sábado, 10 de novembro de 2012

Guiné 63/74 - P10647: Estórias cabralianas (75): O alfero na Casa dos Segredos (Jorge Cabral)

 1. Mais uma "estória para desopilar da crise", diz o nosso alfero que manda um "abração" para todo o pessoal...


Estórias cabralianas < O alfero na Casa dos Segredos

por Jorge Cabral

Há mais de sessenta anos que conheço esta Leitaria. Fica na Avenida do Brasil e quando eu era miúdo havia lá uma vaca. Uma vaca em plena Lisboa…Quando conto,pensam que é estória, mas não é, a Senhora Margarida, vendia o leite produzido à vista do cliente.

Hoje já não existe vaca nenhuma e quem lá manda é a D. Celeste, por acaso nada celestial, quase sempre mal disposta. A casa tem apenas duas mesas. Numa sento-me eu, a Eulália e o Ricardo, três velhotes, por sinal bem simpáticos. A outra está sempre ocupada por jovens, rapazes e raparigas, daqueles que” curtem bué”.

A Eulália e o Ricardo são, como se dizia antigamente, da minha criação e estão ambos reformados. Ela foi Professora Universitária e em tempos até me ofereceu o livro da sua Tese de Doutoramento-“Libido e Assimetrias Testiculares”. Calhamaço que muito elogiei, mas nunca li…Ele foi Notário, meu camarada em Mafra, fez a Tropa no Museu Militar. Somos Amigos. Conversamos…E às vezes também com os jovens.

Pois um dia destes, um deles, resolveu dissertar sobre a Casa dos Segredos. O difícil que era estar encerrado lá dentro,vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas com as mesmas pessoas.A pressão, ai a pressão..

Fiquei a pensar, recordando a minha vida em Destacamentos na Guiné. À noite fui espreitar o programa na televisão.E vi os matulões e as belas raparigas.Então resolvi.Sim. Fiz uma magia e das grandes..

Mandei os matulões para Missirá de 1970 e a mim, tornado jovem, para a Casa dos Segredos. No meio de Petras, Maras, Anas, Vanessas…não sei se vou aguentar…

Ai que pressão!


Jorge Cabral

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Nota do editor:

Último poste da série > 1 de outubro de 2012 >  Guiné 63/74 - P10463: Estórias cabralianas (74): Danado para as cúpulas... (Jorge Cabral)

Guiné 63/74 - P10646: Do Ninho D'Águia até África (25): O comboio das seis e meia (Tony Borié)

1. Vigésimo quinto episódio da narrativa "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177:


Do Ninho D'Águia até África (25)

O comboio das seis e meia 

O Setúbal, cujo verdadeiro nome era Jeremias, como devem de estar recordados, e o Curvas, o tal soldado alto e refilão, que não acatava ordens e gostava de mandar, e que todos diziam devia de ser general, estes dois militares, por actos de coragem e bravura em zonas de combate, foram louvados pelo comando, em cerimónia a preceito, no centro do aquartelamento, debaixo da enorme mangueira, que por sinal tinha sido baptizada com o nome de “Mangueira do Setúbal”, a tal árvore de grande porte, onde existem as tais gaiolas de macacos e periquitos.

Isto tudo na presença de todos os militares, seus companheiros. O Setúbal foi só louvado, mas o Curvas, alto e refilão, foi louvado e agraciado com uma medalha cruz de guerra, que o comandante do comando a que o Cifra pertencia, lhe propôs e que devia de ter vindo receber a Lisboa, por altura do dia 10 de Junho, mas o Curvas, alto e refilão, recusou-se a vir a Portugal, dizendo:
- Não, vou a Portugal, pois não tenho lá família, nem amigos, nem ninguém, toda a minha família e os meus amigos estão aqui, comigo, e quando eles forem, eu também vou. Era assim o homem.

Nesta cerimónia, o comandante falou durante algum tempo, com elogios constantes ao Curvas, alto e refilão, que o escutava, contrariado, e sempre a falar baixinho, e mais tarde, questionado pelo Cifra, sobre a expressão do seu rosto, e o que estava a pensar e a murmurar, ele disse-lhe que era qualquer coisa como isto:
- Deixa-te lá de merdas e dá-me lá isso, que para mim não adianta nem atrasa, se fosse de ouro e a pudesse vender, ou se me arranjasses mas era um bom emprego, quando deixasse esta guerra, e que pudesse criar uma família, é que me ajudavas, pois eu sei que quando daqui sair, se sair vivo, vou continuar a ser um desgraçado, a carregar a caixa de engraxar sapatos, e enquanto limpo os sapatos, com o estômago quase sempre vazio, alguns pensando que são pessoas importantes, com o estômago cheio de bifes e outra iguarias, arrotam e cospem para o chão, e às vezes até me acertam, mas se isso voltar a acontecer, vou matar um, lá isso vou, e sei que vou parar à cadeia e continuar sem família, desprezado por todos. A única família que vou ter, vai ser a caixa de engraxar sapatos.

E o Cifra viu-o fechar os olhos um pouco, abrindo-os de novo, pestanejando, pois o sol batia-lhe na face, e ele disse que o seu pensamento não parava, quase que falava alto e murmurava qualquer coisa como isto:
- Anda lá comandante, dá-me lá isso, que estou cheio de sede, pois estou aqui a apanhar sol, sem necessidade.

O comandante, quando acabou os elogios, coloca-lhe a medalha, no peito, que o Curvas recebeu, mas sempre a falar baixinho, com uma cara de quem queria matar alguém. Só se riu um pouco quando viu o Trinta e Seis a chegar junto dele e abraçá-lo, e logo lhe disse:
- Estou cheio de sede, temos que ir beber qualquer coisa, deixa eles continuarem, enquanto estão aqui todos reunidos, vamos à enfermaria roubar o frasco do álcool ao “Pastilhas”, para mais tarde misturamos com água e gelo e uma azeitona salgada, que o Cifra vai trazer da messe dos sargentos.


Em seguida o comandante voltou de novo aos elogios, mas desta vez, ao Setúbal, e entre outras coisas diz:
- Homem bravo e com coragem, arriscou a vida para salvar os seus companheiros, debaixo de fogo, lutou, sem virar a cara às balas, bendita a nação que tem filhos destes, blá, blá, blá.

O Setúbal, envergonhado com tantos elogios, olhava o Cifra, tentando piscar o olho e abanar a cabeça, em sinal de desconforto, ao mesmo tempo que pensava, pelo menos foi o que disse depois ao Cifra, qualquer coisa como isto:
- Nação que tem filhos destes, alto lá, pára lá com isso, eu sou filho da minha mãe, pelo menos era ela que me dava de comer e me criou, quando era pequeno.

Afinal o Cifra tem razão quando diz que disseram à mãe dele que ele já não era seu filho, mas sim filho da nação. Quando o comandante acabou de falar, todos bateram palmas e, já com a cerimónia acabada, o Setúbal, tal como tinha antes combinado com o Cifra, depois de fazer a respectiva continência, pondo-se em posição de sentido, dirigiu-se ao comandante, na frente de todos, mais ou menos com estas palavras.
- Meu comandante, se me dá licença, com todo o respeito, queria pedir-lhe se podia ter como prémio, além de todos estes elogios, uma pequena licença de umas semanas e uma possível viagem a Portugal, nos aviões da Força Aérea. Esses aviões por sinal andavam sempre cheios com as famílias de militares importantes, principalmente esposas. Era isto que interessava ao Setúbal, pois queria pedir a namorada em casamento, estar com ela e com os pais. O comandante, na frente de todos, acedeu. E disse que ia pedir à Força Aérea um lugar e que quando houvesse vaga, lhe comunicaria.

Que alegria! Passadas umas semanas, o Setúbal pede ao Cifra para lhe cuidar do seu macaco e do periquito, pede-lhe umas calças e uma camisa, de roupa civil, que lhe ficavam a matar e que ao Cifra eram largas, com umas botas nos pés, que já conheciam o som do rebentamento de granadas de morteiro e de uma metralhadora, e tinham visto por diversas vezes a cor do sangue, alguns mortos em combate, vem para Portugal.

Quando regressou, em conversa normal, pois por muito tempo a conversa entre os dois era só a sua viagem a Portugal, que por vezes chegava a pormenores, em que o Cifra lhe dizia:
- Isso são coisas que só tu e a tua noiva devem saber, portanto cala-te.

Mas ele às vezes insistia e talvez querendo desabafar, dizia:
- Mas a minha mãe desconfia, eu conheço-a e sei ler o seu pensamento, pelo menos na despedida no aeroporto, ela percebeu tudo. Mas continuando com a história, disse ao Cifra que foi o último a entrar no avião e que viajou com o saco do exército, com alguns trapos, sempre em cima dos joelhos, pois o avião ia cheio com as tais pessoas importantes, principalmente senhoras, ia quase urinando nas calças, pois só teve oportunidade de ir uma vez ao quarto de banho, pois ia nos últimos lugares, e as senhoras, parece que combinadas, iam fumar, algumas, fumavam cigarros de cheiro agradável, arranjar o cabelo e as pinturas, e entregavam o quarto de banho, umas às outras.

