quinta-feira, 20 de maio de 2010

Guiné 63/74 - P6441: (Ex)citações (74): Comentários e respostas (Arménio Estorninho)

1. Mensagem de Arménio Estorninho* (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2010:

Amigo e Camarada Carlos Vinhal,
Saudações e extensivas a todos os Tabanqueiros.
Como tudo deve feito a seu tempo e houve um pouco de disposição, para responder a alguns comentários feitos a “estórias minhas” contidas nos Postes: P5293 e P5304.

Provavelmente os camaradas a quem irei responder, não tivessem feito uma leitura mais atenta e/ou eu como algarvio “escrevi muito rápido” e não tendo esclarecido devidamente a mensagem, mas tenho elementos que elucidam as datas e observações. No entanto tratam-se de outros acontecimentos com situações relevantes que no meu ponto de vista não se ajustam aos contidos.


Ponto 1 – Guiné 63/74 P5324: FAP (37) TEVS a Aldeia Formosa e Buba – Jorge Félix ex - Alferes Mil. Pil. B12 – Bissalanca.

Amigo e Camarada Jorge Félix, documentando e esclarecendo os factos subjacentes, das intervenções em TEVS e da interpretação que deu ao conteúdo da minha crónica:

- Excerto da História da Unidade CCaç 2381, da qual consta que em 04/Jan/69.

A Unidade deslocou-se em coluna de Aldeia Formosa para Buba, tendo-lhe sido atribuída a missão de dar segurança aos trabalhos de abertura da nova estrada entre Buba e Aldeia Formosa, colaborar nas escoltas às colunas realizadas entre estas duas localidades, operações e emboscadas de contra penetração.

Coluna Aldeia Formosa – Buba, sem incidentes.

- Estando mencionado no Poste P5304 – Aldeia Formosa, em data posterior a 04/Jan/69, quando regressei a este Aquartelamento, o Comando e Serviços da minha Unidade CCaç 2381, já se tinha deslocado para Buba. É porque não podendo precisar, pois nesta data ainda me encontrava em Bissau (foto 1) a frequentar um curso sobre geradores eléctricos.

Foto 1 – Guiné> Cidade de Bissau> Praça do Império> 1969> Museu e Biblioteca, imagem com belos realços e hoje como será.

- Por conseguinte tratou-se de TEVS, efectuadas na data na zona mencionada e em apoio de outras Unidades.

- Excerto da História da Unidade CCaç 2381, da qual consta que em 21/Jan /69, durante a coluna auto Aldeia Formosa – Buba, grupo In emboscou as NT durante dez minutos, utilizando armas ligeiras, RPG-2, granadas de mão e morteiros ligeiros, causando 07 feridos às nossas tropas e 02 civis.

Quando a coluna retomava a marcha, foi accionada por um viatura uma mina a/c reforçada, causando danos materiais e destruição parcial de uma viatura. As NT reagiram pelo fogo e manobra efectuando uma batida à zona.

- A data que registou coincide com a antes mencionada e por conseguinte foram efectuados os TEVS, relativos aos feridos sofridos pela acção In e no decorrer da coluna. (foto 2)

Foto 2 - Guiné> Região de Quinara> Algures do Sector de Buba> 1969> Operação de TEVS, estando eu assentado, de pé o ex-1.º Cabo “O Lisboa” e um sinistrado.

- No entanto eu consegui evitar seguir incorporado nessa coluna, porque tive a sorte de antecipadamente fazer a viagem de Dakota e todavia é a única menção que fiz na crónica.

- Assim sendo, como eu referi trata-se de assunto diferente com data de 22/Jan./69, que ao anoitecer em Aldeia Formosa (Quebo) deu-se um acidente, o qual ocasionou dois mortos e dez feridos às NT. Estando eu no Quartel de Buba, pela noite dentro ouvia as inusitadas passagens de meios aéreos, o que era anormal e por isso interrogávamo-nos sobre o que sucedera para os lados de Aldeia Formosa.

Penso que assim ficaram devidamente esclarecidas as dúvidas em causa e ficarei receptivo para quaisquer esclarecimentos.

Amigo Jorge Félix, daqui vai um forte abraço.


Ponto 2 – Guiné 63/74 P5293 Buba – Aldeia Formosa – Comentário de Carlos Cordeiro.

