sábado, 23 de janeiro de 2010

Guiné 63/74 - P5698: Tabanca Grande (199): António Fernando R. Marques, ex-Fur Mil da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71)

1. Mensagem de António Fernando R. Marques, (ex-Fur Mil da CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71), com data de 18 de Janeiro de 2010:

Caro Luís Graça

António Fernando Rodrigues Marques, ex-Furriel Miliciano da CCaç 12 (CCAÇ 2590), Contuboel / Bambadinca 1969 / 1971, nascido a 24 de Agosto de 1946, venho inscrever-me como membro da Tabanca Grande, enviando para isso as duas fotografias uma antiga e outra recente.

Quanto à pequena história para contar não a tenho, tenho sim uma grande história a qual já te referiste no Blogue em 6 de Março de 2009*, que foi o rebentamento da mina em Nhabijões em 13 de Janeiro de 1971, onde íamos os dois e onde fiquei gravemente ferido e em perigo de vida.

Grato pela minha integração
Um grande abraço
Marques
Cascais, 18 de Janeiro de 2010


2. Comentário de CV:

Caro António Marques, bem-vindo à Tabanca Grande, onde por motivos menos bons foste falado em tempos.

São os votos da tertúlia que te encontres completamente restabelecido das mazelas provocadas pelo rebentamento daquela mina anticarro. És mais um dos que infelizmente têm a lamentar momentos e experiências horríveis daquela guerra, mas ao mesmo tempo, felizmente, um dos sortudos que hoje pode narrar o acontecimento porque está bem vivo.

Não quererás falar muito disso, o que se compreende, mas terás outras histórias para partilhar connosco, vividas com os teus e nossos camaradas guineenses da CCAÇ 12, onde foste companheiro do Luís Graça. Também nos podes enviar fotos que tenhas desse tempo para as publicarmos.

Esperamos então que brevemente nos voltes a contactar com mais pormenores da tua experiência enquanto graduado numa Companhia Africana. Falar, escrever neste caso, por vezes faz bem, e como em casa já ninguém quer ouvir falar de Guiné, este é o sítio onde nos estamos entre iguais.

Em nome da tertúlia envio-te um abraço de boas-vindas e votos de que sintas bem entre nós. Vê tu quantos mais amigos tens a partir de hoje.

Para ti uma saudação e um abraço especial do Luís.

Bambadinca > António Fernando Marques com o nosso Editor Luís Graça

Lisboa, Janeiro de 2010, António Fernando Marques e Luís Graça de novo juntos.

Foto de José Eduardo Reis Oliveira

__________

Notas de CV:

(*) Sobre o acontecimento de 13 de Janeiro de 1971, vd. postes de:

2 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXXIX: E de súbito uma explosão
e
23 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCV: 1 morto e 6 feridos graves aos 20 meses (CCAÇ 12, Janeiro de 1971)

Vd. último poste da série Tabanca Grande de 29 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5561: Tabanca Grande (198): Rogério Cardoso, ex-Fur Mil da CART 643/BART 645 (Mansoa, 1964/66)

Guiné 63/74 - P5697: Controvérsias (62): Colonizar versus descolonizar (Torcato Mendonça)

1. Mensagem de Torcato Mendonça * (ex-Alf Mil da CART 2339, Mansambo, 1968/69), com data de 18 de Janeiro de 2010:

Caros Editores Camaradas e Amigos

Por falta de tempo e muito mais, não tenho lido e escrito. Não é desculpa, não tenho que a dar e vocês dela não necessitam. Sou ou procuro ser, levemente brincalhão e, em muito do que tenho escrito, já lá vão mais de cento e trinta escritos, intimista em excesso. Demasiado é certo e disso me penitencio. Optei, aqui neste espaço entre Homens/Camaradas e, porque não Amigos esse tipo de linguagem, essa forma de abordar quer a temática quer na forma da escrita.

Curiosamente eu, pessoalmente, não sou bem assim. Talvez isto se deva ao Luís Graça, a conversas com ele e não só. Talvez à maneira de encarar este blogue. Preferi, prefiro assim.

As questões, ditas fracturantes ou passíveis de o ser, tentei passar, a custo é certo, ao lado. Sou polémico e reconheço o dito mau feitio em muitas ocasiões. Aqui, não era a remissão dos pecados pois nisso não acredito. Talvez o tal lugar de afectos, o lugar de amizade e camaradagem, o lugar que, aos poucos, foi passando para as Tabancas Pequenas...

Agora, mesmo sem ter lido com a devida atenção, anotando os números e não abdicando de hoje ler, sem horas ou madrugadas, vi e li um, depois outro e mais outro poste sobre o tema colonizar versus descolonizar.

Parei um pouco a pensar. Não vou maçar-vos com os meus pensamentos de ex-cafre ou colocador de fotos em traição e etecetera. Vês o feitio, o nunca esquecer e menos perdoar, o desejar sempre o dobro, em "carinho" claro, do que me desejam.

Mas pensei, mesmo fora do computador, nas minhas voltas e reviravoltas no tempo entre isto e aquilo e, sem me meter na edição e menos ainda na linha orientadora do blogue, penso ser conveniente abrir um dossiê colonização/descolonização.
É tema abrangente, de abordagem com vários angulos, dificil, quiça fracturante. Certo é que está aberta. Certo é que em dois ou três postes levantou uma enorme quantidade de informação, de questões quase ou mesmo escondidas de nossa história recente (sabiam claro... e muito ...). Recente mas longa de cinco séculos; esta, esta pequena ou grande(?) parte já dá para preencher muito, mesmo muito de um dossiê. Temer? Mas temer o quê e porquê? "Não se abriu nenhuma caixa de pandora"... ou abriu? Claro que não.

Reparem vocês meus caros Camaradas o dossiê Guiledje. Com todo o respeito que me merece(m) o(s) trabalho(s), não pode, em certa medida ser visto como propaganda ao PAIGC? Porque foi escolhido o local, porque... porque ou porquê e há sempre um porquê! Deixemos isso e voltema ao tema: colonizar/descolonizar.

O José Brás escreveu um escrito - P5572 "A guerra Colonial e o Sentido da História" que mereceu vários comentários. Ainda lhe devo uma resposta a um mail que ele teve a amabilidade de me enviar. Depois aparece o José Belo levanta, creio que quatro questões e vai bater em cheio na Descolonização - P5660 que tem vários comentários e um escrito resposta do José Brás - P5665 com comentários e o José Belo no P5667 trata da Reunião do MFA em Tancos e tem vários comentários também. Maravilha, que maravilha e saudades.

São homens que, além de escreverem bem, sabem do que falam, viveram os acontecimentos e podem descrevê-los... então não dará um belo (perdoa a redundância com teu nome José Belo) dossiê, extremamente importante e clarificador. Escreva-se tudo e, partindo do princípio elementar que a verdade é uma sómente, contudo, encontrá-la exige trabalho, análise, controvérsia, respeito pela diversidade opinativa... e mais... muito mais.....

Um simples mail vai dar em escrito enorme.
Sabia ser maior que comentário, mas tanto não. Gostava que os Josés Belo e Brás recebessem. Podem contudo, como é hábito entre nós, fazer dele o que entenderem.

Vou sair e nada mais digo. As pressas... e a vida a ser, em mais um dia de menos um dia... nas sucessivas vinte e quatro horas que passam... e by-passado... depois entendi e ri...

Não revejo e emendem se assim entenderem e lerem claro.
Digam se foi recepcionado. Abraços do Torcato

Torcato Mendonça
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 14 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5643: Memória dos lugares (68): Os militares eram uns tipos do caraças (Torcato Mendonça, CART 2339, Mansambo, 1968/69)

Vd. último poste da série de 23 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5696: Controvérsias (61): Ser ou não ser (português), eis a questão (José Brás)

Guiné 63/74 - P5696: Controvérsias (61): Ser ou não ser (português), eis a questão (José Brás)

1. Mensagem do nosso camarada José Brás, (ex-Fur Mil da CCAÇ 1622 (Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68), com data de 16 de Janeiro de 2010:

Carlos, meu amigo
Aqui vai mais uma, não necessariamente para editar e se for, quando o entenderes
Um abraço
José Brás


E QUE TÍTULO HEI-DE PÔR NISTO?

Dizia Brecht que... desgraçado do país que tem necessidade de heróis.

Dizia ele e concordo eu, não apenas porque o tenha como homem sábio, que sem dúvida era, mas porque também eu me sinto com direito a opinião, ainda que não opinião de construção original, escarrada em palavras novas, ou pelo menos juntas assim pela primeira vez, querendo dizer o que disse Brecht e que quero eu dizer porque concordo.

Claro que poderia dizê-lo de maneira diferente, com outro palavrar, porque creio de crer firme que a humanidade não careceria nem de heróis nem de santos se homem o fossemos de verdade, se homem fosse criado à imagem de deus, como se diz, buscando um ideal elevado, de mãos dadas à volta do mundo, cada um irmão de outro, de outros, e de outros, em cadeia aberta e sem fim à vista, ou, pelo menos, primo ainda que afastado, esclarecido de que ninguém pediu para nascer mas, nascendo, nasce com direito total à vida e à esperança.

Mas não digo assim porque dizê-lo assim, ou de outro modo complicado, não apenas dá o trabalho de juntar as palavras mas obriga a pensá-las e ainda antes delas, a pensar mesmo, de pensamento engendrado, a tirar da cabeça ideias arrumadas em gavetas que melhor é nem abrir.

Porém, tendo já dito e não podendo voltar atrás, e sabendo eu como ferve o sangue nas artérias dos meus amigos da sina africana, quando alguém parece pôr em causa a sua dádiva generosa em nome daquilo em que acreditavam, uns muito, outros menos, outros mesmo que nada mas presos de uma espécie de solidariedade que nascia da sua crença de que nação e país eram apenas os vizinhos, os amigos, os da matriz social, cultural e histórica igual e que sendo eles ceifados não lhes cabia direito de se negarem à ceifa, ainda que muito lhes custasse ceifar em seara alheia.

Mas direi que se estou de acordo com o Berthold, é apenas porque sei de certeza certa que quando ele disse o que disse, não o disse por pouca coisa, quer dizer, para negar a grandeza do heroísmo, daquele heroísmo que leva um homem a arriscar a vida para espantar invasores da sua morança; daquele que dá forças para tirar à morte um amigo em risco, ou que nem amigo, mas conhecido, vizinho apenas, desconhecido que seja, mas ser humano; daquele de um homem ou de um pequeno grupo que expõe a única coisa que pessoalmente tem, a vida, em acções que empurram o mundo em frente, representando desse modo a própria humanidade; ou do que se assume sem a razão fundamental mas na crença de que a temos.

