sábado, 1 de outubro de 2011

Guiné 63/74 – P8846: Memórias de Gabú (José Saúde) (7): “Piriquitos” exploram o centro “nevrálgico” da urbe guineense



1.   O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabú) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.


 “PIRIQUITOS” EXPLORAM O CENTRO “NEVRÁLGICO” DA URBE GUINEENSE

PASSEIO NA “5ª AVENIDA” DE GABÚ

Suavizavam o ar com o odor de uma “penugem” que os então “piriquitos” lançavam para o infinito de um horizonte inimaginável. A “incubação nos ovos” chegava ao fim. Tínhamos avezinhas. Um esticão de asas, um apalpar no escuro, uma vertigem dos mais fracos, o vociferar dos conteúdos da guerra, o trocar opiniões sobre os estratagemas do inimigo, as emboscadas, as minas, os ataques nocturnos aos quartéis entre tantos outros motes trazidos para a discussão davam azo, na altura, a uma conversa sempre indeterminada entre aquele grupo acabado de chegar ao Leste da Guiné. Cenário: a “5ª Avenida” de Gabú - quais turistas a passearem-se por terras das grandes metrópoles americanas! -. Ao fundo da dita cuja (“avenida”), eis o grupo a abancar no bar da Pensão Mar e a refrescar-se com as aprazíveis cervejolas. Era o princípio de uma jornada por terras de além-mar. Outras fainas se seguiriam.

A Guiné parecia-me apenas um sonho. Aliás, jamais me tinha ocorrido à ideia que o meu futuro militar me reservasse, como virtual conjectura, conhecer um dia a realidade da guerrilha guineense e as suas famosas bolanhas. Falava-se da Guiné como o diabo foge da cruz, recordo. A guerra naquela então província do Ultramar era terrível, afirmava-se. Traçavam-se cenários mórbidos da guerra na Guiné. A rapaziada comentava, a mensagem passava de boca em boca e nós, jovens, bebíamos as infaustas opiniões que entretanto nos chegavam. Porém, o destino contemplou-me e eu, tal como grande parte dos rapazes desses tempos, não fugi ao destino. Fui e voltei tal como parti, restando resquícios de histórias que contemporizam ainda hoje o meu calendário de vida.

Camaradas houve, e foram muitos, que já não usufruem, infelizmente, do prazer de partilhar momentos de convívio e narrar as suas histórias. Uns morreram em combate na densidade de um mato cerrado; outros faleceram numa emboscada; outros encontraram a morte em ataques aos quartéis; outros fecharam definitivamente os olhos em famigerados rebentamentos de minas anti-carro e anti-pessoal e, ainda, aqueles que morreram em momentos de verdadeira infelicidade.

Convivi com situações que me deixaram apreensivo quando em causa esteve a razão do último adeus. Momentos fatídicos, mórbidos, de camaradas que ousaram abusar do facilitismo e se deixaram cair, inadvertidamente, em princípios proibidos. Exemplifico o infeliz que encontrou a morte a limpar a arma esquecendo, entretanto, que tinha uma bala na câmara e outros em estúpidos acidentes com viaturas militares, enfim, todos, ou quase todos, temos histórias desta estirpe para contar.

Olho, atentamente, para duas fotos do meu álbum (Guiné) e revejo um passeio pela rua principal de Gabú, nos primeiros dias que ali “ancorámos”. O clique foi justamente dado em frente a uma casa onde residiam duas irmãs (se a memória não me falha), por sinal cabo-verdianas, comentava-se, que eram professoras na escola local. Vivendo momentos de uma juventude no seu auge, alguns furriéis e alferes, mormente, andavam doidos com as meninas que, por sinal, eram “boas como o milho”. Recordo que a malta andava mesmo“vidrada” de todo com aquele duo de airosas donzelas… mestiças. Parceiro? Não lhes conheci. Passemos à frente…

O grupo de turistas, todos janotas, embevecidos com a beleza natural que os rodeava, e o cheiro a África a inalar as nossas narinas, eis o grupo de “piriquitos” sentado a uma mesa do bar da Pensão Mar. Um nome que nada tinha a ver com a realidade deparada. O mais indicado, na nossa concepção, seria substituir Mar por Bolanha. O mar, lá longe, nem vê-lo. A bolanha era, isso sim, a afrodisíaca verdade constatada em terrenos circundantes. Mas aceitava-se a decisão do seu mentor.

África é, também, sumptuosa no consumo de bebidas, principalmente cerveja. O calor afirma-se como um aditivo determinante pelo prazer de consular as gargantas ressarcidas. Num convívio deveras saudável ficou uma tarde de passeio na apelidada “5ª Avenida” de Gabú, o alforge recheado de cervejas bebidas pelos “piriquitos” e um conhecimento mais profícuo de uma urbe onde as “bajudas” passeavam os seus corpos embrulhados em pedaços de pano garridos que torneavam a preceito os seus joviais e esbeltos corpos. O militar – “piriquito” – apreciava e… imaginava cenários quiçá inexequíveis de alcançar. Coisas de uma juventude irreverente.

