sábado, 8 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8873: Nós da memória (Torcato Mendonça) (2): Retaliação





1. Em mensagem do dia 7 de Outubro de 2011, o nosso camarada Torcato Mendonça* (ex-Alf Mil da CART 2339 Mansambo, 1968/69), enviou-nos o segundo texto para publicação na sua nova série "Nós da memória":





Mansambo > Torcato Mendonça com Braimadicó, CMDT do PAIGC, com quem trabalhou durante a Operação Lança Afiada
Foto de Torcato Mendonça, editada por Carlos Vinhal


NÓS DA MEMÓRIA
(…desatemos, aos poucos, alguns…)

2 - RETALIAÇÃO

Não apareceram do nada. Não.
Vieram num regresso de raiva. Vieram dos lugares para onde os haviam empurrado. Fundamentalmente vieram dizer que estavam vivos, fortes e prontos a lutar. Vieram dizer que nunca os seus Inimigos, os Colonialistas, teriam descanso naquela Terra. Vieram em vingança contra a destruição sofrida com a Operação “Lança Afiada”, ao descrédito e humilhação suportada com a destruição das ditas “Zonas Libertadas” e à fragilidade de suas defesas.

Só que ao aparecerem agora, assim, em força, quiseram dizer ter havido mau planeamento, fugas de informação, má condução daquela Operação no terreno por parte das NT (Nossas Tropas). Algo decorrera menos bem.

Vieram, então, retaliar pelos danos causados e a afronta sofrida.

Era Março, Março de 69, perderam certamente - as NT - mais de um mês a planear, a preparar, onze longos dias a executar a Operação no terreno e, posteriormente, demasiados a recuperar, a fazer relatórios e análises, a arrotar o efeito de uma triste vitória. A maioria que o fazia por lá não tinha andado. Hábitos que se mantinham.

Eles, o IN, furtaram-se a grandes combates. Emboscadas e flagelações aqui ou acolá, estrategicamente nos locais apropriados pois eram bons conhecedores do terreno. Depois continuavam, noite fora, cambando livremente o Corubal. Transportavam populações em atraso de fuga, militares feridos e salvavam ainda alguns haveres e armamento. Pode parecer estranho mas no outro lado, na margem esquerda do Corubal, não havia tropas especiais emboscadas. Era a guerrilha sem a contra guerrilha. Regressavam certamente alguns a juntarem-se aos que tinham permanecido perto dos apelidados “Santuários”, os míticos Baio, Buruntoni ou Fiofioli. As NT entravam quase livremente banalizando o dito poder das bases IN. Destruíam infra-estruturas, culturas, celeiros, escolas e postos sanitários ou mesmo um hospital no Fiofioli, armamento escondido em locais denunciados pelos prisioneiros. Alguns elementos das populações eram aprisionados para serem levados nos hélis dos abastecimentos. Outros, devido à idade eram deixados por lá entregues à sua sorte.

Baixas ao IN, aos militares do PAIGC e cooperantes internacionalistas ou mercenários, foram causadas poucas, muito poucas. Uma dúzia - confirmadas - ou nem tanto. Voltaram as NT a quartéis depois do Soldado Português ter suportado estoicamente longos dias de sede, de má alimentação, de temperaturas de mais de quarenta graus à sombra e superiores a setenta ao Sol. Era Março, Março de 69.

Voltaram as NT depois de vulgarizar locais míticos do In, tinham ido, como sempre o foram, aonde lhes fora pedido. Nada, depois desta Operação, desta destruição imensa ficara na mesma. Nem mesmo as tropas do PAIGC, ou os nossos Militares. Aquela vasta região passara por uma enorme destruição. Uma área imensa fora arrasada: - do Xime ao Corubal e por este abaixo até ao Xitole e, para cima, pela estrada do Xitole, Mansambo até Bambadinca. Seria uma vitória das NT? Ainda hoje penso nisso e não sei ao certo.

Essa dúvida levou os Comandos a estudarem calmamente relatórios e a fazerem análises. Eles, o IN, como guerrilheiros que eram, organizaram-se rapidamente. Tiveram apoio de populações que lhes eram afectas, receberam certamente auxilio de camaradas de outras zonas do Cuór ou Morés, a Norte ou da zona de Fulacunda a Oeste e, porque não do Sul. Tudo se deve ter rapidamente movimentado. Nós, as NT digeríamos a vitória e pensávamos “Numa Guiné Melhor”. Tanto assim que milhares de Fulas e Mandigas “capinaram” à volta de quartéis e aos lados de estradas. As populações, dizia-se, estavam connosco e limpavam campos de tiro ao IN e às NT. Foram as célebres Operações “Cabeça Rapada”. Era a guerra suave, em português suave. As ilações ao que acontecera demoraram. Terão aparecido?

Eles, o IN, esperaram um pouco, só um pouco e vieram em retaliação.

A 2 de Abril, o IN, montou forte emboscada, com mina comandada à distância, perto de Mansambo. Caiu nela parte do Pelotão de Milícias 145 da Moricanhe. Sofreram vários mortos e feridos. Curiosamente estabeleceram diálogo e o tema foi sobre a Lança Afiada. Aprisionaram um Milícia (Lamine). Dias depois fugiu e voltou a Mansambo. Foi ele que disse o número de mortos sofrido pelo IN e o efeito dos obuses 10.5.

Dias depois o IN batia o pé a tropas do Saltinho e Xitole na zona do Galo Corubal.

Galo Corubal a NW do Xitole

Iam fazendo flagelações para irem ganhando terreno, distrair as NT e procurarem uma aproximação a zonas mais importantes. O Boé, toda a zona da margem esquerda do Corubal - (ver Carta 1/500.000) - estava sem militares nossos e os aquartelamentos ficavam longe da fronteira.

Localização de Madina de Boé na margem esquerda do Rio Corubal, a escassos quilómetros da fronteira com a Guiné-Conacri

Eles iam tentando avançar e, de quando em vez, uma emboscada mais forte ou um ataque a um aquartelamento ou Tabanca em auto-defesa aconteciam.

A meio de Maio caí com o meu Grupo numa emboscada forte. A 28 de Maio, foram mais atrevidos e atacaram Moricanhe, Amedalai, Taibatá e, pela primeira vez, Bambadinca, a sede do Batalhão. Certamente que o dispositivo militar do PAIGC e os seus efectivos tinham sido reforçados e reposicionados no terreno.

Os ataques a Mansambo,Candamã, Áfia e outros continuaram.

Era a retaliação à “Lança Afiada” e a alguma inércia das NT.

Confirmava-se o ditado: - “quem o inimigo poupa às suas mãos lhes morre”. Parece brutal esta frase. Parece hoje. Outrora certamente que não e leva-nos a questionar a maneira como aquela Operação foi feita. É assunto que estou há demasiado tempo a tentar escrever. Queria fazê-lo sem pôr em causa certos comportamentos militares.

Só, no aspecto de Informações, um pequeno levantar do véu. Cheguei a Bissau, vindo de férias da Metrópole, em meados de Fevereiro. Foi-me logo dito, em Santa Luzia ou no “Café Bento”, que ia haver uma grande Operação no Leste. Sem terem qualquer cuidado. A Operação foi para o terreno a oito e dez de Março. Assim era difícil trabalhar ou as chefias militares trabalharem.

