terça-feira, 16 de novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7290: (De) Caras (7): Titina Silá poderá ter sido morta por forças do Destacamento de Fuzileiros Especiais nº 8 (Comandante Alcindo Ferreira da Silva)

1. Mensagem de Alcindo Ferreira da Silva, que eu julgo tratar-se de um camarada nosso, comandante da Marinha, professor, especialista de ensino à distância, com obra publicada:

Data: 15 de Novembro de 2010 21:54
Assunto: Blog Luís Graça e Camaradas da Guiné


Caros senhores


Um amigo chamou-me a atenção para a uma notícia sobre a morte da guerrilheira Titina Salá [, foto à direita,] em 30 de Janeiro de 1973 no decorrer de um encontro com botes de fuzileiros no rio Cacheu publicada no vosso blog. (*)

Como me encontrava por esses lados na data referida, a curiosidade levou-me a consultar os meus arquivos dessa época.

Na altura encontravam-se sediados em Ganturé dois Destacamentos de Fuzileiros Especiais. O DFE8 e o DFE12, pelo que a ter acontecido esse encontro teria de ser com estas unidades.

Consultando os arquivos e notas que guardo, não encontro qualquer referência a contacto com o IN no dia 30 de Janeiro.

No entanto nos dias 31 de Janeiro e 1 de Fevereiro, durante o decorrer da Acção Salisburia há referências que podem ter  alguma coisa a ver com o acontecimento relatado.

No dia 31 pelas 1630 duas parelhas de botes do DFE8 interceptaram e atacaram um bote de borracha com 8 elementos armados perto da clareira do Jagali. O pessoal que seguia no bote lançou-se ao rio e, ao mesmo tempo, a parelha de botes que seguia à frente foi atacada da margem sul do rio Cacheu. Os botes reagiram e com a protecção da segunda parelha recolheu-se o bote abandonado e retirou para fora da clareira pedindo e regulando o fogo de obus enquanto eram flagelados com fogo de morteiro. 

A LFG Sagitário chegou ao local cerca de 20 minutos depois e bateu com fogo as duas margens do rio. O pessoal dos botes desembarcou de seguida, mas foi mandado retirar porque eram poucos homens e tinham esgotado quase todas as munições.

No relatório da operação referem-se baixas prováveis no IN. Uns dias depois receberam-se notícias de teria morrido nesse recontro várias pessoas entre as quais um cubano de nome Alexandre, instrutor/mecânico de Armamento que se dirigiria para o Morés.

No dia 1 de Fevereiro, na mesma zona num patrulhamento ofensivo realizado pelos DFE8 e DFE12 foram detectadas marcas da presença de muito pessoal e capturado material diverso e  uma canoa de 6 metros abandonados .

Se a morte de Titina Salá se verificou realmente no dia 30 de Janeiro numa acção dos fuzileiros isso só poderia ter acontecido num disparo sobre qualquer movimento suspeito na margem, acções essas que, por serem muito frequentes, não eram registadas.

Com os melhores cumprimentos


Alcindo Ferreira da Silva





Guiné > Região do Cacheu > Rio Cacheu > Ganturé-Bigene > "NRP Sagitário: 20-12-71. Feliz Natal".O fotógrafo estava lá... Uma foto muito feliz do Cmdt A. Rodrigues da Costa, gentilmente disponibilizada pelo ex-1º Tenente RN Manuel Lema Santos, que esteve connosco na Tabanca Grande até há poucos meses, e que é webmaster do sítio Reserva Naval.

Foto: © Manuel Lema Santos  (2006) (com a devida vénia ao Cmdt A. Rodrigues da Costa). Direitos reservados.




2. Comentário de L.G.:

Caro comandante (se é que o posso tratar assim), caro camarada, ex-combatente da Guiné, caro colega das lides pedagógicas: Estou-lhe grato pelos esclarecimentos que, de pronto, nos quis prestar. Qualquer dos cenários sobre a morte da Titina Silá que nos apresentam,  são verosímeis:   (i) a 30 de Janeiro de 1973, vítima de disparos efectuados sobre a margem sul do rio; (ii) 31 de Janeiro, por volta das 16h30, quando os dois botes do DFE 8 interceptam um bote do PAIGC com 8 elementos armados...

É possível a partir daqui apurar mais pormenores. O meu muito obrigado. Em nome da nossa Tabanca Grande. E do direito que todos temos, portugueses e guineenses, à informação e ao conhecimento, objectivo,  sobre a realidade (histórica) da guerra da Guiné (1961/74). Espero que apareçam mais antigos camaradas da Marinha que nos possam adiantar mais esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte desta importante dirigente do PAIGC, ainda hoje envolta na penumbra da lenda. No fundo, o que ficará para a posteridade (se deixarmos morrer todas as testemunhas deste acontecimento, de um lado e do outro)  é a letra da canção, é o mito, é a construção social da heroína: " “Titina na riu di Farim, Titina nada i tchiga na metadi i fasi força pa iangasa kanua tuga odjale i kunsa lança bumba…” (...)

