sábado, 7 de janeiro de 2012

Guiné 63/74 - P9328: O Nosso Livro de Visitas (120): Anabela Pires, em vias de ir para Iemberém, no Cantanhez, trabalhar como voluntário na AD - Acção para o Desenvolvimento, procura cartas da região de Tombali e elogia o nosso blogue




Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cantanhez >2010 >  Vídeo 4' 41'' > 

"Pedro Mesquita, cineasta português, e a sua equipa têm estado a recolher imagens para um filme cujo título provisório é Os Donos do Chão. Imagens muito bonitas e que nos prendem do princípio ao fim. 

"Hoje apresentamos o primeiro vídeo com imagem de Pedro Mesquita e Edição - Micael Espinha/Roughcut, com a realização e imagem - Pedro Mesquita; Argumento - José Marques; Produção - Pedro Mesquita, José Marques, Catarina Schwarz, Joana Roque de Pinho; Música - João Bernardo; Apoios : AD, IUCN, IBAP". 

Fonte: Vídeo e legenda: Cortesia de AD - Acção para o Desenvolvimento (2012). 
Vd. YouTube > ADBissau



1. Mensagem de Anabela Pires (*), com data de 19/9/2011

Olá, Luís!

Desculpe antes demais o tratamento informal mas visitando frequentemente o blogue Luís Graça e camaradas da Guiné, conhecendo a Alice e estando a pensar partir para a Guiné-Bissau em Janeiro [de 2012], onde vou trabalhar com a AD [- Acção para o Desenvolvimento], quase me sinto como membro da Tabanca Grande. 

Realmente o Mundo é Pequeno mas a vossa Tabanca... é Grande! Certamente a Alice já lhe contou como fui ter ao blogue e como descobri que o seu fundador é casado com a Alice Carneiro! Bom, tudo começou por eu andar à procura de cartas/mapas da Guiné-Bissau. Situar-me geograficamente é sempre um ponto de partida. 

Descobri as antigas cartas militares e depois fui descobrindo no blogue muitas matérias interessantes para quem não conhecendo o país vai para lá. Entretanto descobri que o José Eduardo Oliveira (JERO) é amigo da minha irmã [, Margarida Pires,] que vive em Alcobaça. Já conheci o Pepito e a Isabel e estou encantada por ir trabalhar com eles. Espero ter capacidade de adaptação e poder retribuir tudo o que vou aprender.

Irei para Iemberém [, Cantanhez], se Deus quiser, dia 6 de Janeiro. Se a Alice quiser mandar alguma coisa para a Alicinha pois que me diga. Falarei com ela pelo telefone.

Tentei adquirir as cartas contactando várias instituições mas só consegui comprar a Carta da Província da Guiné, Ministério do Ultramar, Junta de Investigações do Ultramar, Centro de Geografia do Ultramar, 1961, 1:500.000, na Biblioteca Nacional.

Gostaria muito de levar também comigo: 

(i) Carta de Bedanda, Norte-C-28, XXI-2-c (Província da Guiné), Ministério do Ultramar, Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, 1956, 1:25.000; 

(ii) Carta de Cacine, Norte-C-28, XXI-2-b (Província da Guiné), Ministério do Ultramar, Junta de Investigações do Ultramar, 1960, 1:25.000;

(iii) Carta de Guileje, Norte-C-28, XXII-1-c (Província da Guiné), Ministério do Ultramar, Junta das Missões Geográficas e de Investigações do Ultramar, 1956, 1:25.000; 

(iv)Carta de Cacoca, Norte-C-28, XXII-1-a (Província da Guiné), Ministério do Ultramar, Junta de Investigações do Ultramar, 1960, 1:25.000;

(v) caso exista, a Carta de Cassumba, que deve ser a Norte-C-28, XXI-2-a.

À excepção da 5, já vi todas no vosso blogue e gostaria de saber se mas podem vender ou ceder. Penso levá-las impressas mas a Biblioteca Nacional mandou-me em CD e agora vou a qualquer sítio para imprimir. Quero pô-las no meu futuro gabinete ou no meu quarto ou lá onde for!

Não tenho o e-mail da Alice e por isso tomei a liberdade de lhe escrever directamente. Parabéns pelo Blogue e por conseguir gerir as diferentes sensibilidades dos seus membros. Tornei-me numa visitante frequente e se em Iemberém a ligação à Internet o permitir penso continuar.

Desde já muito obrigada pelo tempo dispensado para ler o meu e-mail e pela resposta que me possa dar.

Um abraço para toda a família
Anabela Pires

2. Comentário de L.G.: 

Anabela: Terei muito gosto em enviar-lhe as cinco cartas que nos pede (no formato original, em suporte digital...) [e todas as demais da região de Tombali]. 

Agradeço-lhe as simpatiquíssimas referências que faz ao nosso blogue, que já vai a caminho dos  8 anos de existência, com alguns altos e baixos... Fica desde já convidada a integrar a nossa Tabanca Grande, sentando-se debaixo do nosso secular, frondoso, mágico, generoso, fraterno poilão (**)... 

A Alice entrará depois em contacto consigo (***). 

Um beijinho. Luís Graça

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Notas do editor


(*) Vd, poste de 7 de janeiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9325: Ser solidário (119): Anabela Pires: A caminho de Iemberém como voluntária da “AD” (JERO)


(**) Último poste da série > 14 de dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9199: O Nosso Livro de Visitas (119): João Gabriel Sacôto Martins Fernandes, ex-Alf Mil da CCAÇ 617/BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66)


(***) A Anabela Pires, nascida em Moçambique,  reformou-se recentemente da administração pública. Era técnica superiora,  com formação em serviço social e sociologia, nos serviços regionais no Ministério da Agricultura.  As suas competências e experiência serão seguramente úteis para a equipa da AD, responsável no Cantanhez pelo projeto do ecoturismo. 


E a propósito do Cantanhez, vejam e ouçam as belíssimas imagens do Pedro Mesquita bem  como a sublime música do João Bernardo no vídeo que apresentamos acima, com a devida vénia aos nossos amigos da AD. Parabéns ao realizador Pedro Mesquista e sua equipa. Queremos ver em breve o documentário Os Donos do Chão...

Guiné 63/74 - P9327: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (20): O plágio

1. Em mensagem do dia 5 de Janeiro de 2012, o nosso camarada Belmiro Tavares (ex-Alf Mil, CCAÇ 675, Quinhamel, Binta e Farim, 1964/66), enviou-nos mais uma das suas histórias e memórias.



HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE BELMIRO TAVARES (20)

Plágio

Todos sabemos o que significa plágio; direi apenas que é bem mais grave, mais recriminável que a “cábula”, o tema que recentemente tratei. Direi ainda que a cábula é jocosa (quase) é frequentemente divertida; o plágio é normalmente praticado com mais anos em cima do autor; é assunto mais sério; é doloso; o autor pode (e deve) ser judicialmente incriminado... mas isto são contas doutro rosário!

Após a revolução dita dos cravos o país entrou em convulsão endémica atingindo o auge logo no chamado “verão quente” de 1975.
As escolas, em geral, não fugiram à regra; o ensino foi “pretensamente” reformulado... em cima dos joelhos... até mesmo nas Universidades. O curso de Filologia Germânica não deixou de seguir as mesmas pegadas; sofreu uma “reforma” que, como noutros casos, constou apenas da redução do número de cadeiras; o objectivo era simplificar ou facilitar para formar à pressa sem que os alunos tivessem de queimar muito as pestanas para concluir os cursos.
Anos mais tarde, consta até que um agente técnico de Engenharia passou a ser engenheiro fazendo exames ao domingo e três cadeiras... com o mesmo examinador... mas esta história é outra... não é das nossas relações!

Antes de 1972 eu tinha feito algumas “cadeiras”, enquanto permaneci no Colégio Militar. Naquele ano comecei a trabalhar na vida civil. Em 1974, quinze dias antes da bronca (leia-se revolução dos cravos) mudei de ramo; estas mudanças tiveram consequências bicudas nos meus estudos. Recomecei no ano lectivo de 1975/76.

Para reiniciar passei pela Reitoria e perguntei:
- Quantas cadeiras tem agora o curso de Germânicas?
- Vinte e quatro! Foi a resposta na ponta da língua.
- Eu já fiz 25! – Curso concluído!
- Não é bem assim! Falta-lhe uma cadeira em seminário! É essencial!
- Quais são as cadeiras que podemos fazer em seminário?

Citaram várias; uma delas era História do Cristianismo.
- Já fiz essa, em Coimbra!
- Mas não a fez em grupo! A situação mantém-se!

Fazer mais uma cadeira... era só mais uma! Eu até já tinha sido engenheiro de pontes...!
As aulas já tinham começado e eu não conhecia ninguém com quem pudesse formar equipa para preparar o tal exame – que era obrigatório.
Encontrei uma ex-colega de Oliveira de Azeméis e de Coimbra, Maria do Céu Sousa e Silva, nome a que, por casamento, já tinha acrescentado “Castro Lopes”; ela estava a preparar o exame (o tal em seminário) sobre a Revolução Industrial.
A Maria do Céu houve por bem interromper o curso para estar perto do marido (casadinhos de fresco) enquanto ele prestava serviço militar obrigatório na Marinha. Acabada a tropa dele, ela voltou à Universidade.

Os grupos podiam ter de três a cinco elementos; no grupo dela eram apenas três (duas moças eram jovens e solteiras); pedimos à professora – e ela autorizou – que eu entrasse naquele grupo com o estatuto de trabalhador estudante – coisa importante!
Sempre que me era possível – naquela época, a vida nas empresas era febril, alucinante – eu ia comparecendo e assistia a uma ou outra aula. Com a frequência permissível reunia com as prestantes colegas de grupo em que, por especial favor e com a sua cara boa vontade, eu me tinha encaixado.

Numa das primeiras aulas a que assisti tomei conhecimento do modo suigéneris como cada grupo iria ser avaliado.
O grupo apresentava o seu trabalho; entregava uma cópia à professora e outra a cada um dos restantes grupos; marcava-se a data em que os eruditos autores iam ser ouvidos (examinados). Cada aluno, vestindo a capa de examinador, colocava objecções e/ou dúvidas e formulava perguntas; os examinandos respondiam, prestando os esclarecimentos cabais e necessários, ou como tal considerados.
Cada grupo de “examinadores” decidia a nota a atribuir ao trabalho em discussão; ao grupo examinado era atribuída a especial nota grotesca de “apto” ou “não apto”; esta apreciação era extensiva a cada elemento do grupo. Obtinha-se a nota final por maioria simples (50% + 1). Em caso de empate, à professora, qual rainha de Inglaterra que reina mas não manda, cabia o supremo poder decisório de desempatar.

Fiquei desapontado, pasmado, quando me apercebi que só havia notas de “sim” ou “sopas” e como elas iriam ser atribuídas; exprimi o meu veemente desacordo mais ou menos nos seguintes termos:
- Que se considere que as notas de zero a vinte já pouco significam nos tempos que correm, eu concordo.
- Que se pretenda praticar escalas de 1 a 10 ou de 1 a 5 como já acontece em muitas escolas secundárias e até em algumas Faculdades, é pura aberração.
Que se pretenda “legislar” que o aluno não pode ter zero (nota eliminada) só porque assinou a folha é estupidez no seu mais alto expoente; e se não assinar!?... Também não pode ter zero porque essa nota já não “consta” dos alfarrábios.
No entanto, mais abstronso que tudo isto é pretender atribuir, na última cadeira do curso a nota “apto” ou “não apto”. Não pretendo ofender o burro... Caso contrário diria que é burrice pura!

Neste ponto fui interrompido por uma colega que diziam ser MRPP (meninos rabinos que pintam paredes):
- Oh colega! Isso já foi discutido no início do ano! Agora não podemos voltar atrás!
- Pode-se voltar atrás (e deve-se voltar) sempre que nos apercebermos que errámos; é mais fácil defender o erro que reconhecê-lo! O futuro mostrará, por certo, o lamaçal para onde nos deixámos arrastar.
Ao que disse anteriormente só pretendo acrescentar três pontos:
1 – Ao contrário de muitos de vós eu estou a tentar concluir um curso que “devo”... aos meus pais pela sua coragem inaudita e pelos imensos sacrifícios que, deliberadamente enfrentaram para me proporcionar a possibilidade de estudar; penso que, em princípio, não o utilizarei eu proveito próprio, pois exerço já um cargo cimeiro numa empresa onde me sinto bem e sei que os patrões estão satisfeitos com o meu desempenho.
2 – Se um dia me aparecerem dois candidatos a um emprego (um cota dez na escala de zero a vinte e outro classificado desconexadamente com nota “apto” – (a nota do “sim ou “sopas”) podem ter a certeza que, mesmo de olhos fechados, eu escolherei o candidato do 1º caso; e tenho a certeza que a ilustre colega que tão denodadamente, tão acerrimamente defende este desconjuntado sistema, se tiver de proceder à mesma escolha, na hora da verdade, ela será sem dúvida, da minha opinião.
3 – Numa época em que os povos mais evoluídos optaram por notas de zero a cem será que nos dicionários existem reais palavrões para classificar esta brutal decisão?
Eu prefiro afirmar que não os conheço... para não ter de os utilizar porque seriam obscenidades tais que fariam corar as faces de um qualquer jumento inocente.

