sábado, 15 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10806: Memória dos lugares (201). Bambadinca e o seu fontenário de 1948 (José Carlos Lopes / Humberto Reis / Libério Lopes / Luís Graça)




Guiné > Zona leste > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > O fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, José Carlos Lopes no cimo da famosa fonte de Bambadinca... Poucos fotógrafos deram contam  deste monumento... E, no entanto, milhares de homens em armas passaram ao seu lado... É uma construção dos anos 40 (conforme inscrição, visível na foto: 1948). Já aqui falámos desta fonte em poste anterior (*).

Foto: © José Carlos Lopes  (2012). Todos os direitos reservados


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambadinca > 1996: A fonte de Bambadinca. Quando o Humberto Reis voltou à Guiné, em viagem de negócios e de saudade, passou por Bambadinca e tirou esta chapa. A fonte ainda estava lá, e - o mais importante - funcionava!... E continua a lá estar, mais de 60 anos depois da sua construção: veja-se no Google Earth!...



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista (parcial) da tabanca de Bambadinca, com o Rio Geba ao fundo. Em primeiro plano, contígua ao arame farpado, a casa e o estabelecimento comercial do Rendeiro, um dos poucos colonos portugueses que conhecemos na Guiné, em 1969/71.




Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > 1970 > Entrada principal, pelo lado leste (sentido Bafatá), do aquartelamento. O fontenário está sinalizado com um círculo a vermelho, ficava a uns 100 metros da casa e estabelecimento comercial do Rendeiro.



Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista aérea da tabanca de Bambadinca, tirada no sentido sul-norte. Em primeiro plano, a saída (lado leste) do aquartelamento, ligando à estrada (alcatroada) Bambadinca-Bafatá. Este troço que ladeada o "morro" de  Bambadinca, fazia a ligação com a estrada, em conmstrução, Bambadinca-Xime (que será posteriormente asfaltada, em 1971 ou 1972). Ao fundo, o Rio Geba Estreito. São visíveis as instalações do Pelotão de Intendência, junto ao importante porto fluvial de Bambadinca. O fontenário de aqui falamos, comnstruído em 1948, está sinalizado com um círculo a vermelho.

Fotos: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados



A fonte, de 1948, em foto de 1964... Enviada pelo nosso camarada Libério Lopes, que foi 2º Sarg Mil Inf da CCAÇ 526 (Bambadinca e Xime, 1963/65).
Foto: © Libério Lopes (2012). Todos os direitos reservados,





Guiné > Zona leste > Carat de Bambadinca (1955) >  Escala 1/50 mil > Pormenor. Bambadinca ficava num cruzamento ligando a leste Bafatá (e Nova Lamego), a sul, Mansambo - Xitole - Saltinho, e a sudoeste, o Xime.

Infografia:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. (**)

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Guiné 63/74 - P10805: Do Ninho D'Águia até África (35): Boas Festas, camaradas amigos (Tony Borié)

1. Mais um episódio da série "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177, desta vez versando a época natalícia:


Do Ninho D'Águia até África (35)






Boas Festas, combatentes amigos!

A nossa geração de antigos combatentes da guerra que Portugal manteve com as suas então Províncias Ultramarinas, sofreu muito, não há nenhuma excepção, todos, mesmo todos, os três ramos das forças armadas, desde os militares do quadro permanente aos milicianos, desde alguns generais aos soldados, que alguns só com o exame da segunda classe da instrução primária, estavam ali firmes, a receber ordens que não compreendiam, e saíam a destruir bases de guerrilheiros, só com um bocado de pão rijo no bolso para entreter o estômago, todos, nos melhores anos das suas vidas, principalmente dos milicianos e soldados foram interrompidos, para irem para um local de onde não sabiam se sairiam vivos, é verdade, os africanos também sofreram, lutando e morrendo por um ideal de liberdade, as enfermeiras paraquedistas, em lugar de mostrarem a sua juventude em festas, junto de suas famílias, interromperam essa mesma juventude e foram salvar vidas, com o risco da sua, as populações civis, interromperam a suas tarefas, e muitas abandonaram o seu local de sustento, passaram fome e perderam os seus haveres, todos de uma maneira ou de outra sentiram o “ferrete” espetado nas costas, ou o “espeto” nas unhas, de muitas injustiças que viram e sofreram, sentem a dor no coração de verem o camuflado do companheiro e amigo, sujo de sangue, com restos de carne humana, muitos não mais se “acomodaram”, sim é verdade.

As mães, os pais, as noivas, os familiares de uma maneira geral, choraram as ausências, muitos, principalmente militares do quadro permanente, andaram com a “casa às costas”, os filhos frequentaram diferentes escolas, em diferentes locais, tiveram uma vida de “saltimbancos”, com diferentes climas e costumes, também é verdade, alguns contraíram doenças, devido a estarem expostos a diferentes climas, sofreram cicatrizes no corpo de estilhaços de granadas, balas, ou outros objectos que se usavam em cenário de guerra, muitos viram ser-lhes amputados membros do seu corpo, e outros única e simplesmente morreram, em combate, por acidente e por doença, tudo isto é uma pura verdade.

Mas alguns de nós sobrevivemos, e estamos agora aqui vivos, com alguma, às vezes pouca saúde, mas estamos aqui, temos boca, falamos, às vezes exaltamo-nos e desabafamos com a pessoa que estiver mais próxima, nem sempre somos correctos, até dizem que é “stress de guerra”, pois que seja, mas estamos aqui.

E de quem foi a culpa? De ninguém que esteja vivo, pois já lá vão tantos anos. Talvez do primeiro marinheiro europeu que desembarcou na África, com uma espada na mão e com uma cara de guerreiro, que passado um segundo depois de pisar terra firme, já estava a praticar um acto de injustiça, que se prolongou por séculos, e que a nossa geração sofrendo, terminou.

Calhou-nos a nós, e é aí que me quero referir, pois estamos aqui, e se o nosso pensamento tiver alguma força e poder retornar umas décadas atrás, veremos que tirando a passagem pela guerra até vivemos numa época em que o mundo desabrochou, e mostrou-nos umas certas regalias, pois muitos da nossa geração, não tinham nunca usufruído de por exemplo, a electricidade nas casas, principalmente nas aldeias, o fogão a gás ou eléctrico, o frigorífico, o veículo automóvel, as lojas de roupa, e mercados de géneros alimentícios, os laboratórios descobriram novos medicamentos e salvam milhões de pessoas, os aviões com acesso a quase todo o mundo, o homem pisou a Lua, existem satélites que vigiam o mundo e sabem a milhares de quilómetros de distância o que se passa na nossa rua, comboios super rápidos, e ultimamente o mundo dos computadores, onde se está em todo o mundo em segundos, e de uma maneira ou de outra sobrevivemos e estamos aqui.

A guerra voltou ao mundo há mais ou menos uma década, e não sabemos se os nossos filhos, netos e bisnetos, vão passar ao lado dela, oxalá que passem, pois eu não desejo ver o meu filho, o meu neto, nem o meu bisneto, dentro do arame farpado, como eu estive por dois anos, sempre cheio de medo, e oxalá que usufrua de todos os comboios rápidos, dos super-aviões e toda a tecnologia deste mundo moderno.


