sábado, 9 de outubro de 2010

Guiné 63/74 - P7106: Patronos e Padroeiros (José Martins) (17): Curso 1962/1967 da Escola Naval - Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo


1. Mensagem de José Marcelino Martins* (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 7 de Outubro de 2010:

Caros amigos e Camaradas
Junto mais um texto sobre Patronos das nossas Forças Armadas.

Um abraço
José Martins




PATRONOS E PADROEIROS XVII

Patronos da Marinha Portuguesa

Patrono do Curso 1962/1967 da Escola Naval


Jorge Manuel Catalão de Oliveira e Carmo, nascido no ano de 1936 em Santo Estêvão no concelho de Alenquer.
Entrou para a Escola do Exército em Outubro de 1954, depois de ter concluído o estudo secundário, para se preparar para o acesso à Escola Naval.
Passados quatro anos, em 1 de Maio de 1958, é promovido a Guarda-Marinha e a Segundo-Tenente no dia 31 de Dezembro dessa mesmo ano.

Depois de servir nos Patrulhas “Boavista” e “Porto Santo” assim como na Fragata “Pedro Escobar”, foi nomeado para comandar a Lancha de Fiscalização “Vega” a prestar serviço em Diu, para onde se deslocou em meados de 1961.

Desde 1954, após a queda de Dadrá e Nagar Haveli, que pairava no ar um certo clima de “invasão”. Numa viagem de rotina a “Vega” fundeou pelas 22 horas em frente a Nagoá. Cerca da 1 hora e 40 minutos foram ouvidos tiros em terra, pelo que o Comandante mandou ocupar postos de combate e levantar ferro.

Dirigiu-se na direcção de um contacto não identificado, que se encontrava a cerca de 12 milhas. Cerca das 4 horas o contacto foi identificado como um cruzador, que lançou sobre o barco português, granadas iluminantes e fogo de metralhadora pesada, pelo que a “Vega” se retirou para Diu.

Pelas 7 horas da manhã, do dia 18 de Dezembro de 1961 são avistados aviões de combate que se dirigem para a fortaleza de Diu para a bombardear, tendo a “Vega” aberto fogo com a peça de 20mm, atingindo um dos aparelhos.

Os aviões indianos ripostaram ao fogo da lancha, ferindo quase a totalidade da guarnição e acabando por afunda a Lancha de Fiscalização “Vega”. Tinha terminado o último combate naval da história da Marinha de Guerra Portuguesa, enquanto em terra se consumava a invasão do Estado Português da Índia, por tropas da União Indiana.

Mantendo uma lúcida coragem, brilhante conduta que honra as tradições da nossa história, amor pátrio e desprezo pela vida, Oliveira e Costa foi condecorado com a Medalha de Valor Militar com Palma, agraciado com o grau de Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada e promovido ao posto de Capitão-Tenente.

Pesquisa e fixação do texto por
José Marcelino Martins
07 de Outubro de 2010

[Organizado a partir do texto da díptico distribuído em 10 de Junho de 2010, aquando da Homenagem Nacional]
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7099: Patronos e Padroeiros (José Martins) (16): CCAÇ 3477 - Nossa Senhora dos Milagres

Guiné 63/74 - P7105: Notas de leitura (157): O P.A.I.G.C. e o futuro: um olhar transversal, de Ricardo Godinho Gomes (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Outubro de 2010:

Queridos amigos,
Aproveito para dar a notícia que no dia 17 de Novembro, pela noitinha, parto para a Guiné, onde estarei duas semanas. É uma viagem para abraçar todos os amigos do Cuor e arredores, para rever os meus inesquecíveis soldados e para fazer uso, o mais abusivo possível, dos meus apontamentos para encontrar o final do livro que estou a escrever intitulado “A Viagem do Tangomau”.
Fico em Santa Helena, ao pé de Fá, o meu amigo Fodé Dahaba cede-me viatura e condutor para todas as minhas peregrinações aos locais que conheci e até aos santuários da guerrilha, por onde passei de raspão.
Se alguém precisar de mensagens para a região de Bambadinca , Xime, Ponta do Inglês ou Ponta Varela, ou mesmo o Burontoni, onde nunca entrámos, é só pedir, estou disponível nesta romagem de camaradagem.

Um abraço do
Mário


O PAIGC e o futuro:

Uma proposta, uma utopia


Beja Santos

Ricardo Godinho Gomes, descendente de guineenses, finda a guerra civil e as eleições subsequentes que deram a vitória ao PRS – Partido para a Renovação Social e colocaram Cumba Yalá, na presidência, resolveu escrever um ensaio sobre o estado do PAIGC e avançar com propostas de regeneração, partidária e nacional. Pela força das coisas, é um manifesto datado; lido hoje, sente-se a generosidade e inocência das crenças; enxutos os argumentos usados, fica a utopia. Um documento de reflexão, ao fim e ao cabo, para ler com melancolia, já que (quase) tudo se agravou e a esperança não desfraldou (“O PAIGC e o futuro: um olhar transversal”, por Ricardo Godinho Gomes, AfroExpressão – Publicações, Lda, 2001).

O autor escreve consciente que a realidade ficou muito aquém do sonho “e as gerações que nos sucederam arriscam-se a ser as gerações do desespero”. Há que dar a voz àqueles a quem pertence o futuro, ajudá-los a analisar o passado recente, identificar os erros e dar nova vida aos sonhos.

Primeiro, a Guiné-Bissau que emergiu do conflito é um país ainda mais pobre. Se em 1997 a esperança de vida à nascença era de 45 anos, a taxa de mortalidade infantil de 132 por 1000, com uma taxa de escolarização em permanente regressão e com 90 por cento da população a viver com menos de um dólar, tudo piorou e a dependência da ajuda internacional intensificou-se. É a comunidade de doadores que ajuda ao acesso à água potável, à maioria dos programas de aceleração do desenvolvimento, do ensino, da investigação, da melhoria das infra-estruturas. Depender da cooperação internacional é insuficiente, é preciso despontar do estado debilitado e encontrar mensagens para revigorar a nação e refundar o Estado.

Segundo, compete ao PAIGC perceber o que aconteceu no acto eleitoral que atirou um partido prestigiado e confundido com a luta armada de libertação nacional para a terceira força política do país. Na óptica do autor, com este acto eleitoral corre-se o risco de surgirem partidos vincadamente étnicos ou tribais, sem substância política, totalmente dependentes do chauvinismo. O PAIGC tem de reflectir quais as escolhas ao populismo e demagogia que se anunciam com estas eleições que apostaram nas propostas tribais. Compete ao PAIGC repensar as teses de Amílcar Cabral em torno da unidade da nação num contexto multipartidário e apreciar que neste novo século nada se passa como no contexto histórico em que nasceu e vitoriou a luta de libertação.

Terceiro, é a reflexão sobre o pensamento de Cabral que pode dar novo fôlego aos militantes dos PAIGC, aos seus eleitores e um objectivo ao povo guineense. Reflectir sobre as vitórias do PAIGC e os seus desaires. Vitórias que assentam na conquista da libertação, na formação de quadros nacionais, na riqueza da vida participativa durante a luta com eloquentes resultados como foi a emancipação da mulher e novo sistema educativo, as práticas de justiça e a criação de um sistema sanitário bem como o reconhecimento do crioulo como língua veicular. Desaires como foram a derrota da unidade Guiné-Cabo Verde, o erro teórico do suicídio da burguesia, a supressão das chefias tradicionais e a calamitosa gestão do Estado. Tudo conjugado, o PAIGC foi incapaz de se enquadrar num verdadeiro Estado moderno, não soube adaptar-se a uma orientação do Estado numa atmosfera de todo o território, o que é bem diferente do sucesso maior ou menor alcançado durante a luta nos chamados territórios libertados. Tornou a linha do centralismo democrático uma pura arbitrariedade que serviu para aterrorizar populações e intimidar todos aqueles que mostravam a desgovernação do país, entregue a arrivistas dentro de um partido dividido por facções e coligações de interesses.

Quarto, encetada esta reflexão com desassombro, haverá que trabalhar em duas vertentes, a ideológica e a estrutural. Quanto a esta última, o autor propõe que é indispensável encontrar uma solução digna para os problemas dos antigos combatentes, eles são o símbolo das nacionalidades bissau-guineense e cabo-verdiana. É indispensável aprofundar a ideia de unidade e discutir o que passou a ser (ou deverá passar a ser) a “irmandade” com Cabo Verde. Do mesmo modo, haverá que reformular o quadro de actuação da juventude, das mulheres e do sindicalismo apoiados pelo PAIGC. Tendo chegado a hora de alternância política, perceber como é que o PAIGC descambou num quase total silêncio durante a campanha eleitoral que o atirou para a terceira força política. E saber tirar as devidas lições de como deixou para um novo Governo o aparelho de Estado desmembrado, a administração eficaz, a saúde ao seu mais baixo nível possível, a qualidade do ensino abaixo de qualquer objectivo depreciativo.

