sábado, 16 de janeiro de 2010

Guiné 63/74 - P5661: FAP (44): Aerocross (Miguel Pessoa, Cor Pilav Ref)


1. Mensagem do nosso Camarada Miguel Pessoa, Cor Pilav Ref (ex-Ten Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74), com data de 12 de Janeiro:

Camaradas,

Fui encontrar no meu "baú dos tesourinhos deprimentes", esta pérola que escrevi há já uns meses e que ponho agora à vossa disposição. Ando a dosear bastante o envio dos meus "escritos", pois já não tenho muitos...

E faltando-me a memória para relembrar factos ocorridos há tanto tempo, também já não tenho imaginação para tentar reconstruir outros, que pudessem aproximar-se razoavelmente da realidade... Por isso, para já, terão que se contentar com esta estória, como agora se diz.

AEROCROSS

De vez em quando os aviadores da BA12 eram solicitados para missões que, por fugirem à rotina da actividade diária, eram sempre bem recebidas. Apareceu um dia um pedido de transporte de jornalistas estrangeiros para uma visita a Varela, no âmbito das "operações de charme" que o regime organizava periodicamente.

Um dos problemas apresentados era o de que a pista de Varela estava há bastante tempo desactivada - talvez porque se encontrava localizada a uma certa distância do aquartelamento e isso implicasse um empenhamento exagerado das nossas tropas na protecção aos aviões, quando ali se deslocavam.

Mas, dado o interesse em avançar com esta deslocação, foi considerado importante reabrir a pista, pelo menos para permitir a execução daquela missão. Sabia-se pouca coisa das condições do aeródromo naquele momento, pelo que o piloto teria que fazer uma prospecção cuidadosa da área de aterragem, antes de ali pousar.

Dado o número de jornalistas envolvidos, houve necessidade de se programar a ida de dois DO-27, tendo sido designados dois pilotos para esse fim - um Furriel já batido no território e um tenente ainda em princípio de comissão - eu... Já não me lembro como me calhou ir nesta missão, mas desconfio. Sucede que era eu quem indicava os pilotos da Esquadra para as missões que estavam programadas e certamente aproveitei para me nomear a mim mesmo para este trabalho, na perspectiva de aprender mais qualquer coisa e ganhar experiência.

A esta distância, parece-me que ultrapassei os limites do razoável ao meter-me nesta cena, pois não se sabia o que iríamos encontrar no terreno. A tal prospecção cuidadosa da área de aterragem era pouco praticável dado que o capim elevado não deixava ver o chão e não sabíamos se haveria obstáculos no terreno, como paus ou pedras, ou irregularidades que pudessem provocar um desequilíbrio repentino do avião durante a sua progressão, ou até o seu capotamento. E desconheço se o pessoal do aquartelamento terá analisado o local.

Tem-se por norma que no transporte de altas entidades ou de pessoal estranho à Força Aérea (que nos importa tratar bem) as regras de segurança são ainda mais rígidas que o normal. Não sei bem os antecedentes desta missão, mas não me parece que tenha sido este o caso, porque à descolagem ainda não sabíamos bem o que iríamos encontrar.

Sei que, à chegada ao local, depois de termos solicitado ao aquartelamento que montasse a segurança aos aviões junto à pista, ficou assente que um dos pilotos faria uma aterragem cuidadosa e só depois aterraria o outro avião.

Foi decidido (?) então que eu faria essa aproximação inicial. Parece-me que terá havido aqui uma passagem da batata quente feita de modo perfeito pelo outro piloto e o periquito viu-se com o menino (ou os jornalistas) nos braços e avançou destemidamente. Destemidamente é uma maneira de dizer. O facto é que arrisquei mais do que devia pois, para além dos eventuais obstáculos, que já referi, nem sabíamos se teriam colocado alguma mina naquela zona.

Pese embora os meus receios, a aterragem até foi perfeita e o capim ajudou mesmo o avião a travar a corrida de aterragem. Vendo o êxito da manobra o outro piloto avançou e aterrou a seguir, estacionando o avião ao lado do meu.A missão não tem muito mais a referir, pois o regresso decorreu sem problemas de maior, com uma descolagem normal de Varela, na tarde do mesmo dia (depois de termos verificado melhor as condições do terreno...).

Não pretendo aqui questionar as decisões tomadas a nível superior, porque não tinha conhecimento à data, nem tive depois, dos factores que foram tomados em linha de conta. Por outro lado, há muitos aspectos desta missão que começam a ficar esbatidos na minha memória. Porém, penso que no meu caso pessoal deveria ter tomado maiores precauções (claro! - mas quais?...).

Suponho que, afinal, muitos passaram por situações semelhantes. Quantas vezes nos encontrámos nós em situações em que sentíamos dificuldade em questionar as decisões tomadas a nível superior, quando já estávamos metidos numa engrenagem que nos arrastava e levava a situações para as quais muitas vezes já não tínhamos fuga possível e apenas nos restava avançar?

Um abraço,
Miguel Pessoa
Cor Pilav Ref

Foto: © Wikipédia, Enciclopédia livre - Exemplar em exposição no Museu do Ar (Polo de Sintra). Direitos reservados.

Emblema da BA12: © Carlos Coutinho (2009). Direitos reservados.

Emblemas do Esquadrão 121 Tigres Fiat G91 e GO1201: © Miguel Pessoa (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P5660: Da Suécia com saudade (18): Algumas considerações sobre a descolonização (José Belo)


1. Texto de José Belo (**), ex Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref, a viver na Suécia, com data de 30 de Dezembro de 2009:


Algumas considerações sobre a descolonização

Caros Amigos e Camaradas,

Com as nostalgias de "fim do Ano" dediquei algumas horas à leitura de postes antigos da Tabanca Grande. Verifiquei que alguns assuntos serviram para muito interessantes contribuições e debates, com elevado número de comentários.

São exemplos: (i) A sorte reservada a muitos dos guinéus que lutaram ao nosso lado; ii) a guerra colonial, militarmente perdida, ou não; (iii) declarações menos correctas, e mesmo ofensivas, por parte de um senhor jornalista, e de um senhor general; (iv) afirmações menos verdadeiras feitas por um dos escritores mais importantes da literatura contemporânea portuguesa; (v) a forma como a descolonização foi efectuada por aqueles que, então, tinham responsabilidades de governo, tanto a nível civil como militar.

Pelas dramáticas consequências, não só para Portugal nos milhares de refugiados, como para os novos países que, de imediato, se viram envolvidos em sangrentos conflitos internos, será, numa perspectiva de análise histórica futura, a descolonização, na sua forma e resultados, assunto de muito, e aprofundado, estudo. Talvez com menos "compreensão" para com alguns dos responsáveis.

Duvidar da necessidade da descolonização no novo Portugal democrático? De modo algum. Mas daí a exibir vangloriado orgulho na "descolonização exemplar"... “Exemplar" para quem? "Exemplar" em quê? Dos políticos que a dirigiram? Dirigiram? De alguns militares bem dignos de um exército castrado pela realidade salazarista?

Seria a única possível, perante todos os entraves e sabotagens de forças reaccionárias? Da conjuntura internacional? De generais neo-colonialistas? Talvez!

Foi verdadeira coroa de glória final da política africana do Estado Novo. Os que vieram das "Franças", dos exílios, nos primeiros "comboios de Abril", regressavam de outras "lutas", de outras realidades, e, porque não dizê-lo, agora que os anos vão passando… retirando as máscaras (?!) de outros... interesses!

Não menosprezo essas lutas do exílio. Foram bem duras... para alguns. Mas nós, nós, os que mexemos na merda com ambas as mãos, os que com ela bochechámos nas bolanhas, picadas e matas. Nós, os que literalmente CARREGÁMOS OS NOSSOS MORTOS... nós devíamos ter exigido mais.

Em respeito!
Em remorso!
Em dignidade!

E hoje? Hoje, nas estatísticas da guerra, nos números dos computadores, nas tiradas brilhantes de políticos em análises de ataque (ou defesa), nos filmes... já tão "antigos", nos estropiados que evitamos olhar nos olhos... tudo se vai tornando mancha uniforme, esbatida, muito convenientemente esbatida.