Em Portugal, entre outras coisas, pediu a mão da namorada em casamento aos pais e talvez mais qualquer coisa, que ele às vezes queria confessar, mas o Cifra não lhe dava oportunidade de falar nesse assunto, fizeram uma grande festa, mostrou algumas fotografias, convive com a família e amigos, anda durante esse tempo, numa vida de herói e depois de fazer tudo o que entendia que devia de ser feito, vem para o aeroporto, com a namorada, que nessa altura já era noiva, a abraçá-lo, não o largando, beijando-o em tudo o que era face, e não só, chorando e sempre que o beijava nos lábios, fazia-o comer alguma baba e ranho, mas era baba e ranho, com sabor a sal e de amor, disso tinha ele a certeza, prometendo-lhe sempre que o esperava, que não só ela, nas suas orações, também a Nossa Senhora de Fátima o iam proteger, pois o senhor Prior todos os domingos iria mencionar o seu nome e de outros combatentes na missa, na altura do Espírito Santo. Quando ele já ia a caminho do avião, ela olha-o e num último suspiro, quase que grita:
- Até breve meu amor, já sou tua e continuarei a ser.

A mãe do Setúbal, ao ouvir isto, não conteve um desabafo e quase em surdina, diz:
- Eu já sabia, minha grande p..., ai, que nem quero mencionar o nome que ia para dizer, que o Santíssimo que está no céu me perdoe e salve a minha alma.

Mas logo em seguida, pega num lenço, que também servia de porta moedas, pois era lá que enrolava os seus míseros trocados, limpando os olhos chorosos, o nariz e a boca, retoma o seu pensamento e diz baixinho:
- Meu Deus, o que eu ia para dizer, pois ela vai ser a minha nora, mas a verdade é que é uma grande descarada, a mãe nunca teve mão nela, era só bailes e festas, e o meu filho todo contente atrás dela nem teve tempo para mim, pois na companhia dela sentia-se livre e andava sempre contente, porque lá na África andou sempre a dar o corpo às balas. Andavam sempre juntos, oxalá não esteja prenha, mas se estiver, logo que a criança venha perfeita, é meio caminho andado, e logo que o meu filho, regresse vivo.

Bem, mas continuando, a mãe, deu-lhe uma saca com alguma coisa para comer, do que ele guardou parte, para dar ao Cifra e regressa ao cenário de guerra, com uns quilos a mais, uma cor de pele diferente, cheio de boas maneiras. O Curvas, alto e refilão, na sua reles linguagem, dizia:
- O Setúbal, regressou um pouco “amaricado”.

A primeira pessoa que vai ver é sem dúvida o seu amigo Cifra. Dá-lhe um forte abraço, e puxando do jornal, que trazia consigo, diz:
- Oh pá, o teu comboio descarrilou, lê este jornal.

No “Primeiro de Janeiro” vinha tudo explicado, com fotografia e tudo. O Cifra, imediatamente reconheceu a locomotiva, ao fundo da encosta. Era a 1135, estava de lado, e duas carruagens a acompanharem-na pela encosta a cima. O seu pai e alguns vizinhos, seus conhecidos, também estavam na fotografia. O Cifra, passou a mão pela fotografia do jornal, com os olhos fechados e o pensamento bem longe, pois o acidente ocorreu a umas centenas de metros da casa onde nasceu o Cifra, que nessa altura se chamava To d’Agar, na aldeia do vale do Ninho d’Aguia, quando o comboio das seis e meia descia, apitando aflito, em direcção ao mar. Naquela encosta, quando criança, o Cifra, que naquela altura se chamava To d’Agar, andava por ali na companhia dos seus irmãos e alguns amigos, que entre outras coisas procuravam ninhos de melro e rouxinol, nas silvas e arbustos em volta do ribeiro que passava ao fundo do vale, e de rola e perdiz, nas terras mais altas.

OBS: - Ilustrações de Tony Borié
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10627: Do Ninho D'Águia até África (24): O nosso Cabo Reis (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P10645: Estórias do Gabu (7): O soldado básico que um dia se passou para o lado do inimigo...

Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Nova Lamego > CCS do BCAÇ 2893 (1969/71) > Do lado direito, o Tino Neves, 1º Cabo Escriturário, e do lado esquerdo o soldado básico, cozinheiro, A..., em serviço de PU - Polícia da Unidade. O António (nome fictício), acusado justa ou injustamente de ser amigo do alheio, acabou por fugir para o PAIGC...

Este texto esteve para ser publicado em abril de 2007 (, chegou a ser editado sob o nº 1645,  e devia inaugurar a série Estórias do Gabu)  (*). Por razões editoriais, ficou em "stand by". Fomos há dias recuperá-lo, que só vem provar que na nossa Tabanca Grande "nada se perde, tudo se transforma"...  Afinal, é a história de um "desertor", contada por um camarada que com ele privou e conviveu... (LG)

Foto: © Tino Neves (2007). Direitos reservados.


1. Texto enviado pelo nosso camarada Constantino  (ou Tino) Neves, ex- 1º Cabo Escriturário da CCS do BCAÇ 2893 (Nova Lamego, 1969/71):

Conheci em tempos um camarada nosso que, em Nova Lamego, desertou para o PAIGC. Não me compete fazer juízos de valor sobre o seu comportamento.

Trata-se do soldado auxiliar de cozinheiro A..., de que mando foto, em que está marcado com uma seta a branco [Por razões óbvias, não queremos identificá-lo]... A foto foi tirada no salão do Cinema de Nova Lamego, numa festa de variedades, em que actuava uma cantora vinda da Metrópole, do Seixal, e eu estava de Cabo de Dia. Como o Furriel destinado à Polícia da Unidade (PU) se tinha baldado, o Oficial de Dia, o Capitão, Comandante da CCS, mandou-me substituir o Furriel, e assim aproveitei para ir assistir às variedades.

O soldado A... já era velhinho (de 1966), e fora mobilizado para a Guiné, por castigo, pelo vício que tinha - dizia-se ! -  de se "apropriar do alheio", vício de que não se curou, tendo assaltado um dia, aliás uma noite, a Sala do Soldado e roubado 20.000$00 [, vinte contos,], que era bastante dinheiro na altura.

Em Fevereiro de 1970 foi punido com 10 dias de prisão disciplinar agravada e em Março de 1970 novamente com mais 10 dias de prisão disciplinar agravada, referente ao mesmo delito, dados por Bafatá.

E,  em face disso, nós dizíamos-lhe que ele iria apanhar 20 anos, 1 ano por cada conto roubado, quando a Ordem de Serviço (O.S.) chegasse ao General Spínola. O pobre coitado acreditou, de tal maneira que pediu a um elemento civil, a trabalhar no quartel (velho), nas limpezas, para que o ajudasse a fugir e que o levasse para junto do PAIGC. O pedido foi aceite, e ele fugiu.

Mais tarde, em alguns ataques, foram deixados nos locais de onde nos atacavam, vários papéis supostamente escritos pela mão do soldado A..., a solicitar para que fizéssemos o mesmo, que seríamos bem recebidos, como ele, que estava muito satisfeito, porque agora ele era o cozinheiro de serviço dos guerrilheiros.

Também havia relatos de que, em várias emboscadas, chegaram a ouvir ex-militares portugueses a gritar do outro lado, dizendo o seu nome, posto e nº mecanográfico, e que se entregassem, porque estávamos do lado errado.

Portanto, o soldado básico A... não fugiu por motivos políticos, mas sim por medo à prisão. Isto é o que eu presumo. De qualquer modo, era uma situação diferente da de outros, desertores ou refractários, que, na metropóle, arriscaram a fuga nos Altos Pirinéus e a possibilidade de serem capturados ou mesmo alvejados pela polícia.

Um Abraço
Tino Neves

2.  Comentário do editor:

Tino:  O teu camarada A..., soldado básico,  seria apenas um "pobre diabo", como se percebe pela tua versão dos acontecimentos.  Não sei se  ainda é vivo e tem família, amigos, vizinhos, se vive algures em Portugal, e até se poderá vir a ter conhecimento deste poste... Espero bem que sim, que esteja vivo e de boa saúde.

Como sabes, o nosso blogue não é nenhum tribunal (muito menos  militar). E não faz  justiça, muito menos por suas mãos. Como qualquer um de nós que passou pelo TO da Guiné,  o teu camarada A... tem o direito ao bom nome e reputação, tem direito à imagem, tem direito à reserva da intimidade da vida privada e familiar, de acordo com o nº 1 do art. 26º da Constituição da República Portuguesa... Tem direito a defender-se, se for caso disso. Daí tu e eu não o termos identificado. E mais:  termos retocado a foto que nos mandaste... De qualquer modo, presumimos este caso seja público e notório, podendo toda a gente da tua CCS corroborar, confirmar ou infirmar a tua versão dos factos. Sabes disso, e por isso também não pode ser posta em causa a tua boa fé.

Lembras-te que esta história teve uma vida atribulada no blogue. Devia a estória do Gabu nº 1. Não o foi. Mas achamos que deve ser publicada, ao fim destes anos, apenas com um título diferente daquele que tinhas sugerido. Será a nº 7.  Quero que saibas que tens jeito e talento para contar estas histórias de caserna, passadas na "tua" Nova Lamega. Obrigado pela tua colaboração. Ficamos à espera de mais.
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Nota do editor:

Último poste da série > 13 de junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1844: Estórias do Gabu (6): Já chegámos à Madeira, ou quê ?! (Tino Neves)

Guiné 63/74 - P10644: Parabéns a você (492): António Garcia de Matos, ex-Alf Mil da CCAÇ 2790 (Guiné, 1970/72)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 9 de Novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10639: Parabéns a você (491): António da Costa Maria, ex-Fur Mil Cav do Esq Rec Fox 2640 (Guiné, 1969/71) e Ernesto Ribeiro, ex-1.º Cabo da CART 2330 (Guiné, 1968/69)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Guiné 63/74 - P10643: Manuel Serôdio, ex-fur mil CCAÇ 1787 (Empada, Buba, Bissau, Quinhamel, 1967/68) (Parte V): O subsetor de Empada

1. Continuação do texto de Manuel Serôdio sobre a história da sua CCAÇ 1787:


Alguns dados sobre Empada, Gubia e Ualada

(i) Empada

- Empada é uma sede do posto administrativo do Cubisseco, tendo aproximadamente uma população de 3000 habitantes.

