sábado, 29 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10876: Do Ninho D'Águia até África (39): Passa por mim em Mansoa (Tony Borié)

1. Mais episódio da série "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177, que retoma a sua actividade no seu aquartelamento.

Do Ninho D'Águia até África (39)


Já lá ia mais de ano e meio que vivia no aquartelamento em Mansoa, vamos descrever um dia normal do Cifra, que já conhecia o local e as pessoas.

Creio que este texto, fará relembrar todos os companheiros, que na mesma situação, estiveram ali estacionados. Embora estivesse rodeado de militares e equipamento bélico, o dia foi passado sem ataques ao aquartelamento, ou qualquer outro incidente, e estando de folga das suas tarefas, portanto cá vai.

Levanta-se mais ou menos pelas seis e meia, sete horas da manhã, que era quando alguns camaradas do pelotão de morteiros se preparavam para saírem em patrulha, não faz a cama, pois a partir de um certo tempo de estadia em cenário de guerra era um “desleixado”, como dizia o Trinta e Seis, mas diziam que dava sorte, deixando a cama por fazer, única e simplesmente fecha o mosquiteiro, veste os calções, coloca nos pés umas tamancas, que lhe fez o Mister Hóstia, com umas tábuas e uma tira de lona, que faziam de dobradiças de uma caixa de munições, coloca ao ombro o farrapo branco e encardido, que fazia de toalha, que em novo se chamava oficialmente toalha, e era feito de pano cru, pega na barra de sabão “Lifebuoy”, que tinha comprado ao achinesado “Life Boy”, mas que ficou a dever, pois só acertava contas no fim do mês quando recebia o “patacão”, mas apontou a lápis numa tábua de uma caixa de granadas que fazia de mesinha de cabeceira, pois o achinesado do “Life Boy” não era lá muito certo nas contas de fiado, pelo menos no parecer do “Marafado”, e encaminha-se para um local, na parte mais a sul do aquartelamento, onde tinham sido abertos três furos de água, que vinha quente, mesmo muito quente, a cheirar a enxofre ou coisa parecida, e onde havia alguns bidões vazios de gasolina, gasóleo ou mesmo óleo, que tinham sido lavados e estavam já cheios dessa água, do dia anterior, e estava morna, onde o Cifra toma banho nu ao ar livre.


Uma vez aconteceu, àquela hora cedo da manhã, o Cifra ir lá tomar banho com outros companheiros, onde ia o Curvas, alto e refilão, aparecendo por lá os tais polícias que faziam interrogatórios, e se passeavam pelo aquartelamento, creio que nessa altura andavam a fiscalizar a instalação do arame farpado, e o Curvas, alto e refilão ao vê-los, chama-os, e com o seu ar agressivo, na sua linguagem, toca com as duas mãos nos seus órgãos genitais, e diz, numa voz, que quase se ouvia em todo o aquartelamento:
- Venham cá filhos da p..., interrogar o Cifra! O que vocês querem é disto, cabrões, cornudos, qualquer dia faço-vos a folha!

Os polícias, começaram a caminhar rápido, sempre encostados ao arame farpado, em direcção à saída do aquartelamento, talvez já tivessem conhecimento da pessoa que era o Curvas, alto e refilão.

Mas continuando com a narrativa, toma banho, regressa ao dormitório, por vezes vestia roupa lavada, outras não, calça as botas de lona, coloca um cigarro “três vintes” na boca e dirige-se à cozinha, onde o “Arroz com pão”, gravura ao lado, lhe dá uma caneca de café, sem açúcar, que tirava ao de cima, de uma enorme panela.

Senta-se cá fora, bebe o café e pensa como devia estar o tempo lá na sua aldeia em Portugal, naquela altura da primavera, com um sol brilhante, lindo e sem aquela humidade que naquele momento já se fazia sentir.

Enfim, com estes pensamentos, dirige-se à aldeia que existia próximo do aquartelamento, visita o tal africano que como sempre estava deitado na rede, e que fazia os tais cigarros especiais. O Cifra, levanta a mão e diz-lhe “olá”. Ele vendo o Cifra àquela hora da manhã, sem dizer nada vai dentro da “morança”, trás uma mão cheia de cigarros, de onde o Cifra tira dois, que não fumou, guardando-os para mais tarde.