E nós, portugueses, nascemos, crescemos e esperamos morrer, seja lá aonde for, cidadãos de um País desgraçado porque tem o tempo cheio de heróis. Os verdadeiros, os que sulcaram mares, alargaram a geografia da Terra, descobriram coisas novas de que nem suspeitávamos, inventaram instrumentos e meios, contribuíram de forma superior para um entendimento maior e mais profundo sobre o homem, sobre o seu sonho e sobre a sua tragédia. E os outros, os que ficaram heróis apenas porque tendo nascido onde nasceram, quase nem podiam ser outra coisa senão heróis, de vontade própria porque crentes nos valores que os fizeram, a contra-gosto, outros, mas decididos.

Não creio que Brecht quisesse negar o herói em si próprio, no seu valor, na sua decisão de ir até ao extremo da dádiva em nome daquilo em que acredita, ainda que aquilo em que acredita, seja apenas a obrigação de cumprir um dever colectivo a que nenhum concidadão se deva furtar.
Brecht não aceitava a monstruosidade da fera que cresceu em seu tempo e no seu próprio berço, ainda que gerasse gente capaz de se imolar na ideia que lhes enchia a vida.

E dizendo isto, assim, nem parece necessário pôr mais na carta porque ninguém ignora o que nela ficaria dito, se mais dissesse.
Portugal não tem gente dessa. Ou pelo menos, se teve em tempos, gente acolitada em torno do ódio, da repressão assustadora, da ideia da penitência extrema, da necessidade da dor e do sofrimento, se teve, foi em tempos outros, na sombra dos restos de feudalismo que o Renascimento só mais tarde varreria e que, hoje, todos repudiamos horrorizados.

O que fizemos no mundo, tomado no seu balanço global, não nos envergonha como povo, antes pelo contrário, tentando entender a fatalidade do sacrifício e do feito, individual ou de grupo, como necessidade absoluta do mundo para saltar em frente, nos dá a certeza de que fomos grandes na contribuição trágica e heróica que demos no passado ao futuro que nos é presente.

A guerra colonial!

Da guerra colonial não acrescentarei nada ao que já disse antes e confirmo agora. Éramos o que éramos, filhos de um País com uma história que, como todas as histórias, se interpreta de um modo ou de outro, conforme o dono da verdade transitória.

Tínhamos os olhos em heróis e mártires do passado que nos diziam desígnio nacional quase divino, quase ordem de um deus que nos davam ao contrário, não como consequência dessa necessidade humana e global de melhorar o mundo, mas como valentia musculada e portadora de superioridades raciais.
Mais nos falaram de bravos que de trovadores; de guerreiros que humanistas; de homens de armas que de poetas. No entanto, enchemos o tempo e oferecemos ao mundo, de uns e de outros.

A História da América Latina está cheia dos sangue dos povos anteriores e posteriores a Colombo, mas falavam mais castelhano e se chamavam Cortez ou Pizarro ou Balboa ou Orellana ou Valdívia ou Ponce de Leon os autores dos massacres, e não Antónios ou Joaquins de qualquer coisa.
Ocupámos, sim, na prática da época que mais ouvia a palavra domínio que sermões aos peixes. Mas nem ladrões, nem torturadores fomos, senão na emergência de necessidades de sobreviver.

Os colonizadores que ocuparam as terras descobertas, não eram senão colonizados.

O saque em África e na América Latina, não fomos nós que o fizemos e do que trazíamos nos deixávamos espoliar no mar pela pirataria inglesa e holandesa ou em negócios parvos da nossa elite analfabeta.

Como homens em armas, pelo menos, estamos limpos dessa prática de massacrar, tão própria de outros povos, mesmo europeus e actuais. Lutámos, apenas.

Poucas vezes encontrei tão claramente e em tão poucas palavras discurso que definisse "português" como em "Eva Luna" faz Isabel Allende. "Tenia doce años cuando conoció al hombre da las gallinas, un portugués tostado por la intemperie, duro y seco por fuera, lleno de risa por dentro. Sus aves merodeaban devorando todo objeto reluciente encontrado a su paso, para que más tarde su amo les abriera el buche de un navajazo y cosechara algunos granos de oro, insuficientes para enriquecerlo, pero bastantes para alimentar sus ilusiones. Una mañana, el portugués divisó a esa niña de piel blanca con un incendio en la cabeza, la falda recogida y las piernas sumergidas en el pantano y creyó padecer de otro ataque de fiebre intermitente. Lanzó un silbido de sorpresa, que sonó como la orden de poner en marcha a un caballo. El llamado cruzó el espacio, ella levantó la cara, sus miradas se encontraron y ambos sonrieron del mismo modo. Desde ese dia se juntaban con frecuencia, él para contemplarla deslumbrado y ella para aprender a cantar canciones de Portugal".

Amamos aquela gente contra quem combatemos. Abraçamo-los quando os encontramos e queremos para eles o melhor do mundo, não por remorso, não com saudade, não com vontade de voltar ao que fomos, sinceramente como irmãos que poderíamos ter sido e que poderemos ser agora e no futuro.
Se o merecermos nos chefes que, à vez, nos calharem.
Bem-aventurados sejamos, então

José Brás
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 9 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5618: Bibliografia de uma guerra (54): 30 anos de guerra colonial (José Brás)

Vd. último poste da série de 17 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5482: Controvérsias (60): Ainda as afirmações de Lobo Antunes e os apoios sociais atribuídos aos ex-combatentes (Arménio Santos)

Guiné 63/74 - P5695: Em busca de... (112): Neusa Danho procura amigos de seu pai, o 2.º Srgt Mil Cristóvão dos Santos (Paulo Santiago)

1. O nosso Camarada Paulo Santiago (ex-Alf Mil At Inf do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72), enviou-nos a seguinte mensagem, com data de 22 de Janeiro de 2010:

PROCURAM-SE INFORMAÇÕES SOBRE

Camaradas,

Como devem saber, uma guineense, Neusa Danho, colocou há umas semanas um comentário num poste que escrevi em 2007, no qual evocava todos os militares que me acompanharam no PEL CAÇ NAT 53, entre eles o 1º Cabo Cristovão Mantudo dos Santos.

O pai da Neusa, já falecido, foi militar no Exército Português onde atingiu o posto de 2º Sarg. Mil. e chamava-se Cristovão dos Santos, e daí a Neusa querer saber se o Cristóvão que comandei seria o pai dela, do qual me indicava o NIM.

Foi através do NIM que concluí que o 1º Cabo do 53 não podia ser o progenitor da Neusa, o que transmiti na caixa de comentários. Em posterior comentário, a Neusa informava-me, após conversa com a mãe, que vive em Portugal, ficar a saber que o Cristóvão Mantudo dos Santos, 1º Cabo do PEL CAÇ NAT 53 era primo do pai, tendo crescido juntos e sido educados pelo avô paterno dela, e indicava-me o contacto em Bissau.

Abreviando, a Neusa quer encontrar alguém que tenha estado com o pai dela nalguma das unidades por onde passou, e que são por esta ordem: EPC, Centro de Instrução de Sargentos Milicianos (isto deverá ser em Tavira, será?), EPI, CCAÇ 3, e por último a CCS do QG do CTIG.

Numa troca de e-mail's fiquei a saber que o Cristóvão dos Santos foi incorporado em 1966, e hoje recebi da Neusa umas fotos do pai, das quais anexo duas.

Seria excelente aparecer um camarada que se recordasse do Fur Mil, depois 2º Sarg Mil Cristovão dos Santos, que tivesse estado com ele na CCAÇ 3 ou na CCS do QG. A Neusa, vive em Bissau, empresária, fica agradecida.

P.S. - As fotos não estão datadas nem têm indicação do local onde foram tiradas.

Um abraço,
Paulo Santiago
Alf Mil At Inf do Pel Caç Nat 53

Emblema de colecção: © Carlos Coutinho (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

(*) Vd. também sobre esta matéria o poste:


(*) Vd. último poste da série em:


Guiné 63/74 - P5694: Histórias de José Marques Ferreira (14): O macho desejado


1. O nosso Camarada José Marques Ferreira, ex-Sold. Apontador de Armas Pesadas da CCAÇ 462, Ingoré - 1963/65 -, enviou-nos com data de 22 de Janeiro de 2010, a seguinte mensagem:

Camaradas,

Não me ausentei, nem abandonei a Tabanca Grande... Apenas andei "distraído" com outras coisas, não me deu oportunidade de aqui poder "estar" mais frequentemente com a colaboração a que me comprometi, enquanto posso e houver motivos.

Pressinto que estarei desculpabilizado e, com votos de boa saúde para toda a gente deste «local», aqui envio uma pequena estória, de Ramiro Fernandes Figueiredo, que foi médico da CCaç 462, em 1963-1965, em Ingoré e outras localidades por onde passamos. Pequena e singela, apenas produzindo uma amostra da sombria vida daquele povo Guineense. É isto o que o seu conteúdo pretende "mostrar".


O MACHO DESEJADO


Velho nas giras balantas, de coxas musculosas – mas já flácidas -, mascando o tabaco em pó, guardado em pequena extremidade do chifre de uma vaca, barba crescida e já entremeada de laivos prateados, com o chapéu de esteira quadrangular na cabeça, lá estava o velho SAMUD olhando o capim que crescia em alvoroço em bolanha fértil.

Com aquela idade já pouco podia fazer.

Ano após ano esperava em vão o filho que sonhara, sentado no ourique empapado e negro, imaginando-o troncudo e enorme que rasgava a lama fecunda com a precisão de um veterano e o entusiasmo de rapariga em noite de batuque.

A cada sulco, a cada golpe, o velho abanava a cabeça numa aprovação muda e amarga. Acariciava a barba requeimada por anos de cachimbadas apreensivas e sôfregas.

Como lhe tardava a nascer um filho, como ele o desejava! Chuvas e chuvas de canseiras, lavrando e suando; beijando a terra que lhe daria o arroz, na mira de pecúlio para aumentar as cabeças de gado. Trabalhador e honesto jamais aparecera no Posto por furtar uma vaca.

Luas e luas, na época do seco, enganando a fome, fugindo da loja onde a aguardente de cheiro activo e adocicado tentava um santo, para que não se endividasse, para não ter de entregar, na hora da colheita, toda a produção a título de pagamento.