- Quase todas as etnias  da província estão representadas em Empada, embora a maioria sejam Beafadas. As outras etnias são os Manjacos, Fulas, Mandingas, Bijagós, Balantas e Mancanhos.

- A grande parte da população dedica-se à agricultura. As outras atividades são a caça e a pesca.

- Cultiva-se o arroz, a mancarra, o milho, o feijão, o fundo e pouco mais.

- Pesca-se a bicuda, a tainha, o barbo, a corvina, e muitas outras espécies.

- A caça é muito abundante na zona, principalmente na época das queimadas. As espécies mais vulgares são o porco de mato, a gazela, a cabra de mato e o sim-sim

- A povoação de Empada encontra-se toda dentro do arame farpado, com abrigos em toda a volta, que são defendidos em conjunto por civis e militares.

- Quase todas as famílias têm o seu abrigo junto à tabanca, onde se recolhem durante os ataques.

(ii) Ualada

- Ualada era uma tabanca junto à bolanha do mesmo nome, e junto à qual existiu um destacamento defendido por 2 grupos de combate. Tendo o destacamento sido abandonado e destruido pelas nossas tropas, a população de Ualada, refugiou-se em Empada.

(iii) Gubia

- O destacamento de Gubia, foi construído com a finalidade de atrair para o nosso lado a população daquela zona inteiramente controlada pelo inimigo. Era totalmente constituído por casernas abrigo, defendido por 3 grupos de combate.

Por ter sido decidido não haver vantagem, foi o destacamento de Gubia destruido e evacuado pelas nossas tropas. Durante a permanência das nossas tropas na zona de Gubia, foram recuperados vários elementos da raça Mancanha, que posteriormente foram viver para Empada.


Atividade desenvolvida pela unidade no subsetor de Empada

1968
Janeiro


- Picagem e patrulhamentos diários às estradas para o cais, Ualada e à pista de aterragem.

- Segurança aos aviões e barcos que demandaram Empada.

Fevereiro


- Picagem e patrulhamento diários às estradas para o cais, Ualada e à pista de aterragem.

- Segurança aos aviões e barcos que demandaram Empada.

- Patrulha ofensiva contra um grupo inimigo detetado pela população civil que se encontrava a trabalhar na bolanha. A força que saiu, estabeleceu contato com o inimigo, que vinha armado com pistolas metrelhadoras e lança-roquetes. Imediatamente outra força saiu do quartel, além de muitos elementos da população que correu para o local de contato, sem no entanto terem chegado a atuar, pois o inimigo pôs-se em fuga.

Março

- Picagem e patrulhamento às estradas para o cais, Ualada e à pista de aterragem.

- Segurança aos aviões e barcos que demadaram Empada.

- Operação "Pedal"

Situação:

- O inimigo desloca-se com frequência à zona de Missirá-Buduco, com o fim de patrulhar a área e emboscar as nossas tropas.

Missão:

- Patrulhar a zona, verificar o estado da estrada até ao cruzamento de Buduco, verificar a localização habitual dos canhões sem recuo e morteiros de 82 do inimigo, possibilidades de armadilhamento, e o estado da mina anti-pessoal montada pelas nossas tropas em Cancumba Beafada.

Forças executantes

- 1 grupo de combate da Companhia 1787

- 1 grupo de combate da Companhia de Milícias n° 6

Sem contato.


Operação "Tentativa"

Missão:

- Patrulhar a região entre Cancumba Beafada e o cruzamento de Caur, a corta mato, procurando encontrar vestígios da passagem do inimigo. Verificar no respetivo cruzamento, quais os pontos mais favoráveis, não só ao inimigo para montagem de emboscadas às nossas tropas que utilizem o itenerário Empada-Gubia, como também os pontos mais favoráveis às nossas tropas, por forma a montarem emboscadas a elementos inimigos que pretendam atuar no referido itenerário, a partir da penísula da Pobreza.

Deitar fôgo ao capim que se encontra altíssimo, de modo a dificultar o inimigo na montagem de emboscadas às nossas tropas.

Forças executantes:

- 1 grupo de combate da Companhia 1787

- 1 grupo de combate da Companhia de Milícias n°6

Sem contato

Operação "Liga"

Missão:

- Operação destinada a proceder à rendição de 1 grupo e combate da Companhia 1791 e de 1 grupo de combate da Companhia de Milícias n°6

Forças executantes:

- Destacamento A: 1 grupo de combate da Companhia 1787

1 grupo de combate da Companhia 1791

1 grupo de combate da Companhia de Milícias n° 6

- Destacamento B: 1 grupo de combate da Companhia 1787

1 grupo de combate da Companhia de Milícias n° 6

- Destacamento C: 1 grupo de combate da Companhia 1787

- Destacamento D: 1 grupo de combate da Companhia 1787

A rendição processou-se sem incidentes


Operação "Querubim"

Situação:

- A tripulação do navio "Formosa" avistou um grupo não identificado superior a 50 elementos na área da península defendida por Buduco, Bricama, Gã-Chiquinho, Formoso Curto e Bisauzinho, a qual hà muito não é patrulhada pelas nossas tropas.

Missão:

- Patrulhar a área e reconhecer o terreno, com especial atenção para os prováveis locais de desembarque. Em caso de encontro com o inimigo, aniquilá-lo.

Forças executantes:

- 1 grupo de combate da Companhia 1787

- 1 grupo de combate da Companhia 1791

- 2 grupos de combate da Companhoa de Milícias n°6

Sem contato nem vetígios.

Emboscada realizada por forças do destacamento de Gubia em 27 de Março
Forças executantes:

- 1 grupo de combate da Companhia 1787

- 1 grupo de combate da Companhia de Milícias n° 6

Montada a emboscada pelas 3 horas da madrugada, cerca de 1 hora depois, revelou-se 1 grupo inimigo, com o efetivo entre 15 e 20 elementos, vindos da direção de Caunto, todos eles armados, trazendo 2 elementos mais destacados, que foram eliminados. O inimigo reagiu imediatamente, travando-se intenso tiroteio de cerca de dez minutos, após o que o inimigo retirou. Ao amanhecer foi efetuada uma batida pela nossas tropas. O inimigo sofreu 4 baixas confirmadas e mais baixas prováveis.

Foram capturadas

- 1 espingarda Mosinagant
- 20 granadas de canhão sem recuo
- 5 granadas de morteiro 82
- 5 granadas de lança granadas foguête
- 1 carregador de metrelhadora ligeira Degtariev
- 1 carregador de pistola metrelhadora Sudayev
- 1 carregador de espingarda Kalashnicov
- 1 bornal
- 100 cartuchos

Sem incidentes para as nossas tropas.

Durante uma patrulha efetuada na região de Pedingal-Lala (Gubia), foi detetada e destruida no local, uma mina anti-pessoal.

Abril


- Picagem e patrulhamento às estradas para o cais, Ualada e à pista de aterragem

- Segurança aos aviões e barcos que demandaram Empada.


Operação "Quaresma"

Operação destinada à rendição de 1 grupo de combate da Companhia 1787 e de 1 grupo de combate da Companhia de Milícias n° 6 no destacamento de Gubia.

Forças executantes:

- 4 grupos de combate da Companhia 1787

- 3 grupos de combate da Companhia de Milícias n° 6

Sem incidentes

Maio

Operação "Quimera"

Situação:

- a Companhia possui 1 destacamento em Gubia. Torna-se necessário render 1 grupo de combate da Companhia 1787, e 1 grupo de combate da Companhia de Milícias n° 6 naquele destacamento. Em 13 de Maio, 1 grupo inimigo não estimado, efetuou fôgo de reconhecimento na região do cruzamento Caur, e de seguida lançou 3 granadas de morteiro de 60 na direção de Empada.

Missão:

- bater a área do cruzamento Caur, e atuar ofensivamente sobre os elementos inimigos que se revelassem.

- montar emboscadas próximo do referido cruzamento, por força a criar insegurança ao inimigo.

- patrulhar o itenerário Empada-Gubia.

- proceder à rendição.

Forças executantes:

- 2 grupos de combate da Companhia 1787

- 4 grupos de combate da Companhia de Milícias n° 6

Nas proximidades da estrada que conduz à Pobreza, foi avistado ao longe 1 grupo inimigo de 8 a 10 elementos. Tentou-se a aproximação, mas fomos detetados. Foram lançadas 2 secções em sua perseguição durante cerca de 500 metros, mas suspenderam a mesma, por não haver possibilidades de sucesso. Feita uma batida de sul para norte, constatou-se que o grupo inimigo estivera emboscado no cruzamento de Caur. Processaram-se em seguida os movimentos necessários à rendição sem mais incidentes.
Operação "Queimadura"

Situação:

- a Companhia possui un destacamento em Ualada, que tem sido flagelado com uma certa frequência do lado de Aidará, embora por pouco tempo, e com armas ligeiras.

- a península de Faracunda, hà muito que não é patrulhada, e torna-se necessário verificar as cambanças possíveis da bolanha de Aidará.

Missão:

- patrulhar ofensivamente a área entre Empada e Faracunda Balanta, e montar neste último local, uma rede de emboscadas.

Forças executantes:

- 1 grupo de combate da Companhia 1787

- 1 grupo de combate da Companhia 1791

- 2 grupos de combate da Companhia de Milícias n° 6

Sem contato nem vestígios.