Guiné, um país do qual guardo imensas recordações e que me levam agora, com 60 anos já feitos, trazer à estampa incontornáveis pequenas histórias intituladas “Memórias de Gabú”.


Refastelados à volta de uma mesa o grupo de furriéis ressarciam-se das cervejolas bem fresquinhas

À civil, os então “piriquitos” desbravavam o ambiente da “avenida”. Da esquerda para a direita: o Cardoso, Operações Especiais/Ranger, Eu, o Santos, Armas e Armadilhas, (?) e o Rui, Operações Especiais/Ranger



Um abraço a todos os camaradas,
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Fotos: © José Saúde (2011). Direitos reservados.
Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

29 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 – P8837: Memórias de Gabú (José Saúde) (6): A notícia infeliz do desaparecimento da menina de Gabú

 

Guiné 63/74 - P8845: O que se comprava em Bissau, com o patacão da guerra ? Os produtos e as marcas que não havia em Lisboa... ou eram "proibitivos" (5) (Magalhães Ribeiro/José Colaço)


Amigos e Camaradas, dando continuidade a esta série, mostro-vos hoje mais seis artigos. 5 meus que comprados em Bissau antes do meu regresso em fins de 1974 e 1 do José Colaço adquirido em Bafatá.

Já vimos as peças de tapeçaria que comprei no Mercado Municipal, serviços de louça na Casa Gouveia (um deles de origem japonesa, e não chinesa, como bem corrigiu o nosso atento Camarada António Graça Abreu), e “Manga de Ronco” que nos era oferecida farta e insistentemente pelos muitos artesãos, nos Cafés Portugal e Ronda, e que eram os locais que eu mais frequentava naquela cidade, digerindo a minha sandezinha de fiambre em pão barrado com manteiga e bebendo um fresquinho e saboroso “shandy”.

Agora desses artigos, que ainda vou mantendo aqui por casa, envio fotos de uma faca do pescador e uma faca com cabo de pele, uma bolsinha em couro, 2 almofadas, 2 álbuns de fotos e 2 cassetes musicais na moda então da Janis Joplin e do duo Otis Redding e Aretha Franklin.

Também enviada pelo José Colaço, junto fotos de uma máquina fotográfica da marca” Franka Solida Record”, que ele comprou em Bafatá, MADE IN GERMANY US ZONE, na casa Gouveia, mais conhecida em 1965 pela loja das manas libanesas “as gémeas” e que ainda hoje funciona a 100% (a máquina claro). O Colaço diz que a guarda como relíquia devido ao sistema de fole, que lhe faz lembrar aqueles fotógrafos das feiras das fotos “à la minute”, em que o fotógrafo enfiavam a cabeça num saco de pano escuro e a máquina estendia um fole frontal, enquanto o fotógrafo dizia para os clientes uma célebre frase, ainda hoje usada pelos mais antigos: “Olha o passarinho”. Clique e já estava.

Caso vingue a ideia que um nosso Camarada César Dias lançou no segundo poste desta série, de se programar uma mostra destas peças num dos nosso encontros anuais, podem contar com estes meus. 

Para todos um abraço, 

José Colaço/Magalhães Ribeiro  

Faca de pescador e faca com cabo de pele

Bolsinha de senhora
Almofadas decorativas

Álbuns de fotos de origem japonesa
Cassetes musicais
Máquina fotográfica ” Franka Solida Record” (propriedade do José Colaço)

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Notas de MR:


Vd. também anteriores postes sobre esta matéria em:




12 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8767: O que se comprava em Bissau com o patacão da guerra? Os produtos e as marcas que não havia em Lisboa... ou eram "proibitivos" (3) (Augusto Silva Santos / Hélder Sousa / Juvenal Amado / Luís Borrega / Luís Dias / Rui Santos)

 

15 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8780: O que se comprava em Bissau com o patacão da guerra ? Os produtos e as marcas que não havia em Lisboa ou eram "proibitivos" (4) (Joaquim Peixoto / Beja Santos)


Guiné 63/74 - P8844: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (24): Os Bravos do 13.º Pelotão sob o Comando do Furriel Montana

1. Em mensagem do dia 28 de Setembro de 2011, o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), enviou-nos estas boas memórias da sua guerra.


Memórias boas da minha guerra - 24

Os Bravos do 13º Pelotão sob o Comando do Furriel Montana

Parada actual do ex-GACA 3 (Grupo de Artilharia Contra Aeronaves)

Para quem prestou um pouco de atenção ao assunto da formação dos Pelotões, sabe que eles eram organizados conforme a chegada dos mancebos ou militares. Preenchia-se o 1º Pelotão, depois passava-se para o 2º e daí para o 3º etc., etc..

Desta forma, os últimos a chegar integravam o último Pelotão. Assim, por coincidência ou não, tínhamos os mais pacatos (e obedientes) e mais interessados nos primeiros e os arrastados e contrariados, a chegarem “à força” (alguns com dias de atraso) no último pelotão. Tive essa experiência, logo na recruta em Santarém.

No Verão de 1966, no GACA 3, em Espinho, quando se organizava mais uma incorporação de mancebos, verificámos que os “restos” ficaram para o 13º Pelotão. E como não havia mais que 12 Aspirantes, este Pelotão foi comandado pelo Furriel de Cavalaria, José Montana.

