sábado, 11 de setembro de 2010

Guiné 63/74 - P6972: Patronos e Padroeiros (José Martins) (14): C.T.O.E (Centro de Tropas de Operações Especiais) – Nossa Senhora da Conceição

1. O nosso Camarada José Marcelino Martins, (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), enviou-nos mais uma mensagem, com data de 10 de Setembro de 2010, da série “Patronos e Padroeiros do Exército”:
Patronos e Padroeiros do Exército
C.T.O.E (Centro de Tropas de Operações Especiais) – NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

Memorial aos militares da Unidade (Caçadores Especiais, Comandos e Rangers), falecidos nas campanhas de África - C.T.O.E. © Foto José Félix

A Imaculada Conceição, comemorada em 8 de Dezembro, é invocada como Padroeira de muitas organizações. Foi definida como uma festa universal em 1476 pelo Papa Sisto IV. A Imaculada Conceição foi solenemente definida como dogma pelo Papa Pio IX em sua bula Ineffabilis Deus em 8 de Dezembro de 1854.

Nas instalações onde foi criado, em 16 de Abril de 1960, pelo Decreto 42926, o Centro de Instrução de Operações Especiais [hoje, Centro de Tropas de Operações Especiais], existe a Igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição.

Sob a sua invocação, foi criada a Irmandade Militar de Nossa Senhora da Conceição que, após a sua investidura de novos membros, dirigem-se à parada onde, durante as homenagens militares prestadas aos militares caídos no Campo da Honra, rezam a Prece dos militares Rangers:

Dai-nos, Senhor, tudo aquilo que nunca Vos é pedido.

Não Vos pedimos o descanso, nem a tranquilidade do corpo, nem tão pouco a do espírito.

Não Vos pedimos riqueza, nem o êxito e as honrarias, nem sequer o reconhecimento dos homens.

De tudo isto, que insistentemente Vos pedem, talvez quase nada já Vos reste.

Dai-nos, pois, ó Deus, o que ninguém quer, o que todos rejeitam:

A insegurança, a incomodidade, a inquietude, a tormenta e o risco. A vereda estreita e agreste que vai até Vós.

Concedei-nos isto, nós Vos suplicamos, definitivamente, porque a fraqueza, fruto do egoísmo humano que em nós existe, talvez nos tire a coragem de o solicitar de novo.

Dai-nos, Senhor, o que Vos sobra, aquilo que ninguém quer, nem sequer Vos pedem mas, dai-nos, ao mesmo tempo, o valor, a vontade, a força e a fé que temperam a alma do soldado na grandeza da sua servidão.

Por ultimo, Vos rogamos, ó Senhor, por aqueles que, de entre nós, em todos os tempos, caíram no campo da Honra e derramaram o seu sangue pela Independência e Liberdade da Pátria.

Nós Vos pedimos, ó Deus dos Exércitos, que, no Vosso Seio, repousem na paz eterna as almas destes bravos.

(Adaptação feita pelo Tenente Coronel António Cor. Feijó, sobre um tema de uma poesia do General Mac Arthur - C.I.O.E. em Lamego, Junho de 1986)

José Marcelino Martins

Fur Mil Trms da CCAÇ 5

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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

26 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6788: Patronos e Padroeiros (José Martins) (13): Avós - Santa Ana e S. Joaquim

Guiné 63/74 - P6971: Caderno de notas de um Mais Velho (Antº Rosinha) (4): Guerra Colonial : dividir para reinar...Quem dividiu quem?

1. Texto do António Rosinha (, foto à direita,  em Pombal, 2007, por ocasião do nosso II Encontro Nacional):

Se em África havia as divisões naturais étnicas, já as divisões dos países ses com aquelas fronteiras eram absolutamente artificiais.

Mas,  por curiosidade, se repararmos na história, os povos africanos até aceitam geralmente sem constestação aquelas fronteiras.

Pequenas excepções, que não deixa de ser grave, Cabinda e Casamança, isto entre a lusofonia (em Casamança fala-se o crioulo da Guiné, tal qual).

Mas em extensões de fronteiras tão grandes, é de admirar como os africanos aceitam tantas fronteiras tão erradas. Mas até aceitam razoavelmente a divisão geográfica.

Havia ainda mais uma divisão no caso das ex-colónias portuguesas, que era a questão de cor da pele: Brancos, pretos e mulatos. Outros não tinham esse problema: Ex.: Serra Leoa, Congos Belga e Francês, Uganda, Guiné Conacri, etc. Aqui não havia a divisão da côr da pele. (África do Sul e Zimbabué, com Mandela e Mugabe, são casos diferentes de todos).

Mas as divisões entre as etnias em África tambem implicavam divisões territoriais. Nô tchon,  o chão de cada etnia,  era respeitado entre elas. Era tão respeitado o território, que tive pessoalmente um caso em Angola, eu novato não sabia "colonizar", ter que recorrer aos colegas mais velhos, alguns angolanos, para resolver o problema que eu julgava simples, mas não era fácil.

Conto em duas linhas: Como já disse tive uma actividade que foi trabalhar em cartografia; tínhamos que percorrer grandes extensões sem estradas durante dias e semanas, para o que tinhamos a nosso serviço carregadores para equipamento e mantimentos (os contratados de que um dia hei-de escrever, sei que muitos não conheceram).

Para mim, o que era tudo sem fronteiras, para os contratados que nunca tinham saído dos domínios da família e da etnia (eram mamhuilas), não era a mesma coisPrecisava ir para a região do deserto de Moçâmedes (etnia mucubal), e negaram-se a ir e o principal receio, terror mesmo, era a feitiçaria de que seriam vítimas.

Claro que para os colegas mais velhos não era surpresa esta reação, e alguns angolanos com alguns anos de casa já tinham argumentos em termos étnicos e psicológicos para desdramatizar a situação.

Posto isto, parece que seria fácil dividirmos, nós, os tugas, e no caso da Guiné, com Spínola à cabeça, toda a população e pô-la contra Amilcar Cabral e o PAIGC.

Mas, em vez de divisão, não teria havido antes uma coesão maior que a divisão? (coesão para a independência).

E Amilcar Cabral e os dirigentes do PAIGC/PAICV, não teriam obtido exatamente o mesmo resultado? A coesão dos guineenses? (coesão para a independência sem os bormejos ).

Dividir para reinar, assim como unir para reinar, é preciso em primeiro lugar saber falar o dialecto das gentes, se alguém se quiser identificar com o povo e ser aceite em pleno pelo povo. E até o próprio Nino Vieira falava através de intérpretes, e já vimos qual foi o fim. Logo para Amílcar e Spínola, (e Luis Cabral) o sucesso seria ainda mais difícil do que para Nino Vieira.

Qual era a parte em conflito mais fácil de dividir? Precisamente aquela cujo "dialecto" era a língua comum de todas as partes, a língua de Camões. Todos falavam, e bem, principalmente os portugueses que militavam e eram dirigentes máximos no PAIGC, no MPLA e FRELIMO. Esses dirigentes não só tinham esse trunfo, como uma cultura simultaneamente, de África, da metrópole e do mundo em geral.

E não precisavam de intérpretes. Portanto a grande divisão deu-se na sociedade portuguesa.

O primeiro capitão recém-chegado a Angola que me comandou, disse-me de caras que estava alí porque nós, os brancos de Angola, tratavamos mal os pretos. Claro que os brancos diziam que os tropas só queriam comissões e câmbios a 20%.

Mas o vendedor de apartamentos do contentor à minha porta, que esteve em Suzana e São Domingos e Canchungo, tambem ficou com má impressão de um comerciante porque lhe negou um copo de água,  a ele e aos companheiros após uma patrulha.

Os potenciais angolanos simpatizantes do MPLA, que eu conheci,  consideravam-se melhor falantes de português e mais cultos do que a maioria dos beirões, algarvios, etc. Pode haver alguém que duvide desta ideia, mas eu não posso duvidar porque conheci a realidade lá e cá, mesmo quando lá não havia unversidades.

Mais tarde, veio para cá,  e para o Brasil, grande parte dessa gente. Nós vimos durante muitos anos muita gente dessa pelas repartições, televisões, universidades e rádios e futebois e até nos governos e deputados e na literatura. Vieram para cá e para o Brasil e EUA e Canadá, precisamente para fugir a uma guerra internacional importada por aqueles três movimentos para aqueles territórios.

Esses movimentos tinham o direito de importar essa guerra? Era só para expulsar o colon, ou tinham medo dos outros movimentos, reais ou imaginários? UNITA, FNLA, FLING e outros que pudessem aparecer, como apareceu mesmo em Moçambique a RENANO? E o próprio MPLA inventou facções imensamente arriscadas?

As divisões entre os movimentos, e entre as etnias, foi menos conseguida pelos militares e governantes coloniais, do que pelos antagonismos naturais africanos, e pelos antagonismos dos apoios que procuravam.