E só para terminar, vejam os felizardos que somos, reparem nesta fotografia que ilustra este texto, onde um ser humano, hoje, neste mundo que será dos nossos filhos, não tem uns simples sapatos, pois improvisou umas garrafas de qualquer refrigerante vazias e com uma corda feita de ramos de arbustos imitando uma sandálias, para proteger os pés.

BOAS FESTAS, companheiros combatentes, do
Cifra amigo!

(Texto, ilustrações e fotos: © Tony Borié (2012). Direitos reservados) 
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 11 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10785: Do Ninho D'Águia até África (34): Aquela garotada (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P10804: Blogpoesia (309): Vem aí retoma... (Luís Graça)


Foto de ©  Luís Graça: Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo. 5/11/2011

Vem aí a retoma

No verão,
entre cigarras e grilos,
éramos arquitectos esquilos,
desenhávamos à mão,
dedo a dedo,
frágeis barreiras de areia
contra a maré cheia
do medo.
Contra o medo do medo.

Em agosto,
ainda não se adivinhava setembro,
às portas do Império,
as pousadas estavam repletas
e éramos inconscientemente felizes.

Em Beirute caíam bombas
e nas Canárias davam à costa
cadáveres subsarianos.
O verão já era outono,
vindima, mosto,
passeávamos agora
com as nossas bicicletas,
à volta do círculo polar ártico,
furando o buraco do ozono.
Definitivamente cancelámos
o nosso cruzeiro pelo adriático.

Na rentrée,
os novos príncipes deste mundo
anunciavam a boa nova
pela têvê:
vem aí a retoma!

Praia da Areia Branca,
agosto de 2006 /
revisto em 14 de dezembro de 2012

Luís Graça

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Nota do editor:

Último poste da série > 15 de dezembro de 2012 >  Guiné 63/74 - P10803: Blogpoesia (308): Hoje há mais neve branca lá fora... (J. L. Mendes Gomes)

Guiné 63/74 - P10803: Blogpoesia (308): Hoje há mais neve branca lá fora... (J. L. Mendes Gomes)


Hoje há mais neve branca lá fora.
E cá dentro, também.
Lá fora é natural.
O sol vem e ela se afasta,
Tão lenta e delicada,
Vem o calor e de novo,
Rebenta a vida em botões de flor.
No verde das folhas.

Chegam os cantos sonoros dos pássaros Que fugiram do frio.
Vem o sol e a praia.
E o lanche no bosque.
À beira do rio.

Só o nevão que caiu em mim,
Não tem meio de apagar.
Estou regelado.
E não aqueço com nada.
Nunca mais irei ter sol.
Meus olhos, parece,
Vão secar … para sempre.
Nem lágrimas correm pela minha face.

Um deserto gelado e frio.
Não passa ninguém.
Nada vem alegrar meus dias.
Noite cerrada e fria.
Mas, bem no fundo, sei.
A Primavera irá voltar…

Ouvindo canções dos Andes.
Zehlendorf, 13 de Dezembro de 2012
8h4m
Joaquim Luís M. Mendes Gomes[Reproduzido, com a devida vénia, da sua página no Facebook]
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Nota do editor:

Último poste da série > 24 de novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10720: Blogpoesia (307): Não, não havia nada na antiga estrada do Xime-Ponta do Inglês (Luís Graça)

Guiné 63/74 - P10802: Parabéns a você (510): Francisco Santos, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CCAÇ 557 (Guiné, 1963/65) e Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494 (Guiné, 1971/74)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 12 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10792: Parabéns a você (509): Francisco Palma, ex-Soldado Condutor Auto da CCAV 2748/BCAV 2922 (Guiné, 1970/72)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10801: Os nossos médicos (45): O dr. Soares Oliveira na Tabanca de Matosinhos com o João Rebola (Armando Pires


Foto nº 1

Foto nº 2


Foto nº 3


1. Mensagem de 13 do corrente, enviada pelo Armando Pires [, foto á direita, na sua casa de Miraflores, concelho de Oeiras...

Meu Caro Luís Graça.

Camarada.

Em primeiro lugar, informo que a minha ferramenta, o computador, obviamente, já se encontra em funcionamento. Assim sendo, apraz-me enviar-te as fotos, que me pediste, da presença do Dr. Soares Oliveira [, ex-alf mil med, BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70] no almoço da Tabanca de Matosinhos.

A primeira foto foi tirada à chegada ao restaurante. A partir da esquerda, estão: (i)  o José Teixeira, 1º cabo enfermeiro da CCAÇ 2381; (ii)  o ten cor capelão Augusto Pereira Batista, que no blogue já homenageei e que pertenceu ao meu batalhão; (iii) o João Rebola, fur mil da CCAÇ 2444, que estava em Bissorã quando nós lá chegámos, de quem me tornei amigo e que só reencontrei graças ao nosso blogue;  e (iv)  o Dr. Oliveira, que foi, tal como o capelão, convidado pelo Rebola a estar presente naquele almoço.

Na segunda foto, o Dr. Oliveira faz a sua apresentação à Tabanca. Ao seu lado tem o Eduardo Moutinho Santos, que foi alf mil da CCAÇ 2366.

A terceira foto não tem que enganar. Todos à mesa com o Dr. Oliveira ao lado do Moutinho, lá ao fundo, na cabeceira da mesa.

À margem, quero dizer-te que, por telefone, procurei convidar o Dr., não a fazer parte da Tabanca Grande,  mas a escrever um texto sobre a sua experiência, enquanto médico, na guerra colonial. Ainda lhe disse, "o dr. escreve à mão, envia-me pelo correio, eu passo à máquina, mando-lhe para fazer correcções...", mas qual quê, só não levei um grande arraso porque ele faz o favor de me estimar.

Em forma de alerta, por razões que depois explicarei, tenho já pronto um "breve conto de natal" que espero poder enviar amanhã ou sábado, o mais tardar com pedido de publicação. Só falta o preciosismo de identificar um fulano que está na foto que irá em anexo.

Um abraço do

Armando Pires


2. Comentário (ou melhor, inconfidências) de L.G.:

Às vezes a vida, vista  por dentro do blogue (leia-se: na casa das máquinas), parece mais um manicómio... Quem está do outro lado, de fora, na blogosfera,   pode não se aperceber dos aspetos cómicos, hilariantes,  dramáticos, patéticos e até trágicos do "making of" desta coisa que sai religiosamente (!) , todos os dias, há quase três mil dias (!), na Net, o 5º quinto mundo, depois da terra, do céu, do inferno e do purgatório...

Enfim, isso é outra "pequeníssima  história" dentro da "pequena história" que nós procuramos, com honestidade e humildade, contar aqui todos os dias, em complemento da "grande história"... Há alguns privilegiados que, se um dia tiverem tempo e pachorra e não perderem o sentido de humor que têm, poderão contar essas "outras pequenas histórias" dos bastidores da Tabanca Grande... Eu, o Carlos Vinhal, o Virgínio Briote, o Magalhães Ribeiro, o Torcato Mendonça, o Hélder Sousa, o Zé Martins, o Humberto Reis, o Jorge Cabral, o Joaquim Mexia Alves, o Zé Manel Dinis, o Miguel Pessoa, atuais e antigos editores e colaboradores permanentes...