Como as exigências do programa da recruta se baseavam na “Ordem Unida”, o trabalho era focado essencialmente nessa preparação. Aliás, as apreciações da tutela vinham sempre após o desfile no Juramento de Bandeira.

Ora, está-se mesmo a ver que o Furriel era mais experiente que os Aspirantes. Daí que o seu 13º Pelotão acabasse por dar muito mais nas vistas. Apanhou com os tais “retardados” ou “inadaptados” mas com a sua experiência e o apoio dos seus Cabos Milicianos rapidamente dominou a situação.


O Geninho

Um dos seus recrutas era o “Geninho” que, devido à baixa estatura, andava à civil, por não existirem, no quartel, fardas para... crianças. Parecia um miúdo da escola primária. Tinha 1,37 de altura. A espingarda Mauser, pousada, com a coronha no chão, a sua frente, dava-lhe pelos olhos. O curioso é que ele era um jovem socialmente bastante desenvolvido e de trato muito agradável. Quando o mandaram embora, ele lamentava-se dizendo:
- Vou triste, porque eu até gosto disto e gostaria imenso de servir a minha Pátria.


O Coiro

O Carlos Costa, que levou logo o apelido de “Coiro”, por ser de Paredes de Coura e por não se “mexer para nada”, apresentou-se com quatro dias de atraso. Alegou que no Domingo não havia carreira para Viana do Castelo, na Segunda chegou atrasado à paragem do autocarro e na Terça deixou-se adormecer.

- Mas tu pensas que isto é uma brincadeira, ou quê? - gritou-lhe o Montana, para o amedrontar.

O “Coiro”, achou muita piada à observação e riu-se, ao mesmo tempo que respondeu:
- Olhe que, por aquilo que vejo aqui, eu não estava a fazer falta alguma. Falta, falta, fiquei eu a fazer lá em casa, para ajudar o meu velho a tratar do gado. Oh Senhor Chefe, há-de dizer-me como vou para a baixa, porque eu tenho um problema aqui nas cruzes e não posso vergar-me muito.

O Montana, não esteve com meias medidas, mandou-o logo para a enfermaria, a fim de se ver livre dele rapidamente.


O Mangualde

O Fernando Mangualde era meu vizinho. Já era casado e tinha 2 filhos. Logo que me viu lá no quartel, veio dizer-me:
- Trata da minha situação, junto dos teus amigos que fazem Sargento Dia, porque tenho que ir trabalhar todos os dias, para sustentar os meus meninos e a minha Rosinha.

O certo é que compreenderam a situação e ele passou a andar desenfiado e a trabalhar em Lourosa.


O Gonçalves

Parecia um indivíduo normal. Todavia, dava a ideia de que “não batia bem da tola”. Na hora de executar os movimentos da arma, na Ordem Unida, ele não ligava ao que se lhe dizia quanto aos movimentos, espreitava para o lado e punha a arma na posição final como via nos outros. Ora, como ele não progredia, foi mais um que o Montana despachou para... “tratamento psicológico”.

Um dia, já estávamos na cama e o Gonçalves fez questão em vir agradecer-nos ao quarto, o facto de o termos ajudado a livrar-se da tropa. Veio de táxi, directamente do Hospital Militar do Porto e seguia para a sua terra, perto de Vila Real. Ficámos de boca aberta.

- Como é que este morcom se safou? – Perguntou o Nora.

Ele ouviu e respondeu logo:
- Os médicos eram uns nabos. Então não é que eles me perguntaram quantas patas tinha uma vaca?

E logo eu, curioso, perguntei:
- E que é que você lhes respondeu?

- O que havia de responder? Disse logo que tinha três. Não, ia dizer-lhes que tinha quatro?!


Chico Perna

Outro caso de referir, foi o do Francisco Oliveira, conhecido por “Chico Perna”. Tinha uma perna mais curta dois dedos que a outra. O Montana disse-me:
- Não sei o que vou fazer com este gajo. Já lhe disse para ir à enfermaria arranjar uma consulta para o mandarem embora e ele ficou ofendido. Diz que é um homem igual aos outros.

Como eu conhecia o Francisco e a sua humilde família, fui incentivá-lo a ir-se embora. Naquele tempo, um indivíduo saudável que se livrasse da tropa, era um “caso de lotaria”. Pois o Chico Perna, todo resmungão, não abdicou da sua teimosia em continuar na tropa. Porém, o Montana não contou com ele para o desfile. Falou com o “Sargento das Hortas” e pô-lo lá a tratar dos porcos e das galinhas até ao Juramento de Bandeira.

Quando regressei da Guiné, 34 meses depois, perguntei pelo “Chico Perna” e disseram-me que estava preso em Elvas, por ter andado à pancada com um Cabo Miliciano.