Aqueles heróis de vinte anos que, geração após geração, foram LEVADOS para as colónias em verdadeira oferta de sacrifício a interesses que em nada eram os seus, cumpriam o melhor que sabiam às ordens dos senhores oficiais, que, por sua vez, as recebiam dos senhores políticos. Mas não andariam alguns destes "Senhores" mais preocupados com questões de pruridos profissionais, quanto a purezas de educação académica e a honrarias de promoções?

Pergunta menos conveniente e muito esquecida, pela simples razão de que a incrível pressão popular no próprio 25 de Abril e semanas sucessivas, terem TRANSFORMADO as realidades subjacentes às verdadeiras origens, e razões do "pronunciamento militar" obrigando a muitos a acertar a passada... imposta pela vontade popular.

Deveríamos ter, há muito, saído (MILITARMENTE) de África. E qualquer leitura apressada da História o demonstrava. Mas, e apesar de dezenas de anos de criminosa e estúpida política fascista, não teria sido Abril a oportunidade de sairmos de cabeça levantada, terminando com dignidade e assumindo as nossas responsabilidades históricas?

Mas muitos dos senhores responsáveis de então, estavam demasiadamente ocupados nos seus "golpes de rins", para uma nova... opção de classe (como soía dizer-se!), e em leituras muito atrasadas de educação política avançada. Não houve mesmo alguns militares que pretendiam "criar" o partido da classe operária... o "verdadeiro"?!

Toda esta ocupação libertadora (com a condição absoluta de serem eles os libertadores), acabou por levar ao esquecimento de alguns conceitos (burgueses?) de honra e respeito pelos seus mortos. Terá sido profundo sentimento de culpa (de má consciência por parte de alguns), que terá levado a extremos de procedimento, vis-a-vis ex-inimigos, de outro modo inexplicáveis?

Com o passar das décadas tantas perguntas vão surgindo. Muitas delas, já de tal modo fora dos contextos, que se tornam, mais e mais, subjectivas. Será que, em vez de agradecermos a madrugada de Abril, vamos "freudianamente" acabar por... matá-la?

Estocolmo, 30/Dez/09
José Belo

Emblema de colecção: © Carlos Coutinho (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 – P5659: Estórias do Tomás Carneiro (1): De Binta a Jugudul


1. Mensagem de Tomás Carneiro, ex-1.º Cabo Condutor da CCAÇ 4745/73 - Águias de Binta, (Binta, Cumeré e Farim – 1973/74), nosso Camarada que vive nos Açores, com data de 13 de Janeiro:

Olá saudosos Amigos e Camaradas,

Oxalá estejam todos bem é o que eu espero. Por cá vou-me safando, a ler alguma coisa da nossa passagem pela guerra na Guine.

Hoje vou escrever uma estoriazinha sobre o que por lá passei.


De Binta a Jugudul


Fiz parte da CCaç 4745, que esteve sediada em Binta, desde 21de Agosto a 27 de Outubro de 1973. Naqueles 3 meses passamos algumas situações de risco.

Eu como condutor só as passei pelo perigo nas “auto-estradas”, mas os meus camaradas “de mato”, podem contar muitas outras bem mais terríveis, que eu, felizmente, não passei.

A CCaç 4745 fez algumas colunas Binta/Farim/Binta, para efectuar reabastecimentos e fomos, várias vezes, ao encontro de colunas que vinham de Guidage, também para reabastecer.

Estas operações eram bastante problemáticas, porque para conduzir no meio da lama toda, atolados aqui, atolados acolá, obrigando-nos a passar os guinchos de uns carros para os outros para nos safarmos, além de moroso, era extremamente exaustivo.

Lembro-me que da 1ª vez que fomos fazer um reabastecimento a Guidage e passámos no Cufeu, eu fiquei doido com o que lá vi, nomeadamente a terra esburacada, a vegetação queimada e o estranho cheiro correspondente entre vários destroços de viaturas emboscadas por fogo IN.

Eu não sabia o que se tinha ali passado antes de chegarmos a Binta, mas jamais esquecerei que, no momento, pensei: ”Esta merda é mesmo guerra!”

Depois de passado este local, ficámos a aguardar a chegada dos nossos Camaradas de Guidage, fazendo segurança à “auto-estrada” Binta/Guidage e, passado algum tempo, apareceu-nos o Alf Mil Ávila (que penso ser natural de S. Jorge).

Quando ele chegou eu estava junto de um atirador e junto dele, no chão, estava uma granada de morteiro 60 mm.
Pergunta-me o alferes: - Oh Sousa quem é que deixou esta p... aqui no chão?

Respondi-lhe: - Não fui eu, porque nem sei isso o que é (brinquei com ele).
Disse-me ele novamente: “Isso é serio.”

Depois chegou-se a uma conclusão que era uma granada não deflagrada, do célebre ataque a Guidage em Maio de 1973.

Uma parte do que queria escrever sobre a estadia em Binta, já o fiz em anteriores postes, logo a seguir ao formidável encontro da Tabanca Grande, em Junho de 2009 na Ortigosa.

No poste P5490, está a foto do meu inesquecível e grande Amigo, o 1º Cabo Condutor Jacinto Custódio falecido devido a ferimentos causados por uma mina A/C, no dia 24 de Setembro quando seguíamos de Binta para Farim e que jamais esquecerei.

Em fins de Outubro, princípios de Novembro de 1973, fomos transferidos para um quartel novo, que se situava entre o Jugudul e Porto Gole, numa altura em que estava a ser construída uma estrada entre Jugudul e Bambadinca e a cujas obras fizemos segurança. Nesta mudança, esperámos por alguém que nos viria acompanhar e quem devia ser esse algiuém? Nada mais, nada menos, do que os-meus companheiros e amigos “Os Gringos do Guileje”.

Foi uma alegria tão grande encontrá-los 3 meses depois de partimos de Binta. Eles, os Gringos, diziam que a estrada entre o K3 e Mansoa, era bastante perigosa, submetida a inúmeras emboscadas e golpes de mão sobre as NT, que tinham sofrido várias baixas e algumas perdas de militares (apanhados pelo IN “à mão”).

A partir daí viajamos sempre com o credo na boca, não fosse o diabo tecê-las, mas, felizmente, nada de anormal ocorreu durante aquela mudança e chegamos a Jugudul ao fim da tarde, sem qualquer problema.

Passamos a primeira noite dentro do quartel, mas tivemos que preparar os nossos aposentos recorrendo ao habitual “desenrascanço” individual. Nós, os da “ferrugem”, safámo-nos da melhor maneira possível com as cobertas das viaturas e deu certo.

Por hoje é tudo. Brevemente, contarei mais algumas estórias, mas tenho que vasculhar o meu “disco rígido”.

Um Abraço desde o meio do Atlântico,
Tomás Carneiro
1º Cabo Cond CCAÇ 4745

Foto: © Tomás Carneiro (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Este é o primeiro poste desta série.

Guiné 63/74 - P5658: O Nosso Livro de Visitas (81): António Marquês, ex-Fur Mil da CCAÇ 4810 (Moçambique), comenta o nosso Blogue e dá-nos conta dos seus contactos com pessoas ligadas à Guiné-Bissau

1. Mensagem de António Marquês, ex-Fur Mil da CCAÇ 4810 (Moçambique, 197274), com data de 15 de Janeiro de 2010:

Carlos Vinhal,
Sou o António Marquês do "post" 5199 do "Luis Graça & Camaradas..."*, que te está a escrever para vos dar, mais uma vez, os parabéns pelo Blog. Apesar de ter estado, como vos tinha dito, em Moçambique, quase diariamente vou espreitar para o vosso blog, mas esta semana abusei.
Estive a ler todo o "dossié" sobre Guileje, e, por mais que não fosse, só por isto o "Luis Graça ..." é fundamental na "blogosfera".
Já tinha lido um pouco sobre o tema aqui há uns anos atrás, mas com todos os contributos postados no v/ blog fiquei elucidado, porque foram os próprios actores a dizerem de sua justiça. Por isso nunca é demais todos os obrigados que vos sejam dirigidos.