Mas vamos ao que interessa, neste caso a troca de correspondência, nos últimos dias, com o Armamdo Pires, "furriel, enfermeiro, ribatejano, fadista, radialista, jornalista", meu vizinho (ele, a residir, em Miraflores, Oeiras, eu, em Alfragide, Amadora) e que há dias pus, por indícios (alarmantes) da doença do alemão, a morar em Santarém (!)... Já lhe pedi desculpa, coisa que ele cristãmente aceitou, meio resignado... É que já não é a primeira vez que eu o mando para... Santarém, capital do gótico e do gado bravo...

Em véspera de Natal, ele vai-me permitir quebrar algumas regras (como as do sigilo e confidencialidade das fontes)  que são caras aos jornalistas, como por ex. estas nossas conversas "off record"... Esta sequência é "surreal" e só vem demonstrar que o editor-mor do blogue anda mesmo "cacimbado" de todo,  ao fim de tantas "comissões na Guiné" (quatro, a caminho de cinco!)...Aí vai um filme da tal conversa fiada:

(i) Meu caro Luís. Parte da resposta que te queria dar já lá está, em comentário. Aqui queria escrever outra parte que seria indelicado da minha parte escrever "lá". O dr. Oliveira é um impenitente infoexcluído. Não tem computador e apetece dizer que tem raiva a quem o tem. No telemóvel nem gravar números ele faz quanto mais enviar uma mensagem. Isto que te digo, contado por ele,  vale mais do que dez partos no abrigo do Zé Manjaco. A história do manjaco ele contou-ma faz tempo. Quando decidi contá-la para nós, para lhe pedir autorização (coisa de velhos jornalistas, eu sei) tive de a imprimir, enviar-lhe por correio, com fotos e tudo, e esperar que me telefonasse. Para o entusiasmar a escrever, nem que fosse um único texto, eu tinha de estar ao pé dele, abrir o computador, mostrar-lhe o blogue e dizer, vá lá, doutor,  escreva só uma coisinha, escreva mesmo à mão que eu depois trato do resto Ora, ele está "lá em cima".

Só o vejo uma vez por ano, quase todos os anos, nas férias. Ele e a mulher vão para a mesma praia que eu, quase sempre na mesma altura que eu e para próximo da casa onde estou.

Sobre a foto do almoço, esqueci-me de te dizer. Estou sem computador. Constipou-se e deu baixa ao hospital. É lá que está a fotografia que o Rebola me enviou. Se quiseres esperar, tudo bem. Se achares que dava mais jeito ser já, é só dizeres que eu telefono ao Rebola e peço-lhe para a enviar logo para ti.
abraços.

(ii) Caro Armando: Está tudo dito, o Soares de Oliveira deve ter uma década à nossa frente e essa diferença é muito grande, em termos de literacia informática. Fico sempre entusiasmado quando vejo no blogue referência aos nossos médicos e enfermeiros. Consegui pôr alguns a escrever no blogue...Mas é óbvio, tenho que respeitar o ritmo, a idade e a história de vida de cada um... É uma geração "alérgica" ao PC [, Personal Computer]... A foto mandarás quando a tua "enxada" vier do "hospital"... Não tem pressa... Já agora, vim a subir as escadas, a caminho do meu gabiente, com um antigo aluno, jovem, brilhante, o dr. Ricardo Mexia, que acaba de ser colocado como autoridade de saúde na tua cidade, Santarém. Ele vive aqui em Lisboa, e trabalha aí. Toma boa nota. Um abraço. Luís

(iii) Tens toda a razão, Luís. O dr. Oliveira leva 75 anos de idade. Mas, para te ser franco, e fica, aqui entre nós, eu creio que aquilo ali também há um bocadinho de preguiça. Não intelectual, mas daquela que é usada pelos que "compram tudo feito". Ele costuma-me dizer: "ó pá, eu se quisesse meter lâmpadas nos candeeiros tinha ido para electricista". Ele é tão bom homem e tem tanta graça, que tudo lhe perdoo. Um dia hei-de contar-te a história de como ele pensava que as rodas dos automóveis se trocavam com uma chave inglesa. Contou-me ele (sim, ele conta-me) e ri-se às gargalhadas. Pronto, logo que tiver o PC, segue a foto.

Quanto ao dr. Mexia, grato pela indicação mas uma ligeira correcção. Ele "trabalha aí", não, ele trabalha lá. Embora perto, só raramente vou a Santarém. Os meus amigos, apesar da idade, continuam a ser mais da noite. Infelizmente, os meus pais já há muito faleceram. É a vida. Um grande abraço.

(iv) Ok, Armando, tinha a (falsa) ideia de continuares a morar em Santarém... Aquele abraço. Luis

(v) Eu bem sei que tens um mundo de gente para "aturar". Para "decorar". Mas lá vai, de novo.
Há 40 anos que moro no concelho de Oeiras. Sou quase teu vizinho, aqui em Miraflores, muito próximo daquele teu amigo que visitas, na Avenida "dos leões". Bom fim de semana.

(vi) Eh! pá, que grande porra!!!... Desculpa lá!!!... Sou distraído comó camandro!!!... Não é que venho mesmo da tal avenida dos leões, em Miraflores, onde fui visitar o tal meu amigo, arquiteto, que acaba de ser operado ao coração!... E eu a mandar-te prá lezíria!!!... De facto, meu caro Armando, o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca é que é... Grande! Grande de mais para a minha camioneta!!!...

Ennfim, daqui vai um Alfa Bravo apertado para o teu doutor, deixa-o em paz, que ele tem esse direito, e convida mas é o teu amigo e camarada João Rebola, esse sim, para engrossar as nossas fileiras. E o nosso capelão, por que não ?!... Festas felizes,  quentes e boas, para ti e para todo o maralhal da Tabanca de Matosinhos. LG
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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10778: Os nossos médicos (44): Cumprir as normas, sempre (Valente Fernandes, ex-Alf Mil Médico do BCAV 8323)

Guiné 63/74 - P10800: Álbum fotográfico de Fernando Súcio (1): Elvas, Figueira da Foz e Bula





1. Primeira série de fotos do álbum do nosso camarada Fernando Súcio* (ex-Soldado Condutor do Pel Mort 4275, Bula, 1972/74), a partir da sua recruta em Elvas, até à sua comissão de serviço na Guiné.




Elvas, 10 de Abril de 1972 > Primeiro dia de tropa no CICA 3 

Elvas, 1972 > Instrução de condução 

Elvas, Abril de 1972 >  Recruta

Elvas, Abril de 1972 > Recruta 

Elvas, 1972 > Juramento de Bandeira 

Figueira da Foz, Julho de 1972 > Especialidade 

Figueira da Foz, Julho de 1972 > Especialidade > Fernando Figurino, Silva - o do bagaço - e Súcio - o do garrafão

 Bula > A malta do Fortim dos Fulas

Bula >  Fortim dos Fulas > O nosso lança granadas

 Bula > Armamento capturado ao PAIGC

Bula > Pista do Héli

Bula > Súcio e Vieira
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 19 DE NOVEMBRO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10695: Álbum fotográfico de Leonel Olhero (4): Bula (Fernando Súcio / Leonel Olhero)

Guiné 63/74 - P10799: Ser solidário (140): A Tabanca Pequena de Matosinhos - Mais uma Tabanca do sul com água potável, Cautchinké, na Mata de Cantanhez.