Cá fora da morança, duas das suas mulheres tentavam arrumar alguma lenha (foto em cima com o Cifra no meio delas), passa pela vila, vai ao mercado (foto em baixo), ver os produtos que estavam para venda.


Já aqui falámos de outras vezes, viu os tais cães vadios, e os africanos, alguns quase nus, outros vestidos com uma vestimenta que tinha sido branca, há algum tempo atrás, diziam que eram “os Gilas”, que lhes cobria o corpo até aos pés, quase todos descalços, a falarem e sempre a mascarem algo, que cuspiam de vez em quando, sem repararem em ninguém, e sempre que encaravam com um militar, calavam-se, virando a cara para outro lado. Também havia mulheres com um balaio de qualquer coisa à cabeça, que equilibravam como se estivessem num circo, e crianças com o ranho no nariz e o dedo na boca, agarradas às pernas da mãe. O Cifra, que quase sempre andava com rebuçados no bolso, dava-os a essas crianças, que sempre que o encontravam se aproximavam dele, outras ainda bebés, amarradas com um pano largo às costas das mães. Quando choramingavam, as mães ouvindo o choro, passavam por baixo do braço uma das mamas para trás, para que o bebé se amamentasse e se calasse.
Seguidamente passa pela casa onde está uma espécie de câmara municipal e diz “olá” ao funcionário, que é seu amigo, também passa pelos correios e compra dois selos para colocar numas cartas que quer mandar com fotografias para os seus pais. Estes selos têm o formato de losangos e representam animais, são compridos, tendo de ser colocados no envelope, antes de escrever a direcção, pois ocupam muito espaço.
Vai em frente, passa pela loja do Libanês, para comprar rebuçados, não era porque precisasse, mas sempre via as filhas do Libanês (gravura em baixo), continua caminhando, e mais à frente, junto ao rio, onde estão algumas canoas, umas em terra seca, outras na água, são quase todas do Iafane, africano seu amigo, que lhe chama “irmão”, que faz o transporte de pessoas e bens, que vieram trazer os seus produtos, para vender no mercado ou na Casa Ultramarina. O Cifra reparou, que alguns desses africanos, quando viajam na canoa, vão nus, só colocando uma tanga, depois de as atracar.

Foi à sede do clube de futebol, deu dois dedos de conversa com o rapaz africano que servia no bar, muito educado, que já sabia qual a bebida preferida de quase todos os militares, ao qual tratava pelo nome, pois já os conhecia, mas que neste momento andava a varrer, com uma vassoura feita de ramos de alguns arbustos, cá fora, o chão térreo, levantando algum pó, portanto sujando mais do que limpava. Questionado pelo Cifra porque fazia tanto pó, ele respondeu que o “Homem Grande”, seu pai, lhe dizia que o pó e a lama faziam bem à pele e a protegia do sol. O Cifra, quando por vezes encontrava alguém que quisesse jogar às cartas, lá ia numa “sueca” ou numa “bisca lambida”, quase sempre na disputa de uma cerveja, até que chegava a hora de ir à “Bóia”, como dizia o saudoso cabo Bóia, que era a refeição do meio dia, que o Cifra, quase nunca comia, pois esperava pelo fim dela para ir visitar o sargento da messe, que sempre guardava qualquer coisa do almoço, e que sabia que o Cifra gostava.


Aí ficava por quase toda a tarde, ajudando nas contas ou simplesmente conversando, dava um cigarro dos especiais ao sargento da messe, guardando o outro. Quando já era um pouco mais fresco, quase no fim da tarde, que era quando os mosquitos apertavam mais, mas que pouca diferença já fazia, pois a pele do corpo já estava rija e curada, na companhia do Setúbal e do Curvas, alto e refilão, iam dar uma volta pela ponte e admirar o rio (foto em baixo), que adorava na altura da maré cheia, pois parecia o rio da vila a que a sua aldeia do vale do Ninho d’Aguia, pertencia, por altura do inverno quando a água das chuvas, vinda da montanha, o fazia transbordar e alagar os campos vizinhos.