Os bravos do 13.º Pelotão

O dia do Juramento de Bandeira

Foi um sucesso.
Familiares, namoradas e amigos dos militares acotovelavam-se à volta da rede para poderem ter uma visão total do desempenho do seu ente querido. Ao som da fanfarra, os Pelotões desfilavam, por sua ordem numérica, de norte para sul e entravam na grande parada, de fronte das casernas. Mais que todos os galões exibidos, botas engraxadas, metais reluzentes e discursos inflamados, foi muito apreciada a entrada do último - o 13º Pelotão. É que o Furriel Montana, fez-se atrasado propositadamente e vinha atrás do seu Pelotão, em passo normal, a vê-lo desfilar e a executar todas as manobras “automaticamente”, assinaladas com o bater certeiro da bota direita no chão, apresentando-se na sua posição final, ao lado dos outros, voltado para o Comando e em posição de sentido, aguardando a sua ordem.

Então, já no seu lugar, o Furriel Montana faz a continência e, no meio de um silêncio sepulcral, grita em voz sonante:

-Vooossa Seenhoriiia, meu comaaandaante, dá liceeença?

- Siiiimmm – ouviu-se, também por toda a parada.

Então assistiu-se a uma enorme ovação, emotiva e carregada de admiração, sem dúvida causada pela “cagança” demonstrada pelos “Bravos do 13º Pelotão”.

Silva da Cart 1689

Nota: Mais tarde, informaram-me que o Montana, que não chegou a ir à guerra, veio a ocupar um lugar importante num organismo público da Capital, talvez devido ao seu currículo, de onde se destacavam os louvores que foi acumulando na preparação dos nossos militares.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 23 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8810: Memórias boas da minha guerra (José Ferreira da Silva) (23): O mergulhador do Funchal

Guiné 63/74 - P8843: Cancioneiro de Bedanda (2): O soneto do artilheiro do 17º PELART, que termina com um sábio e genial conselho contra a loquacidade nacional: Findo, p'ra não obusar...




O "soneto do artilheiro", da autoria dos Fur Mil Art Machado e Fereira



Fonte: "O Seis do Cantanhês",  nº 1, 1973 (?)... Jornal mensal (só saíram dois números)...


1. Não conheço ninguém do 17º Pel Art que deve ter estado em Bedanda por volta de 1972/73...  Descobri agora, num exemplar do jornal de caserna "O seis do Cantanhez", milagrosamente salvo pelo António Teixeira (ex-Alf Mil da CCAÇ 6, Bedanda, 1972/73),  este cantinho dedicado ao "dezassete"... (Leia-se: 17=3  secções + obus 14)

Pois, camaradas e amigos da Guiné, vejo que a malta do 17º PELART era rapaziada que tinha coragem para dar e vender. Não sei se a artilharia era a aristocracia do exército (não me meto - estou proibido - nessas polémicas intestinas). De qualquer modo, o coice da coisa, o clarão do obus, o silvo, o trovão... era qualquer coisa  que fazia acelerar as pulsações do infante... Senti-las passar e silvar por cima da cabeça é uma experiência inesquecível: a princípio, uma gajo sente-se acagaçado, mas no fim o coração é invadido por um estranha e inebriante tranquilidade quando elas [, as granadas de obus,]  fazem calar as armas do inimigo... Sobretudo no mato, quando um gajo não tem buraco para enfiar os cornos...

Em contrapartida, o que lhe sobrava em sentido de humor era capaz de lhes faltar em talento... literário. Não se pode ter tudo, ou não se pode ser bom em tudo: mesmo assim a dupla Machado & Ferreira (onde é que vocês param, rapazes ?) deixaram-nos um  soneto,  pouco canónico é certo, mas bem humorado, e seguramente digno de figurar na antologia do(s) nosso(s) cancioneiro(o). 

Devo dizer-vos que adorei o último verso, um conselho (prático e terapêutico) para muita gente que neste país usa e abusa, todos os dias, do seu "tempo de antena", e que tem um problema de "incontinência verbal"...

Pois aqui fica, contra o desvario da loquacidade nacional, a advertência do artilheiro de Bedanda:

- Findo, p'ra não 'obusar'...

E eu também me fico por aqui... Não quero 'obusar', mesmo que às vezes me dê uma enorme vontade de 'obusar'... Durmam bem, artilheiros de todo o mundo! (LG)

PS - Não se pode falar da nossa heróica artilharia no TO da Guiné, em geral, nem do 17º PELART que esteve em Bedanda, em particular, sem chamar à colação o nosso doutor Amaral Bernardo e a sua famosa foto do obus 14 a fazer horas extraordinárias... (ou a faturar, como queiram).


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > CCAÇ 6 > 1971 > A famosa e feliz foto do ex-Alf Mil Médico Amaral Bernardo, membro da nossa Tabanca Grande desde Fevereiro de 2007: a saída do obus 14, de noite. 

Legenda: "Foi tirada com a máquina rente ao chão. Bedanda tinha três. Uma arma demolidora. Um supositório de 50 quilos lançado a 14 km de distância... Era um pavor quando disparavam os três ao mesmo tempo... Era costume pregar sustos aos periquitos... Eu também tive honras de obus, quando lá cheguei"... 

Foto (e legenda): © Amaral Bernardo (2007). Todos os direitos reservados.