1. Por mensagem do nosso camarada José Teixeira da Tabanca Pequena ONGD, chegou ao nosso conhecimento a concretização de mais uma iniciativa daquela organização, ao dotar com água potável mais uma tabanca da Guiné-Bissau, cabendo agora a vez de Cautchinké, na Mata de Cantanhez.

Com a devida vénia à AD ONGD, transcrevemos a notícia do acontecimento.



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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 2 DE DEZEMBRO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10749: Ser solidário (139): A Tabanca Pequena de Matosinhos dá novo apoio à ONG guineense AD - Acção para o Desenvolvimento

Guiné 63/74 - P10798: Notas de leitura (439): "Dona Berta de Bissau", de José Ceitil (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Novembro de 2012:

Queridos amigos,
Acaba de ser dado à estampa o livro que o José Ceitil tão generosamente preparou para homenagear a Avó Berta.
Há quem já proponha que se faça uma petição para que a Pensão Central seja cuidadosamente preservada como espaço de encontro de todos aqueles que foram, estão e continuarão a vir à Guiné guiados pelo ideário de ver a Guiné reconciliada e a progredir. A Pensão Central é o exemplo mais acabado da gestão comandada pelo coração: Dona Berta perdoou muito calote, por artes mágicas, nos tempos mais negros em que na Guiné tudo faltava, pôs sempre comida saborosa na mesa dos seus clientes, sempre uma sopa, um prato de peixe e de carne, depois doce ou fruta, preço mais abordável não havia na Guiné. A Pensão Central acolheu aquela juventude plena de generosidade, constituída maioritariamente por portugueses que vieram cooperar e que ainda hoje ganham saudades do tratamento da Avó.
Dona Berta é a figura mais eloquente para exemplificar que um porto de abrigo como a Pensão que ela criou e geriu com tanta intensidade marca os povos e mostra como a Guiné pode desenvolver-se pelos valores da paz e de hospitalidade.

Um abraço do
Mário


D. Berta de Oliveira Bento, a homenagem merecida

Beja Santos

A Pensão Central tem sido, há várias décadas, o porto de abrigo de todos aqueles, das mais desvairadas proveniências, arribam a Bissau seja para trabalhar seja em romagem de saudade. Uma afabilíssima mulher pôs em andamento, comandou e recebeu todos os seus hóspedes com um sorriso tão doce que ninguém jamais o esqueceu. Agora, no ocaso da vida, José Ceitil, que beneficiou do acolhimento da Pensão Central, escreveu o livro “Dona Berta de Bissau”, que acaba de ser publicado pela Âncora Editora. Ceitil traça a trajetória desta rapariga cabo-verdiana que aos 24 anos se deslocou a Bissau para acudir uma irmã mais velha, criou laços tão fortes com guineenses, famílias de militares e cooperantes, foi tão prodigiosa a tratá-los e a alimentá-los nas circunstâncias mais dramáticas que se percebe perfeitamente que nunca desejou sair da sua tão amada Guiné. O acervo de depoimentos polariza-se neste afeto e nesta doce recordação que tão estimável senhora, uma verdadeira sinhara do século XX, perdura no coração de milhares de pessoas.

Ceitil teve a gentileza de me pedir um depoimento sobre os laços que com ela estabeleci e é com muita alegria por haver tão sentidamente homenageada que aqui transcrevo o que por ela sinto, sentimento que jamais me abandonará, tal e tanta é a minha gratidão pelo que ela fez por mim:

“A D. Berta e a sua pensão são instituições internacionais, unem continentes, são pessoa acolhedora e espaço residencial único, há décadas, ali viveram participantes e figurantes de várias guerras, investigadores, cooperantes, gente abnegada que veio cheia de sonhos, à espera de ver a Guiné-Bissau florir.
A D. Berta entrou na minha vida quando casei, em Abril de 1970, em Bissau. Passámos, a Cristina e eu, uns dias em casa dos meus padrinho Elzira e Emílio Rosa, a seguir a alguns dias no Grande Hotel onde, a pretexto da chegada de personalidades distintíssimas, fui avisado quase em cima da hora que tínhamos de sair no dia seguinte. No meio da perplexidade, alguém me recomendou: “Olha, vamos daqui até à Pensão Central, é ali ao lado da Catedral, é certo e seguro que a D. Berta vai desenrascar a situação”. E desenrascou mesmo.

Para quem não sabe, a Pensão Central resistiu à guerra de 1963-1974, esteve sempre acima de todos os golpes de Estado, guerras civis e estados de sítio. Mesmo quando houve períodos de escassez de alimentos, o elementar não faltava na Pensão Central. Com a independência, a Pensão Central tornou-se um espaço de livre-trânsito para todos os cooperantes. Quando ali aterrei em 1991, tanto podia almoçar com holandeses ligados a projetos de saneamento de água em Canchungo como peritos do Banco de Investimentos de África, como jantar com os portugueses da Medicina Tropical ou italianos do Fundo Monetário Internacional. Naquele tempo ainda era possível atravessar meia Bissau a pé à noite, despedia-me da D. Berta e rumava para as instalações da CICER, era uma bela caminhada de quase dois quilómetros. Às vezes o Delfim Silva dava-me boleia, era encontros agradáveis sobretudo em noites sem lua. A D. Berta nunca me saiu do coração, estou em crer que nunca saiu da recordação de ninguém que comeu ou dormiu naquela pensão. Uma vez, já em Dezembro de 1991, estava eu desesperado com a inércia a que chegara o projeto que me levara à Guiné (criação de uma comissão interministerial de defesa do consumidor, havia decisão do presidente Nino Vieira, o ministro português Carlos Borrego criara uma linha de financiamento para as instalações, eu conseguira encontrar uma técnica para coordenar a comissão com o perfil adequado, mas nada mexia, as nomeações não se faziam, não era possível obter a concordância para o início das obras das instalações, sitas no antigo Quartel General), e a D. Berta vendo-me à varanda abatido, chegou ao pé de mim e com voz consoladora, disse-me: “Vá lá, pense na Guiné, que o trouxe cá de novo, pense no bem da nossa gente, o que não sair perfeito hoje dar-lhe-á saudades para voltar mais tarde...”. E o meu estado de espírito mudou. Infelizmente, nada avançou, fizeram-se ainda uns programas televisivos, creio que tudo caiu no olvido.

A D. Berta era tida como uma santa, alegrou a vida de muita gente, transformou o espaço anónimo de uma pensão numa casa de vínculos perduráveis. Um dia, escrevi o seguinte: “Só espero que alguém transmita à D. Berta que eu estou pronto para voltar, receber dela um beijinho, sentar-me à varanda, ouvir os sinos da Catedral, o bulício da Avenida Amílcar Cabral, sentir os cheiros do velho mercado, talvez a maresia que vem lá debaixo, do Pidjiquiti. Então, vou fechar os olhos e regressar a 1970, ali a dois passos vou ver entrar alguém que me irá falar num massacre que ocorreu nesse dia no chão manjaco, subo até ao cinema da UDIB, o passeio findará no Museu e no Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, onde juntei tantos elementos para os meus livros. Depois abro os olhos, vou sorrir para a D. Berta e dizer-lhe como ela está sempre bonita, ninguém com aquele sorriso poderá envelhecer ou ser esquecido. E, claro está, iremos conversar, ela vai querer saber o que vim fazer à Guiné. Tenho quase a certeza que a vou emocionar com a Viagem do Tangomau. Nada poderá ser impossível para a D. Berta, mesmo ter um tangomau como hóspede...”.