Quantas dores não recalcara, silencioso e grave no dia que lhe roubaram três vacas amarelas e possantes que o seu suor, a sua fome, o seu isolamento haviam pago com moedas de sangue!

Por fim casara. Não tivera de mendigar mulher, de porta em porta requerendo prazos, firmando contratos. Aparecera, um belo dia, com um bom partido. Pudera escolher, fazer-se exigente, impor condições. De nada lhe servira.

Ano após ano esperava em vão o filho que sonhara. Nem o jambacosse, nem as viagens que a mulher, só, de povoação em povoação fizera, nem os mèzinhos, nem as sovas, nem as pragas.

NADA!

Vezes sem conta arrumara as alfaias e as esteiras, pronto para a mudança de terra, mas aquelas bolanhas férteis e negras, incansáveis, agarraram-no sempre, e sempre o acorrentaram à grilheta eterna.

Arranjara outra mulher. Desta vez, porém, pagara-a bem paga – que a notícia da esterilidade correra toda a Administração de Posto e lhe assacaram a culpa. Trouxera-a mimada, enchera-a de panos e lenços, de aguardente e tabaco. Fechara os olhos, complacente, à sua malandrice. E não ouvira – nunca as pragas e as queixas, as revoltas espectaculosas que a primeira fazia, em gritos furiosos que toda a povoação escutava.

Um filho. Ele mais não queria que um filho, um macho valente que juntasse aos seus braços novos músculos, aos arados novas mãos. E o filho tardara. Sofreu a injúria das piadas mordazes, a afronta dos desrespeitos, a dor de novos roubos – que homem sozinho é arado sem cabo.

Pedira apoio, gritara, ameaçara. Naté, aquele porco que deixou a mulher morrer no mato, depois de partir, empunhara o terçado quando lhe pediu ajuda e fizera-o calar. Estava bêbado o cão!
Tudo passava pelo seu espírito, sentia-se só, muito só e tristonho. DAVATAMBE, ainda a resfolgar, sem fôlego, borracho como um porco dissera a contorcer-se num riso rouco ao passar junto do velho SAMUD: - “Então a tua Cumba não fica prenhada?!...”

Samud emudecera. Como aquele cretino adivinhara o que pensava! E, aumentava a sua dor que mastigava e engolia silencioso. Rolou-lhe uma lágrima pelo rosto e olhou distante até aos confins do capim selvagem que lhe invadia as terras da bolanha outrora férteis.

E ali ficou parado e mudo, olhando estupidamente para a água muito clara, para a canoa encalhada, para a sua Cumba que se aproximava indiferente e sorna.

“OKEY”
Pseudónimo de Ramiro Fernandes Figueiredo
Ex. Alf Mil Médico da CCaç 462
Guiné – Ingoré, 11 de Abril de 1964
Um conto integrado no «Jornal da Caserna» (nº 5)
Periódico daquela Companhia

Cumprimentos a todos sem excepção,
J.M. Ferreira
Sold Ap Armas Pes
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Nota de M.R.:

(*) Vd. último poste da série em:


Guiné 63/74 - P5693: Da Suécia com saudade (20): Um Lusitano entre as...renas

1. Mensagem do José Belo, com data de 16 do corrente... (José Belo, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref, vive em Kiruna, no norte da Suécia, próximo do Círculo Polar Ártico; é um dos membros da nossa Tabanca Grande de quem se pode dizer apropriadamente que faz parte da diáspora lusitana) (*)



Assunto - Um Lusitano entre as...renas.


Caro Camarada:

Quero agradecer sinceramente as palavras AMIGAS que Te deste ao trabalho de escrever aquando do lançamento, prematuríssimo , pois muito de técnico há a completar, da Tabanca da Lapónia (**). Tudo mais não é que uma das minhas "fugas" através do humor que me vão ajudando a vencer isolamentos, saudades, e um clima dificil de um Lusitano aguentar durante décadas sem complementar outros...."apanhamentos guinéus"!

Recebi muitos E-Mails amigos de Camaradas da Tabanca Grande, mesmo de alguns dos quais terá havido "piropos" trocados, anteriormente, em comentários divergentes.Mais uma vez vem demonstrar que o que nos une através das experiências comuns passadas na Guiné acaba por ser mais forte do que outros.....promenores de percursos.

O verdadeiro "poema culinário açoreano" num dos comentários é genial na sua simplicidade,ao mesmo tempo que tanto dos Açores consegue compartilhar.Esta procura de imitar "Infantadas Henriquinas" ao colocar um "Padrão Cibernético Lusitano"...na Lapónia com a humilde tabanca local, talvez tivesse sido muito bem compreendida por Ruy Belo quando escreveu:

Sem casas não haveria ruas,
as ruas onde passamos pelos outros,
mas, e principalmente, onde passamos por nós!

Fosses para onde fosses,
foste decerto para o País
de onde, afinal, eras.

No frio de Março,
no calor de Agosto,
nos dias de hoje ou nos tempos antigos....
tivesse eu uma casa,
tu passarias à minha porta!

[Citação de cor]

Um grande abraço do José Belo.

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Notas de L.G.:

(*) Vd. último poste da série > 17 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5667: Da Suécia com saudade (17): Intervenção do Capitão Azevedo Martins, delegado do MFA de Angola à Assembleia de Tancos (José Belo)

(**) Vd. poste de  14 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5645: Blogues da nossa blogosfera (32): A nova Tabanca da Lapónia, de José Belo, Kiruna, Suécia

Guiné 63/74 - P5692: Notas de leitura (57): Armor Pires Mota (2): Tarrafo, o primeiríssimo relato literário da Guerra da Guiné (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2010:

Queridos amigos,
Junto o primeiro texto sobre a obra do Armor Pires Mota. Para mim foi uma revelação. Espero partilhá-la com todos os camaradas do blogue.

Um abraço do
Mário



Tarrafo, o primeiríssimo relato literário da Guerra da Guiné

Beja Santos

Armor Pires Mota pertenceu à CCAV 488, formado em Estremoz, combateu durante dois anos em Mansabá, ilha do Como, Bissorã e Jumbembem, entre 1963 e 1965. Os seus relatos, à guisa de um diário, foram publicados no quinzenário Jornal da Bairrada, a partir de 1964. Regressado da Guiné, publicou Tarrafo, a colectânea organizada das suas crónicas, que a PIDE prontamente retirou das livrarias, o que não deixa de ser surpreendente, já que tudo, praticamente, era conhecido na imprensa regional. Critérios de quem sabia que a difusão em livro pode funcionar como um vitríolo, um pregão, um porta-estandarte.

Ele chega a Bissau e uma criança dirige-se-lhe: “Branco, parto um peso comigo”. E logo parte para a guerra, os T6 bombardeiam, uma tabanca é reduzida a cinzas. Nos seus relatos cabe todo o corpo da guerra: a nostalgia do que está longe, o capim com dois metros de altura, a descrição do trabalho dos enfermeiros a socorrer os feridos, os repentes da sorte quando um tiro do inimigo esfacela uma coronha, não produzindo ferimento, a acção psico, o bonito crioulo (“Mim cá cume arroz três dias...”), um assalto a um acampamento no Morés, o ajuste de contas com aquele que jogava com um pau de dois bicos, o medo físico como uma doença ou uma bola de fogo que nos devora as entranhas. É ainda uma tropa que leva burros e que usa capacetes.

Tarrafo surpreende, 45 anos depois: pela sinceridade, pelo registo inocente, pela dureza da aprendizagem. E chegamos a Janeiro de 1964, o autor vai viver a batalha do Como, legou-nos páginas densas, emocionantes, estranhamente esquecidas. Por exemplo: “Atravessámos o riacho e o tarrafo, de saco às costas, muito a custo, curvados, e encobertos pela vegetação, quase impotentes e amachucados, porque a viagem fora penosa, difícil. E debaixo de fogo intenso, a rastejarmos, entrámos no objecto... Sinto-me em baixo. A alma pesa-me como chumbo. E causa-me calafrios a morte daqueles dois moços que, ao entardecer, foram encontrados nus. Só lhes deixaram as meias enfiadas nos pés, por algum motivo religioso. De resto, levaram-lhes tudo. Tinham o sexo mutilado, o nariz arrancado e os olhos, e, pelos rasgões espalhados pelo corpo, tudo leva a crer que lutaram corpo a corpo, quando se viram sós e sem munições... Não quero que ninguém fique com a impressão de que este diário é pura ficção nem, tão pouco que me mascarem de valente. Escreverei para mim e não para a eternidade. E aqui estarei para chegar até ao fim”. O autor reza o terço quando rebenta a fuzilaria, estão metidos num cerco em ferradura, o ataque é reprimido, renasce a atmosfera de silêncio enquanto um vento húmido traz o cheiro horrível da carne a apodrecer algures, entrecortado pelos estrondos da artilharia. É uma batalha como não haverá igual, em tudo o que se passou na Guiné, todos se batem, tomam-se posições, derrubam-se acampamentos, regam-se feridos e mortos, há sequências apocalípticas, vive-se permanentemente à espera de um contra-ataque: “Há 40 dias que o mundo para nós é a incerteza da hora seguinte a devorar-nos a fronte atormentada. Há refeições em branco, porque não apetece senão a paz, o regresso. Uma grande parte da tropa está já inoperacional. As semanas são uma eternidade. Até parece que nascemos na tropa, na guerra. Em 1 de Março de 1964, dentro da batalha do Como, Armor Pires Mota faz a seguinte oração:

“Só Tu sabes, Senhor, a minha hora.

Mas tenho medo porque sou homem e tenho o destino de mãos vazias.

Que as minhas mãos não façam correr sangue inocente, mas que não sejam cobardes se for preciso castigar, matar ou morrer.

Mas tenho medo, Senhor!

Tu bem sabes que eu tenho uma mãe que chora e reza a minha ausência e que a saudade chora dentro de mim como uma criança longe dos braços maternos.

Tu sabes que eu tenho sonhos de ouro e espero de olhos azuis no futuro.

Tu sabes que eu tenho um amor na vida de mãos cheias de primavera e cabelo preto, da candidez dos lírios. E Tu bem sabes como dói cair uma rosa no chão só porque não choveu...

E só Tu sabes o segredo da noite: para a vida?, para a morte?

A hora é de luta para vencer ou morrer.

Mas tenho medo sem ser cobarde e tremo todo como cana agitada ao vento.

Espero em Ti.”