Quinto, encontrada uma linha de rumo para a acção, pôr em prática vários desafios mobilizadores de toda a população: à procura de auto-suficiência, de uma maior eficácia da exploração dos recursos marítimos, do saber encontrar os melhores traços de união para reabilitar a esperança junto de todos os guineenses.
Ricardo Godinho Gomes, insista-se, escreveu seguramente bem-intencionado; mas não soube pesar a carga dos erros praticados entre a independência e a guerra civil. Não vale a pena especular o que teria sido a Guiné-Bissau se mantivesse à sua frente um líder com o gabarito de Amílcar Cabral. O que interessa é que não aprofundou a matriz nacional, delapidou recursos, não criou imagem de seriedade perante os doadores, não deu força à esperança da jovem nação. Aceita-se que tenha escrito um manifesto para acordar um partido que se desmotivara e se entregara às rotinas do mando absoluto. Falhado o plano de unidade com Cabo Verde, havia de se saber sarar as feridas e entrar na tal “irmandade” sem complexos, o que não aconteceu. Continuou a faltar cultura política para fazer passar a própria mensagem de unidade, indispensável para o levantamento do Estado. O manifesto não foi ouvido, o que agora importa é registá-lo, como peça construtiva, a Guiné-Bissau precisa cada vez mais de peças construtivas para se levantar e consolidar a autonomia e auto-suficiência possíveis.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7100: Notas de leitura (156): O Ultramar secreto e confidencial, por José Filipe Pinto (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P7104: Ser solidário (90): Missão a Dulombi. Vila do Conde > Guiné-Bissau, Outubro de 2010 (Fernando Barata)


1. O nosso Camarada Fernando Barata, ex-Alf Mil da CCAÇ 2700 (Dulombi, 1970/72), enviou-nos uma mensagem em 7 de Outubro de 2010, dando-nos conta da evolução das actividades desenvolvidas pelos expedicionários da “Missão a Dulombi”:
Expedição a Dulombi

Camaradas,

Dois jovens que se metem à aventura numa "barcaça", quais Gil Eanes do século XXI, na tentativa de chegarem à Guiné e estar um deles (Gil Ramos, filho dum combatente da C. Caç. 2700) no local onde seu pai prestou serviço, disponibilizando bens de primeira necessidade à população dulombiana, merecem todo o nosso apoio, apreço e admiração.
A expedição pode ser acompanhada em: http://missaodulombi.blogspot.com/

Abraço,
Fernando Barata
Alf Mil da CCAÇ 2700
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Notas de M.R.:
Segundo o que se encontra descrito no blogue mencionado a “Missão a Dulombi”, a partida está prevista para o início de Outubro de 2010, e a viagem será efectuada em automóvel entre Vila do Conde e a Guiné-Bissau, tendo como grande objectivo levar bens essenciais para distribuir pelas crianças carenciadas daquele país.

Os bens serão abrangentes, tais como vestuário e calçado, brinquedos e material escolar que serão distribuídos na aldeia de Dulombi, esperando os expedicionários que, com este seu gesto, contribuam para melhorar a qualidade de vida destas crianças.

Ao mesmo tempo, pretendem os organizadores desta grande aventura, homenagear os ex-Combatentes Portugueses, pelo que, irão equipados com material audiovisual, a fim de realizarem um documentário sobre as memórias da presença dos portugueses no período da guerra, a Cultura Guineense e os Vestígios da Cultura Portuguesa no dia-a-dia junto do povo local.
Como não podia deixar de ser, a Tertúlia deste blogue deseja aos autores de mais esta formidável e louvável iniciativa, as maiores felicidades e a melhor e mais bem sucedida das concretizações, de todos os objectivos que se propõem alcançar.
Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P7103: Agenda cultural (85): Espectáculo de dança por Sofia Fitas, no CCB - Lisboa, dia 16 de Outubro de 2010

1. Mensagem do nosso camarada Mário Fitas dando noticia da actuação de Sofia Fitas, sua filha, no CCB, conforme gravura que se publica.

Caro Luís, Carlos e Eduardo:  
Em anexo envio cópia da página 40 da programação do CCB [, Centro Cultural de Belém, Lisboa] com a actuação da minha filha Sofia Fitas no dia 16 Outubro às 19H00.

Se for de utilidade para o blogue, ficaria bastante grato pela publicação.

Um abraço,
Mário Fitas



BOXNOVA | SOFIA FITAS
EXPERIMENTO 2




Sofia Fitas define a sua pesquisa enquanto performer e coreógrafa com três palavras-chave: intuição, experimentação e devir.

Experimento 2 dá continuidade ao trabalho desenvolvido no solo Experimento 1 – 1.º Prémio no 13.º Festival Internacional de Dança Contemporânea das Canárias (2008). Continuando a questionar a percepção do corpo, Experimento 2, procura criar um corpo em devir contínuo, no qual não se define um território, mas onde se descobrem vários percursos reais e virtuais.
Após a apresentação do solo em Paris, o crítico Guy Degeorges escreveu: “[…] Reflicto primeiro sobre o que ela não faz: formas, narração, estetismo, glorificação do corpo, erotismo, discurso, contextualização. Do exposto, tomo consciência de que ela me conduz a um novo plano de emoções […]”

Criação\Interpretação SOFIA FITAS
Música SÉBASTIEN JACOBS
Luzes RUI GARCÍA

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Sofia Fitas
Performer e coreógrafa, licenciada em Dança pela FMH, em 1999. Desde 2007 que desenvolve o seu trabalho entre Lisboa e Paris.

Do seu trabalho coreográfico destaca a coreografia “Fora do Esquecimento” - 1.º Prémio no concurso Jovem Criadores e o solo “Experimento 1”- 1.º Prémio no 13.º Festival Internacional de Dança Contemporânea das Canárias - Outubro 2008, que tem sido apresentado em Portugal, França, Espanha, Bélgica e Holanda.

A convite de Madalena Vitorino concebeu o solo “Sós (Uma homenagem)”, estreado em Março 2010, e que integra o evento “Solos com Convicção”, para as Comemorações do Centenário da Implantação da República.
Em Junho passado estreou “Experimento 2”, em Paris, na estrutura Mains d’OEuvres.

O desenvolvimento do seu trabalho coreográfico e de toda a pesquisa conceptual e artística implicada, incitaram-na a seguir em 2004 o mestrado em Estética/ Filosofia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa. Estes estudos foram completados e aprofundados, em Paris, na Universidade de Paris VIII - Saint Denis e no Centre National de la Danse, em 2006.

Intuição, experimentação e devir são palavras-chave na sua pesquisa.

O seu trabalho que parte de uma experimentação e desconstrução do corpo e seu movimento, põe em evidência uma interrogação sobre o indivíduo, os modos de ser reais e virtuais.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7083: Agenda cultural (84): A República e as colónias na Sociedade de Geografia de Lisboa

Guiné 63/74 - P7102: Parabéns a você (162): José Carmino Azevedo, ex-Soldado Condutor Auto da CCAV 2487/BCAV 2868 (Bula, 1969/71) (Tertúlia / Editores)

Neste dia 9 de Outubro de 2010, estamos a festejar pela primeira vez no nosso blogue o aniversário do nosso camarada José Carmino Videira Azevedo (*), ex-Soldado Condutor Auto Rodas da CCAV 2487/BCAV 2868 (Bula, 1969/71).

O nosso tertuliano Azevedo está connosco desde 17 de Fevereiro de 2009.
Recordemos algumas das suas palavras de apresentação:


Soldado Condutor Auto Rodas n.º 04580768. Estive em Bula integrado na CCAV 2487/BCAV 2868, "O Xicote"

Participei na Ostra Amarga, Operação onde estava presente a televisão Francesa, convivi de perto com os malogrados CAPELA e HENRIQUE e, presenciei a infeliz ideia do Spínola de mandar para a morte os Majores Passos Ramos, Pereira da Silva, Osório, Alferes Mosca e os nativos Mamadu Sisse e Carlos Patrão.

Fui incumbido de fazer o transporte de géneros para abastecer PCA do Batalhão. Fiz o percurso Bula/Bissau/Bula, atravessei varias vezes o rio Mansoa, onde caiu o helicóptero que transportava deputado à ex-Assembleia Nacional, Pinto Leite, se bem me lembro.
[...]

Bolanha de Biombo > José Carmino Azevedo

José Carmino Azevedo, de pé, durante o V Convívio da Tertúlia em Monte Real

Voltando ao assunto que aqui nos trouxe, em nome da tertúlia quero desejar ao José Carmino um dia de aniversário em grande, nessa terra transmontana de Frechoso, cheio de alegria, rodeado da família e dos amigos, com saúde para tirar proveito do bom vinho e de outras iguarias bebíveis e comestíveis.

Caro José, se não for antes, no próximo Encontro da tertúlia voltaremos a confraternizar contigo. Para já, recebe um abraço virtual em nome de todos os camaradas e amigos do nosso Blogue.
CV
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 17 de Fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3908: Tabanca Grande (120): José Carmino Videira Azevedo, ex-Soldado Cond Auto Rodas da CCAV 2487/BCAV 2868 (Bula, 1969/71)

Vd. último poste da série de 7 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7092: Parabéns a você (161): Jorge Rosales, ex-Alf Mil da 1.ª CCAÇ (Guiné, 1964/66) Tertúlia / Editores)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Guiné 63/74 - P7101: (Ex)citações (99): A FAP, o Strela e o Ilhéu de Rei ou... São mais as vozes duvidosas do que a certeza das boas nozes (Carlos Silva)



Guiné > Bissau > s/d > Vista aérea parcial de Bissau e o Ilhéu de Rei, ao fundo. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 142". (Edição Foto Serra, C.P. 239 Bissau. Impresso em Portugal,  Imprimarte -  Publicações e Artes Gráficas, SARL). 


Colecção: Agostinho Gaspar / Digitalização / edição: Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010).

1. Comentário de Carlos Silva [, foto à direita], ao poste P7088 (*): 



Data: 7 de Outubro de 2010


Meu Caro Amigo Gil e Grande Piloto:


Gostei de ler o teu testemunho que corresponde ao que tenho ouvido de outros camaradas, incluindo o nosso camarada Cor Miguel Pessoa, então Ten Pilav quando foi abatido para os lados do Sul da Guiné,  e outros camaradas da Aviação.