(Continua)
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Nota do editor:

Último poste da série > Guiné 63/74 - P10612: Manuel Serôdio, ex-fur mil CCAÇ 1787 (Empada, Buba, Bissau, Quinhamel, 1967/68) (Parte IV): As Nossas Tropas

Guiné 63/74 - P10642: Agenda cultural (233): Cabo Verde, ilha de Santiago: 20 º Festival Sete Sois Sete Luas, sábado e domingo, na mítica Cidade Velha de Santiado, património mundial da humanidade




1. Notícia transcrita, com a devida vénia, do jornal Liberal 'on li ne', de 8 do corrente:


CADA DIA DO SETE SÓIS SETE LUAS VAI TER 7 AGRUPAMENTOS

Com o número sete em agenda, a cidade Património Mundial associa-se (respeitando a sua cabalística) ao certame que tem por Presidente Honorário o Chefe de Estado. O Largo do Pelourinho volta a encher nas duas intensas noites do certame – 10 e 11 de Novembro

Cidade Velha, 8 de Novembro 2012 - São sete os grupos que, adequadamente, vão subir ao palco do Largo do Pelourinho, Cidade Velha, quer no dia 10, sábado, quer no dia 11, domingo, para animar a XX edição do Festival Sete Sóis Sete Luas: é esta a maneira da cidade Património Mundial se associar (e respeitar a sua cabalística) ao certame que tem por Presidente Honorário o Chefe de Estado.

Assim, no sábado, apresentam-se dois grupos de batuco (Nós Eransa e um agrupamento de Tarrafal de Santiago), seguindo-se o animadíssimo agrupamento teatral vindo do País Basco (Espanha), Deabru Betzak, que durante uma hora fará vibrar as ruas do Berço da Nação. Depois, desfilam Primitivi e Banda Larga (especialmente vindos da Praia e da Calheta de S. Miguel). Será a vez de se fazer ouvir o cearense forró de Culá de Xá (Brasil) para a já avançada noite encerrar com Sumara.

No dia seguinte, domingo, o espetáculo abre (às 16h30) com o excelente teatro cabo-verdiano: é o muito popular Tikay, já que este ano teatro e música cruzam-se no Sete Sóis Sete Luas. Depois, ouve-se de novo o arrepiante som do batuco, com agrupamentos de Chã Gonçalves e de Santa Cruz, a que se soma um espetáculo com uma das mais recentes revelações de Cabo Verde, Carlos. Bob entra no palco antes do muito especial som trazido de Portugal por Melech Mechaya, culminando o Festival com chave de ouro - o violino de Nho Nani. (**)
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Notas do editor:

Último poste da série > 9 de novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10641: Agenda cultural (232): Lançamento do livro Jaime Neves, por Rui de Azevedo Teixeira, dia 25 de Novembro de 2012, em Lisboa (Maria Teresa Almeida)

(*) Sobre a Cidade Velha de Santiago:

(....) "A Cidade Velha localiza-se no concelho da Ribeira Grande de Santiago, a 15 quilômetros a oeste da Praia, na costa de Cabo Verde. Constitui-se na primeira cidade construída pelos europeus nos trópicos e na primeira capital do arquipélago de Cabo Verde. Foi primitivamente denominada como Ribeira Grande, vindo a mudar de nome para evitar ambiguidade com a povoação homónima, na ilha de Santo Antão.

"A 10 de junho de 2009 foi classificada como uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo. Devido à sua história, manifestada por um valiosos património arquitetónico, a 26 de junho do mesmo ano foi classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade" (...) (Fonte: Wikipédia)

(...) "As Maravilhas de Portugal no Mundo - Cidade Velha de Santiago, Cabo Verde: 13 Mai, 2009, 11:06

"A RTP está este mês a mostrar-lhe as maravilhas portuguesas no mundo. Em Cabo Verde, a poucos quilómetros da Praia, fica a Cidade Velha de Santiago, a primeira cidade portuguesa a sul do Saara. Esta cidade teve um papel fundamental no desenvolvimento do comércio mundial e na navegação de longo curso, tendo sido importante para o aprovisionamento de navios e um entreposto de escravos." (...) (Fonte: RTP. Vd. vídeo aqui)


(**) Que honra a tradição de Nho Travadinha!...Cabo Verde é terra de grandes músicos, autodidatas, de enorme talento, que sobreviveram a tudo (ao isolamento, às incursões dos piratas, à seca, à fome, à pobreza...), gente brava de um povo, nosso irmão, como esse fabuloso Travadinha, e cujo som o João Graça (n. 1984) dos Melech Mechaya bebeu com o leite materno... Ainda no tempo dos discos de vinil, que se tocavam lá em casa...

Para mim, o Travadinha (1937-1987) é um dos expoentes máximos da "alma" de Cabo Verde... Infelizmente morreu cedo de mais... Hoje seria um artista com projeção mundial. Foi em 1981, quando veio pela primeira vez a Lisboa, tocar, que o seu talento, o seu virtuosismo, ultrapassou as pequenas fronteiras. Memorável é o seu disco Travadinha no Hot Club (gravado ao vivo em 1982) e editado em 1992. Caros amigos e camaradas, deliciem-ase com este "Maria Barba" (disponível no You Tube), e que é um dos temas do diso de 1992.

Ouçam, por fim,  o seu violino a "chorar" em  Papa Joaquim Paris, um tema tradicional que a Cesária Évora imortalizou.

Guiné 63/74 - P10641: Agenda cultural (232): Lançamento do livro Jaime Neves, por Rui de Azevedo Teixeira, dia 25 de Novembro de 2012, em Lisboa (Maria Teresa Almeida)

1. Mensagem da nossa amiga Maria Teresa Almeida, da Liga dos Combatentes, com data de 8 de Novembro de 2012, com pedido de publicação do convite para a apresentação do livro "Jaime Neves" por Rui de Azevedo Teixeira:

Bom Dia, meu Estimado Combatente Sr. Carlos Vinhal
Venho mais uma vez solicitar, se possível, e se assim o entender, a divulgação do Livro JAIME NEVES, conforme consta do convite, que junto envio.

Dia 25 de Novembro, pelas 17h00, na FNAC do CC Colombo. 
Apresentam o livro o Sr. General Ramalho Eanes e o cineasta António-Pedro Vasconcelos.

Com o meu abraço de imensa gratidão
Maria Teresa Almeida


C O N V I T E

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 8 de Novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10638: Agenda cultural (231): VISITAS GUIADAS Exp. Álbum de Memórias - Índia Portuguesa 1954.1962

Guiné 63/74 - P10640: Notas de leitura (427): "África Misteriosa", de Julião Quintinha (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Agosto de 2012:

Queridos amigos,
Julião Quintinha foi premiado no Concurso de Literatura Colonial de 1928. Já publicara “Oiro Africano”, depois “Derrocada do Império Vátua e Mouzinho de Albuquerque”, logo a seguir veio esta “África Misteriosa”, mas não ficou por aqui.
Era criticado por ser imoral nas suas descrições, razão pela qual os seus livros estavam desaconselhados a senhoras, censurado pelas descrições de pretos e pretas nus e de porte lascivo e dissolvente.
Revela-se nestas páginas embriagado por mercados bizarros, moças seminuas e até por uma rapariga fula, limpa de pele doirada que lhe veio trazer um púcaro de barro e cujos seios pareciam invertidas taças moldadas e brunidas em ouro rosado…

Um abraço do
Mário


África misteriosa – A Guiné, por Julião Quintinha

Beja Santos

Julião Quintinha foi nome sonante do jornalismo e publicou um conjunto de obras entre a reportagem, as crónicas de viagem, as novelas e os opúsculos. Republicano e maçom, iria enfileirar na oposição a partir da ditadura, o seu nome aparecerá associado a candidaturas oposicionistas, como a de Humberto Delgado.

Em finais dos anos 20, permitiu-se a uma longa ausência para deambular pelas colónias da África Portuguesa. “África Misteriosa” é produto dessa longa deambulação. Quintinha tem uma escrita impressiva, lúbrica, politicamente contumaz, provocando e ajudando à reflexão. Saiu do cais de Alcântara, passou pela Madeira, deliciou-se a contar o que era a vida a bordo, percorreu pontos importantes de Cabo Verde e após 3 dias e 3 noites a bordo do “Congo” chegou à Guiné. Chegou inquieto, talvez não refeito do susto, houvera três noites de água e vendaval, agora era uma aragem quente, o piloto atento ao lodo desde a ponta de Caió, entrando pelo canal do Geba conduzido pela barca do piloto, assim descrito: “Um Neptuno negro de grande capacete e maior aparato, que conduz o navio ladeando os bancos de Arlette, São Martinho, Gambia, marcados a boias iluminadas”. É posto em terra por quatro remadores manjacos e descreve assim o encontro com a cidade: “Nas ruas sujas de Bissau cruzam os hercúleos Papéis, com cara e brincos de mulher, lenços berrantes toucando a carapinha e um farrapo à cinta maculando a escultural nudez. Correm, aos pulos, balantas, maliciosos ladrões, numa nudez obscena e de gorra vermelha. E arrastam-se preguiçosamente, os mandingas, intrujões e mercadores, rojando seus mantos árabes”. Não sabemos baseado em que dados mas Julião Quintinha fala em 12 raças, refere fulas de óculos, turbante e bules de cobre para as oblações, a cidade rescende a pântanos lodosos, tem qualquer coisa de gravura de jornal antigo.

