sábado, 29 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10456: Álbum fotográfico de Armindo Batata, ex- comandante do Pel Caç Nat 51 (Guileje e Cufar, 1969/70) (4): Guileje: abastecimento de água...








Guiné > Região de Tombali > Guileje > Pel Caç Nat 51 (1969/70) > Em 1972/73, a fonte que abastecia o aquartelamento e a tabanca de Guileje, distava  cerca de 4 km.  Ficava no Rio Afiá. No tempo da CART 2140 (1969/70 e do Pel Caç Nat 51, o abastecimento era manual e  fazia-se com recurso a bidões, jericãs e garrafões. No tempo da CCAV 8350, a companhia que retirou de Guileje em 22/5/1973, havia já um bomba de água de água, a motor. Fotos  (nºs 1,2 3, 4) do álbum do Armindo Batata, comandante do Pel Caç Nat 51.

Fotos: © Armindo Batata / AD - Acção para o Desenvolvimento (2007). Todos os direitos reservados [Fotos editadas por L.G.]


Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/73) >  Em primeiro plano, junto à bomba de água, o Fur Mil Op Esp J. Casimiro Carvalho. A aparente descontração dos militares, em tronco nu, sem armas, a avaliar pela foto, sugere que ir à água era um ato de rotina... Desconhecemos se tanto em 1970 como em 1973, o grupo de serviço à água levava escolta armarda, como mandavam as mais elementare regras de segurança. Parte-se do princípio que sim, não aparecendo a escolta nas fotografia. A população civil abastecia-se também na mesma fonte, no rio Afiá (em 1972/73).

Recorde-se aqui que, antes da retirada de Guileje, em 22 de Maio de 1973, o último abastecimento de água ao aquartelamento e tabanca tinha sido feito em 19 de Maio de 1973. Os guerrilheiros do PAIGC, a avaliar pelas declarações de alguns dos protagonistas dos acontecimentos, prestados no filme-documentário As Duas Faces da Guerra (Diana Andringa e Flora Gomes, 2007), tinham o controlo da fonte a partir dessa data (ou até mesmo antes)...

É estranho que,  desde 1964, altura em que se instalou a primeira subunidade em Guileje, nunca se tenha equacionado (e sobretudo tentado resolver) o problema do abastecimento da água, requisito vital... Coutinho e Lima, nas onze razões que evoca para decidir retirar Guileje, apresenta em 5º lugar "a falta de água no aquartelamento" (Alexandre Coutinho e Lima, Cor Art Ref - A retirada de Guileje: a verdade dos factos. Linda-A-Velha: DG Edições. 2008. p. 78):

(...) "O abastecimento de água era feito a cerca de 4 kms na direcção de Mejo; o último fora realizado na manhã de 19 de maio de 1972 e não mais foi feita nenhuma tentativa, devido à presença muito provável do IN na área e igualmente ao facto da não evacuação das previsíveis baixas, se as houvesse, o que poderia acontecer, com alto grau de probabilidade."É do conhecimento geral que se pode viver durante algum tempo sem comida (esta estava assegurada pelas rações de combate), mas sem água, o tempo de sobrevivência é reduzido" (...).


Foto: © José Casimiro Carvalho (2007). Todos os direitos reservados.




Guiné > Região de Tombali > Guileje > Carta de Guileje (1956) > Escala 1/50 mil > Detalhe: localização provável da fonte de Guileje, a 4 km a noroeste do aquartelamento e tabanca de Guileje, na estrada Guileje-Mejo. Era aqui que em 1972/73 se fazia o abastecimento de água necessário para a vida de 800 pessoas (200 militares e 600 civis).


1. Em 26 do corrente, escrevi ao Armindo Batata o seguinte mail:

Armindo: Não tenho tido notícias tuas... Fui "ressuscitar" e "refrescar" as tuas belas fotos, em arquivo,,, Infelizmente, chegaram-nos, em 2007, via Pepito, sem legendas...Também não tenho nenhuma foto tua, atual... Sei que és um homem discreto, mas gostava que aparecesses mais vezes... Este é também o teu contributo, valioso, para o enriquecimento deste espaço de partilha de "memórias e afetos" dos camaradas da Guiné...Um abraço. Luís Graça


2. O Armindo teve a gentileza de me responder de imediato. Desse mail, pessoal, que muito agradeço e que muito me alegrou, reproduzo apenas o seguinte excerto:

Caro Luís Graça: Grato pelo teu email. De facto não sou frequentador assíduo do blog. (...)

Notei a exagerada adjectivação das fotografias. Agradeço. Irei então um dia destes vasculhar o baú e tentar organizar uma mão cheia delas. Mas a memória das coisas da Guiné perdeu-se quase toda nos 15 ou 20 anos de enterramento. A exumação foi parcial, muito por lá ficou, naqueles 15 ou 20 anos. Um abraço, Armindo Batata. (...).


3. Explicação dada pelo próprio Armindo Batata sobre as fotos em questão, já depois da publicação do poste:



(...) Creio serem oportunos alguns aditamentos no que concerne às minhas fotografias. O abastecimento de água documentado teve lugar no primeiro pontão na estrada Guileje/Gadamael. Era aí que em 1969 nos abastecíamos. A segurança era mantida por um pelotão (que também procedia ao abastecimento propriamento dito) e uma viatura do pelotão de cavalaria (enquanto guarneceu Guiledje). 

No entanto, observando melhor as fotografias, julgo reconhecer um dos alferes da companhia em cima da GMC e alguns dos militares metropolitanos não são do Pel Caç Nat 51. Seriam dois pelotões? É provável, até porque o local está no lado "mau" do quartel (o lado do cruzamento). Na ultimas destas fotografias, o militar metropolitano em pé no solo, é um dos cabos (Pires?) do Pel Caç Nat 51. 

Com o advento da época seca, a água rareava nesse local, sendo então o abastecimento (muito mal) garantido num poço que a população também utilizava e que ficava junto a uns terrenos de cultivo a SW do quartel, do lado "bom" portanto. 

Quando tal acontecia, a água era recolhida mais do que uma vez por dia, já que se esgotava no fundo do poço, e a distribuição da água no quartel era supervisionada por um alferes que, em cima da viatura, e depois de satisfeitas as prioridades (cozinha/padaria), a ía distribuindo em muito parcas quantidades, pelos muitos que dela necessitavam. E não era fácil. (...)
 
 
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Nota do editor:

Último poste da série > 28 de setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10452: Álbum fotográfico de Armindo Batata, ex- comandante do Pel Caç Nat 51 Guileje e Cufar, 1969/70) (3): As refeições, em Guileje

Guiné 63/74 - P10455: A africanização na guerra colonial e as suas sequelas (2) (Carlos Matos Gomes)



1. Segunda parte do texto sobre tropas locais e africanização da guerra que é a adptação para publicação em livro do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra do texto que serviu de base a uma comunicação num seminário sobre a guerra colonial seus segredos, de autoria de Carlos Matos Gomes, Coronel Cavalaria Reformado (escritor e historiógrafo da guerra colonial), encaminhada para o nosso Blogue por Mário Beja Santos:




A africanização na guerra colonial e as suas sequelas

“Tropas Locais – Os vilões nos ventos da História”

Carlos de Matos Gomes

A situação pós independência das tropas coloniais

O tratamento dado às tropas coloniais após as independências deve ser analisado tendo em conta os objectivos dos novos poderes vencedores. Mesmo considerando a grande carga de popularidade da nova ideologia libertadora anunciada nos programas dos movimentos de libertação, consubstanciada na perspectiva da construção de uma sociedade nova e mais justa, o que é certo é que, ainda mais do que anteriormente, se tratava de um contexto de pós-guerra com vencedores e vencidos, em que os grandes vencidos foram os que integraram as forças especiais africanas.

Relativamente aos africanos que integraram as unidades regulares do Exército e os que pertenceram às milícias, eles foram tratados como os restantes elementos da administração colonial, em regra sem particular violência, pelo menos a que excedesse vinganças localizadas e ajustes de contas.

Já quanto aos elementos das “tropas especiais africanas” a situação foi radicalmente diferente, embora distinta em cada um dos três teatros de operações. Estas unidades passaram de vitoriosas e portadoras de um projeto político, a vencidas e a traidoras de “raça” e de “classe”, sendo que raça estava associada à negritude e africanidade e classe à da exploração colonialista. Entre um Estado português em retirada, com pouca vontade política e quase nenhuma margem de manobra (sobretudo na Guiné e em Moçambique) para se empenhar em seu favor, e movimentos nacionalistas vitoriosos, que os encaravam com os piores olhos, devido não só ao papel que haviam desempenhado durante a guerra mas, também, à ameaça que representavam nos tempos de soberania incerta, que foram os das independências, o espaço de sobrevivência que lhes restou era estreito. Reparemos que, de acordo com as estimativas dos serviços de informações portugueses, existiam 11000 guerrilheiros de três movimentos em Angola, aos quais se podiam opor 37900 efectivos do antigo aparelho militar colonial de recrutamento local, na Guiné existiam 7000 guerrilheiros para 14100 tropas locais e em Moçambique de 6500 a 10000 guerrilheiros da FRELIMO para 30900 efectivos coloniais (Quadro 1).

Os dirigentes dos movimentos de libertação temiam esses militares a dois níveis, em primeiro lugar porque eles podiam constituir uma ameaça militar, um exército oponente e em segundo, mesmo que aceitassem integrar a “nova ordem” eles iriam concorrer com eles pelos lugares de comando e chefia, para os quais estavam tecnicamente mais habilitados. O que era insuportável para os vencedores.

No fundo, eles representavam a realidade que era necessário destruir para construir uma outra e foram o bode expiatório que justificou a violência utilizada pelos vencedores para imporem a sua lei e demonstrarem o seu poder.

Os vencedores, os movimentos de libertação, tinham por objectivo não só criar um novo estado, mas governá-lo. Governar o novo estado era a recompensa natural para quem tinha feito a guerra de libertação.


As contradições do discurso nacionalista e o confronto com a realidade colonial

O período que se seguiu às independências da Guiné, de Moçambique e de Angola e o tratamento dado às “tropas especiais africanas” são um brutal revelador da contradição entre as propostas da utopia de justiça e igualdade e a realidade dos interesses humanos, das contradições do discurso nacionalista, que estão na base da atual situação de África.