A guerra continuou mas creio que se começou a transformar. O In infiltrou-se mais e foi obrigado a recuar. O nosso dispositivo no terreno foi alterado mas infelizmente era necessário “dar forte”, mais forte e menos pensamentos de diálogos. Todos sabíamos que o diálogo e a componente política eram fundamentais. Todos sabíamos o que se tinha passado na Indochina, mais tarde Vietname, Argélia e não só. Muitos sabiam a importância da componente militar e a impossibilidade de se inverter o curso normal da História. Muitos sabiam também como eram os políticos desse tempo. Certo foi que o Soldado Português sempre deu provas de dignidade e sempre foi muito além do que humanamente era admissível de se exigir a um ser humano.

Nada mais acrescento por hoje. Ultrapassei quantidade das palavras dos “escritos” e seria fastidioso continuar. Um dia.

(T. M. escreve de acordo com a antiga ortografia)
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Nota de CV:

Vd. primeiro poste da série de 16 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8786: Nós da memória (Torcato Mendonça) (1): Hesitação

Guiné 63/74 - P8872: Parabéns a você (323): Agradecimento de Jorge Rosales

Bissau, Praça do Império, Novembro de 1965 > Jorge Rosado tendo como fundo o Palácio do Governador

1. Mensagem do nosso camarada Jorge Rosales*, ex-Alf Mil da 1.ª CCAÇ, Porto Gole, 1964/66, com data de hoje 8 de Outubro de 2011:

Camarigos:
Agradeço sinceramente as mensagens que me enviaram, que me tocaram sempre bem fundo, porque nada é mais importante do que a amizade e o companheirismo.

E agradecer à Guiné, porque foi aquela terra que nos marcou para sempre e já lá vão 45 anos !!!

E é a Guiné que nos une. Ontem, esta noite foi um recordar sem fim. E "recordar é viver".

O cheiro da terra depois da chuva intensa, o tarrafo, as bolanhas, a vinda da DO às quartas-feiras, que enviava pelo ar o saco do correio e dizia adeus com as asas, quando regressava a Bissau

Os meus soldados em Porto Gole, o Preto Bijagó, meu guarda-costas. O meu pelotão de nativos em Bolama a quem dei instrução. No dia do Juramento de Bandeira vieram todos no seu ritmo africano acompanhar o "alfero" ao cais, que no dia seguinte regressava a Lisboa no Ana Mafalda. E foi graças ao blogue do Luis Graça, que passados estes anos, soube que muitos desses soldados foram parar às mãos do Beja Santos e do Henrique Matos. Vou terminar, de emoções fortes e lágrima ao canto do olho já chega...

Saúde e uma lembrança para os camaradas que lá ficaram, incluindo os nossos camaradas guineenses que ficaram entregues à sua sorte, o que me toca especialmente...

Estamos juntos,
Jorge Rosales (farda amarela )
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8866: Parabéns a você (322): Jorge Rosales, ex-Alf Mil da 1.ª CCAÇ (Porto Gole, 1964/66)

Guiné 63/74 - P8871: Agenda cultural (162): Lançamento do terceiro livro do nosso JERO, um cistercense de alma e coração: Alcobaça é comigo,... Domingo, 9 de Outubro, pelas 15h00, no Parlatório do Parque dos Monges, Chiqueda, Alcobaça


 Alcobaça > Setembro de 2011 > O jornalista, escritor e nosso camarada e amigo JERO (acrónimo de José Eduardo Reis de Oliveira), autor de Alçobaça é Comigo.


 Alcobaça > Mosteiro de Alcobaça > Homem de múltiplas facetas e talentos, o JERO converteu-se recentemente aos encantos e deslumbramentos da fotografia digitar...

Fotos: © JERO (2011). Todos os direitos reservados


1. Mensagem do nosso JERO, com data de 3 do corrente:

Caro Luís: Sei que tens uma vida complicada mas quem sabe se poderás estar em Alcobaça no próximo domingo? Segue uma breve apresentação do evento.

Um abraço cisterciense do
JERO




2. Convite:

JERO é o pseudónimo jornalístico de José Eduardo Reis de Oliveira, que o utiliza em jornais de Alcobaça, e não só, desde os seus 18 anos.


Alcobaça é comigo é o seu 3º livro, que pretende recordar algumas figuras que marcaram certas épocas da terra onde nasceu e onde tem vivido a maioria dos seus 71 anos.


São 30 histórias como poderiam ser mais. De diversos tons e sabores. Umas sérias, outras brincalhonas e outras entre o sério e brincalhão.


Alcobaça é comigo é apresentado no próximo dia 9 de Outubro de 2011, pelas 15H00, no Parlatório do Parque dos Monges, em Chiqueda, Alcobaça.


O painel de apresentação é de luxo. Padre Carlos Jorge, Drª.Madalena Tavares e Dr. Carlos Gomes.

Teremos muito gosto em contar com a sua presença.


Até domingo!

 3. Do seu blogue pessoal, Jeroalcoa -  Histórias e memórias pessoais, transcrevemos parte de um poste de 16 de Setembro último:


(...) 'Alcobaça É Comigo«  pode parecer pretensioso . Mas não é. É apenas sentido e, eventualmente, possessivo porque Alcobaça é a minha terra desde que me conheço. E já lá vão setenta e um. E mais alguns meses.

Por causa disso – o tempo passado, a memória desse tempo e o gosto de escrever – levaram-me a organizar esta espécie de livro. Numa recente conversa com um amigo especial – o meu barbeiro – deu-me (sem saber…) a força que me faltava para me abalançar a esta tarefa. Algumas das histórias “dadas à estampa” nas páginas seguintes foram temas de conversa em diversos “cortes de cabelo”. Quase que posso dizer que havia mais conversa que cabelo cortado…

Em passado recente disse-me: 'Que histórias que você conta! Devia escrever um livro'.
E fui na conversa dele e o livro aqui está. Despretensioso. Umas vezes brincalhão. Outras vezes sério. Essencialmente… para memória futura.


Tenho a noção que algumas das histórias e historietas relatadas só os mais velhos as conhecem. Fica aqui portanto o seu registo para os outros. O meu registo e a minha dedicatória para os mais novos. Os que não conheço e os que conheço. É…especialmente dedicado aos meus netos que, como não podia deixar de ser , também 'entram no livro'.
Aliás eles entram em tudo na minha vida. Longe ou perto…em ALCOBAÇA…comigo.»
(...)


4. Comentário de LG:

Alguns de nós perguntarão, legitimamente: Mas o que é que este livro tem a ver com a Guiné e a nossa guerra  ? E eu, à partida, não sei responder por que não conheço nenhuma das trintas histórias, contatas e recontadas pelo JERO, na tertúlia do barbeiro, entre duas barbas e um cabelo... 

É verdade que podia pôr a notícia do lançamento do 3º livro do JERO noutra série, Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres... Mas achei que estava bem aqui, na nossa Agenda Cultural...  Por outro lado, quem é que não tem curiosidade em saber as conversas dos homens no momento da tosquia ? Sempre ouvi dizer é que na cara dos pobres que os barbeiros aprendem... A barbearia teve sempre os seus encantos e mistérios. Mesmo na guerra, em tempo de guerra, nos nossos Bu...rakos,  também tínhamos o nosso baeta... Em dia de tosquia, baixavam-se as guardas, esbatiam-se as hierarquias, rangiam-se os dentes, dizia-se mal do "patrão", cobiçava-se a mulher ou a laveira do alferes ...

Em especial na província,  o sítio onde os homens punham  a conversa em dia e, noutros tempos, transpiravam e alguns conspiravam... Nela pontificava uma personagem, popular mas ao mesmo tempo estranha, mágica e poderosa, que era o barbeiro mas também o barbeiro-sangrador, o enfermeiro, o tiradentes, o confidente...  