O repórter passeia-se, parece que o estamos a ver a sair do cais do Pidjiquiti e a entrar na área hoje correspondente ao Bissau Velho: “Às portas dos bizarros estabelecimentos flutuam tecidos estrangeiros, sobre alpendres, os alfaiates fulas, cosem, à máquina, grandes peças da sua indumentária”. Ficamos igualmente a saber que estão ali à venda mel, frutos, mancarra, pãezinhos de arroz, mariscos, bacalhau podre, bolinhos de coco, carne com varejas e cola, mas também os mandingas vendem missangas e contas de mil cores, pulseiras e manilhas, cola e torrões de açúcar. Muita gente se passeia sob guarda-sol e anota: “Têm a paixão dos chapéus-de-sol, dos molhos de chave à cinta, cordas a tiracolo, búzios ao pescoço, lenços vistosos na cabeça, tudo ronco”. Um jovem mandinga pergunta a Julião Quintinha se na sua terra também há pretos e se a polícia dava porrada. O jornalista dirige-se para a Amura e encontra à porta a sentinela descalça e pilhas de granadas e não resiste a um toque de exotismo ou feitiço africano: “Ao largo cai uma lua triste no Ilhéu dos Feiticeiros, envolvendo as árvores sagradas onde os Papéis celebravam funerais aos seus chefes e ainda hoje, na lua de Março, as suas ceitas realizam os grandes ritos”. Então desabafa: "Só há pouco começamos a cumprir aqui a nossa missão colonizadora. Fizemos nestes cinco séculos de ocupação”. Está dado o mote para introduzir o descobrimento da Guiné, o negócio dos escravos, referindo mesmo que em 1690 a companhia de Cacheu e Cabo Verde fora autorizada a introduzir na Nova Espanha 10 mil toneladas de negros. Quanto a povoações, havia a registar Ponte da Cruz, nas margens do Buba e São Filipe no Cacheu, mais tarde Geba e Farim. Bissau era um palpável documento do desleixo nacional. Bolama era de recente data e nada depunha a favor do seu passado. Acresce que 500 anos não tinham chegado para uma pacificação que permitisse a europeus e indígenas trabalho e progressivo e consolador e assim remata: “Um vasto continente rebelde, selvagem, minado de febre, sem dinheiro, sem ordem, sem administração – eis a Guiné de há 20 anos”. Considera positiva a demolição das velhas e inúteis muralhas de Bissau, foi o ponto de partida para a expansão e o saneamento da cidade. Falando do capitão Teixeira Pinto, refere-o como o herói da pacificação do território, dizendo mesmo “Não encontrei nestas terras nome português venerado com mais carinho”.

O repórter vai viajar fora de Bissau, atravessam o Impernal e vão até Mansoa. Não se cansa de salientar a nudez dos corpos, corpos bronzeados e luzidios. De Mansoa vão até Farim, passam pela tabanca de Cutia e almoçam em Banjara, diz ele que sob um sol doente. Após uma viagem de cinco horas, já com as pupilas fatigadas da insistência monótona da sinfonia verde, chegam a Bafatá e, não sabemos quem lhe deu a informação, diz ser povoação vizinha do Senegal. É uma descrição colorida, impetuosa, é um discurso dos cinco sentidos. Ele tem ali uma entrevista com Vasco Calvete de Magalhães e falará também com Samba-Li, régulo de Bafatá, grande amigo dos portugueses, tenente de segunda linha, mas logo acrescenta que o maior chefe indígena da Guiné é Monjur, régulo do Gabu, com 70 anos, 100 mulheres e 5 mil cabeças de gado.

A próxima incursão será Bolama, com amplas praças, ruas alinhadas, sente-se um ambiente simpático de renovação. É singelo a anotar tudo quanto ouviu do governador, técnicos, colonos e funcionários: “Na Guiné ainda há muitíssimo que fazer, mas ela está bastante longe daquele pessimismo que a considerava uma zona de morte”. O haver muitíssimo que fazer é indispensável para melhorar a vida de 1 milhão (onde é que Julião Quintinha foi buscar este número?) de indígenas, havendo a deplorar que o problema sanitário está muito de se considerar resolvido, que é só a indústria estrangeira a abastecer os mercados e que faltam medidas de fomento. A Guiné é rica, ele não se cansa de observar. E o navio vai largar, ele despede-se de Bolama à luz dos relâmpagos de uma colossal trovoada. Em Bissau, Julião Quintinha tomará o “Guiné” para rumar até São Tomé e Príncipe.

Não podemos ficar insensíveis ao que é dito implícito e explicitamente. A Guiné está a dar os seus primeiros passos como território pacificado e digna de ser tratada como Guiné Portuguesa.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 5 de Novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10621: Notas de leitura (426): O meu serviço cívico na Guiné, em 1991 (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P10639: Parabéns a você (491): António da Costa Maria, ex-Fur Mil Cav do Esq Rec Fox 2640 (Guiné, 1969/71) e Ernesto Ribeiro, ex-1.º Cabo da CART 2330 (Guiné, 1968/69)

Um abraço especial do editor de serviço para estes dois aniversariantes em Leça da Palmeira
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10624: Parabéns a você (490): Jorge Cabral, ex-Alf Mil Art.ª, CMDT do Pel Caç Nat 63 (Guiné, 1969/71)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Guiné 63/74 - P10638: Agenda cultural (231): VISITAS GUIADAS Exp. Álbum de Memórias - Índia Portuguesa 1954.1962


1.  Recebemos o seguinte pedido de publicação enviado pela Sra. Maria Cecília Cameira (Sala de exposições Padrão dos Descobrimentos):

Exmos. Senhores, agradecemos a divulgação das visitas guiadas à exposição Álbum de Memórias Índia Portuguesa / Scrapook of Memories Portuguese India, 1954.1962, para o mês de Novembro.

Com os melhores cumprimentos,
Maria Cecília Cameira 


ÁLBUM DE MEMÓRIAS – ÍNDIA PORTUGUESA
SCRAPBOOK OF MEMORIES – PORTUGUESE INDIA
1954.1962

Padrão dos Descobrimentos
Visitas Guiadas – Novembro 2012

11 NOVEMBRO, 11.00PRISIONEIROS DA MEMÓRIA HISTÓRICA
PATRÍCIA OLIVEIRA – OP

11 NOVEMBRO, 15.30PRISIONEIROS NUM MUNDO EM MUDANÇA
BRUNO BERNARDES – OP

18 NOVEMBRO, 11.00PRISIONEIROS DAS POLÍTICAS DE ESTADO
TERESA FURTADO – OP

25 NOVEMBRO, 15.30PRISIONEIROS DAS CULTURAS CRUZADAS
ANA FILIPA GUARDIÃO – OP

As visitas deverão ser previamente marcadas e estão sujeitas a confirmação

Preço: 03.00€
Reduções: Professores; Estudantes; Membros da Associação Nacional dos Prisioneiros de Guerra; Membros do Observatório Político

Inscrições:
T. 213 031 950

Padrão dos Descobrimentos | Egeac, E.E.M.
Av. Brasília, 1400-038 Lisboa
Tel. 213 031 950 | Fax. 213 031 957

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Nota de MR:

Vd. último poste desta série em:

8 DE NOVEMBRO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10636: Agenda cultural (230): Lançamento do livro "Sobreviventes", de Lúcia Gonçalves e Cristina Freitas, dia 15 de Novembro de 2012, no Auditório Prof. Alexandre Moreira - Hospital de Santo António, Porto

Guiné 63/74 - P10637: Blogpoesia (305): África... (J. L. Mendes Gomes)



Guiné > Região de Tombali > Iemberém > 9 de dezembro de 2009 > 18h51 > O anoitecer no Cantanhez.

Fotos: © João Graça (2009). Todos os direitos reservados.


Escrito ao som de My African Dream- Kimi Scota

África das selvas e das pradarias, 

Sem fim... Das altas serras nevadas, 
Te canto, enfim.

Quero unir-te. 
Nesta terra de negros brancos,
E de brancos e negros,
Onde os rios escorrem do centro,
Para poente e oriente,
Para o norte e para o sul,
No centro, 
Estamos todos contigo,
África,
Todos somos África.
Acabem as guerras, irmãos,
deem as mãos,
Entreguem os corações 
E sejamos para sempre
Os irmãos que nasceram irmãos,
Filhos desta África
De negros e de brancos,
De brancos e negros,
Que importa a cor,
Se temos o mesmo coração,
A bater por África,
Uni-vos, africanos,
Filhos desta terra verde,
Cantemos sempre África
De negros e de brancos,
De brancos e negros,
Africanos de coração!...

Ovar, 26 de Agosto de 2012, 9h1m

Joaquim Luís M. Mendes Gomes


Guiné 63/74 - P10636: Agenda cultural (230): Lançamento do livro "Sobreviventes", de Lúcia Gonçalves e Cristina Freitas, dia 15 de Novembro de 2012, no Auditório Prof. Alexandre Moreira - Hospital de Santo António, Porto

1. Mensagem de Cristina Freitas, jornalista da SIC, Porto,  enviada ao Blogue no dia 6 de Novembro de 2012:

Caro Sr. Luís Graça,

Gostava muito de contar com a sua presença na apresentação do livro "Sobreviventes", no qual sou co-autora.

Em anexo, pode consultar toda a informação necessária, mas pode marcar já na agenda: é dia 15 de Novembro, quinta-feira, pelas 18h30.

O livro é uma adaptação de seis reportagens emitidas na SIC no ano passado, numa rubrica do Jornal da Noite com o mesmo nome. Uma delas conta a história dos prisioneiros de Conacri [, um deles, o António da Silva Batista], que é agora transcrita para livro. (*)

O “Sobreviventes” já está nas bancas, pode encontrá-lo na Fnac ou nas grandes superfícies.