Os militares portugueses estavam tão divididos como a sociedade, que no caso de Angola um Almirante colocou-se ao lado de um Movimento, e um Ten Cor pôs-se ao lado de outro movimento, com armas e homens e política. E esqueceram a protecção de familias portuguesas e luso-angolanas totalmente indefesas. Claro que,  como sempre, "para aprender como se ganha uma bandeira", é o povo mais simples que paga.

As divisões na sociedade portuguesa durante a guerra do ultramar podem dar muitos postes. Sem falar nos salazarismo/colonialismo, comunismo/capitalismo, leste/oeste, etc.

 A todos os meus cumprimentos,

Antº Rosinha

P.S. - Para publicar se houver oportunidade.

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Nota de L.G.:

Último poste desta série: 7 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6947: Caderno de notas de um Mais Velho (António Rosinha) (3): Lembrando antigos colegas de trabalho, guineenses que ficaram amigos para a vida

Guiné 63/74 - P6970: Ser solidário (86): Solidariedade no Cachéu (Sousa de Castro)


1. O nosso Camarada Sousa de Castro, que foi 1º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, 1971/74, enviou-nos, em 9 de Setembro de 2010, uma mensagem solidária:
Solidariedade no Cachéu
Rotary Clube de Viana deixa obra feita na Guiné-Bissau
Escrito por Ivone Marques
Qui, 09 de Setembro de 2010 00:00


O Rotary Clube de Viana do Castelo acaba de cumprir mais uma etapa da missão que está a desenvolver na Guiné-bissau. Depois de ter sido contemplado com um subsídio de 321 mil dólares da Fundação Rotary Internacional, a missão vianense foi até à localidade de Cachéu onde foram apetrechadas salas de aula, uma maternidade e um centro de saúde e lançada uma rede de distribuição de água potável a toda a localidade, como explica um dos responsáveis desta missão, José Luís Carvalhido da Ponte.

José Luís Carvalhido, da Associação de Cooperação com a Guiné-Bissau que, com o apoio do Rotary de Viana do Castelo, está a desenvolver esta missão na Guiné-Bissau. A Maternidade de Cachéu já deverá estar concluída no final deste ano. Por agora foram já apetrechadas 20 salas de aula, a maternidade e um centro de saúde e levada água potável a toda a localidade. A missão deverá ficar totalmente concluída na primavera do próximo ano.

http://radiogeice.com/geicefm/

Um abraço Amigo,
Sousa de Castro
1º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494/BART 3873
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

9 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6957 Ser solidário (85): Saneamento básico em Bissau: dúvidas de amigos brasileiros

Guiné 63/74 - P6969: Estórias avulsas (42): A minha 2ª grande missão ao serviço do Exército Português (António Barbosa)


1. O nosso Camarada António Barbosa (ex-Alf Mil Op Esp/RANGER do 1º Pelotão da 2.ª CART do BART 6523, Cabuca, 1973/74, enviou-nos em 7 de Setembro mais uma pequena mensagem, marrando-nos um dos períodos que mais o impressionou na tropa (e não só a ele… pois!):
Camaradas,
Estava eu a folhear os meus álbuns de recordações, quando encontrei a minha 2ª grande missão ao serviço do Exército Português.

Digo 2ª, porque a 1ª foi tentar saber ser RANGER, missão esta que consistiu em dar uma recruta no, penso que extinto, G.A.C.A. 3 (Grupo de Artilharia Contra Aeronaves), em Espinho.

Considero-a uma grande missão pois embora na altura fosse um jovem de 21 anos fui incumbido de iniciar a formação de 64 homens, uns tão jovens quanto eu e outros mais velhos.

Alguns deles acompanharam-me até ao R.A.L. 5, em Penafiel, e de seguida para a Guiné.

A todos o meu obrigado por me terem ajudado a crescer em responsabilidade e saber.
Um abraço amigo,
António Barbosa
Alf Mil Op Esp/RANGER da 2.ª CART do BART 6523

Emblema de colecção: © Carlos Coutinho (2010). Direitos reservados.
Fotos: © António Barbosa (2010). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em:

8 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6953: Estórias avulsas (94): A captura do incaracterístico guerrilheiro Malan Mané, no decurso da Op Nada Consta (Salvador Nogueira)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Guiné 63/74 - P6968: História da CCAÇ 2679 (40): Vinte paus por um feitiço (José Manuel M. Dinis)

1. Mensagem José Manuel Matos Dinis* (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), com data de 9 de Setembro de 2010:

Carlos,
Aí vai mais um pedaço sobre os 15 dias que passei em Copá.
Imagino que regressas de férias com a pujança toda para as edições no blogue. Por isso, a minha colaboração.

Um abraço
JD


HISTÓRIA DA CCAÇ 2679 (40)

VINTE "PAUS" POR UM FEITIÇO

Corria a canícula em Copá, aquele destacamento juntinho à fronteira com o Senegal, lá longe, quase no fim do mapa, a noroeste de Canquelifá. As noites, quando calmas, mostravam os milhões de luzes que suspensas no firmamento nos deslumbravam, e quando soprava uma ligeira brisa oriunda de norte, transportava-nos o ruído do comboio que, a muitos quilómetros, atravessava aquele país vizinho na direcção do deserto. Era o reflexo da pureza climática, associada a um modelo plano de relevo.

O dia-a-dia primava pela sorna. Incrivelmente comíamos bem. Carne do lombo e petiscos das miudezas. O resto da carne de cada vaca, o Mamadu, o magarefe que contratei em Bajocunda (e, entretanto, ficou sem a bicicleta algures no território senegalês), vendia-a às populações. Face ao prejuízo, voltei a compensar-lhe o preço do negócio, mas resultava. Por vezes comíamos apenas pão e carne, ou petiscos ricos em tempero para a molhança trigueira. Descansávamos de arroz e dávamos alegrias à gula e ao colesterol desconhecido.

Nesta espécie de paraíso, onde quase não havia ocasião para banhos, nem preocupações concomitantes, quer com a higiene do corpo, quer com a da cozinha, havia quem jurasse estar disposto a ficar ali durante o resto da comissão. Proibi as saídas para a bolanha, que atravessava a fronteira, onde despontava um pretexto suplementar, a caça aos pombos verdes. Mas o perigo era eminente, com a vantagem toda para o IN.

Pouco depois do ataque relatado anteriormente, uma avioneta sobrevoou o aquartelamento e logo se fez à pista. Alguns momentos após chamaram-me, que era o major comandante do COT-1, e estava rodeado por populares. Verifiquei que reclamavam da suspensão da venda de géneros, e queixavam-se de passarem fome. Ao Major dei a explicação da decisão, mas logo de entre os ocupantes do DO-27 destacou-se um tenente de milícias, que me acusou de não gostar da população, e como prova disso referiu que eu já tinha agredido o chefe de tabanca em Tabassi. A coisa ficou negra, subiu de tom o burburinho dos fulas. O major não me pediu qualquer explicação, apesar de as coisas não terem sido como dizia o milícia, e já contei anteriormente. Mas a "psico" tinha disto, e ninguém queria correr riscos em relação à clique de Bissau. O major referiu-me para preparar o saco que no dia seguinte, provavelmente, seria substituído. Troca de paladas, e... bye-bye.

Depois de almoço, mandriava na tabanca do comando, quando o puto que a limpava se me dirigiu e interpelou sobre o acontecido de manhã junto à pista. Mostrou-se cauteloso e solidário, que as pessoas não queriam saber das dificuldades, e exigiam que enquanto houvesse arroz, teria que ser para todos. Depois, mostrou-se preocupado com alguma sanção disciplinar que me afectasse. Devo ter encolhido os ombros, mas já estava engatado com a lengalenga. De imediato perguntou-me se não me importava que chamasse ali um tio conhecedor de feitiços, para que nada de mal me acontecesse. Que sim, viesse lá o tio.

Momentos após, apresentou-se com o tio, um fula magricela, meia-idade, descalço a mostrar os pés calejados de uma vida de andanças, coberto com pedaços de roupa que já tinham tido cor e evidenciavam falta de botões e alguns rasgos. Humilde, disse alguma coisa como que a pedir licença, e entrou. Não falou português, e o puto é que estabelecia traduções sobre os interesses em presença. Quando ele sentiu que eu alinhava, pediu licença para o tio se sentar no chão da tabanca para prosseguir o feitiço.

Sentado a noventa graus, com as pernas estendidas, tirou uma guita ou cordel que tinha no bolso, e estendeu-a de uma mão para o dedo grande de um pé, onde dava a volta e voltava para a mão. Fez assim uma fiada, concluída com um nó bastante dissimulado. Antes de concluir, porém, o puto traduziu que o tio não poderia continuar o seu trabalho benevolente, sem que eu exportulasse vinte paus. Pronto, uma das partes já via o proveito da cerimónia. Seguidamente, dobrou sucessivamente a fiada, de modo a ficar um pequeno novelo, que mandou-me colocar em redor do cinto, como uma presilha. Para concluir e produzir bom efeito, mandou-me pôr em cima de uma pedra, virado para Meca. Eu sabia a direcção da cidade santa, não havia problema. Cumpri escrupulosamente. Pois, se já tinha pago!