Agora duas curiosidades: acabei há minutos de falar ao telefone com o governador da região de Tombali, onde se situa, como saberás melhor que eu, Guileje, o meu amigo e ex-Furriel Atirador do mesmo Batalhão (mas de uma Companhia operacional) Adriano Gomes Ferreira, mais conhecido por "Atchutchi".
Quando vem a Portugal (o que aconteceu muitas vezes quando foi o director dos estaleiros da Guinave e vinha duas ou três vezes por ano aqui à Lisnave) vem quase sempre aqui ao Seixal, apesar de há cerca de 2 meses, no regresso de Roma onde foi ao Vaticano receber um prémio, ter falhado. Falámos apenas ao telefone.
Claro que há pouco me falou do Museu de Guileje e da sua inauguração no dia 20. Diz que o Pepito é extraordinário e falou-me também desse "rapaz", o Luis Graça.
A título de curiosidade, digo-te que ele desertou para a FRELIMO em Janeiro de 1974, tendo feito os últimos meses da guerra do outro lado.
A outra curiosidade é que ontem fui almoçar com o João Tunes, o homem do "Água Lisa" e membro das hostes da Guiné. Somos aqui vizinhos e ontem lá nos conhecemos pessoalmente. Foi um dia porreiro.

Vou ficar por aqui. Recebe um abraço do
António Marquês, com votos de um bom ano e muita saúde para continuarem com essa tarefa meritória que é o v/blog.


2. Mensagem de resposta enviada ao António Marquês:

Caro Marquês
É sempre com uma pontinha de vaidade que sabemos ser lidos por camaradas de outros TOs.
Se o Blogue trata em exclusividade da história da guerra colonial na Guiné e aos seus ex-combatentes é dedicado, não somos insensíveis às críticas e opiniões nos nossos camaradas de Angola e Moçambique.
Nada nos diferencia a não ser as características próprias dos territórios e dos grupos de libertação. Somos ex-combatentes da mesma guerra e vítimas do mesmo regime.

Muito obrigado pelas tuas informações curiosas que se não te importas vou publicar.
Se não te importares também, vou anexar-te à nossa lista de amigos.

Recebe um abraço do teu camarada
Carlos Vinhal


3. Ainda uma mensagem de hoje de António Marquês:

Carlos Vinhal,
Claro que não me importo, antes pelo contrário é com muita satisfação, de fazer parte dessa lista de camaradas agregados à volta da Tabanca. Muito obrigado.
É como tu dizes, fomos todos vítimas do mesmo regime.
Também a título de curiosidade, e no caso de necessitarem de algum contacto com o Adriano, para alguma urgência relacionada com o Museu, e sem lhe pedir autorização (porque não será preciso), aqui vai o telefone: (...).

Mais uma vez um abraço fraterno, com votos de um bom ano, do
António Marquês
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 3 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5199: O Nosso Livro de Visitas (69): António Marquês, ex-Fur Mil da CCAÇ 4810 (Moçambique, 1972/74)

Vd. último poste da série de 11 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5629: O Nosso Livro de Visitas (80): Aluna do 2º ano do curso de jornalismo procura ex-combatentes para entrevistar (Cátia Bruno)

Guiné 63/74 - P5657: Notas de leitura (55): No Regresso Vinham Todos, de Vasco Lourenço (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Janeiro de 2010:

Queridos amigos,
Aqui vai a recensão do livro organizado pelo Vasco Lourenço.
Agora vou começar a ler as obras do Armor Pires da Mota, tenho uma grande tarefa pela frente.
Consola-me a surpresa que nos vai trazer este combatente escritor.

Um abraço do
Mário


Antes suar que verter sangue
(ou o desejo permanente de um feliz regresso)


Beja Santos

No Regresso Vinham Todos é o relato da CCAÇ n.º 2549 contado pelo seu Comandante, Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril, um acervo de memórias de oficiais e sargentos que nos falam singelamente das suas emoções, medos, desenrascanços, tiroteios, descobertas culturais, ausências de toda a espécie. É um testemunho encadeado de estados de alma a várias vozes. A maior alegria que perpassa por todo o texto é que regressaram todos, a despeito de todas as contrariedades, sofrimentos e inquietações. Sobretudo em Cuntima, bem ao pé do Senegal, o pessoal da CCAÇ n.º 2549 combateu, construiu, ensinou a ler e a escrever que lá ficou.

Chegaram à Guiné em 25 de Julho de 1969, dias depois partiram de Brá em LDG para Farim e depois Cuntima. Foram praxados, periquito sofre. Segue-se o baptismo de fogo, gente meio estremunhada salta para os abrigos sem saber muito bem como foguear, dando vazão à corda dos nervos. Muitas mais flagelações vieram. Depois atacam-se objectivos, o inimigo bate em retirada, destroem-se casas de mato e apreende-se algum material. Fazem-se emboscadas bem perto da fronteira ou nos corredores por onde o inimigo se infiltra, a caminho dos santuários. Por vezes há equívocos, os pelotões andam às voltas à procura da boa direcção. Aprende-se o que a guerra tem para nos ensinar: os ataques de formigas, a sede, a saudade de uma sopa bem-feita, a nostalgia da noite da Consoada, as piadas carnavalescas, as aflições das emboscadas, a fazer hortas de onde não saem legumes mas onde se pode enterrar garrafas que estão frescas à hora das refeições. Alguns dos contadores são imaginativos. Um deles decide contar uma história aos netos, do género: “Pois já que tanto insistis, hoje vou contar-vos uma passagem que vivi na Guiné. O que ides ouvir é o pouco que recordo com saudades do muito que vive e sofri. Quando estava em Cuntima, povoação fronteiriça do Norte da província, habitei durante dez meses no Tosco. Ora, o que era o tosco?, perguntais vós. Era um abrigo aí com as dimensões da vossa salita de estar, um cubículo onde vivia o vosso avô com mais quatro camaradas. O abrigo era feito de grandes troncos de árvore, daquelas árvores gigantescas e muito rijas que há em toda a África. Eram troncos dos lados e troncos por cima. Estava cavado no solo a uns metros de profundidade e interiormente forrado com panos de tenda, ponches e esteiras de palha feitas pelos nativos... o abrigo enchia-se sempre que havia ataque, pois a messe de sargentos e cantina do soldado eram ali próximo. Ao primeiro rebentamento, todos tentavam alcançar o abrigo o mais rápido possível...”

A CCAÇ n.º 2549 teve muito orgulho em ver crescer a nova tabanca de Cuntima: ”Durante todo o mês de Maio e meados de Junho de 1970, todas as casas estavam construídas, primeira fase uma obra que se seguiria com o reboco exterior e interior das paredes e varandas com cimento e caiação... Quando saímos de Cuntima em coluna, olhámos para trás e vimos os raios solares reflectidos no zinco das casas da nova tabanca, como um espelho, como símbolo da nossa acção em terras da Guiné”.

Depois partiram para Nema, a comissão caminha para o fim, fala-se de amores com nativas, há muita inquietação pela vida que se vai retomar. Há também estórias soltas daquele soldado que se dizia filho único, esquecia-se de incluir o irmão vagabundo e a irmã surda-muda, o soldado Ribeiro considerava-se o amparo dos seus pais. E Vasco Lourenço despede-se deste singelo relato assim: “Regressou-se. Fizeram-se variadíssimos roncos, quer em baixas infligidas, instalações destruídas, meios de vida destruídos e inimigo material capturados. Mas para nós o ronco mais desejado fora atingido. No regresso vinham todos os que tinham partido e sem qualquer desaire a lamentar.”

Estamos em crer que não deve haver alegria maior do que todas estas vidas preservadas.

Vasco Lourenço, alguns dos seus alferes e outros oficiais a caminho da Guiné. Um bonito apontamento da viagem da partida de onde regressaram todos: fardas imaculadas, tecido ainda por lavar, sorrisos despreocupados
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 15 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5650: Notas de leitura (54): Guiné 1968 e 1973 Soldados uma vez, sempre soldados!, de Nuno Mira Vaz (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5656: Em busca de... (109): Manuel Quelhas, ex-1.º Cabo da CART 3567, Mansabá 1972/74, procura camaradas

1. Manuel Silva Quelhas, ex-1.º Cabo da CART 3567 deixou este comentário no poste "Guiné 63/74 – P5018: Em busca de... (93): Procuro ..."*:

Olá camaradas,
Quis o tempo que fosse a filha do camarada Henrique que viesse despoletar algo que há muito me intriga.
Tenho visto muita coisa na NET relacionada com Mansabá, graças ao nosso camarada LUIS GRAÇA, bem Haja.