Pois o sonho aconteceu, a roda da fortuna caiu para o meu lado. Estava a viver infernizado a escrita de A Viagem do Tangomau, descobri que tinha que voltar à Guiné. E voltei mesmo. A 18 de Novembro de 2010, rompia o dia, entrei pela Pensão Central e perguntei pela Avó Berta. Pouco depois ela surgiu atrás do seu andarilho. Há emoções que não se esgotam nas palavras. Soluçámos naquele abraço estreitado, houve até uma chuva de críticas, uma censura sentida, não lhe dera conhecimento da chegada, eu devia saber muito bem que era ali que devia ficar, nunca em pensões alheias ou hotéis. Quis saber tudo sobre o meu trabalho, o que me trazia à Guiné. Com aquela voz meiguinha de sempre, perguntou-me se eu tinha esquecido a canja de ostra, fui veemente: “Não se come melhor canja de ostra que na Pensão Central, a Avó sabe muito bem”. E determinou: “Pois amanhã vem cá comer sopa de ostra, é em sua honra”. Naquele dia acabei por almoçar lá, fui levado pelo embaixador António Ricoca Freire. Cumprida a minha missão em Bissau, parti para a região de Bambadinca, mas a Avó Berta assegurou-se dos seus direitos: “Quando vier, ficará aqui até partir, por favor não discuta mais”.

Assim aconteceu. Tivemos serões inolvidáveis, fiquei a saber toda a história da Pensão Central, do princípio até ao presente. O relato da Avó foi impressionante, não havia ali uma réstia de farronca ou sobrançaria, ela viveu o que tinha a viver, a pensão transformara-se na obra da sua vida. Sei muito bem que quando estiver a ultimar o final do romance irei sentar-me na varanda do segundo andar da Pensão Central, anoiteceu, chegou o lusco-fusco tropical, ouve-se lá em baixo o caminhar tonto das viaturas a fugirem aos buracos da Avenida Amílcar Cabral. Desço para agradecer tudo à Avó, as suas deferências e as suas repetidas provas de generosidade. Ela pede-me que lhe enviei uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, o que irá acontecer, o portador será o embaixador António Ricoca Freire. Depois ainda telefonei à Avó para lhe pedir que recebesse a investigadora alemã Tina Kramer. E a Avó disse-me: “Venha depressa, estou doente, quantos mais amigos aqui tiver à minha volta, melhor”.

Tenho que escrever A Viagem do Tangomau depressa. E preciso que Deus me ajude dando-me ideias para um romance em que eu volte à Pensão Central, àquele universo de muitas reconciliações, aquela permanente casa de paz que aspiramos para toda a Guiné.”

Reencontro com a Avó Berta, na manhã do dia 18 de Novembro de 2010, ficámos assim depois de uma grande choradeira
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 10 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10781: Notas de leitura (438): "A Curva do Rio", de V. S. Naipaul (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10797: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (32): Uma cobra na sala de aula

1. Em mensagem do dia 10 de Dezembro de 2012, o nosso camarada Belmiro Tavares (ex-Alf Mil, CCAÇ 675, Quinhamel, Binta e Farim, 1964/66), enviou-nos mais uma memória do seu tempo de estudante, desta vez lembrando o seu professor Santos:

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE BELMIRO TAVARES (32)

Uma cobra na sala de aula 

Frequentávamos o 4º ano!

A nossa sala de aula ficava à entrada do corredor que se iniciava no recreio dos rapazes, na porta da sineta, e terminava no recreio das moças; era a primeira porta à direita. Aquela sala tinha outra porta, larga e envidraçada, que raramente podíamos utilizar e que dava para o exterior em frente ao velho “bebedouro”, no recreio dos rapazes, próximo do portão principal.

Num fim-de-semana em que fui a casa, apanhei, no campo, à mão, uma enorme cobra descomunal (mediria entre 20 e 30cm de comprimento). Consegui uma caixa de cartão, fiz uns pequenos furos nas faces laterais e na parte superior e guardei lá o referido réptil peçonhento; pelos furos ela podia respirar o suficiente para não morrer asfixiada.

Antes de introduzir a bicha na improvisada prisão, com a minha naifa, cortei-lhe a língua, para que não ferisse alguém que tentasse capturá-la depois de eu a devolver à liberdade em local apropriado.

Na 2.ª feira de manhã tínhamos uma aula com o professor Santos – História ou Geografia. Eu gostava imenso deste professor; respeitava-o muito e admirei-o pela vida fora, pelo seu saber, pela maneira fácil e eficiente como comunicava com os alunos (fazia-se entender perfeitamente o que nem todos conseguiam); era quase o exemplo acabado do “self made man”!

Eu estava na última carteira com o Cândido (vulgo Fajões) na fila ao lado da janela; portanto na esquina diagonalmente oposta ao professor. Quando entendi ser oportuno, abri a “porta” daquela cómoda prisão e a “bicha”, cheirando de novo a liberdade, correu desnorteada pela sala com a cabeça levantada, ameaçando tudo e todos.

Alguém gritou:
- Ai! Uma cobra!

Os alunos levantaram-se, afastando-se daquele monstro que não parava de correr; algumas moças subiram corajosamente para os assentos das carteiras; outras, mais “ousadas” colocaram-se em segurança na parte superior da carteira.

O animalejo continuava a correr procurando insistentemente um qualquer orifício por onde pudesse entrar, recuperando assim a sua “ampla liberdade” – como ainda estava longe o tempo dito das “amplas liberdades.

Antes que o animal desaparecesse, eu perguntei:
- Onde está a cobra?!

Caminhei para ela e, sem dificuldade, recapturei-a e voltei, calmamente, para o meu lugar com a cobra a saracotear na minha mão.

O Dr. Vide havia-nos ensinado como apanhar uma cobra ou um lagarto sem correr perigo de ser picado ou mordido.

Acabada a balbúrdia, todos olhavam insistentemente para mim procurando saber onde eu guardaria aquela cobra; coloquei-a cuidadosamente na “habitação” que eu preparara para ela. Acabou a festa.

Fui talvez o ultimo aluno a sair da sala de aula; o professor Santos, apercebeu-se que eu não trazia a cobra na mão; perguntou que caixa era aquela; não ocultei que se tratava da nova “casa” da cobrinha. Ainda hoje não compreendo por que não fui mimoseado com um par de tabefes… bem merecidos.

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O professor Santos era realmente extraordinário, profundo conhecedor de História e Geografia e extremamente eficiente.

As aulas dele eram divertidíssimas, sem dúvida…, mas aprendíamos. Era muito bom comunicador.