A batalha prossegue, sangrenta, com casas da mato a arder, pára-quedistas perdidos, o caos das ordens e contra-ordens. Escreve no seu diário: “Tivemos missa, como antigamente nas manhãs das grandes batalhas. O altar era feito com duas caixas de cerveja e montado por detrás da casa velha a ruir. De tronco nu ou descalços, mas alma cheia de esperança nos desígnios eternos, todos quantos ali estavam confiavam ao Senhor dos Exércitos as suas angústias, as oras más, as vitórias e as derrotas, as saudades da terra e da família, da noiva... Deus desceu à guerra para a paz”.

Armor Pires Mota vai seguir para Jumbembem. Voltaremos proximamente a “Tarrafo” e à obra seguinte, os poemas “Baga-Baga”.

Resta perguntar porquê este silêncio em torno do primeiro repórter combatente, alguém que escreveu a guerra quase em directo, em tom singelo, frugal nas imagens, entregando-nos os seus estados de alma sobre a forma de diário. Porventura houve preconceitos ideológicos, hoje totalmente inexplicáveis, talvez porque o escritor assumisse que fizera esta comissão numa convicção dos destinos da Pátria. Ele foi o primeiro escritor entre nós, devemos-lhe esta guerra quase em directo, no tempo em que se combatia de capacete e se transportavam munições e víveres em burros. Como veremos, a Guiné tem acompanhado a sua obra literária, até ao presente. Armor Pires Mota ofereceu-me a cópia de “Tarrafo” com as marcas do lápis da PIDE. É um exemplar que, cheio de orgulho, entrego ao blogue.

(Continua)
__________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 22 de Janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5687: Notas de leitura (56): Armor Pires Mota (1): Tarrafo e Baga-baga, duas surpresas de um combatente repórter (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5691: Os nossos seres, saberes e lazeres (16): Nascimento da fabulosa Tabanca da Linha (António Graça de Abreu / José Manuel Dinis)

1. Mensagem de António Graça de Abreu (ex-Alf Mil, no CAOP 1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), com data de 16 de Janeiro de 2010:

Hoje, dia 14 de Janeiro de 2010, quinta-feira, foi o nosso dia de criarmos mais uma fabulosa Tabanca. Não éramos propriamente os queques da linha do Estoril, mas nove gloriosos ex-combatentes da Guiné juntos pela primeira vez, na nova Tabanca da Linha, num lugar privilegiado, mas escondido, algures nas bandas altas da Parede. Chocos, assados, legumes, batatinha cozida, um vinho caseiro capaz de encantar os deuses. Almoçámos como príncipes, conhecemo-nos melhor, convivemos, deixámos a marca da fraternidade que nos une.

Eis o nome destes primeiros gloriosos tabanqueiros da Linha:

ex-Alf Mil Rosales (Porto Gole e Bolama),
ex-Fur Mil António Fernandes Marques (Bambadinca, CCaç 12, do Pelotão do Luís Graça),
ex-Fur Mil Rogério Cardoso (Mansoa e Bissorã, CArt 643),
ex-Fur Mil Manuel Domingos, o Gato (Mansoa, CArt 568),
ex-Fur Mil Mário Fitas (Cufar),
ex-Fur Mil José Dinis (Piche, Bajocunda, CCaç 2679),
ex-Fur Mil José Carioca, Gringo de Guileje, (Guileje, CCaç 3477),
ex-Fur Mil Comando José Caetano, (Mansoa, Bedanda, CCaç 4);
e este vosso amigo e servidor,
ex-Alf Mil António Graça de Abreu (Teixeira, Pinto e Cufar, CAOP 1)

(António Graça de Abreu)


Segue-se o texto do nosso incomparável José Dinis

Informo V.Exas. de que, hoje, nesta data, sob o comando do veterano e competente Rosales, aconteceu um encontro refeiçoeiro de antigos combatentes na Guiné, circunstância que pode tornar-se embrião de outros atabancados. Poucos, mas bons, nesta primeira iniciativa de pipis da linha. Não há elementos a destacar, porque todos cumpriram muito bem as missões que lhes competiram, atacando com decisão as entradas de presunto e queijo, mai-las azeitonas bem temperadas, a que se seguiu o assalto aos chocos, acolitados de batatas e uma couves que denotaram bastante portuguesismo. A entusiasmar a tropa, conferindo-lhe determinação e eficácia, o vinho, de proveniência particular, revelou-se bem preparado, ao nível do que de melhor saíu do CIOE. Mas não se deu por satisfeita a força, que ainda batalhou com uma sobremesa de gelado e tarte, bem como esvaziou de conteúdo umas impotentes garrafas de whisky e aguardente.

Numa apreciação breve, pode dizer-se que esta primeira operação de Inverno, promete ter repetição todas as estações do ano, para cabal avaliação e treino do corpo especial agora mobilizado, a que, eventualmente, poderão juntar-se outros combatentes a quem se lhes reconheça espírito de sacrifício e pendor para a luta.

O azimute da querela foi sabiamente guardado até ao momento da acção, e também não serei eu a revelá-lo. Quem quiser habilitar-se, sempre na base do voluntarismo, pode enviar para a minha morada, pelo menos uma garrafa de tinto bem qualificado (nada de aldrabices marteladas), a título de comissão empreendedora, que, seguidamente, os apresentarei ao Exmo. Comandante da Força.

Abraços fraternos
JD

Nas fotos, o Mário Fitas, o Zé Dinis, Graça de Abreu, o Zé Carioca, o Rosales, o Zé Caetano, o Marques, o Rogério, o Manuel Domingos


2. Comentário de CV:

Em primeiro lugar o meu pedido de desculpas pela demora na publicação da notícia do aparecimento de mais uma Tabanca, agora a da "Linha".

Cada nova Tabanca que aparece é sempre um aconteciento importante para a Tabanca Grande. É mais um inequívoco sinal de que, contra ventos e marés, o espírito de camaradagem existente no Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, se multiplica pelo país e por todos os camaradas, idependentemente das suas convicções políticas, religiosas e outras. Desengane-se quem julga ser capaz de derrubar esta muralha, por mais truques que use para o tentar.

Parabéns camaradas da Tabanca da Linha, não parem.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 12 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5454: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (15): Tabanca de Matosinhos, Tertúlia do Cozido à Portuguesa e viva a amizade (Juvenal Amado)

Guiné 63/74 – P5690: Armamento (2): Pistolas, Pistolas-Metralhadoras, Espingardas, Espingardas Automáticas e Metralhadoras Ligeiras (Luís Dias)




1. O nosso Camarada Luís Dias*, ex-Alf Mil At Inf da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872, Dulombi e Galomaro, 1971/74, enviou-nos em 22 de Janeiro de 2010, a segunda mensagem desta série, com a primeira parte desta matéria. No Poste P5682, encontra-se a segunda parte.


Chegastes meninos! Partis Homens!

General António Spínola


O Alf Mil Luís Dias


Dedicado a todos aqueles que como combatentes palmilharam as matas, trilhos, bolanhas, picadas, estradas e rios das terras quentes da Guiné, durante a Guerra Colonial.


E ao II Grupo de Combate da C.CAÇ 3491, os meus dilectos camaradas de armas, de “Alma Forte” - os lenços azuis do Dulombi.


ARMAMENTO E EQUIPAMENTO DAS FORÇAS ARMADAS PORTUGUESAS E DOS GUERRILHEIROS DO PAIGC NA GUERRA COLONIAL

GUINÉ 1971 - 1974

Iª PARTE


1. ARMAMENTO LIGEIRO

1.1 AS PISTOLAS

1.1.1 FORÇAS PORTUGUESAS:

No século XX, o Exército Português, seguindo os padrões ocidentais, trocou o revólver pela pistola, adoptando, primeiramente, em 1908, a pistola Luger, de origem alemã, no calibre 7,65 mm Parabellum e a Marinha, a Luger, no calibre 9 mm Parabellum (ou seja, ao mesmo tempo que foi distribuída ao exército alemão). 

O nosso país volta a adquirir, em 1935, mais pistolas Luger para a GNR, ainda no calibre 7,65 mm Parabellum e, mais tarde, em 1943, volta a comprar, isto em plena II Guerra Mundial, pagando com a exportação de volfrâmio 4 500 pistolas, no calibre 9 mm Parabellum, passando a ser conhecida como: Pistola 9 mm m/943 Luger Parabellum (usualmente chamada apenas de Parabellum), que foi a principal pistola do exército português até aos anos 60.

Durante a I Guerra Mundial, dado estarmos em guerra com a Alemanha e precisarmos de uma pistola para completar o armamento do exército, foi adquirida, em 1915, a pistola m/908, Savage, dos EUA, no calibre 7,65 mm Browning, com o nome de Pistola 7,65 mm m/915 Savage. Esta pistola foi usada em paralelo com a Luger, tendo sido distribuída também à GNR e depois à PSP. Foram retiradas do serviço com a aquisição, em 1961, da pistola Walther P-38 (nalguns teatros de guerra, como Angola, em unidades de cavalaria, continuou a usar-se, em paralelo, a Luger).

As forças portuguesas tinham como pistola regulamentar a PISTOLA WALTHER P-38 (P1).

Walther P-38

A pistola Walther P-38 é uma arma semi-automática, com origem na Alemanha (fábrica Carl Walther), datada originalmente de 1938 e foi a substituta da Luger, como a principal pistola alemã da IIª Guerra Mundial, com provas dadas em diversos teatros de guerra. Em meados dos anos 50, foi seleccionada para equipar o novo Exército da RFA e, com ligeiras alterações, passou a denominar-se P1 e é este modelo que veio para Portugal, passando a ser a pistola das guerras de África.

Características desta arma
  • TIPO: Pistola semiauto
  • PAÍS DE ORIGEM: Alemanha
  • CALIBRE: 9 mm Parabellum
  • DATA DE FABRICO INICIAL: 1938
  • NÚMERO DE ESTRIAS: 6
  • ALCANCE MÁXIMO: 1 600 m
  • ALCANCE ÚTIL: 50 m
  • ALCANCE PRÁTICO: 5 a 10 m
  • PESO: 0, 867 Kg com carregador com 8 munições
  • MUNIÇÂO: 9x19 mm a 8 g
  • ALIMENTAÇÃO: 8 munições num carregador unifilar metálico, colocado no punho da arma.
  • MECANISMO DE SEGURANÇA: Fecho de segurança lateral com imobilização do percutor e imobilização do desarmador.
  • FUNCIONAMENTO: Arma de tiro semi-automático com curto recuo do cano e de acção dupla.

1.1.2 FORÇAS DO PAIGC

A pistola usada pelas forças de guerrilha do PAIGC era, principalmente, a TOKAREV TT-33.