Enfim, estou curioso em ler as histórias do Jero, temperadas com o aço da navalha do seu barbeiro... Tanto mais que ele, além de grande, encantador e sedutor contador de histórias, ele, a sua figura, algo mística, arrancadada das esculturas do mosteiro de Alcobaça,  faz-me sempre lembrar um aristocrático e medievo monge cistercense, daqueles a quem devemos quase tudo ou muito do que somos enquanto povo... 

No meu caso, falo como português, estremeno, à beira mar plantado... O vinho, a pera rocha, a maçã reineta, os cereais, a doçaria, as bebidas espirituosas... mas também e sobretudo o "imaterial" das nossas sociedades, a que chamamos cultura, ou que é o outro lado da cultura: os livros, a língua, a música, as artes, a arquitetura, o ensino da medicina, e por aí fora...

Não se nasce impunemente em Alcobaça. E por isso o JERO com toda a humildade e autencidade pode vir, a terreiro, dizer, alto e bom som: É, camaradas, Alcobaça é comigo!...  E eu estou com ele, meu camarada da Guiné. O lançamento de um livro é sempre um exercício de cultura e memória. Mas também de partilha e comunicação, ou seja, é um ato da aventura humana.

 "Escrever um livro, plantar uma árvore e fazer um filho", não foi o Eça de Queirós quem o disse, foram os intelectuais da Alta Idade Média, os monges do Ora et labora (reza e trabalha), os únicos que sabiam ler e escrever, quando o Portugal, hoje milenário, ainda (ou já) era uma criança, o Condado Portucalense...

Um xicoração muito grande  para o JERO, antecipado, para o caso de eu não poder estar amanhã em Alcobaça, a tempo e horas, na sua festa, no lançamento do seu livro. Saudações para a família, amigos e camaradas da Guiné que se quiserem e puderem associar a este festivo evento, que é também da nossa Tabanca Grande...  LG

PS - Há mais cistercenses em Alcobaça, para além do Jero... Por exemplo, o nosso Amado Juvenal, mesmo que mais laico do que o Jero, mas não menos talentoso contador de histórias... (Isto, este talento,  vem-lhes do ADN monacal, ou terá sido cultivado - ou no mínimo temperado - nos rios e bolanhas da Guiné ?)

Guiné 63/74 - P8870: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (28): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte IV) (Cherno Baldé)

Continuação do relato do Cherno Baldé [, cuja infância foi passada no quartel de Fajonquito, durante a guerra colonial, e hoje é quadro superior da administração pública da Guiné-Bissau, ] sobre as aventuras e desventuras do Chiquinho, enquanto estudante, na antiga União Soviética, primeiro na Moldávia e depois na Ucrânia  (1986-1989).


(4) No campo de férias de uma Sovkhoze

Aqueles que ficaram [, na Moldávia, durante as férias de verão de 1986,] (*) foram convidados para integrar as brigadas de trabalho de campo numa Sovkhoze (propriedade agrícola do Estado) (**).

Logo no primeiro dia levaram-nos para a colheita de maçãs. Mal sabiam do erro que tinham cometido. A fruta estava bem madura e bem saborosa, de diferentes cores e tamanhos numa área extensa. Os estudantes assaltaram as árvores como um bando de macacos. Depois do magistral banquete, deitaram-se à sombra. 

Quando os camiões que vinham para o carregamento da fruta chegaram,  ainda nem metade do trabalho estava feito e,  pior ainda, o trabalho não tinha servido de nada, pois no dia seguinte toda a colheita tinha sido deitada fora por causa das manchas pretas provocadas pela brutalidade dos desprevenidos trabalhadores, oriundos essencialmente de países tropicais. As maçãs tinham-se mostrado ser muito mais frágeis do que as frutas que a maioria conhecia na sua terra.

No segundo dia, tentaram corrigir o erro e mandaram-nos para uma plantação de apricots (damascos). Disseram-lhes que no fim, o pagamento seria feito mediante a quantidade de caixotes da fruta que tivessem enchido. A colheita durou alguns dias e tudo parecia bem encaminhado, mas a partir da segunda semana, já cansados da rotina, começaram a procurar uma estratégia de contornar a situação.

Foi um estudante de Bangladesh que deu o mote, e  que rapidamente foi adotado pelo resto do grupo. Colocaram ramos da árvore por baixo dos caixotes, completando a parte de cima com a fruta vermelho rubra. O rendimento tinha aumentado rapidamente, enchendo muitos camiões. Só descobriram o logro no dia seguinte.

Em retaliação desta aldrabice, o grupo foi desmantelado, os seus elementos foram dispersos, engrossando outras equipas. O Chiquinho continuou na companhia do Amin, o genial rapaz de Bangladesh que tinha mostrado claramente que não tinha aterrado naquela terra para se transformar num Kolkhoznik (trabalhador de colectividade agrícola).

Para acabar com a brincadeira, mandaram-nos para a poda de um extenso campo de pés de uvas recém-plantadas. Com o sol a queimar as espinhas no campo aberto, não tardou muito para que a maioria se despistasse à procura de água e de sombra. Quando os vieram buscar, ao fim da tarde do primeiro dia de trabalho, ainda não tinham avançado vinte metros ao longo das fileiras que se estendiam por mais de um quilómetro de comprimento.

Do campo de uvas, foram enviados para a colheita de abóboras verdes, mas os resultados não eram muito melhores, pois os estudantes,  esfomeados, comiam a maior parte das abóboras que encontravam e que eram destinadas aos animais e à indústria da conserva. No fim deste ciclo de insucessos, acabaram por ser dispensados do trabalho de campo, sem diploma de mérito nem contrapartida financeira.

O campo de férias prolongou-se ainda por mais algum tempo. Dispensados do trabalho, depois de terem demonstrado aquilo que não sabiam fazer,  que era trabalhar, criaram uma equipa de futebol para passar o resto dos dias que lhes restavam antes do regresso a Kichinev onde os esperava a afetação para as cidades onde deveriam continuar os estudos.

Cherno Baldé [, foto à esquerda, na Ucrânia, em 1989]

[ O texto acaba aqui. Mas presume-se que tenha continuação]

[ Revisão / fixação de texto: L.G.] 
________________

Notas do editor:

(*) Vd. último poste da série > 6 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8863: Memórias do Chico, menino e moço (27): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte III) (Cherno Baldé)


(**) Sovkhoze (palavra russa) : s. m.  Na ex-U.R.S.S., grande herdade modelo do Estado, com a finalidade de exploração piloto. (Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).  Também havia o kolkhoze  (palavra russa)  s. m. Na ex-U.R.S.S., cooperativa agrícola de produção, que detinha perpetuamente as terras que ocupava e a propriedade colectiva dos meios de produção.(Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

Guiné 63/74 - P8869: Filhos do vento (8): O Jorge Gomes, de Barro, e o Bacar Turé, de Bigene (A. Marques Lopes)


Texto de nosso amigo e camarada A. Marques Lopes, coronel DFA, na reforma, ex-alferes miliciano na Guiné (1967/68) (CART 1690, Geba, 1967/68; e CCAÇ 3, Barro, 1968), e um dos membros mais antigos da nossa Tabanca Grande... Escrito por ocasião da viagem de grupo organizada pelo Xico Allen (Do Porto a Bissau, Abril de 2006)..

Reproduzido hoje, com a devida vénia ao autor [, foto à esquerda] (*), na série Filhos do vento (**)


 Caros camaradas e amigos: Foram casos que muito me sensibilizaram nesta visita à Guiné. É sabido que há-de haver muitos casos destes, mas estes tocaram-me pessoalmente e quero dar notícia disso.