Ele considerava que História ou Geografia sem mapa seria coisa aberrante; quando não havia mapa ele… desenhava-o no quadro:
- “Aqui fica Portugal… a boca do Tejo… os arquinhos de Espanha, a perna da Itália, com a bota, a dar um pontapé na Sicília; junto ao tacão fica o Golfo de Tarento, etc. Depois carregando no giz com força “abria” uma autêntica estrada por onde os Hunos se deslocavam para invadir a velha Europa; - “aí vêm os Hunos… mas em tal parte estava F, à espera deles e deu-lhes na tromba, obrigando-os a retroceder em direção às suas estepes centro-asiáticas”

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Corria o nosso 3.º ano! Estudávamos a Grécia. Numa 2.ª feira, poucos alunos teriam estudado convenientemente a lição; como era habitual, na primeira meia hora, o professor Santos fazia perguntas sobre o tema da aula anterior; seguidamente, explicava a matéria para a aula seguinte. Cada aluno que ia sendo chamado pouco ou nada sabia sobre a 2.ª invasão dos persas (guerras médicas) que esbarraram no desfiladeiro das Termópilas onde 300 ousados Espartanos impediram com sucesso (inicial) a passagem de milhares de Persas. O pastor Efialtes (traidor) ensinou-lhes outro caminho e os Espartanos foram trucidados (feitos em postas).

O Ribeirito (Manuel Coutinho Ribeiro ainda hoje só o bigode está a mais, em relação àquela época) não tendo tempo de memorizar o nome do desfiladeiro, respondia apenas: “Termo”…”Termo”… o Professor Santos dando-lhe uma ligeira sapatada na cabeça, acrescentou: “pilas”, pá “pilas”!

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Já que falamos no Ribeirito… aí vai uma bem” fresquinha” (leia-se recente).
No almoço dos ex-alunos do COA, em 9 de Junho de 2012, em Ul, na antiga estação, o Ribeiro demorou, anormalmente, a escorrer as “castanhas” (vulgo urinar); estava meio mundo à espera de vez para fazer o mesmo; o nosso amigo, prazenteiro, com brilho nos olhos, comentou:
- Ainda não tenho grandes complicações para urinar… mas tenho dificuldade em encontrá-“la”!

É caso para dizer, ri-te, ri-te… o diabo vem pelo caminho

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Quem saberá explicar o motivo pelo qual as nossas colegas aprendiam razoavelmente bem, a lição de Geografia, mas sentiam grandes dificuldades em localizar, no mapa, a cidade e até o país que acabavam de citar.

Mas era verdade!

O professor Santos perguntava a uma moça: qual é a capital de tal país. A aluna respondia corretamente o nome da cidade… mas sentia-se confusa para a localizar.

Aí, ele gritava:
- Sua galinheira!

Colocava a mão naquela parte onde as costas mudam de nome; levantava-a, juntando as pontas dos dedos, acrescentando jocosamente:
- Cócóró có có… um ovo!

O dedo deve ter uma luz na ponta para guiá-lo até à cidade ou país que citamos.

Sempre que um rapaz falhava uma resposta ele com a mão fazia o gesto de “cortar o pescoço”; simulava pegar no cabelo baixando-se até tocar o solo; passava frente ao nariz fazendo sinal de mau cheiro e colocava-a sobre o tronco, simulando colar o pescoço.
Isto significava:  - cortar o pescoço, pegar pelo cabelo e meter na fossa (ou retrete); como ficava a cheirar mal, colava-a no sitio onde estava.

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Um dia a minha mãe enviou-me um cesto com belas cerejas suculentas; enchi os bolsos do casaco e fui para a aula de História (5.º ano), na sala quase em frente à secretaria a qual tinha uma janela e uma porta voltadas para o quintal.

O meu companheiro de carteira era o Arlindo (Escariz); enrolei uma folha de papel em forma de cone (era em embalagens deste género que os merceeiros, da época, nos vendiam uns míseros quinze tostões de café); coloquei-o no buraco do tinteiro, depositando ali os caroços e os pés das cerejas. Nós éramos uns rapazinhos pouco atilados mas tudo fazíamos para ser limpinhos (só não reciclávamos).

Estávamos muito entretidos a saborear displicentemente as deliciosas cerejas, mas muito atentos ao que o professor transmitia…, eis que o Sr. Santos me surpreendeu com a boca … na botija – não, não havia bebida!... apenas cerejas! Por pouco não me escalpou!... mas tenho a certeza que fiquei com menos umas dúzias de aloirados cabelos – castigo mais que merecido! E quando assim é… está tudo dito!
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 5 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10765: Histórias e memórias de Belmiro Tavares (31): Dr. Abel Gandra

Guiné 63/74 - P10796: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (42): Quem roubou o nosso canhão?


Gadamael > Obus 14
Foto: © José Casimiro Carvalho(2007) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


1. Mensagem do nosso amigo tertuliano Cherno Baldé com data de 10 de Dezembro de 2012:

Caro amigo Luis Graça,
Junto envio mais um texto que podem publicar na continuação das memorias do Rafeiro Chico, menino e moço.
Também copiei algumas imagens da época que foram gentilmente cedidas pelo amigo e Grão-Tabanqueiro José Cortes, ex-furriel miliciano da CCAÇ 3549, Deixós-Poisar que passou por Fajonquito entre 1972-74.

Um grande abraço com votos de um feliz Natal e um ano novo próspero.
Cherno Baldé
(Chico de Fajonquito)


QUEM ROUBOU O NOSSO CANHÃO?

No periodo da guerra colonial, pouco antes ou durante a permanência da CÇAC 3549 “Deixós-poisar” (1972-74) em Fajonquito, pequeno povoado com um aquartelamento militar, rodeado de arame farpado e torres de vigia construídos com troncos de palmeira, certo dia, no regresso da coluna que regularmente ia a cidade de Bafatá, sede do batalhão, trouxeram em reboque dois canhões muito grandes. Normalmente, tudo que a coluna trazia era suposto ficar na localidade.

Atrelados aos veículos, os canos largos, ameaçadores, olhavam para trás, virados na direcção contrária do sentido da marcha, o que, nas nossas cabeças de crianças, parecia ser, sem dúvida nenhuma, uma tolice dos nossos militares brancos, tão insensata como a ideia descabida de obrigar as nossas milícias a carregar na cabeça, granadas pesadas de morteiro ou bazooka, nas saídas ao mato, com as armas nas costas, sabendo de antemão que em caso de uma emboscada traiçoeira, a vida e a morte se jogavam em milésimos de segundos.

No caso dos canhões, se de repente, numa emboscada do inimigo, tivessem que ripostar rapidamente, iam fazer o quê? – Ficávamos a imaginar a reacção dos artilheiros. Primeiro iriam parar, virar o engenho, apontar ao alvo e depois disparar. Mas, havia uma questão importante, no entanto, sem resposta. Será que teriam tanto tempo?... Perguntas de crianças que tinham nascido e crescido no teatro de uma guerra que se teimava em eternizar e onde viviam como se de uma grande escola se tratasse, caldeirão efervescente que, de certeza absoluta, haveria de consumir gerações inteiras, caso não a tivessem posto fim, em boa hora.