O pôr do sol era um espectáculo lindo com o astro rei a brilhar sobre o manto de água reluzente, pois na sua superfície existia sempre uma camada de lama. Nessa altura fumavam o cigarro especial, entre os três, sentados na beira da ponte, e talvez por isso, o cenário se tornasse encantador, tal qual como se viam nas películas, que às vezes se exibiam na sede do clube de futebol.
Ao final, chegavam ao aquartelamento, passavam pela cozinha, onde o Cifra sempre roubava um naco de pão, sobre o olhar do “Arroz com pão”, que sabia que o Cifra fazia isso quase todos os dias, por isso tinha o pão, sempre no mesmo sítio, que era numa espécie de banca de cozinha, mas muito mal feita, com os restos de umas tantas caixas de munições, bebendo cada um uma cerveja, que já tinham trazido da messe dos sargentos, vinham para o dormitório, onde o Cifra ouvia as aventuras dos que tinham saído em patrulha, ou em alguma operação de destruição de bases inimigas, e adormecia, quase sempre tarde, quando o último terminava de falar, ou alguém deixava de ressonar.

(Texto, ilustrações e fotos: © Tony Borié (2012). Direitos reservados) 
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 26 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10866: Do Ninho D'Águia até África (38): ...a guerra e o amor (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P10875: Memória dos lugares (203): Parque Nacional da Peneda-Gerês: Cascata do Arado, Mata da Albergaria, a Geira e outras joias do parque que, embora decadente, continua a ser um dos sítios mágicos da nossa terra... (Luís Graça)


Parque Nacional da Peneda-Gerês > Terras de Bouro > Cascata do Arado > 27 de dezembro de 2012

Vídeo (49''): © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados


Parque Nacional da Peneda-Gerês > Terras de Bouro > Cascata do Arado, a cerca de 750 m de altitude.


Parque Nacional da Peneda-Gerês > Terras de Bouro > Cascata do Arado > Um dos muitos tristes exemplos da vandalização da sinalética do parque...




Parque Nacional da Peneda-Gerês > Terras de Bouro > A milha XXXI  da Geira, a antiga via romana que ligava Braga a Astorga...



Parque Nacional da Peneda-Gerês > Terra de Bouro > Mata da Albergaria > Antiga via romana Braga-Astorga > Marcos miliários (classificados como Monumento Nacional).




Parque Nacional da Peneda-Gerês > Terra de Bouro > Mata de Albergaria, nas proximidades da margem esquerda da barragem do Vilarinho das Furnas e da aldeia de Campo do Gerês.



Parque Nacional da Peneda-Gerês > Terra de Bouro > Mata junto à Pedra Bela.

Fotos: © Luís Graça (2012). Todos os direitos reservados


1. Há, ainda felizmente, lugares mágicos neste país. O Parque Nacional da Peneda-Gerês, mesmo decadente, é um deles. (Decadente, por muitas razões que não importa aqui desenvolver: os sucessivos governos, a EDP, os serviços florestais, a gestão do parque, os bombeiros, os madeireiros, os incendiários, os autarcas, oa proprietários, as populações, os turistas, os muitos interesses contraditórios em jogo...).

Voltei cá no fim deste ano e ao fim de vários anos.  A mata de Albergaria é uma das jóias da coroa do Parque. É um das nossas mais antigas manchas de carvalhal, em estado natural.  Acabo de fazer que caminho que atravessa a mata e acompanha a antiga via romana Braga-Astorga - conhecida como a  Geira - , ao longo da margem esquerda da albufeira de Vilarinho das Furnas, e que termina em Campo do Gerês. Sobreviveram até aos nossos dias uns vinte e tal marcos miliários que sinalizavam as distâncias enter Braga e Astorga.