Em conclusão: conforme o major ditara, fui substituído pelo Ramalho. O pessoal manifestou-se pesaroso, mas tinha que ser. Depois disso, passaram fome de criar bicho, já que o Mamadu deu às de vila Diogo. Ainda ali permaneceram alguns dias, até regressarem antecipadamente a Bajocunda. Quanto a sanções disciplinares, nicles! Nem, sobre o assunto, alguma vez alguém conversou comigo. Donde, serve de prova este meu testemunho, sobre os poderes desses muitos feiticeiros que zelam pelo interesse do próximo, e exercem os seus místeres quase anonimamente por esse mundo fora.
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Nota de CV:

Vd. poste de 2 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6921: História da CCAÇ 2679 (39): Uma Flagelação (José Manuel M. Dinis)

Guiné 63/74 - P6967: Grito das Transmissões e Escola Prática das Transmissões (José Martins)

1. Mensagem de José Marcelino Martins* (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 8 de Setembro de 2010:

Boa tarde Camaradas
Numa das minhas deslocações ao Arquivo Histórico Militar e, enquanto aguardava a chegada do material requisitado, li na Revista A ALMENARA o Grito das Transmissões que, como Transmissões que fui, me chamou a atenção.
Por este facto aqui deixo o mesmo dedicado, especialmente aos Especialistas desta Arma, que, para não ser um texto reduzido, resolvi ampliá-lo com o historial das Transmissões, assim como com o Brasão da Escola Prática de Transmissões.

Abraço fraterno
José Martins


GRITO DAS TRANSMISSÕES

Na vanguarda, avançamos
O mundo, informamos
O segredo, guardamos
As transmissões, mantemos

Alfa, Bravo, radiações
Bip, bip, TRANSMISSÔES

Revista A ALMENARA [*] – Ano I – nº 01 – 2º Semestre/09 – Pag 52

[*] Almenara – Farol ou facho que se acendia nas torres e castelos, para dar sinal ao longe.


ESCOLA PRÁTICA DE TRANSMISSÕES


ARMAS

Escudo de azul, oito raios de ouro apontados ao meio do chefe, à ponta, aos planos dextro e sinistro, e aos cantões dextro e sinistro do chefe e da ponta, brocante um Castelo do mesmo iluminado e aberto de vermelho, em chefe duas lucernas de ouro, acesas de vermelho e em ponta um livro aberto de ouro.
Elmo Militar de prata, forrado a vermelho, a três quartos para a dextra.
Correia de vermelho perfilada de ouro.
Paquife e Virol de azul e de ouro.
Timbre: Uma garra de leão de prata empunhando seis raios eléctricos de ouro.
Divisa: Num listel de prata, ondulando, sotoposto ao escudo, em letras de estilo elzevir, maiúsculas de negro: «HONRA E VALOR»


Simbologia e Alusão das Peças

O Livro Aberto - representa a instrução.
As Lucernas - a sabedoria.
Os oito Raios Eléctricos com castelo brocante - são o emblema tradicional das tropas de Transmissões.
A Garra de Leão de Prata- alude às armas do Exército.


Os Esmaltes significam:

O Ouro - Nobreza, força.
A Prata - Esperança, eloquência.
O Vermelho - Fogo, ardor bélico.
O Azul - Espaço, lealdade.

© Brasão e texto retirado do Portal do Exército, com a devida vénia.


HISTORIAL DA UNIDADE [**]



Foram criados em 1911, pela Ordem do Exercito Nº 13 – 1ª Série, dois corpos de Engenharia, um no activo, que incluía a 3ª Secção de Telegrafistas de Campanha, e outro na reserva, que veio a ser designado por Regimento de Sapadores Mineiros (RSM).

Pela Ordem do Exército Nº 12 – 1ª Série de 1926, o diversos elementos de tropas de engenharia existentes no Porto e os que pudessem ser transferidos do BSM, foi organizado, na cidade do Porto, o Regimento de Sapadores Mineiros nº 2.

No ano seguinte, o Regimento de Sapadores Mineiros nº 2, pela Ordem do Exército Nº 5 – 1ª Série, passa a designar-se Batalhão de Sapadores Mineiros nº 2 e é integrado no Regimento de Sapadores Mineiros, que fica com sede em Lisboa. Este Batalhão passa a designar-se por 2º Grupo do Regimento de Sapadores Mineiros, de acordo com a Ordem do Exército Nº 7 – 1ª Série, também do ano de 1927.

Treze anos mais tarde, o 2º Grupo do Regimento de Sapadores Mineiros e o 1º Grupo do Regimento de Telegrafistas, ambos sedeados no Porto, dão origem ao Regimento de Engenharia nº 1 (RE 1), de acordo com a Ordem do Exército nº 1 – 1ª Série de 1940 e Ordem de Serviço nº 1 do RE 1, ao reunir nesta unidade todo o material e efectivos.

Portaria Nº 21197 de 26 de Março de 1965, determina que o Regimento de Engenharia nº 1 se passe a designar por Regimento de Transmissões, passando a ser o herdeiro do património histórico e das tradições das unidades suas antecessoras, pela Ordem do Exercito nº 3 - 1ª Série de 31 de Março de 1965.

Em 1 de Fevereiro de 1977, pelo Decreto-lei nº 181/77 e pela Ordem do Exército Nº 5 desse ano, a unidade passa a designar-se por Escola Prática de Transmissões, designação que ainda mantém.

A 10 de Maio de 1993 a unidade é transferida do Aquartelamento do Bom Pastor, também conhecido como o Quartel de Arca d’Água, para as antigas instalações do Regimento de Infantaria do Porto, à Circunvalação, entretanto extinto.


[**] Texto elaborado com recurso ao Portal do Exército, com a devida vénia.

O Padroeiro da Arma de Transmissões é o Arcanjo São Gabriel, enviado por Deus para transmitir a Maria que seria a Mãe de Jesus, tendo sido declarado em 12 de Janeiro de 1951, pelo Papa Pio XII como o Patrono das Telecomunicações, que, pela mesma razão é considerado Patrono da Arma de Transmissões. (Post nº 5423 de 8 de Dezembro de 2009, blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné e no separador Patronos das Forças Armadas, na página Ultramar Terraweb).

José Martins
8 de Setembro de 2010
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de

Guiné 63/74 - P6966: Notas de leitura (148): Transição Democrática na Guiné-Bissau, por Johannes Augel e Carlos Cardoso (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Agosto de 2010:

Queridos amigos,
Este livro sobre a transição democrática na Guiné-Bissau, é obra de dois cientistas sociais, os seus pontos de vista são necessariamente discutíveis, mas até penso que nós todos no blogue aceitamos como pacíficas estas análises, bem distantes do que é hoje a realidade daquele país.

Um abraço do
Mário



A transição democrática na Guiné-Bissau: décadas de 80 e 90

Beja Santos

Dois cientistas sociais, Johannes Augel (sociólogo e historiador) e Carlos Cardoso (filósofo e antropólogo), ambos investigadores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa – INEP, nos anos 90, reflectiram sobre acontecimentos marcantes na Guiné-Bissau, designadamente a passagem do sistema económico de um modelo altamente centralizador sob uma tutela política monolítica para um sistema de economia de mercado sob um figurino multipartidário. Assim nasceu o livro “Transição Democrática na Guiné-Bissau” edição do INEP, Bissau, 1996.

Durante a década de 80, a Guiné-Bissau, tal como o Gana, a Costa do Marfim, o Senegal, e outros países, pediram ajuda ao FMI e ao Banco Mundial. Todos eles se encontravam mergulhados numa profunda crise económica. Os primeiros 15 anos da Guiné-Bissau como país independente caracterizaram-se por um regime autoritário de partido único, com não poucas vezes a violação dos direitos elementares da pessoa humana e uma política económica desastrosa. Em 1983, anunciou-se a vontade de liberalizar que em 1987 a Guiné-Bissau aceitou um Programa de Ajustamento Estrutural - PAE. Previam-se três fases distintas: estabilização económica-financeira; reequilíbrio da economia; desenvolvimento económico autónomo. O PAE não produziu os efeitos esperados. A década de 90, considerou-se mesmo que a situação económica que se estava a viver era resultado da má gestão dos recursos destinados ao desenvolvimento socioeconómico do país. Crescer a dívida externa e agravara-se o fosso entre ricos e pobres. O impacto social da liberalização dos mercados foi brutal. Enquanto uma classe de agricultores privados beneficiou dos primeiros créditos concedidos pelo Banco Mundial e pelo FMI, a pequena burguesia e o campesinato conheceram a pauperização, nomeadamente os funcionários de estado não pertencentes aos escalões superiores da administração, os operários e os trabalhadores do sector informal. O país foi convulsionado pelas greves.