Por aquilo que tenho lido parece que a Guerra acabou depois da CART 2732 ter saído de Mansabá. O que é feito da Companhia 3567 que esteve em Mansabá de 1972 a 1974? Será que fomos lá fazer Turismo? Será que já ninguém se lembra do Manhau, do Bironque, de Mandina Fula, de Cã Quebo, do Morés, etc.

Vejo com frequência, Capitães, Alferes, Furriéis, a enviar mensagens para Net relembrando a sua Companhia enviando fotografias. Da nossa Companhia nem vê-las. É uma pena. O que é feito dos nossos Oficiais e Sargentos? Estão todos zangados?
Não acham que deveríamos prestar homenagem àqueles que tombaram em combate, aos feridos com gravidade, inclusivé o Alferes Silva que comandava a coluna quando foi ferido com muita gravidade, o que é feito desses camaradas?


Não podemos esquecer as nossas baixas:

O Bonilha - morto em combate
O Cordeiro - morto em combate
O Pessoa - morto em combate
O Fur Mil Sá Lopes - morto em combate
O Fur Mil Costa - morto em combate
O Amaral - morto em combate
O Furriel do 3.º Pelotão sem uma perna
O Mourão (Condutor) sem uma perna
Um sold.do 4º pelotão, sem uma perna
O Vilar, gravemente ferido
O Alf Mil Silva, gravemente ferido
O Furtado, gravemente ferido;

e tantos camaradas que vieram evacuados para Lisboa, feridos com gravidade, já não me lembro do nome de todos, peço imensa desculpa.

Afinal também temos Historial. Faço aqui um apelo aos nossos Oficiais e Sargentos: reunam-se se for possível porque o tempo já não é muito.

Um abraço para todos,
1.º Cabo Quelhas
manuelsilvaquelhas@gmail.com


Vista aérea de Mansabá

2. Comentário de CV:

Caro Manuel, como nota prévia convém informar os nossos leitores de que já trocámos umas mensagens, que mais abaixo vou publicar, mas antes quero referir-me a este teu comentário.

Quase me assustei, quando te comecei a ler, porque te julguei zangado com a CART 2732, onde militei durante 23 meses. Afinal o teu descontentamento prende-se com a ausência de notícias da tua CART neste Blogue.

Tens razão. A partir da Cart 2732, de Mansabá pouco se sabe. Sei eu que a CCAÇ 2753 nos foi render temporariamente, porque ela própria estava prestes a acabar a sua comissão de serviço, sendo então, ao que deduzo, rendida pela tua Companhia. Julgo não estar errado.

Digo eu, que para começar, devias dar o exemplo aos teus camaradas, alistando-te na nossa Tabanca e começando a contar aquilo de que te lembras, sendo, quem sabe, um incentivo para os teus companheiros fazerem o mesmo. Serás uma espécie de rastilho que poderá provocar uma reacção em cadeia.

Além de mais, não cabe só aos oficiais e sargentos a missão contar as suas memórias e a história das Unidades. Temos no nosso Blogue belíssimos exemplos de ex-Cabos e Soldados que escrevem muito bem, mas se alguém precisar de uns retoques, de acordo com as nossas possibilidades, também ajudamos. O que é preciso é falar, neste caso escrever.

Como já combinámos vou publicitar a nossa troca de mensagens.


3. Mensagem de CVpara Manuel Quelhas, com data de 13 de Janeiro de 2010:

Caro camarada Manuel
Depois desta tua intervenção, só tens uma hipótese de corrigir a falta de notícias da tua Unidade. Junta-te a nós e começa a contar as tuas histórias. Manda-nos também as tua fotos com legendas para as podermos publicar.

Este teu camarada esteve em Mansabá na CART 2732 entre Abril de 1970 e Fevereiro de 1972 e deixou por lá muita guerra para os que se seguiram. Conhecemos muito bem as localidades que referes, especialmente o Bironque onde eu e outro camarada levantámos uma mina anticarro e onde anteriormente uma outra tinha destruído a nossa GMC de estimação, ferindo com bastante gravidade o seu condutor de ocasião.

Também andámos por Manhau e Mantida, Cã Quebo, Madina Fula e outras santas terras onde porradinha não faltava.
Na estrada para Cutia, perdemos ali perto de Mamboncó dois briosos camaradas madeirenses. Paz às suas almas.

Fico à espera de notícias tuas.
Manda-nos uma foto tipo passe actual e outra do tempo de guerra, fala-nos da tua Unidade, quando embracou, quando regressou, por onde andou e quais os maiores roncos.
Podes também falar um pouco de ti, tal como o teu posto, onde moras e outras coisas que não invadam a tua intimidade, mas que os amigos (e somos muitos) gostam de saber.

Para já deixo-te um fraterno abraço e votos de que gozes de boa saúde.
Teu camarada
Carlos Vinhal
Ex-Fur Mil Art
CART 2732
Mansabá
1970/72


4. Resposta de Manuel Quelhas com data de 14 de Janeiro de 2010:

Meu caro Carlos,
Obrigado pela visita. Pois caro camarada já tinha visto a tua fotografia com a mina no bironque, todos os que passamos por lá conhecemos aquele local, também naquele local rebentámos uma mina com uma Berliet. Fomos ao k3 e à vinda para Mansabá, já de noite, rebentou uma mina na viatura da frente. Era esssa a nosa vida, sempre em risco como sabes.

Tenho visto o teu trabalho na Net e o do Luís Graça, grande obra, mas digo-te de verdade que Mansabá tem ainda muito por contar. Eu não sou a pessoa devidamente documentada, o que tenho é de memória, pois era 1.º Cabo Atirador, mas sei que há pessoas que têm o historial da nossa Companhia, eu apenas me lembro de factos concretos, não me preocupava muito com fotografias, não tinha como tirá-las, as fotografias que tenho estão na minha cabeça e essas não me esquecem.

Vou-te contar um pequeno episódio que se passou com um colega meu que não há meio de esquecer:

Íamos nós fazer uma coluna a Mansoa. Eu mais o Bonilha, que era do 1.º Grupo de Combate, eu era do 2.º Grupo, estávamos a encher o cantil de água antes de montarmos para cima das viaturas, Ele virou-se para mim e disse-me:

- Quelhas lá temos que fazer mais uma coluna, isto é muito perigoso - dizia ele, parecia que estava com medo, tentei acalmá-lo sabe Deus como, pois sabia do perigo que eram aquelas colunas.

Lá lhe foi dizendo:

- Pois temos Bonilha, pois temos, mas não te preocupes que não há-de ser nada, vamos ter que fazer ainda muitas, não há-de ser nada Bonilha.

Seguimos para cima das viaturas e lá partimos em direcção a Mansoa, antes de chegar a Cutia, mais ou menos no carreiro da Morte, tivemos uma emboscada, depois de todo aquele tiroteio e de toda a confusão, como sabes, levanto-me e vejo um camarada cabonizado, entre outros, pergunto quem é, e diz-me um colega:

- É o Bonilha.

Um abraço, fico por aqui
M.Quelhas


5. Caro Manuel
Mandei-te mais uma mensagem, mas não acrescenta nada em termos de blogue.

Esta história do Bonilha é trágica, mas infelizmente não é única.
Único foi para ti o momento em que viste o teu camarada morto a teu lado. O camarada que, horas antes, te deu a entender que pressentia algo que não era bom, mas não estava nas tuas mãos alterar o seu destino.

Nuca mais o esqueceste, nem as suas palavras, e isso é a maior homenagem que lhe podes prestar. Vais viver com isso até ao fim dos teus dias, é esse o preço que tens de pagar.
Se leres algumas das imensas páginas deste Blogue, verás histórias semelhantes à tua, e camaradas com recordações que os corroem por dentro há mais de 30 anos e sabe-se lá por quantos mais terão que as carregar.

A nossa geração pagou um preço altíssimo por uma política desajustada aos tempos que corriam. Só se saldarão as contas com a morte do último ex-combatente da guerra colonial.
A partir daí, o stress pós-traumático apenas será devido às privações do telemóvel, PC portátil sem internete e outras coisas fundamentais da sociedade moderna. Nós nem telefone tínhamos, mas isso eram pormenores sem importância. Também passámos fome e sede. Também dormimos em buracos. A nossa família esteve muitas vezes durante semanas sem saber se éramos mortos ou vivos. Que digo eu, palermices de meio-velho.