O discurso nacionalista africano assentou desde a sua fundação nos anos vinte do século passado numa contradição insuperável: condena a realidade que os nacionalistas não podem (e não puderam) deixar de impor como o seu projeto. Parece complicado, mas não é. É como o discurso de condenação do uso da gravata por alguém que sabe que terá de a usar quando ocupar um certo lugar onde ela é obrigatória.

Mário de Andrade, um dos grandes teóricos do nacionalismo africano, é um bom exemplo dessas contradições. Ele defendia que o nacionalismo africano devia ter como objectivo a defesa da história de África, isto é, a defesa da ideia de que a África tinha uma história antes da chegada dos colonizadores europeus, tinha estruturas sociais, politicas, económicas e afirmava que o nacionalismo devia ter como objectivo restituir a dignidade aos africanos, libertando-os da exploração colonial . Outros autores, como Kwame Nkrumah, influenciado pelas teorias da modernização política, mais devedores da ideologia revolucionária, defendiam que o objectivo do nacionalismo era construir o homem novo e a sociedade nova. Propunha a africanização dos quadros administrativos do estado pós-colonial africano para promover o desenvolvimento económico e substituir as velhas tradições culturais africanas por uma nova elite governamental sucessora e tecnicamente apta para assumir o governo nos países africanos.

A realidade por detrás dos discursos era bem diferente e não podia deixar de o ser. Quanto à historicidade, os dirigentes nacionalistas africanos, maioritariamente urbanizados, destribalizados e ocidentalizados, frutos quase todos da necessidade do colonialismo criar quadros locais para melhorar a eficácia da sua atividade exploradora, aceitaram reescrever a história das colónias que queriam promover a nações de acordo com as fronteiras definidas pelos europeus na Conferência de Berlim, o ato fundador do colonialismo, tipicamente a-histórico, e aceitaram as estruturas politicas europeias do estado-nação. Nenhum propugnou pela reversão da situação pré-colonial de África. A OUA defendeu sempre as fronteiras coloniais.
Mais, os movimentos nacionalistas e os seus dirigentes foram muito activos no ataque às autoridades tradicionais africanas, a pretexto de lutar contra o tribalismo.

Se a historicidade não foi, de facto, um argumento consistente e coerente do nacionalismo africano, a questão da libertação do homem africano da exploração colonial também não era, não foi e não podia ser um objectivo realizável, desde logo porque o subdesenvolvimento de África obrigava os seus povos a integrarem-se no sistema de trocas desigual instituído pelo capitalismo, o que levava os africanos, como ainda hoje leva, a terem de vender o seu trabalho para exportarem matérias primas em bruto e a comprarem produtos elaborados e de alto valor acrescentado. Estavam e estão sujeitos ao capitalismo na sua fase imperialista. A essa exploração geral acrescenta-se a exploração particular feita pelas elites locais sobre a generalidade dos seus povos.

É pois, num contexto em que os novos poderes não têm condições de criar um novo homem africano, nem de impor uma visão histórica pré-colonial nos seus territórios e não podem, nem querem acabar com a exploração, que eles têm de realizar o único objectivo que lhes resta e repetindo: criar um estado-nação e governá-lo. Isto é replicar o que existe um pouco por todo o mundo.

É essa interpretação que levou Hobsbawm a afirmar que o nacionalismo é um projeto político da elite proto-nacionalista, o precursor político da construção do Estado nacional do tipo que, após a Revolução Francesa, se tornou padrão universal em diversos continentes e contextos. “Sem esse projeto político de elites o nacionalismo seria uma palavra vazia de conteúdo”.

Para atingirem este objectivo, os novos poderes tiveram de encontrar soluções para os antigos aparelhos deixados pelo poder colonial, entre eles, os antigos militares das “forças especiais africanas”, aquelas que mais claramente lhes revelavam as contradições e os vazios do seu projeto.

A solução do PAIGC e da FRELIMO para a Guiné-Bissau e para Moçambique foram idênticas: desmantelá-los numa primeira fase e eliminá-los numa segunda. A solução de Angola, onde após a independência os três movimentos iniciaram uma violentíssima guerra civil, a solução foi cada um deles aproveitar esses militares para reforçar as suas forças.

Vejamos o caso particular de cada um.

A Guiné foi, dos três territórios, aquele em que o contexto se apresentava mais favorável aos vencedores, com o PAIGC vitorioso do ponto de vista militar, e portanto pouco aberto à negociações e compromissos. As forças portuguesas, após uma longa guerra travada em difíceis condições, queriam retirar rapidamente. Mas, a Guiné era também o território onde as tropas especiais africanas mais haviam evoluído, a ponto de constituírem um verdadeiro exército organizado em batalhões e companhias, à semelhança das forças armadas portuguesas, com grande experiência de combate e, portanto, representando uma verdadeira ameaça para o novo regime. Consequentemente, este foi impiedoso, localizando, prendendo e executando sumariamente a maior parte dos seus efetivos.

Moçambique apresentava, nas vésperas da independência, um quadro com algumas semelhanças ao da Guiné. O golpe do 25 de Abril trouxe a FRELIMO para a antecâmara do poder, um movimento pouco inclinado a negociar qualquer solução de integração das tropas especiais africanas – parte da “máquina militar colonial” que devia ser desmantelada. A FRELIMO interpretava o seu próprio percurso histórico, em que o chamado conflito interno entre revolucionários e reaccionários se havia saldado pela vitória dos primeiros, cuja vanguarda era representada pelo próprio aparelho militar. As Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM) constituíam o último reduto da pureza revolucionária, que não poderia ser conspurcado pela presença das forças coloniais . De um ponto de vista pragmático, a integração de uma força de várias dezenas de milhares de homens nas FPLM, que teriam entre 7 e 10 mil combatentes, significaria, no mínimo, uma imprudência. As forças africanas comprometidas com o regime colonial passaram a ser tratadas como fazendo parte do «inimigo interno», e como tal seriam «punidas e purificadas», embora a punição e a purificação não tenham atingido os níveis de violência da Guiné.

Em Angola o contexto foi diferente, devido à fragmentação do movimento de libertação em três unidades autónomas, com capacidade militar, embora diferenciada, para conquistar o poder. O facto das tensões político-militares terem prosseguido ininterruptamente, favoreceu a integração dos milhares de homens das unidades especiais africanas, em contraste com a Guiné e Moçambique. Os TE localizados em Cabinda desertaram de imediato com as suas armas para engrossarem as fileiras da Frente de Libertação de Cabinda (FLEC), enquanto os grupos estacionados na fronteira norte (Zaire), compostos maioritariamente por combatentes oriundos do sul, aceitaram o programa de desmobilização e indemnizações oferecido pelas autoridades portuguesas, e regressaram às suas terras, onde grande parte aderiu à UNITA. Os cerca de 3000 homens dos GE encontravam-se dispersos por todo o território de Angola, sobretudo no norte e no leste. Também a estes foi oferecido um programa de desmobilização e indemnizações. Tratando-se de uma força de base étnica, estacionada nos locais de recrutamento, grande parte terá integrado as forças militares da FNLA e do MPLA, consoante se localizavam na área de influência de um ou outro destes movimentos.

A situação em relação aos Flechas era mais delicada, quer porque se tratava da tropa especial com mais experiência de combate e com um passado de operações com grande autonomia, ao serviço da PIDE/DGS, embora houvesse para eles o mesmo plano de desmobilização com indemnizações, as autoridades da transição foram adiando a sua desmobilização porque temiam precipitar uma situação que era já de si altamente explosiva. A previsão das autoridades, nesta altura, era de que três quartos do contingente se integrariam na Unita, um quarto no MPLA, e uma franja insignificante na FNLA, o que não terá estado muito longe da realidade.

Finalmente, a situação das tropas africanas estrangeiras constituiu, o problema mais complexo de resolver, sobretudo no caso dos Fiéis catangueses, que na altura totalizavam cerca de 2400 homens, que permaneceram organizadas e em prontidão de combate depois do 25 de Abril. Várias hipóteses de dissolução desta força foram discutidas pelas autoridades, nomeadamente a sua desmobilização com indemnizações (como sucedia com as restantes forças), a negociação diplomática para o seu regresso ao Zaire ou, ainda, a discussão com as respectivas autoridades para a sua transferência para a Rodésia e África do Sul. Procurando reter os Fiéis em Angola o mais possível, até porque estes ameaçavam, na ausência de soluções alternativas, invadir o Zaire para «morrer em combate contra Mobutu», as autoridades portuguesas negociaram a sua integração no MPLA, que acolheu a perspectiva de bom grado, dada a sua notória inferioridade militar em relação à FNLA. Reforçado por elementos dos GE e dos Flechas, e agora também pelos Fiéis, o MPLA manteve a posse de Luanda e retomou o controlo do nordeste e de Cabinda. Destino idêntico tiveram os Leais, integrados na UNITA e nas tropas sul-africanas no então Sudoeste africano.


Criar e governar um Estado 

O modo como os novos poderes procedentes dos movimentos de libertação lidaram com as estruturas coloniais e com os seus agentes, quer os civis, quer os militares, após as independências de cada uma das ex-colónias portugueses de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, revelou as dificuldades dos nacionalismos africanos do início da segunda metade do século XX em criarem novas realidades políticas essencialmente diferentes das deixadas pelo colonialismo.

Após as independências, fosse por reconhecimento de um facto já internacionalmente reconhecido, como no caso da Guiné-Bissau, fosse por negociação, os dirigentes dos movimentos que haviam conduzido a luta contra o colonialismo português tiveram como principal tarefa criar um estado-nação nos territórios que haviam sido as colónias portuguesas de Angola, Guiné e Moçambique, posteriormente designadas de Províncias Ultramarinas e governá-lo com maior justiça do que a da potência colonial. Esse era o problema que lhes cabia resolver. Para o conseguirem, a primeira questão era instalarem-se o mais fortemente que lhes fosse possível no poder e exercê-lo do modo mais eficaz para o manterem.

Perante este problema, os novos dirigentes foram confrontados com tensão criada por duas forças opostas; de um lado a utopia revolucionária em que haviam fundado as suas justificações para a luta, o que os obrigava a destruir o que existia; e do outro a realidade, a de que Angola, Guiné-Bissau e Moçambique tinham a sua história e essa história resultava em boa parte da acção de uma potência colonial, que tinha implantado estruturas de governo e administração envolvendo nelas pessoas, meios e métodos, que tinha conduzido uma politica de implantação de colonos, da qual havia resultado um determinado tipo de relacionamento.