Espero contar com a sua presença!
Obrigada e cumprimentos,
Cristina Freitas

PS - As reportagens do “Sobreviventes” podem ser vistas ou revistas aqui:
http://videos.sapo.pt/sic/play/258

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 4 de Novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10616: Agenda cultural (229): O Festival Sete Sois Sete Luas, na sua 20ª edição, de 4 a 11 de Novembro, em Cabo Verde... Arranca hoje com os portugueses Melech Mechaya na Ilha do Fogo


(*) Vd. poste de 22 de outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8936: Agenda cultural (167): Programa Sobreviventes: reportagem sobre os ex-prisioneiros portugueses do PAIGC em Conacri, entre 1971 e 1974... SIC, 2ª feira, 21h (Cristina Freitas)

(...) Comentário de L.G.:

O nosso blogue pode e deve ser uma fonte de informação e conhecimento para a comunidade, mais alargada, a quer pertencemos, desde os investigadores aos jornalistas. Congratulamo-nos pelo facto de histórias de "sobrevivência" como as do António Baptista ou do José António  Almeida Rodrigues possam chegar ao conhecimento do grande público, através da televisão.

Tarde de mais ? Espero bem que não: programas como este não servem apenas um propósito de entretenimento, resultam de um trabalho de jornalismo de investigação. Vamos ver, na 2ª feira, a seriedade e a qualidade do trabalho da Cristina Freitas, desejando que o jornalismo televisivo possa também, de algum modo, ajudar à reparação, pelo menos moral, de um dívida que a sociedade portuguesa tem em relação a todos os antigos combatentes da guerra colonial/guerra do ultramar, em geral, e àqueles de nós que conheceram a amargura da prisão, em especial. Embora a guerra colonial (e a neste a caso a prisão em território inimigo) seja aqui vista apenas como mais uma situação limite, se não mesmo um fait divers. (...)

Guiné 63/74 - P10635: História da CCAÇ 2679 (56): A evacuação insólita (José Manuel M. Dinis)

1. Mensagem do nosso camarada José Manuel Matos Dinis (ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), com data de 5 de Novembro de 2012:

Carlos,
Aqui te envio o relato de um episódio relativo aos feitos e gandes perigos que enfrentei na Guiné.
Não fiquei para a história registado como herói, mas tive direito a férias na capital provincial durante 25 dias, e fui sempre muito bem tratado.
Podia ter sido melhor? Pois podia, mas naquele tempo ainda a expressão da publicidade não tinha sonoridade, pelo que não é plausível qualquer comparação. Foi o que foi, e safei-me.

Para ti e para o Tabancal, vai aquele abraço.
JD


HISTÓRIA DA CCAÇ 2679 (56)

 A EVACUAÇÃO INSÓLITA

No largo da parada em frente ao meu quarto ouvia-se a agitação costumeira aos dias de coluna a Nova Lamego, designação que a acção colonial e civilizadora atribuiu à povoação de Gabú, um lugar que nem pelo clima, nem pelo relevo, nem pelas tradições, nem pela gastronomia tinha comparação com a velha Lamego, a nossa, a da Beira-Alta. Por vicissitudes a que a situação de guerra não era alheia, Nova Lamego tornou-se um local de passagem obrigatória para os movimentos rodoviários do leste mais leste da Guiné. Portanto, naquele dia o destino traçara essa viagem para o Foxtrot.

Depois das formalidades do embarque, que correspondiam ao enchimento de viaturas com sacos de artigos agrícolas, ou panos costurados, alguidares, galinhas e cabritos, numa panóplia de negócio ou oferenda a familiares distantes, seguiam-se as formalidades do desembarque, pois o capitão Trapinhos havia determinado a sua desresponsabilização pelo transporte de civis, e cá o rapaz, medroso das consequências de eventual acidente com algum daqueles cidadãos, para não cair sob a judiciosa alçada da "psico" mandava-os descer e remover as mercadorias. Havia uma resistência inicial que quebrava com dois berros mais determinados com valor de lei vigente. Após estas diligências e uma verificação geral ao pessoal e viaturas, o deslocamento iniciava a marcha.
Até Pirada a estrada já estava picada, e dali para Nova Lamego, a picagem era da responsabilidade de Pirada. Por isso, era quase sempre a abrir, e atingia-se a vertiginosa média de 40 quilómetros por hora.

No Gabú, destinavam-se tarefas e eu apresentava-me a um major insignificante que uma vez se pegou com o meu atavio de militar pouco cuidado, uma estória já aqui contada, das que servia para moralizar certas patentes nos seus "munús" disciplinadores. Depois de uma ronda pelos bares para confraternização com eventuais conhecidos, por norma dirigia-me ao restaurante na saída para Sónaco, onde se servia um excelente coelho ou gato guisado. Servido quentinho, com o molho a acusar a malagueta, acompanhava com duas ou três cervejas frescas, que o regresso ainda correspondia a mais de uma hora sob sol torrencial.

Algures depois do cruzamento de Sónaco para Pirada havia uma pequeníssima represa onde algumas mulheres marcavam presença a ensaboar e a lavar panos. A inquietude dos corpos que trabalhavam dentro de água, mais o escasso sabão utilizado, agitavam e misturavam a água quimicamente alterada com areias e lodos postos em circulação. Eu sabia disso. Mas a água quente do cantil já se esgotara sempre que chegava àquele lugar. Parava a coluna e dava o mau exemplo: pegava numa cabaça, enchia-a do líquido alterado, e bebia... bebia grande quantidade até me saciar da sede horrível. Depois, até Bajocunda, era outra vez a andar, que os corpos reclamavam por mais cervejinha.

Tomava um merecido banho, e deixava-me a ver a maré das horas até ao limite do jantar. Durante esse período havia sempre conversas animadas, maledicência, invenções sobre situações improváveis da nossa passagem por África, assentavam-se uns aperitivos e, porque na Guiné anoitece e amanhece cedo, a maioria deitava-se para sonos repousantes. Mas havia meninos que ainda exercitavam a chulice de uma cartada, pretexto para o vencedor, ou os vencedores, pagarem uma rodada de boas-noites. Quando me deitei, recusei o convite para integrar uma partida que se desenrolava no meu quarto. Estava cansado e com sono, tchau!

Adormeci profundamente e alheado do ambiente. Subitamente, porém, e meio inconsciente, comecei aos saltos na cama com tremendas dores no corpo que me tiravam a vontade de viver. Chamaram o Vítor que, sempre prestável, quis saber do que me queixava, do que tinha comido, enfim, feito coscuvilheiro a querer saber da vida alheia. Devo ter respondido disparatadamente enquanto pedia morfina para acalmar. O meu ar devia ser de desespero, pois todos se inquietavam com o que viam, e com a impossibilidade de descansarem perto deste impaciente. O Vítor aproximou-se de agulha em riste, qual cavaleiro de uma ordem de poderosos vencedores, e, enquanto afinfava na nádega, dizia, confortando-me, que depois daquela merda eu ia dormir que nem um anjo. Qual quê? Ainda levei mais três ou quatro picadelas por via das dúvidas, mais para limpar a consciência do que inteirado sobre os resultados, e só suspendeu o tratamento quando alguém lhe disse que, por aquele caminho, ainda me matava pela cura.

O eficaz Marino já tinha pedido uma dessas evacuações que não podem acontecer durante a noite, que passei em brados de dor. Quando o DO se soltou da pista de Bajocunda, eu ainda me contorcia com o sofrimento. Fosse por que fosse, quando cheguei a Bissau já me sentia porreiro. Subi para uma viatura que me levou ao HM. A quem fazia a triagem queixei-me de nada, apenas referi as lembranças de uma noite de insónia. Despojado da roupa verde, fizeram-me entrar como vim ao mundo numa sala logo à mão de semear, a SO, um local amplo, com oito camas, artificialmente fresco, onde me colocaram na última do lado da entrada, a que estava vaga. Uma enfermeira e um médico voltaram a seguir para recolha de elementos para análise.

 HM 241 de Bissau

Era um local de desgraças, com vítimas da guerra ou de acidentes, todos muito mal tratados, a maioria a aguardar evacuação para Lisboa. Que me lembre, só falei com o da frente, que estaria com um problema de coluna, aparentemente condenado a uma cadeira. Os restantes, sedados, emitiam uns esgares quando a droga se tornava insuficiente e acordavam. Eu era o único que estava ali a aguardar resultados, sem dores, com o corpinho preservado, quase sentia vergonha dos restantes. Ao terceiro dia chegou o veredicto: sofria de uma amibíase. As amibas entraram no organismo e alimentaram-se de glóbulos vermelhos, pelo que urgia reequilibrar e tonificar o metabolismo.

Transitei para o primeiro andar, e fiquei no primeiro quarto, cuja varanda sobressaía sobre a porta principal, e tinha como companheiro o médico de Piche, que se batia a uma hepatite. Tomava mata-bichinhos, alimentava-me do que quisesse, e ainda tinha um suplemento diário de sumos italianos e frutas sul-africanas, que só não sobrava, porque outros ajudavam-me à extinção de stocks.

Quase diariamente havia visitas das senhoras do MNF ou da CV. Por norma eu e o médico íamos para a varanda dando ar ostensivo de desdém perante as visitas. Às vezes tínhamos a sorte de encontrar sobre as camas uns maços de tabaco, umas santinhas, ou outras coisas de utilidade premente. Mas entre os utentes do HP faziam-se reuniões de camaradagem. Logo nos primeiros dias da minha hospedagem apareceu um furriel piriquito que tinha sucessivos ataques de asma. Então, depois do horário normal de trabalho, com o pessoal em número reduzido, os fumadores juntavam-se em redor dele e conspurcavam o ar até que acontecesse um daqueles ataques, e quando já estava a dar sinais de grande aflição, corríamos em busca do médico de serviço para tratar da ocorrência. Em poucos dias foi evacuado. No quarto ao lado aconteceu um óbito consternante: o de um sargento da marinha que não resistiu a uma operação ao sistema cardio-vascular, e foi já à porta do quarto que alguém se atravessou perante a esposa que ali ia em visita. Outra ocorrência de relevo, foi o internamento do comandante militar de Bissau, o célebre onze, que era conhecido pelas suas façanhas nas guerras da cidade, e que as complementava no ambiente doméstico. Constava-se. Mas do que me lembro, é que ocupou um quarto que dava para trás, e mantinha duas sentinelas permanentes à porta do quarto, no corredor, de onde anunciavam as visitas que à tarde iam prestar vassalagem e batiam os calcanhares no lajedo.