Caro Manuel, pela afinidade que nos une enquanto ex-residentes de Mansabá, renovo o meu convite para te juntares a nós. Verás que escrevendo no Blogue aquilo que na família já ninguém quer ouvir, te ajudará, ao mesmo tempo que ficarás a saber que fazes parte de um grande grupo de homens, e mulheres, que só entre si se compreendem.

Recebe um abraço em nome da tertúlia e toda a solidariedade dos que se sentem teus pares.
CV


Estado em que ficou um Unimog ao serviço da CART 2732, numa emboscada na estrada Mansabá-Mansoa, perto do célebre carreiro da morte, no dia 6 de Dezembro de 1971. Nesta emboscada perdemos dois camaradas do 3.º Pelotão


Fotos: © Carlos Vinhal (2009). Direitos reservados.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 27 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 – P5018: Em busca de... (93): Procuro qualquer informação sobre o pessoal da CART 3567 "Os Insaciáveis". – 1972/74, (Paula Sofia Ferreira)

Vd. último poste da série de 16 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5655: Em busca de... (108): Neusa Danho procura amigos de seu pai, o 2.º Srgt Mil Cristóvão dos Santos

Guiné 63/74 - P5655: Em busca de... (108): Neusa Danho procura amigos de seu pai, o 2.º Srgt Mil Cristóvão dos Santos

1. A nossa amiga Neusa dos Santos Danho, filha do nosso camarada guineense Cristóvão dos Santos, 2.º Srgt Mil, já falecido, deixou estes dois comentários no poste "Guiné 63/74 - P2064: Memórias de um comandante de ..."*:

i - Olá a todos, sou filha de um antigo milícia guineense, o 2.° Sargento Miliciano Cristóvão dos Santos; ja falecido, com o número mecanográfico 9500765, e gostaria de saber se o senhor Paulo Santiago poderia me dizer se este Cristóvao Mantudo dos Santos é o mesmo que o meu Pai.

O meu nome é Neusa M.B. dos Santos Danho.


ii - Gostaria de saber também se há alguém além do senhor Paulo Santiago que conheceu o meu pai, se poderia me fornecer alguns dados dele. O meu prestou servico nestas unidades:

Escola Prática de Cavalaria;
Centro de Instrucao de Sargentos Milicianos de Infantaria;
Escola Prática de Infantaria;
Companhia de Caçadores 3 do CTIG;
Companhia de Comando e Serviços do Quartel General do CTIG.

Com os melhores cumprimentos.


2. Comentário de CV:

Chamo a atenção dos camaradas e amigos tertulianos para o desejo desta nossa amiga que quer saber pormenores da vida militar de seu pai, e para isso o melhor é encontrar os seus antigos camaradas.
Quem tiver pistas que possam ser úteis, podem encaminhá-las para para nós, uma vez que a Neusa, não deixou o seu contacto.

Desde já o nosso obrigado.
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 23 de Agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2064: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (12): Evocando todos os militares do 53

Vd. último poste da série de 5 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5597: Em busca de... (107): Procuro Camaradas da 2ª CCav do BCav 8323 (Gregório Manuel Brás Matadinho)

Guiné 63/74 - P5654: Humor de caserna (18): Mansambo no seu melhor (Parte II) (Carlos Marques dos Santos, CART 2339, 1968/69)


Guiné > Zona leste > Sector L1 (Bambadinca) > Mansambo > CART 2339 (1968/69) > Foto 6 > "Vamos ao vira ?"


Guiné > Zona leste > Sector L1 (Bambadinca) > Mansambo > CART 2339 (1968/69) > Foto 7 > "Passagem de modelos. Será Ana Salazar ?"


Guiné > Zona leste > Sector L1 (Bambadinca) > Mansambo > CART 2339 (1968/69) > Foto 8 > "Partida para os 1500 metros ? Pura ficção! O pessoal está a ficar grosso”.



Guiné > Zona leste > Sector L1 (Bambadinca) > Mansambo > CART 2339 (1968/69) > Foto 9 >  "Exercício de karaoke?... Não!... São bazucas!"...


Continuação da publicação da II Parte do texto e imagens enviadas pelo Carlos Marques dos Santos (ex-Fur Mil, CART 2339, Mansambo, 1968/69), em 18/3/07 > O 'buncker' de Mansambo no seu melhor,  uma noite de 'alegria colectiva', aí por volta de Novembro de 1968, um ano antes o regresso a casa, à "doce casa"...

Eis como eu descrevi Mansambo, da primeira vez que lá passei: "Uma clareira aberta no mato a golpes de catana e de motosserra, guarnecida de arame farpado, artilharia e abrigos-casernas à prova de canhão sem recuo, eis Mansambo.

Os guerrilheiros chamam-lhe campo fortificado mas como este aquartelamento de mato há muitos – dizem-me – sobretudo no sul, e que são verdadeiros abcessos de fixação.Aqui vive-se praticamente em estado de sítio. Para ir descarregar o lixo fora do arame farpado, apanhar lenha ou encher os bidões de água a 100 metros sai-se com um grupo de combate armado até aos dentes. A rotina, porém, leva ao afrouxamento da disciplina.

Há alguns meses atrás, o grupo de combate que montava segurança à viatura da água foi surpreendida pelos guerrilheiros, emboscados junto à fonte, no momento em que alguns soldados tomavam banho alegre e despreocupadamente. Resultado: 2 mortos e 10 feridos.

O aquartelamento tem sofrido flagelações, sem consequências. O pior são as minas e emboscadas na estrada Bambadinca-Mansambo-Xitole . Todavia, o problema nº 1 aqui é o isolamento. A unidade é abastecida a partir de Bambadinca. Não há pista de aviação. Não há população civil, excepto meia dúzia de guias nativos com as respectivas famílias. Ora o isolamento nestas circunstâncias acarreta toda uma séria de perturbações psicológicas e até mentais. Apanhado pelo clima é a expressão que se utiliza na gíria deste universo concentraccionário em que se transformou a Guiné" (...)



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Nota de L.G.:


sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Guiné 63/74 - P5653: Ser solidário (51): Campanha da Tabanca de Matosinhos: Os números vão subindo (José Teixeira)

1. Mensagem de José Teixeira, Tesoureiro da Tabanca Pequena, Grupo de Amigos da Guiné-Bissau, com data de 12 de Janeiro de 2010:

Boa noite Carlos
Junto um texto já passado no blogue da Tabanca Pequena. Em anexo vai o mapa actualizado das verbas entradas para a Campanha das Sementes.
Agradecia que colocasses no blogue.
Abraço
Zé teixeira


Segundo a Comissão Europeia há mais de 1.000 milhões de pessoas que não têm acesso à água potável.
Será que algum de nós já se imaginou a viver sem água?
Ao levantar-se, manhã cedo ter de palmilhar uns quilómetros para lavar a tabuleta?
E… se a sede aperta, agora que toda a gente descobriu que deve beber muita água?




É verdade, amigo e camarada, nós quando nos levantamos temos ali ao lado a torneira, o autoclismo, a água para o duche. Temos água, o dia todo, o ano todo em nossa casa a custos que consideramos altos, mas vamos tendo condições financeiras para a pagar.
Não basta ter água. É preciso que seja potável.

Na nossa campanha para conseguir abrir poços de água na Guiné, os números vão subindo*
.


José Teixeira
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5608: Ser solidário (50): Campanha da Tabanca de Matosinhos: Os primeiros resultados (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P5652: Blogpoesia (62): Do Homem guarda o silex o gesto / e nas marcas de sangue se guardam as ânsias de infinito (José Brás)


Continuação da publicação de poemas do nosso amigo e camarada José Brás (*), enviados em 29 de Março último à Cristina Nery, investigadora do CES/UC  (**).


Dr.ª Cristina Nery: Há muito tempo longe do ambiente da memória da guerra, ultimamente buscando as gentes que cruzaram os mesmos lugares, juntos ou separados no tempo e no modo, gostaria de estar amanhã em Coimbra mas 'o rei manda marchar mas não manda chover'.