O PAE implicou uma elevada tensão política no PAIGC. No seu IV Congresso, em Novembro de 1986, o PIAGC admitiu que as estruturas socioeconómicas do país tinham que ser alteradas, acompanhadas por reformas políticas. Aí a direcção do PAIGC dividiu-se entre a manutenção do statu quo (o PAIGC devia continuar a ser o motor das transformações e a força política dirigente da sociedade) e aqueles que apelaram ao multipartidarismo. A discussão prolongou-se até 1991, altura em que foram aprovadas medidas importantes para desencadear o processo de abertura: alteração constitucional; decisão de despartidarizar as Forças Armadas e a liberdade associativa, incluindo o direito à livre expressão.

Para se entender melhor esta demora entre a prometida liberalização e a abertura política e económica, os autores debruçam-se sobre as crises do PAIGC. Primeiro, a alegada tentativa de golpe de Estado, em Outubro de 1986, em circunstâncias que estão ainda por esclarecer, em que foram condenados à morte altos dirigentes e militantes do partido, com Paulo Correia à cabeça. Segundo, o aparecimento da Carta dos 121, em 1991, quando o PAIGC se dividiu entre os conservadores e os partidários da mudança. Nesta altura, caminhava-se informalmente para o aparecimento de partidos como o Partido de Renovação Social e o Movimento Bafatá, as duas primeiras importantes forças da oposição guineense. Também neste ponto os autores recordam a singularidade do PAIG: fiel às orientações seguidas nas zonas libertadas, o PAIGC manteve uma estrutura de poder fortemente centralizada; a seguir à independência, os régulos e as estruturas de poder tradicionais foram desprezados, acompanhando-se este processo com a perseguição das forças militares que tinham apoiado a presença portuguesa. A par destes erros de actuação política, a estatização da economia atingiu o delírio, aumentando a escalada da procura de um inimigo interno, sempre à procura de um culpado do afundamento do país. Assim se chegou ao 14 de Novembro de 1980, instaurando-se um regime centralizado no Presidente Nino Vieira. Com o anúncio da liberalização económica e com as crescentes dissidências dentro do PAIGC nasceram o Partido de Renovação e Desenvolvimento e o Partido da Convergência Democrática, bem como a frente democrática social. A FLING – Frente de Luta para a Independência Nacional da Guiné ressuscitou.

E assim tiveram lugar as primeiras eleições livres, na década de 90. A oposição ao PAIGC era jovem, cheia de líderes ambiciosos, na generalidade mal preparados. Não conseguiram uma plataforma de entendimento. O PAIGC conseguiu uma maioria em termos de eleição de deputados à Assembleia Nacional Popular, enquanto João Bernardo Vieira se viu obrigado a disputar a segunda volta com Cumba Ialá, ganhando com uma diferença de apenas 13000 votos. Partidos como a Convergência Democrática, que se previa serem fortes opositores, não o foram. Os autores consideram que os líderes não tiveram em conta que o discurso fogoso desses jovens não foi bem aceite pelos “homens grandes” – eram jovens competentes que não perceberam o funcionamento eleitoral duma sociedade africana tradicional.

O PAIGC foi incapaz de constituir um aparelho de Estado com todos os licenciados de que estava dotado, em 1974, promoveu a hipertrofia do funcionalismo público, tornou-se um oportunista da ajuda internacional, em que os países doadores aprovavam financiamentos sem qualquer vigilância, sobretudo sem qualquer controlo do dinheiro que entrava nos cofres do Estado. Os antigos combatentes, a quem se tinha prometido dignidade, foram marginalizados, não se lhes deu oportunidade para a reciclagem, tornaram-se amargos e até estranhos ao PAIGC. A incapacidade para liberalizar com solidez fomentou de algum modo o tribalismo, isto quando o Estado parecia ir repousar numa grande tolerância religiosa e na miscigenação etno-cultural, conseguindo até superar um preconceito muitas vezes iludido aos cabo-verdianos. Os autores também passam em revista o crescimento desmesurado de Bissau, que acabou por se transformar num devorador de recursos e uma fonte crescente de problemas sociais. Por último, os autores interpelam se o crioulo não deve funcionar como a língua da educação, já que é língua da comunicação e da entidade de todas as etnias.
__________

Nota de CV:

Vd. poste de 9 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6956: Notas de leitura (147): A Tradição da Resistência na Guiné-Bissau (1879-1959), por Peter Karibe Mendy (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P6965: In Memoriam (50): João Baptista (1938-2010), um camarada, um amigo, um irmão (Octávio do Couto Sousa)



Região Autónoma dos Açores > Ilha de São Miguel > Ponta Delgada > 4 de Maio de 2005 > Convívio de antigos combatentes da Guiné... Na fileira dos homens, da direita para a esquerda:  o João Baptista (ex- Fur Mil da CCAÇ 153), o Octávio do Couto Sousa (ex-Fur Mil da CCAÇ 153), o José Maria Ferreira Soares, ex-Cap Mil, já falecido, e o Noé Miranda Soares (, este da CCAÇ 154, que esteve em Buba).

Foto: © Octávio do Couto Sousa (2010). Todos os direitos reservados.

1. Mensagem de  Octávio do Couto Sousa (*)

Data: 11 de Julho de 2010 16:47

 Caro Luís Graça

Prometi preparar algum material para a Tabanca Grande, mas revendo algumas fotos, avanço com esta de há 3 a 4 anos num convívio de ex-combatentes da Guiné, em Ponta delgada. O nosso João Manuel Carreiro Baptista é o último da mesa, estou eu a seguir, seguindo-se o também falecido José Maria Ferreira Soares, ex capitão Miliciano e em primeiro plano o Noé Miranda Soares da CCAÇ 154, professor primário que poderá ser o mesmo a que o Carlos Botelho se refere. As nossas mulheres estão do lado oposto.

Do João manuel não me canso de falar, desde o liceu, separou-nos o espaço de tempo para ele ir para a Paiã, Escola de Práticos Agrícola,  e eu para Évora, Escola de Regentes Agrícolas.

Estivemos sempres juntos no percurso militar de Mafra, Tavira, RI 18 em Ponta Delgada e mobilização para o Ultramar na mesma CCAÇ 153.

Quando faleceu, perdi um irmão, e mesmo agora, não consigo conter a emoção ao escrever estas linhas.

A última vez que falamos estava comigo outro Funlacundense, O David Bettencourt, vague mestre da 153 que vive actualmente no Canadá e na emoção do diálogo o João dizia:
- Vocês que se aguentem!  - como que a despedir-se. 

Fez os tratamentos de quimioterapia com uma esperança muito firme de pelo menos viver mais 5 anos para ainda poder acompanhar a licenciatura em Medicina do seu neto mais velho.

Era uma pessoa muito calada mas com um grande caracter e da amizade que nos unia perco-me a recordá-lo.

Um abraço,

Octávio




Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > CCAÇ 153 (1961/63) > Furriéis na messe de sargentos. Se não erro, o João é o terceiro a contar da esquerda, de pé; e o Octávio é o quarto.

Foto: © João Baptista / Blogue Fulacunda (2009). Todos os direitos reservados. Cortesia da família

2. Comentário de L.G.:

Obrigado ao Octávio por esta emocionada mas justa homenagem ao João... Queremos que ele se junte, em espíríto, à nossa Tabanca Grande. De certo que os seus antigos camaradas da CCAÇ 153 estarão de acordo com esta proposta. Durante anos ele lutou contra o esquecimento (e depois contra a doença que minou o seu corpo). Era um homem discreto, mas persistente e convicto. Leia-se o que ele escreveu em 12 de Janeiro de 2009, no seu blogue:

Resultados da 1ª chamada > No dia 11/01/2009 mais um atendeu à chamada: Albano Gomes da Silva, 1º cabo nº 409/59 da 1º Secção do 1º Pelotão, residente em Espinho e o nº de telefone não é registado porque ainda não tenho autorização para publicar.

Uma nota: o meu blog da 1ª Chamada foi publicado em 2006 e passados que são 2 anos e 4 meses, apareceram as primeiras Chamadas; é caso para dizer que as novas tecnologias não são assim tão rápidas. Não está correcto, o raciocínio deve atender a idade dos que são indicados, salvo rara excepção. São os filhos o veículo de transmissão atendendo que conhecem a história dos pais.

Hoje entendi porque perguntam para quando um convívio da CCAÇ 153; na minha opinião direi que nesta altura é impossível tentar encontrar representação que justifique uma data.(....).