Em 1971 a psiquiatria debatia-se numa espécie de selecção ariana. No HP havia um psiquiatra que ganhou má fama. Por um lado constava-se que aos utentes do mato que se apresentavam com bom ar, batia-lhes para ter a certeza de que não voltariam se estivessem no seu juízo, constava-se; por outro, assisti a dois casos de morte lenta: um soldado que teria encontrado o pai e a mulher envolvidos, e tê-los-ia morto; outro, um furriel do contra, desertor, que teria sido vítima da PIDE antes de embarcar para a Guiné. Eram dois casos de amedrontar. Dizia-se que levavam injecções de muitos centímetros cúbicos, que os deixavam abananados por dois dias. Mas nos outros dias já não conseguiam manter frases completas, e não revelavam nexo de raciocínio, enquanto o olhar perdido e desinteressado parecia um testemunho complementar. Parecia-me que estavam sujeitos a tratamentos criminosos, mas ali o psiquiatra zelava pela Pátria, e os que no mato faziam a guerra, não deviam saber de casos bem sucedidos por consultas daquele ramo.

Um dia aperaltei-me com a farda número dois e fui a pé para a cidade. Cheguei cansado ao Pelicano, mas banqueteei-me soberanamente. Deambulei pela cidade. Quando decidi regressar ao HM, sempre a pé, fui interceptado por uma patrulha da PM constituída por um furriel e uma praça. Adiantou-se o furriel e pediu-me a identificação. Tomou nota de elementos e quando me devolveu os documentos, pedi-lhe a identificação, e esferográfica para anotar. Surpreendido, perguntou-me para que queria os elementos, ao que lhe respondi com a mesma interrogação. Disse que os meus sapatos não eram da ordem. Pois não, não eram, mas eu ia participar dele por não ter cumprimentado militar e educadamente um superior. O piriquito desfez-se em desculpas, que não tinha reparado, e propôs que esquecêssemos a situação. Ainda o fiz sofrer pela arrogância do encontro, não por me apanhar em falta. Depois cada um seguiu o seu caminho. Valera-me a antiguidade.

Ao vigésimo quinto dia veio o médico conversar comigo porque, se estava estabelecido que com aqueles dias de baixa hospitalar o paciente deveria ser evacuado para Lisboa, no meu caso tal evacuação não se justificava, mas propunha-me protecção pelo prolongamento da hospitalização por mais alguns dias. Compreendi que poderia beneficiar da oferta generosa, mas já estava "cansado" do HM, e com saudades e preocupações sobre o pelotão. Pedi alta. Poucos dias depois já alinhava nos caminhos do nordeste. À minha chegada o pessoal gozou bravamente comigo por ter passado 3 períodos de férias em tão curto espaço de tempo. Invejosos!

P.S. solicita-se aos interessados no encontro do dia 15 da Magnífica Tabanca da Linha, que façam as marcações com a brevidade possível.
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 29 de Outubro de 2012 > Guiné 63/74 - P10592: História da CCAÇ 2679 (55): A mina do acaso - Pauleiro, o feeling do combatente (José Manuel M. Dinis)

Guiné 63/74 - P10634: Álbum fotográfico de Armindo Batata, ex-comandante do Pel Caç Nat 51 (Guileje e Cufar, 1969/70) (10): "Outros locais": Catió, Bedanda, Cufar...


Foto nº 68 > Parece ser a pista de Cufar...


Foto nº 69 > Pista de Cufar...


Foto nº 70 > Catió


Foto nº 72 > Catió


Foto nº 78 > Desconhecido [, Cufar ?]



Foto nº 79 > Desconhecido [, Cufar ?]




Foto nº 80 > Desconhecido [, O nosso camaradas José Vermelho diz que esta parece-me ser uma vista aérea de Bedanda: (i) na parte inferior da foto, a edificação mais comprida era o refeitório das praças; (ii) 
o meio, estão duas árvores paralelas, mais altas, que faziam um género de "portal de entrada" para esta parte das instalações; (iii) junto dessas duas árvores, está outra edificação comprida, onde eram os quartos, a messe e bar de oficiais e messe de sargentos; (iv) a edificação pequena que está junta, era o bar de sargentos; (v) os furrieis, cabos e soldados metropolitanos, dormiam nos abrigos; (vi) para cima e um pouco à esquerda das mesmas árvores há dois edificios: o de telhado mais escuro era a enfermaria e o outro era a secretaria; (vii) A picada que se vê sair para a direita levava ao destacamento (pelotão) e ao "porto" junto ao rio].



Foto nº 81 > Desconhecido [, Cufar ?]


Foto nº 82 > Desconhecido [Cufar ?]


Guiné > Região de Tombali > Catié e Cufar >  c. 1970 > Mais fotos  do álbum do Armindo Batata, ex-alf mil, comandante do Pel Caç Nat 51 que esteve em Guileje (desde janeiro de 1969) e depois em Cufar (1970, provavelmente, cerca de 9 meses).   Em Dezembro 1969/Janeiro 1970 estave em Cacine, vindo de Gadamael, em LDM, "em trânsito para Cufar". Ficaram "uns dias em Cacine",  antes de prosseguirem viagem, também em LDM, para Catió.

(...) "Catió tinha uma estação de correios com telefone para a metrópole, um restaurante daqueles em que se come e no fim se pede a conta e se paga. E pessoas brancas sem serem militares. Um espanto!

"O plano inicial era os dois pelotões [, os Pel Caç Nat 51 e 67, este comandado pelo alf mil Esteves,] deslocarem-se por estrada de Catió para Cufar. Esse percurso já não era utilizado há bastante tempo (meses?) e foi considerado de risco muito elevado. Não me lembro dos argumentos avançados, mas acabámos por ir para Cufar por rio (LDM com desembarque em Impugueda no rio Cumbijã ou sintex/zebro com desembarque em Cantone? - não tenho a certeza, pode ser que alguém de mais fresca memória se lembre)!".  (*)

Estas fotos fazem parte de um lote de largas dezenas, cedidas pelo Armindo Batata ao Núcleo Museológico Memória de Guiledje.  Não tinham legendas, estando distribuídas por 4 grupos: (i) Guleje, (ii) Cacine (Dez 69); (iii) Cufar e (iv) Outros locais. As fotos que hoje reproduzimos, pertencem a este último grupo. Umas foram tiradas em Catió e outras em Cufar. Mas precisamos de ajuda do próprio e dos camaradas que conheceram Catió e Catió, para completar a sua legendagem.

Fotos: © Armindo Batata (2007) /  AD - Acção para o Desenvolvimento. Todos os direitos reservados [Fotos editadas por L.G.]

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Guiné 63/74 - P10633: Ser solidário (138): Festa de S. Martinho no Centro Social de Runa, dia 10 de Novembro de 2012 (José Martins)

1. Em mensagem do dia 30 de Outubro de 2012, o nosso camarada José Marcelino Martins (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), enviou-nos este convite para participar no S. Martinho do Centro Social de Rua.


C O N V I T E

C A S R u n a

Como “as coisas” começam sempre por “qualquer coisa”, este texto começa por um mail:

“Boa tarde meus amigos. 
De hoje a um mês comemora-se o S. Martinho. A castanha assada, o porco no espeto, o belo arraial saloio,... tudo isso vai acontecer em Runa, bem no coração do oeste, por isso não se atrasem, o programa vai em anexo. 
Vamos antecipar o S. Martinho num dia, vai ser no dia 10 (sábado) mas o santo não se vai zangar. Tragam muito apetite, boa disposição, familiares e amigos. 
Comparativamente ao programa do ano anterior, há a registar que o fado foi trocado por música para dançar. 
Tentem enviar as inscrições o mais rapidamente possível, porque se prevê que antes de terminar o prazo, tenhamos de suspender as inscrições, aliás, como em anos anteriores.


Para quem não conhece a localização do CASRuna aqui fica: 

a) Quem é de GPS: 39º 04' 23,36" N; 9º 12' 33,97" O 
b) Quem não se fia no GPS: Apanha a A8 onde estiver mais a jeito, em principio Loures, se vierem pela CREL; Seguem 20 e tal km e saem da A8 na saída 8, que é a saída do lado Norte de Torres Vedras; Cerca de 2 km depois da portagem, encontram a primeira rotunda, seguem pela 2ª saída para N248/N9, na direcção de Alenquer/Merceana, CASRuna; Seguem cerca de 4,5 km e voltam à direita para a N248, vêem logo o edifício do CASRuna à vossa esquerda, a entrada fica a cerca de 500mts, tocam no botão do vídeo porteiro, dizem que vão para o S. Martinho, entram e estacionam no parque que fica à vossa esquerda. 
c) Quem não se fia nas duas primeiras modalidades, interroga a população indígena e pergunta onde fica o Centro de Apoio Social de Runa, ou, no caso do indígena já ser maior de 30 anos, perguntam onde é o asilo dos veteranos militares de Runa. 
d) Se nenhuma das anteriores resultar ligam para o 917 685 237, informam da vossa localização no momento e seguem as instruções indicadas pelo utilizador desse número. 