Envio-lhe aqui alguns textos a que não me atrevo a chamar 'poesia', porém sofridos na terra da Guiné. (***)


Cumprimentos


José Brás
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Anéis

dedos apontados à secura da terra
acusavam-lhe a falência genética
do seu ventre parideiro
de diamantes, de minas
e de morte

olhos vitri-fixos diziam
mundos-nada-amargura
saudade já
de outros eu
fantasmas-frustração
coval marcado no espaço sideral

bocas-protesto-quase-renúncia
gritavam imagens-desejo
de um encéfalo criador
de novos cosmos

e seios negros-flácidos-lacerados
eram a denúncia-prova
de cordões umbilicais
que ligam ainda
o símio-escravo-jeová
à terra-mãe


ARCAS

Do Homem
guarda
o silex
o gesto

e nas marcas do sangue
se guardam
as ânsias
de infinito

Espantosa Visão


Corriam os olhos
na imagem
de um desfiladeiro de pedra
cinzenta
e os gritos colados
nas asas
de pássaros dourados
rasando os tufos
raros
de verde azeitona
impunham
na paisagem vazia
um pesado irreal
e a solidez
do alerta.


Pressa

Urgente
seria
que as palavras
cruzassem
o espaço
(fechado)
da memória
e no seu eco
se rompessem
as cadeias
do tempo
e do sangue
na terra da morte
e dos olhos
parados


Memória de fogo


eruptiva terra
vermelha e retorcida
vulva aberta
múltipla
e imprevista
teu quente orgasmo
da periódica
orgia vem
arrefecendo
solidifica
em ferro
e flores
nos corpos
de crianças
fardadas

____________

Notaa de L.G.:

(*) José Brás, ex-Fur Mil da CCAÇ 1622, Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68, autor do romance Vindimas no Capim, Prémio de Revelação de Ficção de 1986, da Associação Portuguesa de Escritores e do Instituto Português do Livro e da Leitura... Alentejano, vive em Montemor-O-Novo, foi chefe de cabine na TAP, dirigente sindical antes do 25 de Abril (SNPVAC - Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil).

(**) Cristina Nery, filha e neta de camaradas nossos, investigadora no CES/UC - Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, tem-se interessado pelo estudo e divulgação da poesia da guerra colonial:


Vd. poste de 29 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4093: Agenda Cultural (5): Poetas da guerra colonial em conferência internacional, Coimbra, CES/UC, 30/3/2009 (Cristina Néry)

Vd. página do CES/UC sobre este projecto Poesia da Guerra Colonial

(***) Vd. postes anteriores:

15 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4689: Blogpoesia (54) : Abraço com aço não rima, nem rima a morte com sorte... (José Brás)

30 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4107: Blogpoesia (35): Tinhas no olhar / sinais seguros de esperança... (José Brás)

Guiné 63/74 - P5651: Agenda cultural (55): Dor Fantasma, um espectáculo com texto de Manuel Bastos, em Sintra, 15 e 16 de Janeiro de 2010



Depois de uma curta temporada no Porto, no Estúdio Zero, em Novembro de 2009, o teatromosca apresentará, agora em Sintra, o espectáculo "Dor Fantasma", com textos de Manuel Bastos* e direcção de Mário Trigo.

Um espectáculo sobre a guerra colonial ou guerra da independência - dependendo do ponto de vista.

O espectáculo será apresentado nos dias 15 e 16 de Janeiro, às 21.30h, na Casa de Teatro de Sintra.

Para mais informações, visite a página do projecto no site do teatromosca.

Reservas 91 461 69 49

teatromosca@gmail.com

Consultar também o Blogue O Cacimbo do nosso camarada Manuel Bastos

__________

Notas de CV:

(*) Manuel Correia Bastos foi combatente em Moçambique na CART 3503, com o posto de Fur Mil.

Vd. último poste da série de 12 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5635: Agenda cultural (54): Convite para o lançamento do livro O Ninho, de Alexandra Almeida Reis (Manuel Reis)

Guiné 63/74 - P5650: Notas de leitura (54): Guiné 1968 e 1973 Soldados uma vez, sempre soldados!, de Nuno Mira Vaz (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Janeiro de 2010:

Queridos amigos,
Junto mais uma recensão, o livro do coronel Mira Vaz é um contributo importante para conhecer a intervenção dos pára-quedistas na Guiné.
Pedi ao meu amigo Jorge da Cunha Fernandes, que participou na Operação Ciclone II que nos fizesse uma descrição. Respondeu-me que ainda não é tempo. Há que aguardar serenamente, em certos casos de depoimentos do mais elevado interesse, que cheguemos ao limiar da perda das faculdades...

Um abraço do
Mário


O BCP 12 e a Guiné

Beja Santos

Tem já havido referências avulsas aqui no blogue a este livro do coronel Nuno Mira Vaz, designadamente por causa dos acontecimentos de Guidaje, em Maio de 1973. O livro está inserido na série Batalhas de Portugal, está comercialmente disponível e foi editado pela Tribuna da História em 2003.

O autor, coronel de Cavalaria na reserva, fez toda a sua vida militar nas tropas pára-quedistas, exerceu funções no Instituto de Defesa Nacional e ensinou Sociologia Militar na Academia Militar. A sua obra “Guiné, 1968 e 1973” é constituída por um acervo de notas em torno de importantes intervenções do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 12, designadamente a Operação Ciclone II, em Fevereiro de 1968, um heliassalto na região de Cafal-Cafine, com resultados notáveis, e o apoio dado pela referida Unidade militar para romper o cerco de Guidaje, em 1973, pela sua participação na Operação Amestista Real. Vejamos sumariamente o que escreve o coronel Mira Vaz. Reportando-se em 1968, refere-se à implantação do PAIGC na região do Cantanhez, escrevendo concretamente que “Por falta de meios adequados ou por falta de visão estratégica, o certo é que durante três anos os militares portugueses não desenvolveram uma actividade consistente naquela região, dando preferência a tentativas superficiais que, em vez de desarticularem o dispositivo inimigo, serviram antes para moralizar a guerrilha... No início de 1968, pouca gente podia suspeitar de que o Comando-Chefe das Forças Armadas na Guiné decidira recuperar a iniciativa na região e de que se iria travar, num dos últimos dias de Fevereiro, o mais violento dos combates que os militares do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 12 tinham até então sustentado contra os guerrilheiros do PAIGC”.

Previamente, o autor introduz a evolução da situação militar da Guiné, os motivos que levaram à criação do BCP 12 e dá-nos um quadro da situação em Fevereiro de 1968 na mata de Cafal, e quais os resultados obtidos depois da Operação Vendaval, executada por pára-quedistas em 10 e 11 de Janeiro desse ano. Em 15 de Fevereiro, ocorreu a Operação Ciclone I em que o elemento capturado deu informações preciosas sobre o quartel do PAIGC, em Cafal. O heliassalto a Cafal-Cafine é um compreensível motivo de orgulho para o BCP 12, pela quantidade de baixas e militares do PAIGC capturados e pelas enormes quantidades de material aprendido. O relato da Operação é um registo vibrante, cheio de vivacidade com depoimentos de intervenientes directos e indirectos. Segundo este relato, Sana Naiana, comandante do aniquilado bigrupo de Cafal-Cafine portou-se heroicamente na resistência à ofensiva pára-quedista.