Em resumo, havia uma realidade que eram as colónias de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, constituídas pelos grupos étnicos habitantes tradicionais dos territórios e pelas comunidades europeias estabelecidas há mais ou menos tempo, por uma administração civil em que, grosso modo, os postos mais elevados e os médios eram ocupados por quadros metropolitanos, ou seus descendentes e os postos médios baixos e baixos eram providos por naturais, urbanizados e assimilados e uma estrutura de defesa e segurança, exército e polícias, onde vigorava o mesmo sistema da administração, quadros superiores metropolitanos, quadros inferiores e efetivos de linha preenchidos por elementos locais.

Esta era a realidade pré-existente aos nacionalismos africanos e às lutas anti-coloniais. Como disse Frantz Fanon , foi o colonizador que fez o colonizado. A luta anti-colonial teve por objectivo declarado derrotar e expulsar o colonizador, criar uma realidade nova, com novas estruturas politicas, novas relações e até um homem novo, liberto da exploração do colonialismo. O objetivo da luta anti-colonial e dos seus movimentos era fundar uma nova sociedade em que a utopia devia realizar-se.

A resultante do sistema de forças entre a utopia revolucionária e a realidade da herança colonial, dificilmente seria positiva, mas, para piorar as hipóteses de sucesso, surgiam ainda a realidade das fraquezas humanas, da ambição dos vencedores ocuparem os lugares dos vencidos e ainda de terem de retribuir os apoios aos seus aliados internacionais, o que, no ambiente de guerra fria da altura, significava servir os interesses estratégicos da União Soviética e, nalguns casos da China.

Os quatro elementos que balizaram as relações entre os novos poderes no período pós-independência em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique são assim: a) uma aliciante ideologia de tipo salvífico, libertador e messiânico, extraída do marxismo que a União Soviética exportou para os países do Terceiro Mundo no pós-segunda guerra; b) uma realidade colonial complexa; c) a ambição e os defeitos humanos, potenciados por uma luta vitoriosa; e) uma sujeição estratégica ao bloco soviético, que fora o aliado mais generoso e interessado das lutas de libertação.

Estes quatro fatores, comuns às três colónias onde ocorreu o conflito armado, embora em graus diversos, produzirão resultados semelhantes: a destruição das estruturas politicas, económicas e administrativas deixadas pela potência colonial, de que a expulsão dos colonos e quadros locais foi o primeiro passo, a ocupação dos lugares de comando da sociedade por elementos dos novos poderes, a aliança estratégica ao bloco Leste e a guerra civil.


A política: condição determinante do resultado da guerra

A leitura dos números de efetivos militares portugueses de recrutamento local nos três Teatros de Operações de Angola, Guiné e Moçambique (Quadro 1), num exercício a que nos estudos de situação das escolas militares de estado maior se chama “Análise do Potencial Relativo de Combate”, poderia levar à conclusão de que os militares africanos ao serviço das forças armadas portuguesas e da politica do governo de Lisboa, estavam em clara vantagem relativamente às forças de guerrilheiros. Três vezes e meia superiores em Angola, duas vezes na Guiné, três vezes em Moçambique. Em termos de quantidade e até em qualidade (organização, treino, enquadramento, equipamento) estas forças eram manifestamente superiores e podiam ter mantido o conflito numa situação de nem paz nem guerra, nem vitória nem derrota. Podiam, no mínimo, ter negado a vitória aos seus oponentes.

Aparentemente assim era, mas a guerra é antes de mais uma questão política e é essa a grande lição que podemos retirar da forma como a guerra colonial foi resolvida. O resultado da guerra colonial é a demonstração eloquente de não haver lugar a vitórias militares na guerra. O resultado da guerra colonial portuguesa foi determinado pelas condições políticas em que ela foi travada. Condições políticas internas e externas. Internamente, a guerra tornara-se um fardo insuportável para setores cada vez mais alargados e mais importantes da sociedade, que se conjugaram nos quadros intermédios das forças armadas, proporcionando-lhe o ambiente e as condições para derrubarem o governo que defendia o colonialismo através dela. Internacionalmente, o colonialismo era, no pós-segunda guerra, uma situação política insustentável. Um continente derrotado e devastado como era a Europa do pós-guerra, não podia manter colónias contra a vontade e os interesses das potências vencedoras, que apoiaram ativamente a emergência de líderes locais para substituírem os poderes coloniais, na convicção de que aqueles seriam mais fáceis de controlar e de, através deles, obterem maior controlo das riquezas (o que se veio a verificar), ou de ganharem vantagens estratégicas (caso da URSS).

O colonialismo português era, neste contexto, duplamente anacrónico, na medida em que durante o período áureo do colonialismo, da Conferência de Berlim à II GM, não dispôs de capacidade para transformar as matérias primas de África, por falta de industrias instaladas na metrópole e, a partir da II GM, era anacrónico na medida em que ficou numa situação de oposição às políticas dos seus principais aliados, a começar pela super-potência da sua zona, os EUA. Acresce ainda que a incompetência da condução da guerra feita pelos governos de Salazar e de Marcelo Caetano, que esgotaram os seus quadros militares em comissões sucessivas e não souberam utilizar de forma económica os seus recursos.

A africanização da guerra foi uma solução conhecida, que adiou a solução final, mas também a dificultou, e, acima de tudo, criou as condições para milhares de homens que serviram as forças portuguesas terem por isso sofrido torturas e mortes com sofrimentos horrorosos, que não dignificaram também os vencedores. Eles foram vítimas de um processo político que os ultrapassou.


A violência como vulgaridade no processo histórico no período pós independência

A história do modo como os novos poderes lidaram com as estruturas coloniais, incluindo os elementos locais que pertenceram às estruturas civis e militares criadas por Portugal, enquanto potência colonial, pode resumir-se na exclamação de Breno aos romanos, ao atirar a espada para cima da balança em que se pesava o ouro para pagar a partida dos gauleses: Vae victis! – Ai dos vencidos. Nada de novo em termos históricos, pois apenas confirma comportamentos e atitudes recorrentes. Não há, pois, nenhuma moral a tirar, apenas uma conclusão: a de que a racionalidade das decisões dos homens é determinada em primeira instância pelas relações de força. Isto é, que o poder é a primeira fonte da razão e que a consideração pelas consequências das decisões está sempre sujeita ao contributo que estas podem dar ao exercício do domínio.

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Bibliografia:

Coelho, João Paulo Borges (2002) “African Troops in the Portuguese Colonial Army, 1961-1974: Angola, Guinea-Bissau and Mozambique”. Portuguese Studies Review, nº10, 2002.

Telo, António José, “Campanha de Moçambique”, in Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes (org), Portugal e a Grande Guerra. Lisboa: Diário de Noticias, 2003.

Rocha, Edgar (1977) “Portugal, anos 60: crescimento económico acelerado e papel das relações com as colónias”, Análise Social, VOL. XIII (51), 3.°, 1977.

Estado-Maior do Exército, “Dispositivo das Nossas Forças”, Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974), 2º, 3º, 4º Vols. Lisboa: EME, 1989.

Andrade, Mário Pinto de, Origens do Nacionalismo Africano. Lisboa: D.Quixote, 1998.

Birmingham, David, Kwame Nkrumah: The father of African nationalism. Ohio: Ohio Press University, 1998.

Hobsbawm, Eric J., A Era dos Extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2ªed, 1995.

Fanon, Frantz, Os Condenados da Terra. Lisboa: Ulisseia, 1961
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Nota de CV:

Vd. poste de 27 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10446: A africanização na guerra colonial e as suas sequelas (1) (Carlos Matos Gomes)

Guiné 63/74 - P10454: Do Ninho D'Águia até África (13): O Bóia (Tony Borié)

1. Continuação da narrativa "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177.


Do Ninho D'Águia até África (13)
O Bóia

Já lá ia mais de um ano de estadia na província.

A farda que usávamos era amarela, começando a aparecer tropa com roupa de diferente cor, um verde azeitona. Diziam que era feita de tecido melhor e que se adaptava mais ao clima tropical, podia ser verdade, mas estes novos militares logo foram baptizados com o nome de “Periquitos”. E alguns desses militares podiam ser pessoas com bastante senso nas palavras e com escola superior, mas isso não interessava nada, tudo o que pudessem dizer, não valia e não tinha qualquer senso, pois vinha da boca de um “Periquito”.

O Cifra tinha quase a certeza, mas podia estar enganado, de quem baptizou estes novos militares, foi o cabo “Bóia”, pois um dia quando chegou ao aquartelamento um Unimog carregado com alguns tropas vestidos com a farda verde azeitona, quando esses militares saltaram para o chão, o cabo Bóia, disse: Oh raio, parecem periquitos!

O nome pegou.

O cabo Bóia, em Portugal, era da região do Alentejo, falava devagar e com um sotaque bastante popular, que só ele sabia, era difícil de imitar. O seu vocabulário tinha um conjunto de palavras que só ele e mais uns quantos entendiam, e era conhecido por esse nome porque sempre que se aproximava a hora da refeição, dizia: Hei, compadres, está na hora da bóia.

A bóia, na sua linguagem, era a comida. Tinha um grande bigode, retorcido nas pontas, era tropa dos velhos, pois pertencia à tal companhia onde o capitão batia nos soldados e furriéis.

O Curvas, soldado atirador, alto e refilão, um dia na altura da refeição do meio dia, pega no recipiente onde vinha a comida para a mesa, que parecia uma bacia em alumínio, diz a respeito do tal capitão: Ca granda filho da puta! Se fosse comigo, enfiava-lhe com esta bacia cheia de merda nos cornos! Cabrão! Era assim o homem. Quando se lhe desprendia a língua, era melhor fugirem!.

Para nossa salvação andava sempre por perto o Trinta e Seis, soldado telegrafista, baixo e forte na estatura, que logo lhe disse:
- Cala-te homem de Deus, e tem respeito, pois isto é uma mesa onde todos comem.