É verdade que fiz o sermão aos peixes! Não houve mais discussão! E nada foi alterado!
A professora não se pronunciou. Era muito jovem – creio que seria o 1º ano que lecionava – e talvez tivesse também ideias um tanto revolucionárias.

Começaram a aparecer os primeiros trabalhos de grupo para serem avaliados. Se bem me lembro, o primeiro foi mesmo do grupo da colega MRPP. Todos os primeiros trabalhos foram considerados aptos. Só me lembro de um cujos autores foram classificados de “não aptos”.

E o trabalho do meu grupo?

Nas variegadas reuniões que tivemos (frequentemente em casa da colega Micéu, porque ela tinha dois filhos; o mais novo com apenas 3 anos e que não frequentava o pré-escolar – coisa rara ou ainda inexistente) quase sempre houve acordo sobre os textos apresentados. Apenas recordo duas situações discutidas com mais calor: num caso houve desacordo e noutro houve apenas sugestão de alteração de forma (imperativa).

O primeiro caso ocorreu quando uma colega (das mais novas) escreveu que tinha lido algures (e pretendia incluir no texto colectivo) que, durante a Revolução Industrial em Inglaterra, havia patrões que admitiam crianças de 3 anos para trabalhar nas suas fábricas.

Protestei veementemente! A moça defendia que tinha lido e citava obra e autor. Retorqui:
- Os maiores disparates e/ou baboseiras podem aparecer em qualquer livro de autor menos coerente ou mais distraído; a opinião pública influencia os autores menos cuidadosos ou mais ingénuos. Numa época em que se pretende deliberadamente molestar os criadores de postos de trabalho que, tal como hoje, eram os – “causadores” de todos os males – qualquer autor é bem visto se conseguir denegrir a imagem deste sector da sociedade, mesmo que através de disparates. Nós temos de discernir e atingir o que terá “naturalmente” acontecido e o que poderá ter sido tomado por base em tal descalabro. Não podemos confundir deliberadamente “inchaço com gordura”.

Depois de avanços e recuos dirigi-me à colega Micéu, mãe duma criança de 3 anos e ali presente:
- Entendes que alguém consegue que o teu filho trabalhe, produza para ser remunerado mesmo que mal, numa qualquer oficina?
- Claro que não! Absolutamente impossível! – Foi a resposta.

O que terá acontecido foi o seguinte:
- Uma qualquer mãe extremosa solicitou ao bom do patrão que a autorizasse a trazer a criança para a oficina porque não tinha com quem a deixar e “ela é bem comportada e não prejudicará” o trabalho de ninguém. A certa altura a criança estava saturada; a mãe deu-lhe uma vassoura para “varrer a oficina”; a criança “brincou” com os resíduos, empurrando-os dum lado para o outro.

Eis que um inoportuno escrevinhador passou por ali e poderá ter perguntado à criança:
- Que estás a fazer aqui, minha menina?
- Estou a varrer! Terá respondido inocentemente a bebé.
Assim, o escrevedor, provavelmente mal-intencionado, conseguiu um “belo tema” para sua obra.

Logo se decidiu que aquela tolice não constaria do nosso trabalho. Boa decisão! Devemos ser sempre imparciais ou... procurar sê-lo!

Àcerca dum texto meu sobre o “Emile” de Rousseau, aconselharam-me a “desempolar” o tema porque o estilo não se enquadrava no texto geral. Sem alterar o conteúdo (isso não estava em causa) lá “desenfatuei” o que tinha escrito.


Caro leitor! Está surpreendido porque ainda ninguém plagiou? Então aí vai!

Um grupo de 4 moças apresentou as necessárias cópias do seu trabalho; lembro-me que foi dos mais acaloradamente discutidos; as autoras foram advertidas pelos muitos erros ortográficos e sintáticos.
Elas defenderam-se, atribuindo a “culpa” ao dactilógrafo e elas não tiveram tempo de reler e corrigir o que tinham “bem” escrito. Ainda não tinha chegado a era da informática e a fotocópia ainda era um luxo de má qualidade e de custo elevado.
A discussão continuou acesa mas o trabalho foi aprovado não sei já com que percentagem de votos a favor e elas foram consideradas “aptas”.

Dois ou três dias mais tarde, estabeleceu-se a confusão! Que grande balbúrdia! Autêntico regabofe!
Umas colegas que trabalhavam no Algarve enviaram o seu douto comentário escrito e formularam uma série de perguntas absolutamente pertinentes. Afirmavam e demonstravam claramente que o trabalho em causa era um constante plágio (elas diziam cópia) quase de fio a pavio. E citavam:
- No parágrafo tal da página tal as autoras afirmam categoricamente... e transcreviam o citado parágrafo.

Elas continuavam: - o autor fulano na obra e página tal e tal diz... e concluíam que até a tradução estava falseada e os erros ortográficos e sintáticos eram assíduos.
Citaram uma chusma de parágrafos plagiados e quase sempre mal traduzidos e com erros.

Alguém perguntou à professora se era ainda possível recuperar e anular a nossa decisão anterior. A professora respondeu que tal era absolutamente impossível porque as notas já haviam sido escrituradas nos cadastros individuais. Nada se podia fazer para repor a legalidade. Talvez pretendesse defender-se do erro coletivo!

Chegou a minha vez de reentrar na contenda, atacar o sistema, tentando desancar os seus defensores:
- Temos de concluir, doa a quem doer, que somos acusados de ter cometido uma tremenda injustiça e a culpa não pode ser atribuída ao “sistema”. Já sabíamos que tal decisão não poderia conduzir-nos a bom porto. Cada macaco no seu galho! A professora na sua cátedra, deve defendê-la e respeitá-la; nós nos nossos assentos devemos ser alunos até ao fim.
Por outro aldo, perante a avaliação elaborada pelas colegas do Algarve, somos obrigados a concluir que elas conhecem a fundo esta matéria; elas detectaram com grande pormenor o que, nem nós, nem a professora, conseguimos denunciar. Somos levados a concluir que nenhum de nós tem condições para aquilatar os conhecimentos que elas irão exibir no trabalho que apresentarão dentro de dias. Perante isto e tendo em conta que elas já provaram que são excelentes conhecedoras da matéria, proponho que o seu trabalho seja considerado apto sem qualquer discussão. É a maneira de reconhecermos que elas já são na verdade “doutoras” no assunto em causa. Eu recuso-me a atribuir-lhes nota doutra maneira,... por incapacidade minha.

