sábado, 2 de junho de 2012

Guiné 63/74 - P9984: Parabéns a você (429): Agradecimento e retribuição (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 01 de Maio de 2012:

Queridos amigos,
Estou profundamente reconhecido a todos aqueles que se lembraram de mim no meu aniversário e que me enviaram mensagens por diferentes proveniências*. A vossa amizade toca-me muito, o blogue, nos últimos 6 anos, tem sido um griot, uma trombeta, uma permanente fonte de inspiração e de aprendizagem.
Há camaradas que me vão enviando livros, a todos estou em dívida, o que posso fazer, e procuro fazê-lo com todo o rigor, é continuar a ler estas obras e a divulgá-las. Bem hajam por tanta gentileza.

E se me deram prendas retribuo com um pequenino texto de "A Viagem do Tangomau", um dos momentos mais hilariantes que vivi em Missirá, deu para entender que aquela população queria que eu tivesse âncoras no Cuor, para toda a vida. Só que esta vida dá muitas voltas e a âncora, a paixão pelo Cuor, tornou-se inextinguível por outros meios.

Recebam o reconhecimento do
Mário


Quando Mussá Mané propôs uma esposa ao Tangomau 

O Tangomau parece ter conseguido um relativo equilíbrio na sua aprendizagem na gestão de um quartel em tempo de guerra, no saber lidar com os problemas da população civil e na obtenção de confiança com os seus subordinados, simultaneamente consegue ter algum tempo para ler, ouvir música e escrever. Dirá mesmo num aerograma que tem horas de intensa laboração e que não se está a dar mal com o facto de um comandante viver as penas da solidão. Tem alguns pequenos problemas de saúde, é certo, os pés inchados, o dorso com líquen, sente-se mal alimentado, começa a doer-lhe o joelho direito, que aquele onde ele sofre de uma exostose, sente os ouvidos a supurar, não tem ilusões que aquela água infecta onde se lava é um verdadeiro atentado e um ninho de infeções.

E é nisto que Mussá Mané, chefe de tabanca de Missirá, num fim de tarde, lhe pede audiência para lhe propor uma noiva. Foi um acontecimento inolvidável, como se descreve.

As reuniões com o chefe de tabanca eram profundamente pragmáticas, para evitar equívocos na comunicação Mussá fazia-se acompanhar de um dos cabos guineenses, de preferência Zé Pereira, falava-se da falta crónica de arroz, ao princípio Mussá pedia uma coluna de reabastecimento para o dia seguinte, cedo percebeu que não valia a pena pôr a faca ao peito, colunas com viaturas era um acontecimento imprevisível, o Tangomau estudara em Mafra que não se diz a ninguém que se vai sair, é a única maneira de ter sempre o inimigo incapaz de jogar totalmente a seu favor com os planos de uma emboscada; aliás, os próprios picadores e os condutores de Unimog são informados com uma hora de antecedência, já sabem que não vale a pena barafustar, o nosso alferes procura não dar abébias para que a gente de Madina esteja de sobreaviso.

Ora naquela tarde, através de Ieró Candé (que já anunciou que vai casar e pediu férias para se ausentar 15 dias até Nova Lamego), Mussá pede uma conversa a sós, a reunião é prontamente concedida. Mussá devia ter uma doença de pele, tinha enormes manchas brancas que não estorvavam um sorriso doce e uma postura delicada. Entrou na morança, sentou-se, Umaru Baldé, o cozinheiro, trouxe um chá, enquanto beberricava com sorvos ruidosos, Mussá vinha lembrar a nosso alferes que não devia estar só, um homem precisa de uma mulher, alguém que lhe cuide da roupa e arrume devidamente os cómodos. Aturdido, nosso alferes não percebia a direção da conversa, Mussá referia que as meninas casadoiras tinham noivos ou estavam prometidas, nosso alferes teria de desculpar a seleção de noiva era muito restrita, na reunião entre homens grandes, a família do régulo e o próprio padre o assunto fora ventilado, até se consultara o responsável balanta de Finete, nosso alferes já era muito estimado, mais uma razão para ter uma companheira, pelo que todos eles após uma larga cogitação lhe vinham propor, e mais uma vez se pedia a nosso alferes que tivesse em conta os usos e costumes da terra, que aceitasse a viúva Nali Indjai, uma viúva de 23 anos, mãe de dois filhos, não procurada por homem algum.

Estupefacto por tal proposta, nosso alferes não sabia exatamente bem o que responder, tinha a garganta seca e temia uma resposta destemperada. Sabendo que era completamente errado propor uma longa meditação antes de responder ou, pelo contrário, refutar secamente, ocorreu-lhe dar a explicação que os cristãos só têm uma mulher, que ele pensava vir casar com aquela senhora da fotografia, ali em cima da secretária, mas que a maior dificuldade que se punha para aceitar tão honroso convite, uma dificuldade inultrapassável, e que convinha que Mussá a tivesse devidamente em conta, é que havia mais sete brancos em Missirá, o que pensariam estes homens se soubessem que o seu comandante tinha casado com Nali, mesmo que tivesse pago por ela três ou quatro vacas, a adornasse com prata e lhe desse lindos e vistosos panos, à altura de mulher de fama e fortuna, e para eles nada.

Mussá abanava a cabeça, um homem não deve estar só, além disso aquela cama era enorme, se ele aceitasse Nali, quem sabe, talvez não voltasse para a terra dos brancos, ali em Missirá já se percebera bem que nosso alferes se habituara às dificuldades e gostava da natureza. E estávamos neste impasse nas insistências e nas escusas, diga-se de passagem num derriço de linguagem, tudo próprio de gente bem comportada, é nisto que é anunciado o jantar, na mesma altura em que o furriel Ferreira veio pedir assentimento para a escala de serviço, apareceu o Teixeira das Transmissões com uma mensagem urgente e Ieró Candé veio recordar que pelo menos 4 soldados aguardavam ser recebidos com os sempiternos problemas de adiantamento de dinheiro.

Ambos de pé, nosso alferes agradeceu muito os cuidados com a sua vida afectiva, até admitiu voltar a falar do assunto, mas o discurso era tão determinante e o agradecimento tão afiado que foi assunto que nunca mais voltou à baila.
____________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 31 de Maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9967: Parabéns a você (425): Mário Beja Santos, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Guiné, 1970/72)

Vd. último poste da série de 2 de Junho de 2012 > Guiné 63/74 - P9979: Parabéns a você (426): António Barbosa, ex-Alf Mil Op Esp da 2.ª CART/BART 6523 e Osvaldo Colaço, ex-Fur Mil da CCAÇ 3566

2 comentários:

Hélder Valério disse...

Caro Mário, pela minha parte, não necessitavas de agradecer, os parabéns são sinceros e não precisam de reconhecimento.
Quanto à história que contas... presumo que, por vários motivos, deve ter sido uma grande aflição!
Mas parece que o 'alferes' se safou!

Abraço
Hélder S.

Anónimo disse...

Nali Indjai? Também não casei com ela.


J.Cabral