Mas adiante, vamos à história. Havia uma pequena ponte, um pouco distante do aquartelamento, quem ia para o interior, creio que na estrada que ia dar à povoação de Cutia, que era guardada durante o dia por uma secção. Na dita altura das chuvas formava-se um grande pântano a que os militares chamavam bolanha sul, com alguns quilómetros de extensão, mas onde se transitava pela estrada de terra, que era um pouco mais alta, onde a água tinha pouca ou quase nenhuma altura, e quem conhecia o caminho ia e vinha sem qualquer problema. A zona onde estava localizada a ponte era seca.

Estes militares levavam comida para todo o dia, e para lá iam de Unimog, onde tinham uma espécie de pequena fortaleza montada, que era um abrigo feito com sacos de terra, coberto com uma estrutura de alguns troncos de palmeira e algumas folhas de zinco, que por sua vez estavam também cobertos de terra. Ali passavam o dia, e entre outras coisas, identificavam quem passava na ponte. Tinham aparelhagem de rádio e estavam em contacto, se fosse caso disso, com o aquartelamento.

Não muito distante havia uma pequena aldeia de naturais que trabalhavam nas terras pantanosas, ou seja a bolanha do arroz e criavam alguns animais, eram pessoas pacatas, pelo menos pareciam, não havia pessoas novas, eram só velhos e crianças, mesmo crianças. Havia até alguns militares que queriam fazer esta segurança à ponte, pois no regresso traziam aguardente de palma, que compravam, ou talvez não, na referida aldeia. O Bóia foi destacado, nesse dia, para ir com outros militares prestar segurança à referida ponte.

Tudo normal.

Chegam, inspeccionam o local, normalmente deixavam um sinal em certos pontos estratégicos para verem se alguém tinha usado a ponte ou a pequena fortaleza, durante a noite. Nesse dia, sim, tinham usado.

Havia sinal de pegadas, de sandálias que os militares conheciam, pois faziam parte da farda dos guerrilheiros, logo muito conhecidas.

Ficam com cuidado redobrado, comunicam ao aquartelamento o sucedido e recebem ordens de se manterem de olhos bem abertos, que alguma tropa iria já para lá, para reforçar a zona da ponte e talvez fazer uma patrulha mais aprofundada na zona.

O Bóia, com o cigarro no canto da boca, com o seu ar bonacheirão, com a mão direita, pois a esquerda segurava a G3, tira o cigarro da boca, molha os dedos com saliva, coloca de novo o cigarro na boca e retorcendo o seu grande bigode, diz:
- Deixa lá ver o que estes “compadres” andaram por aqui a fazer durante a noite?

Enquanto os militares se encontravam quase todos juntos a discutir a situação, o Bóia com passo lento mas firme, começa a atravessar a ponte de G3 na mão, pronta a disparar, quase com se andasse à caça aos coelhos, em alguma herdade lá no seu Alentejo, quando mais ou menos ao meio, mas mais perto do final, sente qualquer coisa a tocar-lhe a perna e a prender-lhe o movimento.

O pobre do Bóia, não viu mais nada. Sem querer accionou um engenho explosivo que lhe destruíu quase todo o corpo.

Morreu, tendo o seu corpo sido recolhido aos bocados. Mais dois soldados foram atingidos com alguns estilhaços. Quando chegaram os reforços, que aumentaram o andamento ao ouvirem o rebentamento do engenho explosivo, depararam com toda esta cena, onde parte dos soldados choravam e tentavam recolher os restos do corpo da pessoa a quem carinhosamente chamavam Bóia.

Quando chegaram ao aquartelamento, com o resto do corpo do Bóia, o Cifra tinha acabado de decifrar uma mensagem dirigida à companhia a que pertencia o defunto Bóia, comunicando que se deviam apresentar num dos próximos dois dias no comando territorial da provincia, na capital, a fim de embarcarem para Portugal, pois tinham completado o tempo de serviço, que na altura eram dois anos. Esperariam pela chegada da força militar que os vinha substituir naquele cenário de guerra, que tinha vindo no mesmo barco que os havia de levar de regresso a Portugal, levando o defunto Bóia dentro de um caixão.

Era esta a guerra onde estávamos envolvidos, onde não havia regras de sobrevivência, o militar estava exposto até ao último minuto da sua estadia, pois era substituído por outra força militar, em pleno cenário de guerra, não tinha nenhuma chance, pois mesmo que houvesse leis, não havia qualquer meios na capital da província de se restabelecer, uns dias antes de regressar à Metropole, como então se dizia.

Alguns apresentavam-se à família, no cais da Alcântara em Lisboa, com a roupa rota e suja, as botas também rotas, com o cabelo comprido, com grandes barbas e bigodes, os dentes negros, mas mesmo negros, vários insectos minúsculos em determinadas zonas do corpo, cara de selvagens, falando pouco, desconfiados, deprimidos, olhando sempre para o chão, algumas encurrilhas na testa, em sinal e na expectativa do pior, não queriam que lhes tocassem no corpo, admirados por verem tantas pessoas trajando civilmente, pensando que ainda estavam debaixo de um abrigo, que os guerrilheiros iam atacar, que o arroz que iam comer lhes fazia os intestinos andarem parados por dias, com dores constantes na região do estômago e que só de facto algum excesso de álcool, entre outras coisas, lhes fazia ter uma vida considerada “normal”.

A alguns, todos estes sintomas não mais sairam do seu corpo e passado quase cinquenta anos, os que ainda estão vivos, que são homens com um “H” muito grande, apresentam por vezes todo este aspecto, também por vezes alteram um pouco a sua voz de revolta, e algumas pessoas, das novas gerações, onde se incluem muitos políticos, ao verem-nos, viram a cara, riem-se baixinho, e dizem:
- Deixa lá esse desgraçado falar, pois aquilo é só stress e saudades da guerra.

Oxalá que o Curvas, alto refilão, ainda esteja vivo, mas que não leia este texto, porque depois de ouvir todas estas considerações do amigo e companheiro Cifra, é capaz de vir por aí e matar tudo e todos, como ele dizia, pois era a pessoa que mais bem preparada estava, naquele tempo, para enfrentar aquele conflito, pelo menos na linguagem.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 26 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10438: Do Ninho D'Águia até África (12): O Madragoa (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P10453: Parabéns a você (475): António Bastos, ex-1.º Cabo do Pel Caç 953 (Guiné, 1964/66) e Manuel Moreira Vieira, ex-1.º Cabo da CART 1746 (Guiné, 1967/69)

Para aceder aos postes dos nossos camaradas António Bastos e Manuel M. Vieira, clicar nos seus nomes
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 27 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10441: Parabéns a você (474): Luís Borrega, ex-Fur Mil da CCAV 2749 (Guiné, 1970/72)

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Guiné 63/74 - P10452: Álbum fotográfico de Armindo Batata, ex- comandante do Pel Caç Nat 51 Guileje e Cufar, 1969/70) (3): As refeições, em Guileje





Guiné > Região de Tombali >  Guileje > Pel Caç Nat 51 (jan 969/ jan 1970) >  Mais quatro notáveis fotos, a preto e branco, do álbum do nosso camarada Armindo Batata, ex-comandante do Pel Caç Nat 51... Na época, o Pel Caç Nat 51 esteve adido à  CCAÇ 2316 (mai 1968 / jun 1969)  e à CART 2410,  os Dráculas (jun 1969 / mar 1970). 

De cima para baixo, são fotos nº 15, 12, 13 e 14.  As fotos documentam  as "refeições em Guileje", de acordo com a anotação que vem no ficheiro cedido ao Núcleo Museológico Memória de Guiledje,  refeições essas que eram tomadas no abrigo ou no espaço reservado ao Pel Caç Nat 51.  O pelotão tinha um fogareiro a petróleo que possivelmente só servia para aquecer a comida ou confecionar refeições ligeiras. No essencial, a  confeção das refeições deveria estar a cargo da cozinha da unidade de quadrícula de Guileje (primeiro,  a CCAÇ 2316 e,  depois,  a CART 2410).

O pessoal africano do pelotão devia ser  desarranchado, como acontecia com a generalidade das unidades compostas por tropas do recrutamento local. As fotos não trazem legenda, pelo que não nos é possível identificar os militares que aqui aparecem, com exceção do alf mil Batata (foto nº 12, fardado, com galões de alferes, e de óculos, e nº 15, sentado, em tronco nu, de óculos). O pessoal metropolitano era, por sua vez, de rendição individual.

Fotos: © Armindo Batata / AD - Acção para o Desenvolvimento (2007). Todos os direitos reservados [Fotos editadas por L.G.]

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P10451: (Ex)citações (196): Um funeral balanta, em Barro, no tempo da CART 2412 (1968/70) (Adriano Moreira)

1. Comentário do Adriano Moreira (Admor) ao poste P10442:

[O Moreira foi Fur Mil Enf da CART 2412, Bigene, GuidajeBarro, 1968/70, e está inscrito na Tabanca Grande desde 30 de maio de 2012; foto atual à direita]


O único enterro em que fui chamado a participar ou convidado aconteceu em Barro.

Um homem grande,  de etnia balanta,  que se chamava Fonseca, meu cliente certo da enfermaria,  fez questão ou a sua família que eu assistisse ao seu funeral.

Assim, quando cheguei à tabanca,  na casa onde ele morava estava o Fonseca sentado numa poltrona de veludo vermelho, bastante coçado,  e com duas ou três notas enroladas e metidas nos lábios.

Quando foi a enterrar ao lado da sua casa,  foi precisamente num buraco aberto na vertical e na mesma posição de sentado em que estava na poltrona, que devia de servir para estas situações.

Não sei se a sua posição respeitava alguma orientação, mas como os balantas eram animistas acho que não devia ter qualquer sentido obrigatório, como Meca para os muçulmanos.

Fiquei bastante surpreendido com estas situações, mas não fiz quaisquer perguntas, nem na altura nem depois, o que realmente foi pena, pois poderia agora estar mais elucidado sobre o assunto.

Um grande abraço para todos.
Adriano Moreira



Guiné > Região do Cacheu > CCAÇ 3 > Barro > 1968 > Espaldão do morteiro 81, guarnecido por dois Jagudis, de etnia balanta.

Foto: © A. Marques Lopes (2007). Todos os direitos reservados.

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P10450: Efemérides (110): Leiria homenageou os seus combatentes no passado dia 23 de Setembro de 2012 (José Marcelino Martins)

1. Em mensagem do dia 23 de Setembro de 2012 o nosso camarada José Marcelino Martins (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), mandou-nos a sua reportagem da Homenagem que o Concelho de Leiria prestou aos seus Combatentes no Ultramar.