A proposta foi aprovada por unanimidade, incluindo a professora.
A colega MRPP, logo que viu o seu trabalho aprovado, nunca mais apareceu nas aulas.
De seguida a professora lamentou profundamente o que tinha acontecido e garantiu que tal não mais se repetiria – nunca!
As fraudulentas, (plagiadoras) porém, foram (já tinham sido) consideradas “aptas” e não havia (?) maneira “legal” de corrigir aquela bestial monstruosidade. Era mais um acontecimento excêntrico, estupendo (estúpido) do PREC (processo revolucionário em curso)... no seu auge!

Lisboa, 04 de Janeiro de 2012
Belmiro Tavares
____________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 23 de Dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9258: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (19): Recordações de um colega cego

Guiné 63/74 - P9326: Memórias de Manuel Joaquim (2): Manhã maculada


1. Mensagem de Manuel Joaquim* (ex-Fur Mil de Armas Pesadas da CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67), com data de 5 de Janeiro de 2012:

Meus caros amigos e camaradas,
Aqui vai uma coisinha que ainda vive na minha memória. Se acharem que vale a pena

Um grande abraço
Manuel Joaquim



MEMÓRIAS DE MANUEL JOAQUIM - 2

MANHÃ MACULADA

Introdução

Os primeiros dois meses e meio de comissão passou-os, a minha CCaç 1419, em Bissau. Rondas, serviços de guarda, ações de vigilância na área do aeroporto, uma ou outra escolta a batelões de abastecimento nas suas deslocações pelo rio Cacheu ou pelos canais do sul da Guiné. Uma maravilha comparando com o que acontecia às duas outras Companhias operacionais do Bcaç 1857 (1420 e 1421), a primeira em Fulacunda e a segunda em Mansabá/K3. Cheiros de guerra a sério também tivemos mas poucas vezes e foram só cheirinhos. Saíamos para Mansoa onde, enquadrados por tropas já veteranas, participámos em ações de reconhecimento. Houve contactos com o IN mas de fraca intensidade e sem vítimas visíveis de qualquer dos lados, exceto uma vez, no início de outubro de 1965, dois meses depois da chegada à Guiné. Mas, “aburguesados” em Bissau, estas participações causavam-nos algum nervosismo. Coisas de “periquitos”.


Manhã maculada

E mais uma vez, náufragos inseguros num “mar” quase desconhecido, massas de sombras embrulhadas em silêncio e medos indefinidos, lá vamos a caminho de Mansoa. As viaturas, estrada fora roncando, vão rompendo o negrume espesso daquela noite chuvosa e trovejante.
Espera-nos um grupo de “velhinhos”, prontos para nos apoiar e instruir em mais uma das nossas idas à guerra. Havia algum exibicionismo da sua parte. Ao nosso ar encolhido, tímido e ansioso contrapunham uma pose desinibida, à gingão, fardas desbotadas com falha de botões e/ou rasgada, botas cambadas, manuseio fácil e displicente da G3, pose madura e superior mas apaziguadora para estes “periquitos” de camuflado novo de cores vivas, idos de Bissau.
E é nesta pose ostensivamente protetora que nos juntam ao seu grupo para os acompanharmos numa ação de vigilância, de segurança e de reconhecimento.

Na escuridão da noite os relâmpagos próximos dão cabo da nossa, já de si difícil, perceção visual. A progressão faz-se de mãos nas costas ou no ombro do camarada da frente. Ouvem-se sons dos toques entre capacetes e armas devidos a cortes frequentes na coluna que obrigam a fortes acelerações e a choques inesperados ... ... ...

Amanhece. As sombras começam a dissipar-se e as formas da natureza envolvente tornam-se rapidamente mais nítidas. Acariciados pelo resplandecer matutino e pelos golpes de luz entre os intervalos da chuva, somos embalados pelo cantar das aves e interpelados pelos novos sons da floresta. Um ribeiro bem cheio é atravessado. A exemplo dos de mais baixa estatura, preparo-me para o atravessar elevando os braços e segurando a arma e o capacete com os cigarros dentro. Ao chegar a minha vez vejo-me com água pelos olhos. De braços no ar lá vou avançando, qual canguru aos saltos para a frente, tentando respirar na parte alta do salto. Há um matulão atrás de mim que deve ter perdido a paciência e, não sei como, dei por mim a pairar sobre a água e a aterrar na margem, sob risadas surdas e gozonas! Mas que culpa tenho eu do meu 1,63 m?

Avançamos. A paisagem inebria, uma mescla de aromas densos e acres evola-se da terra molhada, a folhagem verde do capim brilha nas gotas de água que a salpicam e que refletem, faiscando, os raios do sol. Há qualquer coisa de sagrado naquele ambiente que uma fila de homens armados ofende. Repetem-se momentos onde se chocam sensações opostas de sofrimento e de gozo, de ansiedade e de paz ... ... ...

E, de repente ...! Um grito lancinante de mulher corta os ares, seguido de rajadas de G3 e de alguns tiros de som diferente. Houve contacto com o IN, um encontro inesperado para os dois lados. Segue-se um silêncio interrogativo e de preocupação nas hostes “periquitas”. Ouvem-se ruídos de vozes lá para a frente da coluna.... (Ah, aquele grito de mulher, aquele grito de dor, de impotência, de desespero e aviso (... ...)! Ah, aquele grito que nunca mais me sairá dos ouvidos, que ecoou na selva ao momento da aurora, seguido de rajadas de espingarda automática! Ela sentiu que se acabava, mostrou-me como é grande o desejo de viver e antes de cair varada pelas balas gritou bem alto o aviso aos outros que, como ela, estavam sob o nosso cerco.)*

Levanto-me e procuro informação. Avanço e vejo um corpo de mulher varado pelas balas. Diz-se que o grupo seria numeroso e que o seu grito tão forte foi de aviso aos seus companheiros de caminho. Alguns ripostaram com fogo de modo a facilitarem a fuga de quase todo o grupo que, tudo levava a crer, tinha funções de reabastecimento de alguma célula do IN.

Olho de novo para o corpo estendido e reparo numa figura sentada, ali perto e encostada às pernas de um soldado. Calada, alguns fios e salpicos de sangue pelo corpo, olhar vago, expressão indefinida, talvez em estado de choque, está uma jovem bajuda, aparentando uns 15 a 17 anos (viçosa, semi-nua, seios túrgidos e vigorosos pintalgados de sangue, talvez filha. Manhã maculada! Manhã terrivelmente dolorosa. Infelizmente, manhã inesquecível. Quão estúpida e vergonhosa, horrível e criminosa é a guerra, minha querida...)*

*Em itálico, excertos duma carta enviada, na altura, à minha namorada e futura esposa.