Mas, voltando à nossa coluna, nesse dia, a nossa atenção não foi para os militares, cobertos de pó vermelho da estrada, à cata de novos amigos nem para os extravagantes jovens da Mocidade Portuguesa que regressavam dos festejos de 10 de Junho, nas suas novas fardas, camisas verdes, calções castanhos, o emblema das quinas ao peito, cor de ouro brilhando ao sol e, nem sequer nos lembramos de fazer o nosso trabalho de rotina que era recolher por baixo dos bancos de conduzir as armas e o cinto pesado de cartucheiras dos nossos patrões condutores. Os nossos olhos ficaram presos naquelas máquinas, engenhos escuros de metal, montados sobre gigantescas rodas, Caterpillars de pólvora, fogo e de morte que, finalmente, tinham chegado. Doravante a barraca de Samba-ulencunda estava ao alcance das nossas mãos. Desde a porta d’armas, acompanhamo-los, cuidadosamente, parando quando paravam, correndo atrás quando andavam, até ao centro do quartel onde foram estacionados. Deixando os apressados condutores partir, aproximamo-nos ligeiros, abraçando os canos enormes, encostando os nossos corpinhos franzinos a frieza metálica daqueles monstros impassíveis que nos pareciam velhos conhecidos.

Mesmo ali ao lado e rodeado de tanques repletos de areia, estava instalado o morteiro 81 que, em vista das novas e imponentes armas, fazia uma figura pálida, quase inútil na sua pequenez, boca ao ar, pedindo chumbo para cuspir ao céu. Tantos anos a viver com ele, estávamos por demais familiarizados com o “poc” da saída das suas granadas que caíam algures, perto das nossas bolanhas de arroz, quando batiam a zona para afastar o medo que crescia nas noites de chuva, calor e humidade.

Nessa noite, demoramos algum tempo a pegar no sono, devido à curiosidade que nos consumia antecipando o gozo de ouvir os estampidos da nova artilharia, mas dormimos melhor, embalados pela segurança que as máquinas de guerra nos proporcionavam. Ter canhões de guarda, nessa época, mais que segurança e prestígio, era uma questão de honra. Os mais velhos contavam que em terras de Gabú, mesmo as localidades mais insignificantes tinham canhões para terrorizar as povoações fronteiriças do Senegal onde habitavam os bandidos, lançando suas granadas compridas e grandes, um pouco maiores que o pénis de um jumento.

Mas, para nossa desilusão, e da mesma forma como tinham vindo, atrelados aos veículos, os canos largos, ameaçadores, insensatamente virados para trás, na direcção contrária do sentido da marcha, as máquinas de guerra tinham retomado sua marcha tenebrosa mais ao norte, para Cambaju, aldeia situada a menos de 500 metros da fronteira, o que, nas nossas cabeças de crianças, parecia ser, sem sombra de dúvida, mais uma tolice dos nossos militares, tão insensata como a ideia descabida de entregar armas repetitivas “Mauser” às populações civis para enfrentar guerrilheiros armados com Akas e metralhadoras automáticas, assim diziam os mais velhos.

No dia seguinte, voltando ao quartel para o habitual café com leite, as crianças constataram com grande tristeza que os seus canhões não só não estavam no local do dia anterior mas tinham sumido do pequeno aquartelamento, rodeado de arame farpado e torres de vigia construídos com troncos de palmeira. Estupefactas e inconformadas as crianças interrogavam-se entre si:
- Quem foi o …ȹɎψ₳… que roubou os nossos canhões?

Ao menos deixassem ficar um para salvar a honra da aldeia, afastar o espectro do medo que crescia nas noites de chuva e conquistar o respeito dos nossos vizinhos, Samba-ulencunda ali tão perto de nós.

Bissau, 7 de Dezembro 2012
Cherno Baldé (Chico de Fajonquito)



O Furriel José Cortes da CCAÇ 3549 “Deixós-Poisar” (1972-74), exibindo uma granada de obus estacionado em Cambaju.

Fajonquito > Refeitório geral > Os nossos amigos condutores. Da esquerda para a direita: Torres, Sérgio e Moreira da CCAÇ 3549 “Deixós-Poisar” (1972-74). 

Os nossos amigos condutore Dias, à esquerda, e Oliveira, à direita. No meio, os Rafeiros Seko (filho de um alferes milícia), Chico (eu) e Aliu (filho de um auxiliar nativo da cozinha geral).

Aquartelamento de Fajonquito > Furriel das transmissoes Farraia da CCAC 3549 (Deixós-Poisar) 1972/74, junto ao poste da bandeira. Ao fundo estamos, eu e um colega de infância, junto a porta da arrecadação de material de guerra, vendo-se cunhetes de granadas de obus ao redor.

Memorial aos soldados da CCAC 3549 a 2 de Abril/74:
1. Cap. Carlos Borges Figueiredo
2. Alferes Mil. José Fernando Rodrigues Félix
3. Furriel Mil. Alcino Franco Jorge da Silva
4. 1.º Cabo Antonio S. Alves
5. Sold. José S. F. Serra
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 17 de Novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10687: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (41): Poemas da juventude (IV): Desgraçada esperança, Kiev, novembro de 1988... (E tão atual: Vivemos tempos difíceis, tão difíceis que fazem pensar na descrição bíblica dos tempos derradeiros quando o irmão se vira contra o irmão e o filho contra o pai)

Guiné 63/74 - P10795: In Memoriam (135): Dona Berta de Bissau (1930-2012) (Hélder Sousa / Patrício Ribeiro / Antº Rosinha)



Página de ontem, 12, do sítio Pensão Berta..."É com muita tristeza, mas também alguma paz no coração, que escrevo aqui a noticia da morte da Avó Berta. Cumprido que estava o seu enorme papel na vida de cada um de nós, partiu em paz e ficara para sempre no nosso coração como uma inspiração e modelo de vida. Obrigada, Avó, por tudo! A partir do início da tarde estará na Igreja de Santo Contestável, em Campo de Ourique,  para que nos possamos despedir."... E hoje a editora da página acrescentava a seguinte informação: "Despedida da D. Berta  >  Exéquias da D. Berta Bento: amanhã (dia 14) chegada do corpo à Basílica da Estrela. Sábado (dia 15) pelas 10h30 missa, 11h00 funeral para o crematório da Póvoa de Santa Iria."

O blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, também conhecido por Tabanca Grande, deixa aqui, publicamente, os seu votos de pesar pela perda desta grande mulher do povo, e ao mesmo tempo de homenagem pelo seu exemplo de humanidade: ela teve o condão  de tocar todos aqueles que com ela conviveram, que a conheceram, ou que simples beneficiaram da sua hospitalidade, nesse porto de abrigo que era a Pensão da Dona Berta, em Bissau, durante e depois da guerra colonial.


1. Texto enviado hoje mesmo pelo Hélder Sousa:

À DONA BERTA DE BISSAU

Caros camaradas, amigos e outros…

Devia estar agora a fazer um breve relato do que foi o lançamento do livro de José Ceitil dedicado à Dona Berta, ao qual assisti.

É sabido que esse livro, a que foi dado o nome de “Dona Berta de Bissau”, pretende ser a concretização da homenagem escrita feita a essa grande Senhora, homenagem várias vezes tentada, agora concretizada e inteiramente merecida. Mas hoje, agora mesmo, é também já uma ‘homenagem póstuma’ pois foi dado conhecimento que a Dona Berta faleceu.