Ponho o ouvido esquerdo numa destas pedras milenares, tentando ainda "apanhar" os ecos da marcha forçada dos últimos legionários romanos... Aqui respira-se um duplo silêncio, o da natureza (prodigiosa) e o da história (mal conhecida)... Quantos invasores do nosso território não terão passado por aqui ? E quantos  jovens da minha geração não terão pegado na trouxa para fugir da miséria das suas aldeias, a caminho de Paris, de Lisboa, do Porto ? Quantos camaradas meus, oriundos das Terras de Bouro, terão ido parar à Guiné ? Não tenho ideia de ter aqui, sob o poilão da nossa Tabanca Grande, nenhum camarada destas paragens... (Aqui fica um convite e um desafio para aparecerem!).

O Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) , infelizmente, é o único parque nacional que nós temos. Na sua criação também trabalhou a nossa grã-tabanqueira Alice Carneiro, no início da década de 1970. O PNPG ocupa cerca de 70290 hectares, indo do extremo nordeste do Minho até Trás-os-Montes.Inclui quatro serras, Peneda, Soajo, Amarela e Gerês, e dois rios principais, o Lima eo Cávado. Faz fronteira com a Galiza. Abrange os concelho de Terras de Bouro (Braga), Melgaço, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca (Viana do Castelo) e ainda  Montalegre (Vila Real). Ver o respetivo mapa, aqui.

Voltei, ao fim de largos anos, ao Miradouro da Pedra Bela, que costuma proporciona uma vista privilegiada sobre todo o vale do rio Gerês, mas desta vez o nevoeiro era cerrado... Aqui escreveu Miguel Torga, em 1942 (, de acordo com a placa descarrada, no local, em 12 de agosto de 2007, por ocasião do 100º aniversário do nascimento do poeta):

Serra!

E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.
Uma paz de falcão na sua altura

A medir as fronteiras:
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras…

(Miguel Torga – Gerês, Pedra Bela, 20 de Agosto de 1942 – Diário II)

A Ermida, a aldeia comunitária, de economia agropastoril de montanha, essa, já não me deixou nada entusiasmado, face às construções dos últimos anos, com manifesta falta de bom gosto estético e de enquadramento paisagístico... Já não ia lá há mais de 30 anos...

Registe-se aqui o estatuto de conservação de PNPG:

(i) Estatuto de Parque Nacional, através do Decreto-Lei n.º 187/71, de 8 de Maio que cria o Parque Nacional da Peneda-Gerês;

(ii) Reserva Biogenética do Conselho da Europa: “Matas de Palheiros - Albergaria”;

(iii) Sítio de Importância Comunitária (SIC) “Serras da Peneda-Gerês”, da rede ecológica europeia Rede Natura 2000, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 142/97, de 28 de Agosto, publicado no Jornal Oficial da Comunidade Europeia, de 29/12/ 2004;

(iv) Zona de Protecção Especial para Aves Selvagens (ZPE) da “Serra do Gerês”, da Rede Natura 2000, através do Decreto-Lei n.º 384-B/99, de 23 de Setembro;

(v) PAN Park desde 2008.

Amigos e camaradas: é um dos recantos do nosso querido Portugal que é peciso conhecer, divulgar, amar e proteger... Os valores naturais e culturais do PNPG devem inspirar-nos e ajudar-nos a resistir melhor ao pessimismo com que acabamos o ano velho e ao ceticismo com que nos preparamos para enfrentar o novo ano...

Terras de Bouro, 28/12/2012

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Nota do editor:

Último poste da série > 27 de dezenbro de 2012 > Guiné 63/74 - P10868: Memória dos lugares (202): Cacheu, Natal de 1964 (António Bastos)

Guiné 63/74 - P10874: Parabéns a você (517): Luís F. Moreira, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 2789 (Guiné, 1970/72)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 27 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10867: Parabéns a você (516): José Pedro Neves, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 4745 (Guiné, 1972/74)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10873: Memórias de Jolmete (Manuel Resende) (3): Alferes, temos que tramar o Capitão

BCAÇ 2884 - MAIS ALTO
CCAÇ 2585 - AQUELA MÁQUINA


MEMÓRIAS DE JOLMETE (3) 

“Alferes, temos que tramar o Capitão” 

(Esta estória tem como objectivo fazer uma pequena homenagem ao DANDI)

Manuel Resende

O nosso Capitão, António Tomás da Costa, já nos tinha prevenido durante o IAO, no Pragal, que seria promovido a Major em Agosto de 1969, e que por esse motivo teria de deixar a Companhia. Ele era do Quadro portanto as promoções tinham data certa. Teríamos de nos mentalizar que iríamos ter outro comandante durante a nossa comissão.