Ainda no passado dia 2 na Tabanca da Linha ouvi pessoalmente,  da boca do nosso camarada Miguel Pessoa,  em resposta a outro nosso camarada do Exército, e outros arautos da verdade que botam faladura na Tabanca Grande,  [a contestação da tese da]  inoperância da FAP. 


Esses camaradas estavam em todo o território da Guiné como controladores aéreos e,  como tal,  são os senhores da verdade absoluta, até porque,  além de controlarem todo o território, também são especialistas da força aérea...


A rapaziada do PAIGC é que eram os valentes e,  enquanto possuidores de pouco mais de meia dúzia de mísseis, já controlavam a FAP, o território, enfim, ocupavam efectivamente toda a Guiné e nós, tropa-macaca,  estávamos encurralados no Ilhéu do Rei.


Não quero com isto dizer que a tal arma [, o Strela,] não teve influência no comportamento da FAP, mas daí até ficarmos encurralados no Ilhéu do Rei para a partir daí sermos evacuados para navios fundeados no alto mar,  vai muito longe.


Apesar de ter lido alguns testemunhos de camaradas da FAP no Blogue da Tabanca Grande, deveria haver mais, para ver se esses arautos da verdade e controladores de todo o território, de uma vez por todas,  se convencem do contrário. São dos tais que actualmente reivindicam uma enfermeira, um médico, um polícia e outros mais técnicos à sua porta de casa.


Só quem não quer ver a realidade, é que não quer compreender o que efectivamente estava em causa. Haveria mais para desenvolver, pois o tema ainda não está dissecado,  como tu dizes, porque são mais as vozes duvidosas do que a certeza das boas nozes.(**)


Gostei do teu Testemunho
Um abraço amigo


Carlos Silva 


2. Comentário de L.G.:


Obrigado, Carlos, vou pôr este provérbio na minha colecção... com direitos de autor, claro, atribuídos à tua pessoa. Conhecia aquele outro, menos filosófico, mais sociológico: "Na boda dos pobres, são mais as vozes do que as nozes"... Pudera, que as nozes estão caras e, além disso, diz o povo,  Deus dá nozes a quem não tem dentes... Com ou sem dentes, todos os tabanqueiros têm direito a botar faladura na Tabanca Grande, sem o receio de caírem... da nogueira abaixo. Ou melhor: do poilão... Gostei da metáfora do Ilhéu de Rei. Nunca lá fui. Nem tive curiosidade em lá ir. No meu (que foi também o teu) tempo (1969/71), ainda não havia o Strela, é verdade, mas nem por isso deixámos de contar, sempre, com a asa protectora dos nossos dos nossos aviões e dos nossos pilotos...


Ironia tua, à parte, viva o bom humor entre os tabanqueiros e viva sobretudo o bom senso e o bom gosto que fazem  parte da sua/nossa cultura de tolerância. Se há provérbio que aqui não tem direito de cidadania, é aquele outro, que também poderias ter citado: "Com papas e bolos se enganam os tolos" ou "Quem não tem cão, caça com gato ou... com strela".


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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 – P7088: FAP (54): O papel da Força Aérea na Guiné nos anos de 1972 e 1973 (Gil Moutinho)



 (**) Último poste desta série > 
30 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7057: (Ex)citações (98): Ninguém ama a sua Pátria por ser grande / Mas sim por ser sua! (António Botto / José Martins)

Guiné 63/74 - P7100: Notas de leitura (156): O Ultramar secreto e confidencial, por José Filipe Pinto (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Outubro de 2010:

Queridos amigos,
Não acho uma investigação sensacional mas comporta investigação séria e digna da nossa atenção. São os arquivos desses telegramas trocados entre Salazar, os Ministros das Colónias ou do Ultramar e os Governadores do Império. Dão conta da limitação de poderes e de uma fidelidade irrestrita ao ditador.
Para que conste. Leitura recomendável para quem quer saber sobre administração colonial.

Um abraço do
Mário



De governador para ministro, de ministro para Salazar

O Ultramar secreto e confidencial

Beja Santos

O projecto de investigação tem todos os ingredientes para ser aliciante: estudar a forma como se administrou o Império, durante o regime de Salazar, apreciando, no essencial, os telegramas trocados entre Salazar, os Ministros das Colónia ou do Ultramar e os Governadores do Império (“O Ultramar Secreto e Confidencial” por José Filipe Pinto, Edições Almedina, 2010).

O relacionamento entre o regime de Salazar/Caetano e as parcelas do Império viveu, como é compreensível, a ritmos diferentes: uma estagnação durante a fase de arranque e consolidação do regime, em que o ponto alto foi o Acto Colonial, o Império era encarado como o património de gesta, terra de missionação e de civilização à luz dos valores ocidentais; segue-se a guerra e as medidas cautelares para contar com o Império num período de graves carências; depois a descolonização e as três frentes de guerra, as sucessivas ópticas de resolver o problema, desde a versão federal do início dos anos 60, passando pelo projecto de Franco Nogueira que sugeria a concentração de energias em três “pérolas” (Angola, Moçambique e Cabo Verde) entregando as outras parcelas aos “ventos da história”, até chegarmos ao 25 de Abril e a descolonização a todo o vapor.

O autor equaciona em primeiro lugar, o relacionamento dos Ministros das Colónias ou do Ultramar durante o Estado Novo. Os sucessivos ministros faziam parte de uma placa giratória não só do círculo mais restrito de Salazar (como Armindo Monteiro) como da administração ultramarina, passando para outros cargos, como foi o caso das empresas do Império, desde os diamantes aos caminhos-de-ferro. Ferreira Bossa, que se sucedeu a Armindo Monteiro, antes de ser Ministro das Colónias já fora Inspector-Geral da Administração Colonial e, depois de cessar funções como ministro, viria a ser Subsecretário de Estado das Colónias, Director-Geral da Administração Política e Civil do Ministério das Colónias e Governador de S. Tomé e Príncipe, de 1946 a 1947. O seu sucessor, Vieira Machado, já fora Subsecretário de Estado das Colónias e assumiu depois o cargo de Director do Banco Nacional Ultramarino. Marcello Caetano, seu sucessor, é um colaborador credenciado junto de Salazar, etc. Mas quem decide sempre não é o Ministro nem o Conselho Ultramarino, é o ditador, ele tudo centra, está permanentemente atento ao equilíbrio das forças dentro do regime: quando Adriano Moreira procura a inovação e levanta protestos dos grandes interesses, é rapidamente substituído. O autor, sumariamente, passa em revista, a actividade desenvolvida por estes ministros, deixa claro a sua subalternidade política e fidelidade a Salazar.

Segue-se a análise da Administração do Império, a sua organização territorial. Recorde que em Cabo Verde, ao contrário das demais colónias, a administração metropolitana era tida como modelo, pois existiam municípios e freguesias (chegou a admitir-se elevar Cabo Verde ao estatuto de ilhas adjacentes, Salazar reprovou). A participação das populações esteve sempre condicionada ao estatuto de civilizado. Na Guiné, possessão que nunca foi encarada como colónia de povoamento, o Governador era assistido por um decorativo Conselho de Governo, onde não entrava nenhum guinéu.

Com o Acto Colonial, a política centralizadora de Lisboa acentuou-se. O número de eleitores foi sempre diminuto. O que estudava de administração colonial no ensino superior era praticamente microscópico, até aos anos 60, havia sim estabelecimentos de ensino para preparar altos funcionários para as parcelas do Império.

Não é possível neste curto espaço apreciar a acção dos governadores do Ultramar nos Ministérios do Estado Novo. Escolha-se a título meramente exemplificativo a Guiné. Armindo Monteiro é Ministro de 1933 a 1935. Na Guiné está o major Carvalho Viegas, que irá permanecer em funções até 1940. Carvalho Viegas é altamente criticado na região, sobretudo pela campanha de pacificação dos Bijagós. Era acusado de aldrabão e troca-tintas. É com ele que a Guiné deixa de viver permanentemente em guerra. O Governador era acusado de praticar uma tirania oficial, praticando inúmeras arbitrariedades. Com Vieira Machado, Ministro das Colónias entre Fevereiro de 1936 e Setembro de 1944, foi Governador nos últimos anos Ricardo Vaz Monteiro. A Guiné, ao contrário de Cabo Verde, não esteve dentro das grandes preocupações estratégicas, se bem que a correspondência detecte alguns casos de espionagem envolvendo a Alemanha e a França. É neste período que se procedeu à reforma administrativa da colónia. Marcello Caetano será Ministro de Setembro de 1944 a Fevereiro de 1947. É o tempo das primeiras tentativas de absorção do Estado da Índia e em que se recupera a posse de Timor. Caetano tomou a medida de fixar missionários estrangeiros, o que vai levantar a oposição na Santa Sé. A Guiné continua primitiva. Quando Carmona pretendeu visitar a colónia, o Governador lembrou a carência de infra-estruturas. Em 1945, chega Sarmento Rodrigues, um nome incontornável como Governador que deixou obra: Bissau mudou de rosto, rasgam-se estradas, mexe-se na estrutura portuária, a cultura passa a ser uma prioridade, etc. Tão relevante é o seu desempenho que será nomeado Ministro das Colónias entre Agosto de 1950 e Julho de 1955. Como Governador, será substituído por um tecnocrata, Raimundo Rodrigues Serrão e mais tarde por Diogo Melo e Alvim. Limitaram-se praticamente a gerir a obra iniciada por Sarmento Rodrigues.