Tokarev TT-33


A pistola Tula Tokarev TT-33 surgiu na URSS, baseada no desenho da Colt-Browning e foi a pistola das forças da União Soviética durante a IIª Guerra Mundial, vindo posteriormente a ser fabricada pelos países do Pacto de Varsóvia e pela China até ser substituída pela Makarov, no calibre 9 mm Mk.

Características desta arma
  • TIPO: Pistola semiauto
  • PAÌS DE ORIGEM: URSS, países do Pacto de Varsóvia e China
  • CALIBRE: 7,62 mm Type P
  • DATA DE FABRICO INICIAL: 1933
  • ALCANCE ÚTIL: 50 m
  • ALCANCE PRÁTICO: 5 a 10 m
  • PESO: 0,840 kg com carregador com 8 munições
  • MUNIÇÂO: 7,62x25 mm Tokarev
  • ALIMENTAÇÃO: 8 munições num carregador unifilar colocado no punho.
  • SEGURANÇA: A única segurança é feita pelo cão travado (half-cock) a meio de ser armado.
  • FUNCIONAMENTO: Pistola semi-automática, funcionando por recuo do cano e de acção simples. As forças do PAIGC possuíram ainda pistolas CZ, de origem Checoslovaca, nos calibres 6,35 mm e 7,65 mm.
1.1.3 OBSERVAÇÕES

A pistola Walther P-38, é uma arma de grande qualidade, muito robusta, tendo-se mantido ao serviço das forças armadas portuguesas ao longo de todos estes anos, embora se preveja vir a ser substituída em breve. É uma arma excelente para tiro prático, sendo nitidamente superior, quer no tipo de munição utilizada (9 mm Parabellum), quer no seu funcionamento, à Tokarev que, segundo alguns autores, encravava com alguma facilidade devido a problemas com o carregador. A Walther tem ainda a vantagem de funcionar por acção dupla (rapidez de disparo) ao contrário da Tokarev que funciona unicamente por acção simples.

1.2 AS PISTOLAS-METRALHADORAS

1.2.1 FORÇAS PORTUGUESAS

Portugal terá adquirido em 1928 para o Exército e como primeira pistola-metralhadora a Thompson m/928, de origem EUA, no calibre 11,43 mm, em pequenas quantidades e rapidamente retirada de serviço. A segunda PM foi a Bergmann m/929, de origem alemã, no calibre 7,65 mm, que foi entregue ao Exército e também à GNR, mas o seu tempo de utilidade não foi muito. A terceira pistola-metralhadora foi a Steyr, de origem austríaca, nos modelos m/935, no calibre 11,43 mm e m/942, no calibre 9 mm Parabellum. No após IIª GM, com o início do fabrico da nossa FBP, a Steyr foi retirada do serviço. Outra PM utilizada e que veio para Portugal durante o período da IIª Guerra Mundial (1942) foi a Sten Mk II, de origem britânica, no calibre 9 mm Parabellum, englobada na aquisição dos carros de combate Valentine e nas auto-metralhadoras Humber. Foi usada pela cavalaria para guarnecer as tripulações dos carros de combate e de veículos de reconhecimento blindado e terá ainda sido usada em África, no princípio dos anos 60 e na Índia nos anos 50.

Aquando do início da sublevação em Angola, Portugal adquiriu três modelos de pistolas-metralhadoras, a Vigneron m/961, de origem belga, no calibre 9mm Parabellum, a Sterling m/961, de origem britânica, também no calibre 9 mm Parabellum e ainda a UZI, de origem israelita, no calibre 9 mm Parabellum, esta muito utilizada pelos graduados em África, todas elas em pequenas quantidades e que foram usadas ao mesmo tempo que a FBP.

A Fábrica de Braço de Prata desenvolvera no pós-guerra uma PM do Major de Artilharia, Gonçalves Cardoso, a que dá o nome de FBP m/1948, arma baseada na Schmeisser MP 40 alemã e na M3 americana, no calibre 9 mm Parabellum e apenas a funcionar em tiro automático. A partir do modelo de 1961, a mesma já tem selector de tiro, podendo efectuar tiro semi-automático ou de rajada.

A PISTOLA-METRALHADORA FBP M/961 iria ser a PM mais utilizada na guerra de África.

FBP m/961

Características desta arma
  • TIPO: Pistola-metralhadora
  • PAÍS DE ORIGEM: Portugal
  • CALIBRE: 9 mm Parabellum
  • DATA DE FABRICO INICIAL: 1961
  • ALCANCE EFICAZ: 100 m
  • ALCANCE ÚTIL: 25 a 50 mPESO: 4,020 kg com carregador municiado
  • COMPRIMENTO: 805 mm
  • MUNIÇÂO: 9x19 mm Parabellum a 8 g
  • VELOCIDADE DE SAÍDA DO PROJÉCTIL: 360 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Carregador metálico unifilar com 32 munições
  • SEGURANÇA: Imobilização da culatra
  • FUNCIONAMENTO: Arma de tiro selectivo automático e semi-automático, funcionando por inércia da culatra, na posição aberta
  • CADÊNCIA DE TIRO: 500 tpmA FBP no modelo m/976 já possuía uma manga de refrigeração no cano, tornando-a mais precisa e fácil de controlar no disparo automático.Interessante é dizer-se que a PM FBP possuía uma baioneta, que seria caso único neste tipo de arma.
1.2.2 FORÇAS DO PAIGC

O PAIGC teve vários modelos de pistolas-metralhadoras, de variadas origens, entre elas as PM m/23 e m/25, de origem checa, a Schmeisser MP-38 e MP40, de origem alemã, a Beretta italiana, a Thompson americana, mas aquelas que eram mais utilizados no tempo em apreço eram: a PPSH-41 e a PPS-43.

PPSH-41

“Shpagin”A pistola-metralhadora PPSH-41, concebida por Georgii Shpagin, conhecida pelas nossas forças como a “Costureirinha”, e pelo PAIGC como a “Pachanga”, foi uma das PM mais fabricadas no mundo (mais 6 milhões de exemplares), e largamente utilizada pelo exército soviético na IIª Guerra Mundial. No pós-guerra foi usada nos países satélites, na China, Vietname e nos movimentos de libertação africanos.

Características da arma

  • TIPO: Pistola-metralhadora
  • PAÍS DE ORIGEM: URSS
  • CALIBRE: 7,62 mm Type P
  • DATA DE FABRICO INICIAL: 1941
  • ALCANCE EFICAZ: 200 m
  • ALCANCE PRÁTICO: 25 a 50 m
  • PESO: 5,45 Kg com tambor de 71 munições; 4,30 Kg com carregador de 35 munições
  • COMPRIMENTO: 843 mmMUNIÇÂO: 7,62x25mm Tokarev
  • VELOCIDADE DE SAÍDA DO PROJÉCTIL: 488 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Tambor de 71 munições ou carregador curvo de 35 munições
  • SEGURANÇA: Através de travamento da culatra na posição recuada ou quando fechada.
  • FUNCIONAMENTO: Arma de disparo selectivo de tiro (auto ou semi-auto), funcionando por inércia da culatra, através da posição aberta
  • CADÊNCIA DE TIRO: 900 tpm
Sudaev PPS-43

A pistola-metralhadora Sudaev foi fabricada na II Guerra Mundial pela URSS, com o desenho de Sudaev, entre 1943 e 1946 (perto de 2 milhões de PM), e era uma arma mais compacta que a sua antecedente, sendo distribuída às unidades blindadas e pára-quedistas. Alguns autores afirmam tratar-se da melhor PM da IIª GM. Após a guerra foi exportada para muitos países e foi muito copiada. Era conhecida pelos guerrilheiros como a “decétrin”.

Características da arma
  • TIPO: Pistola-metralhadora
  • PAÍS DE ORIGEM: URSS
  • CALIBRE: 7,62 mm Type P
  • DATA DE FABRICO INICIAL: 1943
  • ALCANCE EFICAZ: 200 m
  • ALCANCE PRÁTICO: 25 a 50 mPESO: 3,67 Kg com o carregador completo
  • COMPRIMENTO: 831 mm
  • MUNIÇÃO: 7,62X25 mm Tokarev
  • VELOCIDADE DE SAÍDA DO PROJÉCTIL: 500 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Carregador curvo com 35 projécteis
  • SEGURANÇA: Colocada à frente do guarda mato, travando a culatra
  • FUNCIONAMENTO: Arma de disparo unicamente automático, funcionando por inércia da culatra, partindo da posição recuada/aberta
  • CADÊNCIA DE TIRO: 500 a 600 tpm
1.2.3 OBSERVAÇÕES

A pistola-metralhadora FBP não era uma arma fiável, porque tinha a mola de soltura do carregador numa posição que poderia fazer com que alguém, mais nervoso, empunhando mal a arma, carregasse na mola inadvertidamente, soltando o carregador e se desse ao gatilho não sairia nenhum projéctil. Por outro lado, o sistema de segurança não era famoso, porque em caso de queda da arma, poderia dar-se o disparo da mesma (aconteceu-me no Dulombi, em que a arma caiu no quarto e efectuou um disparo inadvertido que, felizmente, não teve consequências). Por estas razões, esta arma, no período em apreço, não era muito utilizada em termos operacionais.

A célebre “costureirinha” dava fama ao nome devido ao “seu cantar” muito próprio (elevada cadência de disparos). Era uma arma pesada, com uma munição não muito potente e com problemas de falhas no funcionamento, quando utilizava o tambor, tornando-se incómoda no transporte, face à sua configuração e devido à sua elevada cadência, consumia muitas munições, não sendo também muito precisa.

A Sudaev aparecia em poucas quantidades e era tecnicamente superior à Shpagin, embora só produzisse disparo automático, compensando, contudo, por ter uma cadência bem mais baixa.


Munição 7,62x25 mm Type P/Tokarev, utilizada na pistola TT33 e nas Pistolas-metralhadoras PPSH-41 e PPS-43


Munição 9x19 mm Parabellum ou Luger, utilizada na pistola Walther P-38 e nas pistolas-metralhadoras ao serviço das forças armadas portuguesas.