Homenagem aos Combatentes do Concelho de Leira que serviram a Pátria no Ultramar

1º Encontro Concelhio - 23/09/2012

Levada a efeito por iniciativa da Câmara Municipal de Leiria, com a colaboração estreita do Núcleo da Liga dos Combatentes, da cidade, foram homenageados os combatentes nascidos e/ou residentes no concelho.

Todas as cerimónias foram presididas pelo Secretário de Estado da Defesa Dr. Paulo Braga Lino, estando presentes o Presidente da Câmara Municipal de Leiria, Dr. Raul Miguel de Castro, o Presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes, Tenente General Joaquim Chito Rodrigues, o Comandante da Brigada de Reacção Rápida, o Comandante do Regimento de Artilharia 4, representantes da Armada, da Força Aérea, Guarda Nacional Republicana e Policia de Segurança Pública. Também se encontrava presente a direcção do Núcleo da Liga dos Combatentes, tendo a frente o seu Presidente, Tenente-coronel Mário João Ley Garcia.

Os núcleos de Marinha Grande, Alcobaça, Batalha e Rio Maior fizeram-se representar com os seus Guiões.

As cerimónias tiveram início pelas 14H30 na Sé Catedral de Leiria, cuja primeira pedra foi lançada em 11 de Agosto de 1550, com uma missa de sufrágio pelos militares Tombados em Campanha e, também, pelos Combatentes que tendo regressado, já partiram do nosso convívio. A Santa Missa foi celebrada pelo Capelão da Base Aérea nº 5, Monte Real, Alferes Capelão Padre Manuel Henrique.

À homilia, desenvolvendo o Evangelho do dia de hoje (Mateus 9,30-37), deu ênfase ao versículo 35: Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”, dizendo que, com base nestes”ensinamentos” a “importância” que alguns tomam, “quer por posição social quer por questões hierárquicas”, não os engrandece aos olhos de Deus.


Terminada a cerimónia religiosa, as entidades oficiais, os combatentes e suas famílias, dirigiram-se para o local onde, em 10 de Junho de 2008, foram inauguradas três placas com os nomes dos Militares Tombados em Campanha do Concelho de Leiria.

No local encontrava-se um pelotão do Regimento de Artilharia nº 4, com fanfarra, para prestar as Honras Militares.


Como é hábito, nas cerimónias deste género, iniciou este acto o Capelão da B.A. 5, com uma oração para aqueles que tombaram, recordando-os.

Seguidamente o Secretário da Defesa, o Presidente da Câmara e o Presidente da Liga dos Combatentes, descerraram a lápide a inaugurar, que se encontrava coberta pela Bandeira Nacional e colocada junto às lápides anteriormente referidas.

Procedeu-se, então à colocação de coroas de flores junto ao monumento.


De seguida, com o pelotão em “ombro armas”, a fanfarra executou o toque de “Silêncio”, o toque que, sendo o último toque ouvido no dia a dia duma unidade militar, aqui representa o “tombar em campanha”; seguidamente, com a força em “apresentar armas” e em continência, foi escutado o toque de “mortos em combate” a que se seguiu um minuto de silêncio total. Passada esta homenagem aos que tombaram e porque acreditamos que “há mais vida para além da vida”, foi executado o toque de “alvorada” pois acreditamos que, um dia, todos nos voltaremos a encontrar.


Terminado este acto, a força militar retirou do local, sendo sido oferecido aos combatentes presentes, e que se inscreveram antecipadamente no Núcleo da Liga ou nas Juntas de Freguesia da sua naturalidade, uma lembrança, personalizada, que lembrará a homenagem que o Presidente da Câmara, também ele Combatente do Ultramar, quis prestar aos Leirienses.


A cerimónia terminaria com o desfile dos combatentes, tendo à frente a fanfarra militar e o guia na Núcleo dos Combatentes de Leiria, frente a uma tribuna onde se encontravam as autoridades oficiais e convidados.

O dia iria terminar nas instalações onde se encontra aquartelado o Regimento de Artilharia 4, num convívio de combatentes e familiares. Não estive presente, porque outros compromissos me fizeram regressar a casa.


José Marcelino Martins
23 de Setembro de 2012
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 2 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10317: Efemérides (109): Leiria vai homenagear os seus combatentes em 23 de Setembro de 2012 (José Marcelino Martins)

Guiné 63/74 - P10449: Passatempos de verão (17): Luís R. Moreira, de férias em terras transmontanas de Miranda, com o campeão do jogo da malha Belmiro Vaqueiro

1. Mensagem do nosso camarada Luís Rodrigues Moreira (ex-Alf Mil Sapador da CCS/BCAÇ 2917 e BENG 447, Bambadinca e Bissau, 1970/72), com data de 15 de Setembro de 2012, dando-nos conta das suas férias em Miranda do Douro, onde confraternizou com o outro nosso camarada Belmiro Vaqueiro, ex-Fur Mil da CCAÇ 1426 (1965/67) que esteve no subsector de Bafatá:

Caro Carlos,
Nestas férias estive em Miranda do Douro onde também tem casa o nosso camarigo Belmiro Vaqueiro cuja residência oficial é em Bragança como consta nos arquivos da Tabanca Grande.

Há muitos anos que somos amigos e até foi ele que me deu o contacto do blogue para me inscrever. Não temos podido contar com a sua presença nos nossos encontros anuais devido à interioridade e grande distância das localidades onde habita e os locais onde decorrem os nossos encontros. Mas, este ano, resolvemos tirar umas fotos em Miranda que agora te envio para fazeres o que achares por mais conveniente.

Umas com vistas de Miranda e outras onde aparece o jogar o tradicional “Jogo do Fito” (na minha terra é mais conhecido por “Jogo da Malha”) no qual ele é o campeão indiscutível na zona. Não há no blogue muitas referências a qualquer um de nós sobre a passagem pelo T.O. da Guiné, no meu caso por falta de memórias dessa altura já que o acidente que sofri me afectou nesse campo e só recentemente com a leitura do blogue e o encontro com camaradas do meu tempo em Bambadinca – Luís Graça, Humberto Reis, Fernando Marques, Cabral, Vacas de Carvalho, Gabriel Gonçalves, Benjamim Durães e …. tantos outros, me tem permitido reavivar a memória e recordar alguns momentos desse tempo.

E por aqui me fico.
Recebe um grande abraço do camarigo,
Luís R. Moreira

Um aspecto do Jogo do Fito ou, mais vulgarmente conhecido, Jogo da Malha



Os nossos camarigos Belmiro Vaqueiro e Luís R. Moreira (por esta ordem nas fotos inferiores) em Miranda do Douro

Fotos de Luís R. Moreira
Legendas de Carlos Vinhal
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 24 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10426: Passatempos de verão (16): Viva Portugal (Felismina Costa)

Guiné 63/74 - P10448: Carta aberta a... (7): Meu amigo guineense Cherno Baldé: O(s) nosso(s) esclavagismo(s) e a arrogância do sr. René Pélissier (António Graça de Abreu)

1. Carta aberta ao Cherno Baldé
por António Graça de Abreu 
[, foto à esquerda, 1972, no CAOP1, em Teixeira Pinto, TO da Guiné]

Tenho por ti todo o respeito do mundo e as diferenças de opinião fazem parte do que somos e enriquecem naturalmente a nossa vida.

Há uns postes atrás, num comentário a comentários, um deles meu, dizes que concordas com a afirmação do Réne Pélissier que volto a citar:

"Para a história colonial portuguesa basta consultar os autores de língua inglesa. Há séculos que a maior parte a denuncia como negreira, arcaica, brutal e incapaz: a quinta essência do ultracolonialismo sob os trópicos".

O francês Pélissier fez esta afirmação, em entrevista a Lena Figueiredo, publicada no jornal Diário de Notícias, Artes, de 02.04.2007 [, Clicar aqui para ler a entrevista na íntegra. LG]. (*)

Isto é uma opinião, ou arrumar de vez com a história colonial portuguesa "quinta essência do ultracolonialismo sob os trópicos?" Isto é uma afirmação de quase ódio a Portugal e aos portugueses. Claro que não fomos santos, mas esta não é a nossa História, tanta vez mal contada.

E aqui não estamos no reino das opiniões.

Por isso, meu caro Cherno [, foto à direita, 1989, em Kiev, Ucrânia], saúdo a tua verticalidade e honestidade intelectual ao acrescentares ainda no mesmo rol de comentários, em referência outra vez ao René Pélissier:

“Nem sempre concordei com a sua linguagem arrogante e de desprezo para com os portugueses e seus aliados.”

A questão, meu caro Cherno, é termos no blogue tantos camaradas que gostam não só enaltecer o trabalho de Pélissier (que nunca foi à Guiné e é uma espécie de rato de biblioteca, rato reaccionário de esquerda, mas rato) mas também de concordar com o que tu chamas “a sua linguagem arrogante e de desprezo para com os portugueses”. E é pena, e às vezes, dói.

Sabemos como funcionava no século XIX muito do recrutamento (chamemos-lhe assim!)
de escravos africanos que embarcavam pela força nos navios negreiros, de bandeira norte-americana, inglesa e francesa (havia navios negreiros portugueses?) rumo ao Brasil, às Caraíbas, à América do Norte?

É ou não verdade que muitos desses infelizes negros, que morriam às centenas em cada viagem transatlântica, eram entregues, vendidos aos capitães negreiros brancos pelos chefes tribais negros dos territórios que se estendem do Senegal até Angola e eram resultado de infindáveis lutas fratricidas entre diferentes etnias? Quem vencia capturava os seus escravos e depois vendia-os aos negreiros ingleses, franceses e norte-americanos.
Estarei a inventar?

Não questiono o colonialismo português. Existiu, com certeza, cometeram-se muitos crimes contra os povos das colónias. E os povos africanos não cometiam constantemente crimes entre si?

Será que é correcto pôr nos pratos da balança, de um lado os brancos, os maus, do outro, os negros, os bons? É assim tão simples, tudo a preto ou branco? Ou o mundo felizmente é a cores, a todas as cores do universo.

Bons e maus existem, coexistem sempre em gente de múltiplas cores.