Raul Ventura irá substituir Sarmento Rodrigues, será Ministro entre Julho de 1955 e Agosto de 1958. Já não há ilusões sobre as ameaças ao Império, os movimentos nacionalistas estão na corrida. Álvaro da Silva Tavares é Governador de 1956 a 1958, é um nome cinzento a juntar aos seus dois predecessores. Lopes Alves, um conhecedor do Ultramar, é Ministro de Agosto de 1958 a Abril de 1961. Os grupos nacionalistas movimentam-se em Casablanca, Monróvia e Conacri. Estão prestes a chegar os estados independentes, será à sua volta que se irão abrigar alguns movimentos de libertação. Peixoto Correia é Governador da Guiné de Agosto de 1958 a Abril de 1961. O PAIGC está em franca progressão, outras organizações são apoiadas pelo Senegal. Em 1959, dá-se o massacre do Pidjiquiti. A PIDE entra em força em Bissau. As críticas dos civis, aqueles que escrevem as suas denúncias intitulando-se “bons portugueses” às prepotências chegam até ao Ministro. Chegou a hora das grandes decisões, Salazar nomeia Adriano Moreira, que vem com propósitos de reformas. Peixoto Correia não mede bem o que se está a passar na Guiné, nem no Senegal nem em Conacri. Senghor tenta ser mediador e fazer colocar uma força política em Bissau que prepara uma transição para a independência a prazo. Salazar começa por dizer que sim e depois recua.

José Filipe Pinto, não sei onde é que vai buscar mas põe o nome de Vasco Martínez Rodrigues como novo Governador até 1965. Iniciou-se a guerra. Os campos demarcam-se.

O que fica para dizer? Os governadores não tinham espaço de manobra e os ministros praticamente aguardavam a decisão do ditador sobre reformas, investimentos, ensino, cultura, etc. O Império teve uma gestão altamente centralizada. Casos como o do Spínola decorrem da angústia de tudo estar praticamente perdido. Foram excepções. Não se pode estudar os precedentes da descolonização sem ir a estas fontes, como fez José Filipe Pinto.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 7 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7094: Notas de leitura (155): Polón di Brá, de João Carlos Gomes (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P7099: Patronos e Padroeiros (José Martins) (16): CCAÇ 3477 - Nossa Senhora dos Milagres

1. Mensagem de José Marcelino Martins* (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 5 de Outubro de 2010:

Caros amigos e camaradas
Na continuação dos textos sobre Patronos e Padroeiras Militares, segue mais um texto com um agradecimento especial ao Abilio Delgado e um fraterno abraço para todos, em especial para os camaradas de armas açorianos, onde conto com alguns amigos pessoais.

José Martins


PATRONOS E PADROEIROS XVI

Padroeira da Companhia de Caçadores n.º 3477

José Carioca, Abílio Delgado e Sérgio Sousa, elementos da CCAÇ 3477, os Gringos de Guileje (Nov 1971/Dez 1972).
Foto: © Luís Graça (2008). Direitos reservados.


Nossa Senhora de Guilege

Quando a foto supra foi divulgada no blogue do Luís Graça & Camaradas da Guiné, ficamos com a percepção de que se tratava de uma peça em metal que, pelo aspecto, poderia ter sido esculpida sobre liga metálica “macia”, que permitisse o uso de objectos cortantes para a sua moldagem.

Assim, nada melhor que dirigir aos retratados as seguintes questões:

“Pela foto, vê-se bem, que tiveram a Protectora de Guilege nas mãos, pelo que vos ponho a seguinte questão.

1 - A imagem foi feita com que materiais?
2 - Quem foi o autor?
3 - Chegou a estar exposta na Capela?
4 - É uma escultura de expressão livre ou representa efectivamente alguma das diversas «versões» da imagem de Nossa Senhora?
5 - Actualmente qual é o paradeiro da imagem?”

A resposta, remetida pelo Abílio Delgado, ex-capitão miliciano, comandante da CCAÇ 3477, mobilizada nos Açores, não se fez esperar e, assim, ficamos a saber que:

A Imagem, de origem Açoriana, é feita em série, numa liga metálica rija. O metal ou liga é vazado num molde quando está em estado líquido. Posteriormente são retocadas e pintadas à mão. Foi feita numa qualquer rudimentar oficina artesanal.

Esta imagem era para os Açorianos a NOSSA SENHORA DOS MILAGRES. Podem encontrar-se imagens destas em vários tamanhos nos Açores. Durante a permanência dos Gringos em Guileje, esta imagem esteve sempre exposta na Capela. Como todo o quartel foi destruído quando do seu abandono pelas tropas portuguesas, esta imagem ficou soterrada nos escombros e foi encontrada intacta na véspera da nossa visita no final de Fevereiro de 2008, o que nos causou muita emoção.

Esta imagem ficou entregue à AD (Acção para o Desenvolvimento), entidade que estava a construir o MUSEU DE GUILEJE, onde ficaria exposta na Capela recentemente reconstruída. Todo o meu espólio militar de Capitão Miliciano (Comandante dos Gringos) ficou igualmente entregue à AD para ser exposto no Museu, que foi inaugurado em Janeiro de 2010 no local onde era o quartel.


Foi assim que pesquisamos quem era a Santa que os açorianos, especialmente na Ilha do Corvo, veneram.

Foto: Wikipédia, a enciclopédia livre


Nossa Senhora dos Milagres

A veneração de Nossa Senhora dos Milagres, remonta ao Século XVI, quando os corvinos solicitavam a intervenção do divino, quando enfrentavam o desconhecido e o medo.
Reza a lenda de que, quando num dia de acalmia e provavelmente em horas que não eram de lide de mar, um grupo de homens encontrou, enquanto recolhiam restos de madeira que vinham dando à praia e que utilizavam para queimar, encontraram um caixote, de madeira clara, apesar de dar sinais de que se encontrava no mar há bastante tempo.

Retirando a caixa de dentro de água e abrindo-a, com o cuidado que se impunha, verificaram que no seu interior se encontrava uma imagem, uma imagem que lhes lembrou Nossa Senhora.
A imagem tinha uma inscrição que, mais não era mais que um pedido: “Onde eu sair, façam-me uma ermida”, pelo que ficou decidido que a ermida ficaria localizada no Alto da Rocha.

A notícia, como não podia deixar de ser, espalhou-se e, além de ter chegado às outras ilhas açorianas, chegou também à capital do Reino, onde de imediato alguém deu ordens para que uma nau zarpasse para as ilhas, a fim de trazer a “imagem” para um templo em Lisboa, onde foi colocada num altar dourado, em lugar de destaque.

Acontece que, os crentes que visitavam a Santa no seu altar dourado, começaram a notar que o seu manto, de manhã, se encontrava molhado, pelo que começou a correr a lenda de que a Santinha, todos as noites, fugia para a “sua Ilha do Corvo”, onde tinha a sua Capela e onde gostava de estar, daí ter o mato molhado de água salgada durante a travessia do mar.

Quando estas notícias chegaram ao Corvo, a imagem passou a ser conhecida como Nossa Senhora dos Milagres e, preocupados com estes factos inexplicáveis, os clérigos resolveram enviar de volta a Santa para a sua capela, sobranceira ao Porto da Casa, donde, convicção dos corvinos e, por extensão os açorianos, passaram a ser protegidos pela Santa.

A veneração e a necessidade de protecção sentida pelos nossos camaradas de armas açorianos, justificam a existência desta imagem em terras da Guiné.

A festa de Nossa Senhora dos Milagres, que relembra os grandes prodígios operados pela Mãe de Deus, omnipotência suplicante e canal de todas as graças, a quem Deus nada recusa, celebra-se a 15 de Agosto.

5 de Outubro de 2010
José Marcelino Martins


2. Julgamos ser da maior pertinência deixar aqui uma mensagem do nosso camarada Carlos Cordeiro enviada a José Martins, a propósito deste trabalho

Meu caro Amigo José Martins,
Muitíssimo obrigado pela tua simpatia em me enviares o e-mail com as tuas preciosas informações, recolhidas do cap. Abílio Delgado. Não conheço qualquer Gringo de Guileje. Mas ainda vou tentar descobrir algum. É que, além do cap. Abílio, também o General António Martins de Matos se lhes referiu com muita simpatia, dizendo que era o aquartelamento onde era mais bem recebido. Não tenho aqui o número do poste.

Só três notas:

- Nossa Senhora dos Milagres também é a padroeira da paróquia dos Milagres, da freguesia dos Arrifes. Ora, o BII 18 situava-se nessa paróquia. Talvez fosse esta a justificação.

- Mas há uma coisa curiosa na imagem: é que quer a do Corvo, quer a dos Milagres (Arrifes) têm o Menino Jesus ao colo, mas direito e não deitado.
Isto pode ser explicado por dificuldades em fazer o molde. Mas não deixa de ser curioso.

- Tinha ideia de que as Companhias daqui levavam um oratório do Senhor Santo Cristo dos Milagres. O blogue de Carlos Silva tem a indicação de que à CCaç 3476 (irmã da 3477) foi oferecido, pela Comissão de Apoio ao Soldado Açoriano (o estudo dessa comissão será um bom tema para uma tese de mestrado), um oratório com a imagem do SSCristo . Isto deverá ter também acontecido com a 3477. É o oratório que aparece colocado no oratório de Guileje ao lado de Nossa Senhora de Fátima. Fica-se sem saber se a imagem de Nossa Senhora dos Milagres era pertença de algum dos militares açorianos, provavelmente da paróquia de NS dos Milagres (Arrifes), ou, por exemplo, se terá sido oferta da paróquia. Provavelmente nunca saberemos.


Já agora: qual era a invocação da capela de Guileje? Nossa Senhora de Guileje?