A Companhia 2585 chegou a Jolmete a 17-05-69, e após o tempo de sobreposição com a 2366 ficamos entregues a nós próprios, e fizemos a guerra à nossa maneira, como já foi dito noutra publicação neste, em “A MINHA GUERRA”, Poste 7151 do Blog Luís Graça & Camaradas da Guiné. Praticamente saíamos para o mato todos os dias e patrulhávamos sempre os possíveis trilhos por onde o IN poderia vir para atacar o quartel, ou trilhos de passagem de grupos, pois a nossa zona era essencialmente de passagem da Coboiana para Ponta Nhaga. Normalmente levávamos um grupo de combate, parte do Pelotão de Caçadores Nativos Nº 59 e alguns elementos do Pelotão de Milícias Nº 128 comandados pelo Cajan. Periodicamente, ou quando havia indícios de passagem de colunas do IN, as operações eram a nível de dois grupos de combate, Pelotão de Caçadores Nativos e Pelotão de Milícias quase sempre comandados pelo Dandi. Não é minha intenção fazer aqui um relato das operações que fizemos, mas somente salientar a brincadeira que por iniciativa do Dandi e com a nossa colaboração fizemos ao nosso comandante de companhia que estava prestes a abandonar Jolmete para ir para o QG em Bissau já como Major.

Estávamos em fins de Julho/princípios de Agosto de 1969, quando o Dandi veio ter comigo e comentou: - Alferes, então o Capitão nunca saiu para o mato e quando faz o relatório das operações assina sempre como comandante da operação, e Alferes não diz nada? Um dia destes temos de o levar a dar uma volta. Aceitei de imediato a sugestão, mas disse-lhe que tinha de ser uma “volta” sem riscos, pois a nossa consideração por ele era grande, pelo menos da minha parte.

Falei com o Alf. Marques Pereira, comandante do 3º grupo de combate e com o Alf. Mosca, comandante do pelotão de Caçadores Nativos Nº 59, e os três juntamente com o Dandi organizamos uma operação, à partida sem riscos de contacto com o IN, mas que seria, logo pelo fresquinho da manhã atravessar uma bolanha com água pela cintura, daríamos uma volta ao quartel e regressaríamos por outro lado atravessando outra bolanha. Esta foi a maldade sugerida pelo Dandi. Nada de mal, mas que serviria para ele ter uma noção do que custava sair para o mato todos os dias.

A primeira parte da operação e a mais importante seria convencer o nosso Capitão a aceitar ir comandar no terreno. Já não me lembro dos pormenores, mas foi-lhe dito que era uma operação de caça, e ele aceitou. Os Furriéis também foram informados da operação a brincar, mas íamos preparados para o pior, pois eventualmente poderia haver algum contacto. O nosso Capitão apresentou-se cedinho, equipado a rigor de G3 e cartucheiras à cintura, tudo como mandava a sapatilha. Ele tinha uma caçadeira calibre 12 automática de 5 tiros e pediu a alguém para a levar, dizia ele que no regresso podia aparecer alguma gazela. Esta arma era usada pelo Dandi para caçar, e foi-lhe oferecida antes da sua partida para o QG em Bissau. Andados alguns quilómetros por trilhos e corta mato, já com a roupa seca no corpo após o atravessamento da primeira bolanha, chegámos a um pequeno descampado com um bom embondeiro a fazer sombra. Estávamos numa zona em que, pela nossa experiência, não haveria problema, e não houve. Eu, para esta operação e pela primeira vez, até levei a minha máquina fotográfica, e seguia relativamente perto do Capitão. O Dandi em vez de ir na frente, como costumava, ia como guarda-costas dele. À ordem de parar para descansar todo o pessoal emboscou. Diz-me ele: ó Ferreira, (eu na tropa era Ferreira) tire uma fotografia para recordar esta operação. Chamou os Alferes e alguns Furriéis que estavam mais próximos para ficarem na foto. Estava eu a fazer o enquadramento e diz-me ele: alto, não tire ainda para eu compor as cartucheiras, quero ficar com um ar de guerreiro.