Estamos em 2012.  
Os tempos são outros, os povos africanos conseguiram a sua tortuosa independência.
Pós independência quase todos os novos dirigentes africanos cometeram outros tantos incontáveis atentados e crimes contra os seus povos. Vê só as lutas tribais no Congo, no Ruanda, no Sudão com milhões de mortos.

Também sei que o neocolonialismo existiu e existe e também tem fomentado muitos conflitos. Mas será o responsável, por exemplo, por quase trinta anos de guerra civil em Angola?

Hoje, cinquenta anos após as mais variadas independência, continuar a acusar os colonialistas portugueses de serem "a quinta essência do ultracolonialismo sob os trópicos", é mentira e não fica bem a quem o faz, ainda por cima um francês que passa uma esponja encharcada mas “limpinha” sobre o colonialismo da França.

Os africanos, tal como alguns brasileiros -- ou até os cubanos, com Fidel de Castro em Havana diante de João Paulo II, há uns anos atrás, a acusar o colonialismo espanhol das desgraças de Cuba, cem anos após a independência da ilha - , os africanos, alguns brasileiros e cubanos, dizia eu, têm tudo a ganhar em se libertaram do complexo anticolonialista. Povos que não conseguem libertar-se dos traumas verdadeiros ou fictícios de um passado que já nem sequer conheceram, com que procuram sempre justificar as suas incapacidades e incompetências, não crescem e permanecerão não vítimas do colonialismo mas reféns de si próprios.


É muito fácil acusar os colonialistas que deus (ou o diabo!) tenha. Muito mais difícil é construir um país e lutar por uma vida melhor para os seus povos.

Abraço,

António Graça de Abreu


[Subtítulo da responsabilidade do editor]
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Nota do editor:

Último poste da série > 16 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7294: Carta aberta a... (2): Professores António de Oliveria Salazar e Marcello Caetano (António Graça de Abreu)

(*) Entrevista dada ao DN, a propósito do livro:

Título: 
Campanhas Coloniais de Portugal 1844-1941, As
Autor: René Pélissier
Coleção: Histórias de PortugalCategoria: Ciências sociais e humanas
Editora, local e ano: Editorial Estampa, Lisboa, 2006
Nº pp. 448
Brochado, 14x20,5 cm,  €21,95

Pela primeira vez, este livro revela a história global da conquista do enorme império colonial que Portugal chegou a construir em África, na Índia e na Insulíndia, a partir de 1844. 

Marcada por guerras quase permanentes no início do século XX, esta conquista durou até 1941. No seu apogeu, a extensão do império português foi proporcionalmente igual à do império francês. Como é que, sem dinheiro nem emigrantes numerosos, mas por meio de armas, este pequeno e pobre reino, que as grandes potências queriam desapossar, foi capaz de conseguir uma tal empresa? 

É o que nos conta esta obra minuciosamente documentada. Abundante em informações, este livro magistral esclarece toda uma vertente de História quase desconhecida, cujas consequências não cessam de se repercutir no nosso mundo contemporâneo.

Guiné 63/74 - P10447: Notas de leitura (412): "História da Guiné, Portugueses e Africanos na Senegâmbia, 1841-1936", por René Pélissier (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Julho de 2012:

Queridos amigos,

Por exigência do ofício, vou agora rondar pelas histórias da Guiné, imperativo que me é imposto pelo novo trabalho que tenho em mãos quanto a um roteiro que faz o arco entre a Guiné Portuguesa e a Guiné-Bissau.
É uma tentação este texto de René Pélissier, o investigador aparece bem documentado, é por vezes muito brusco e torna a leitura palpitante graças às suas descrições onde não faltam aventuras, guerras e a consideração que ele mostra pelo esforço dos portugueses em internarem-se no mato para consolidar posições. Deita por terra o mito da nossa presença ao longo de cinco séculos, o que é verdade é que mal se saiu da orla marítima, quase sempre dentro das praças e dos presídios. Sim, é apaixonante ler este René Pélissier que ainda se encontra nas livrarias.

Um abraço do
Mário


A história da Guiné,  por René Pélissier (1)

Beja Santos

No âmbito do trabalho que estou a desenvolver com o Francisco Henriques da Silva e que se intitula “Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro”, tem total cabimento afoitarmo-nos a fazer uma incursão pelas diferentes obras que falam da Guiné. A primeira história da Guiné foi a de João Barreto, um médico goês, curioso pelo passado da Guiné e que deu à estampa o seu trabalho em 1938.

É mais uma obra de divulgador que de especialista, tem incontestáveis méritos e revela abundantes insuficiências, como mais tarde se destacará. Em 1954, o então comandante Avelino Teixeira da Mota publica um estudo detalhado, a história da Guiné Portuguesa, que durante anos foi a peça de referência e ainda hoje é de leitura obrigatória em certos domínios. E veio a seguir René Pélissier com a sua História da Guiné, portugueses e africanos na Senegâmbia, 1841-1936, dois volumes, Editorial Estampa 1989.

A historiografia posterior aparece parcelada, António Duarte Silva escreve o seu incontornável “Invenção e Construção da Guiné-Bissau”, um olhar que permite ao estudioso e ao interessado pelas coisas guineenses entender a importância da obra de Sarmento Rodrigues e a fase da Guiné como província ultramarina, até chegarmos aos alvores da causa nacionalista. Como igualmente importante se revela a Guiné, 1963-1974, de Fernando Policarpo (QuidNovi, 2006),  porventura o estudo nos oferece a melhor síntese do período correspondente à luta de libertação.

O trabalho de Pélissier aparece prefaciado por Leopold Senghor. É muito belo o que ele nos escreve aqui:

“Os meus antepassados fulas e mandingas provêm de Gabu, no nordeste da Guiné portuguesa, para se integrarem em Sérères do Sine, mais exatamente na Petite Côte do Senegal, onde Joal, minha terra natal, é um porto banhado pelo Oceano Atlântico. Além disso, o meu apelido Senghor tem origem na palavra portuguesa Senhor, tal como o nome da minha cidade natal, Joal, é igualmente um apelido português. Acresce ainda que, além de outras coisas, tenho sangue português. Last but not least, no Senegal predominam os nomes e, portanto, o sangue português, sobre os nomes e o sangue franceses. Para compreender este facto bastará ler o livro de Pélissier. Aliás, no Casamansa fala-se ainda o crioulo português como dialeto regional (…) o que René Pélissier, ou melhor, mostrar, é a originalidade da colonização portuguesa e, sobretudo, o seu carácter nem racista, nem fanático (…) O leitor europeu não ficará pouco surpreendido ao verificar isto: estas campanhas, mais exatamente estas repressões ou estas guerras são quase sempre dirigidas não tanto contra os revolucionários das cidades, os mestiços, os cristãos, até mesmo os muçulmanos, mas contra os povos animistas: os Papéis, os Balantas, os Felupes e outros Beafadas”.

Senghor considera que esta obra proporciona uma leitura apaixonante e dou-lhe toda a razão.

Na introdução, o autor explica-nos ao que vem. Primeiro, contribuir para desfazer o mito dos cinco séculos da colonização-exploração portuguesa; segundo, tentar encher um vazio no conhecimento da África Ocidental pelos francófonos, cujos historiadores, praticamente todos, cessaram as suas investigações nas fronteiras da Guiné. Sem aparentemente se aperceberem de que este enclave não só tinha uma história própria como ainda uma certa importância; terceiro, um estudo dirige-se principalmente aos guineenses para eles considerarem a resistência/colaboração dos seus avós à conquista colonial. Neste ponto, o autor é esclarecedor:

“A Guiné, entre 1841 e 1936 foi uma terra de violência, repetitiva e de uma intensidade que não foi igualada nos territórios de extensão comparável na África Ocidental: perto de três vezes mais que no Casamansa. Com 81 campanhas, expedições ou simples operações que envolveram um mínimo de cerca de 8500 soldados regulares e cerca de 42000 guerreiros e auxiliares alistados do lado português, para consolidar uma colonização que, até ao começo do século XX não sabia se não teria de fazer as malas e pôr-se a andar. Ver-se-á, ao longo do texto, que a razão essencial desta acumulação de choque está ligada com a fraqueza intrínseca do poder português que só avança verdadeiramente para o interior das guerras depois dos grandes massacres de animistas de 1913-1915”.

Nos primórdios tínhamos a Guiné de Cabo Verde (1841-1844), de cedência em cedência a presença portuguesa fica confinada à Guiné de Cabo Verde, uma fração da Guiné de Cabo Verde dos séculos XVI-XVII que começava na foz do Senegal e ia até à Serra Leoa. Esta Guiné é a dependência de Cabo Verde, um género de colónia de uma colónia, pontificam tanto no tráfico negreiro como na administração incipiente os cabo-verdianos, a despeito do tratado luso-britânico de 19 de Fevereiro de 1810 pelo qual o tráfico negreiro era proibido na Guiné.

Pélissier desvela as práticas desse tráfico e os seus protagonistas. Interpelando o que era a Guiné neste período responde:

“Em 1841-1844, a Guiné dos portugueses e dos lusitanizados é, em primeiro lugar, os rios. A isto se junta, em equilíbrio precário nas suas margens, algumas escalas mestiças que sobrevieram à concorrência estrangeira”.

 Explica quais são os limites da Guiné, a sua fronteira marítima de cerca de 450 quilómetros e tece novas considerações:

“Na prática, o problema dos portugueses do litoral, no século XIX, consistirá em fazer com que a França e a Grã-Bretanha admitam que esta costa lhe cabe sem partilhas. Ora, contrariamente a Moçambique e principalmente a Angola, que aumentarão a sua extensão, a Guiné fictícia de 1841-1844 perderá quase metade das suas margens antes de se reduzir às fronteiras que lhe conhecemos. Esta costa é disputada não só nas chancelarias como até já no terreno”.

Seguir-se-á o trabalho de interiorização, os portugueses afanosamente acabarão por criar uma verdadeira colónia. As receitas, nesta fase ainda de tutela de Cabo Verde, resumem-se aos rendimentos da alfândega de Bissau e as despesas aos soldos das guarnições e de alguns funcionários civis, bem como às raras obras de consolidação dos edifícios públicos.

René Pélissier afirma que não há conhecimento exato do comércio das feitorias e argumenta:

“Com a exceção de dois ou três navios americanos, a exclusividade da navegação lícita pertence às escunas e chalupas inglesas e francesas de Gâmbia e de Goreia, que visitam duas ou três vezes por ano, cada uma, os postos portugueses. Os produtos declaráveis são o marfim, os couros e peles, a cera, o óleo de palma, as tartarugas, algum ouro e as madeiras”.