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Nota do editor:

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Guine 63/74 - P8842: Cancioneiro de Bedanda (1): O hino da CCAÇ 6, Onças Negras (António Teixeira / Hugo Moura Ferreira)


O Hino dos Onças Negras da CCAÇ 6 (Bedanda)

Fonte: "O Seis do Cantanhês",  nº 1, 1973 (?)... Jornal mensal (só saíram dois números)...


Imagem: © António Teixeira (2011). Todos os direitos reservados


1. O jornal de caserna "O Seis do Cantanhez" foi criado e dirigido pelo Cap Gastão e Silva, da CCAÇ 6, tinha como redator-coordenador o Alf Mil Pinto Carvalho e, entre outros membros da redação, o Alf Mil António Teixeira...


2. Um dos camaradas mnais antigos da CCAÇ 6 é o Hugo Moura Ferreira  (1966/68) que já há muito, na I Série do nosso blogue, escreveu, sobre a história desta companhia africana, originária da 4ª Companhia de Caçadores Indígenas, o seguinte (Poste nº 820, de 31 de Maio de 2006)


(...) A determinado passo é afirmado [, no poste nº 817, de 30 de Maio de 2006] , perante elementos retirados da Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974), 3º Volume: Guiné, edição do EME, que “também ficamos a saber que a mais antiga Companhia de Caçadores, de recrutamento local, foi a CCAÇ 3, formada em Março de 1967, tendo como unidade mobilizadora o CTIG - 3ª Companhia de Caçadores Indígenas. Manteve-se em serviço até Abril de 1974. Estava sediada em Barro, como sabemos”
 

É precisamente sobre esta afirmação que eu gostaria de esclarecer que realmente em Março de 1967 foram formadas mais companhias com origem nas Companhias de Caçadores Indígenas (CAÇ I), como aconteceu com a CCAÇ 6 que foi formada na mesma altura tendo como unidade mobilizadora o CTIG – 4ª Companhia de Caçadores Indígenas. 

A confirmar que houve três mais antigas e não uma mais antiga estão os factos a seguir descritos. Assim, encontramos a páginas 62 daquela obra a referência a três Companhias de Caçadores Indígenas (1ª, 3ª e 4ª CCAÇ I) que, perante a Carta de Situação a 8AGO62, são localizadas em Farim, Nova Lamego e Bedanda. Por outro lado pode verificar-se nos Gráficos das Unidades que participaram, a pags 122, 123 que:

(i) A 1ª CCAÇ I se manteve no activo até Março de 1967, em Barro;

(ii) A 3ª CCAÇ I esteve em Nova Lamego até Março de 1967, tendo passado, a partir dessa data, a ser designada por CCAÇ 3, tendo sido transferida para Barro, nessa data, onde se manteve até Março de 1969, quando foi transferida para Guidaje de onde passou para Saliquinhedim, Bijene, onde se manteve até Abril de 1974;

(iii) A 4ª CCAÇ I esteve sempre localizada em Bedanda, até Março de 1967, quando passa a ser designada por CCAÇ 6, mantendo-se sempre no mesmo local, até Abril de 1974; (*)

(iv) Entretanto, em Março de 1967, quando foi efectuada a alteração de designação e de conceito de operacionalidade das Companhias de Caçadores formadas por pessoal africano, foi criada a CCAÇ 5 que se veio a localizar em Nova Lamego. Que em Agosto de 1968 se muda para Canjadude, onde se manteve até Abril de 1974;

(v) A partir daqui passaram então a ser formadas outras CCAÇ de Guarnição Territorial, das quais uma delas muito falada no nosso Blogue é a CCAÇ 13, do nosso amigo de Tertúlia Carlos Fortunato.

Esperando ter esclarecido e não confundido, mando abraços a todos.

Hugo Moura Ferreira

Ex-Alf Mil Inf 
(CCAÇ 6, Bedanda
Julho de 1967 / Agosto de 1968)
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Nota do editor:

(*) O mais antigo bedandense, o "pai da velhice", é o nosso camarada Rui Santos, da 4ª CCAÇ Ind, a quem temos todos que bater a pala... ´DE de 1963/65.

Guiné 63/74 - P8841: Convívios (378): 1º Encontro da CCAÇ 6, Onças Negras, e outro pessoal de Bedanda... Dia 5 de Novembro, na região da Bairrada: 1º anúncio (António Teixeira)


Fotos:  © António Teixeira (2011). Todos os direitos reservados


1. Mail do António Teixeira, com data de hoje, enviado aos seus camaradas da CCAÇ 6 (Onças Negras), com pedido de divulgação através do nosso blogue: 

Caros Onças Negras: 

Finalmente o nosso primeiro encontro já está em andamento. Para já, já temos data. O encontro será a 5 de Novembro, um sábado. Procuramos uma data com pelo menos um mês de antecedência para que todos possamos organizar as nossas vidas, visto que este encontro, como primeiro que é (lembrem-se que muitos de nós já não nos vemos há cerca de 40 anos), é de caráter obrigatório. 

Como disse um dos nossos Comandantes, o então nosso Capitão Ayala Botto, quem não estiver na parada leva uma porrada. 