1.3 AS ESPINGARDAS

1.3.1 FORÇAS PORTUGUESAS

Uma das primeiras espingardas de retro carga que Portugal teve, embora em pequena quantidade foi a Martini, de origem inglesa, no calibre 11,43 mm, que chegou ao nosso país em 1879. Em 1883, o Alferes do Exército, Luís Castro Guedes, terá apresentado à comissão nacional uma espingarda de sua concepção, num sistema semelhante à Martini, mas de mecanismo diferente – A espingarda Castro Guedes, no calibre 8 mm. Em 1886, o processo de fabrico desta arma é suspenso, quando já existiam alguns milhares de espingardas na fábrica Steyr na Áustria. Por troca, o nosso país recebeu a espingarda Kropatschek, no calibre de 8 mm e mais tarde a carabina da mesma marca. Esta arma de repetição iria ser importante nas campanhas de Pacificação em África, na década de 1890. No final do século XIX, princípio do século XX, Portugal adquire a espingarda Mannlicher, de origem austríaca, no calibre 6,5 mm, por ser mais rápida no carregamento que a anterior (recurso a lâmina de recarregamento), que virá a transformar em 1946, na Fábrica de Braço de Prata, para o calibre 5,6 mm e serão usadas para instrução de tiro. Em 1904 o capitão Alberto Vergueiro concebe uma culatra de ferrolho, diferente do da Mauser e que foi adaptada a esta arma (Mauser G-1898), com o nome de Mauser-Vergueiro m/904, no calibre 6,5 mm, mais tarde no calibre 7,9 mm e que foi a arma padrão do Exército, na I Guerra Mundial nos teatros africanos (Angola e Moçambique) e no continente e ilhas, sendo que o Corpo Expedicionário Português em França, usou a espingarda inglesa Lee-Enfield m/MK III, no calibre 7,7 mm. Em 1937, Portugal adopta a Mauser 98K, com o cartucho de 7,9 mm, de origem alemã, com a denominação Mauser m/937, de 7,9 mm, que é considerada a melhor espingarda de repetição jamais fabricada. É uma das principais armas que segue para Angola, no início do conflito, mas é rapidamente substituída pela chegada das espingardas automáticas. Foi, no entanto, distribuída até 1974, às unidades de recrutamento nativo e na Guiné ela estava presente nos reordenamentos constituídos em auto-defesa e existiam algumas nas tropas de quadrícula.


Mauser 98k

Características desta arma
  • TIPO: Espingarda de repetição
  • PAÍS DE ORIGEM: Alemanha
  • CALIBRE: 7,9 mm
  • DATA DE FABRICO INICIAL: 1935
  • NÚMERO DE ESTRIAS: 4
  • ALCANCE MÁXIMO: 4 500 m
  • ALCANCE EFICAZ: 1 500 m
  • PESO: 4 Kg com munições
  • COMPRIMENTO: 1, 10 m
  • MUNIÇÃO: 7,92x35,3 mm Mauser
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 755 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Depósito fixo para 5 munições
  • SEGURANÇA: Imobilização do percutor/cão
  • FUNCIONAMENTO: Arma de retrocarga de tiro de repetição

1.3.2 FORÇAS DO PAIGC

As forças do PAIGC, mantinham ainda em algumas unidades a espingarda de repetição Mosin-Nagant que, nos seus variados modelos (M1891-1910, M1891-1930, M1891-1938 e M1891-1944), já tinha servido em muitas guerras, desde a Guerra Russo/Japonesa, a I Guerra Mundial, passando pela Revolução Soviética, a Guerra Finlo/Russa, IIª Guerra Mundial, Guerra da Coreia e Guerra do Vietname, sendo conhecido por “Vintovka Mosina” (espingarda Mosin), entrando ao serviço do Czar Russo em 1891 e mantendo-se em serviço por mais de 60 anos. Foi inventada pelo Capitão Sergei Mosin e pelo desenhador belga Léon Nagant. O modelo M1891-1930 era muito usado pelos “snipers” russos, em especial os famosos Vasily Grigoryevich Zaitsev e Lyundmila Pavlichenko. Uma das particularidades era a arma possuir uma baioneta retráctil incorporada. Foi fabricada em muitos outros países, como a Finlândia, a ex-Checoslováquia, Polónia, Hungria e China.


Espingarda Mosin-Nagant

Características da arma
  • TIPO: Espingarda/Carabina de repetição
  • ORIGEM: RússiaDATAS: M1891, M1891-1910, M1891-1930, M1891-1938 e M944
  • CALIBRE: 7,62x54 mm R
  • PESO: 3, 9 Kg
  • COMPRIMENTO: 1020 mm
  • MUNIÇÂO: 7,62x54 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÈCTIL: 800 m/s
  • ALIMENTAÇÂO: Depósito fixo de 5 munições
  • FUNCIONAMENTO: Arma de retrocarga de tiro de repetição

Simonov SKS

A URSS, com a experiência que estava a ter na II Guerra Mundial, tinha chegado à conclusão da necessidade da criação de uma arma mais curta que as espingardas que existiam, que pudesse operar mais rapidamente, com mais capacidade de fogo, mas mantendo a mesma eficácia. Iniciaram com a criação da Simonov AVS-36, depois a Tokarev SVT-38 e SVT-40 e perto do fim da guerra surgiu a Simonov SKS, que ainda foi utilizada contra os alemães, embora só em 1949 tenha sido adoptada oficialmente. A arma foi posteriormente substituída pela Kalashnikov, mas continuou a ser fabricada pelos países do Pacto de Varsóvia, China, Vietname e Coreia do Norte (largamente utilizada na Guerra da Coreia) e mais tarde entregue aos movimentos de libertação que operavam em diversos pontos do globo.

Características desta arma
  • TIPO: Espingarda semiautomática
  • PAÍS DE ORIGEM: URSS
  • CALIBRE: 7,62 mm M43
  • DATA DE FABRICO INICIAL: 1945
  • ALCANCE ÚTIL: 400 m
  • PESO: 3,850 Kg
  • COMPRIMENTO: 1, 021 mm
  • MUNIÇÃO: 7,62x39 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 735 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Carregador interno de 10 munições
  • SEGURANÇA: Através de patilha situada no guarda-matoFUNCIONAMENTO: Espingarda semi-automática operando através de tomada de gases.

1.3.3 OBSERVAÇÕES

A espingarda Mauser, embora sendo uma excelente arma, estava deslocada no tipo de guerra que enfrentávamos em África, podendo, eventualmente, ser utilizada como arma de “sniper”, ou em defesa de aquartelamentos.

A Simonov era uma excelente arma, um pouco mais curta que a Mauser e com a vantagem de ser uma a arma que efectuava tiro a tiro automaticamente e possuía um projéctil mais moderno – o mesmo da AK-47. Alguns autores dizem que sofria interrupções de tiro por problemas com o percutor, mas que os modelos mais modernos, em especial a SKS da antiga Jugoslávia, tinham ultrapassado esse problema. Foi muito utilizada nos movimentos guerrilheiros que combatiam as forças portuguesas, em substituição da espingarda Mosin-Nagant (já eram pouco usadas), mas na Guiné, nos anos a que me refiro, a mesma já não se via tanto nas forças do PAIGC, em virtude do aumento da utilização de vários modelos de Kalashnikov.

Os elementos do PAIGC usavam ainda, entre outras, a espingarda semiautomáticaVz52, ou M52, de origem checa, no calibre 7,62x45 mm ou 7,62x39 mm, que ficou famosa por ser a arma preferida do “Che” Guevara.

1.4 AS ESPINGARDAS AUTOMÁTICAS

1.4.1 FORÇAS PORTUGUESAS

A necessidade de obtenção de uma espingarda automática, mais conhecida internacionalmente pela designação de fuzil (ou espingarda) de assalto, só se sentiu em Portugal com o início da luta armada em África, em 1961. Havia o forte imperativo de substituir a velha Mauser por uma arma que efectuasse fogo automático e selectivo, que eram já um importante progresso em relação às espingardas da II Guerra Mundial, na sua maioria em ferrolho.

Perto do final da guerra os alemães conceberam e desenvolveram a mãe de todos os fuzis de assalto modernos – a Stg 44 “Sturmgewehr”, ou MP44 (espingarda de assalto), no calibre 7,9mm Kurtz, capaz de efectuar, tanto fogo semi-automático (tiro a tiro) como fogo automático (em rajada), actuando por meio de acção de gases, mas só terão conseguido fabricar 420 000 armas. Anteriormente, em 1942, já tinham apresentado uma arma – a FG-42, que seria uma das precursoras dos fuzis de assalto (embora já tivesse havido tentativas de outros países de conceberem uma arma deste tipo – a Cei-Rigotti, de origem italiana, a Federov Avtomat, a Simonov AVS e a Tokarev AVT, todas da URSS, a Browning BAR M1918, dos EUA, a FN M30 da Bélgica, etc.), contudo, embora efectuasse quer tiro semi-automático, quer tiro automático, nesta última situação tinha de partir da posição de culatra aberta, à semelhança das pistolas-metralhadoras de então e das metralhadoras ligeiras Depois da guerra, quer os russos, com a sua AK-47, quer os Belgas, com FN-FAL, a Espanha com a CETME e a República Federal Alemã, com a HK G3 e os americanos com a Colt M16, tornaram o novo conceito de arma individual uma realidade, evoluindo da velha Stg 44.

Das observações e avaliações efectuadas às armas propostas – a FN–FAL, de origem belga e a HK G3, cuja origem era a República Federal Alemã, a opção foi pela G3 (dadas as vantagens económicas que a HK ofereceu para o fabrico em Portugal), mas a urgência deste tipo de armas levou a que se adquirissem um lote de Armalite AR-10, de origem EUA, no calibre, 7,62 mm NATO, na Holanda, cerca de 4 800 FN-FAL, no calibre 7,62 mm NATO à Bélgica e outras 15 000 “emprestadas” pela Alemanha, enquanto não arrancasse a produção das G3, e mais 12 500, também “emprestadas” pela África do Sul. Contudo, assim que se começou a receber a HK G3 em quantidades suficientes, as FN foram devolvidas à Alemanha e à África do Sul. As FN-FAL que ficaram foram, essencialmente, entregues a grupos especiais africanos dependentes da PIDE ou a Milícias dependentes do Exército.

Em 1973, quando comandei a instrução de uma Companhia de Milícias no CIMIL de Bambadinca, e já perto do fim da instrução, fomos surpreendidos com a entrega de espingardas FN-FAL às milícias, quando a instrução estava a ser ministrada com as HK G3, obrigando-nos a dar uma instrução de manuseamento desta arma à pressa, pois ela funcionava com algumas diferenças da G3. Embora as armas apresentassem um “ar” de novas, vimos que as mesmas eram recuperadas de outras “guerras”, nomeadamente de Angola. Recordo-me de ter falado com o Major responsável em Bissau pelo armamento e lhe dizer que algumas das armas tinham interrupções de tiro com frequência, afirmando ele que eram “novas” e eu ter retorquido que eram velhas, tinham é sido pintadas de novo, até porque muitas delas tinham ainda marcas nas coronhas, que eram de madeira, feitas à mão, com os dizeres Angola ano tal e tal….