Em Barro, o Bacar Sani, filho do Cacuto Seidi, disse-me que havia um filho de branco chamado Jorge Gomes [, foto à esquerda]. Pedi para o ir chamar, mas o rapaz não vinha, vergonha ou receio, não sei. Fui eu pela tabanca dentro à procura dele e lá cheguei á sua morança.

Disse-me que o pai se chamava F... e que lhe tinha dado o nome, mas fora-se embora. Não sabia quem era a mãe, porque ela desaparecera, por vergonha e repúdio dos da sua etnia (não lhe perguntei qual). Também não me soube dizer a qual companhia pertencia o pai, mas penso que terá sido das últimas a estar em Barro, pois que o rapaz tem 33 anos.

Passámos, depois, em Bigene, onde parámos bastante tempo para o turbulento fotógrafo Hugo [Costa] fazer a sua reportagem fotográfica. E aí conheci o Bacar Turé, que me disse ser filho de (...)  [um]  médico do Destacamento [...] dos fuzileiros que estavam em Ganturé [no Rio Cacheu, a sul de Bigene], e que o comandante [...] conhecia bem o pai dele, que se fora e não lhe dera nome, daí ser Bacar Turé [, foto à direita].

Há mais casos semelhantes a estes, é claro, pois é verdade, como disse o António Gedeão, que, como muitos, também eu "Tremi no escuro da selva, /Alambique de suores, /Estendi na areia e na relva, /Mulheres de todas as cores" (in Poema da Malta das Naus). E tive de pensar sobre o que faria eu se soubesse que tinha medrado alguma semente minha em terras da Guiné... mas cada um deve pensar por si, evidentemente.

A. Marques Lopes

Fotos: © A. Marques Lopes (2006). Todos os direitos reservados.

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Notas do editor


(**) Último poste da série > 29 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8838: Filhos do vento (7): O infanticício não era uma prática tão generalizada quanto se pensa... O caso do Balanta-Tuga, de Bedanda (Cherno Baldé)


(**) António Gedeão > Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

In Teatro do Mundo, 1958

Fonte: CITI - Centro de Investigação para Tecnologias Interactivas, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa (com a devida vénia...)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8868: Notas de leitura (284): Orlando Ribeiro, Guiné, 1947, Cadernos de Campo (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Setembro de 2011:

Queridos amigos,
Este livro é muito mais do que uma agradável surpresa, é um manifesto de uma certa maneira de investigar com perspicácia, respeito pelo outro, esbraseado pela curiosidade e pela vontade de perceber. Era um tempo do conhecimento multimodo, a geografia abarcava o ser humano, a natureza, os valores, a espiritualidade, as comunicações e a economia.
A edição é primorosa, os cadernos de apontamentos de Orlando Ribeiro são uma jóia. Poderá parecer pesporrente, mas quem ama a Guiné não pode desconhecer este livrinho com quase 65 anos, estávamos a nascer e o maior geógrafo português do século XX a olhar a Guiné com encanto.
Não percam esta leitura.

Um abraço do
Mário


Orlando Ribeiro na Guiné, em 1947:
Uma jóia editorial, uma leitura imperdível

Beja Santos

“Orlando Ribeiro, Guiné, 1947, Cadernos de Campo”, Organização e estudos por Philip Havik e Suzanne Daveau, coordenação do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, Edições Húmus, Lda., 2010, é um documento soberbo, de importância relevantíssima para a cultura luso-guineense. O seu conteúdo é constituído pelos cadernos de campo onde o reputado geógrafo anotou as suas impressões durante a viagem que efectuou à Guiné, em 1947. Mais propriamente, o que ora se publica é o primeiro dos quatro cadernos, seguir-se-ão os apontamentos das suas viagens de estudo a Cabo Verde, Angola e Moçambique.

Como escreve Diogo de Abreu, director científico do Centro de Estudos Geográficos de Lisboa, este primeiro caderno é testemunho eloquente de como então se fazia a ciência, com limitados recursos tecnológicos mas com ilimitada capacidade intelectual de observar, comparar e perceber. Um caderno que evidencia, na sua simplicidade, a sede de saber, a visão do erudito e o trabalho esforçado do explorador. O que efectivamente assombra nestes apontamentos tomados por vezes à pressa, por um investigador que quando chega às colinas do Boé já sente os efeitos do clima molesto, mas que vai registando, deliciado, os primores da osprindade (hospitalidade em crioulo) e que se faz especialmente fotografar com o seu guia-intérprete, irmão do régulo Gabu, é modernidade do nosso maior geógrafo do século XX. Com efeito, todas estas notas de viagem destilam a sua matriz intelectual: o sentir a interdependência que existe entre o homem, a natureza e a sociedade, a inesgotável curiosidade em procurar conhecer os traços comuns entre povoamento, a cultura e a agricultura num contexto de grande diversidade e complexidade étnicas.

Mas vejamos o pano de fundo em que tudo isto ocorreu. A Missão de Geografia na Guiné inseriu-se nas actividades promovida pela Junta das Missões Geográficas e de Investigação Coloniais, fundada em 1936, e que a partir de 1951 se passará a chamar Junta de Investigações do Ultramar. A sua curta missão irá realizar-se num período excepcional para o desenvolvimento científico do território, onde se sucedem missões de geólogos, pedólogos, zoólogos, a missão geo-hidrogáfica, os inquéritos etnográficos, Teixeira da Mota criara o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa e o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa graças ao estímulo do comandante Sarmento Rodrigues, governador da Província.

Orlando Ribeiro chegou a Bissau em 10 de Março de 1947, irá viajar centenas de quilómetros pela rede de estradas de terra batida, alojando-se, regra-geral nas residências dos administradores ou chefes de posto. Como escrevem os coordenadores da obra, numa tentativa de avaliação dos impactos desta missão, “A experiência guineense enriqueceu muito o ensino longamente dispensado por Orlando Ribeiro e pelos seus colaboradores e alunos, evitando o prolongamento do tradicional amadorismo apenas baseado em bibliografia e informação indirecta”. O trabalho de campo de Orlando Ribeiro decorreu em quatro áreas geomorfológicas distintas (litoral, região de transição, planalto de Bafatá e Gabu, colinas do Boé). O leitor vai deliciar-se com as notas desbravadas pelos organizadores, o geógrafo está atento à natureza dos solos, descreve a zona de mangue, faz comentários tais que logo se fica a perceber que também fotografou, como é o caso da fotografia da capa deste livro onde está um rapaz papel a levantar o muro de uma casa na região do Biombo; interessa-se pela alimentação, pelos recursos, não esconde a admiração pelos cabedais de cultura, pelos artefactos, etc.

O livro é pois constituído pelas páginas dos seus cadernos de notas, seguem-se dois estudos, um sobre a missão de geografia à Guiné em 1947 e outro acerca do mapa topográfico da Guiné. O álbum fotográfico do autor espelha a perspicácia e o humanismo do mestre, pela riqueza dos temas abordados, desde a construção de taludes em arrozais, passando pela diversidade de habitações até imagens da integração do ser humano na paisagem.