O local, em princípio, também já está decidido. Para que fique praticamente equidistante, optamos pelo centro do país e que seja de fácil acesso. Assim, decidimos pela Bairrada, para degustarmos uns bácaros bem regados por aquele líquido divino cheio de "bolinhas". Ainda estou à procura do lugar ideal, que pelo menos reuna as seguintes caraterísticas: (i) boa relação qualidade/preço, (ii) em que possamos estar lá pela tarde toda; e (iii) a que se chegue facilmente . 

Também para contratar o lugar será necessário ter o número de convivas o mais aproximado possível. Assim, solicito que me contactem logo que vos seja possível confirmando a vossa presença, para que eu possa por minha vez contactar o restaurante. Será muito interessante que consigam contactar outros camaradas que por lá passaram [, na CCAÇ 6 ou noutras subunidades, Bedanda, região de Tombali].

No fim deste mail eu colocarei as pessoas que eu consegui contatar. Quero também aproveitar para vos comunicar que foram convidados 3 grandes amigos, que serão os convidados especiais do primeiro encontro: os nossos amigalhaços Luís Graça e Carlos Vinhal (do blogue Tabanca Grande) e o Lino Reis, que apesar de nunca ter estado em solo Bedandense, fartou-se de nos ver, mas por outro ângulo: visto de cima, pois foi piloto da Força Aérea e esteve lá no princípio da década de 70. 

Como se trata do primeiro encontro, de certeza que vai haver grandes manifestações de alegria, algumas até talvez um pouco exageradas, e como tal decidimos que desta vez seria só para os combatentes. As nossas companheiras desta vez tem de se contentar em ficar em casa e depois comer uma sandoscha de leitão que nós lhe iremos levar. 

Então, aqui está a lista dos contactados [, uma parte dos quais faz parte desta Tabanca Grande, que é o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]: 

Nuno Dias Ferreira, 
Vasco [Santos] (Cripto), 
Joaquim [Pinto] Carvalho
Dino, 
Luis Nicolau, 
Joaquim Silva, 
Luis Graça, 
Carlos Vinhal 
e Luis Santos.

O Vasco e o Carlos Azevedo (que estão comigo e com o Bravo nesta organização) vão contactar o Dias enfermeiro, o Naia e o Nelinho enfermeiro. Estou também a tentar contactar o Valente (alferes do pelotão). Agora vejam se conseguem encontrar mais alguém. 

Para entrar em contacto comigo, a melhor forma será por mail:



Ou por telefone: 917803681 (Se por acaso não atender, deixem mensagem por favor). 

Agora resta-me ficar à espera de notícias vossas. 

Aquele grande abraço, António Teixeira 

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Nota do editor


Último poste da série > 29 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8836: Convívios (371): 10.º Encontro do Pessoal do HM 241 - Bissau, dia 5 de Outubro de 2011 em Santarém (Manuel Freitas)

Guiné 63/74 - P8840: Notas de leitura (279): Os Anos da Guerra Colonial, de Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Setembro de 2011:

Queridos amigos,
Esta aturada investigação de Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso (na sequência de trabalho anterior, de que aqui já se fez recensão) é indubitavelmente a obra de maior fôlego até hoje publicada, permitindo ao leitor mesmo não-iniciado acompanhar os principais factos e acontecimentos que na cena internacional e nacional se projectaram nos teatros de operações e vice-versa.
Profusamente ilustrado, assegura ao leitor o conhecimento das unidades militares envolvidas e comporta um apreciável acervo bibliográfico.
Como se compreenderá, delimitaram-se as apreciações da recensão exclusivamente a feitos e factos da Guiné.

Um abraço do
Mário


Os anos da guerra colonial

Beja Santos

Editado primeiro em 16 cadernos e depois sob a forma de livro, “Os Anos da Guerra Colonial”, por Carlos de Matos Gomes e Aniceto Afonso constituem um importante levantamento de eventos de grande significado, seja na política internacional ou na política nacional, procurando estabelecer as respectivas ondas de choque na evolução dos teatros de operações (Quidnovi Editora, 2010).

Os autores dão a seguinte justificação, logo no preâmbulo: “Publicámos há 11 anos um livro em fascículos intitulado “Guerra Colonial 1961 – 1975”. 11 anos depois voltamos ao tema. Quisemos aprofundar o conhecimento dos factos, ensaiar a sua explicação e, essencialmente, saber e compreender o que se passou. A obra assenta numa cronologia de factos que procuram transmitir o essencial do que aconteceu nos vários palcos onde a guerra se travou – nos campos de batalha, nos corredores dos vários poderes, em Portugal e um pouco por todo o mundo que interferiu com as acções de Portugal e dos movimentos de libertação africanos. É sobre o saber mais e compreender melhor os anos da guerra colonial que trata esta obra”.