Para o ano, em 27 de Maio de 2011 vão perfazer 50 anos desde que a CCAÇ 153 partiu para Bissau, por via aérea! O João já não vai cá estar fisicamente presente para se reunir com os seus camaradas. Mas ele passou o testemunho a outros, como o Octávio (que está também convidado para ingressar na nossa Tabanca Grande). O nosso blogue poderá ajudá-los a realizar esse pequeno milagre por que tanto ansiava o João. Do Octávio espero entretanto que ele use os seus bons ofícios, junto da família do nosso malogrado camarada, para que nos seja dada autorização para incluir o seu nome na lista alfabética dos membros da nossa Tabanca Grande. Devo acrescentar que o Octávio, hoje reformado, era engenheiro técnico agrícola, tendo trabalhado em Moçambique, e que o seu amigo João era agente técnico agrícola, tendo trabalhado nos serviços agrícolas regionais, na sua ilha natal, São Miguel. (**)

Guiné 63/74 - P6964: Parabéns a você (151): Tony Grilo, Sold. Apontador de Obús 8,8 cm, Cabedu, Cacine e Cameconde, 1966/68 (Editores)


1. O nosso camarada Tony Grilo, que foi Sold. Apontador de Obús 8,8 cm, em Cabedu, Cacine e Cameconde, 1966/68, completa hoje mais um aniversário.
Apresentou-se na nossa Tabanca Grande em Março de 2009, tentando saber notícias do pessoal que passou por Cabedu nesses anos, nomeadamente das: CCAÇ 1427, CART 1614 e BAC [Bateria Anti-Costa]:

“O meu nome é Tony Grilo, cumpri o serviço militar, um ano e meio, em Portugal, e em 1966 fui mobilizado para a Guiné.

Saímos, no dia 31 de Maio de 1966, do cais de Alcântara no navio Alfredo da Silva. A viagem demorou 6 dias, percorremos 3666 milhas marítimas e chegámos no dia 6 de Junho de 1966.

O navio ficou ao largo, à espera do capitão de porto para o rebocar para o cais. E ali também vinham 6 pessoas.

Isto é apenas uma pequena história que sucedeu.

Agora vou contar-te algo mais sobre a minha pessoa!

Estive 24 meses na Guiné, era Apontador do obus 8,8 e a nossa Bateria, estava situada no QG em Bissau.

Estive ali só 2 semanas, pois fui enviado logo para o mato, Cabedu, ao Sul da Guiné, na célebre mata do Cantanhez.

Estive lá longos 18 meses, onde a vida era difícil, muita fome aí passávamos.

Ao fim desse tempo regressei a Bissau.

Como era bom rapaz e o capitão engraçou comigo, disse logo ao Primeiro para me marcar viagem para o mato. O motivo foi por me desenfiar do quartel. Não havendo sítio melhor, fui logo para Cacine e Cameconde, também ao Sul, na área do Cantanhez.

Graça, isto é só um pequeno apontamento, pois agora que tenho o vosso E-Mail, já é mais fácil contar as minhas histórias da passagem pela Guiné.

Actualmente vivo no Canadá, já há 38 anos, estou reformado e estou a pensar regressar ao nosso lindo Portugal em fins de Maio deste ano (2009).”

2. Tony Grilo, independentemente das mensagens e comentários que os nossos Camaradas enviarem e colocarem, futuramente, no local reservado aos mesmos neste poste, em nome do Luís Graça, Carlos Vinhal, Virgínio Briote, Magalhães Ribeiro e demais Camaradas da Grande Tabanca, que por vários motivos não puderem enviar-te as suas mensagens, queremos:
Desejar-te neste teu aniversário os nossos maiores e melhores votos, para que junto da tua querida família sejas muito feliz e que esta data se repita por muitos, bons e férteis anos, plenos de saúde, felicidade e alegria.
E mais te desejamos, que por longas e prósperas décadas, este "aquartelamento" de Camaradas & Amigos da Guiné te possa dedicar mensagens idênticas, às que hoje lerás neste teu poste e no “cantinho” reservado aos comentários.
Estes são os mais sinceros e melhores desejos destes teus Amigos e Camaradas, que, como tu, um dia carregaram uma G3 & outras cargas de trabalhos, embebidos em mil sacrifícios, suor, sangue e lágrimas, por tarrafos, matas e bolanhas da Guiné.
Recebe então da nossa parte montanhas de abraços fraternos.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

10 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6963: Parabéns a você (150): Rui Baptista, ex-Fur Mil da CCAÇ 3489/BCAÇ 3872, Cancolim, 1971/74 (Editores)

Guiné 63/74 - P6963: Parabéns a você (150): Rui Baptista, ex-Fur Mil da CCAÇ 3489/BCAÇ 3872, Cancolim, 1971/74 (Editores)

1. Hoje, 10 de Setembro de 2010, está especialmente de parabéns, por completar mais um ano de vida e entrar no mais famoso clube deste Blogue, o dos SEXA, o nosso camarada Rui Baptista*, ex-Fur Mil da CCAÇ 3489/BCAÇ 3872, Cancolim, 1971/74, a quem vimos desejar um dia muito alegre junto de sua esposa, filhotas e outros familiares e amigos.

Cabe aos editores, em representação da tertúlia, apresentar ao nosso aniversariante os votos colectivos de uma vida longa, plena de saúde, se possível com os que o amam perto de si.

Na expectativa de que pouco mais de meia vida viveste, caro Rui, aqui nos terás por muitos anos, em cada 365 dias, para festejar contigo esta data.

Vamos recordar, com três fotos, momentos significativos da tua passagem pela Guiné.

Na foto de cima estás em pleno gozo de férias num dos bungalows da Estância de Cancolim
Na foto do meio, em Bissau, já muito triste porque estavas a dias de regressar à Metrópole.
Na foto de baixo, vê-se pelos semblantes que estar na Ilha da Madeira, a caminho de Lisboa, não vinha mesmo a calhar.
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 3 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5400: Tabanca Grande (192): Rui Baptista, ex-Fur Mil da CCAÇ 3489/BCAÇ 3872, Cancolim, 1971/74

Vd. último poste da série de 9 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6954: Parabéns a você (149): Nossa amiga tertuliana Filomena Sampaio (Editores)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Guiné 63/74 - P6962: Tabanca Grande (242): Raul Manuel Bivar de Azevedo, ex-Cap Mil (2ª CART do BART 6522 – Susana -, 1972/74)


1. Mais um Camarada se apresenta nesta Tabanca Grande, o Raul Manuel Bivar de Azevedo, que foi Cap Mil da 2ª CART do BART 6522, Susana, 1972/74, que na sua primeira mensagem de 7 de Setembro, enviou as fotografias da praxe, e a promessa de que, brevemente, voltará com mais literatura da evolução operacional da sua companhia e da sua comissão.

Embora tardiamente (são quase 24h00), nesta apresentação, reparamos que o Raul Azevedo completa hoje 67 anos, pelo que, em nome do Luís Graça, seus colaboradores e demais Camaradas tertulianios, aproveitamos esta oportunidade para lhe desejar os maiores votos de longevidade e felicidade, e que esta data se prolongue por muitos e prósperos anos junto da sua querida família e amigos.

Camaradas,
Conforme prometido, no meu e-mail de 31 Julho ao Luís Graça, e como introdução ao meu primeiro contributo ao blogue, passo a descrever sinteticamente alguns dados pessoais e as etapas da minha experiência militar:

Nome: Raul Manuel Bivar de AzevedoNascido em: 09.09.1943
Naturalidade: Faro
Profissão: Engenheiro Electrotécnico (IST), reformado da EDP desde 2008Estado Civil: Casado/4 filhos
Morada: Lisboa

- Incorporação em Julho de 1971,na Escola Prática de Infantaria em Mafra.

- No final do 1º ciclo de instrução fui seleccionado para o CCC (Curso de Comandante de Companhia).

- 2º Ciclo de instrução já integrado no CCC.

- Terminado o 2º ciclo fui destacado para Angola (Dez.71) para estágio operacional, integrado na Cart 3374 sediada no Bom Jesus do Úcua. O estágio durou 4 meses e durante esse período participei em variadas operações, na zona operacional (Dembos). A actividade operacional era intensa e de considerável desgaste físico.

- Terminado o estágio em Angola regressei a Mafra (EPI), para frequentar a parte teórica do CCC já graduado em Tenente Miliciano e que durou cerca de 2 meses.

- Terminado o CCC, fui destacado para o RAL 5, em Penafiel, para dar inicio á formação da 2ª Cart do Bart 6522 com destino à Guiné.

- Formada a Companhia, embarcámos no navio Uíge com destino a Bissau.

- Em Bolama fizemos o IAO durante um mês, com estreia de flagelação no dia da chegada.

- Terminado o IAO, foi destinada à 2ª CART 6522 a zona operacional de Susana no famoso CHÃO FELUPE, rendendo a CCAV 3366.