É uma leitura imperdível, e se o leitor está remitente, aqui se deixam alguns parágrafos para demover as últimas reticências:

“Um acampamento com vários brancos, se por um lado torna a vida mais agradável, empata muito também. Creio que para missões de pouca duração, o material muito completo traz menos vantagens do que inconvenientes. Uma cama portátil e o indispensável para cozinhar, um ou dois criados e numa palhota ou na casa de um posto, o abrigo para a noite, dão maior mobilidade e fazem perder menos tempo. Isto o que a experiência me ensinou, pena foi que não tivesse sabido antes”.
“O branco vem para se demorar uns anos que os azares da vida podem alongar mas nunca com o espírito de fixar-se; a família fica muitas vezes longe ou passa largas temporadas noutro clima. Lentamente o homem isolado, roído pela melancolia abandona-se à sedução das belezas locais e às vezes uma prole matizada acaba por fixá-lo a este solo hostil”.

Convém não perder tempo, o livro é mesmo uma jóia editorial, há que saudar os admiradores da obra de Orlando Ribeiro e esta primeira edição de uma viagem que arriscava a ficar no sono dos arquivos.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 3 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8850: Notas de leitura (282): Do Cacine ao Cumbijã, 67 Guiné 69, de Guilherme da Costa Ganança (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8859: Notas de leitura (283): Tarrafo, de Armor Pires Mota: censura e autocensura, em tempo de guerra. Cotejando as edições de 1965 e 1970 (Parte II) (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P8867: Inquérito online: Com que frequência tens visitado ultimamente o nosso blogue ?: Resultados e comentários preliminares

Guiné-Bissau > Região do Oio  > Mansoa > Jugudul > Abril de 2006 > Uma miúda  da região chupando uma guloseima que veio do Porto com açúcra e com afeto...

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Estrada Bambadinca-Saltinho > 18 Abril de 2006, 14º dia  da viagem Porto-Bissau > Alguém perdeu um chinelo, algures perto de Mansambo...

Guiné-Bissau > Região de  Quínara > Estrada Buba-Empada > 19 Abril de 2006, 15º dia da viagem Porto-Bissau > Um insólita seta indicando a direção e a distância até à desértica  Madina do Boé: 67 km...

Guiné-Bissau > Região do Oio > Farim > Jumbembém > 17 Abril de 2006, 13º dia da viagem Porto-Bissau > O brinquedo mais precioso, de "linha branca"...


Guiné-Bissau > Região do Óio  > Estrada Mansoa- Mansabá > 16 de Abril de 2006, 12ª  dia da viagem Porto-Bissau > Uma insólita "sementeira" de bagabaga preto (termiteiras em cogumelo)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Estrada Bambadinca-Saltinho > 18 Abril de 2006, 14º dia da viagem Porto-Bissau > Ruínas do aquartelamento de Mansambo (monumento da CART 2339, 1968/69)...


Guiné-Bissau > Região de Óio  > Farim > 17 Abril de 2006, 13º dia da viagem Porto-Bissau > Cais de embarque no Rio Cacheu...


Imagens, sempre belíssimas, do álbum do nosso amigo Hugo Costa, filho do nosso camarada Albano Costa, documentando a viagem por terra, do Porto a Bissau, organizada pelo Xico Allen, em Abril de 2006, bem como a viagem emocionante pelo interior da Guiné-Bissau, a partir de Bissau e do Saltinho  (que os levou a vários sítios, de norte a sul e de leste a oeste: Bissau, Quinhamel, Mansoa, Mansambá, Barro, Bigene, Farim, Jumbembem, Canjambari, Xime, Fá Mandinga, Mansambo, Saltinho, Buba, Empada, Judugul, Bissau). A caravana era constituída por um único... jipe, que levou sete pessoas (!): além do Xico e da Inês Allen, o Hugo Costa, o A. Marques Lopes, o Zé Teixeira, o Casimiro e o Manuel Costa.

Recorde-se que essa viagem ficou registada numa série de crónicas assinadas pelo A. Marques Lopes, na I série do nosso bogue (pelo menos, uns 26 postes: Do Porto a Bissau), bem como em alguns apontamentos do Albano Costa (que, dessa vez, ficou na terra, em Guifões, Matosinhos,  onde é fotógrafo profissional)... O Hugo já tinha à Guiné, com o pai, em Novembro de 2000. Fica a nossa homenagem a ambos, pai e filho. (LG)

Fotos: © Hugo Costa (2006). Todos os direitos reservados


1. Mensagem, enviada ontem pelo correio interno da Tabanca Grande:

Assunto: Sondagem: Com que frequência tens visitado ultimamente o nosso ? Faltam 3 dias para terminar o prazo de votação

Amigo/a, camarada:

Faltam 3 dias para terminar a votação na nossa sondagem 'on line' (*).  Houve já mais de 150 votantes. A tua opinião, como membro registado da nossa Tabanca Grande (somos 520), é importante para quem está no "back office"...

Participa. Ajuda-nos a fazer mais e melhor. Estamos num período de reflexão e de reorganização interna da nossa "casa"...

Para participares, basta ires ao blogue e,  no canto superior esquerdo, escolheres uma das 8 possíveis respostas à pergunta da sondagem. A resposta é anónima.


Também podes mandar, por "mail", dando a cara, críticas, sugestões ou comentários  que nos ajudem a tomar medidas com vista à melhoria da organização e funcionamento do nosso blogue (que deve ser feito "por todos e para todos" os camaradas da Guiné...) e, por extensão, da nossa comunidade virtual que é a Tabanca Grande (por ex., regras de adesão, organização dos encontros, iniciativas).
Luís Graça

2. Comentário de L.G.:

À meia noite e meia de hoje, tínhamos 205 respostas, assim distribuídas:

(i) 75% dos respondentes visitam o blogue "diariamente" (39%) ou "quase todos os dias" (36%)

(ii) Os menos assíudos  vão lá "uma ou mais vezes por semana" (16%); ou "uma ou mais vezes por mês" (5%)

(iii) E os restantes 4%, "nunca ou raramente" visitam o blogue.


De acordo com a estatística produzida pelo nosso contador (Bravenet), desde 9 de Maio de 2010, o total de páginas visitadas foi de 2,918 milhões. Cerca de 85% dos visitantes costuma visitar a página mais de uma vez, no mesmo dia. Um em quatro visitantes vem de fora de Portugal (Brasil, Estados, França, etc.).

3. Alguns comentários de camaradas que tem andado ultimamente mais arredios das nossas páginas, mas que  responderam à nossa chamada, merecendo por isso um pequeno destaque:

Manuel Amante (, até agora em Macau):


Meu Caro Luís,


Estou de regresso a Cabo Verde e ao Ministério das Relações Exteriores.
Já votei e na primeira rúbrica porque vou ao nosso blog todos os dias.
Haja energia eléctrica ou não.
Haja insónia ou sono.
Haja ansiedade ou apatia geral.


Recebe um fraternal abraço. (...)


Albano Costa, de Guifões, Matosinhos, o nosso fotógrafo, e pai de Hugo Costa, que também seguiu as peugadas do pai no seu grande amor à fotografia e à Guiné:



Caros amigos: Embora esteja afastado há bastante tempo de participar no blogue, não tenciono deixar de fazer a minha visita diária.

Um bem haja para todos que, com o seu esforço, mantêm este "monstro" sempre actualizado. (...)


António Sampaio[, ex-Alf Mil na CCAÇ 15 e Cap Mil na CCAÇ 4942/72, Barro, 1973/74]

(...) Apesar de ainda ser "meio maçarico" aqui vai a minha resposta: "Sempre que abro o correio" (ou seja, quase diariamente).


Quando puder enviarei outra folha da minha passagem por aquelas terras. (...)


J. Eduardo Alves [, ex-Sold Condutor Auto da CART 6250, Mampatá , 1972/74]


Para responder à questão...  Eu visito o blogue de manhã e ao fim do dia (...)