Acabado o descanso continuamos o nosso percurso, e eis senão quando aparece outra bolanha. Mais uma vez água pela cintura. Diz o Capitão: ó Dandi, então não havia outro caminho para evitar a bolanha? É que isto de secar a roupa no corpo é muito desconfortável… Não me lembro quantas fotografias eu tirei nesta operação, mas a única que tenho é a Nº 1, já anteriormente publicada, mas agora com legenda. Este pequeno episódio foi verídico no seu essencial, embora 43 anos depois a memória já não ajuda nos pequenos pormenores.

Foto Nº 1 – Operação de patrulhamento comandada pelo Sr. Cap. Tomás da Costa 1- Cap. Tomás da Costa, 2 - Dandi, 3 - Alf. Joaquim Mosca, 4 - Alf. Marques Pereira, 5 - Fur. Meireles, 6 - Fur. Guarda

Foto Nº 2 – Jantar de festa no refeitório dos soldados 1- Cap. Tomás da Costa, 2 - Alf. Joaquim Mosca, 3 - Alf. Ferreira (eu), 4 - Fur. Meireles, 5 - Fur. Furtado (enfermeiro)

Foto Nº 3 – Um cafezinho depois do almoço - 1 - Cap. Tomás da Costa, 2 - Alf. Godinho, 3 - Alf. Marques Pereira

Foto Nº 4 – Cap. Tomás da Costa com a esposa e as duas filhas numa visita a Jolmete

A seguir vou apresentar todas as fotografias que tenho tiradas com o Dandi. No meu tempo ele tinha sete esposas e sempre com ânsia de arranjar mais, pois quantas mais tivesse maior era o seu estatuto social, dizia ele. Teria cerca de 25/30anos de idade e era Natural do Jol, portanto, em princípio seria Manjaco. Os proventos dele resumiam-se à caça que fazia e vendia à Companhia e às saídas para o mato, pois ele recebia por cada operação que fazia. Era uma pessoa leal, não me lembro de qualquer desavença que possa ter havido. O seu nome era ”DASSIM DJASSI”. Numa das visitas que o Sr. General Spínola fez a Jolmete, prometeu que o iria propor para uma Cruz de Guerra, mas segundo as minhas últimas informações ele talvez nunca a teria recebido. Teve sim umas férias em Lisboa, mas sinceramente não sei de pormenores.

Não me admiro nada que, devido às burocracias militares, não tenha sido possível atribuí-la, pois nem sempre o QG fazia o que o Sr. General queria. Veja-se o caso das graduações de Alferes em Capitão, que deram que falar naquela altura. Na minha Companhia o Alferes Almendra, graduado em Capitão e comandante da mesma durante cerca de 18 meses, hoje Coronel reformado, depois da saída do Sr. Major Tomaz da Costa, na altura do regresso à Metrópole, ainda recebia o vencimento de Alferes e sem aumento. Lembro que em Outubro de 1969 houve aumentos de vencimentos. Coisas de Marcelo Caetano. Claro que depois tudo terá sido regularizado, mas não era como o Sr. General queria. Lembro que no jantar de despedida no palácio do Governo, o Sr. General Spínola falou no assunto e disse ao Cap. Almendra que iria receber até ao último centavo, nem que para isso tivesse de pagar do seu bolso.