Espingarda de Assalto FN –FAL M/961

A FN FAL (Fusile Automatique Legére) resultou dos estudos da fábrica FN, iniciados em 1946, para um fuzil de assalto que utilizasse a munição 7,92mm Kurtz alemã, mas mais tarde, redimensionaram a arma para o 7,62X51 mm, a munição da NATO, surgindo assim em 1953 a FN-FAL, adoptada em 1955 pelo Canadá como a C1, em 1956 pela Bélgica, em 1957 pelo Reino Unido, como L1A1 e em 1958 pela Aústria, como Stg 58, surgindo também no Brasil, Turquia, África do Sul e Israel. A própria RFA propôs um acordo à FN, para produzirem no seu país a FN como a G1, mas como a FN não aceitou, a RFA adquiriu os direitos da CETME espanhola e apresentou a HK G3, a maior rival da FN-FAL.

Características desta arma
  • TIPO: Espingarda automática
  • PAÍS DE ORIGEM: Bélgica
  • CALIBRE: 7,62 mm NATO
  • NÚMERO DE ESTRIAS: 4
  • DATA DE FABRICO: 1953
  • ALCANCE MÁXIMO: 2000 m
  • ALCANCE ÚTIL: 300 m
  • ALCANCE PRÁCTICO: 100 a 200 m
  • PESO: 4,700 Kg com o carregador de munições cheio
  • COMPRIMENTO: 1,10 m
  • MUNIÇÃO: 7,62x51 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 840 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Carregador metálico de 20 munições
  • SEGURANÇA: Através da patilha de segurança, por imobilização do gatilho
  • FUNCIONAMENTO: Espingarda automática, de tiro selectivo, com tomada de gases num ponto do cano
  • CADÊNCIA DE TIRO: 600/700 t/m
A espingarda automática HK G3 foi a arma de assalto escolhida por Portugal para servir as Forças Armadas Portuguesas, na Guerra Colonial, a partir de 1961. A arma foi adoptada em 1959, pelo exército da RFA, e teve origem num grupo de engenheiros alemães que, no pós-guerra, foram para Espanha e desenharam a espingarda CETME, que foi adoptada pelo Exército Espanhol. A firma Heckler & Koch foi encarregue pelo governo da RFA (que recentemente tinha sido aceite na NATO), de adquirir os direitos da arma e com algumas alterações apresenta a Espingarda 3 (Gewehr 3/G3), no calibre 7,62x51 mm (NATO). A arma foi um sucesso, rivalizando com a FN-FAL, e sendo adquirida por muitos países ocidentais que não tinham optado pela FN. Ao fim de alguns anos estava a ser usada por 60 países e fabricada sob licença em 13, salientando-se a Turquia, Grécia, Noruega, Arábia Saudita, Paquistão, Irão e Portugal.As primeiras armas adquiridas como HK G3 m/961 eram as G3, em coronha e fuste em madeira e as G3A1 com coronha dobrável. Mais tarde, surgiu o modelo m/963, fabricado sob licença pela Fábrica de Braço de Prata, denominadas G3A3, com novo supressor de chama, mira diópter, coronha e fuste em plástico e a G3A4, com coronha rebatível (pára-quedistas).

Esta arma manteve em serviço no Exército Alemão até 1997 e continua ao serviço do Exército Português, esperando-se para breve a sua substituição. Em 1974, as Forças Armadas Portuguesas detinham 298 000 espingardas G3. O facto de estar ao nosso serviço há mais de 40 anos diz tudo deste belíssima arma.

Em cima a Espingarda de Assalto HK G3A3 e em baixo o modelo HK G3A4

Características desta arma
  • TIPO: Espingarda automática
  • PAÍS DE ORIGEM: RFA
  • CALIBRE: 7,62 mm NATO
  • NÚMERO DE ESTRIAS: 4
  • DATA DE FABRICO: 1958
  • ALCANCE MÁXIMO: 2 000 m
  • ALCANCE ÚTIL: 400 m
  • ALCANCE PRÁTICO: Entre 100 e 200 m
  • PESO: 4, 6 Kg com o carregador de munições cheio
  • COMPRIMENTO: 1, 023 m
  • MUNIÇÃO: 7,62X51 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 800 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Carregador metálico de 20 munições
  • SEGURANÇA: Imobilização do mecanismo de disparar
  • FUNCIONAMENTO: Arma automática, de tiro selectivo, por acção de gases na base da culatra
  • CADÊNCIA DE TIRO: 600/650 t/m
1.4.2 FORÇAS DO PAIGC

As forças do PAIGC tinham como espingarda de assalto a Kalashnikov AK-47, nos vários modelos dos países que integravam o bloco soviético, ainda da China e da Coreia do Norte.

A espingarda automática Kalashnikov foi inventada pelo General Mikhail Kalashnikov (na altura sargento), e aprovada para o projéctil 7,62 mm M43, surgindo com o nome de AK-47, adoptada pela URSS como arma oficial das suas forças armadas, em 1949. Foi modificada posteriormente em 1952, ficando como o modelo AK-47/52. Trata-se, sem sombra de dúvida, da arma mais difundida mundialmente, participando em todos os conflitos importantes do pós- IIª Guerra Mundial, em especial emprestando aos movimentos guerrilheiros uma arma que ficará como símbolo de independência. A Avtomat Kalashnikov foi tendo alterações nomeadamente no início dos anos 60, com a AKM (Avtomat Kalashnikov Modernizirovannyj), em 1974 com a AK-74, com alteração para o calibre 5,45 mm e com um supressor totalmente diferente e em finais dos anos 70 surge a AKS-74U, conhecida por surgir em diversas fotos do Bin Laden.

Essencialmente, o modelo mais visto na Guiné era a AK-47 ou AK-47/52, com origem em diversos países do Leste Europeu e da China.

Espingarda de Assalto Kalashnikov AK-47

Características desta arma
  • TIPO: Espingarda automática
  • PAÍS DE ORIGEM: URSS e países do bloco soviético, China e Coreia do Norte
  • CALIBRE: 7,62 mm M43
  • DATA DE FABRICO: 1947
  • ALCANCE MÁXIMO: 1 500 m
  • ALCANCE ÚTIL: 400 m
  • ALCANCE PRÁTICO: 100 m
  • PESO: 4, 8 Kg com o carregador cheio de munições
  • COMPRIMENTO: 870 mm
  • MUNIÇÃO: 7,62X39 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 700 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Carregadores metálicos com 30 munições
  • SEGURANÇA: Imobilização do mecanismo de disparar
  • FUNCIONAMENTO: Arma automática, de tiro selectivo, funcionando por acção de gases num ponto do cano
  • CADÊNCIA DE TIRO: 600 t/m
1.4.3 OBSERVAÇÕES

No meu ponto de vista e em comparação com a FN-FAL, a HK G3 tinha melhor qualidade, não tendo tantas interrupções de tiro quanto a FN, trabalhando melhor nas condições e tratamento que as nossas tropas lhe davam. Algumas pessoas diziam que a FN era melhor, devido ao sistema do aparelho de pontaria, no tiro de precisão, mas eu, posso dizê-lo, efectuei disparos a distâncias muito consideráveis, tendo sempre atingido o alvo com a G3.

Uma das vantagens da FN era; quando terminavam as munições no carregador inserido na arma, a culatra ficava atrás, como na maioria das pistolas, simplificando a operação de introdução de novo carregador e a posterior ida do bloco à frente, introduzindo um novo projéctil na câmara, o que não se passava com a G3. A AK-47 (Aka ou Cala, como seria conhecida entre os guerrilheiros) é uma arma robusta, simples, barata, trabalhando bem em condições de pouca limpeza (o segredo estará nas folgas do seu mecanismo), mais curta que a G3, com o mesmo peso sensivelmente, com mais capacidade de munições no carregador, não tão fiável no tiro de precisão. Tinha um estampido poderoso e peculiar. Possuía uma ergonomia fantástica, que lhe conferia um aspecto aguerrido, muito do agrado de muitas forças militares.

A nossa G3 era uma arma muito grande para o nosso tipo de guerra, era uma arma cara, devido ao sistema dos roletes, mas funcionava muito bem, mesmo em condições difíceis e de pouca limpeza. Tinha um estampido muito forte, conseguindo sobrepor-se ao da Kalashnkov, o que tranquilizava as nossas tropas quando na nossa resposta a um ataque do IN, passávamos a ouvir o “cantar” da G3. A munição da Kalash, não tendo as capacidades da 7,62 mm NATO, em termos de velocidade inicial e poder de perfuração (perfurava em 80%, numa distância a 550 m, uma chapa de aço de 3,5 mm), o seu projéctil produzia, contudo, ferimentos terríveis, devido ao filamento em aço inserido no núcleo da bala, que a desequilibrava quando atingia o corpo humano. Em termos de fogo automático a G3 era mais equilibrada, conseguindo compactar bastantes projécteis na zona seleccionada, enquanto a Kalashnikov, em fogo automático, dispersava mais os impactos, um problema, segundo alguns autores, derivado do supressor que usava e que foi substancialmente melhorado com a AKM e em especial com a AK-74, que dizem ter um dos melhores supressores existentes, proporcionando um melhor equilíbrio na sua utilização.

Um pormenor importante, que revertia a favor da G3, era a forma silenciosa com que movíamos a patilha de segurança, para a posição de fogo (tiro a tiro ou automático), ao contrário da Kalash que fazia um ligeiro ruído, o que no mato podia fazer toda a diferença.