Quanto ao destino das imagens e oratórios, só sei o que ouvi, mas com muitas reservas. Disseram-me que no antigo BII 17 (hoje Regimento de Guarnição 1) existiam imagens das Companhias que regressaram. Parece também que no antigo BII 18 não há nada.

Uma curiosidade (que desconhecia por completo): também no blogue de Carlos Silva vem a indicação que o guião da CCaç 3476 (provavelmente aconteceu o mesmo com a 3477) foi oferecido pela Câmara de Ponta Delgada. Aí nas Unidades do Continente acontecia o mesmo?

Desculpem, caros amigos, o tamanho da prosa.

Um grande abraço,
Carlos Cordeiro
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 30 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7057: (Ex)citações (98): Ninguém ama a sua Pátria por ser grande / Mas sim por ser sua! (António Botto / José Martins)

Vd. último poste da série de 15 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 - P6993: Patronos e Padroeiros (José Martins) (15): Forças Pára-quedistas – Arcanjo São Miguel

Guiné 63/74 - P7098: Cartas, para os netos, de um futuro Palmeirim de Catió (J. L. Mendes Gomes) (1): No princípio, era o convento... de Mafra




(...) "Encontrou alguns dos seus colegas de seminário, desistidos anos antes e nunca mais vistos: O Vítor, um óptimo hoquista, de Espinho; o Luís Barros, o José Ramos Canito, de Vila do Conde. Outros mais haveriam de aparecer já nas quentes paradas do religioso convento, convertido em quartel e escola de guerra." (...) . Imagem: Origem desconhecida.




1. Texto do nosso camarada Joaquim Luís Mendes Gomes, jurista, reformado da Caixa Geral de Depósitos, ex-Alf Mil da CCAÇ 728, Os Palmeirins, (Como, Cachil, Catió, 1964/66)

Assunto: Futuro Palmeirim de Catió

Olá,  Luís!

Como não podia ser doutra maneira, continuo a sr um assíduo e interessado leitor do teu/nosso monumental blog. Duma riqueza incalculável. Se não fosse a tua feliz ideia, mais umas dezenas de anos volvidos, um valiosíssimo tesouro patriótico ficaria, para sempre, sepultado no desconhecido e na ignorância das gerações futuras. Aquela guerra que nós vivemos, com bons e maus momentos, palpita com uma surpreendente e autêntica vivacidade nos milhares de posts que já foram escritos e irão seguir-se.

Mais uma vez e sempre a minha admiração e reconhecimento pelo teu empenho e o dos nossos co-editores.

O texto que segue sai da autobiografia que fiz para os meus netos lerem, um dia...sobre os verdes anos do seu avô...Dela sairam as crónicas dos Palmeirins de Catió (*). Agora, penso de algum interesse partilhar a minha vida, nos tempos preliminares da guerra que nos foi imposta e que cumprimos sem discutir...( absolutamente impensável nos tempos que correm...).

Fica à tua/vossa disposição para serem lançadas no Blogue.

Um grande abraço

Joaquim Mendes Gomes


2. Futuro Palmeirim de Catió (1) > No Convento de Mafra
por J.L. Mendes Gomes

Num dos primeiros dias de Agosto de 1962, munido da guia de marcha militar, tomou a carreira mais madrugadora do Cabanelas, às 6 da manhã, em Pedra Maria,( Felgueiras) para ir apresentar-se, nesse dia, na longínqua vila de Mafra, sua conhecida, só das páginas escolares da história portuguesa.

Naquela manhã, uma vez mais, acompanhado pelas badaladas da torre de Pedra Maria, agora, em jeito de adeus, um dos seus filhos partia para a tenebrosa e imposta aventura militar. O cortejo dos que tinham a mesma sorte foi engrossando, ao longo do caminho, longo, primeiro, na tão familiar estação de São Bento, no Porto. Depois, sempre no ronceiro comboio correio que parava em tudo quanto era sítio, até às paragens verdejantes da linha do Oeste, a partir da simpática estação de Alfarelos, com bela azuleijaria azul a revestir-lhe as paredes com cenas de vindimas e pomares da região.

O nervosismo que toldava todos os mancebos ficava mascarado pela irrequietude e pelas irreverentes gargalhadas que se desprendiam, permissivas e sem controle, dominando as carruagens do comboio, como se já fossem as, ainda só, imaginadas casernas que os esperavam.

Encontrou alguns dos seus colegas de seminário, desistidos anos antes e nunca mais vistos: O Vítor, um óptimo hoquista, de Espinho; o Luís Barros, o José Ramos Canito, de Vila do Conde. Outros mais haveriam de aparecer já nas quentes paradas do religioso convento, convertido em quartel e escola de guerra.

O famigerado Simão, por exemplo, lá apareceu, em fatídica surpresa, qual sombra sinistra e teimosa, escondido na larga farda cinzenta, onde lhe sobrava muita fazenda. Só a comprida pála do barrete lhe acompanhava, até à ponta, em sintonia perfeita, o seu característico nariz rubicundo. Tão furtivamente como apareceu, assim desandou, ao cabo de umas breves semanas da recruta, dura de roer…

Soube, através de outro ex-seminarista, o pachorrento, mas d`olho vivo, Bernardino Teixeira de Carvalho, que ele tinha dado baixa ao hospital e que, por artes mágicas, se livrou, definitivamente, da tropa, escassas semanas depois…Que inveja!…Era sobrinho dum abade influente. …Bênçãos que caem e sempre hão-de cair, apenas, sobre certos telhados, sabe-se lá porquê… Talvez o diabo saiba…

Pode dizer-se que uma grossa turma de ex- seminaristas portucalenses lá estava transferida, agora, espalhada e bem tresmalhada, pelas muitas companhias do regimento, de velha "mauser" ao ombro, e fato zuarte, em vez do terço e da cândida sobrepeliz branca…

A pouco e pouco, já de noite, a longa fila dos noviços soldados-cadetes desfilava por um dos muitos infindáveis corredores do convento colossal, para ir desnudar-se, pela derradeira vez, à vista de todos os olhos surpresos, só para que dúvidas não restassem sobre a masculinidade genital, perante os clínicos anfitriões…

Era a primeira cena, simiesca, das muitas que haveriam de suceder, durante os anos seguintes, perante a máxima e confortante hilariedade, em que todos eram participantes. Olhos surpresos? Sim. Se é certo que quem vê caras não vê corações, também se confirmou, ali e doravante, que quem vê grandes e másculas corpulências não pode garantir-lhes correspondentes intumescências…

Dir-se-ia até que a lei da natureza, sobre masculinidade, se rege pela razão inversa dos tamanhos…numa linha de equilibradas compensações. Ali se patenteava, aos olhos de todos, com toda a verdade, pelo menos, naqueles tempos, as grandes surpresas e os desencantos de tantas noites de núpcias…

O Sampaio, um castiço tripeiro, de cabelo alourado e espetado, numa cara sardenta e afilada, com olhos pequeninos e fundos, um inexcedível palrador e barraqueiro, desde a estação de S. Bento, bêbado de cerveja, que nem um cacho, ali estava a tentar pele 4ª ou 5ª vez, enfiar, perna a perna, nas largas calças da farda acabada de receber, com algumas idas ao chão, pelo meio, sem esboçar um sorriso.

Por acaso, foi parar ao mesmo pelotão da 2ª Companhia de Infantaria, comandada pelo mais garboso e convencido capitão, Óscar Gomes da Silva, de bivaque de altas proas na cabeça e de elegantes polainas pretas de couro preto, sempre a luzir, e à mesma caserna monacal.

Tal como o Mendonça, a quem a longa escola da boémia de Coimbra rapara todo os temores que nos enlaçam sempre, nestes primeiros contactos, em novos ambientes.

Totalmente ambientado, desde logo, se manifestou pronto a enfrentar e derreter, em gozo geral, os frequentes assomos da maluqueira militarice profissional.Parecia que estava ali para se divertir, à grande, com a requintada habilidade de um bobo na côrte.

Também quis a sorte que ele fosse parar ao mesmo pelotão, companhia e caserna. A prová-lo, relembra um dos muitos episódios, que teve a sorte de presenciar. Seguia o Mendonça, a seu lado, magricelas, dentro do fato zuarte cinzento, esbordante no tamanho, por um dos muitos corredores que percorrem o interior do convento-quartel, do tamanho de altas e largas avenidas, com o braço engessado ao peito. Uns metros após terem passado por aquele superior hierárquico, imediato, o zelozo capitão, comandante de companhia, parou, estacado e dirigiu-se ao subordinado rastejante:
- O nosso cadete não cumpriu o dever de saudação ao seu comandante!…

A resposta brotou, pronta, do Mendonça, já em sentido:
- Saiba Vossa Senhoria, que não foi feita a bem merecida continência, por impossibilidade física, (só os olhos baixaram para o braço desditoso) mas volvi, respeitosamente, ao flanco…

Desarmado e sem palavras, o comandante retomou, impertigado, a sua caminhada bem timbrada sobre o lajedo de mármore gasto pelo uso secular das multidões profanas que o convento continuava a albergar.

Só quando o vulto esguio do satisfeito superior se desvaneceu à distância, por entre outros militares, transeuntes, estoiraram, sem réplica, as gargalhadas, a muito custo retidas por ambos.

O seio hermético do mundo militar começava a revelar-se em catadupa, nas duras semanas que se seguiram, infindáveis. Era um autêntico internato, movido a sonoros toques de cornetim. Cada um tinha o seu significado e, aos recém-soldados cadetes era-lhes vedado alegar desconhecimento.