- Caro amigo e Camarada Carlos Cordeiro, tenho muito gosto em lhe responder ao seu comentário um pouco sarcástico, mas, e embora tapando o Sol com uma peneira com (estou a brincar naturalmente), a primeira reacção pessoal que tive foi impulsiva de lhe apontar a esferográfica, mas para saber em que águas podia navegar tive o cuidado de aproveitar o Blogue para antecipadamente fazer uma pequena leitura sobre os seus dados, em que consta ex–Furriel Miliciano de Infantaria e actualmente professor de História Contemporânea na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, bonita cidade que já visitei três vezes, quando militava nas lides da Arbitragem de Futebol. Assim, a coisa fiou mais fino e claro está tratou-se de uma brincadeira para espicaçar as hostes. Tudo bem quando é salutar.

- Contudo para satisfação ao v/pedido de eu comentar como funcionavam as viaturas, porque lhe fazia confusão e os mecânicos quando punham uma viatura avariada a andar, (o português é muito traiçoeiro) deitavam os peitos para fora e olhavam de soslaio com ar de superioridade.

- Aqui vai mais ou menos como as coisas se passavam:

- A Secção Auto da Unidade só deveria receber as viaturas que circulassem e sem qualquer avaria detectável (foto 3)

- Era sempre conveniente que houvesse várias viaturas da mesma marca e tipo, para quando uma se avariasse ou se acidentasse e mesmo antes de ser abatida servia para peças sobressalentes ou era feita permuta de peças com outras viaturas;

Foto 3 – Guiné> Região de Quinara> Empada> 1969> Oficina Auto e Garagem, um luxo no meio do mato.

Foto 4 – Guiné> Sector de Buba> Algures Aldeia Formosa – Buba> 1968/9> Desmantelamento de uma viatura sinistrada, pela direita um mecânico africano, eu ao centro e o Soldado Mec. Auto, José António Coelho, de Maiorca - Figueira da Foz.

- Como não havia ferramentas para grandes reparações, as funções dos mecânicos eram mais à base de desempanar e/ou substituindo peças (foto 4). Eram poucas as Secções de oficinas existentes no mato que tinham a possibilidade de reparar um motor e/ou caixa de velocidades, em caso fosse necessário deveriam ser enviados os conjuntos para Bissau e eram comuns as instruções dadas, todavia em Aldeia Formosa, a CCaç 1792 teve o consentimento para reparar motores e caixas de velocidades.

Por conseguinte neste Aquartelamento, agrupou-se um bom grupo de mecânicos auto tendo como o seu principal promotor um 1.º Cabo (foto 5).

Foto 5 – Guiné> Região de Tombali> Aldeia Formosa (Quebo)> 1968> Eu, à direita, e o ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas da CCaç 1792, que era um senhor na arte prática da mecânica auto.

- Se os mecânicos quando punham uma viatura a andar, olhavam de soslaio e com ar de superioridade,” era devido às deficientes condições de trabalho, com um reduzido tipo de ferramentas, com martelo e escopro até faziam milagres, depois era para alguém dar-lhes uma palmada nas costas e acordarem de um lindo sonho de ser útil (foto 6).

- Ao frequentar a EPSM em Sacavém, (textos eram comigo) dadas as minhas habilitações teóricas granjeei amizades com aqueles que tinham a prática oficinal e juntávamos a teoria à prática. Portanto eu possuidor do Curso Secundário da Escola Industrial de Silves e o Curso de Mecânico Auto, da EPSM em Sacavém, e os meus camaradas tinham a prática profissional e o Curso de Mecânico Auto, das EPSM.

Foto 6 – Guiné> Região de Quinara> Empada> 1969> Parque de viaturas, depósito de combustíveis e a Tabanca Manjaco, sendo a primeira palhota a da Eugénia, irmã do recente falecido Mamadu o conhecido ex-Alferes da Milícia de Empada.