- Para além da Companhia, tinha o comando do Pelotão de Caçadores Nativos (Pelotão 60), uma Companhia de Milícias Nativos e população armada nas 23 tabancas da área de Susana, com cerca de 1.000 armas (G3 e Mauser) distribuídas.

- Regressámos a Lisboa em Setembro de 1974,após uma parte final, dos 22 meses de comissão, vivida com muita psicologia e equilíbrio, factores que caldearam uma passagem de soberania local emocionada mas serena (arrear definitivamente a Bandeira Portuguesa ao fim de 500 anos é emocionalmente forte). Os variados encontros com os representantes do PAIGC decorreram sempre em clima de respeito mútuo (anexo fotos de encontros com o PAIGC, que em tempo cedi para o livro "Os anos da guerra" do escritor João de Melo).

Tenho muitos relatos e fotos para transmitir e prometo fazê-lo a pouco e pouco e com muito gosto, pois considero importante a memória colectiva que este blogue corporiza. A vivência na área de Susana foi intensa e enriquecedora, pois além da responsabilidade militar e a de apoio humanitário e social à população (cerca de 8.000 Felupes) tinha a escolar e a civil, conforme determinação do Comando Chefe de Bissau.

O Chão Felupe e os Felupes estão e permanecerão para sempre no meu coração como um povo com características nobres, como a coragem, lealdade e amizade, para além de todo o seu património histórico que se perde na noite dos tempos e que desde logo me interessei e que continuo enriquecendo pesquisando a sua história (Djolas, descendentes do antigo império do Mali).

Voltei á Guiné-Bissau em 1997 numa expedição terrestre Portimão - Buba (24 dias de aventura e deslumbramento!). Entrei na Guiné pela fronteira de S. Domingos e feita a picada cheguei a Susana já de noite. Pouco tempo depois estava abraçando um grande amigo e antigo camarada de armas o Cabo Agostinho (Felupe do Pel. 60, meu braço direito local e que me acompanhou sempre durante toda a comissão) e ao qual muito devo do saber e experiência operacional, humana e do conhecimento do mundo Felupe.

Foi um reencontro histórico, carregado de emoção e que jamais esquecerei. Não decorreu muito tempo e vários antigos componentes do Pel. 60 foram aparecendo e todos festejámos o reencontro. Em foto anexa é relatado esse encontro feito por um companheiro da expedição.

A seu tempo relatarei com muito prazer, como antes disse, as minhas memórias na “Felupolândia”, que são muitas, variadas e carregadas de sincero conteúdo humano.

Todos os anos o BART 6522 reúne-se em convívio, sempre em ambiente de alegria e amizade e recordamos as peripécias vividas.

Aproveito para enviar um grande abraço ao António Oliveira Inverno (que comandou o 1º grupo de combate da 2ª CART 6522) e ao Sérgio Faria que comandou a 3ªCART 6522 e que pelo que já constatei entraram na Tabanca Grande.

Por hoje termino.
Até breve, grande abraço e mais uma vez parabéns por esta vossa iniciativa altamente meritória.

Ao modo Felupe… KASSUMAI KAP.


Susana>1974>Com um ancião Felupe
Susana>1974>Encontro com o PAIGC

Susana>1974>Encontro com o PAIGC

Susana>1997>Com alguns elementos do PEL 60, aquando da expedição Portimão - Buba
Reportagem relativa à expedição Portimão - Buba
2. De acordo com o que o Raul Azevedo disse no seu texto, entre a Tertúlia Bloguista encontram-se mais alguns Camaradas do seu batalhão:
- o Ricardo Pereira de Sousa, que foi Alf Mil Op Esp/RANGER da 3ª CART do BART 6522, Sedengal, 1972/74, que nos enviou a sua primeira mensagem em 31 de Agosto. Esteve no CIOE, no 2º turno de 1972;
- o nosso Camarada António Inverno, que também foi Alf Mil Op Esp/RANGER da 1.ª e 2.ª CARTs do BART 6522 e Pel Caç Nat 60 – S. Domingos -, 1972/74. Esteve no CIOE também no 2º turno de 1972;
- No poste P6004 encontra-se informação sobre o Cap Mil Inf Sérgio Matos Marinho de Faria, de quem, do mesmo modo, o António Inverno é amigo pessoal e que foi o comandante da 3.ª Companhia do BART 6522/72, mobilizada pelo RAL 5 (partiu para a Guiné em 7/12/1972 e regressou à Metrópole em 3/9/1974 - Ingoré e Sedengal, na região do Cacheu, a leste de Farim).

3. Amigo e Camarada Raul Manuel Bivar de Azevedo, cumprindo a praxe, em nome do Luís Graça, Carlos Vinhal, Virgínio Briote e demais tertulianos deste blogue, te digo aqui que é sempre com alegria que recebemos notícias de mais um Camarada-de-armas, especialmente, se o mesmo andou fardado por terras da Guiné, entre 1962 e 1974, tenha ele estado no malfadado “ar condicionado” de Bissau, ou no mais recôndito e “confortável” bura… ko de uma bolanha.
Tal como o Luís Graça já referiu inúmeras vezes, em anteriores textos colocados ao longo de perto de sete mil postes no blogue, que todos aqueles que constituíram a geração dos “Últimos Guerreiros do Império”, têm alguma coisa a contar da sua passagem da Guerra do Ultramar, que permaneça para memória futura e colectiva, deste violento e sangrento período da História de Portugal, de que nós fomos protagonistas no terreno, em alguns casos só Deus sabe em que condições o fomos.Foram 12 anos de manutenção de um legado histórico que muitos ignoram e, ou, ostracizam por motivos diversos (cerca de 500 anos de permanência), à custa de muito sacrifício, privação de toda a ordem, dor, sangue, sofrimento, morte… que envolveu a movimentação de mais de meio milhão de portugueses em armas.
Como se não tivesse bastado, muitos de nós continuam a sofrer, pelo menos psicologicamente, nos últimos 36 anos com o modo ostracista e laxista como os políticos portugueses nos tratam.
Nós que, nos nossos 21/22/23 anos, demos o nosso melhor, como podíamos e sabíamos, muitas vezes mal treinados e armados, sabe Deus como alimentados e enfiados em autênticos buracos, construídos no lodo, embebidos em pó, lama, suor, mosquitos, etc., completamente hostis e perigosíssimos, sob vários aspectos, onde, além dos combates com o IN, enfrentávamos as traiçoeiras minas e armadilhas, as doenças a apoquentar-nos (paludismos, disenterias, micoses, etc.) e as nossas naturais angústias e temores, próprios das nossas tenras idades.
Nós até nem temos pedido muito, além de respeito e dignidade, que todos nós merecemos pelo que demos a esta Pátria, queríamos, e continuamos a querer, no mínimo, que os nossos doentes, física e psicologicamente, sejam tratados condigna e adequadamente, e o tratamento e acompanhamento dos mais carenciados e abandonados pela desgraçada “sorte” da vida.
Oferecendo-te então aqui as nossas melhores boas-vindas e ficamos a aguardar que nos contes episódios da tua estadia na Guiné, que ainda recordes (dos locais, das pessoas, seus hábitos e costumes, dos combates, dos convívios, etc.) e, se tiveres mais fotografias daquele tempo, que nos as envies, para as publicarmos.
Recebe pois, para já, o nosso virtual abraço colectivo de boas vindas.
Emblema de colecção: © Carlos Coutinho (2010). Direitos reservados.
Fotos: © Ricardo Pereira de Sousa (2010). Direitos reservados.____________
Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em:
2 de Setembro de 2010 >
Guiné 63/74 - P6925: Tabanca Grande (241): Ricardo Pereira de Sousa, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER (3ª CART do BART 6522 – Sedengal -, 1972/74)

Guiné 63/74 - P6961: Depois da Guiné, à procura de mim (J. Mexia Alves) (11): Tempo presente, tempo de viver

1. Mensagem de Joaquim Mexia Alves*, ex-Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas); Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73, com data de 6 de Setembro de 2010:

Caros camarigos editores
Confesso que já não sei em que série cabem este escrito e mais outro que vos hei-de enviar.
Sei que foram suscitados pela publicação dos outros anteriores e por isso talvez coubessem num título 20 ANOS DEPOS DA GUINÉ À PROCURA DE MIM - O TEMPO PRESENTE
Mas como sempre o critério de publicação, se, quando e como, fica ao vosso encargo.

Um abraço forte e camarigo para todos do
Joaquim


DEPOIS DA GUINÉ, À PROCURA DE MIM

O TEMPO PRESENTE (1)

TEMPO DE VIVER

Corre-me o tempo
por entre os dedos da mão.
Solta-se-me a vida,
num sopro,
num suspiro do coração.
Faz-se-me pensamento,
uma qualquer louca ideia,
trazida por um qualquer vento.
Abre-se-me o sorriso,
talhado por machada aguçada,
sobre os meus lábios fechados.
Encontra-me a paz,
num perfeito,
e prolongado abraço,
porque já pude escrever,
o que me foi no coração,
em noites de não saber,
se me feria o bruto aço,
de recordação magoada,
ou a memória esquecida,
do que não queria esquecer.

