleia de Delegados do Exército de 2/Set/75 em Tancos. Caso contrário dispoe do livro "Ascenção,Apogeu e Queda do M.F.A" (páginas 250 a 266),sendo as declaracoes do Sr.Capitao Azevedo Martins,Delegado de Angola publicadas nas páginas 255/256/257.O descrito neste livro corresponde exactamente ás cópias das declaracoes que tenho comigo. Sempre ao Seu dispor.José Belo

Anónimo disse...
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José Belo disse...

Caro Luis Henriques. A...Persistência...sempre foi considerada uma virtude Maior. Com os melhores cumprimentos. J.Belo

Anónimo disse...
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Jorge Machado-Dias Pedranocharco disse...

Esta descrição do "Batalhão pé-descalço" é uma parvoíce completa! Em primeiro lugar o Batalhão era de Artilharia e não de Infantaria, depois, ninguém ficou nem descalço nem em cuecas. Isto foi uma treta que circulou em certa imprensa e parece que pegou, mas é completamente falso. As 4.000 armas de que fala o relator (muito mal informado) eram, na sua esmagadora maioria do Caminho de Ferro de Benguela, etc, etc...
Fazem no próximo ano 40 anos sobre esta questão - espero terminar o texto que estou a escrever sobre o assunto.
Com os melhores cumprimentos,
Jorge Machado-Dias ex-Furriel Miliciano do Bart 6221/74