Às seis da manhã, de verão e de inverno, o toque da alvorada obrigava-os a descerem lestres dos beliches de três, para o escutarem, em sentido, junto aos ferros das camas, ainda em traje de dormir.
As luzes acendiam-se, à 1ª nota do cornetim, e dentro de 20 minutos toda a caserna deveria estar arrumada, camas feitas, com a higiene pessoal e as sagradas botas pretas a reluzir, para que na 1ª inspecção do formar da companhia, o olhar de lince do capitão Óscar, não desfechasse um doloroso corte de dispensa, no final do dia.

Hoje, é inimaginável como tudo se conseguia.

O castiço Mendonça era sempre o último a chegar à parada, com os três pelotões e respectivos comandantes instrutores, à frente, alferes de carreira, de cada uma das três companhias, já bem perfiladas, de capacete e espingarda ao ombro, em posição de descanso.

Vinham depois os três imponentes capitães postar-se à frente da sua companhia, recebendo a devida, continência, à voz de " Ombro, arma!", erguida por cada um dos alferes.

Logo a seguir, era a vez de os capitães renderem continência da sua unidade ao comandante, ainda mais imponente, do Batalhão que o toque de cornetim, anunciava uns instantes antes.

Fazia-se a chamada por companhia; o comandante de batalhão fazia as advertências patriótico-militares, da ordem, e toda a mística estudada nos anais das ciências militares ia sendo transmitida aos futuros comandantes de pelotão nos teatros de guerra colonial que os aguardavam.

Vinha a seguir o pequeno almoço, nos amplos refeitórios do convento, depois da ordem de dispersar.

O próximo toque obrigava à formatura das companhias, perante os seus comandantes e, a partir daí, era a partida em marcha cadenciada pelo alferes, para a mata de castanheiros frondosos, a uns dois km. dali, no seio da vastidão da cerca mítica do convento de Mafra.

Ensarilhadas as armas, segundo a norma tradicional, começavam, em cada manhã, os exercícios de ginástica, desenvolvida numa corrida em círculo. Ali, surgiu a 1ª experiência do esforço físico exigido, sem limites, pela imaginação e comando supremo do alferes do pelotão. As suas ordens eram indiscutíveis, até à exaustão. O cansaço das primeiras semanas fez ver quão doces eram uns escassos minutos de intervalo, entre cada sessão. Nunca as folhas caídas dos castanheiros, à mistura com ouriços espinhosos, foram tão apetecidos colchões, secos ou molhados pela chuva, para um saboroso restauro de forças.

Quando chegava a hora do almoço, era o regresso, até aos imensos refeitórios, de mesas de mármore branco, em salas imponentes. O feijão, o macarrão ou o arroz, acompanhado de gordurentos pedaços de carne de cabra, nunca foram tão saborosos…regados com um pequeno púcaro de vinho tinto carrascão, a granel, ou da água da caneca.

Ordem unida, instrução militar, e o esventrar das mil peças que formam a expedita e obsoleta espingarda Mauser, da bazooca e do morteiro, era o temas da 5 horas de aulas que preenchiam as tardes, sempre, algures, debaixo dos frondosos castanheiros, na mata de Mafra.

A religiosa manutenção da sua Mauser, os crosses semanais, de comprimento crescente, ao longo da estrada da Ericeira, até aos oito km, mais umas sessões de acção psico-pedagógica militar, ocupavam todo o período de recruta daqueles soldados-cadetes. Tratados abaixo de cão, pelas cadeias da hierarquia cinzentona, desde os simples cabos, sargentos ao distante e sisudo comandante do regimento, jamais seriam capazes de imaginar-se, volvidas umas breves semanas, como futuros oficiais milicianos.

O certo, porém, é que terminada a recruta, intensa na preparação física e mentalização militar, com uma semana de campo, nos montes escalvados das cercanias da Malveira, veio a chamada especialidade de atirarador de infantaria, que iria ser exercitada no fantasma da guerra de África. A preparação infindável, terminou nos rigorosos frios de inverno ventoso e chuvento de Mafra lamacenta. Quem por lá passou, bem o pode testemunhar. Mafra, nunca mais. Vê-la, nem de longe.

As guias de marcha para as férias de Natal, na casa de cada um, foram distribuidas em folgosa e frenética algazarra de caserna, companhia a companhia, depois da meticulosa entrega do material distribuido no início.

Nunca se roubou tanto, como nesses dias finais. Capacetes, bivaques, bornais, cinturões, tudo corria perigo ameaçador, numa desconfiança sem excepções, a começar no colega mais próximo. Com recurso a lojas especializadas, abastecidas sabe-se lá como, que prosperavam nas ruelas de Mafra, tudo acabava por dar certo, na hora final

J.L. Mendes Gomes

[Continua]

[Fixação / revisão de texto / título: L.G.]
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Nota de L.G.;

(*) Vd. postes de:

24 de Setembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5006: O segredo de... (8): Joaquim Luís Mendes Gomes: Podia ter-me saído caro aquele pontapé no...

20 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1194: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (1): Os canários, de caqui amarelo

2 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1236: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (2): Do Alentejo à África: do meu tenente ao nosso cabo

20 Novembro 2006 > Guiné 63/74 - P1297: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (3): Do navio Timor ao Quartel de Santa Luzia  

1 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1330: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (4): Bissau-Bolama-Como, dois dias de viagem em LDG

11 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1359: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (5): Baptismo de fogo a 12 km de Cufar

8 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1411: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (6): Por fim, o capitão...definitivo
 
22 de Janeiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1455: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (7): O Sr. Brandão, de Ganjolá, aliás, de Arouca, e a Sra. Sexta-Feira
 
8 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1502: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (8): Com Bacar Jaló, no Cantanhez, a apanhar com o fogo da Marinha
 
11 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1582: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (9): O fascínio africano da terra e das gentes (fotos de Vitor Condeço)
 
29 de Março de 2007 > Guiné 63/74 - P1634: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (10): A morte do Alferes Mário Sasso no Cantanhez

5 de Abril de 2007 > Guiné 63/74 - P1646: Crónica de um Palmeirim de Catió (Mendes Gomes, CCAÇ 728) (11): Não foi a mesma Pátria que nos acolheu

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Guiné 63/74 – P7097: FAP (55): Fuzileiro por um dia (António Martins de Matos)


1. O nosso Camarada António Martins de Matos (ex-Ten Pilav, BA12, Bissalanca, 1972/74, hoje Ten Gen PilAv Res), enviou-nos, em 7 de Outubro último, uma mensagem narrando-nos mais uma das suas hilarientes peripécias, com que se “divertia” na Guiné:

Camaradas,

Queixou-se o Eduardo Magalhães Ribeiro do silêncio da malta da destemida e heróica Marinha Portuguesa, em não nos contarem as suas histórias, em nada contribuindo para o blogue.

E afirma, “Será que os seus protagonistas pensam que essas suas histórias são pouco, ou nada, interessantes?”

Pois, não sei, mas já que eles não contam nada e dado que, por laços familiares até tenho duas ou três costelas de marinheiro, vou eu contar na vez deles, pode ser que assim se encham de vergonha...
“Fuzileiro por um dia”
A minha missão era simples, consistia em voar até ao quartel do Cacheu e aí fazer embarcar no DO-27 (masculino, os aviões são masculinos), um Oficial dos Fuzileiros que ia comandar (de cima) uma operação.

E assim foi, depois de perguntar ao homem do Serviço Postal Militar (SPM) se havia alguma carga de oportunidade para aquele quartel e metido o saco do correio a bordo, lá segui rumo à pista do Cacheu, viagem sem história, a pista nem era mázita, lá me apareceu o Fuzo para comandar a operação, o restante pessoal já tinha saído nos botes (acho que os fuzileiros lhes chamam outra coisa, para mim são botes) rio acima em direcção à Caboiana.

Cabe aqui um parêntesis para dizer como as “coisas da guerra” funcionavam: O oficial comandante da operação, normalmente Major, Capitão Tenente, nestes casos de marinheiros, levava todo o seu equipamento, prancheta, punaises, mapas plastificados, marcadores, correctores, lápis e borracha, enfim, todo o material necessário e suficiente para que, em cima dos ditos mapas, pudesse ir desenhando a evolução da operação.

O rádio, os auscultadores e os sacos de enjoo eram fornecidos pela FAP.

A missão do piloto consistia em voar até à área das operações e a partir daí ir seguindo as direcções que o douto passageiro indicava, mais para a esquerda, mais para a direita, mais alto, mais baixo, tão baixo também... NÃÃOOO... que me assustei... e por aí fora, parecendo fácil, não tinha nada de difícil.

E o passageiro lá ia comunicando com a tropa no chão, pedindo informações e dando ordens e indicações, umas vezes em perfeita harmonia, outras vezes em completo desentendimento.

Com o decorrer das operações o aviador ia-se apercebendo de algumas incongruências que volta não volta iam aparecendo, por vezes o passageiro perdia-se, o sinal era quando começava a dar voltas ao mapa como se fosse um volante, por vezes a tropa nem sempre estava onde dizia que estava.

E como disse num outro texto, se havia “comandantes” que davam de imediato pela “falcatrua”, havia outros que eram completamente enganados e nem davam por tal.

Que essas incongruências não incomodavam o piloto, se o homem estava ali para ser enganado o problema era dele, só que, se por qualquer motivo, era preciso chamar os aviões de alerta para darem um apoio de fogo imediato, nesse momento a coisa complicava-se, o não ter a certeza do local por onde a tropa estaria estacionada era um pesadelo dos grandes, dos muito grandes.