3. Comentário, a este poste,  do Nelsom Herbert, com data de 16/11/2010:

(...) A versão do ataque de 31 de Janeiro pelo destacamento de fuzileiros não difere da contada pelos guerrilheiros sobreviventes que acompanhavam na altura Titina Sila... Surpreendidos pelo fogo intenso dos fuzileiros, os ocupantes do bote ou canoa tiveram que se atirar ao rio... alguns feridos, caso da Titina Sila... que terá ainda chegado viva, mas gravemente ferida às margens do rio...

Va-se ver que a data foi mesmo 31 de Janeiro..."instead of" [em vez de]  30 de Janeiro ! (...)__________________



Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 14 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7281: (De) Caras (6): Titina Silá (1943-1973), morta duas vezes, pelos fuzos e pelo esquecimento... (Nelson Herbert / Luís Graça)

10 comentários:

Torcato disse...

Gosto de ver a tentativa de esclarecimento sobre a morte da Mulher e guerrilheira Titina. Pela sua bravura, pela sua condição de mulher Heroína do Povo da Guiné.
---------
Agora também:

Tenho pequena lista de outros Hérois, não do Povo a que pertenço, mas á:

CART 2339.

-FERNANDO SOUSA 24 JUL 68
-HUMBERTO VIEIRA 19 SET 68
-JOÃO FIGUEIRAS 25 SET 68
-JOSÉ BESSA 03 JAN 69
-JOAQUIM BARBOSA 29 SET 69
MORTOS EM COMBATE

- CARLOS DUARTE 03 DEZ 68
- CARLOS PIMENTA 03 DEZ 68
MORTOS POR AFOGAMENTO (em operação)

-JOSÉ CASADINHO 02 OUT 69
MORTO POR ACIDENTE
----------
MAIS UM DESAPARECIDO (RAPTADO)E LIBERTADO COM A OP. MAR VERDE:
-FRANCISCO MONTEIRO

ACRESCEM:
-QUARENTA E DUAS BAIXAS; 33 feridos, muitos em combate;dois por acidente,sete por doença.

Curvo-me á sua memória. Os nomes dos que deram a vida naquela terra figuram no Memorial na capital deste nosso País. Só!

Eles, os feridos, doentes, estropiados, cegos, stressados foram esquecidos...
Palavras para quê? Cumpriam a sua obrigação? Qual?

A bem da Nação

Torcato

Anónimo disse...

Parece-me que ficará mais para a posteridade a noção de que uma mulher qualquer que andava misturada com a guerrilha foi abatida tal como era previsível ou, então, desejável, no caso de se tratar de uma 'dedicada' combatente, de acordo com a imagem que dela aparentemente se quer fazer crer.
A cantiga, porém, ficaria tanto mais quanto mais aqui fosse a letra reproduzida, juntamente com a ideia de posteridade e apesar de muita gente nunca a ter ouvido, apesar de mais gente ainda já a a ter esquecido -não fora a reiterada publicação das palavras- e apesar de 'ninguem' perceber bem o palavreado crioulo.

Afigura-se custoso encontrar, neste ambiente de refrescamento de uma memória colectiva e apesar do intuito de aproximar as partes, sinais repetidos de um enaltecimento discreto que parece sublinhar a apologia da acção inimiga.

SNogueira

Anónimo disse...

Caro Luis Graca

A versao do ataque de 31 de Janeiro pelo destacamento de fuzileiros, nao difere da contada pelos guerrilheiros sobreviventes que acompanhavam na altura Titina Sila...

Surpreendidos pelo fogo intenso dos fuzileiros, os ocupantes do bote ou canoa tiveram que se atirar ao rio..alguns feridos...caso da Titina Sila..tera ainda chegado viva,mas gravemente ferida as margens do rio...

Va-se ver que a data foi mesmo 31 de Janeiro..."instead"...o 30 de Janeiro !

Mantenhas

Nelson Herbert

antonio graça de abreu disse...

Meu caro Torcato

Como diria o Sócrates, o PM (não é Policia Militar, é Primeiro-Ministro português) "como eu te compreendo", meu caro Torcato!...
E mais não digo, porque o choradinho de esquerda, (também o há de direita!)tão português, tão entristecido, tão visceralmente unido ao nosso fado lusitano, não edifica, não nos ajuda, como portugueses, cidadãos do mundo.
Não sei se me entendes, meu caro Torcato.
Tenho cada mais dificuldade em escrever para o blogue.
O blogue é um espaço livre de transmissão de
estremadas vivências numa guerra que não desejámos -- mas faz parte de todos nós --,ou um debitar permanente de vaidades, a contemplação do umbigo, de intelectualidades sinuosas que quase nos esmagam?

Forte abraço,

António Graça de Abreu

antonio graça de abreu disse...