Em 1973, as coisas passaram-se de maneira muitíssimo diferente. Após a morte de Amílcar Cabral, o PAIGC reagiu em dois pontos distintos da Guiné, atacando quase simultaneamente Guidaje e Guileje. Spínola tinha publicamente associado a morte de Amílcar Cabral a problemas internos do PAIGC, a direcção deste Partido quis provar através de uma demonstração de força a elevada motivação das tropas. Em Março, começaram as dificuldades dos meios aéreos que obrigaram a restrições ao voo nos céus da Guiné e em Abril/Maio iniciou-se uma tentativa de cerco a Guidaje, movimentando centenas de guerrilheiros, forças de artilharia e procedendo a um reabastecimento ininterrupto a partir de bases senegalesas situadas nas áreas de Zinguichor, Cumbamori, Yeran e Kolda. Como escreve o autor “Dos depoimentos recolhidos junto dos antigos comandantes portugueses e do PAIGC, ressaltam divergentes quanto ao objectivo das forças de guerrilha (apenas desgaste, segundo o PAIGC; tentativa de ocupação do aquartelamento, para os responsáveis portugueses), número de baixas sofridas e localização da sua base de apoio na região. O Tenente-Coronel Correia de Campos não tem dúvidas que o PAIGC queria mesmo conquistar o quartel. Manuel dos Santos, então Comissário Político da Frente Norte, destaca a importância da operação de Guidaje, explicando que o PAIGC nunca antes realizara outra com tantos efectivos.” Para o PAIGC, a operação demorou mês e meio, o objectivo era o isolamento terrestre de Guidaje com 650 elementos apoiados pelo fogo de obuses de 105 mm, foguetões de 122 mm, morteiros de 120 mm e de 82 m, canhões sem recuo, lança-granadas foguetes e mísseis terra-ar Strella. Não vale a pena esmiuçar o que ali se passou, diferentes protagonistas já fizeram os seus depoimentos exararam os seus pontos de vista no blogue. O autor descreve os principais acontecimentos que envolveram as colunas de Guidaje, descreve o comportamento exemplar do Tenente-Coronel Correia de Campos e o depoimento do Coronel de Cavalaria Ayala Botto é elucidativo do quadro da tragédia que ali se viveu e do acto temerário do General Spínola e do Coronel Moura Pinto que se deslocaram de helicóptero a Guidaje, em condições de alto risco.

A 16 de Maio, o Major Almeida Bruno recebe instruções para atacar a base de Cumbamori, o objectivo era desarticular o dispositivo inimigo e aliviar a pressão sobre Guidaje, os participantes directos virão a ser os Comandos Africanos. A Companhia de Caçadores Pára-quedistas 121 sob o comando do Capitão Almeida Martins juntou-se às forças assaltantes, obtendo uma das maiores capturas e destruições de material inimigo em toda a guerra de África: a Operação Ametista Real saldou-se em 10 mortos, 22 feridos e 3 desaparecidos dos Comandos Africanos e 67 mortos do PAIGC. A maior parte do material capturado foi destruído pelo Grupo de Operações Especiais comandando pelo Alferes Marcelino da Mata. O Capitão Salgueiro da Maia relata como se rompeu o cerco de Guidaje, é uma descrição impressionante, vem publicada no seu livro “Capitão de Abril, histórias da guerra do Ultramar e do 25 de Abril”, Editorial Notícias.

Este livro passa a pertencer ao blogue
__________

Nota de CV:

Vd. últimpo poste da série de 11 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5631: Notas de leitura (53): Katafaraum é uma nação, de José Martins Garcia (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5649: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (4): Louvores atribuídos aos Fur Mil Sap Fausto Vaz Santos e 1.º Cabo Manuel Sá Couto



1. Mensagem de Rogério Cardoso (ex-Fur Mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66), com data de 11 de Janeiro de 2010:

Amigo Carlos,
Apanhei nos meus arquivos louvores a dois camaradas, sendo o primeiro o amigão da malta toda e que passo a transcrever da O.S. n.º 94 do CTIG de 16/11/65 dado pelo Brigadeiro Comandante Militar:

Fur Mil Sapador Fausto das Neves Vaz dos Santos, do Bart645, porque, tendo tomado parte em muitas Operações de combate, como Comandante da Secção de Sapadores, em reforço de Companhias operacionais, nomeadamente nas Operações de Cã-Quebo, Base, Santambato e Mandigará, sempre se revelou elemento de muita decisão, sangue frio e espírito de sacrifício, qualidades estas que lhe valeram referências muito elogiosas por parte dos Comandos das Companhias que foi reforçar.
É de salientar o seu excepcional espírito de camaradagem, notável boa disposição, poder de organização que tem demonstrado tanto nos trabalhos da sua Especialidade como no desporto, tendo contribuido para o prestígio da sua Unidade.
Colaborou activamente nas obras de fortificação e de melhoramento de Mansabá e na reparação da estrada Bissorã-Olossato, onde com a sua energia física e moral tem contribuido francamente para a rápida reparação das obras, com sensíveis efeitos na actividade operacional.
Profundo conhecedor da sua Especialidade, tem mantido em bom moral a sua Secção e pessoalmente procedeu ao levantamento de uma mina anti-carro na estrada Mansoa-Mansabá, em condições de reconhecido perigo.
Este Furriel merece ser apontado como exemplo e é digno de referência especial.



Também outro amigão, o

1.º Cabo da Cart 643 - Manuel José de Sá Couto, por ter demonstrado em todas as acções de combate em que tem tomado parte, ser um militar possuidor de raro espirito de sacrifício, coragem e sangue frio.
São de salientar estas qualidades, visto quando foi ferido num combate nocturno e suportou o ferimento até o combate terminar, só então dando conhecimento aos seus camaradas para ser socorrido.
Com o seu excepcional procedimento conquistou a estima dos seus camaradas e superiores.
(O.S. n.º 23 de 10/11/65 do Com Agr 16)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 13 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5641: Notas soltas da CART 643 (Rogério Cardoso) (3): O nosso Cabo Enfermeiro José Botas

Guiné 63/74 - P5648: Canjadude, a chegada de um periquito (2): Finalmente Canjadude. As primeiras impressões (José Corceiro)

1. Segunda parte de Canjadude, a chegada de um periquito, trabalho enviado pelo nosso camarada José Corceiro* (ex-1.º Cabo TRMS, CCaç 5 - Gatos Pretos -, Canjadude, 1969/71), em mensagem do dia 10 de Janeiro de 2010


CANJADUDE, A CHEGADA DE UM PERIQUITO (2)

Uma necessidade primária dos seres vivos é a conservação das espécies


Já sei o SPM 0028 (creio ser Serviço Postal Militar) da CCAÇ 5, escrevi mais de trinta aerogramas para familiares e amigos, já tinha escrito três ou quatro vezes, mas sem SPM.

A alimentação tem sido boa, aqui há restaurantes cujos proprietários são metropolitanos e a ementa tem pratos parecidos com a metrópole, logo que posso aproveito.

Dia 7 de Junho 1969, levantei-me cedo, dormi tranquilamente na Delegação, as instalações são razoáveis, há, para dormir, espaço reservado a graduados e não graduados, dormi onde quis, pois estou só mais o Amaro. Os mosquitos, é que são o demónio, são presença constante em qualquer local; tendo um ciclo de vida tão fugaz têm que ser muito eficazes, profícuos e prolíficos, para manterem a colónia constante, parece que estão em todos os lados, são aos milhares, não se dão ao luxo de falhar o alvo.

Hoje fiz o meu primeiro serviço em todo o tempo de tropa, com G3, estou de plantão ao Paiol do Quartel de Nova Lamego, está muito calor, mas estou à sombra. Hoje, ouvi, por volta das 23.00 horas, com perfeita nitidez, grandes rebentamentos, foi um bombardeamento muito intenso. Disseram-me que foi o Aquartelamento de Piche que foi atacado, segundo a fonte, houve dezenas de feridos (47) e quatro mortos.

Está um calor tórrido e mortiço, atmosfera carregada e tensa, humidade misturada com as partículas em suspensão ameaçam explodir a qualquer momento, transpira-se preocupação e insegurança, paira incerteza e receio no ambiente, aproxima-se temporal, será chuva, trovoada ou vendaval, o desconforto e a palpitação são gerais, o suor é melaço e teima em não se deixar limpar, está tudo agitado, a brisa está calma, mas as folhas das árvores estão a baloiçar, os mosquitos põem à prova toda a astúcia e rebeldia, para fintar o indígena e conseguir a sua sugadela, as lagartixas, no quintal, andam num frenesim desenfreado e estonteante, como se hoje fosse o último dia das suas vidas, no quartel respira-se desconfiança, há muita movimentação militar, já vieram dois Pelotões de outro Destacamento, saíram três Pelotões para o mato na eventualidade de ataque, estarem a postos, está tudo de prevenção, eu estou de Cabo de Dia ao Comando, é dia 9 de Junho 1969.

Não tem havido nada de maior mas a prevenção rigorosa continua, anda tudo muito nervoso e instável, fala-se que a qualquer momento vai haver ataque ao quartel, à noite fica tudo às escuras e continua a movimentação das tropas, a sair para o mato. Estou de Cabo de Dia à CCS, dia 11 de Junho 1969.