A partir desse momento o “passageiro” calava-se e era o piloto do DO-27 que tomava o controlo da guerra, esperando a chegada dos Fiats, encaminhando-os para o local, dando-lhes a perceber onde estavam “os bons e os maus”, a maneira fácil de proteger os nossos era voar em círculos apertados à sua (deles) vertical, não gostavam os de baixo mas era única maneira de não levarem com uma roquetada, à segunda volta o passageiro começava a gastar os sacos de enjoo, às vezes não chegavam, seguia-se o plástico que continha os dados da guerra e terminava com o próprio mapa.

Voltando à história.

Descolados da pista do Cacheu lá fomos nós em direcção à Caboiana, a missão dos Fuzos consistia em patrulhar alguns afluentes da margem esquerda do rio, dois botes aqui, outros dois acolá, “operações normais” a coisa a correr bem.

Eis senão quando desataram todos aos tiros, granel, durante alguns minutos ninguém se entendeu, nós cá de cima sem saber quem tinha emboscado quem.

Quando a coisa serenou foi hora de contabilizar os estragos, os Fuzos tinham um ferido.

Logo o Comandante da Operação deu por terminada a progressão, regresso imediato dos botes ao Cacheu, e, acto seguinte, pediu-me se não me importava de aguardar que o ferido chegasse ao quartel a fim de ser transportado de imediato para Bissau.

“Claro que não, estou aqui para ajudar”, 5 minutos depois já estávamos aterrados no quartel do Cacheu à espera do ferido.

Foi aqui que a coisa se complicou.

Como a tropa para retirar da Caboiana ainda levava algum tempo, tinham que recolher algum pessoal que andava por lá espalhado, alguém sugeriu que saísse um bote do quartel do Cacheu a fim de ir buscar o ferido.

Meu dito meu feito, até que outro alguém voltando-se para mim, perguntou: “Ó Tenente, quer vir connosco no bote?”

E eu, periquito da merda, devia era estar calado, logo disse: “Claro que quero”.

Saiu-me, peço desculpa, era jovem e não pensava...

E pronto, um bote, três Fuzos e um piloto, três G-3 e a minha Walter PPK calibre .22, lá fomos rio Cacheu acima em direcção à Caboiana.

Vejam só, podia ser em direcção ao Pelicano, ou à casa do Mário Soares em Pirada, ou ao meu amigo libanês de Bafatá de quem não me lembro o nome, mas não… em direcção à Caboiana!!!!!.

Ao princípio e enquanto subíamos o rio a coisa até correu bem, era como andar de barco ali pela baía de Cascais, claro que os Fuzos não se podiam comparar às Tias da Linha, mas o motor era potente, já me estava a imaginar no ski...

O pior foi quando entrámos pelo afluente do rio Cacheu, riozito de merda, nem 20 metros de largura teria, os Fuzos a meterem bala na câmara, velocidade reduzida, o menor ruído possível, encostados ora a uma margem ora à outra, não tinha a ideia que o tarrafo fosse tão alto, lá de cima a coisa parecia bem diferente, no mínimo eram dois metros de arbustos, mesmo ali junto à água.

E o meu pensamento: “Se está por aqui algum turra escondido nem precisa de me dar um tiro, agarra-me à mão pelos colarinhos e pronto... estou feito. E como explicar um piloto averbado num bote de fuzileiros… se calhar ainda levo uma porrada a título póstumo.”

Eis que de repente e numa das curvas do riozito descobrimos um outro bote onde vinha o ferido, um pequeno alívio, a servir de consolação, pelo menos já não tínhamos que ir mais em frente, xiça...

Chegou o ferido, sorridente, mas com um sorriso estranho, um tiro tinha-lhe furado a bochecha e partido um dente, a bala saiu sem mais estragos, o sacana devia ter a boca aberta, houvesse euromilhões na altura e saía-lhe de certeza.

O regresso foi no mesmo ritmo, silenciosos até chegar ao rio Cacheu e depois gás à tábua que se faz tarde.

E pronto, regressei ao meu ambiente, o admirável ar, lá levei para Bissau o Fuzo da bochecha furada e dente partido.

Foi uma experiência cinco estrelas mas para fuzileiro chegou, que isto de andar entre o tarrafo tem que se lhe diga.

Um Abraço,
António Martins de Matos
Ten PilAv da BA12
Foto: © Site da Associação de Fuzileiros (2010). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:
Vd. último poste da série em:
6 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 – P7088: FAP (54): O papel da Força Aérea na Guiné nos anos de 1972 e 1973 (Gil Moutinho)

Guiné 63/74 – P7096: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (23): Os Filhos d'um Deus Menor

1. Mensagem de Torcato Mendonça* (ex-Alf Mil da CART 2339 (Mansambo, 1968/69), com data de 3 de Outubro de 2010:

Caro Carlos Vinhal e Editores
Escrever pela manhã é porque algo se escapou ao normal.
Desta vez foi o Outono, não como prenuncio de "inverno do nosso descontentamento" mas chove. Não me alegra o suficiente para sair a chover assim. É natural e ciclo normal.

Vim ao blogue, li parabéns ao Hélder em alegria e, como o dia envio-te um texto molhado, não de lágrimas, na data desta emboscada já as perdera, talvez alguém, menos desumanizado do que eu tenha deixado cair alguma.

Aí vai o engenheiro e as desigualdades entre os homens... até na morte???. Não. Isso não. Até... fica para depois.

Um abraço e bom domingo.
Torcato

Vamos andando e rindo


ESTÓRIAS DE MANSAMBO II - 23

Os Filhos d’um Deus Menor

Chegou cansado, sujo, farto.
Depois de deixar o Grupo foi direito ao comando.
Entrou e viu gentes de fora. Sobre a mesa papeis e desenhos.
Depois dos cumprimentos, informou o capitão de que tudo tinha decorrido como o previsto e ia tomar um banho.

- Vá e depois venha ver isto. E, “isto”, eram os desenhos e papéis.

À saída ainda agarrou numa “White Horse”.

Após o banho estendeu-se na cama. Bebia pequenos goles da “cavalo branco”. Aquietava, assim, os bichos que por dentro o devoravam, os medos, e, deixando-se embalar nas saudades, adormeceu.

Sentiu que o chamavam. Olhou para o telefone sobre o caixote, pomposamente apelidado de mesa-de-cabeceira, soltou um palavrão e ficou a saber que o capitão o queria ver, já. Vestiu, pouca roupa, soltando palavrões e dando, nos intervalos, um ou outro gole de uísque.

Voltou a entrar na “sala do abrigo” multiusos; comando, messe, bar, tudo e nada ou muito naquele deserto de desconforto onde, o aproveitamento de um caixote ou similar eram luxos.

- Aqui o engenheiro trouxe o projecto de sanitários e balneários novos. Até fossa céptica tem. A água saída de lá é melhor da que aqui bebemos. Capitão disse!

Olhou para a papelada e trocou breves palavras com o engenheiro. Homem de calvície precoce, olhar e palavra calma e triste, aspecto, naquele local, de peixe fora de água.

- Nós temos balneários, bidões ligados em entre eles, chuveiros por debaixo e, se o IN não os furar, funcionam como em hotel de cinco estrelas. Não de hotel, temos sanitários rudimentares e nada privados; valas abertas em paralelo e umas tábuas a atravessá-las. Depois, bem depois com a pá deita-se terra por cima e está concluído. Funciona.
O engenheiro da calvície precoce disse:

- Mais primitivo não deve haver. Eu já visitei tudo e estou a par das instalações que têm. Depois de abrirem, conforme o projecto, o terreno, avisam e mandamos o material.

- Tudo bem respondeu.

O capitão já enrolava papéis e desenhos. O jantar vinha aí e a mesa iria sofrer mais uma transformação. O que nunca sofreu qualquer transformação foram os balneários e sanitários.

No outro dia, com a madrugada a chegar, sentiu-os partir. Lá ia a escolta ao engenheiro e a materiais diversos na véspera trazidos.
Pouco tempo depois, ainda Morfeu não tomara conta dele, sentiram-se sons de rebentamentos e tiros. No abrigo todos se ataviavam na confusão habitual e ouviam-se gritos: - emboscada… bora… bora…

Meio vestido, G3, cartucheiras e sacola (dilagramas e afins) na mão tomou lugar na viatura e lá foram.
Chegaram rápido com o som de poucos tiros ainda a ouvirem-se.

Viu o engenheiro, sentado e com o olhar ainda mais triste. O Grupo da escolta estava em posição pouco habitual e foi falar com o alferes. Sentiu então chamarem-no e viu alguns, mais rápidos que ele, a fugirem estrada acima. Lá no alto, no local habitual das emboscadas, estava quem a sofrera. Uma secção reforçada do Pelotão de Milícia 145 caíra naquela emboscada com mina comandada e forte potencial de fogo. O IN só parara a frente da coluna.

A mina comandada provocara dois mortos, três feridos, um militar que foi apanhado à mão e o Sargento tinha desaparecido. Houve quase corpo a corpo, troca de palavras, em fula certamente, sobre a “Lança Afiada” que o IN tentava vingar e, nesta emboscada o “libertador” que accionou a mina faleceu, vítima de tiro na cabeça.

Como prova deixou miolos. Sofreram cinco mortos, confirmados pelo cabo Milícia Laminé que conseguiu fugir e apareceu três ou quatro dias depois. Talvez os obuses 10.5 tenham sido responsáveis por algum dano.

Dano forte sofreu o Pelotão 145 com dois mortos destroçados pela picada e, em parte, no cimo das árvores, certamente para gáudio dos jagudis.

O Sargento, desaparecido, desistiu da perseguição, estava ferido, e regressou ao quartel.