Mas será que perceberam,
que eu já andei perdido,
à procura do meu nada,
em noites de terrível insónia,
a suar o já suado
medo que me atormentava,
num tão recente passado,
feito de longas esperas,
atrás de árvores deitado,
de alguém que por ali passasse
apenas para ser “acabado”?

Mas será que entenderam,
as horas amargas passadas,
em matas que não conhecia,
e que nada tinham a ver,
com o Pinhal de Leiria?

Mas será que compreenderam
que coisa medonha é a guerra,
que se agarra ao nosso ser,
toma-nos conta da vida,
faz parte do nosso dormir,
chora-nos quando acordados,
e persegue-nos para sempre,
até nos darmos à terra?

Eu sei que é muito difícil
a quem não viveu assim,
perceber o medo entranhado,
vencido pela coragem,
que mais parece loucura,
do que atitude segura,
que nos imprime uma marca,
tão invisível,
mas presente,
que faz os outros pensarem
o que fez tão louca,
esta gente!

Que linguagem é esta,
que brota dos nossos lábios,
incompreensível aos outros.
As palavras são as mesmas,
mas têm um significado
que só nós podemos entender.
E por vezes,
oh, coisa estranha,
vem misturadas com outras,
palavras “arremedadas”,
dum português africano,
precisas para perceber,
aqueles que connosco estiveram,
lá longe, tão longe,
que já não os podemos ver.

Tens que te adaptar,
força-me a vida,
julgando ser fácil esquecer,
aquilo que não quero lembrar.
Ou talvez queira,
sei lá eu bem,
nesta vida em turbilhão,
em que não me reconheço,
perdido na multidão.

Fecho as mãos,
fecho os dedos,
com força,
até doer,
para que o tempo não escape,
ao tempo que ainda tenho,
e que tenho de viver,
pelo menos numa homenagem,
àqueles que “vi” morrer.

Monte Real, 2 de Agosto de 2010
JMA
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de 2 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6922: Blogoterapia (157): Ai, Timor (J. Mexia Alves)

Vd. último poste da série de 10 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6842: Depois da Guiné, à procura de mim (J. Mexia Alves) (10): Os meus fantasmas

Guiné 63/74 - P6960: Em busca de ... (144): O alferes médico miliciano da CCAÇ 153, Fulacunda, 1961/63 (George Freire)

1. Mensagem do nosso camarada George Freire, que vive nos EUA (e de quem já reproduzidos aqui um notável vídeo dos seus tempos de Guiné, 1961/63):

Data: 10 de Julho de 2010 16:05
Assunto: CCAÇ 153 (Fulacunda, 1961/73)


Caro Luis,


Obrigado pelo interessante e-mail sobre a CCAÇ 153.


Como sabes, embora eu tenha feito parte da organização da companhia em Vila Real com o Cap Curto, (partimos para a Guiné de avião no dia 26 de Maio de 1961), só estive em Fulacunda cerca de 2 ou 3 meses, pois fui promovido a capitão e segui logo para Bissau depois Gabu e depois os últimos 6 meses em Bedanda.


Explorei todas as fotos mas infelizmente ninguem reconheci.


No entanto queria pedir-te um favor. O médico da companhia, (alferes miliciano), cujo nome não me consigo recordar, era um gajo porreiro e criamos uma boa amizade. Seria possível ajudares-me a contactá-lo?


Ele serviu na companhia desde Maio de 1961 a Julho de 1963. Eu deveria saber o seu nome, mas já se passaram 48 anos e a idade não ajuda a memória...


Um abraço,


George Freire

_____________

Nota de L.G.:

(*) Último poste da série > 9 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6959: Em busca de... (143): Pessoal da CCAÇ 153, Fulacunda, 1961/63: João Baptista, Octávio do Couto Sousa, José Teixeira da Silva, José Carreto Curto...

Guiné 63/74 - P6959: Em busca de... (143): Pessoal da CCAÇ 153, Fulacunda, 1961/63: João Baptista, Octávio do Couto Sousa, José Teixeira da Silva, José Carreto Curto...



Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > CCAÇ 153 (1961/63) > 

"Após 45 anos ainda identifico o que está de pé ao centro: furriel miliciano João M C Baptista; naturalmente e para os mais distraídos, da figura só o nome restou até ao dia de hoje. Na altura da desmobilização no RI 13 em Julho de 1963, nas costas de uma foto igual à presente, anotei o nome bem como os endereços de todos, nota que há muito teria facilitado a minha tarefa de contacto mas que desapareceu dos meus arquivos. Será que alguém pode ajudar? (...)  

"O Primeiro pelotão era comandado pelo Alferes Virgolino, Furriéis:  Melo (Ericeira), João Baptista (S. Miguel), José Fernandes" (...).



"CCAÇ 153: Desfilando em Vila Real 30/08/1963.  Reconhece-se o seu comandante à frente do porta bandeira"


Vila Real > CCAÇ 153 > "Missa de acção de Graças,  Agosto de 1963".

Fotos (e legendas): © João Baptista / Blogue Fulacunda (2009). Todos os direitos reservados. Cortesia da família.

1. Mensagem de L.G., dirigida a João Baptista, autor do blogue Fulacunda, com intenção de lhe pedir autorização para reproduzir algumas fotos suas e convidá-lo a ingressar na nossa Tabanca Grande:

Data: 9 de Julho de 2010 12:43

Assunto: CCAÇ 153 (Fulacunda, 1961/63)

 Meu caro João Baptista [ na foto, à esquerda, na recruta, em Mafra, 1959]:

Tento tentado, em vão, ligar para o seu nº  telefone de casa.  Deixei uma mensagem no "voice mail". Tento agora entrar em contacto consigo por esta via. O meu nome é Luís Graça, sou o fundador e um dos editores do maior blogue sobre a guerra colonial na Guiné.

Quero dar-lhe os parabéns pela sua iniciativa de juntar a rapaziada de Fulacunda, através do seu blogue.

Gostaria de poder falar consigo ao telefone sobre os primeiros tempos da guerra e sobre a acção da vossa CCAÇ 153, no sul da Guiné. Um dos camaradas do nosso blogue é o Carlos Cordeiro, que é professor na Universidade dos Açores, fez a guerra de Angola e teve um irmão, capitão pára-quedista, João Cordeiro, que infelizmente morreu lá, de acidente com pára-quedas, em 1974. Vou pedir ao Carlos, também para o contactar, utilizando o seu telefone e eventualmente a sua morada, que está publicitada no seu sítio, na Net (...).

Espero que esteja bem de saúde. Espero que um dia destes falar um com o outro. O Henrique Cabral, autor do blogue Rumo a Fulacunda, ex-Fur Mil da CCAÇ 1420 (1965/67), é também membro do nosso blogue.

Veja no nosso blogue referências à CCAÇ 153 (que eu sei tinha poucos açorianos…):

Um abraço. Luís Graça

2. Na mesma data dei conhecimento do teor da mensagem suprea ao nosso camarada Carlos Cordeiro (bem como ao Henrique Cabral):

Carlos: Vê o que podes saber... O blogue Fulacunda está parado desde 14 de Maio de 2009... Gostava de pedir ao João (sargento reformado, açoriano) autorização para publicar um ou duas fotos... E de falar com ele ao telefone. Tento tentado ligar, já quatro ou cinco vezes, para o nº telefone fixo... Ainda viverá no mesmo sítio ?

Um abraço. Desculpa o abuso. Luís

3. Infelizmente, aquilo que eu suspeitava, tinha acontecido: o João Baptista (ex-Fur Mil da CCAÇ 153, açoriano) já havia morrido, nesse ano, de doença prolongada.  Não chegara a realizar o seu sonho, que era a de poder juntar, pela 1ª vez, o pessoal da sua CCAÇ 153, ao fim de quase meio século. Para tanto, fora juntando, desde Agosto de 2006, os "cacos da memória", as fotos amarelecidas, os nomes, os lugares, as datas...

A viúva teve a gentileza de me telefonar para casa. Infelizmente não fui que a atendi, por não estar em casa. Deu o contacto de um amigo e camarada do seu marido, também ele  açoriano (embora residente no Continente, mas passando em S. Miguel uma parte do ano) com quem, aliás,  me pus em contacto e a quem convidei para integrar o blogue.

A viúva autorizou-me igualmente a usar as imagens inseridas no blogue Fulacunda. É minha intenção homenagear o camarada João Baptista (, de seu nome completo, João Manuel Carreiro Baptista), associando o seu nome ao nosso blogue, se para tal tiver o consentimento da família. Os seus esforços para juntar os seus camaradas da CCAÇ 153 devem ser conhecidos e divulgados, sendo credores do  respeito e apreço de todos nós.