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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9153: Notas de leitura (309): Guillaume Apollinaire, de George Vergnes (Manuel Joaquim)

Vd. primeiro poste da série de 27 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5358: Memórias de Manuel Joaquim (1): O Balanta furtador

Guiné 63/74 - P9325: Ser solidário (119): Anabela Pires: A caminho de Iemberém como voluntária da ONG AD - Acção para o Desenvolvimento (JERO)



1. O nosso Camarada José Eduardo Oliveira - JERO -, (ex-Fur Mil da CCAÇ 675, Binta, 1964/66), enviou-nos a seguinte mensagem: 


A CAMINHO DE IEMBERÉM COMO VOLUNTÁRIA DA “AD”

Camaradas,


Remeto-vos mais um texto que, nos tempos que correm, julgo ser um  grande exemplo de generosidade e amor pelo próximo. Uma senhora, que  poucos meses depois da reforma, resolve ir fazer voluntariado para a  Guiné, para a zona da Mata do Cantanhez.

Família, amigos(as), ex-colegas, ex-vizinhos:
 
Chegou o dia da partida. Hoje às 21.30 embarco para a Guiné-Bissau. No Domingo bem cedo,às 6 da manhã, farei a viagem para o Sul, para Iemberém, onde ficarei a residir nos próximos 6 meses. Vou contente, esperançosa, de muito aprender e, quem sabe, ensinar também.
 
Obrigada a todos os que partilharam comigo estes meses de preparação desta viagem, àqueles que me ajudaram de uma ou outra forma, àqueles que nos últimos dias me têm contactado para um último adeus.
 
Parece que vou para o fim do mundo mas não é assim. São só 3300 Kms de distância, 4 horas de voo e até dá para lá ir de carro. A alguns, os(as) mais atrevidos(as), eu espero um dia receber em Iemberém.
 
Aqui fica para cada um de vós um grande abraço e um até breve.
 
Anabela Pires
(6.Janeiro.2011)


Fotografia: © João Graça (2009). Direitos reservados.

Voluntariado na Guiné 

Conheci a Anabela Pires, em Coimbra, no dia do falecimento de sua Mãe.Já lá vão um bom par de meses. A conversa foi de circunstância e a minha presença na cerimónia religiosa ,no dia do funeral, deveu-se à minha relação fraterna com a sua irmã Margarida Pires, professora em Alcobaça e camarada de boas causas (Defesa de Património Cultural e outras). 

No último Verão soube pela Margarida que a sua irmã Anabela queria fazer serviço voluntário na Guiné. Falei-lhe do nosso Pepito (nickname do Engenheiro Agrícola Carlos Schwarz da Silva), que vive e trabalha em Bissau desde 1975, sendo um dos fundadores da AD - Acção para o Desenvolvimento. 

O mundo é pequeno e a Anabela Pires tinha sido colega e amiga da Alice Carneiro, mulher do nosso Editor Luís Graça. 

Poucos dias depois estava a falar com as pessoas certas e em poucos meses “arrumou” a sua vida para cumprir esse seu velho de sonho de fazer voluntariado em África. 

Esteve em minha casa na passada 4ª. feira, dia 4, a despedir-se e, obviamente a fazer-me perguntas sobre a “nossa” Guiné. Respondi-lhe gostosamente e tentei atenuar alguns dos seus receios em relação “a cobras e lagartos”. E ofereci-lhe um exemplar do meu livro “Golpes de Mão’s” com uma dedicatória em que lhe chamava “Mulher Grande”. 


Pedi-lhe para escrever alguma coisa para o nosso blogue. Agradeceu o convite mas disse-me que era cedo. Escreveria “quando tivesse feito alguma coisa de bom na Guiné”.
Recebi hoje o e.mail que reproduzi no início deste texto. E respondi como segue.

«Olá Anabela




Relendo o texto fixei-me de novo na parte do e.mail da Anabela em que diz:

«A alguns, os(as) mais atrevidos(as), eu espero um dia receber em Iemberém.»

Sinceramente passei ,a partir deste momento, a ser candidato a uma viagem à Guiné.
O futuro o dirá.

Em ano de crise percorrer 3.300 kms…não é (quase) nada!

E por uma boa causa…valerá sempre a pena.

JERO
Fur Mil da CCAÇ 675 
___________ 
Nota de M.R.: 

Vd. Também o último poste desta série em: 




Obrigado em meu nome e ,julgo poder dizê-lo, em nome de todos que passaram pela Guiné fazendo a guerra mas recordando, essencialmente, a paz..

Que tudo corra bem e parabéns aos Guineenses por terem junto deles a partir de hoje uma Mulher da sua raça. Uma Mulher (de) Grande (coragem).

Até breve.

Com todo o afecto (com “c”) aceite um apertado abraço do JERO».

Guiné 63/74 - P9324 História do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72): Homilia do Alf Mil Capelão Arsénio Chaves Puim, em Viana do Castelo, a 6/5/1970, na missa da benção dos guiões, antes da partida (Benjamim Durães)

Fonte: Excertos de História do Batallhão de Artilharia nº 2917, de 15 de Novembro de 1969 a 27 de Março de 1972. (*)


Anexo ao Capítulo I da História da Unidade >

CERIMÓNIAS DE DESPEDIDA > 06.MAIO.70


 O dia amanheceu chuvoso em Viana do Castelo. Foi o dia marcado para oficialmente a Cidade se despedir do BART 2917. Foi o dia em que cada Unidade recebeu o seu Guião.


Igreja de São Domingos – 10, 30 horas


Na Capela-Mor as entidades de Viana do Castelo que quiseram honrarem com a sua presença:
- Reverendíssimo Arcipreste do Julgado Eclesiástico de Viana do Castelo;
- Governador Civil do Distrito;
- Presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo;
- Comandante Militar;
- Capitão do Porto de Viana do Castelo;
- Comandante Distrital da GNR;
- Presidente da Junta Distrital;
- Delegado do INTP;
- Comandante Distrital da PSP;
- Comandante da Secção da Guarda Fiscal;
- Comandante Distrital da Legião Portuguesa;
- Senhoras do Movimento Nacional Feminino local;
- Senhoras da Cruz Vermelha Portuguesa;
- Delegado Distrital da Mocidade Portuguesa;
- Delegado Distrital da Mocidade Portuguesa Feminina;
- Comandante do Batalhão de Caçadores Nº 9.


Estranhos a Viana do Castelo, [eram] apenas o Comandante do RAP 2, Coronel de Artilharia Neto Parra, a quem pelo telefone foi pedido que representasse o Comandante da Região Militar do Porto que,  intimidado pela chuva ou pela distância, brilhou pela ausência, e o Capelão da Região Militar do Porto.