Tempo, muito mas muito tempo depois leu algures, onde, não sabe ao certo ou seria só o vento ou o sonho a trazerem-lhe recordações? Seria esta emboscada? Talvez. Dizia assim, se bem se lembra:

- A Virgem Maria (ou um Ente Superior), protegera, mais uma vez, aqueles homens.

Claro, os do Grupo da escolta e, todos eles, saíram ilesos.

Felizmente, digo eu.

Só que, também digo, infelizmente, outros, talvez Filhos de um Deus Menor, sofreram na carne a violência, a dor, a morte, o horror de uma guerra fratricida. Sim mortes de ambos os lados em gentes que, talvez, anos antes conviviam como irmãos.

É a guerra. O estúpido desentendimento entre os homens e, porque não, entre os deuses.

Mansambo, aos 02 de Abril da ano da Graça de 1969
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(*) Vd. poste de 6 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7090: Blogoterapia (159): Paradoxo e uma Orquídea (Torcato Mendonça)

Vd. último poste de 2 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 – P7070: Estórias de Mansambo II (Torcato Mendonça, CART 2339) (22): A morte no final da comissão, Bissau, em 3 de Outubro de 1969

Guiné 63/74 - P7095: (In)citações (11): O arroz nosso de cada dia nos dai hoje... (Cherno Baldé)




Guiné-Bissau > Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > 6 de Junho de 2010 > Região de Cacheu > Barro > Foto tirada em 22 de Abril de 2010 > Palavra chave: segurança alimentar > Legenda: "O ano de 2009 foi um mau ano agrícola, especialmente com a redução da produção de arroz de bolanha salgada, responsável por cerca de 75% da colheita deste cereal na Guiné-Bissau.  Daí que, neste ano de 2010, tenha havido uma mobilização geral dos agricultores para recuperar antigas bolanhas (arrozais) abandonadas e voltar a cultivá-las.  Mulheres e homens meteram-se ao trabalho numa bolanha perto de Barro,  no norte da Guiné-Bissau, contribuindo para a construção de uma barragem que impeça a água salgada de invadir os terrenos de cultivo".

Foto (e legenda): © AD - Acção para o Desenvolvimento (2010). (Com a devida vénia...)


1. Comentário de Cherno Baldé ao poster P7073, com data de 3 do corrente:

Há vários factores que estão a contribuir para o abandono gradual da produção do arroz na Guiné:


A partir dos anos 80, com a liberalização do comércio e das importações, aliado à descida de preços do amendoím no mercado internacional, o cajú transformou-se no principal produto de exportação da Guiné contribuindo, neste momento, com mais de 90% do PIB e ocupando mais de 80% da população activa.

A partir do momento em que há uma grande procura deste produto no mercado internacional, sobretudo indiano, e na condição de uma troca directa cajú/arroz, prevaleceu a lógica do mais fácil, ou seja, as famílias/populações preferiram aumentar os campos de plantação de cajú em detrimento da produção do arroz que, como sabem, é muito exigente em água, técnicas de cultivo e mão de obra intensiva.

Pouco a pouco o cajú transformou-se no concorrente e substituto directo do arroz numa altura em que se verifica uma certa diminuição e irregularidade das chuvas assim como um crescente êxodo da mão-de-obra mais jovem para as cidades.

As nossas autoridades estão confrontadas com o dilema do preço do arroz. Não podem perfilar pela subida do arroz importado para não prejudicar as populações (real politique exige)mas, também, não o podem diminuir muito porque o estado não é actor comercial directo.


Cherno AB.

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Nota de L.G.:

6 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7089: (In)Citações (10): Vídeos produzidos pela AD - Acção para o Desenvolvimento na área do Ambiente e Desenvolvimento (Pepito)

Guiné 63/74 - P7094: Notas de leitura (155): Polón di Brá, de João Carlos Gomes (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Outubro de 2010:

Queridos amigos,
Foi graças ao Francisco Henriques da Silva, antigo embaixador na Guiné-Bissau e nosso camarada na Guiné que tive acesso a este documento publicado graças à ASDI – Agência Sueca para o Desenvolvimento Internacional.
É compreensivelmente um documento muito datado e incompleto, é um apanhado de acontecimentos aos olhos de um jornalista que juntou os dados que lhe pareceram mais óbvios e evidentes.

Um abraço do
Mário


Poilão de Brá

Uma guerra devastadora, desnecessária e injustamente imposta ao povo

Beja Santos

“Polón di Brá”, de João Carlos Gomes (Bissau, 1998) é um livro singular. João Carlos Gomes é um jornalista guineense credenciado que trabalhou na Rádiodifusão Nacional da Guiné-Bissau e nas Nações Unidas. Em 1998, entrou pela fronteira do Senegal e veio cobrir os acontecimentos do chamado levantamento armado iniciado em 7 de Junho. O Polón di Brá foi o marco de separação entre as posições militares das forças leais ao presidente Nino e as posições da Junta Militar sob o comando do brigadeiro Ansumane Mané. O poilão é uma árvore muito respeitada na Guiné, usada mesmo para cerimónias da etnia papel, à sua sombra reúnem-se os guineenses para conviver.

Os acontecimentos descritos por João Carlos Gomes iniciam-se com o levantamento armado e vão até ao acordo celebrado em Banjul (Gâmbia) e Abuja (Nigéria), em que se previa a retirada total das tropas estrangeiras que tinham vindo em auxilio de Nino Vieira, uma força de interposição garantiria a segurança entre a Guiné-Bissau e o Senegal, ir-se-ia formar um Governo de unidade nacional e haveria eleições gerais e presidenciais o mais tardar até fins de Março de 1999. É escusado dizer que este acordo foi ultrapassado pelos acontecimentos, as forças leais a Nino Vieira acabaram derrotadas, este pediu exílio a Portugal e Ansumane Mané viria, tempos depois, a ser assassinado.

O autor coteja alguns dos acontecimentos que estiveram por detrás do motim militar: queixas persistentes dos antigos combatentes que se sentiam desprezados; revelações feitas por Ansumane Mané de um ambiente degradado no interior das Forças Armadas, revelando que no círculo presidencial estariam os principais cabecilhas ligados ao tráfico de armas para o Casamansa; o presidente Nino destituiu Ansumane Mané; inicio dos confrontos militares que rapidamente se intensificaram e que se saldaram na fuga de muitos habitantes de Bissau quer para o estrangeiro quer para o interior do país. Mas, como é evidente, o pano de fundo é muito mais denso, tem camada estrutural. Por detrás de uma revolta que levou a negociações políticas, em que os revoltosos tiveram uma arma eficaz no Rádio Bombolon, a degradação económica e social era profunda: desmoralização do aparelho de Estado, anarquia em todas as cadeiras de comando, penúria, desastres completos nos investimentos, incapacidade para prestar serviços de saúde e manter o sistema educativo em funcionamento; a própria cidade de Bissau era a vitrina de todo este abandalhamento: buracos nas ruas, desaparecimentos dos jardins, ausência absoluta de higiene, casas degradadas, uma oligarquia a exibir escandalosamente o seu arrivismo perante um povo a viver em condições deploráveis. Os antigos combatentes viam as suas condições de vida a deteriorar-se, o plano de liberalização da economia agravou as já péssimas condições de vida da generalidade da população. O PAIGC perdera totalmente a sua força mobilizadora, dera-se uma cisão profunda entre as forças armadas e o aparelho político.

É nesta atmosfera de desalento que as confrontações militares e as destruições que provocaram levaram ao êxodo das populações de Bissau. as imagens publicadas em Polón di Brá são eloquentes: a população em fuga, viaturas e tanques carbonizados, edifícios destruídos ou severamente atingidos, museus e estabelecimentos pilhados.

João Carlos Gomes disserta sobre o progressivo abandono de Nino, a necessidade que ele teve em, abruptamente, pedir a colaboração do Senegal e da Guiné Conacri, sem medir que tal iniciativa podia ter levado a uma eventual desestabilização de toda esta região da costa ocidental: havia a questão do Casamansa, o cenário de uma guerra civil envolvendo grupos étnicos ou do aparecimento de uma ditadura militar, até à anexação da Guiné pelo Senegal e Guiné Conacri. Sobretudo o comportamento das tropas senegalesas atingiu as raias da infâmia com pilhagens de postos de gasolina, hotéis, estabelecimentos comerciais, violações, etc. O impacto psicológico dos militares estrangeiros foi extremamente negativo, deixou sequelas que irão demorar muitos anos a sarar.

Por via diplomática, iniciou-se o processo de reconciliação nacional. Enquanto se escolhiam os promotores oficiais e os locais para negociações que levassem a um compromisso entre as duas grandes facções, internamente buscavam-se as soluções possíveis para resolver as preocupações imediatas dos deslocados e refugiados (Portugal teve aí um peso indesmentível); começou a discutir-se a necessidade de uma reforma geral e global das forças armadas e uma democratização do aparelho de Estado, controlado com a mão de ferro de Nino e o seu círculo próximo; durante este período que culminou com os acordos de Banjul/Abuja houve manifestações de paz, movimentaram-se os líderes muçulmanos e católicos apelando ao termo de todos os contenciosos.

O jornalista incluiu em anexos o conjunto de documentos de grande importância para a compreensão desta fase da guerra civil: Tratado de Amizade e Cooperação entre a República do Senegal e a República da Guiné-Bissau; manifesto da Junta Militar para consolidação da democracia, justiça e paz; memorandos das negociações entre as duas partes, actas de reuniões conjuntas e um documento reivindicativo de Combatentes da Liberdade da Pátria denunciando a corrupção e nepotismo nas Forças Armadas.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7087: Notas de leitura (154): Etnia, Estado e Relações de Poder na Guiné-Bissau, de Carlos Lopes (Mário Beja Santos)