Com os melhores cumprimentos, 
Idelberto Eleutério”


E, já agora, para os que estiverem presentes, os nossos votos de uma boa festa de São Martinho, celebrando o “Militar que se tornou Santo”, por ajudar os outros (ver) [http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2011/11/guine-6374-p9023-patronos-e-padroeiros.html]

Anexo, da parte da Luís Graça, havia um desafia: Zé: Queres fazer um, dois em um”? Dá uma vista de olhos a este sítio... LG

Pois bem.
Fomos ao “arquivo” recuperar o texto “Que muitas Runas se levantem”, escrito há já algum tempo, recordando os muitos sem abrigo que existem neste país, e transcrevemos parte:
[http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2010/01/guine-6374-p5734-ser-solidario-53-que.html]

“Guiné 63/74 - P5734: Ser solidário (53): Que muitas Runas se levantem (José Martins)
Publicado em 31 de Janeiro de 2010 - Domingo

Que muitas RUNAS se levantem!
Lar dos Veteranos Militares

Porquê RUNA [coordenadas 39º03’55” N - 9º12’32” O], aquela pequena localidade com 6,71 kms² e pouco mais de mil habitantes, situada a 8 km de Torres Vedras, a cujo concelho pertence?
Vamos encontrar a resposta, ou melhor, encontrar o seu início no ano de 1827, quando Portugal saía (?) dum período bastante conturbado:

- As Invasões Francesas ou Guerra Peninsular, entre 1807 e 1811, com toda a destruição do estado de guerra ou destruição táctica, e
- A mobilização de portugueses, e a consequente saída do país, integrando a Legião Portuguesa.
Em Runa ficava localizada uma quinta, propriedade da infanta D. Maria Francisca Benedita de Bragança, nascida em 25 de Julho de 1746, quarta e última filha do Rei D. José I e de D. Mariana Vitória de Espanha, que foi baptizada na Sé Patriarcal de Lisboa pelo Cardeal D. Tomás de Almeida. A título de curiosidade, e de acordo com a tradição, a princesa recebeu o nome de Maria Francisca Benedita Ana Isabel Antónia Lourença Inácia Gertrudes Rita Joana Rosa.
Em 21 de Fevereiro de 1777, com trinta anos, contraiu casamento com o seu sobrinho D. José, Príncipe da Beira, e presumível herdeiro da coroa, passando D. Maria Benedita a ser nora de sua irmã D. Maria, que ascenderia a rainha em Março seguinte, com o nome de D. Maria I. Entre os esponsais havia uma diferença de idade de quinze anos. Não tiveram filhos, vindo D. José a morrer, prematuramente, em 1788, após onze anos de casamento, tendo D. Maria Francisca ficado conhecida como a Princesa-viúva. Iniciou um longo período de luto. Senhora inteligente, com dotes artísticos [existe um painel na Basílica da Estrela, pintado de parceria com a sua irmã D. Maria Ana] e de uma cultura rara, poderia ter gasto o seu próprio dinheiro com a construção de uma igreja ou de um convento, o que lhe traria prestigio entre os nobres e o reconhecimento dos clérigos, mas assim não procedeu. 

Lar Militar de Runa (IASFA) 
© Foto Wiquipédia

A 27 de Junho de 1799, sob o projecto do arquitecto José da Costa e Silva, são iniciadas as obras do Lar dos Veteranos Militares, destinado a acolher militares pobres e inválidos, pelo que também é conhecido por Asilo de Inválidos Militares de Runa.
O edifício no estilo neoclássico da época, cuja construção custou mais de seiscentos contos de reis, tem uma frente de 99 metros, orientada no sentido Norte/Sul, com 61 metros de fundo e uma altura de 13 metros. Ao centro do edifício foi construída a igreja de uma nave e transepto rematado em semicírculo, sendo o conjunto dominado por uma cúpula. Foi inaugurado em 25 de Julho de 1827, quando D. Maria Francisca comemorava o seu octogésimo primeiro aniversário, tendo destinado neste conjunto uma ala para sua residência, ficando conhecidos como “Aposentos da Rainha”.
No acto da inauguração ficaram as palavras da sua fundadora: “Estimo ter podido concluir o Hospital que mandei construir para descansardes dos vosso honrosos trabalhos. Em recompensa só vos peço a paz e o temor a Deus ".
D. Maria Francisca de Bragança morreu em Lisboa no dia 18 de Agosto de 1829, tendo sido sepultada no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, junto do seu marido, D. José, em singelas arcas tumulares.
Actualmente o edifício é propriedade do Ministério da Defesa Nacional, e é dirigido pelo Instituto de Acção Social das Forças Armadas.”



O Hugo Guerra. Meu “contemporâneo na Guiné”, remeteu ao blogue um comentário que foi publicado em [http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2010/02/guine-6374-p5786-os-ex-miliares-sem.html]:

“Em mensagem do dia 4 de Fevereiro de 2010, o nosso camarada Hugo Guerra* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 55 e Pel Caç Nat 60, Gandembel, Ponte Balana, Chamarra e S. Domingos, 1968/70, e que hoje é Coronel, DFA, na reforma), enviou-nos este esclarecimento a propósito do poste Guiné 63/74 - P5734: Ser solidário (53): Que muitas Runas se levantem (José Martins):

Caros Editores e camaradas
Não consegui enviar uma mensagem para o Poste do José Martins sobre o assunto do Lar de Runa e do apoio a camaradas sem-abrigo de modo que, tomo a liberdade de esclarecer alguns pontos que me parecem importantes. Vocês dirão.

O Lar Militar de Runa é uma estrutura do Ministério da Defesa entregue ao IASFA (Instituto de Acção Social das Forças Armadas) fazendo parte do conjunto de Messes desse Instituto e serve exclusivamente para a “Família Militar”. Os Governos estão-se nas tintas para a vontade dos fundadores e dispõem a seu belo prazer ou interesse imediato, de tudo a que podem deitar a mão. Logo, os nossos camaradas sem-abrigo que não podem ser beneficiários, por não serem militares ou DFA’s não têm acesso ao mesmo.

Todavia e, por outro lado, todos podem ser assistidos pela Liga dos Combatentes que em boa hora criou e está a desenvolver no terreno um projecto de apoio a estes camaradas, o qual passa por despistagem e apoio concreto em termos de consultas e alimentação, preparando-se agora para a Criação de Residências Assistidas, tendo até criado uma conta bancária para este efeito.
Tudo isto pode ser visto no site da Liga dos Combatentes pelo que não me alargo com mais explicações.

Só me custa, é ver que quando isto estiver a funcionar em pleno, já estaremos todos a fazer tijolo, passe a expressão, e mais uma vez iremos ver que, de boas vontades está o inferno cheio.

Quero com este arrazoado dizer que, havendo este trabalho a ser desenvolvido não me parece curial estarmos a tomar iniciativas paralelas com eventual desperdício de boas vontades, tempo e dinheiro. Seria talvez mais ajustado apoiar o trabalho já desenvolvido e pressionar, se for o caso, a Liga para dar resposta em tempo útil e as residências não virem a dar resposta a ex-combatentes de uma próxima estúpida guerra.

Hugo Guerra”


Não sei se este texto contempla a ideia inicial do Luís Graça, mas julgo que era dar uma ideia do que é o Centro de Apoio Social de Runa, além da notícia da festa que vai acontecer naquela instituição.

Como nota final damos algumas datas “históricas” do IASFA, numa simbiose dos sites http://novoadamastor.blogspot.pt/2012/10/o-assalto-ao-iasfa.html” e http://www.iasfa.pt/runa.html”;

“Quem somos? Por força do Decreto Lei nº 284/95 de 30 de Outubro [alterado pelo DL 215/2009 de 4 de Setembro e, posteriormente pelo DL 193/2012 de 23 de Agosto], o Instituto de Acção Social das Forças Armadas passou a integrar numa única entidade os Serviços Sociais das Forças Armadas, o Cofre de Previdência das Forças Armadas, o Lar de Veteranos Militares, o Complexo Social de Oeiras e o Complexo Social do Alfeite.”

Algumas datas e marcos temporais:

- 1792 Início da construção do Hospital Real dos Inválidos Militares em Runa, Uma ideia notável para a época e com muito poucos exemplos idênticos em todo o mundo. As invasões francesas foram a principal causa da derrapagem temporal das obras;
- 1827 Abertura do Hospital Real dos Inválidos Militares
- 1844 Asilo dos Inválidos da Marinha
- 1925 Cofre de Previdência dos Oficiais do Exército Metropolitano
- 1927 Cofre de Previdência dos Sargentos de Terra e Mar
- 1948 Comissão Administrativa de Casas de Renda Económica
- 1950 Acção Social da Armada (ASA)
- 1956 Obra Social do Exército e Aeronáutica (OSEA)
- 1958 Serviços Sociais das Forças Armadas (SSFA), por fusão da Acção Social da Armada e a Obra Social do Exército e Aeronáutica;
- 1959 Cofre de Previdência das Forças Armadas (CPFA)
- 1995 Instituto de Acção Social das Forças Armadas, que passa a integrar os Serviços Sociais das Forças Armadas e o Cofre de Previdência das Forças Armadas.

Sendo a maioria dos leitores deste blogue “não militares”, ou “ex-militares do Quadro de Complemento, na disponibilidade” nada impede que se conheça, minimamente, a Acção Social dos nossos Camaradas de Armas que fazem parte do Quadro Permanente.

José Marcelino Martins
30 de Outubro de 2012
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 26 de Setembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10440: Ser solidário (137): Benjamim Durães, presidente da direção do núcleo de Setúbal da Liga dos Combatentes, sugere a trasladação das ossadas do cor inf Costa Campos para o talhão dos combatentes de Sesimbra ou de Setúbal