Tratando-se de um trabalho monumental, apela-se à compreensão do leitor para a necessidade de só relevar alguns dos principais acontecimentos que envolvem a Guiné. Logo no primeiro caderno consta o relatório do Tenente-Coronel Filipe Rodrigues, Comandante Militar da Guiné, sobre os acontecimentos do Pidjiquiti de 3 de Agosto de 1959. Talvez valha a pena equacionar o que aqui se diz com o que é referido no relatório do Comando da Defesa Marítima da Guiné e que consta dos anexos da História dos Fuzileiros de autoria do Comandante Sanches de Baêna. Não há entendimento sobre o número de mortos e feridos, a propaganda do PAIGC procurou explorar a dimensão dos incidentes, é crível que se tenham registado 7 mortos, 20 feridos e um número equivalente de detidos pelas forças policiais e que vieram a ser interrogados pela PIDE.

É no número 4 dos cadernos que se começa a falar das hostilidades desencadeadas pelo PAIGC em 23 de Janeiro de 1963. Fala-se na data de 1960 como do início das acções anticoloniais na Guiné, é um pequeno lapso, os ataques conduzidos pelo Movimento de Libertação da Guiné tiveram lugar em 1961. Procede-se a um pequeno historial dos acontecimentos e estranha-se que mesmo numa obra de divulgação histórica, a propósito das razões de Amílcar Cabral se escreva que este “Para a garantir a viabilidade da Guiné, engendrou a aliança de Estados com Cabo Verde, que possuía uma posição estratégica invejável. Infelizmente, os guinéus pensaram que a aliança era favorável a Cabo Verde, por lhe dar acesso ao interior de África, ao deserto, esqueceram-se de considerar a vantagem mútua”. Quem isto escreveu emitiu um juízo subjectivo, o historiador não tem que deplorar nem exaltar, são os políticos que respondem pelas estratégias e são os povos que as acolhem ou rejeitam, nada mais. Os acontecimentos referentes a 1963 na Guiné apontam para a sublevação e desarticulação do Sul e a criação da base do Morés, não há uma palavra para a constituição das bases do PAIGC no Leste, que tanta influência vieram a ter na região do Corubal, que ficou sob o comando de Domingos Ramos, que faleceu mais tarde em Madina do Boé.

De um modo geral, as sucessivas sínteses militares que precedem os diferentes anos da guerra destacam os factos mais salientes. Pegando, a título exemplificativo, em 1972, encontramos em Janeiro a captura pelas forças portuguesas de duas rampas de foguetões na região de Aldeia Formosa, em Abril uma delegação da ONU visitou zonas libertadas da Guiné, em Abril duas bombas explodiram em Bissau, mês em que Spínola enviou uma carta a Caetano e onde se menciona que “não ganharemos esta guerra pela força das armas”; e no mês seguinte Spínola encontrou-se com Senghor em Cap Skiring, mas Caetano determinou que esta política de contactos não devia continuar (os analistas consideram que estes pontos de vista irredutíveis constituíram uma viragem no relacionamento entre Caetano e Spínola; em Julho começam as referências ao fornecimento de mísseis terra-ar ao PAIGC e em Outubro a Assembleia Geral da ONU passou a reconhecer o PAIGC como o legítimo representante da Guiné-Bissau. Os autores procedem a uma memória sobre a africanização da guerra e a constituição das forças especiais africanas na Guiné.

No volume dedicado ao fim do Império, é igualmente importante o que Josep Sánches Cervelló escreve quanto ao 25 de Abril na Guiné: “Em Bissau, quatro dias depois do golpe de Estado, um grupo de militares redigiu uma carta dirigida ao general Spínola, na qual lhe pediam o cessar-fogo imediato, a entrega do poder ao PAIGC e a imediata repatriação dos soldados. O MFA assinalou que se recolheram mais de 300 assinaturas em 24 horas, algumas de oficiais superiores. No princípio de Maio, o batalhão de artilharia 6520 recusou-se a partir para Cadique para render um Batalhão com 16 meses em zona de combate e mais de 50 % de baixas. A decisão foi assumida por todos, excepto pelo Comandante. Depois de dias de negociação, acabaram por cumprir a ordem, depois de conseguirem a destituição do Comandante e o compromisso de que em Cadique se procuraria o cessar-fogo com o PAIGC. Estes protestos estenderam-se a todas as unidades sem excepção (…) Enquanto se desenrolavam estes acontecimentos, a guerra ainda não tinha terminado oficialmente. Desde o 25 de Abril até finais de Maio houve acções bélicas que provocaram 84 baixas portuguesas e mais de 60 entre a população que lhes era afecta. Quando, no princípio de Maio, o Tenente-Coronel Fabião chegou ao território como novo representante do Governo, e depois de comprovar "in situ" a degradação da situação militar, passou a colaborar estreitamente com o MFA local”.