Já sei que amanhã dia 13 de Junho, vem a coluna de Canjadude e vou partir rumo CCAÇ 5. É dia 13, mas é dia de Santo António, que auto-confiança, ainda bem que não sou supersticioso, é preciso calminha, sensatez, espírito responsável e cooperante, partilha do saber, integração e laços de boa camaradagem, haja humildade, força gera força de sinal contrário. Não vale a pena entrar em pânico, ansiedade ou depressão, porque isto cria dependência e dá lucro às multinacionais do medicamento, ansiolíticos e anti-depressivos.

- Tem calma , não queiras prever o futuro, o que for será, não te tenciones com o provir! - Assim me aconselhavam os meus espíritos santos de orelha na altura.

Eu respondia:

- O futuro estrutura-se no presente, é preciso cautela...

De Nova Lamego a Canjadude são cerca de 25km, com a precaução necessária, a coluna progrediu, por questões de segurança mais ou menos a meio, apeamos das viaturas, caminhámos cerca de meia hora, voltámos a montar nas viaturas, agora senti o pessoal mais desinibido, solto, confiante, descontraído, seguro e comunicativo, estávamos a viver o mesmo perigo, o mesmo drama. Via rádio, informaram o Posto de Transmissões que estava tudo OK e que havia periquito para render o Dionísio de Transmissões. Faziam parte da coluna dois Operadores de Transmissões, o José Carlos de Freitas (natural de Guimarães), despreocupado, deixa para lá não me incomodem, calmo, boa pessoa, foi jogador do Vitória de Guimarães e barbeiro na CCAÇ 5, o José Natividade da Silva (natural de Alqueidão), espevitado, reguila, com sangue na guelra, bom camarada, (impressões subjectivas e minhas, reportadas à época, mas tenho a certeza que continuam as boas pessoas que eram, esses bons dons estavam impregnados na personalidade) o Silva, aproveitou-se, e pediu-me para mandar via rádio, a minha primeira mensagem na Guiné, ao Cabo Dionísio, que eu ia render.

Foto 1 > Corceiro a mandar a primeira mensagem, via rádio, entre Nova Lamego e Canjadude. A seu lado José Carlos Ferreira, atrás, do lado direito o Malhadas, natural de Vila Nova de Paiva ido nesse dia também para a CCAÇ 5. Os militares nativos são do 4.º Pelotão. O fotógrafo foi o Silva.

Após a vinda destes dois camaradas, para a metrópole, passaram quase 40 anos e só há dias falei com o Silva. Nestes 40 anos tive só um contacto há 30 anos, com o Rogério Carneiro, que infelizmente, soube agora, já não faz parte dos vivos, o meu respeito. Neste caso também a rendição individual foi madrasta, vinha cada um em sua altura perdia-se o contacto, perdia-se o rasto, éramos relativamente poucos.

Foto 2 > Canjadude > O 1.º Cabo José Carlos Freitas à entrada do abrigo de Transmissões

Foto 3 > Canjadude > 1.º Cabo José Natividade da Silva

Foto 4 > Canjadude > O 1.º Cabo Malhadas, natural de Vila Nova de Paiva

Foto 5 > Canjadude > O 1.º Cabo Amaro dentro de um dos abrigos das Praças

Cheguei a Canjadude, já sou Gato Preto, estou instalado numas termas subterrâneas tipo sauna romanoturcas. Aqui, pia mais fino, dorme tudo em abrigos subterrâneos, cobertos de cibes de palmeira e cimento, está tudo ligado por um serpenteado de valas aos ziguezagues, com 1,20m de profundidade que dão acesso a pontos estratégicos onde se encontram instaladas armas pesadas. Nos pontos mais sensíveis e fragilizados, há bidões cheios de terra para protecção em caso de ataque.

Ao chegar o que mais me impressionou foram as grandes rochas à entrada do Aquartelamento, ainda não tinha visto nada parecido na Guiné, que mais parecem baluartes a dar-nos as boas vindas e garantir protecção e segurança, acolhedoras, pois servem de postos de sentinela.

Foto 16 > Canjadude > O filão de rochas calcárias no solo argiloso, capricho da natureza, que mais se assemelhavam a cogumelos ali nascidos, já que o filão não se prolongava nuito para o lado esquerdo nem para o lado dreito, terminava por ali. Mais parecem pedras esquecidas em contenda mitológica. Zona praticamente plana, a erosão ao longo de milhões de anos, fez o seu trabalho.

Foto 23 > Canjadude > Picada à saída do arame farpado, rumo a Nova Lamego

Foto 24 > Canjadude > Vista aérea > Em primeiro plano os baluartes a dar as boas-vindas à chegada e a oferecer hospitalidade. Vêem-se alguns abrigos, o edifício bloco, a parada, o campo de futebol, a tabanca coberta de arvoredo, a pista de aviação e na continuação desta, a picada no meio da floresta que ligava ao Cheche, cerca de 20Km, de onde foram retiradas as NT. Retirada de Madina de Boé, quatro meses antes de eu chegar a Canjadude.

Foto 25 > Canjadude > Vista aérea, tirada do lado da bolanha das lavadeiras, (nascente). Ao lado esquerdo vê-se a tabanca, na parte central há uma mangueira, junto à parada, por trás da qual se vê um canto do abrigo das Transmissões. Vê-se, em plano afastado, lado direito, o filão das rochas que vai morrer logo mais à frente.

Foto 9 > Canjadude > 1.º Cabo José Corceiro

Foto 10 > Canjadude > O nosso tertuliano José Martins, Fur Mil TRMS a dar um abraço de boas-vindas a José Corceiro

Em Canjadude, passei 25 meses, com poucas ausências; para minimizar o choque de despedidas, com receio que transpirasse o desconforto em que me encontrava e porque tinha a família muito sofrida, devido ao funeral do meu tio, da minha avó e duma tia, com quarenta e poucos anos, faltou-me a coragem de vir de férias à metrópole, temia a despedida, não sei como seria?! Foi muito tempo fora da civilização que eu conhecia, logo, desejava, confinado a um espaço tão limitado em condições tão carenciadas, privado das necessidades mais elementares, sem as quais o ser humano consegue harmonia emocional e física; tentava, conforme podia e deixavam, compensar o não gozo em pleno das três necessidades primárias dos seres vivos, e, como podia, tentava desequilibrar os pólos das baterias. Foi muito difícil a falta de presenças, de carinhos, de mimos, de pequenos nadas, os afectos… era a saudade… a tensão e pressão com contenção de explosão. Cada um refugiava-se e representava o que lhe ia na alma, o que lhe parecia mais plausível: álcool, bajudas, petiscos, escrita, ler, simulações guerreiras e teatrais, afeição a animais, apegados às coisas mais inverosímeis, tentava-se suprimir as deficiências e lacunas do meio a que estávamos expostos, recorrendo aos mais variados hobbies para nos compensarmos, eram necessidades primárias desvirtuadas a actuar!

Talvez tivesse facilitado a minha integração e minimizado o meu desconforto, se o meu código genético tivesse no respectivo cromossoma um gene com aptidão mais guerreira que dominasse o alelo correspondente, ficaria por ventura mais acomodado no teatro de guerra, mas deixava de ser EU, eu batia-me interiormente com as minhas limitações, por valores que queria preservar e dignificar, queria, sem ser lírico ou utopista, (com toda a estima e consideração) continuar a ser amante de diálogos, respeito, consensos e paz, não tinha preparação para este tipo de guerra, estava a ficar com a percepção que neste meio (teatro de guerra) obrigavam-me a renunciar à minha personalidade e a valores que eu queria acautelar, vivia num conflito ambíguo, meio externo (ambiente) guerra, meio interno (raciocínio) paz, esta ambivalência era morrinha para o meu EU!

O meu hobbies, entre outros, foi a fotografia e o diapositivo (slide), tirei muitos milhares.

Para todos um abraço.
José Corceiro

Fotos: © José Corceiro (2009). Direitos reservados.

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Nota de CV:

Vd. poste da primeira parte de 13 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5640: Canjadude, a chegada de um periquito (1): De Lisboa a Gabú (José Corceiro)