Guilherme Sousa:

Um transmontano em França, Sens (...). Eu, desde que descobri este blogue, quase todos os dias dou uma vista de olhos. Infelizmente encontro poucos camaradas que passaram comigo quase dois anos na Guiné, ou seja, em Mansambo.  Fui condutor da CART 2714. Vivo em França desde que vim da Guiné, ou seja, desde 1972... Um abraço amigo e que o blogue continue (...)

Hilário Peixeiro [ ex-Cap Mil, CCAÇ 2403/BCAÇ 2851, Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70]:

Os primeiros e-mails que abro são os do Luis Graça mas há já uns dias que não visito o nosso blogue.  (...)

Jaime Machado

Todos os dias visito o nosso blogue (...)

Zé Carioca

As minhas visitas ao blogue passaram a ser esporádicas pela indigação com que fiquei sobre a aldrabice que ali foi escrita sobre o tema [Guileje] (...)



António Pimentel:

Parabéns pelo vosso  trabalho! Não desistam, apesar das dificuldades (...)

Valentim Oliveira:

Estou em falta e tenho sido um verdadeiro desmazelado de não fazer um pouco de escrita com algumas histórias das nossas passagens pelas terras da Guiné. Tudo isto se explica  devido à minha ocupação profissional.

Resumindo: O blogue para mim é sagrado, e todos os dias faço uma visita a este maravilhoso componente. (...)

J. Casimiro Carvalho:

Tive o meu momento Zen, quando fui um dos pioneiros a falar da guerra, não tive, não tenho e não terei intenção de ser, nem de perto nem de longe, centro de atenções, tenho uma forma muito naif de contar estórias, fui muito colaborador, e visitante assíduo, embora hoje vá "espreitar" para ver se encontro novos camarigos, novas estórias da nossa estadia no então ultramar, e desligo, pois acho que o blog está subvertido, [transformado]em montra de eruditos e escritores, ou mostra de livros e outros assuntos, não relacionados com a [essência] do blog (...).
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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 3 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8851: O blogue em números (10): Três milhões de visitas em Novembro de 2011... Período de reflexão e de reorganização

Guiné 63/74 - P8866: Parabéns a você (322): Jorge Rosales, ex-Alf Mil da 1.ª CCAÇ (Porto Gole, 1964/66)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 4 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8853: Parabéns a você (321): Artur Conceição, ex-Soldado TRMS da CART 630 (Guiné, 1965/67) e Inácio Silva, ex-1.º Cabo da CART 2732 (Guiné, 1970/72)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Guiné 63/74 - P8865: Agenda Cultural (161): Apresentação do livro "À Defesa de Vila Real", de autoria do Coronel António José Pereira da Costa, a ter lugar no dia 13 de Outubro de 2011, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal Vicente Campinas - Vila Real de Santo António


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Notas de CV:

- António José Pereira da Costa é Coronel de Art.ª na reserva, na efectividade de serviço, ex-Alferes de Art.ª na CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69, ex-Capitão de Art.ª e CMDT da CART 3494/BART 3873, Mansabá, Xime e Mansambo, 1972/74 e membro activo da nossa Tabanca Grande.

Vd. último poste da série de 5 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8858: Agenda Cultural (160): Ciclo de Conferências-debate Os Açores e a Guerra do Ultramar - 1961-1974: história e memória(s) (Carlos Cordeiro) (7): Rescaldo do dia 30 de Setembro de 2011

Guiné 63/74 - P8864: VII Encontro da Tabanca Grande - 2012 (2): Inquérito para escolha da data e recolha de opiniões (2) (A Organização)

1. Decorre até ao próximo dia 15 de Outubro um inquérito para escolha da data do nosso próximo Encontro e outras opiniões que hajam por bem emitir. Como nas diversas eleições e referendos havidos, os portugueses são pouco participativos, não estranhamos que aqui também se note um número de respostas de longe inferior ao dos participantes nos Encontros da Tabanca Grande.

De realçar entre as 38 respostas recebidas, os camaradas que se propõem a organizar futuros Convívios (Carlos Pinheiro, Valentim Oliveira e Manuel Traquina) e algumas críticas, das quais apenas duas negativas (João Lourenço e Luís Rainha).

Quanto à data do Encontro, neste momento temos 21 de Abril de 2012 como a mais provável, já que é a mais votada (30,3%) entre as propostas. Para 45,5% dos votantes qualquer das datas é válida.

Achamos que o próximo Encontro se deva realizar ainda em Monte Real, e que lá, com calma, ouçamos as propostas dos camaradas que se propõem a organizar os próximos, quanto ao local, acesso, restaurante, hipótese de pernoita, ocupação de espaço até ao fim da tarde, ementa e preço (aproximados) de almoço com lanche incluído, etc.

Pode-se submeter a escolha definitiva dos presentes, agindo assim democrática e transparentemente. Se mais camaradas quiserem levar e apresentar propostas, estamos receptivos, como é óbvio.

Entretanto pedimos às pessoas que colaborem com as suas opiniões que não são vinculativas, até ao dia 15 de Outubro.




2. Comentário de Luís Graça, chegado à caixa de correio já este poste estava para sair:

Por mim, Monte Real, de pedra e cal. Mudar, porquê? Não vejo melhores argumentos. É equidistante, entre o norte e o sul, tem acessos de cinco estrelas. O hotel e restaurante são de quatro estrelas. A relação preço/qualidade imbatível. E a comissão organizadora (onde se inclui o Joaquim) tem, para mim, direito a "todas as estrelas do céu"...

Podemos fazer melhor? Mas, com certeza... O convívio prima sobre tudo, mas também podemos repetir a experiência do ano passado: uma pequena exposição fotográfica, uma sessão de autógrafos, um sessão de "slides" da última viagem à Guiné, um momento musical apropriado, dentro das limitações logísticas que o hotel nos impõe...

É preciso ocupar e mobilizar os nossos camaradas e amigos... A malta tem ideias... O encontro é (mas não só) convívio *a volta da mesa... Mas pode haver mais iniciativas para o fim de semana...

Opto pelo 21 de Abril... A 23, simbolicamente, faz o nosso blogue 8 aninhos de vida, e nessa altura pode já ter atingido os 3,5 milhões de visitas... Parabéns a todos vocês que estão no "back office" desta iniciativa, mantendo a chama viva... O meu aplauso, a minha solidariedade, a minha camarigagem... 
Luis Graça

Pela Organização
Carlos Vinhal
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 21 de Setembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8800: VII Encontro da Tabanca Grande - 2012 (1): Inquérito para escolha da data e recolha de opiniões (A Organização)

Guiné 63/74 - P8863: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (27): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte III) (Cherno Baldé)


 Ex-URSS > Ucrânia > Kiev > 1987 > O Cherno Baldé, à esquerda, com mais dois colegas da Guiné Equatorial
 Foto: © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados.


 Continuação do relato do Cherno Baldé [, hoje quadro superior da administração pública da Guiné-Bissau,] sobre as aventuras e desventuras do Chiquinho, enquanto estudante,  no país dos sovietes (1986-1989).


(3) A primeira viagem de comboio


A viagem para Kichinev  [, capital da Moldávia,] foi de comboio. Depois da viagem do avião, esta era uma nova descoberta não menos interessante. BLAGAT...BLAGAT...BLAGAT. Este som, provocado pelos veios de um velho e lento comboio, tinha ocupado os seus ouvidos durante toda a noite, povoando o seu sono inquieto.