Presente na vasta nave, o Batalhão assistiu à “Bênção dos seus Guiões”,  seguida de missa celebrada pelo nosso Capelão, Alferes Miliciano dos Serviços Religiosos Arsénio Chaves Puim. À homilia o nosso Capelão Alferes Miliciano Arsénio Chaves Puim  [, foto à direita,] disse:

“Amigos e Companheiros:


"O problema fundamental do homem não é ser oficialmente cristão. O cristianismo existe em razão e em função da verdade e do bem objectivos e não é, portanto, verdadeiro e bom porque é cristianismo, mas é cristianismo, porque é verdadeiro e bom.


"De resto, o cristianismo é essencialmente um espírito e uma vida, uma mentalidade e uma conduta efectiva, que não aceita monopolistas nem detentores absolutos.


"O problema fundamental do homem também não é ser oficialmente cristão, na medida em que isso pode implicar desvio da verdade e do bem, e até cobardia e falta de personalidade, além da falta de estudo e procura. O problema fundamental dos homens, penso que é um problema de seriedade e verdade, de coerência consigo, de autenticidade humana e realização da missão de vida.


"Cristo apareceu num determinado ponto do curso da história humana e, num programa de autêntico revolucionário, destroçou erros, descentralizou frases legalistas, focalizou as grandes virtudes do amor e da justiça e aperfeiçoou o âmbito dos conhecimentos e da Fédos homens.

"A Igreja adoptou, ou melhor, nasceu desse Cristo e pregou-o. Os povos aceitaram-no ou guerrearam-no e todos, em movimentos de adesão ou combate e heresia, influenciando-se mutuamente, têm contribuído para o desenvolvimento progressivo da verdade evangélica e a realização mais precisa e renovada do espírito de Cristo no Mundo, que é de Fraternidade na Liberdade, Acção na Justiça, Paz no Progresso.

"No fim de contas, todo o Mundo e todos nós, Cristãos ou não, assumimos muito do espírito cristão e encontramo-nos num ponto de convergência, não só pelo respeito e amor mútuos, mas na posse da verdade essencial.

"É por isso que aqui estamos todos nesta Missa e que eu ouso confiar na compreensão daqueles que, porventura, em circunstâncias de maior espontaneidade, não estariam aqui presentes neste momento.

"A Missa é de facto, na sua origem, essência e história, um acto do culto católico, que não pode ser número de, programa acomodado sem efeito a propósito ou, ideologias que não sejam a prestação pura de honra ao Pai da humanidade e com Cristo incarnado e sacrificado, e a comunhão da Palavra e do Pão de Deus.

"Julgo porém que, segundo o que disse, esta missa será um acto de grande profundidade existencial e estimulante solidariedade humana e religiosa para esta comunidade, que todos nós formamos - ”O Batalhão 2917”.


"Deixamos com saudades as nossas famílias, estamo-nos a despedir deste simpático povo de Viana do Castelo, e em breve deslocar-nos-emos para a Guiné, onde vivemos juntos dia a dia, pisando as mesmas dificuldades e sacrifícios, realizando a mesma vida, com uma nova família, onde todos formarão um, cada um viverá para todos e todos para os outros.


"Esta hora de missa deverá bem sintetizar, consolidar e intensificar esse espírito de comunidade que nos une, assim como os altos ideais humanos e cristãos, que são apanágios de todos os homens de boa vontade em quaisquer circunstâncias.


"Os exércitos também têm a sua mística altamente humanitária, que não a guerra, essa nunca poderá ser um ideal ou valor em si mas a defesa do direito de todos, a garantia da liberdade dos povos, a consecução da paz justa, o compromisso apenas com verdade.


"O Batalhão 2917 viverá rectamente esta missa e a sua comissão de serviço na Guiné se para todos pesar um desejo sério de sermos homens mais perfeitos, uma comunidade militar autêntica ao serviço dos outros (da África Negra) e construirmos um Mundo melhor.”


Que assim seja!
____________

Nota do editor:


(*) Vd. último poste da série > 6 de desembro de 2012 > Guiné 63/74 - P9322: História do BART 2917: "P'la Guiné e suas gentes": a alocução patriótica do comandante, em Viana do Castelo, a 8/4/1970, antes da partida (Benjamim Durães)

Guiné 63/74 - P9323: Álbum fotográfico de José Eduardo Silva: A Marinha e a FAP em 1966

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Janeiro de 2012:

Queridos Amigos,
Fotos que nos foram oferecidas pelo Zé Eduardo*, amigo de um primo, autoriza a sua divulgação no nosso blogue. Ele explica a proveniência, di-lo explicitamente.
Um pequenino ronco, mais uma glória para o nosso grandioso álbum.

Um abraço do
Mário


Álbum fotográfico de José Eduardo Silva: A Marinha e a FAP em 1966

Fotos da Guiné, e provavelmente alguma de Cabo Verde, tiradas pelo Capitão de Fragata José Januário da Conceição e Silva, Ajudante de Campo do Ministro da Marinha Almirante Quintanilha de Mendonça Dias, numa visita aos teatros de operações em 1966.
Zé Eduardo



Fotos: © Coleção familiar, cedidas por José Eduardo Conceição e Silva - Jan 2012. Direitos reservados

Notas do editor:

(*) Zé Eduardo é Presidente da Direcção da AGM - Associação Grémio das Músicas

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Guiné 63/74 - P9322: História do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72): "P'la Guiné e suas gentes": a alocução patriótica do comandante, em Viana do Castelo, a 8/4/1970, antes da partida (Benjamim Durães)

Raras são as histórias das unidades, que serviram no TO da Guiné, que transcrevem discursos ou alocuções dos seus comandantes e oficiais. A História do BART 2917 surpreende pela exceção: publica uma alocução do seu comandante, no final do IAO, em Viana do Castelo, bem como uma homilia do seu capelão (o Alf Mil Capelão Arsénio Puim, membro da nossa Tabanca Grande)... 

É material de inegável interesse para o estudo dos aspetos discursivos, éticos, disciplinares, doutrinários e político-ideológicos, da formação, comando e enquadramento das NT. Vamos publicar essas duas peças, em separado.

Referência à História do BART 2917, Bambadinca, 1970/72 - documento classificado como "reservado" - , segundo versão policopiada gentilmente cedida ao nosso blogue pelo ex-Fur Mil Trms Inf, José Armando Ferreira de Almeida, CCS/ BART 2917, Bambadinca, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande; o excerto que hoje se publica consta da versão, em suporte digital, corrigida, aumentada e melhorada pelo Benjamim Durães, igualmente nembro da nossa Tabanca Grande.  

Com a devida vénia e com o nosso apreço por todos os camaradas do BART 2917 para quem vão as nossas saudações, ainda a tempo, no início do novo ano de 2012. L.G. (*)


Fonte: Excertos de História do Batallhão  de Artilharia nº 2917, de 15 de Novembro de 1969 a 27 de Março de 1972.



CAPÍTULO I

HISTÓRIA DO BATALHÃO DE ARTILHARIA Nº 2917

MOBILIZAÇÃO, COMPOSIÇÃO E DESLOCAMENTO PARA O C. T. I. G.


01 –A Circular Nº 33631/MOB de 15.NOV.69 da Repartição de Oficiais da DSP/ME difundiu a mobilização dos Oficiais superiores para o BART 2917 destinado a reforço do CTIG, ficando assim constituído o seu Comando:
- CMDT – Tenente-Coronel de Artª DOMINGOS MAGALHÃES FILIPE;
- 2º CMDT – Major de Artª                                JOSÉ ANTÓNIO ANJOS DE CARVALHO; e,
- ADJUNTO – Major de Artª                               JORGE VIEIRA DE BARROS E BASTOS.

02 – A Circular 33570/MOB de 15.NOV.69 da Repartição de Oficiais da DSP/ME difunde a mobilização em bloco dos quatro Capitães do Batalhão que, após uma escolha pessoal, ficaram distribuídos como se segue:
- CCS / BART – Capitão de Artª                      GUALBERTO MAGNO PASSOS MARQUES;
- CART 2714 – Capitão de Artª                      JOSÉ MANUEL DA SILVA AGORDELA;
- CART 2715 – Capitão de Artª                      VITOR MANUEL AMARO DOS SANTOS; e,
- CART 2716 – Capitão Mil. de Artª               FRANCISCO MANUEL ESPINHA DE ALMEIDA.




03 – Várias Circulares posteriores nomeiam o restante pessoal do Batalhão.

04 – Depois do estágio de contra-insurreição, frequentado no Centro de Instrução de Operações Especiais em LAMEGO (CIOE), pela quase totalidade dos seus quadros, estes apresentaram-se no RAP-2 (Regimento de Artilharia Pesada Nº 2) onde de 03.DEZ.69 a 20.DEZ.69 decorreu a Instrução Preparatória de Quadros com vista à instrução da Especialidade de Atirador de Artilharia do 4º Turno da Escola de Recrutas de 1969 que ali iria decorrer e que forneceria o grande contingente de atiradores do Batalhão.
- Tendo como Director de Instrução o ADJUNTO DO BATALHÃO (Major de Artª Barros e Bastos), que no desempenho das funções foi sempre interessadamente apoiado pelo CMDT DO BART - TENENTE CORONEL DOMINGOS MAGALHÃES FILIPE, a instrução programada foi frequentemente alterada devido às condições climatéricas do momento. Contudo, com excepção do Aspirante a Oficial Miliciano ANTERO J. D. SOARES que apenas a frequentou durante 5 dias por ter baixado ao HMP, todo o pessoal teve aproveitamento.  [...]

05 – Em 03.JAN e 04.JAN.70 fez-se a concentração no Quartel da Serra do Pilar, (RAP-2) em VILA NOVA DE GAIA, dos recrutas vindos do Centro de Instrução Básica, a quem foi ministrada durante sete semanas a especialidade de Atirador de Artilharia, instrução que decorreu nos terrenos do RAP 2, Monte da Virgem em VILA NOVA DE GAIA, terrenos da Carreira de Tiro de ESPINHO, e matas nacionais na área de CORTEGAÇA-ESMORIZ.

06 – Em 23.FEV.70 inicia-se a organização das Unidades mobilizadas para o Ultramar do 4º Turno de 1969, realizando-se a concentração do BART 2917 na vetusta fortaleza de SANTIAGO DA BARRA, em VIANA DO CASTELO, ficando o BATALHÃO adido ao BC 9 (Batalhão de Caçadores nº 9), seguindo-se-lhe de 02.MAR.70 a 21.MAR.70 a primeira parte da Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IOA).

07 – De 23.MAR a 01.ABR.70, todo o pessoal gozou a “licença de nomeação para o Ultramar” nos termos do Artº 20º das Normas para a Nomeação e Cumprimento de Comissões Militares ficando o Batalhão pronto para embarque em 04.ABR.70.

08 – Entretanto fora tomado conhecimento da Circular 519/PM de 12.FEV.70 da 1ª REP do E.M.E. que informava que o BATALHÃO DE ARTILHARIA 2917 e suas COMPANHIAS DE ARTILHARIA 2714, 2715 e 2716 se destinavam a render no Comando Territorial e Independente da Guiné (C. T. I. G.) o BATALHÃO DE CAÇADORES 2852 e as COMPANHIAS DE CAÇADORES 2404, 2405 e 2406 em serviço na mesma Província.

09 – Em virtude de ter sido protelado o embarque do BART 2917 inicia-se, após o regresso de “Licença das Normas”, a segunda parte de Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (I. A. O.).

10 – Toda a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (I.A.O.) decorreu predominantemente em ambiente muito acidentado (Serra de Santa Luzia em Viana do Castelo) apesar dos esforços feitos pelo Comando do Batalhão para que tal se desenrolasse em zonas tanto quanto possível planas semelhantes às da Província em que o Batalhão viria servir, pelo menos como as de CORTEGAÇA-ESMORIZ onde se haviam desenrolado os exercícios de campo da I. E., mas razões de ordem logística e de planeamento superior impediram a satisfação de tal desejo.

11 – Na segunda parte do I. A. O., a mentalização do pessoal para servir na Província da GUINÉ teve os seus momentos de maior exaltação.
- Quando foi imposto individualmente a cada homem pelo graduado seu imediato comandante, em formatura geral do Batalhão, o emblema do BART 2917 com a sua divisa “P’LA GUINÉ E SUAS GENTES”.            
– Quando foram entregues em cerimónia pública os Guiões do Batalhão.


12 – Em 16.MAI.70 o BATALHÃO DE ARTILHARIA 2917 abandonou VIANA DO CASTELO, por via-férrea, a caminho de LISBOA, onde embarcaria na manhã de 17 DE MAIO no navio CARVALHO DE ARAÚJO, rumo à Província Ultramarina da Guiné.

  
13Em 25.MAI.70 o BATALHÃO DE ARTILHARIA 2917 desembarca em BISSAU e segue para o DEPÓSITO DE ADIDOS em BRÁ.

14 – Desembarcaram em BISSAU em 25.MAI.70, 30 Oficiais, 64 Sargentos, na sua maioria provenientes do MINHO com efeito dos 641 homens que desembarcaram em BISSAU, 269 eram naturais daquela Província. [...]

ANEXO 1

AO CAPÍTULO I DA HISTÓRIA DA UNIDADE
EMBLEMAS DO BATALHÃO

- Durante a primeira parte da Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (I. A. O.) concluímos as discussões para encontrarmos o emblema que simbolizasse a nossa Unidade.
- Depois de grande azáfama, em que os projectos se modificavam todos os dias, por unanimidade foi aceite:

- Primeiro a forma (a do ESCUDO das centúrias romanas e ao utilizá-la invocámos a determinação dos Centuriões), depois a cor fundamental - (o VERDE da nossa esperança) a seguir, com os parcos conhecimentos de heráldica e muita boa vontade de todos, a mão firme do Furriel Miliciano Atirador FRANCISCO MANUEL ESTEVES SANTOS, da CART 2716, deu forma às ideias traçando:
- O cavaleiro de um escudete, quartejado pela cruz da Região Militar do Porto; o elmo encimado pelo leão rampante empunhando a granada característicos do Exército Português e das suas unidades de Artilharia; no quartel superior esquerdo do escudete, as granadas da nossa Unidade Mobilizadora (RAP 2); no quartel superior direito a armas da Província da Guiné onde vamos servir; enquadrando todo o conjunto ao alto a designação da nossa Unidade (BART 2917), e na base a nossa divisa “P’LA GUINÉ E SUAS GENTES” lateralmente as palmas de louros que acompanham os vencedores.

- E chegou o dia 08.ABR.70, estava no fim a primeira parte da Instrução de Aperfeiçoamento Operacional; já não era uma amálgama de homens, era o BATALHÃO DE ARTILHARIA 2917 formado por um conjunto de equipas agrupadas em secções, estas em Grupos de Combate e estes em Companhias.

- As velhas pedras da vetusta FORTALEZA DE SÃO TIAGO DA BARRA viram formado no seu pátio o BART 2917, sob o Comando do 2º Comandante, prestar continência ao seu Comandante, Tenente Coronel de Artilharia DOMINGOS MAGALHÃES FILIPE e ouviram-no proferir:



 "Militares do BART 2917,

"Estamos hoje aqui reunidos quase todos os elementos que constituem o nosso Batalhão. É desejo de todos nós que, daqui a 2 anos, ao regressarmos, aqui todos também nos possamos voltar a juntar.

"No Ultramar, muitos dos que morrem ou se incapacitam, são vítimas de desleixo e falta de obediência pronta e completa, às ordens recebidas. A maioria das baixas é devida a desastres com viaturas auto ou a acidentes com armas de fogo. Os excessos de velocidade e as manobras perigosas são permanente precaução. No mato só se atira para acertar. Os tiros à sorte, são os que matam os nossos Camaradas.

"No Quartel as armas estão sempre em segurança, sem bala na câmara. Não queremos que a falta de cuidado nos abra ferida na nossa consciência.

"Mesmo em situações difíceis nem tudo está perdido quando não se perde a cabeça. Como vocês irão ver, com os vossos próprios olhos, não é a situação da Guiné tão má como a pintam, e posso assegurar-vos de que ela melhorou consideravelmente nos últimos meses.

"Vai-nos ser exigido muito esforço. Há abrigos para melhorar, trincheiras para abrir, capim para cortar, e tudo isto sob a acção dum sol que queima e de um calor que sufoca. Mas vale a pena, quanto mais suarmos, menos sangue derramaremos. Muito teremos de palmilhar na mata, muitas e longas noites teremos de permanecer imóveis de olho alerta e ouvido à escuta em silenciosas emboscadas, isso nos poupará muitas vidas.

"Procurando, perseguindo e abatendo o inimigo, impedimos que nos procure a nós, nos surpreenda e nos cause danos que todos profundamente sentiríamos. Sendo fortes, corajosos e animados de inquebrantável vontade de vencer, logo o inimigo disso se aperceberá, e perante a nossa força, fugirá como gato de água, deixando-nos livre o caminho do sucesso. Por tudo isto, o Militar do nosso Batalhão cumprirá sempre, com alegria e determinação, as ordens que receber, por mais duras que lhe pareçam.

"O êxito é o prémio da disciplina bem observada e bem compreendida …! Vestimos a mesma farda, somos uma parte do Exército duma Nação que há mais de oito Séculos vem escrevendo, com letras de ouro e de sangue, as mais belas páginas do livro da História do Mundo. Recebemos uma herança do passado, que muitos cobiçaram e cobiçam no presente, mas que temos de a transmitir intacta aos nossos filhos.

"Contra os rochedos da nossa vontade e da nossa fé, se irão despedaçando, uma após outra, as vagas do mar turvo da subversão alimentado pelas águas sujas dos interesses das outras Nações.

"Militares do BART 2917!...

"Somos uma parte do glorioso Exército Português, somos Militares do BART 2917, e isso terá de estar sempre presente na nossa mente, na nossa alma, no nosso coração.

Vai-vos ser agora imposto o emblema da nossa querida Unidade! Vai ele ser o símbolo que nos une. Nele vedes o verde da nossa fé, aureolado pelos louros da vitória que todos ardentemente queremos. Nele estão os elementos representativos do Regimento a que pertencemos e queremos honrar, nele está simbolizado o escudo da Província, onde a nossa passagem, também queremos, fique na memória de todos. Nele está inscrita a legenda “P’LA GUINÉ E SUAS GENTES”, essas gentes portuguesas que, a seu lado e de armas na mão, vamos ajudar a defender, bem como a sua terra, que sendo sua também é nossa.

"Que o nosso emblema inspire nas populações sentimentos de simpatia, estima, confiança e admiração; que o inimigo tema quem o usa no seu peito porque somos o BART 2917; que ele se torne para nós motivo de orgulho porque sempre o honraremos; e que mais tarde, no ambiente calmo das nossas casas, no calor dos nossos lares, colocado em lugar de destaque como relíquia de um passado nosso, recorde com saudade os altos momentos vividos, a amizade que nos ligará para sempre, os esforços e sacrifícios que fizemos, com a satisfação intima de ter-mos cumprido o nosso dever, com o generoso contributo que cada um de nós deu à Pátria, mãe de todos os português de todas as corres, de todas as raças, de todas as religiões e costumes”.
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Nota do editor:

Último poste da série > 10 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9021: História do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72): Resumo dos factos e feitos mais importantes, por João Polidoro Monteiro, Ten Cor Inf (Benjamim Durães)