domingo, 16 de maio de 2010

Guiné 63/74 - P6404: Ao correr da bolha (Torcato Mendonça) (9): Páscoa de 1968

1. Do nosso Camarada Torcato Mendonça, ex-Alf Mil AT Art da CART 2339, Mansambo, 1968/69, mais um Ao correr da bolha, desta feita lembrando a Páscoa de 1968:


AO CORRER DA BOLHA - IX

PÁSCOA de 1968

Abril, Domingo de Páscoa de 68


Ao certo a data não sei. A agenda diz catorze de Abril como a data do Domingo de Páscoa. Irrelevante para nós pois lá não haviam dias de semana.

Na melhor das hipóteses seria celebrado entre quinta-feira e domingo ou segunda-feira.

Recordo, isso sim, o que aconteceu.

Estávamos em Fá de Cima. Havia messe de oficiais e sargentos. Os soldados tinham refeitório e comida diferente. Em Mansambo a comida era igual para todos e, como vivíamos em abrigos, todo o resto era semelhante. Foi assim que nos ensinaram, à maioria dos graduados, que tiraram a especialidade em Vendas Novas.

Estávamos pois em tempo de Páscoa, tempo importante para a maioria dos militares da Companhia, tempo onde a família é mais fortemente recordada, tempo a ter cuidado com a quebra psicológica de muitos.

A maioria, mesmo os pouco ou nada dados à religião católica, gostaria de comemorar aquele dia.

Assim, mesmo na Guiné, resolveram comemorar e eu estava de acordo.

Só que isso viria a trazer-me mais um aborrecimento com o Comandante da Companhia (o segundo, dos seis que tivemos - quatro capitães – dois do QP felizmente - e dois alferes).

Não comento mais:

- O 1.º Sargento já faleceu;

- Esse capitão só lá esteve mais uns dois ou três meses.

Os militares do meu Grupo, com a conivência dos furriéis, compraram para a festa dois ou três cabritos. Disseram-me e, por mim, tudo bem.

Havia o espírito do Grupo de Combate mas, logicamente neste caso o espírito de união da Companhia prevalecia. A comemoração iria ser conjunta certamente. Penso eu pois era um dia festivo, dia de estar com a família e amigos. Ali, naquela terra distante, local de perigo, essa necessidade seria maior. Acresce ainda a vontade de esquecer, por breves momentos a guerra.

A Companhia era de intervenção ao BART 1904, logo fazia Operações, patrulhamentos, rusgas, montava emboscadas, seguranças a Mato de Cão e toda a actividade operacional do Batalhão.

Antes da Páscoa, fizemos um patrulhamento e emboscada. Segue-se uma segurança a Mato de Cão. Chegamos já tarde a Fá e disse para os militares descansarem até mais tarde no dia seguinte.

Desconhecia que o Comandante da Companhia tinha regressado de uma das suas saídas. Esta a Bissau creio eu.

A meio da manhã do dia seguinte, talvez por volta das nove ou mesmo dez horas, um dos furriéis veio falar comigo.

- O Capitão suspendeu tudo o que a Companhia tinha preparado para o dia de Páscoa. Os nossos chegaram atrasados à formatura e há problema.

Respondi que ia tratar do assunto.

Falei com o Capitão, disse o que se havia passado e o porquê do atraso. Do resto nada disse. Ele é que comandava e o assunto era com ele.

Tudo resolvido. Fui falar com o Grupo e trocamos breves palavras. As suficientes. Tudo esclarecido e cada um foi à sua vida.

O almoço no refeitório dos soldados era normal.

Na messe havia comida diferente a querer dizer: - É Dia de Páscoa.

Recusei-me a almoçar. Troca de palavras menos próprias e abandonei a mesa.

Passado um pouco, um dos alferes veio falar comigo ao quarto. Estava triste. Homem casado sofria certamente mais do que eu. Mostrei-lhe “ O Meu Diário”.

Folheou e disse:

- Não escrevas. Destrói isto. Na porta tens “I’m free” e com isto ainda tens problemas. Hoje sinto-me deprimido e desabafou um pouco…

Segui o conselho de uma pessoa mais calma, menos sanguínea. Ficou a recordação e os cabritos que nos acompanharam para Mansambo. Um deles, não comprado, a levantar problemas… coisas de bodes.
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 14 de Maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6388: Ao correr da bolha (Torcato Mendonça) (8): Promessas

5 comentários:

Carlos Vinhal disse...

Caro Torcato
Lembro os dias 25 de Dezembro dos anos de 1970 e 1971.

Em Mansabá havia messes de oficiais e sargentos separadas e refeitório para os soldados, só que a comida era feita na cozinha do refeitório e depois distribuída pelas messes. Toda a gente comia igual.

Voltando aos dias de Natal, ao almoço, melhorado, toda a gente, incluindo o Comandante, comia no refeitório juntamente com os Praças. Seria um gesto simbólico, por certo, mas pelo menos naquele dia nos sentíamos mais próximos uns dos outros.

Um abraço
Carlos

Torcato Mendonca disse...

Caro Vinhal

Depois de determinada data, a comida e os lugares onde dormíamos era igual para todos.Ficou assim cerca de ano e meio...

O espírito de corpo fica mais forte se houver união e amizade. Lá era necessário.
Estou em crer que em todo o lado... pois, mas há tantas desigualdades...

Em certos dias era necessário sermos a família, não a de sangue pois essa estava longe mas,seria ali minimizado esse afastamento com o afecto e a entreajuda entre todos.
Tu, eu, e tantos de nós sabemos como era. É um privilégio que só quem passou por um guerra daquelas compreende.
Abraço Torcato

JD disse...

Camaradas,
Este relato e o comentário anterior, traduzem uma flagrante contradição relativamente à C.Caç.2679, a que pertenci.
Lembram-se de no dia de Natal de 1970 as companhias terem sido brindadas com 2$50 (vinte e cinco tostões) por cabeça, para melhoria do rancho?
Pois o Cap. Trapinhos, do QP, mais a entourage de sargentos que orientava o negócio local, numa atitude de austeridade, surripiou a massa, e no refeitório foi servido um magnifico e habitual menu de bianda com estilhaços.
Já contei isto anteriormente, e voltarei com mais pormenores, mas, para que conste, aqui fica o registo sobre a displicência dos xicos naquela unidade.
Qual espirito de corpo?!!
Abraços fraternos
JD

Joaquim Mexia Alves disse...

Pois meu camarigo Torcato, a descrição da tua Páscoa na Guiné tocou-me mas nem te sei dizer porquê!

Talvez pela humanidade das palavras!

Confesso que não me lembro das minhas Páscoas na Guiné, mas como andei um pouco de "Herodes para Pilatos", muito provavelmente não lhes liguei grande coisa!

Um grande abraço para ti

Anónimo disse...

Meu Caro Amigo Torcato!

Não fui à guerra, mas não tenho dúvidas de que a solidariedade é mais
valorizada nessas circunstâncias.
Muito pouco nos separa uns dos outros!
Às vezes, é só uma questão de oportunidades. E, é tão bom ver um sorriso, sentir o humanismo, a aceitação, do outro (que está acima),saber que se pode confiar.
Eu sei que sabe isso, e que o demonstrou.

(Os Grandes gestos, fazem os grandes homens.

Obrigada Amigo

Felismina Costa