Viajavam dez a doze pessoas por vagão, divididos em compartimentos, com camas individuais, o que, visto com a lupa de hoje, constituía de facto um grande luxo se comparado com as condições dos outros comboios, que viria a conhecer nas terras mais a oeste, fora do território da URSS.

Tudo decorreu conforme estava previsto. Receção na estação, distribuição de residências, roupas de frio, visita médica, salas de aulas; era simplesmente impressionante a capacidade de organização das estruturas que os recebiam. Tudo estava planeado ao mínimo detalhe, uma máquina a perfeição como só o espírito europeu sabe criar. Quando chegavam num sítio já estava alguém à espera para recebê-los e conduzi-los, a seguir, para o local indicado. Se o comunismo era assim, então, de certeza que podiam contar com ele, dizia para com os seus botões. Viva o Lenine!... Viva a revolução comunista!...

Bem, depois passou por uma pequena afronta durante a inspeção médica que teria diminuído um pouco o seu entusiasmo. Que fosse obrigado a entregar as suas fezes e urina já era um grande sacrifício e quase que um atentado à sua dignidade de homem africano, agora pediam que tirasse toda a roupa que cobria a sua nudez, assim como veio ao mundo, diante de uma mulher.

Ele ficou aterrorizado, outros gracejavam. É bom que conste, também, que só um espírito europeu, talvez comunista, era capaz de exigir uma coisa semelhante a um indígena africano que tinha passado toda a sua vida sob uma dupla educação conservadora, tradicional e muçulmana. Mostrar tudo!?... Subahaanallai!

As enfermeiras que procediam ao exame não queriam saber de tabus, ele tinha que mostrar-lhes tudo. O Chiquinho recusou e, por isso, foi acantonado ao lado, dando lugar aos outros menos envergonhados. Quando finalmente cedeu, pegaram no seu sexo,  ou do que dele restava, virando e revirando-o em todos os sentidos como que para mostrar a insignificância do seu falso sentido de pudor.

Apanhado de surpresa, o desgraçado do sexo, centro nevrálgico de pudor, de timidez mas também de orgulho e da força masculina, ficou tão retraído e minúsculo ao ponto de ser ridículo. Para o Chiquinho tinha sido uma experiência decepcionante e, para aquelas curiosas senhoras de bata branca também, mas por motivos diferentes.

Uma das enfermeiras, pegando numa ferramenta que parecia um martelo, bateu ao de leve nos seus joelhos. De seguida, pegou no seu braço esquerdo, depois o direito à procura de uma veia saliente donde poderia retirar sangue para as análises. Deu trabalho encontrar a veia e no fim, dirigindo-se ao tradutor, aconselharam o Chiquinho a pegar numa enxada e ir trabalhar a terra todos os dias a fim de desenvolver os seus músculos de bebé. Com tais características, certamente que não se enquadrava na classe dos trabalhadores, um conceito caro aos comunistas.

As aulas começaram de imediato. Uma primeira fase de aprendizagem da língua onde, diga-se de passagem, se utilizava um método tão eficiente quanto brutal, em salas especiais de audição linguofónicas durante horas intermináveis. Após quatro meses de aulas intensivas da língua russa, quando o Chiquinho se sentava para escrever uma carta em português já não encontrava as palavras certas nos espaços onde estavam antes.

Ele percebeu então que o método de ensino utilizado provocava este fenómeno de erosão cerebral. Percebeu também que, apesar das graves insuficiências de instrução escolar no seu país, faziam figura de avantajados diante de outros estudantes vindos de países ditos amigos da URSS, confrontados com profundas mudanças políticas, sociais e/ou de orientação ideológica como o Congo, de Marien N’gouabi, a Etiópia,  de M. Hailé Marian, a Nicarágua, Laos, Camboja, entre outros. Alguns, como era o caso do meu amigo Peruano, Aníbal, não teria feito nem o ensino primário e tinha que lidar com o teorema de Pitágoras ou dissecar o capitalismo com as pinças de “O Capital” , de Karl Marx.

Passados alguns meses, o Chiquinho começou a sofrer de um estranho mal-estar físico, com sintomas de uma espécie de nostalgia aguda acompanhada de uma sensação de vazio profundo provocado, provavelmente, pela desoladora visão da natureza morta à sua volta, pela omnipresença do frio e pela escassez da luz solar.

Um dia, recusou-se a ir às aulas, pronto. Só queria que o deixassem dormir aconchegado no calor do quarto e dos cobertores. Impossível. A sua professora de língua russa, a meiga e simpática Victoria Aleksandrovna, veio falar com ele para dissuadi-lo. Juntamente com a professora, tinha vindo também a Vika, uma jovem moldava, sua afilhada, que ela o tinha apresentado. Parecia ter encontrado o remédio certo. A Professora, ao menos, compreendia o mal que o clima provocava nos africanos e estava habituada a resolver estas situações de crise emocional à sua maneira. As suas palavras calmas e serenas mobilizaram o Chiquinho ao ponto de fazê-lo desistir da greve.

Não obstante, a primeira vítima desta sua estranha doençaa seria ela, Victoria Aleksandrovna. Num dia normal de aulas de língua russa, após três dias sucessivos a falarem do mesmo assunto, o Chiquinho não tinha conseguido conter a sua irritação e tinha afirmado, em voz alta, que já estava farto das aulas que só falavam de Lenine. Lenine na Suíça!... Lenine em Petrogrado!...Lenine em Moscovo!... Poça,  vida!

Para a grande surpresa de todos, que esperavam ouvir uma repreensão muito dura da parte da professora, ela simplesmente desatou a chorar,  feita uma criancinha, revelando as linhas da idade que começavam a aparecer na sua linda cara de velha solteirona.
- Teria ele mexido no tabu do espírito sagrado da União Soviética e Empiriocriticista?...

O Chiquinho não sabia e, na verdade, nem queria saber. Não era aquela a manifestação do espírito comunista que esperava encontrar, depois de toda a propaganda sobre o comunismo científico e a dialética marxista que tinha lido durante anos. Era simplesmente incrível como um espírito tão crítico, tão pragmático e oportunista como Lenine teria podido parir (produzir) uma mentalidade tão seguidista e apática, um charco de água parada. Para ele já era o bastante para perder a razão.

Depois das aulas mandaram-no chamar no gabinete do Reitor para interrogatório. O que no lhe surpreendeu, pois já estava prevenido pelos mais velhos de que uma provocação destas podia valer a expulsão.
- Com que então, estava farto de Lenine!?...

Quiseram saber, entre outras coisas, a profissão dos seus pais. Ele disse-lhes a verdade, que a sua mãe era camponesa e seu pai comerciante. De filho de comerciante, certamente, terão deduzido que era da pequena burguesia, logo reacionário, anticomunista. 

“Autant mieux” [, tanto melhor, em francês], pensava ele. Se o mandassem de volta, até agradecia, maldito clima. Desde que o inverno começara, ele não conseguia andar direito, os pés gelavam, escorregava e caía com muita frequência, não raras vezes tivera que andar de gatas para descer ou subir nas encostas, embrulhado num enorme paletó e botas de tropa que mal conseguia arrastar com os seus pequenos pés de criança. Deslizar em cima da neve era um exercício delicado para um homem dos trópicos. Nunca poderia imaginar que pudesse sentir tanta saudade dos raios do sol e do chão firme e vermelho da sua terra natal.

O reitor foi brando com o Chiquinho, quase simpático. Provavelmente, os ventos da mudança (**) já estavam a soprar. Não o mandaram embora e, ao invés, redobraram a atenção para com ele, convidando-o para excursões e visitas culturais. Foi durante esse período que o levaram ao teatro da cidade para assistir ao ballet de Lebedinoye Ozero (O lago dos cisnes),  de Tchaikovsky.