Há um prudente silêncio sobre o tráfico negreiro. Todo o comércio se baseia na troca e nos pagamentos em espécie. Quanto à topografia político-militar, o autor refere duas capitanias-mores, a de Cacheu e a de Bissau que estão unificadas numa comarca que tem à cabeça um subperfeito, residente em Bissau, isto antes de 1842 ano em que a Guiné volta a dividir-se em dois distritos autónomos, cada um com um governador dependente do governador-geral de Cabo Verde. Os portugueses ocupam Zinguichor, de há muito cobiçada pelos franceses, há registo de um enorme esforço de Honório Pereira Barreto para suster esta presença francesa, mas o Casamansa português está num completo declínio.

Na bacia do rio Cacheu, a presença portuguesa é dada pelo presídio de Bolor, pela povoação de Cacheu e a sua antena de Farim. No rio Geba espalha-se uma série de guarnições a começar por Bissau, depois Fá, Geba e Ganjarra, quase em frente à feitoria de Geba; há uma ténue presença no Rio Grande de Buba, no arquipélago dos Bijagós a presença portuguesa ocorre em Bolama e na Ilha das Galinhas. Por esta data inicia-se a “Questão de Bolama”. Só no final do Século XIX é que os portugueses se afoitarão à região Sul, depois do acordo celebrado com os franceses em 1886. Mas a vida em Bissau é terrível, está sujeita a guerras permanentes, como se passa a descrever.

(Continua)
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 26 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10436: Notas de leitura (411): "Rumo a Fulacunda", de Rui Alexandrino Ferreira (Belarmino Sardinha)

Guiné 63/74 - P10446: A africanização na guerra colonial e as suas sequelas (Carlos Matos Gomes) (Parte I)



Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (julho de 1969 / março de 1971) >  Uma companhia indepedente, baseada em praças do recrutamento local, de etnia fula, criada em 1969.  Todos eles eram soldados de 2ª classe, com alguns arvorados, suscetíveis de virem a ser promovidos a 1ºs cabos, logo que fizessem o exame da 4ª classe... Na foto, paragem de um coluna numa tabanca fula, para gáudio dos djubis que não escondiam o seu fascínio  pelas fardas e o armamento dos seus irmâos mais velhos, e pelas viaturas em que eram transportados...

Álbum do Arlindo Roda, ex-fur mil at inf, 3º gr comb, CCAÇ 12 (1969/71). Edição e legendagem: L.G.


Foto: © Arlindo Teixeira Roda (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.


1. Mensagem de Carlos Matos Gomes, Coronel Cavalaria Reformado (escritor e historiógrafo da guerra colonial), encaminhada para o nosso Blogue por Mário Beja Santos:

Meus caros amigos
Junto vos envio um texto sobre tropas locais e africanização da guerra que é a adptação para publicação em livro do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra do texto que serviu de base a uma comunicação num seminário sobre a guerra colonial seus segredos.
Tem alguns números novos e alguns enquadramentos que julgo originais a propósito das tropas locais e do seu papel na guerra e no seu destino no pós-guerra...
Um abraço
Carlos Matos Gomes


A africanização na guerra colonial e as suas sequelas 
“Tropas Locais – Os vilões nos ventos da História”

Carlos de Matos Gomes

A administração colonial e o papel dos agentes locais 

O colonialismo português, tal como o francês e o inglês (também o alemão, enquanto durou) exerceram o seu domínio nos territórios que dividiram entre si na Conferência de Berlim (1884-1885) interpondo agentes locais entre os administradores europeus e os povos. As estruturas de contacto incluíam as autoridades tradicionais mais ou menos controladas para garantirem a fidelidade aos poderes coloniais, os elementos assimilados, que funcionavam nos níveis mais baixos da administração e das forças de segurança e forças de segurança, tanto de polícia como militares.

Quanto aos aparelhos militares, existia uma tradição de participação de africanos no exército colonial português desde a segunda metade do século dezanove, para apoiar a penetração no interior de África. O Exército colonial estava então organizado em unidades de primeira linha, constituídas por contingentes expedicionários enviados de Lisboa e por deportados e por tropas de segunda linha, com soldados recrutados localmente, mulatos e negros assimilados. Em tempo de conflitos, eram constituídas forças nativas sob o comando de chefes locais fiéis, que assumiram várias designações, entre elas a de “empacaceiros” (um termo que, curiosamente, seria recuperado durante a guerra colonial para designar as tropas regulares – “a tropa pacaça”). Estas tropas são a longínqua origem das forças africanas e alguns autores julgam que as “campanhas de pacificação” do início do século XX de Angola e de Moçambique não teriam sido possíveis sem estas tropas auxiliares, que atingiram elevadas percentagens de forças combatentes (90% em Angola), como também julgamos que a guerra colonial o não teria sido, pelo menos nos últimos anos.

A regulamentação do recrutamento destas tropas, feita em 1904, estipulava que este devia ser realizado através dos régulos. O que significou o envolvimento das autoridades locais, desde muito cedo, no processo de criação de tropas locais. Em Moçambique o recrutamento militar seguiu, aliás, os mesmos procedimentos do recrutamento para as minas do Transvaal, realizado com forte envolvimento das autoridades tradicionais. Em Moçambique, durante a guerra contra os alemães (IGG) foram incorporados 25.000 moçambicanos como soldados para combaterem no norte, o que representava 44% dos efectivos portugueses e o recrutamento a partir daí passou a ser um acto comum e regulamentado, fazendo as forças do Exército nas colónias parte do aparelho colonial e pertencendo a sua administração ao Ministério das Colónias. Após a II Guerra Mundial, durante os anos 50, ocorreu a reestruturação das forças armadas portuguesas, passando todas elas a depender do Ministério da Defesa. No Exército foram criadas as Regiões Militares de Angola e de Moçambique, os Comandos Territoriais Independentes. Na Armada, os Comandos Navais, e na Força Aérea, as Regiões e Zonas Aéreas. Foram criadas, ou reorganizadas as unidades africanas, que passaram a integrar o dispositivo militar português. Foram ainda criados pelo Exército centros de instrução de tropas em Angola (Nova Lisboa/Huambo); Moçambique (Boane) e Guiné (Bolama). Ver Quadro 2. Em 1961, ano do inicio da guerra colonial o Exército dispunha em África de unidades locais organizadas nos mesmos moldes das unidades europeias.


A africanização das forças portuguesas na guerra

A africanização das forças portuguesas começou, como vimos, muito cedo e muito antes do início da guerra colonial e processou-se seguindo o modelo das outras potências coloniais. A necessidade do recrutamento local tem a ver com razões de quantidade e de qualidade.

No caso português, as razões de quantidade são as que resultaram das crescentes dificuldades financeiras de Portugal em suportar as despesas da guerra (as tropas recrutadas localmente eram mais baratas, pois não necessitavam de ser transportadas para os Teatros de Operações e ganhavam menos) e porque supriam o défice de recrutamento metropolitano, que chegara em 1973 aos limites da sua capacidade. Em 1973, 6% da força de trabalho português estava empenhada na guerra e Portugal era o país com maior percentagem da população a cumprir obrigações militares, depois de Israel.

As razões de qualidade para a utilização de africanos como força de combate de primeira linha são as que resultam do facto do soldado africano, além de ser mais barato, se adaptar melhor do que o europeu ao terreno, se inserir nas culturas locais e avaliar por isso melhor o «estado de espírito das populações», ser mais produtivo na recolha de informações, resistir melhor às doenças tropicais. Tinha, por fim, uma vantagem política de grande importância a nível psicológico, porque a sua morte ou ferimento exercia menos impacto na opinião pública metropolitana.

Apesar destas vantagens, o processo de africanização não foi de aceitação generalizada entre a hierarquia política e militar portuguesa. Os setores mais conservadores viam nos africanos potenciais terroristas, antes de qualquer outra coisa, opuseram-se ou procuraram limitá-lo e os comandantes militares encararam o processo de africanização das forças armadas cada um segundo a sua perspetiva de emprego no respetivo teatro de operações, sem unidade de doutrina.

Convém no entanto dizer que a questão da africanização, mais do que uma questão de quantidade de homens e unidades, foi uma questão de qualidade dessas tropas e, acima de tudo da qualidade dos papéis políticos que elas desempenhavam ou estava previsto virem a desempenhar, como veremos.


Os papéis das forças e a sua organização 

A africanização das forças portuguesas assentou em três tipos de unidades:
- unidades regulares do Exército - companhias e batalhões de caçadores (infantaria), grupos de artilharia e de cavalaria; unidades de serviços, recrutadas localmente, que faziam parte do dispositivo das regiões militares de Angola e de Moçambique e comando territorial independente da Guiné.
- unidades especiais – unidades de características ofensivas e com elevada capacidade de combate, umas eram orgânicas das forças armadas, no caso do Exército, companhias e batalhões de comandos recrutados localmente; na Marinha, destacamentos de fuzileiros especiais da Guiné; outras dependiam dos governos locais, como foram o caso dos GE, dos GEP; ou de outras instituições, que não as forças armadas, caso dos Flechas da PIDE/DGS, e até forças oriundas de territórios estrangeiros, como os catangueses dos «Fiéis» e os zambianos dos «Leais». (Designaremos estas, de forma geral, por “forças especiais africanas” para facilidade e comodidade de comunicação.)
- unidades de milícias – pequenas unidades de base local, étnica/tribal, normalmente com funções de autodefesa e segurança próxima.

Estes três tipos de forças desempenharam papéis muito diferentes na guerra e sofreram tratamento diferente das novas autoridades no pós-independência. As unidades regulares faziam parte de uma tradição de serviço militar estabelecida desde o inicio da colonização e, apesar do seu incremento durante a guerra, não sofreram um impacto maior do que aquele que é produzido em situações normais de conflito. As unidades de milícia, implantadas nas regiões de origem dos seus elementos, também integravam as estruturas administrativas e não motivaram reações de violência que tivessem excedido as disputas locais.