- Das muitas dificuldades deparadas, posso-lhe dizer que aquando uma coluna ter chegado a Buba, efectuara um trabalho que aparentemente era simples, tornando-se complicado somente colocar um motor de arranque numa viatura Berliet, demorando cerca de cinco horas para executar, devido ao reduzido espaço de movimento e da forma como era encaminhado (guiado) para apanhar posição. Que belo petisco, fazendo-o sem ajudas, estando deitado debaixo da viatura, com o motor em suspensão e colocando-o a pulso. A urgência e a ânsia de efectuar o serviço conjugavam-se, não podia dar mostras de incapacidade e por fim disse “eureka.” Mas esta viatura só depois de reparada é que foi posta em marcha (também estou a brincar naturalmente).

- Em que cada um me dizia que era inventar o que já estava inventado, que também sabiam das dificuldades e eu fiquei sem apetite de repetir a façanha.

- Nos trabalhos efectuados e a coadjuvar dei o meu melhor, dando como forma de remate de conversa que no desempenho das minhas funções, tive a honra do Comandante do BCaç 2892 me ter concedido um Louvor.

Pelo o meu ponto de vista dou por terminadas as respostas a comentários, que me foram colocados e dando o devido esclarecimento.

Com cordiais saudações a todos os Tabanqueiros,
Arménio Estorninho
Ex-1.º Cabo Auto Rodas
CCaç 2381 Os Maiorais
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 18 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6421: Do meu álbum fotográfico (Arménio Estorninho) (2): Bissau - Um olhar de turista

Vd. último poste da série de 8 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6129: (Ex)citações (58): Repondo a verdade sobre o ensino na Guiné Portuguesa (Mário Dias)

4 comentários:

Anónimo disse...

Muito obrigado, caro amigo e camarada Arménio, pelos esclarecimentos. Tem razão: o português é muito traiçoeiro e assim o meu comentário "atraiçoou-me". Devo dizer-lhe que o que pretendia era mesmo este tipo de informação. E quanto disse que os mecânicos "punham o peito para fora", disse-o no bom sentido: sentiam orgulho nos "milagres" que faziam em circunstâncias tão adversas. Além de um pedido de informação era também uma homenagem. É que não se trata de uma especialidade qualquer: exige conhecimentos técnicos aprofundados. Vejo agora que o camarada tinha preparação escolar prévia e, pelo que percebo do seu poste, a especialidade na EPSM também era cuidada - dentro do possível.
Fez muito bem em brincar com o meu "pôr a andar uma viatura avariada".
Repito, para que não restem dúvidas: tratou-se de um pedido de informação e de uma homenagem a todos esses mecânicos que, sem quaisquer condições, com muito esforço e dedicação reparavam o que havia a reparar para pôr as viaturas a andar. Não pretendi dar qualquer nota de sarcasmo.
Tenho especial interesse (ou curiosidade) em conhecer o trabalho de especialidades que são, geralmente, pouco abordadas no blogue.
Quanto ao facto de agora eu ser isto ou aquilo, são as vicissitudes e os prazeres da vida. Sou, sobretudo, filho, marido, pai de três filhas e avô de três netos.
Quando vier novamente a Ponta Delgada, diga-me alguma coisa. O Carlos Vinhal tem os meus contactos.
Um grande abraço,

Anónimo disse...

Caro Arménio Estorninho

Independentemente das questões que abordas relativas ao trabalho específico da especialidade, que sempre leio com muito gosto, faço agora este comentário com outro propósito.
És Algarvio, de Silves e militaste na arbitragem.
Ora o que te pergunto é se por acaso conheces um conterraneo teu, Algarvio, que também foi árbitro depois de regressar da Guiné, de nome Fernando José Cabrita ou José Vitorino do Carmo Filipe. Cito-te estes dois nomes, ambos naturais do Algarve, que foram Fur Mil na CCaç 2589, que comandei durante quase um ano, mas dos quais não sei qual deles foi da arbitragem.
Se por acaso, o árbitro em causa, for do teu conhecimento, agradecia que o convencesses a entrar para o blogue.

Abraço
Jorge Picado

Anónimo disse...

Recebi o Abraço enviado.
Já esquecido destas notas, fico satisfeito por ter sido útil.
Agora, recordei Aldeia Formosa, e o momento em que um Dakota "atropela" uma mulher idosa.
Será que tens memórias disso ?
Grande Abraço
Jorge Félix

Anónimo disse...

Arménio Teixeira de Matosinhos gostaria de entrar em contacto com um soldado &8/70 José gonçalves aquartelado em missau oficinas de reparaçoes.