Extraordinário!... Sem o saberem, tinha sido a melhor prenda que lhe poderiam oferecer. Tratava-se de uma interpretação poética e musical de envergadura universal, executada num cenário de sonho, animada com uma cativante variação de estilos e ritmos. A dança dos cisnes, a dança polaca, húngara, russa, espanhola. Tempo de valsa, allegro, allegro moderatto, allegro vivo. 

Ao contrário da maioria dos seus colegas, tinha passado a melhor noite desde a sua chegada à União Soviética. Aconteceu naturalmente. Tchaikovsky constituiria assim o primeiro passo e a porta de entrada para a poesia e a música clássica russa e europeia.

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RASSIA

Eu fui a Rassia
Para ler poesia,
Cheguei no Outono,
O maldito nevoeiro
Que mudou o sentimento;
Acordei no inverno
Quando a terra,
A Ukraina inteira,
Não era beleza para sedução,

O mar de lágrimas, eu vi,
Deste povo que nunca chorou,
As vítimas isoladas
Porque justamente vitimadas,
O regresso doloroso, eu vi,
Desta gente que nunca partiu.

Eu fui a Rassia
Para ler poesia
Adorei ECENIN e TSVETAEVA
PUSHKINE e AKMATOVA
Em toda a m+istica e gratidão,
Em toda a dor e solidão,

Eu fui a Rassia
Onde a beleza de forma radiante
Acompanha a rudeza de gente arrogante
Ha...! POLTAVA!...
Ha...! SMOLENSK!...
Ha...! TCHORNOBYL
E as vossas lavras?
E as vossas lágrimas?
E KANIEV TCHERKASSY?
E TARAS SEVTCHENKO?

“Dumi moi...”
“Dumi moi...”

(Viagem pelo Dnepr/Kiev-Kaniev, Abril de 1989)

Notas de C.B.: 

Rassia=Rússia; Ukraina=Ucrània; 
Ecenin+Tsvetaeva+Pushkine+Akmatova=Poetas Russos do virar do sec.XIX/XX; Poltava+Smolensk+Tchornobyl=Regiões e localidades Russas e Ucranianas, teatros de batalhas sangrentas e de tragedias humanas; 
Tcherkassy+Kaniev=Região e localidade histórica e cultural ucraniana ligada ao maior poeta ucraniano de todos os tempos, Taras Sevtchenko [1813-1861]
“Dumi moi...”= Pensamentos meus...= expressao poética de Sevtchenko num poema da sua coletânea Kobazar, o Bardo.
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Estava de novo apaixonado, o Chiquinho, desta vez, por uma mulher do Iémen do Norte (ou era do Sul?), sem hipótese de aproximação. Ela era casada e vivia com o marido num quarto isolado. Tinha tanta inveja do homem que queria matá-lo. Foi, talvez, a mulher mais bonita que os seus olhos alguma vez tinham visto. 

Mas, ou era o sentido universalmente humano que o guiava ou era a tolice de um coração desorientado, pois no meio de tanta diversidade étnica e cultural, tinha que apaixonar-se logo por uma mulher árabe, com a carga de desprezo secular que estes beduínos do deserto nutrem pelos negros. 
 - Acorda,  preto!.. - Apetecia dizê-lo. Era mais um daqueles amores platónicos, impossíveis, destinados a colmatar o vazio do seu coração. O frio agudizava o seu sentimento de solidão. Começou, assim, a criar o hábito de deambular sozinho pelos parques da cidade na secreta esperançaa de encontrar, numa viragem qualquer, a sua europeia de cabeleira reluzente, a promessa de um destino que o empurrava para o desconhecido. 

No entanto, ainda tinha muitas questões sem resposta. Por exemplo, por onde a pegaria?...Pela mão, no braço ou por cima dos seus ombros?... Seria capaz de adivinhar seus sentimentos encarando os seus olhos azul-marinhos ?.. O que lhe diria, e como lhe diria?...Contar a verdade ou mentir descaradamente sobre a sua vida como faziam alguns colegas para melhor seduzir?... Na sua terra natal ouvira dizer que a mulher conquista-se com a mentira e mantem-se com a verdade. E para os europeus, seria o mesmo?... Tinha muitas duvidas e uma certeza, a certeza de que a amaria muito, dentro do seu coração.

Com a chegada da primavera, o Chiquinho começou também a recuperar a boa disposição mental e fez mesmo parte de um grupo de estudantes que, vestidos de trajes multicolores, ensaiavam a dança tradicional moldava para apresentar em palco, para mostrar a integração cultural dos africanos. Não resultou tão bem assim, tecnicamente falando, mas permitiu apertar e acariciar as partes arredondadas das colegiais ainda adolescentes, recuperando assim um pouco da sua jovialidade e amor próprio. 

A sua amiga, a Vika, parecia gostar dele, mas nunca dizia nada, limitava-se a olhar para ele e a sorrir. Também ele sorria, dividido entre o desejo de seduzi-la e o medo de enganá-la. Pode-se mentir a quem se ama?... O Chiquinho ainda vivia no mundo em que um homem era incapaz de transformar o mundo com o enredo das palavras dúbias, enviesadas, entorpecentes como a morfina.

Em finais de Junho de 1986, terminaram os exames e muitos estudantes foram a Moscovo tratar de vistos nas embaixadas para viajar aos países do ocidente. Ele recebeu o convite de um irmão que era estudante em Lisboa, mas ainda não queria afastar-se muito do universo que queria integrar e também da posibilidade de aproximar-se da Vika. Todavia, a menina com os seus cabelos cor de trigo, não correspondia muito à imagem da europeia dos seus sonhos. 

Adiou a visita para o ano seguinte. Entretanto a expetativa da viagem aos paises do ocidente fazia furror entre os estudantes estrangeiros, particularmente nos congoleses que sonhavam com as luzes de Paris e não escondiam o seu entusiasmo. Lisboa era o destino preferido dos guineenses e angolanos.

O Chiquinho, aspirante comunista e de altos valores, não compreendia porque razão os estudantes eram tão atraídos pelo ocidente, atitudes que ele considerava como subproduto da mentalidade neocolonial e servil. Para ele, era mais importante a apropriação da doutrina marxista-leninista, em especial o pilar da economia política que encerrava as premissas para a verdadeira libertação dos povos do terceiro mundo. 

Mais surpreendido ficou ainda quando viu a avidez com que os próprios soviéticos consumiam os mais insignificantes produtos trazidos do ocidente pelos estudantes em contrabando, bugigangas de um regime em decadência. Afinal, as férias dos estudantes escondiam outras realidades que, não sendo  políticas nem filosóficas, contribuíam para minar os alicerces de base sovietica e comunista.

(Continua)

[ Revisão / fixação de texto: L.G.]

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Notas do editor:

(*) Vd. postes anteriores:

 4 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8856: Memórias do Chico, menino e moço (25): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte I) (Cherno Baldé)

5 de Outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8861: Memórias do Chico, menino e moço (26): De Bissau a Kiev ou o percurso de um ex-rafeiro (Parte II) (Cherno Baldé)

 (**) 'Ventos de mudança' que se traduziam nas célebres expressões russas  Glasnost (гла́сность, transparência) e  Perestroika (Перестройка, reconstrução, reestruturação) introduzidas no vocabulário político dos russos, em 1985, pelo governo de Mikhail Gorbachev, num processo de reforma que conduziria em 1989 ao fim da guerra fria e ao desmantelamento da URSS.