Em jeito de síntese, Carlos de Matos Gomes analisa o conceito de combater pela Pátria e comenta que “A Guerra Colonial, do ponto de vista dos movimentos independentistas, tem dois tempos, o da guerra, na qual obtiveram o inegável sucesso de desgastarem as forças portuguesas a ponto de estas terem optado pela sua auto-regeneração através da sublevação contra a hierarquia, e o da descolonização e da pós-descolonização. A descolonização foi rápida a destruir a herança colonial. O período posterior está ainda hoje enredado na contradição entre o real, que é construir e administrar um Estado-Nação e a utopia de criar uma Nação africana com um povo africano dirigida por uma nova aristocracia constituída pelos sobreviventes vitoriosos das várias guerras anteriormente travadas”. Aniceto Afonso falando da história e da memória da guerra colonial recorda que o Movimento dos Capitães nasceu da necessidade de acabar com a guerra, desenvolveu-se em torno dos quadros médios do Exército, sendo eles os mais sacrificados estavam em melhores condições para se aperceberem da irracionalidade da guerra e eram os únicos capazes de se envolverem num movimento que levasse à queda do regime. Este trabalho sobre os anos da Guerra Colonial, refere este autor, não seria possível sem a abertura dos arquivos militares.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 28 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8830: Notas de leitura (278): Tarrafo, de Armor Pires Mota: censura e autocensura, em tempo de guerra. Cotejando as edições de 1965 e 1970 (Parte I) (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P8839: Resumo Descritivo da História do Pel Rec Daimler 2208 - Conclusão (Ernestino Caniço)





1. Conclusão do Resumo Descritivo da História do Pel Rec Daimler 2208*, enviado no dia 25 de Setembro de 2011 pelo nosso camarada Ernestino Caniço que comandou esta força em Mansabá, Mansoa e Bissau nos anos de 1970 a 1971.



Resumo Descritivo da História do Pel Rec Daimler 2208 (II)

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Nota de CV:

(*) Vd. poste anterior de 29 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8834: Resumo Descritivo da História do Pel Rec Daimler 2208 - Parte 1 (Ernestino Caniço)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Guiné 63/74 - P8838: Filhos do vento (7): O infanticício não era uma prática tão generalizada quanto se pensa... O caso do Balanta-Tuga, de Bedanda (Cherno Baldé)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Visita ao Cantanhez, no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1-7 de Março de 2008. Saltinho, na Estrada Bissau - Mansoa - Bambadinca-Saltinho - Quebo - Gandembel - Guileje.  Na altura, escrevi: " Uma imagem pouco usual no meu tempo [, 1969/71]: uma mulher [ fula] com dois gémeos... Não sei qual é hoje a prevalência do infanticídio"... Acrescento aqui e agora:  é um tema delicado, que atravessa todas as sociedades humanas (da chinesa de hoje à portuguesa dos Séc. XVIII e XIX)... Sempre ouvi falar, aos antropólogos coloniais (como o António Carreira,  no "infanticídio ritual"... Mas confesso que sei muito pouco do tema... Talvez o Cherno Baldé queira falar-nos, com a delicadeza, a inteligência, a cultura e a sabedoria de homem grande que são  atributos seus, sobre esta questão, que ainda hoje parece ser um problema na sua (e nossa, adotiva) terra... O Cherno ou o meu amigo do ISCTE, o prof doutor Eduardo Costa Dias, antropólogo de profissão e membro da nossa Tabanca Grande... (LG).


Foto: © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados.


1. Mensagem, de 26 do corrente,  do nosso amigo  Cherno Baldé, a partir de comentário ao poste P8818 (*)
 
Caros amigos,
 
Depois do meu primeiro comentário (**), já não queria voltar a falar sobre este tema de "pais cabeças de vento", se não tivesse acontecido uma coisa que quero partilhar com os demais para mostrar que, se a teoria do infanticídio podia ser real em certos lugares e em certas circunstâncias, não é menos verdade que não era uma prática generalizada, longe disso.
 
Ontem, ao fim da tarde, estava eu sentado em casa de um colega e vizinho,  quando apareceu um velho acompanhado de um jovem mulato, falando perfeitamente a língua balanta. Tratava-se de um primo do meu colega, filho da tia e de um soldado metropolitano [que esteve] na localidade de Bedanda entre 1972/74. 

Quando a criança nasceu, temendo que o pai quisesse levar o seu filho (os africanos em geral pensam assim), a família resolveu esconder a mãe e o filho, transferindo-os para a aldeia de Banta,  na zona de Empada. Assim, este jovem nunca soube nada do seu pai e na tabanca ganhou a alcunha de Balanta-Tuga, nome que lhe causou enormes problemas na sua juventude. Provavelmente, o pai nunca soube da sua existência. 

Não obstante, houve muitos casos em que os pais "cabeças de vento" simplesmente abandonaram os filhos que tiveram nos seus braços e viram crescer.

Falar de responsabilidades não se pode considerar, de modo algum, uma perversão. Se assim for, então, já não valera a pena falar de justiça e de humanismo que foi, desde o período da Renascença na Europa e no mundo, a luz que ilumina o caminho da nossa humanidade.  Eu sei que,  aos portugueses e aos europeus em geral, causa um grande calafrio sempre que se levanta a questão de assumir responsabilidades históricas. ...Serão problemas da consciência?...
 
Cherno Baldé 

[ Revisão / fixação de texto , em conformidade com a Novo Acordo Ortográfico: L.G.]

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Notas do editor:

 (*) Vd. último poste da série > 28 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8832: Filhos do vento (6): Os que ficaram por Canjadude (José Corceiro)


(**) Vd. poste de 20 de Setembro de 2011 >
Guiné 63/74 - P8799: (In)citações (36): Filhos do vento, ontem, brancu mpelélé, hoje (Cherno Baldé)