1.5 AS METRALHADORAS LIGEIRAS

1.5.1 FORÇAS PORTUGUESAS

Em 1917, o Corpo Expedicionário Português que vai combater em França, recebe da Inglaterra, a metralhadora ligeira (ML) Lewis, de origem inglesa (embora inventada por um coronel americano), no calibre 7,7 mm e que será a primeira ML do Exército Português. No regresso o CEP trouxe as Lewis que ainda nos finais dos anos 50 eram as metralhadoras usadas em diversas colónias portuguesas. Em 1930, foram adquiridas metralhadoras Madsen, de origem dinamarquesa, no calibre 7,7 mm, que iriam ser as ML de cavalaria, alteradas em 1939 para o calibre 7,9 mm. Ainda em 1931 são adquiridas a ML Vickers-Berthier, denominadas Vickers-Berthier m/931 e m/936, de origem inglesa, no calibre 7,7 mm, destinadas à infantaria e à GNR. A arma nunca foi muito bem vista e nos anos 50 já não estava ao serviço, ao contrário da Lewis. Também em 1938, Portugal adquire à Alemanha, a Dreyse MG13, com a denominação de ML m/938, no calibre 7,9 mm, que se manterá até 1962, especialmente nas colónias portuguesas. Em plena IIª Guerra Mundial, em virtude do Acordo dos Açores, a Inglaterra fornece a Portugal metralhadoras ligeiras Bren m/943, no calibre 7,7 mm, que nos anos 50 serão entregues a unidades de engenharia, artilharia e administração e serão retiradas da primeira linha nos anos 60, com a chegada do cartucho NATO. Ainda em 1943, no âmbito de contrapartidas da venda de volfrâmio à Alemanha, este país fornece-nos a Borsig MG 34, no calibre 7,9 mm, que será denominada por MG 34 Borsig m/944, que será entregue a unidades da metrópole.

A partir dos anos 60, Portugal pretende adquirir uma metralhadora que use o cartucho NATO isto após a adopção da HK G3 como espingarda do exército, já no calibre 7,62 mm NATO. A escolha recaiu na MG42/59, criada pela Alemanha, no calibre 7,62 mm NATO, que terá a denominação de MG42 m/962.

A MG 42, no calibre, 7,9 mm foi fabricada pela Mauser e é considerada a melhor metralhadora ligeira da IIª Guerra Mundial, sendo conhecida entre os aliados pelo seu som inconfundível, como a “ceifadora de Hitler”. Após a guerra e quando se formou o Exército da RFA, em 1958, a MG42, foi recuperada e convertida para o calibre 7,62mm NATO, tornando-se o modelo MG42/59, conhecido como a MG1 e MG2, consoante são armas novas ou feitas de adaptações, fabricado pela Rheinmetall.

A HK teve bastante sucesso com o lançamento da espingarda automática HK G3 e a partir dos mesmos componentes e do desenho de 1961, lançou diversas metralhadoras ligeiras a HK 11, em 1961, a HK 13, em 1963 e a HK 21, em 1965. O Exército Português, com o rebentar da Guerra Colonial, interessou-se por uma ML, que fosse mais leve que a MG42, para ser atribuída às secções de atiradores e a HK 21, foi a escolhida, por ser uma arma que usava 40% dos elementos que compunham a HK G3, com a qual os militares já se identificavam e ainda pela possibilidade, dada pelos alemães, de a pudermos fabricar em Braço de Prata (INDEP), sob licença, a partir de 1967. Assim, em 1968, a tropa portuguesa começou a receber esta metralhadora que, diga-se de passagem, nunca foi uma arma muito bem acolhida.


Metralhadora ligeira MG 42/59


Características da arma
  • TIPO: Metralhadora ligeira
  • PAÍS DE ORIGEM: Alemanha
  • CALIBRE: 7,62 mm NATO
  • DATA DE FABRICO: Originalmente em 1942, alterações e modelo novo em 1959
  • ALCANCE MÁXIMO: 4 000 m
  • ALCANCE EFICAZ: 3 500 m
  • ALCANCE PRÁTICO: 1 200 m
  • PESO: 11, 5 Kg, sem fitas
  • COMPRIMENTO: 1, 225 m
  • MUNIÇÃO: 7,62 X51 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 820 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Por fita carregadora
  • SEGURANÇA: Imobilização do armador e manobrador
  • FUNCIONAMENTO: Arma automática, de tiro selectivo, funcionamento por acção de gases, com curto recuo do cano
  • CADÊNCIA DE TIRO: 1 200 t/m

Metralhadora Ligeira HK 21

Características da arma
  • TIPO: Metralhadora ligeira
  • PAÍS DE ORIGEM: Alemanha
  • CALIBRE: 7,62 mm NATO
  • DATA DE FABRICO: 1965
  • ALCANCE MÁXIMO: 1 200 m
  • PESO: 7, 92 Kg, sem munições
  • COMPRIMENTO: 1, 021 m
  • MUNIÇÃO: 7,62 X 51 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 800 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Por fita carregadora ou por carregador metálico para 20 munições
  • SEGURANÇA: Através da imobilização do armador
  • FUNCIONAMENTO: Arma automática, de tiro selectivo, actuando por acção dos gases.
  • CADÊNCIA DE TIRO: 800 t/m
1.5.2 FORÇAS DO PAIGC

As forças do PAIGC tinham como metralhadoras ligeiras a Degtyarev RPD e a Degtyarev DPM (já menos vista, conhecida no PAIGC como”disco bipé soviético”), produzidas originalmente pela antiga URSS.


Metralhadora ligeira Degtyarev DPM

A metralhadora ligeira Degtyarev DPM teve origem no modelo DP (Degtyarev Pechotny/Degtyarev de Infantaria), desenhada na URSS depois de 1917 e que veio a ser adoptada como ML do Exército Vermelho, em 1927. Em 1943-44 veio a ser modernizada, passando a ser o modelo DPM (modernizirovannyj). Após o fim da IIª Guerra Mundial irá ser substituída, primeiro pela PK-46 e depois pela RPD.

Características desta arma
  • TIPO: Metralhadora ligeira
  • PAÍS DE ORIGEM: URSS
  • CALIBRE: 7,62 mm R
  • DATA DE FABRICO: 1944
  • ALCANCE MÁXIMO:
  • PESO: 11, 3 Kg com o carregador cheio
  • COMPRIMENTO: 1 266 mm
  • MUNIÇÃO: 7,62X54 mm
  • VELOCIDADE INICIALDO PROJÉCTIL:
  • ALIMENTAÇÃO – Carregador circular colocado no topo, com 47 projécteis
  • SEGURANÇA:
  • FUNCIONAMENTO: Arma automática, actuando por gases, com selector de tiro.
  • CADÊNCIA DE TIRO: 600 t/m

Metralhadora Ligeira Degtyarev RPD

A metralhadora ligeira Degtyarev RPD (Ruchnoy Pulemet Degtyarev) foi desenhada a partir de meados dos anos 40, e foi adoptada em 1953 pelo Exército Vermelho, até ser substituída pela Kalashnikov RPK, o que parece ter sido uma má opção, segundo diversos autores. A arma trabalhava unicamente na posição de fogo automático.

Características da arma
  • TIPO: Metralhadora ligeira
  • PAÍS DE ORIGEM: URSS e fabricada também na China
  • CALIBRE: 7,62 mm M43
  • DATA DE FABRICO: 1953
  • PESO: 7, 4 Kg sem munições
  • COMPRIMENTO: 1 037 mm
  • MUNIÇÃO: 7,62X39 mm
  • VELOCIDADE INICIAL DO PROJÉCTIL: 735 m/s
  • ALIMENTAÇÃO: Tambor com fita no seu interior com 100 projécteis.
  • FUNCIONAMENTO: Arma automática, actuando por meio de recuperação de gases, fazendo unicamente tiro automático.
  • CADÊNCIA DE TIRO: 650 t/m

1.5.3 OBSERVAÇÕES

A ML MG42/59-m/962, era, seguramente, a melhor metralhadora ligeira no teatro operacional da Guiné sendo, contudo, a mais pesada e só as unidades pára-quedistas as usavam em pleno. Estavam instaladas em muitos aquartelamentos, para defesa imediata, em reparos especiais. O seu senão, para além do peso, era a sua elevada cadência de tiro, que obrigava ao uso de muitas fitas alimentadoras, que elevavam o seu peso.

A HK-21 era a arma de apoio da maioria das unidades combatentes e cumpria bem o seu papel, se tivesse a ser alimentada por fitas de elos desintegráveis, pois com as normais fitas de ligação de arame, tinham problemas na alimentação (segundo informação prestada pelo camarada José Câmara da CCAÇ 3327, na sua companhia tinham construído tambores para transporte das fitas, à semelhança da RDP, e, muito possivelmente, no sistema utilizado nas HK-11 e HK-13). Era a única ML que funcionava em automático, na posição de culatra fechada. Tinha a vantagem de operar como a G3, sendo fácil a qualquer elemento manobrar com a arma, caso fosse necessário.

Ambas metralhadoras podiam mudar o cano rapidamente, em caso de sobreaquecimento.

A Degtyarev DPM já se encontrava obsoleta, bem como a sua munição. A RPD (conhecida no PAIGC como “bipé checo, bipé pachanca”), era uma ML bastante leve, embora já não utilizada nos países avançados do bloco soviético, cumpria bem a sua missão. O problema de só fazer fogo automático não nos parece importante, dado que as ML foram criadas para esse fim. Dada a leveza da munição em relação à das nossas metralhadoras, existia uma maior dispersão de impactos, do que nas nossas armas. A colocação da fita alimentadora, que apresentava um tratamento envernizado para melhor correr e evitar o enferrujamento, enrolada num tambor, que se fixava à arma, era importante para impedir a entrada de sujidade no sistema operativo da mesma.

Utilizavam ainda a ML Vz52 ou M52, de origem checa (“bipé caudo ou maquessen”), no calibre 7,62mm.


A munição 7,62x39mm M43, utilizada nas espingardas automáticas Kalashnikov M47 e AKM, semiautomática Simonov e Metralhadora Ligeira Degtyarev RPD.



A munição 7,62x51mm NATO, utilizada nas espingardas automáticas HK G3 e FN FAL e metralhadoras ligeiras MG42/59 m/62 e HK 21.

Nota do autor: Na recolha para este trabalho foram coligidos elementos, material e fotos, com a devida vénia, da Wikipédia/Internet; How stuff Works.com; Infantry Weapons of the World, da Brassens, Editor J.L.H. Owen; Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Edição Diário de Notícias; Moderrn Firearms & Ammunition Encyclopedie; Armamento do Exército Português, Vol. I – Armamento Ligeiro, de António José Telo e Mário Álvares, da Prefácio; Armas de Fogo, seus Componentes, Capacidades e o seu Uso pelas Forças Policiais, de Luís Dias (PJ - Maio de 2004) e apontamentos e fotos diversas do próprio autor. Foto do LGF SNEB obtida do blogue do BCP 12 (com as devidas vénias).


Um abraço,
Luís Dias
Alf Mil At Inf da CCAÇ 3491/BCAÇ 3872
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Nota de M.R.:

Vd. o primeiro poste desta série, que contém a segunda parte desta matéria em: