sábado, 26 de maio de 2012

Guiné 63/74 - P9948: Agenda cultural (204): Convite ISCTE-IUL, para o Lançamento do livro digital sobre "Militares e sociedade, marinha e política



Convite ISCTE-IUL
Lançamento de livro digital sobre "Militares e sociedade, marinha e política"
30 de Maio às 18h00 no auditório B203, edifício II 


No próximo dia 30 de Maio, é apresentada a edição do primeiro livro digital do ISCTE-IUL sobre “Militares e Sociedade, Marinha e Política: um século de História”, coordenado por Luísa Tiago de Oliveira e João Freire, professores do ISCTE-IUL. 

Resultado de um Encontro Científico, onde esta temática foi abordada, o livro surge da compilação de estudos desconhecidos ou ainda pouco divulgados, de forma a poderem ser partilhadas pela sociedade. 

Veja mais aqui

O livro será apresentado por Fernando Oliveira Baptista, sociólogo e professor da Universidade Técnica de Lisboa, e José Manuel Paquete de Oliveira, professor do ISCTE-IUL e antigo Provedor do Tele-espectador da RTP. 

A apresentação acontece pelas 18h00, no Auditório B203, Edifício II. 

Contamos com a sua presença e solicitamos divulgação junto dos seus contactos privilegiados. 

Melhores cumprimentos.
Visite-nos em
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P9947: Memórias da minha comissão (João Martins, ex-alf mil art, BAC 1, Bissum, Piche, Bedanda e Guileje, 1967/69): Parte VI: Bedanda, com o obus 14: um dos locais que me deixou mais saudades...



Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  125/199 > Casa do chefe de posto


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  149/199 > O régulo e a respetiva família.


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  136/199 > Aspeto parcial da tabanca




Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  138/199 > Moranças balantas... Um porco ao fundo.



Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  144/199 > Beldades locais... fulas. [No facebook, a Graça Martins, esposa do nosso camarigo,  escreveu o seguinte comentário: " aiaiaiaiaiai....."




Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  150/199 > Um djubi... e três bajudinhas da tabanca... fulas.




Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  148/199 > Mais um aspeto parcial da tabanca, com militares e civis...



Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  129/199 > Aspeto parcial do quartel... com uma casamata em primeiro plano.


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  130/199 > Aspeto parcial do quartel... À direita o espaldão do obus 14.





Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  133/199 > Espaldão do obus...  Cimentando o terreno para permitir rodar o obus sem se enterrar. 


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº  135/199 > O temível obus 14... mais um elemento da guarnição africana do Pel Art



Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº 127/199 > "Cartuchos de munições provenientes de países da cortina de ferro e capturados ao inimigo, durante a guerra fria que opôs as grandes potências imperialistas no seu esforço de expansão do seu domínio e das suas influências, aproveitando países com regimes políticos autoritários e repressivos".




Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº 126/199 > O A Alferes Artur Pimentel [, da CCAÇ 6,] no regresso de uma operação noturna através de bolanhas.


Guiné > Região de Tombali > Bedanda > 1969 > Álbum fotográfico do João Martins > Foto nº 154/199 >O repouso do guerreiro... "Bedanda foi um dos locais da Guiné que me deixou mais saudades".

Fotos (e legendas): © João José Alves Martins (2012) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados. [Fotos editadas e parcialmente legendadas por L.G.].







Memórias da minha comissão na Província Ultramarina da Guiné - Parte VI (*)

por João Martins (ex-Alf Mil Art, BAC1, Bissum, Piche, Bedanda, Gadamael e Guileje, 1967/69)


ÍNDICE

1. Curso de Oficiais Milicianos
1.1. Mafra – Escola Prática de Infantaria
1.2. Vendas Novas – Escola Prática de Artilharia – Especialidade: PCT (Posto de Controlo de Tiro)
2. Figueira da Foz – RAP 3 - Instrução a recrutas do CICA 2
3. Viagem para a Guiné (10 de Dezembro de 1967)
4. Chegada à Bateria de Artilharia de Campanha nº 1 (BAC 1) e partida para Bissum
5. Bissum-Naga
6. Regresso a Bissau para gozar férias na Metrópole (Julho de 1968)
7. Piche
8. Bissau, BAC 1
9. Bedanda
10. Gadamael-Porto
11. Guilege
12. Bigene e Ingoré 



____________________



 (Continuação)

9 - Bedanda

Terminada esta instrução [que fui dar ao BAC 1, em Bissau,] fui colocado em Bedanda onde já se encontrava um pelotão com três obuses 14 cm. 



Tive que fazer novamente as malas e apanhar uma Dornier (DO) que, passando por Catió onde tirei algumas fotografias que já não sei identificar, acabou por aterrar em Bedanda. Sem dúvida um dos locais da Guiné que me deixou mais saudades.


Fazia a sua defesa a Companhia de Caçadores 6, do recrutamento da Província, um pelotão de  milícia, e o pelotão de artilharia. A população era particularmente simpática e notava-se que tinha tido muito contacto com portugueses da metrópole. Aliás, a casa colonial existente [, a do chefe de posto,] era imponente.

Bedanda fica numa colina bastante elevada,  atendendo aos padrões de altitude que normalmente se encontram na Guiné. Não sendo uma fortificação inexpugnável, não oferecia quaisquer vantagens ao inimigo que se colocaríia sempre numa cota inferior. Por isso, os ataques eram pouco frequentes o que nos permitia respirar…






Guiné > Região de Tombali > Carta de Bedanda > 1956 >Escala 1/50 mil > Detalhe




Atendendo ao “clima” relativamente ameno que se fazia, visitava com muita frequência a tabanca e cheguei mesmo a ir à pesca e a tomar banho no rio {, Ungauriuol, afluente do Cumbijã] na esperança de não me tornar um isco para os jacarés.


Até que, um belo dia, estando eu concentrado a pescar, ouço vozes do outro lado do rio. Era pouco mais do que um simples sussurro, mas o indígena que lá se encontrava estava de tal modo excitado por me ver que falou um pouco mais alto do que pretendia, o que me levou a desviar a atenção para o que se passava do outro lado da margem, tendo concluído que coisa boa não podia ser. 


A frequência com que ia pescar já tinha dado nas vistas e “eles” [, o IN,] já estavam a ver se me apanhavam, o que, com um pouco de sorte,  não se afigurava muito difícil. É claro que, com movimentos lentos, encostei a cana a uma árvore, baixei-me, e bati em retirada para nunca mais lá voltar.

Outra vez, estando eu ao pé de um obus, aparece-me outro indígena de aspecto duvidoso, perguntando se o obus só fazia tiro para longe ou se também fazia tiro para perto. A pergunta era pertinente na medida em que, estando nós numa colina, para fazer tiro para perto quase que era necessário colocar o canhão na horizontal. Face aos desníveis do terreno respondi-lhe que só para longe. Ele foi-se embora, convencido pela minha pronta resposta e eu fiquei a pensar na pergunta.



É claro que “trazia água no bico” e concluí que “eles” [, o IN,] se preparavam para, pela calada da noite, tentarem um assalto e entrarem no aquartelamento, o que só fazia sentido pelo lado em que se encontravam as palhotas. Decidi então preparar-lhes uma recepção e mandei orientar os obuses com carga mínima e com uma inclinação a rasar a cobertura das palhotas. Tal como previa, atacaram mas devem ter ficado surpreendidos com a recepção… Quanto às palhotas, não devem ter ficado em muito bom estado porque granadas com 45 kg a passarem a 2 ou 3 metros não deve ter sido coisa muito agradável, mas é como diz o ditado “de mal o menos…”.


Certo dia, “um homem grande” manifestou o desejo de falar comigo, e embora achasse estranha tal pretensão, fiz-lhe a vontade. Entrei na palhota onde me aguardava com outro sujeito, e perguntou-me qual era a minha religião e se o meu Deus é que era o verdadeiro. 


Sabendo eu que estava na frente de muçulmanos que levam a religião muito a sério, compreendi logo que tinha que ser muito diplomático, caso contrário não sairia dali vivo. Pensando duas vezes, fui-lhe dizendo que o meu Deus era também o deles na medida em que só há um Deus que é o Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis e que portanto, as nossas religiões ou cultos,  embora fossem substancialmente diferentes,  adoravam o mesmo Deus, e que ou a religião dele tinha como primeiro Mandamento “amar a Deus acima de todas as coisa e ao próximo como a ti mesmo” e era verdadeira, ou, caso contrário, era falsa. E assim consegui sair vivo de mais esta situação que se podia tornar muito melindrosa.

(Continua)
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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 18 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9919: Memórias da minha comissão (João Martins, ex-alf mil art, BAC 1, Bissum, Piche, Bedanda e Guileje, 1967/69): Parte V : Depois de Piche: de novo em Bissau e Mansoa, a dar instrução a artilheiros, antes de ir para o sul (Bedanda, Gadamael e Guileje)

Guiné 63/74 - P9946: Parabéns a vocês (424): Ex-Cap Mil Carlos Nery, ex-1.º Cabo Op Cripto Gabriel Gonçalves, amigo João Santiago e ex-1.º Cabo Especialista MMA da FAP Jorge Narciso

Para aceder aos postes dos nossos tertulianos: Carlos Nery, Gabriel Gonçalves, João Santiago e Jorge Narciso, clicar nos respectivos nomes
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 24 de Maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9940: Parabéns a você (421): Rui Gonçalves dos Santos, ex-Alf Mil da 4.ª CCAÇ (Guiné, 1963/65)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Guiné 63/74 - P9945: Notas de leitura (363): "A CCAÇ 2317 na Guerra da Guiné - Gandembel / Ponte Balana", por Idálio Reis (Belarmino Sardinha)

Monte Real, 21 de Abril de 2012 > VII Encontro da Tabanca Grande > Idálio Reis dedica mais um exemplar do seu livro, "A CCAÇ 2317 na Guerra da Guiné - Gandembel / Ponte Balana", a um dos camaradas presentes.
© Foto de Juvenal Amado


Em mensagem do dia 24 de Maio de 2012, o nosso camarada Belarmino Sardinha (foto à direita) (ex-1.º Cabo Radiotelegrafista STM, Mansoa, Bolama, Aldeia Formosa e Bissau, 1972/74), faz a sua apreciação ao livro "A CCAÇ 2317 na Guerra da Guiné - Gandembel / Ponte Balana", de autoria do nosso camarada Idálio Reis, ex-Alf Mil At Inf da CCAÇ 2317 / BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana, 1968/69.
Como é sabido, este livro, edição de autor, foi autografado e oferecido aos presentes no último Encontro da Tabanca Grande.


Não vou fazer nenhuma crítica, não sou especialista na área e hoje até começo a ter dúvidas se ainda sei alguma coisa e quando acho que sei, interrogo-me se me lembro…

Quando compro um livro sinto-me na obrigação de o ler, gastei dinheiro, é o mínimo que posso fazer, mas quando alguém se propõe oferecer-me um livro e eu, de pronto e voluntariamente, aguardo para o receber, tenho a obrigação não só de o ler como dizer ao seu autor o que achei…

No caso concreto do livro escrito pelo Idálio Reis, não só devo dar-lhe conhecimento a ele, mas torná-lo público, razão para escrever estas linhas que mais não são que a minha opinião pessoal, pese o que pesar, sobre o que retirei da sua escrita.

Começo por agradecer-lhe o gesto e mais ainda por me considerar seu amigo, espero estar à altura de tal distinção.

Há muito que estava à espera deste livro, fui-me apercebendo pelos escritos no Blogue Luís Graça… ou Tabanca Grande, como preferirem, que coisas interessantes estariam para ser reveladas, não me enganei.

Comecei por verificar não se tratar de um livro de um eu, mas de, um nós. Coisa estranha e diferente dos demais, a particularidade como tudo é relatado, um envolvimento coletivo onde todos foram importantes e onde todos, sem exceção, são referidos pelos seus nomes e assim ficarão lembrados/imortalizados.

A forma como nos introduz naquele espaço de nome Guiné e nos faz a abordagem do povo que ali habita e do circundante, possibilitando a qualquer pessoa, mesmo a quem nada sabia ou sabe sobre aquela gente, como funcionavam as coisas no período mencionado. A forma como estruturou a sua narrativa, diferenciando os diferentes períodos e movimentos de meios no terreno em cada data e situação.

Depois, no descrever propriamente dito dos acontecimentos, a lembrança de todos que nos deixaram, quer por efeitos diretos da guerra, quer por acidentes motivados por esta. A forma como enaltece e reconhece o apoio e o trabalho, além do esforço de todos aqueles que marcaram presença naquele espaço no tempo a que se refere.

A crítica de como eram tratados os militares enviados para aquela terra e como eram de certa forma abandonados, sem uma preparação e apoio devidos, ficando apenas sujeitos ao desenrasca ou ao bom senso de um qualquer superior melhor preparado intelectualmente e por quem eram assumidas as responsabilidades e consequências, morais e patrimoniais.

Chega ao fim do livro sem nunca falar no eu, sempre nós, os militares, despido de qualquer vaidade ou protagonismo que só os grandes homens conseguem ter.

Por tudo que me ofereceu esta leitura, através do livro que irá ajudar a preservar a memória sobre estes homens e sobre tudo que passaram, aqui deixo o meu agradecimento ao autor do livro, que faz o favor de ser meu amigo, só possível por nos termos encontrado neste espaço onde escrevo estas linhas.

O meu obrigado ao Idálio Reis e a todos que não deixam esquecer este período da nossa história vivida, ajudando, sempre, a lembrar os que perderam a vida.
Belarmino Sardinha

Gandembel - Aquartelamento construído de raiz pelos militares da CCAÇ 2317
© Foto de Idálio Reis
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Junho de 2011 > Guiné 63/74 - P8385: Parabéns a você (270): Agradecimento de Belarmino Sardinha, aniversariante no dia 5 de Junho

Vd. último poste da série de 25 de Maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9944: Notas de leitura (362): "O Fardo do Homem Negro", de Basil Davidson (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P9944: Notas de leitura (362): "O Fardo do Homem Negro", de Basil Davidson (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 13 de Abril de 2012:

Queridos amigos,
Basil Davidson dá-nos aqui uma análise duríssima dos insucessos do estado-nacionalismo neocolonialista, em que muitos independentistas acreditaram e quiseram pôr em execução.
É uma leitura dolorosa, em que à custa de uma certa imagem do progresso se procurou vituperar a riqueza da ancestralidade africana, o passado dos novos Estados ficou no limbo como se tratasse de um primitivismo incómodo, como se aquela arte não fosse arte e aquela música não passasse de um exotismo de pechisbeque. Foram noções que deram com os burrinhos na água. É um ensaio por vezes de leitura muito difícil.
Recomendo a todos aqueles que vão até à Guiné que levem uns exemplares para oferecerem aos lideres políticos e quadros militares.

Um abraço do
Mário


Reler um clássico: O fardo do homem negro

Beja Santos

 “O Fardo do Homem Negro – Os efeitos do estado-nação em África”, por Basil Davidson (Campo das Letras, 2000) mereceu ao historiador Eric Hobsbawm o seguinte comentário: “Este é um livro de importância maior. O fardo do homem negro não é só de África que fala, mas também de etnicidade, de nações e dos problemas que levanta a vida em sociedade em qualquer parte do mundo”.

Considerado como o divulgador mais eficaz da história e da arqueologia africanas fora de África e certamente o mais ilustre conhecedor da África negra, as obras de Davidson são de leitura obrigatória nos meios universitários da Grã-Bretanha, de África e dos EUA. Há que confessar que a leitura deste documento exige muita atenção, o leitor é forçado a reapreciações, a ter que parar e regressar ao ponto de partida. Davidson parte da profunda perturbação africana, da sua assustadora degradação ambiental (cidades anárquicas, florestas tropicais engolidas pela ganância exportadora, apodrecimento de infraestruturas…), da quase total indiferença na participação popular e pergunta: onde é que os libertadores erraram, qual a origem da crise das instituições? E remete-nos para os caminhos percorridos pela generalidade destes Estados que emergiram da partilha colonial. Lembra-nos que o que se apregoa como tribalismo não é mais, em grande número de casos, de que um clientelismo que cerca o alto dirigente político, a sua caução à corrupção dentro de redes pessoais e familiares, o suborno das forças militares e paramilitares para os manter como zelosas guardas pretorianas do regime.

Numa tentativa de encontrar analogia na vida difícil que leva os Estado-nação africano pós-colonial com outras situações, Davidson recorda que a Europa Central e Oriental viveu o mesmo tipo ebulição quando nasceu a consciência de Estado-nação e começou a germinar o ideal da separação dos grandes impérios, como o austro-húngaro e o turco. Recorda igualmente que a história de África, no essencial, está circunscrita ao que os investigadores coloniais e pós-coloniais escreveram. Em momentos-chave do século XIX, chegaram escravos emancipados à costa ocidental africana e ocuparam a Libéria e a Serra Leoa. Muitos séculos atrás, os seus ancestrais teriam vindo do que são hoje o Gana, a Costa do Marfim e a Nigéria. O que é importante registar é que estes escravos livres montaram sociedades à luz do que conheciam da vida americana, instituíram um género de melodrama trágico agindo como uma pequena burguesia nacionalista, copiando os tiques, as instituições e até o estilo de vida que se praticava nas colónias britânicas e francesas.

Era tal a preocupação destas elites de homens instruídos e civilizados em criar Estados-nações segundo o modelo europeu que se desvincularam do passado da África negra. Estas elites tinham noção de que os europeus não queriam servir às ordens dos africanos e cientes dessa segregação apostaram numa imagem de civilização baseada num nacionalismo intransigente. Este apontamento é indispensável para entender as promessas que os independentistas traziam para África na época da descolonização (portanto a partir de 1950), como prometiam criar participação popular e sociedades mais igualitárias e como, de um modo geral, falharam rotundamente. Davidson procede ao estudo do Gana, analisa a sua história profunda e deixa claro que o desprezo que a nova classe política manifestou pelas instituições ancestrais cavou a sua própria ruína. Ora a história do tribalismo pré-colonial era uma história de nacionalismo. Davidson esboça a história de África desde aproximadamente 6000 a.C. e evidencia as sociedades governadas de forma autónoma que foram amesquinhadas pelas potências coloniais e escreve: “Para a maioria dos viajantes e observadores ocasionais estrangeiros, África parecia viver numa situação malévola de caos. Após 1850, os viajantes e os observadores da África oriental começaram a entrar em terras assoladas por um comércio de escravos relativamente recente; e descobriram, desde a costa suahili em direção a ocidente, até aos Grandes Lagos, ou desde a parte do Sudão em direção a sul, até Moçambique, provas terríveis da morte e da devastação causadas por este comércio de escravos. Os viajantes em outras partes de África, especialmente na África ocidental, não descobriram uma situação idêntica mas encontraram sociedades que tinham sido devastadas muito antes pela mesma maldição da escravatura”.

O comércio de escravos subverteu hierarquias, derrubou culturas, cimentou ódios entre tribos, pois umas negociavam com seres humanos que eram capturados nas razias. Outra leitura importante sobre a inexistência do continente africano na vida cultural europeia passa pelo total desinteresse das classes intelectuais sobre a própria história de África. Ibn khaldun, o grande historiador do norte de África de finais do século XIV fala das dinastias reinantes no Magrebe, como os Almorávidas, Almôadas e Hafsids e como constituíam uma extensa linha entre a Tunísia e o Egipto. Mas a sul havia formações estatais enormes como os Soninke no Gana, os Malinke no Mali, os Songhay no Songhay e os Kanuri em Kanem, e cada um deles era capaz, tais como os normandos ou os germanos de dominar uma vasta área e dispor de impostos e vassalagem. Existiu o imperador do Mali e a história de África acusa convulsões ao longo dos séculos da Idade Média e da Idade Moderna do mesmo tipo que as guerras europeias do mesmo período. Mas deu muito jeito, no período colonial, ter criado a doutrina de civilizar o gentio, dar civilização ao preto, ensinar-lhe a ler e escrever e a ter bons modos.

Davidson confronta o tribalismo e o novo nacionalismo para afirmar que os novos nacionalistas da década de 1950 acabaram por abraçar o nacionalismo como única fuga possível à soberania colonial: “Esforçando-se por transformar os territórios coloniais em territórios nacionais, acabaram por considerar que a riqueza de culturas étnicas africanas era ao mesmo perturbador e difícil de incorporar nos seus esquemas. Vieram a cair novamente na mentalidade colonial que considerava esta riqueza como tribalismo e, como tal, retrógrada”. Mais uma vez estas formações políticas pré-coloniais que eram comunidades com passado venerável foram amesquinhadas. As elites instruídas na África ocidental encaravam a história de África como irrelevante e inútil. As elites independentistas, ansiosas por ser livrar da administração colonial socorreram-se do estado-nacionalismo baseado no modelo europeu e assim prepararam o seu fracasso.

Mais adiante, o escritor repertoria a ascensão do Estado-nação na Europa para fazer compreender como é que os ativistas da década de 1950 mergulharam no nacionalismo, considerando-o como única garantia disponível de um caminho aberto ao progresso. Os anos 1960 são de euforia e já de deceção: as populações não acompanham a argumentação dos líderes políticos. E as estratégias neocoloniais, a caça às matérias-primas, vão suscitar o apadrinhamento de piratas e corruptos que vão tomar conta do poder. Davidson fala de Cabral como personalidade singular que acreditava piamente na ascensão dos camponeses e na sua participação, criticava publicamente a ganância das oligarquias e os apetites pequeno-burgueses de certos dirigentes.

Na conclusão, Davidson assevera que o Estado-nação pós-colonial tornara-se um obstáculo ao progresso, recorda a determinante cultural de Amílcar Cabral, as lutas sanguinárias que assolaram o continente também devido à guerra fria e apela a que África invente um futuro pós-imperialista, com o desmantelamento gradual da herança estado-nacionalista resultante do imperialismo e à introdução de estruturas participativas no seio de uma vasta estrutura regional.

Um clássico que devia ser oferecido a todos os políticos e quadros militares da Guiné-Bissau.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 21 de Maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9932: Notas de leitura (361): Marcello Caetano, Silva Cunha e a Guiné (2) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Guiné 63/74 - P9943: Excertos do Diário de António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (17): Guidage (com g) foi há 39 anos...









Guiné > Região do Cacheu > 38ª CCmds (2º e 4º Gr Comb) > 11 de Maio de 1973 > Coluna logística que partiu de Farim, a caminho de Guidaje. Na foto de cima, o Gr de Combate do 1º Cabo A. Mendes, o 2º a contar da direita, com boina. Na foto do meio, progressão da coluna auto na picada de Guidaje... Na última foto, uma vista da bolanha do Cufeu, com destroços de viaturas (e cadáveres)...

Fotos : © Amilcar Mendes (2006). Todos os direitos reservados. 


1. Escrevi há dias que "sobre Guidaje, há uma referência apenas no Diário da Guiné (1972/74), da autoria do nosso camarada e amigo António Graça de Abreu (AGA). Vem na entrada Mansoa, 26 de Maio de 1973"" (*) ... 

É meia verdade, meia mentira... Sobre "Guidaje" (com j), há de facto apenas um referência, mas sobre "Guidage" (com g), há mais umas tantas... A grafia de Guidaje/Guidage é controversa, os dois vocábulos são usados pelos nossos cartógrafos... Eu grafo de uma maneira (Guidaje), outros tendem a usar a forma mais comum, que é Guidage...Neste caso, sigo o (bom) conselho do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa...E é assim que tem aparecido no nosso blogue, Guidaje, com j...

Mas no caso do livro do AGA, eu devia ter tido mais cautela, como mandam as boas regras... Ora, na realidade o AGA estava no CAOP1, em Mansoa,  durante a "batalha de Guidaje" [, grosso modo, entre 8 de maio e 8 de junho de 1973, ] e,  sendo um homem em geral bem informado,  por certo que escreveria algo mais sobre Guidaje, tal como escreveu sobre Guileje e Gadamael... Em 25 de junho de 1973, o CAOP1 (e com ele o AGA) é transferido para Cufar, na região de Tombali.

Faz assim todo o sentido recuperar algumas das entradas do seu diário, onde há uma referência explícita a Guidage (com g). São seis entradas (ou sete, se contabilizarmos a já atrás referida - Mansoa, 26 de maio de 1973). A "batalha de Guidaje" tocou-o de perto, se bem que indiretamente através das baixas da 38ª CCmds, unidade de intervenção afeta ao CAOP1, quer através da morte do soldado condutor auto do CAOP1,  David Ferreira Viegas, natural de Olhão, morto em 12 de maio de 1973 [, já em Guidaje, no aquartelamento,  após a realização da 3ª coluna para Guidaje, a 11]. (**)

Há uma edição comercial do livro do AGA. Referência completa: António Graça de Abreu - Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura. Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp. (*) (LG)


(...) Mansoa, 8 de Abril de 1973

Outra DO pilotada pelo furriel piloto aviador Baltazar da Silva foi abatida pelo IN quando voava entre Bigene e Guidage. O rapaz morreu, junto com um alferes médico e um sargento. O Baltazar almoçou comigo na semana passada, esteve aqui no meu quarto desanimado e triste. Escrevi então que ele havia partido para Bissau “com a morte na alma”.


(...) Mansoa, 14 de Maio de 1973 

Parece estar em embrião uma nova alteração na localização do CAOP 1. Fala-se em irmos para o sul, a zona onde há mais guerra na Guiné. Mas quem está a embrulhar há cinco dias consecutivos é o aquartelamento de Guidage, bem lá no norte, na esteira dos lugares de morte e de loucura.

Quanto à transferência do CAOP não ficou ainda nada decidido. Isto está incerto como o vento em mudança de estação. De resto, um comando de operações sem meios aéreos como funciona? Reina uma certa incerteza e confusão entre quem manda em Bissau. O general Spínola foi agora a Lisboa pedir mais armas e meios para combater o PAIGC e ao que consta o Marcello Caetano disse-lhe ser impossível reforçar as tropas na Guiné.


(...) Mansoa, 19 de Maio de 1973

Há dez dias atrás, por causa de vacas, aproveitei uma boleia e fui até Cutia, a vinte quilómetros daqui, na estrada alcatroada para Mansabá e Farim.

Os balantas, etnia predominantemente na região de Mansoa, não querem vender vacas aos militares portugueses. Em Farim, sessenta quilómetros a norte, os fulas, outra etnia, vendem os animais com facilidade. Como em Mansoa falta carne para a alimentação diária, é preciso recorrer ao que há, neste caso as vacas de Farim. 

Fez-se uma coluna com quatro unimogs do CAOP e quarenta homens da 38ª. de Comandos  (***) para irem lá ao norte buscar as vacas. Como à tarde havia coluna de Cutia para Mansoa, peguei na G3 e segui com o nosso pessoal. Regressei calmamente a Mansoa, depois de mais uns quilómetros a conhecer a mata, o aquartelamento e a aldeia de Cutia, florestas, bolanhas, a terra pobre. 

Os comandos e os quatro condutores do CAOP seguiram viagem e quando chegaram a Farim havia realidades bem mais duras do que a história da compra e transporte das vacas. Era crítica a situação em Guidage, uns quarenta quilómetros a noroeste de Farim, junto à fronteira com o Senegal. O aquartelamento estava a ser atacado há dois dias, de quatro em quatro horas, em média. Duas colunas de reabastecimento haviam partido de Farim para Guidage com víveres e munições e foram ambas atacadas na estrada, com mortos e muitos feridos. Tornou-se necessário chamar os aviões Fiats de Bissau, não para bombardearem o IN mas para destruir as Berliets carregadas de víveres e munições, abandonadas pelas NT, evitando assim que caíssem nas mãos dos guerrilheiros.

Os Comandos mais os nossos condutores do CAOP iam buscar vacas, mas nessa altura o mais importante era socorrer Guidage. De emergência, organizou-se nova coluna de Farim para Guidage reforçada com os nossos homens. Foi uma caminhada de morte, havia abutres a rondar os cadáveres dos soldados portugueses abandonados na picada pela coluna anterior, havia minas, uma delas rebentou sob o Unimog da frente, arrancou-lhe uma roda que foi projectada e passou por cima da cabeça do alferes Dias, da 38ª. de Comandos, houve emboscadas e um soldado comando ficou sem um pé e sem três dedos da mão direita. O infeliz foi o Tavares, um rapaz ribatejano do Cartaxo que até conheço bem, pai de dois filhos. Como não se fazem evacuações de helicóptero, levaram-no até Guidage com o coto e a mão amarrados em ligaduras. 

Durante dois dias, em Guidage, foram atacados treze vezes, com morteiros e canhão sem recuo. Os guerrilheiros afinaram a pontaria para dentro das valas onde se abrigavam os nossos homens. Lá morreu mais um soldado da 38ª. de Comandos e o soldado condutor auto David Ferreira Viegas, do CAOP 1. Era um dos meus homens, um rapaz baixo, magrinho, tímido, natural de Olhão. Tinha vinte e um anos, fora pescador no Algarve, estava connosco no CAOP desde 3 de Março e na tropa há apenas oito meses.

Não trouxeram o corpo do Viegas para Mansoa, meteram-no na urna e seguiu de barco para Bissau. Tenho sido eu a tratar das coisas dele, fui-lhe mexer na mala e fazer o espólio de todos os seus pertences para enviar à família. Possuía tão pouco, algumas quinquilharias e uma roupita tão pobre! O povo português vai morrendo, o nosso David foi apenas mais um.

Comoveu-me o último aerograma com data de 27 de Abril que lhe foi enviado pela mãe, escrito pela Rosarinho, uma das sobrinhas, porque a mãe é analfabeta. A Elsa Maria, outra sobrinha pequena, como ainda não sabe escrever, mandou contas ao tio David:

1 2 3 4 5 2 1 

1 2 3 4 5 2 1 
___________
2 4 6 8 0 3 3

A Ana Cristina Viegas Fava, também sobrinha, diz:  “Tio, eu já sei escrever e quando o tio estiver aborrecido escreva para mim que eu lhe respondo, está bem? "

O David Ferreira Viegas, contava apenas vinte e um anos. Não vai escrever a mais ninguém.

(...) Mansoa, 29 de Maio de 1973 

Fui ao cinema ver um filme intitulado “Os Noivos da Revolução”, com o Jean Paul Belmondo.(...).

Em Portugal, as notícias sobre a Guiné continuam a ser alarmantes. De facto, Maio foi excepcional. As NT, incluindo os africanos que combatem ao nosso lado, tiveram mais de sessenta mortos e uma centena de feridos. Creio que isto bate todos os recordes. Agora, com a época das chuvas, a guerra vai acalmar um pouco.

As notícias em Portugal são também manipuladas, confusas, às vezes ridículas. No boletim oficioso das Forças Armadas lê-se “um grupo de guerrilheiros do PAIGC que tentava infiltra-se no Território Nacional foi repelido e perseguido pelas nossas tropas, tendo sofrido um número indeterminado de mortos.” Pode haver um fundo de verdade neste tipo de notícias mas quem descreve o que verdadeiramente aconteceu em Guidage ou em Guileje, quem fala na emboscada da coluna de Mansabá para Mansoa que provocou quatro mortos e quinze feridos quando o IN só registou dois feridos? 

A opinião pública portuguesa alertar-se-ia demasiado se as notícias divulgadas na nossa terra correspondessem à realidade do que se passa na Guiné. Em Portugal as pessoas sabem que, por causa da guerra, a Guiné é terra má e suja, mas quantos entendem os porquês, conhecem o dia a dia das nossas tropas? Os boatos distorcem, aumentam, assustam. Tudo por uma razão simples, não temos liberdade.

(...) Mansoa, 14 de Junho de 1973 

Recebi uma carta do Algarve,  da mãe do David Viegas, o nosso soldado condutor morto em Guidage. Havia-lhe escrito uma sentida carta pessoal, logo após a morte do rapaz. Respondeu-me agora, naturalmente chorosa pelo falecimento do David, o mais novo dos seus cinco filhos, agradecendo ter-lhe dado notícias. 

Como já referi, a senhora é analfabeta e é uma sobrinha quem lhe escreve as cartas. Eu informara-a de que o filho havia morrido devido ao rebentamento de uma granada de morteiro na vala onde se abrigava, teve morte quase instantânea e não sofreu. Assim foi, na realidade, mas não lhe contei que o Viegas ficou horrivelmente desfigurado, a granada rebentou junto à sua cabeça e os estilhaços apanharam-lhe toda a cara. Os outros três condutores do CAOP 1 que estavam com ele em Guidage e o viram morrer ali ao lado, descreveram-me o sucedido com lágrimas nos olhos. O Viegas era bom rapaz, pacífico, não se chateava com ninguém. O caixão está em Bissau, à espera do “Niassa”, o navio que o levará para Portugal, rumo a Olhão, a terra onde nasceu.

Eu não sabia, mas quando o rapaz morreu, o major P. disse-me que existia uma carta modelo, um texto padrão sempre igual utilizado em todo o Ultramar a enviar aos pais dos soldados mortos em combate. Tratámos de a copiar e seguiu para Olhão, espantosamente assinada não pelo coronel, comandante do Comando de Agrupamento Operacional Nº. 1, a que o Viegas pertencia, não pelo major P., oficial de Operações e Chefe do Estado Maior do CAOP 1, não por mim, simples alferes que tenho os condutores como meus subordinados, mas assinada pelo furriel Victor Henriques, meu subalterno que mal conhecia o Viegas e nunca esteve em Guidage. (...)

(...) Cufar, 27 de Junho de 1973 

De Lisboa, contam-me as “bocas” que por lá correm. E “bocas” falsas.

Fala-se em evacuar da Guiné mulheres e crianças. Mas onde e porquê? É verdade que a população nativa, os africanos das aldeias de Guidage, Guileje e Gadamael, abandonou essas tabancas por causa do perigo nas flagelações constantes do IN. Mas não houve nenhuma evacuação nem sei se tal está previsto pela nossa tropa. Também é verdade que muitos milhares de habitantes da Guiné Portuguesa procuraram fugir à guerra e refugiaram-se quer no Senegal quer na Guiné-Conacry, no entanto esta procura de um lugar mais pacífico para habitar não é novidade, começou há já alguns anos com o agravamento do conflito armado.(...)

____________________

Notas do editor:

(*) 14 de maio de 2012 > Guiné 63/74 - P9898: Excertos do Diário de António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (16): Guidaje foi há 39 anos...


(**) Vd os seguintes poste do J. M. Pechorro e do Daniel Matos:
19 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5300: O assédio do IN a Guidaje (de Abril a 9 de Maio de 1973) - I Parte (José Manuel Pechorrro)

21 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5310: O assédio do IN a Guidaje (de Abril a 9 de Maio de 1973) - II Parte (José Manuel Pechorrro)


16 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5479: O assédio do IN a Guidaje (de Abril a 9 de Maio de 1973) - Agradecimento e algumas informações (José Manuel Pechorro)

3 de maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6307: Os Marados de Gadamael (Daniel Matos) (14): Cemitérios de Guidaje e Unidades mobilizadas na Madeira

(***) Vd. postes de Amílcar Mendes (38ª CCmds):

22 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1201: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (3): De Farim a Guidaje: a picada do inferno (I parte


(...) Resumo:

9 de Maio de 1973 > O 2º e o 4º grupos [da 38ª Cmds] vão hoje fazer uma escolta a uma coluna de Mansoa para Farim.

13 de Maio de 1973 > Regressei hoje a Mansoa. Cinco dias fora. Meu Deus, foram os piores dias da minha vida. Irei tentar descrever tudo o que passei. Os horrores da guerra! Nunca pensei que fosse possível acontecer o que vi. Terrível de mais para ser verdade. (...)

(...) 11 de Maio de 1973

Saimos de madrugada de Farim com destino a Guidaje. Primeiro a Binta onde os picadores se irão juntar aos nossos grupos. Daí entramos na maldita da picada. Os picadores seguem na frente.  (...)


(...) Ao passar na bolanha do Cufeu é impossível descrever o que encontramos sem sentir um aperto na alma: dezenas de viaturas trucidadas pelas minas. Os cadáveres pelo chão são festim para os abutres. É uma loucura. Pedaços das viaturas projetadas a dezenas de metros pela acção das minas. Estrada cheia de abatizes. Tentamos não olhar. Nunca vi tanto morto, nossos e do IN, deixados para trás ao longo da picada.  (...)


23 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1203: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (4): De Farim a Guidaje: a picada do inferno (II Parte)

(...) 11 de Maio de 1973 (continuação)

(...) A coluna, à saída da bolanha do Cufeu (2), pára. Ouve-se ao longe tiros e rebentamentos. A companhia que vinha ao nosso encontro, caiu numa emboscada na ponte. Pelo rádio ouvimos o oficial que comanda a companhia emboscada pedir apoio aéreo, porque o IN é em muito maior número e ele diz que está a ser dizimado. Chegam dois Fiats e tentam dar cobertura à companhia emboscada mas dizem que é impossível porque o IN esta demasiado próximo...

Ouço então o apelo mais dramático ouvido em toda a minha vida: Pela rádio o oficial que comandava a companhia emboscada apela à aviação:

BOMBARDEIEM TUDO! A NÓS, INCLUINDO! A SITUAÇÃO É DESESPERADA! ESTAMOS A SER TODOS MORTOS, POIS OS GAJOS SÃO EM NÚMERO MUITO SUPERIOR! (...)


(...) Já com Guidaje à vista subimos para as viaturas e eu sigo naquela só com três rodados, e onde segue o morto.

Chegamos a Guidaje! É a primeira coluna a chegar de há três semanas a este tempo. A população vem receber-nos com gritos de alegria, dá-nos água, trata-nos com carinho, sentem que o isolamento acabou.

Assim que entramos no destacamento, somos brindados com um ataque de morteirada. Com a noite vamos para as valas, que é onde se vive em Guidaje! O Filipe está num abrigo a soro, fui vê-lo e ele delirava a chamar pela família.(...)


Durante a noite iremos sofrer mais 4 ataques e um deles será mortal (...).

23 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1205: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (5): uma noite, nas valas de Guidaje

24 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1210: A vida de um comando (A. Mendes, 38ª CCmds) (6): Guidaje ? Nunca mais!...

Guiné 63/74 - P9942: Convívios (440): Cerca de 80 bravos de Bambadinca (1968/71) encontram-se este sábado, dia 26, na invicta cidade do Porto, na 18ª edição dos seus reencontros (Manuel Monteiro Valente / Luís Graça)



Bonito puzzle de brazões de unidades e subunidades que passaram por Bambadinca (Setor L1 da Zona Leste) entre meados de 1968 e meados de 1971. Composição do nosso editor Eduardo Magalhães Ribeiro.1. O 18º convívio anual do pessoal que passou por Bambadinca entre 1968 e 1971, vai realizar-se este ano, no Porto, no próximo sábado, dia 26 (*). 


A organização está a cargo do Manuel Monteiro Valente [, foto à direita, em primeiro plano, cambando uma bolanha, ], valente ex-1º cabo do 1º gr comb da CCAÇ 12 (**), ferido com gravidade e evacuado para o HM 241 (Bissau), no decurso da Op Borboleta Destemida (região do Xime, 14 de janeiro de 1970), juntamente com o fur mil at inf Joaquim J. S. Pina, o sold trms José Leites Pereira e o sold at inf Mamadu Au (Ap Metr Lig Hk 21), todas da 2ª secção do 1º gr comb, comandado pelo alf mil op esp Francisco Magalhães Moreira.

Apesar das dificuldades económicas e sociais que atingem muitos portugueses na difícil hora atual, incluindo muitos dos nossos ex-camaradas de armas , o almoço-convívio no Porto vai contar com pelo menos estes cerca de 80 bravos de Bambadinca, uma boa parte deles da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (assinalados a #):

Lista de inscritos até ao dia 24 de maio de 2012, fornecida pela organização:


Abel Maria Rodrigues (1) (#)
Adelino Marques Fernandes (1)

Adélio Gonçalves Monteiro (2) (#) [, foi o organizador do 15º convívio, Castro Daire, 2009]
Alberto dos Anjos Soares (3)
Américo Marques (6)

António de Jesus Marques (1)
António Fernando Rodrigues Marques (2) 
 (#)
António Braga Rodrigues Mateus (2) (#)
António Damas Murta (4) (#) [, organizador do 17º convívio, Cloimbra, 2011]
António Pinto Nunes (2)
Arménio Monteiro da Fonseca (1) (#)
Carlos Alberto Henrriques (2)
Carlos Alberto Teixeira (1)
Domingos Miranda Mendes (1)
Eduardo Tavares (2) (##)
Ferdinando Martins (5)
Fernando Andrade Sousa (2) (#) [, organizador do do 12º convívio, na Trofa, 2006]
Fernando J. Cruz Oliveira (1)
Fernando Resende Santos (1)
Gabriel Gonçalves (1) (#)
Humberto Simões dos Reis (1) (#)
Jaime Machado (4)
João Alves Costa (1)
João Gonçalves Ramos (1) (#)
João Rito Marques (2) (#)
Joaquim João dos Santos Pina (3) (#)
Joaquim Augusto Matos Fernandes (5) (#)
José Augusto Mourão (1)
José C. Rodrigues Lopes (2)
José Eduardo Pinto dos Santos (2)
José Fernando Almeida (2) (#)
 [, organizador do 16º convívio, Óbidos, 2010] 
José Manuel Pimentão Quadrado (2) (#)
Luis R. Moreira (1)

Manuel Alberto Faria Branco (2) (#)
Manuel Alberto F. Gomes (1)
Manuel Borrego da Silva (1)
Manuel Ferreira da Costa (1)
Manuel Joaquim Ferreira (2)
Manuel Monteiro Valente (2) (#)
Otacílio Henriques (2)

Total=79


(#) Ex- camaradas da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, Maio de 1969/Março de 1917)

(##) Pesume-se que seja o nosso ex-1º Cabo Escriturário Eduardo Veríssimo de Sousa Tavares [, até agora com morada desconhecida]. 

2. Comentário de L.G.:

Por razões de agenda familiar, não poderei estar no Porto, este sábado, contrariamente ao que tinha programado e ao meus desejo...

De qualquer modo,   daqui vai, da minha parte, um grande abraço para os bravos de Bambadinca, do tamanho do Rio Geba. E, mais do que um longo abraço, um apertado xicoração. Que seja uma bela jornada de amizade e camaradagem.

Peço ao valente Valente que me faça chegar as fotos do evento, com as respetivas legendas... Ele, por seu turno, pediu-me para mandar um lembrete aos retardatários, como Jorge Cabral, digno representante do Pel Caç Nat 63, que não costuma falhar os convívios do pessoal de Bambadinca... LG
________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 7 de maio de 2012 > Guiné 63/74 – P9860: Convívios (345): 18º Encontro do Pessoal de Bambadinca, 1968/71, em 26 de Maio na cidade do Porto (Manuel Monteiro Valente)


(**) Contacto:

Manuel Monteiro Valente
Rua Joaquim Lopes Pintor nº118 1º dtº
4405-868 Vilar do Paraíso 

Guiné 63/74 - P9941: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (55): O alf mil capelão Horácio Fernandes, natural de Ribamar, Lourinhã, no álbum fotográfico do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) (ex-fur mil mec arm, CCS/BART 1913, Catió, 1967/69)



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço (1943-2010) > Quartel > Foto 31 > 


"Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART  1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Vista parcial do quartel com as tropas em parada. Edifício do comando à esquerda, ao fundo".  






Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Quartel > Foto 30 > "Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG,  atribuída em julho de 1967. Aspeto parcial das tropas em parada".




Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Quartel > Foto 28 > "Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à  CART  1689  da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Ao fundo,  a porta de armas, cozinha e refeitório, armazém de géneros ainda,  em construção, parte da camarata de oficiais e fora do quartel o armazém/cais da Casa Gouveia".






Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Quartel > Foto 29 > "Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Edifício do comando (à esquerda) e camarata de oficiais  (à direita)".





Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Quartel > Foto 32 >


"Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART  1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Edifício do comando. Presença de militares, civis da administração, correios e comerciantes locais.



"Da esquerda para a direita, 

(A) um militar, de camuflado que não consigo identificar; 


(B) de costas,  o cap médico Morais; 


(C) o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso; 


(D) quatro funcionários dos Correios e Administração;


(E) o comerciantes Sr. José Saad e filha;


(F) o comerciante, Sr. Mota:


(G) o comerciante  Sr. Dantas e filha;


(H) o comerciante Sr. Barros;


(I) o electricista civil Jerónimo:


(J) e, por fim,  o alf mil capelão Horácio [Neto Fernandes]".



Fotos (e legendas) de Catió: Victor Condeço (1943/2010) / © Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Todos os direitos reservados










O Alf Mil Capelão Horácio Neto Fernandes... Ao alto uma inscrição, no edifício do comando: "A nossa intervenção em África é a resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer". Detalhe da foto nº 32, acima reproduzida.


1. Na realidade, o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande. Ainda  anteontem estive a falar do Horácio,  meu parente de Ribamar, Lourinhã, que não vejo desde que celebrou a sua missa nova, em agosto de 1959...  Estava justamente a falar dele com o João Crisóstomo, na terça feira, dia 22... O João tinha acabado de chegar de Nova Iorque, almoçou comigo e com o Beja Santos: os dois vão, no próximo sábado, dia 26 de maio, a Viseu para participara no convívio da CCAÇ 1439 (Enxalé,  Porto Gole e Missirá, 1965/66)... 


O João, que tem a dupla nacionalidade, portuguesa e norteamericana,  é natural de A-dos-Cunhados, Torres Vedras, e portanto é meu vizinho... Acontece, por outro lado,  que  é amigo do Horácio e da sua família há mais de meio século... Surpresa, para mim, que sou primo do Horácio, e tenho andado á sua procura desde há mesmo: sei que mora no Porto, e está reformado como inspetor do ministério da educação... Já mostrei, no blogue, publicamente, o meu empenho em trazê-lo até à Tabanca Grande..
- Sou amicíssimo dele!... Fui ao lançamento do livro dele... Queres que eu lhe ligue já para o telemóvel ?
- Não, quero ser  eu a encontrá-lo, um dia destes, em Ribamar ou no Porto... Ele tem, de resto,  o meu número de telefone que lhe foi dado por um camarada nosso, o Alberto Branquinho... Mas já não me reconhecerá ao fim destes anos todos... E possivelmente quer preservar a sua privacidade...


O João Crisóstomo referia-se ao livro autobiográfico “Francisco Caboz, A construção e a desconstrução de um Padre” (Papiro Editora, 2009), já aqui falado diversas vezes pelo Albero Branquinho, por mim prórpio e pelo Beja Santos (que lhe fez uma recensão).

Na realidade foi o Branquinho que o reencontrou no último convívio anual do pessoal da CCS do BART 1913


"Fui encontrar o Doutor Horácio Fernandes no passado dia 29 de Maio no encontro anual da CCS do BART 1913 em Alfeizerão/Alcobaça. Escusado será dizer que nunca mais o vira desde a minha saída de Bissau, portanto, há quarenta e tantos anos. Se não nos tivessem 're-apresentado', não nos teríamos reconhecido"... 


A notícia foi pretexto foi uma longa troca de mensagens entre mim e ele, Alberto Branquinho... Não tinha conhecimento do livro, mas desencantei-o:

(...) "Hoje não descansei enquanto não arranjei o livro do Horácio. Por acaso, a minha irmã Graciete Calado, que vive na Lourinhã,  tem um exemplar, autografado, que me emprestou... Da parte da tarde, à beira mar, na Praia da Areia Branca, já o li quase todo, na vertical... Em especial a parte da infância e da adolescência até à formação como padre (ordenado em 15 Agosto de 1959)... Gostei da leituras das suas memórias de infância... O autor encontrou no Francisco (nome do fundador da ordem religiosa em que ele se formou como padre) Caboz (nome de peixe, sugerindo a sua origem como filho de gente pobre, sendo o pai meio agricultor e meio pescador, como muita gente de Ribamar da época), encontrou em Francisco Caboz, dizia, uma espécie de 'alter ego'... Na realidade estamos parente uma verdadeira autobiografia...


"E depois, mais tarde, em 1967, outro momento forte é a sua a ida para Catió como capelão militar do teu batalhão, o BART 1913... Espantosa a descrição da partida de mau gosto que os oficiais do comando e CCS do batalhão lhe pregam, à hora da sua 1º refeição conjunta: começam a circular, pela mesa, fotos de gajas e gajos nus, claramente pornográficas... O capelão, ruborizado, não se apercebeu que se tratava de uma praxe, não se conteve, e teve o deslize de perguntar ao major, ao 2º comandante:
"- São fotos da sua mulher ?

" 'Foi uma bomba que estoirou na sala. O major ficou lívido de raiva', escreveu  no livro, ao resconstituir o espisódio 40 anos depois (p. 140)...

"A descrição de Catió daquele tempo bate mais que certo com as fotografias do nosso saudoso Vitó, Vitor Condeço... O Horácio deve tê-lo conhecido, seguramente... Como deve ter conhecido, previamente, as fotos de Catió e de Ganjolá que o Vitor Condeço publicou em vida no nosso blogue, com as devidas legendas... Quase que me atrevia a jurar que deve ter consultado o nosso blogue...

"Alberto, para mim é um duplo regresso ao passado... Estou-te obrigado, a ti e ao Horácio... Mas, afinal, não foi à missa do Horácio que eu fui, mas à do Júlio... Os dois eram primos e foram ordenados padres, franciscanos, no mesmo dia... E ambos eram de apelido Fernandes... Mas o Júlio era de uma família abastada ou mais remediada... O Júlio era Maçarico, logo era da minha família, e foram eles, os pais, que me (a mim, e a todos os familiares Maçaricos que viviam na vila, sede de concelho, Lourinhã) convidaram para a Missa Nova, que deve ter sido num domingo antes do Horácio... De qualquer modo, em Agosto de 1959... A minha dúvida agora é saber se também sou primo do Horácio... Vou consultar a nossa árvore genealógica, a dos Maçaricos... É bem possível... Os Fernandes (ou Patas) e os Maçaricos casavam-se entre si...

"Por hoje, fico por aqui... Um abração aos dois (Não sei se o Horácio me está a ler, gostava-o de lhe dar um grande abraço... Desde Agosto de 1959, nunca mais o vi... Tinha eu 12 anos, afinal, e ele 24...quando nos teremos encontrado pela última vez).

"PS - Peço desculpa pelo 'espaço que estou a roubar' ao blogue... Mas este assunto não é meramente pessoal... Temos uma série (temática) sobre os nossos capelães militares e o Horácio foi capelão militar no TO da Guiné, logo foi nosso camarada"...

Nesse mesmo dia, 19 de junho de 2012, chegado a Lisboa escrevi outro comentário;

"Alberto e Horácio (se me estiveres a ler):

"Vindo da Lourinhã, chegado a Lisboa, fui consultar o o 'livro da família Maçarico' e não há dúvida, o Horácio é meu parente, as nossas bisavós, nascidas por volta de 1860, eram irmãs... A sua bisavó paterna era a Maria da Anunciação e a minha, a Maria Augusta (1864-1920), as duas únicas mulheres de uma família de 7 filhos... (A Maria Augusta casou na Lourinhã,  foi mãe da minha avó paterna, Alvarina de Sousa).

"O Júlio, que foi missionário em Moçambique, e depois foi para o Canadá, já morreu. Saiu da ordem, franciscana em 1970. Também é da grande família Maçarico, e portanto do meu parente...

"Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio - Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor. 2002".


No dia seguinte, ainda escrevinhei  mais duas ou três notas, que comuniquei ao Branquinho:


(...) "O livro do Francisco Caboz/Horácio Neto Fernandes é rigorosamente autobiográfico... Estive a ler, com mais atenção e detalhe, ontem à noite, a descriação da sua experiência como 'seráfico', no colégio franciscano de Montariol, em Braga, e fiquei sem fala... Tem páginas que não ficam atrás do melhor do Virgílio Ferreira, em 'Manhã Submersa'... Voltarei a este ponto... 

"Alberto, deixa-me só dizer que há mais referências à 'família Maçarico': a história, que eu conheço, do avô, calafate, carpinteiro naval, António Fernandes (Maçarico), um dos últimos construtores navais de Ribamar, que 'desapareceu' na América (o seu regresso foi esperado em vão, durante muitos anos, qual Dom Sebastião; em vão, terá morrido na Califórnia)... Ou ainda a história do tio-bisavô, Frei José de Cristo, que morreu no Convento do Varatojo, Torres Vedras, com fama de santidade... Foi um dos 7 magníficos Maçaricos, cinco rapazes e duas raparigas (as nossas duas bisavós), nascidos nos anos 50/60 do Séc. XIX... Só ele, o Frei José de Cristo, não deu descendência.

"Enfim, há muitos outros pormenores que eu reconheço, do meu conhecimento (antigo) da família Maçarico, mas com os quais não te vou agora maçar"...

2. O surpreendente foi eu ter descoberto o Horácio numa das fotos do álbum do nosso saudoso Vitó, Victor Condeço (1943-2010), que tenho em meu poder há cerca de 5 anos... Andava à procura de fotos de Catió, para ilustrar o poste do nosso camarigo J.L. Mendes Gomes, quando me deparo, na legenda da foto nº 32 (acima reproduzida) , com a menção ao "alferes capelão Horácio".  Era ele, sem dúvida, o Horácio Neto Fernandes, e isso vinha comprovar a minha certeza de que o Vitó o teria conhecido em Catió, uma vez que ambos  pertenciam à CCS do BART 1913... 


Esta associação de ideias só poderia ter acontecido na sequência da minha conversa ontem com o João Crisóstomo, ocasião em que de resto o conheci pela primeira vez, "ao vivo", em termos pessoais, embora já tivéssemos telefonado diversas vezes. Mas esse encontro memorável merece ser objeto de um poste à parte... Por várias razões: (i) pelo camarada que ele é; (ii) pelo leitor apaixonado do nosso blogue que ele é; (iii) pelo grande português das américas em que ele se transformou, pese embora a sua simplicidade e humildade como pessoa...


Uma última pergunta ainda à volta da foto nº 32 (Quartel de Catió, fevereiro de 1968): o que será dessa gente de Catió, sobretudo os civis,  fotografados á direita do capelão ? Os quatro funcionários dos Correios e da Admistração (Catió era sede de circunscrição administrativa, a terra mais importante da Região de Tombali); os comerciantes José Saad e filha, o Mota, o Dantas e filha, o Barros, sem esquecer o "electricista civil Jerónimo" ?  Os nossos camaradas que estiveram em Catió até ao final da guerra ainda se lembram destas pessoas ? O que lhes terá acontecido ? Ficaram na Guiné-Bissau, fixaram-se em Portugal ?... Todos eles, tal como nós, fazem parte da "petite histoire" pela qual se interessa o nosso blogue e sem a qual não há a grande história, com H...


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Nota do editor:

Último poste da série > 19 de maio de 2012 A> Guiné 63/74 - P9924: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (54): Mesmo com um atraso de 4 anos, farei chegar a vossa mensagem a meu pai, Joseph Turpin (Iracema Turpin)