A grande questão da violência originada pela africanização centrou-se nas “forças especiais africanas”, fossem as forças especiais orgânicas das forças armadas, comandos e fuzileiros; fossem as forças especiais constituídas no universo da administração civil, GE, GEP e «Flechas». Isto porque foi nestas que assentou a especificidade da africanização da guerra nos três teatros de operações. Essa especificidade teve a ver com a sua organização e comando, com as suas missões ofensivas, mas sobretudo com o papel político que lhes estava destinado desempenharem numa fase futura da situação colonial.

Quanto à sua organização e comando, os dois aspectos mais distintivos destas forças são a intensidade do empenhamento dos quadros europeus com as tropas africanas; e a promoção aos postos mais elevados de comando operacional de quadros africanos com base no seu mérito. O empenhamento e envolvimento de quadros portugueses europeus no comando de unidades africanas (único na história militar das potências europeias em guerras coloniais, em que europeus comandaram unidades em combate onde todos os efectivos eram africanos, em acções de alta perigosidade e em situações extremas de isolamento, incluindo o combate em territórios estrangeiros) e a promoção de militares africanos aos postos mais elevados na hierarquia das unidades operacionais tinha o óbvio significado de identificação dos quadros africanos com a política colonial portuguesa, que lhes reservava um futuro lugar de relevo.

A grande questão que estas unidades de “forças especiais africanas” levantaram e que motivaram a reação dos novos poderes instalados após as independências, foi a de elas terem conjugado a sua capacidade operacional tanto através do espírito de corpo e do respeito por valores essencialmente militares, inerentes ao profissionalismo militar como, e isso era inaceitável nas condições em que os novos dirigentes chegaram ao poder, através da identificação politico/ideológico dos seus quadros e tropas, com uma possível solução de tipo que seria considerado neocolonial. Será por este motivo que os novos poderes orientarão a sua atenção e em muitos casos a sua violência, contra estas tropas e os seus membros.

Por fim, a amplitude da africanização das forças portuguesas, atingiu proporções únicas nos conflitos coloniais. (Quadro 1)

Quadro 1 – Relação de Efetivos Metropolitanos e de Recrutamento Local


Legenda:
Ex (M) = Exército (Metrópole); Ex (RL) = Exército (Recrutamento Local); GE = (Grupos Especiais); TE = (Tropas Especiais)
Recrutamento Local – Inclui efetivos das Forças Armadas recrutados localmente e forças auxiliares locais.

Em resumo, dos cerca de 170 mil homens nos três teatros de operações, cerca de 83 mil eram de recrutamento local, o que representa aproximadamente 48%, uma percentagem que, se forem tomados em consideração os efetivos da OPVDC (Organização Provincial de Voluntários de Defesa Civil) existentes em Angola e Moçambique e as Guardas Rurais, deverá ficar muito próximo dos 50%.


As forças especiais africanas 

A dimensão destas forças e a sua tipologia foram diferentes nos três teatros, embora dentro dos mesmos princípios de emprego. Elas tomaram nomes muito variados, tantos que, à falta de designação, chegaram a ser constituídos os Grupos Muito Especiais em Moçambique. Assim e por teatro de operações, temos como forças principais (Ver Quadro 2):

Quadro 2 - Unidades de Recrutamento local



Angola

Grupos Especiais (GE) - Criados em Angola em 1968, como primeiro modelo de unidade operacional africana autónoma de base local, dependente das forças armadas. Beneficiavam de treino militar equivalente ao das tropas especiais de tipo comando. Organizados como grupos de combate e estacionados junto às companhias do exército regular, sob as ordens das quais atuavam. Constituíram uma evolução do conceito de milícias de auto-defesa, passando a ser forças de intervenção auto-organizadas e autónomas.

 Os GE angolanos foram o modelo mais popular no conceito militar colonial de tropas auxiliares, tendo chegado aos cerca de 3 000 homens, distribuídos por todo o território, sobretudo no norte e no leste.

Flechas – Criados pela PIDE/DGS, a partir de antigos guerrilheiros e de elementos das tribos Khoisan (Bosquímanos) do sul de Angola. No final da guerra ultrapassavam os 2 500 homens. Apesar da grande autonomia de emprego, dependiam operacionalmente das forças armadas.

Tropas Especiais (TE) – Surgiram em 1966, em Cabinda, quando Alexandre Tati desertou da FNLA. Os seus efectivos rondavam os 1.200 homens e atuaram especialmente contra o MPLA, em Cabinda e no norte de Angola.

Fiéis - Forças originárias do Catanga. A estratégia de criação e accionamento de tropas auxiliares autónomas foi levada ao limite, em Angola, com a criação de forças originárias em grupos dissidentes de países vizinhos, nomeadamente o Zaire e a Zâmbia. Em 1967, aproveitando a entrada no leste de Angola de grupos de gendarmes catangueses antigos apoiantes de Moisés Tchombé, que as autoridades portuguesas acolheram como refugiados políticos, foi criada, através de uma operação denominada «Fidelidade», uma força militar africana de cerca de 2 500 homens, que foi utilizada na luta contra o MPLA em troca da promessa de um futuro apoio português à luta pela “libertação” do Zaire.

Leais - Numa acção em tudo idêntica e contemporânea da dos Fiéis, embora com menores proporções, as autoridades portuguesas montaram a «Operação Colt» para formar uma força auxiliar à base de refugiados zambianos do African National Congress (ANC), que se opunham ao regime de Kenneth Kaunda. Com o nome de código de Leais, esta força actuou no leste e no sul de Angola.

Além destas forças especiais as forças armadas portuguesas dispunham em Angola de unidades de comandos, do Exército, instruídos localmente e que incluíam uma elevada percentagem de elementos recrutados no território, incluindo oficiais e sargentos.


Guiné 

Milícias – A partir das milícias de autodefesa, foi desenvolvido pelo estado-maior do general Spínola o conceito de grupos de intervenção de milícias (companhias e pelotões), já não ligados meramente à autodefesa das “tabancas”, mas operando como força étnica de intervenção, enquadrada pelo Comando Geral de Milícias, que dispunha de um centro de instrução próprio.

As forças armadas dispunham, como forças especiais, de um Batalhão de Comandos Africanos (Exército), com três companhias de comandos e de dois Destacamentos de Fuzileiros Especiais Africanos (Armada).


Moçambique

Grupos Especiais (GE) – Criados em 1970, para integrarem a operação «Nó Górdio» como forças de recrutamento local, com base étnica, semelhantes aos GE de Angola. Posteriormente foram criados os Grupos Especiais Paraquedistas (GEP), de recrutamento nacional, com sede no Dondo/Beira e que actuaram especialmente na zona de Tete.

Além destes GE e GEP, existiram ainda grupos de milícias dependentes dos governos de distrito, com funções de autodefesa, de pesquisa de informações e de patrulhamento. O mais conhecido foi o grupo de milícias do Niassa, comandado por um caçador europeu, Daniel Roxo.

Além destas forças especiais, as forças armadas dispunham em Moçambique de um Batalhão de Comandos (Exército), que passou a formar companhias de comandos de recrutamento local a partir de 1970, em Montepuez.


Conceitos de africanização nos Teatros de Operações 

A análise da africanização da guerra, em especial das tropas especiais africanas, permite verificar as diferenças estruturais que, a partir de 1970, se abrem na direcção da guerra, que até então era unitária. Os objectivos da africanização – dada a personalidade dos seus comandantes-chefe - são claramente diferentes em cada um dos teatros de operações e correspondem a projetos políticos muito distintos.

Na Guiné, Spínola procurou, a partir das experiências de milícias e explorando distinções étnicas, criar um exército africano «nacional» à imagem do exército português, estruturado em companhias agrupadas em batalhões, tendo em vista provavelmente uma futura federação de Estados de língua portuguesa. A africanização da guerra na Guiné estava ao serviço do projecto político de Spínola de uma comunidade de países e de uma federação de Estados.

Em Angola, a africanização teve como objectivo aumentar a capacidade operacional das forças portuguesas e a sua autonomia de forma a criar condições políticas e militares para atrair um dos movimentos – a UNITA – e elementos dos outros. Os Flechas serão o conceito mais específico deste tipo de tropas. A africanização tinha como objectivo político a atração de guerrilheiros e dirigentes nacionalistas, especialmente no Leste e Sudeste do território.

Finalmente, em Moçambique, apesar da grande percentagem de recrutamento local, a formação de tropas africanas autónomas não só foi mais tardia, como estas foram integradas na manobra convencional de Kaúlza de Arriaga, sem explorar todas as suas especificidades de conhecimento do terreno e de ligação às populações. Esta situação explica-se pelos conceitos táticos de Kaúlza de Arriaga, mais inclinado para a manobra clássica e por outro pela difícil relação entre as forças armadas, as autoridades civis e a PIDE/DGS, que levaram o general a resistir até ao limite à formação de «Flechas», o que só veio a acontecer por determinação de Lisboa e já no final do seu mandato.

No final da guerra, os três teatros de operações apresentavam realidades distintas, embora em todos eles fosse generalizada a utilização de forças de recrutamento local. Na Guiné prevalecia um quadro com tendência a evoluir para um conflito opondo um exército africano semelhante ao português às forças do PAIGC, portanto com nítidos contornos de conflito civil, em que a componente de forças armadas europeias seria utilizada como reserva. Em Moçambique, apesar das resistências, houve uma evolução lenta mas consistente de unidades africanas, que em 1973 tinham um papel de principal força de combate na zona de Tete, asseguravam a estabilidade na zona do Niassa e funcionavam como força supletiva na zona de Cabo Delgado. Não tinham contudo, nenhum papel político, a não ser aquele que o engenheiro Jorge Jardim para elas estabelecesse. Os GEP seriam a sua força de manobra.

Finalmente em Angola, as forças africanas foram particularmente importantes no Leste, onde se conjugaram com as forças especiais das forças armadas, comandos, paraquedistas e com as forças sul-africanas. Sem elas, em especial sem os «Flechas» e alguns GE, as forças portuguesas não teriam conseguido os sucessos operacionais que obtiveram nessa frente. Em comum, os três teatros de operações, apresentavam uma realidade onde o avanço das forças de guerrilheiros dos movimentos de libertação deparava com a oposição de dezenas de milhares de «militares locais» acionados pelas autoridades coloniais. Em 1974, quando ocorreu o 25 de Abril, a tendência da africanização das forças ia no sentido de transformar a guerra colonial em três conflitos internos nos três teatros de operações.

(Continua)