Tenho de refazer o meu comentário, foi feito a quente, de uma penada e estou a ser injusto para o Torcato.
Então aí vai:



Meu caro Torcato

Como diria o Sócrates, o PM (não é Policia Militar, é Primeiro-Ministro português) "como eu te compreendo", meu caro Torcato!...
E mais não digo, porque o choradinho de esquerda, (também o há de direita!)tão português, tão entristecido, tão visceralmente unido ao nosso fado lusitano, não edifica, não nos ajuda como portugueses, cidadãos do mundo.
Estivemos numa guerra,uma guerra mesmo.
Não sei se me entendes, meu caro Torcato.
Tenho cada mais dificuldade em escrever para o blogue.
O blogue é um espaço livre de transmissão de
estremadas vivências numa guerra que não desejámos, mas faz parte de todos nós.
No blogue, para além do teu natural sofrimento e revolta, persiste um debitar permanente de vaidades, a contemplação do umbigo, de intelectualidades sinuosas que quase nos esmagam.
Também subir na vida (qual vida?), ser muito adulado e reverenciado à custa do blogue.
Não será o teu caso, meu caro Torcato.

Agora, acho que está bem.

Forte abraço,

António Graça de Abreu

Torcato disse...

Antónia Graça de Abreu

Compreendo! Olha que sim,olha que sim!!!

Até entendo a oportunidade.

Fora disto, diz-me se souberes: em que dia puxaram fogo a Joana D'Arc?

Vive la France.
Viva a Padeira de Aljubarrota.
Viva, três vezes viva.

AB T.

Anónimo disse...

A Todos

É por estas e por outras...que agora...só os PARABÉNS AOS ANIVERSARIANTES.

Se fosse um dos “básicos” que “habitou” a CCaç 2589, pobre e analfabeto pescador que, não recordo agora se era de Peniche ou Sesimbra, ainda por cima também “um tanto pobre de espírito” a “expor certas opiniões”, ainda teria compreensão para as mesmas.
Agora de camaradas com elevado nivel cultural...é de mais para mim.

Começo agora a compreender, também, a razão de tantos que conheço que, embora sabendo e dando “uma vista de olhos” ao Blogue, como dizem, não aceitam os meus pedidos para partilhar as suas vivências.

AB
Jorge Picado

Ferreira da Silva disse...

Parece confirmar-se que a guerrilheira Titina Salá foi morta na acção do dia 31 de Janeiro.

Ao longo da comissão, no decorrer de contactos de fogo, fizemos mortos e morreram também alguns dos nossos, mas os nomes e personalidades do "outro lado" não existem na nossa memória. Eram guerrilheiros anónimos como, também para eles o eram, os anónimos soldados e marinheiros que combatiam e morriam do nosso lado.

Um nome, uma personalidade, uma vida vivida e, ainda por cima, uma mulher, conhecida quase quatro décadas passadas, cria alguma perplexidade.

Na guerra, com maiores ou menores responsabilidades e poder de decisão somos todos transformados em peças de uma absurda máquina infernal. Mas, nessa máquina, o respeito pela dignidade humana e individual de cada um, de um e do outro lado, é uma imposição para cada homem e para cada comando.

Pude escrever no relatório de fim de comissão, que o destacamento que comandei se comportou em todas as situações, mesmo as mais violentas, preservando os valores da dignidade humana e que nenhum dos homens que nele serviram regressava tendo na memória qualquer acto indigno. Combatemos, pura e simplesmente, do lado em que tínhamos de combater.

Titina Salá morreu no decorrer de um combate. Sabia que isso lhe poderia acontecer, como também qualquer um dos fuzileiros, que do outro lado dispararam, o sabia. É assim a guerra.

Presto-lhe as minhas homenagens e desejo que repouse em paz. Que o seu exemplo sirva para que os governantes do seu país encontrem os rumos certos em direcção ao futuro com que sonhou e por que combateu. Assim também os nossos governantes o saibam fazer em relação aos que cumpriram o seu dever em África e ao nosso país.

Luís Graça disse...

"Afigura-se custoso encontrar, neste ambiente de refrescamento de uma memória colectiva e apesar do intuito de aproximar as partes, sinais repetidos de um enaltecimento discreto que parece sublinhar a apologia da acção inimiga". (SNogueira).


Para quem estiver mais atento à nossa prática de 6 anos e meio do nosso blogue (I e II série), temos usado a técnica da "saturação de dados" na abordagem de temas pouco ou nada connhecidos dos nossos leitores... Isso aconteceu, por exemplo, com o caso dos fuzilamentos dos nossos camaradas guineenses depois da independência; com o "massacre do chão manjaco"; com a "tragédia do Quirafo"; com o caso do "morto-vivo do Quirafo"; com o "dossiê Guileje/Gadamael", etc., etc.

Fala-se de "saturação de dados", em investigação social, quando, ao fim de um certo número de entrevistas, por exemplo, o investigador tem a impressão de que a apreensão do objecto de estudo (o tema, o problema...) está inteiramente contemplada nos diferentes pontos de vista (ou de abordagem) dos diferentes entrevistados... podendo-se concluir que novas entrevistas já não trarão nada de novo aos dados obtidos...

Publicámos dois postes sobre a tal Titina: ninguém está incensá-la ou homenageá-la... Queremos apenas saber (e compreender) o que se passou...

Anónimo disse...

A repetição das palavras da cantiga crioula nada tem que ver com a técnica que referes. Parece apenas inexplicável elegia.

SNogueira