Deste modo, este relato assume então uma função dupla: o registo da apresentação/lançamento do livro com a “homenagem à sua vida”, consubstanciada nos relatos do seu conteúdo e também a referida “homenagem póstuma”. (*)

A sessão decorreu, em minha opinião, com elevado nível e boa representação de público variado, sendo certo que a ligação à Guiné estava, evidentemente, presente em todo o lado. Há no livro referências ao nosso Blogue, como fonte de recolha de informação e há depoimentos de pessoas que são ‘tabanqueiros’. Ao dirigir-me para o local da sessão cruzei-me no pátio de acesso com o Mário Beja Santos e lá dentro, com o auditório cheio, estive e falei com o João Paulo Dinis e no final com o Eustácio. Vi, mas não cheguei a falar, com o Francisco Henriques da Silva e outro elemento que não me ocorre agora o nome.


Foto nº 1 

Na foto nº 1,  pode-se ver a mesa que presidiu à sessão, estando da esquerda para a direita, no uso da palavra, Marta Jorge, jornalista da RTP e ex-delegada da RTP na Guiné-Bissau durante vários anos e que fez o prefácio do livro, Mónica Azevedo, agente da cooperação portuguesa e administradora do Blogue “Pensão D. Berta Bissau”, António Baptista Lopes, proprietário da editora Âncora, José Ceitil, autor do livro, Céu Marques, sobrinha da D. Berta, Gisela Rocolle, agente da cooperação portuguesa. Vêm-se também dois músicos guineenses, o Mamadu Baio e outro que não colhi o nome.


Foto nº 2

Na outra foto (foto nº 2) com a panorâmica do auditório temos na primeira fila vários familiares da Dona Berta, vendo-se também, mais à direita, a Marta Ceitil que continua o seu trabalho na Guiné, levando já lá mais tempo que o que utilizámos nas nossas comissões. Na fila a seguir vê-se o embaixador Francisco H. da Silva e eu encontro-me em pé, na coxia, que acabou por também encher.

Da leitura do livro (, vd. foto nº 3, expositor),  que, na prática é um misto do percurso da vida da Dona Berta desde que chegou à Guiné, “para passar um mês”, ficando todo este tempo por lá, entrelaçando esse percurso com a própria história da Guiné, vamos conhecendo mais e melhor a Dona Berta e a razão porque tantos se consideram hoje seus “filhos” e “netos”, não escondendo a sua grande admiração e gratidão a uma personagem que se tornou amiga, “mãe”, confidente, e até ‘milagreira’, no modo como do ‘nada’ conseguia desencantar o que era preciso, e não nos esqueçamos que se atravessam os períodos da luta pela independência, de guerras civis, de intervenções estrangeiras e de conflitos sempre latentes e sempre presentes.


Foto nº 3

Todos os depoimentos que estão plasmados no livro são unânimes em reconhecer a importância do papel que a Dona Berta teve na sociedade de Bissau, nos pequenos pormenores e nos momentos de maior angústia, nas recordações dos momentos agradáveis passados na Pensão Central, nas conversas na varanda, nos gelados saborosos, etc.

A história da Dona Berta faz-nos lembrar que em qualquer lugar e circunstância a atitude marca a diferença e isso pode ser muitas vezes a separação entre a esperança, a alegria, a confiança e o desespero, a amargura, a descrença, e essa postura é o que mais ressalta do que foi o comportamento da Dona Berta.

Um abraço para toda a Tabanca!

Hélder Sousa  [, foto à direita]
Fur Mil Transmissões TSF

Créditos fotográficos: Sofia Lima / Editora Âncora. (**)


2. Mensagem de Patrício Ribeiro, enviada esta manhã, de Bissau  [, foto à direita]

 Sobre a noticia que tive ontem há noite em Bissau, quero passar a todos.

D. Berta de Bissau, a sua morte em Lisboa.

Hoje aqui em Bissau, resta-me passar junto ao edifício, que o foi a Pensão Central, olhar para a escada que durante três décadas subi para ir almoçar e para a varanda onde descansava um pouco depois do almoço.

Bem haja ao José Ceitil, pela publicação do livro, ela esperou e depois foi …

É assim a vida...

Patricio Ribeiro
IMPAR Lda
Av. DomingosRamos 43D - C.P. 489 - Bissau , 
Tel / Fax 00 245 3214385, 6623168, 7202645, Guiné Bissau
Tel / Fax 00 351 218966014 
Lisboa www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.com 


3. Depoimento de António Rosinha:

 A Dona Berta tinha a imagem típica dos velhos "portugueses tropicais" que possuiam um carácter português diferente do português metropolitano.

Os Portugueses tropicais tinham defeitos e qualidades diferentes dos portugueses metropolitanos. Esses portugueses estão em extinção lá, no antigo Ultramar, têm vindo a "refugiar-se" na antiga Metrópole,  no Brasil e na Europa em geral.

Passei anos maravilhosos em companhia de pessoas como a Dona Berta em Bissau e em Luanda, e também fui comensal da pensão da Dona Berta.

Como todas as centenas ou milhares(?) de cooperantes portugueses que foram seus hóspedes, também eu a lembro com saudade.

Paz à sua alma.
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Notas do editor:

(*) Último poste da série >17 de novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10685: In Memoriam (134): Amália Martins Reimão, enfermeira paraquedista do 3º Curso (1963)... Cumpriu a sua missão nos TO da Guiné e Angola e no HM Força Aérea... Família, amigos e camaradas despedem-se hoje, às 16h30, na igreja de Queijas (Oeiras) e no cemitério de Rio de Mouro (Sintra)

(**)  Ficha técnica:

Título: Dona Berta de Bissau
Autor: José Ceitil
Editora. Âncora
Local: Lisboa
Preço de capa
€16,00
Número de páginas 200
Formato 150 mm x 230 mm
Código: 6031
ISBN 978 972 780 374 3

Sinopse:

 História oficial dos povos realça os nomes e feitos dos governantes vencedores e os defeitos dos vencidos mas raramente refere as pessoas singulares que não pertencem às elites próximas do poder, mesmo que tenham enorme dimensão humana. Como é o caso de Berta Bento.

Berta Bento viveu em Bissau a maior e também a melhor parte da sua vida. Embora tenha nascido em Cabo Verde e ser filha de cabo-verdianos, desde que chegou à Guiné em 1948, sentiu-se em casa e aos poucos começou a sentir-se também parte desse povo, um povo que se tal lhe fosse permitido apenas o desejaria ser.

Narrar o seu percurso numa terra habitada por povos antigos e diferentes entre si, caldeados numa convivência interétnica precária geradora de visões culturais e divisões políticas que tornam difíceis os dias de quem, como a D. Berta, apenas deseja viver em paz é o desígnio desta biografia.
A biografia é uma homenagem e um tributo a que só têm direito aqueles que se destacaram no seu tempo e por isso merecem que o registo do que fizeram perdure para além dele. O que se segue é o resultado das entrevistas por mim feitas à D. Berta na Pensão Central em Maio e Dezembro de 2010.

Se foi isto que me quis contar então é porque a verdade é assim mesmo, tal e qual, pois é sabido que na linguagem dos sábios mesmo que a verdade com que traduzem a realidade seja contada através de algumas metáforas, não deixa de ser menos real.  Por outro lado se é uma quase evidência que as lendas podem ser mais úteis do que os factos, então a realidade pode muito bem continuar ao alcance da verdade de cada narrador que neste caso, procurando completá-la com outros olhares, socorreu-se do testemunho de pessoas que conheceram e gostosamente acederam em partilhar as memórias que têm desta admirável Senhora. (Da Introdução).-