Entretanto, dos blogues Fulacunda e Rumo a Fulacunda (este do Henrique Cabral) eu já havia seleccionado dois comentários de gente que pertencera  à CCAÇ 153 e que respondera à chamada do João Baptista, para além de um comentário do próprio:

João Baptista
25 de Agosto de 2006

Esqueci: esqueci datas, esqueci nomes e rostos, esqueci situações agradáveis e desagradáveis. Tentei esconder uma vida estranha e eis que com a ajuda de fotografias desbotadas com 45 anos, sobram os cacos de algo que a nossa memória não apagou: uma dor num dente durante toda a viagem de Lisboa, Leixões, Funchal, Mindelo, Praia e Bissau, 10 dias num barco que se chamava Alfredo da Silva, nome registado numa foto no dia do embarque em Lisboa em Junho de 1961, bem como uma amiga, o Octávio e familiares da sua esposa. Como vou editar esta foto?



Complicada a transição do ar condicionado vivido a bordo para o calor e humidade em terras da Guiné Bissau, onde por artes mágicas desapareceu a dor do dente.


E eis que pela primeira vez ouço falar em Fulacunda: sede de concelho,  com uma rua principal com 200 metros,  onde estavam  implantadas as residências Administrativas, o posto dos correios, uma praça com rotunda e algumas das instalações do futuro quartel da CCAÇ 153.


Julgo que foi nos primeiros dias do mês de Julho de 1961 que eu, incorporado no primeiro pelotão iniciamos a viagem por mato que duraria cerca de 12 horas até Fulacunda . Foi naturalmente a primeira demonstração de força bélica que o indígena de então sentiu, com a passagem de uma coluna militar com cerca de 30 viaturas ligeiras e pesadas, carregadas de material, reboques com água, cozinhas e soldados com as suas fardas amarelas de passeio. As fardas de campanha ou camuflados, só mais tarde foram atribuídos.


Fico por aqui juntando os cacos.  Um abraço
Octávio do Couto Sousa

2 de Outubro de 2008

(...) Caro Henrique: Percorri demoradamente as fotos e respectivas legendas do “Rumo a Fulacunda” ao mesmo tempo que dialogava com o nosso JMCBaptista, iniciador do blog Fulacunda.


(...) A Companhia 153 proveio do RI 13, de Vila Real, com cabos e praças daquelas redondezas, alguns com nomes das suas terras, o Vila Amiens, o Chaves,  etc. Como disse no primeiro escrito, foi uma pena termo-nos separado em Vila Real, terminada a comissão, desejosos todos de partir para as nossas famílias, sem o cuidado de trocar endereços que nestes anos seriam preciosos para nos reencontrarmos. A maioria dos oficiais e sargentos foram mobilizados de outras zonas. No nosso caso e do JMCBaptista,  estávamos já na disponibilidade e a viver nos Açores.


O nosso comandante de companhia foi o Capitão, hoje General, José dos Santos Carreto Curto.


Fomos a única companhia em todo o Sul da Guiné em 1961, com um pelotão em Buba e uma secção em Aldeia Formosa. Tivemos depois um pelotão em Cacine. Estivemos também aquartelados em Cufar numa fábrica de arroz, assim como em Catió, até que tudo se agudizou em termos operacionais. Para Buba chegou uma companhia, a 154, outra para Cacine e por muitas outras localidades foram chegando mais unidades consoante a guerra se intensificava.


As fotos mostram o quartel de Tite onde se instalou o primeiro Batalhão, o 237, ao qual passámos a pertencer como tropa operacional e por questões de organização.


Acompanhámos o primeiro ataque a Tite [, em 23 de Janeiro de 1963,], de Fulacunda sairam reforços nos quais estivemos integrados, visto que o Batalhão, como sede, não estava ainda operacional.


A nossa companhia, a 153,  acabou por ficar toda junta e em várias missões percorremos todo Sul na busca e destruição das casas de mato que o PAIGC proliferava por tudo quanto eram zonas mais ou menos isoladas. (...)

José Teixeira da Silva


2 Janeiro 2009

(...) Prezados amigos e companheiros: há quarenta e sete anos, que procuro por toda a parte deste país, notícias da Companhia de Caçadores, n.º 153/59. Em vão procurei encontrar as moradas dos meus companheiros de 'route' [,estrada,] sem resultado. Tendo como base o nome do nosso Comandante de Companhia – capitão José dos Santos Carreto Curto – vi o seu nome há dois anos, integrado no quartel de Santa Margarida, já com a patente militar de Brigadeiro, pensei em contactá-lo mas não o fiz. Não sei explicar porquê, mas enfim, a verdade é que não dei um passo para o fazer. (...)


4. Na Net também encontrei uma notícia sobre o antigo capitão da CCAÇ 153 (que nunca mais se terá cruzado com os homens  de Fulacunda, depois do regresso a casa, a Vila Real, em Agosto de 1963):

Com a devida vénia, transcrevo do blogue Memória Recente e Antiga, criado e mantido por João José Mendes de Matos (n. Castelo Branco, 1935;  colega de escola e de juventude do futuro Cap José Curto, hoje general, reformado; professor de liceu em Setúbal, reformado) o teor de um recorde de jornal.


Cortesia do Blogue Memória Recente e Antiga > 14 Abril 2008 > Capitão Carreto Curto



Trata-se de uma cópia da publicação, em jornal, da entrevista dada em Bissau, pelo Cap Inf José dos Santos Carreto Curto, em 20 de Março de 1963, a um jornalista da ANI - Agência de Notícias e Informação

O então Cap Inf José Curto, comandante da CCAÇ 153 (Bissau, Fulacunda, Bissau, 27/5/1961 - 24/7/1963), fora dado como morto pela propaganda do PAIGC (ou por boatos propalados através da Rádio Conacri), depois de feito prisioneiro pelo PAIGC, levado para Conacri, julgado em Tribunal Revolucionário e executado... Natural de Castelo Branco, é hoje general na reforma e tem uma brilhante carreira militar.

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Bissau, 20 - Está vivo, está em liberdade, está de óptima saúde, encontra-se presentemente em Bissau e foi entrevistado pelo correspondente da ANI, o capitão José dos Santos Carreto Curto, de quem um comunicado do PAIGC, ou "Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde", organização subversiva com sede em Conakri, disse que fora preso pelos terroristas, os quais o teriam executado, depois de o haverem submetido a "julgamento em tribunal marcial".

Esse comunicado foi oportunamente desmentido, aliás, pelo Serviço de Informação Pública das Forças Armadas.

O comunicado do PAIGC não surpreendeu o oficial.

Declarou o capitão Carreto Curto:

"Poderia pensar-se que o comunicado recentemente difundido pelo PAIGC, com base em Conakri, me teria surpreendido. Não foi, no entanto, esse, o caso".

O Capitão Carreto Curto prosseguiu:

“O conhecimento progressivo que, durante vários meses me foi dado adquirir, no contacto com populações que sofreram o aliciamento dos chamados movimentos de libertação, no contacto com agentes (responsáveis) desses movimentos, que me revelaram as técnicas que usam e em que foram doutrinados, no exame dos comunicados já anteriormente emanados pelo PAIGC, levou-me apenas a aceitar a notícia em questão como 'mais uma'.

'Mais uma' em que os processos se repetem e que têm cabimento perfeito e ajustado no âmbito das técnicas de propaganda destinadas a conseguir determinados objectivos. Estes objectivos que, na sucessão, definem diferentes fases de todo um plano devidamente arquitectado, têm uma importância e interesse, para os quais não pode haver obstáculos ou objecções.”

“A Mentira é evidente”

O sr. Capitão Carreto Curto disse ainda:

“No comunicado em causa não foi obstáculo a inveracidade dos factos nele relatados. Interessava, sim, convencer a opinião pública da existência de um determinado problema e que o público dele tomasse conhecimento. O objectivo foi, assim, atingido. Pergunto a mim mesmo se terá interesse referir factos, narrar acontecimentos, que possam definir toda a verdade e separá-la da mentira do comunicado. No entanto, julgo que a verdade de eu estar vivo é suficiente, visto que o facto não permite dúvidas, nem duplas interpretações. A mentira é evidente.

Resta apenas a realidade do objectivo do comunicado do PAIGC. Serão o juízo e opinião de cada um que lhe vão ou não conferir o valor positivo que o comunicado pretendeu alcançar ou o valor negativo atestado, pela verdade dos factos.” – (ANI)

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Nota de L.G.:

Último poste da série > 6 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6943: Em busca de... (142): 1.º Cabo Dório da CCAÇ 2571, Guiné, 1969/71 (João Manuel Mascarenhas)