Foto Nº 5 – Dandi junto aos memoriais da 2366 e 2585

Foto Nº 6 – Eu com o Dandi e uma das esposas

Foto Nº 7 – Eu com o Dandi em pose para a foto

Manuel Resende
ex-Alf Mil da CCaç 2585/BCaç 2884,  Jolmete, Pelundo e Teixeira Pinto, 1969/71
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 6 de Junho de 2011 > Guiné 63/74 – P8377: Memórias de Jolmete (Manuel Resende) (2): A Fundação nacional dos apanhados do clima

Guiné 63/74 - P10872: Notas de leitura (443): "Diário da Guerra Colonial - Guiné 1966-1968", por Luís de Matos (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Outubro de 2012:

Queridos amigos,
Foi graças ao nosso confrade Carlos Pedreño Ferreira que tive acesso a este diário escrito por um furriel miliciano da CCAÇ 1590.
É um documento que encerra uma nítida preocupação por ver e comentar, à cadência de uma grande saudade da namorada, dos familiares e da sua terra, Boa Nova, para os lados de Évora.
Serão meses à volta de Bissau e depois andanças que vão de Ingoré até ao Sedengal.
Somos tomados pelo seu tom despretensioso, desafectado, pela sua tentativa de compreender onde se situa aquela guerra para a qual ele não tem entendimento, aos poucos fica-se a perceber que aqueles guerrilheiros são contumazes, passeiam-se por toda a área e guerreiam prontamente quando detectados, por isso eles lhe merecem respeito.

Um abraço do
Mário


Diário da guerra colonial, por Luís de Matos

Beja Santos

Mais um diário da Guiné, em edição de autor, 2009. Começa por nos esclarecer que “Ao longo de mais de 20 meses e meio de permanência na Guiné, fui escrevendo uma espécie de diário em agendas, folhas de papel avulso, pacientemente num lenço de seda com cerca de 1 metro quadrado, com uma flor em cada canto e uma ao meio, estampadas, e quadrados brancos e verdes. Era nestes quadrados que tomava alguma das minhas notas”. Embarca em 3 de Agosto de 1966, é um furriel da CCAÇ 1590, pertencente ao BCAÇ 1894. Em 7 de Agosto, o “Ana Mafalda” fundeou no Porto Grande na Ilha de S. Vivente. Chega a Bissau a 11 de Agosto, a sua companhia fica instalada na Amura. A 14, o diário entra em atividade: “Hoje já escrevi uma carta à minha namorada. Ontem também escrevi outra. Escrevendo, sempre ficamos mais perto de quem gostamos muito”. Experimenta a vida noturna de Bissau e acorda na ressaca. É um alentejano que preza a diversão e as coisas da mesa, como escreve a 20 de Agosto: “Hoje estou livre que nem um passarinho. Não tenho nada para fazer a não ser comer umas ostras e beber um vinho verde ou umas cervejas”. A 26 a companhia parte para Mansoa, chegou a hora do treino operacional, vai detalhando com regularidade as saídas, aonde se realizam as patrulhas, as primeiras participações em operações. Em 15 de Setembro, vai numa escolta de reabastecimento até Mansabá e depois a Bissorã. A 20 de Setembro, os acontecimentos precipitam-se, o seu grupo de combate foi destacada para a segurança ao aquartelamento em Bissorã, partem em coluna para ir buscar lenha, vai apeado e conversa com o soldado condutor Matos: “Ó meu furriel, sente-se aqui ao meu lado, sempre vai um bocadinho mais descansado”. Ele responde: “Não. Eu nunca largo os meus homens. Sabe, nem me sentia bem eu ir aí montado e os moços a pé. Mas olhe, você é que pode ir andando, e quando chegar ao cruzamento, o meu amigo espera por nós, e uma vez que já picámos estrada é só andar rapidamente para o hotel”. O condutor adiantou-se não mais de 50 metros. Nisto, rebenta uma emboscada. Morreu o soldado condutor Matos, um primeiro-cabo apontador de metralhadora ficou gravemente ferido. É necessário remover os feridos, a emoção aflora: “Numa situação como esta, a gente vai buscar forças nem que se nas estrelas ou no fim do mundo. Com lágrimas de revolta, mãos sujas de sangue daqueles pobres rapazes, começámos a recolher o que foi possível do resto do corpo do infeliz condutor para juntarmos ao que restava no assento da viatura, ainda a fumegar”. Não conseguiu dormir e versejou.

Nos dias seguintes, continua a falar da morte do soldado Manuel Matos Almeida, natural de Vila Maior, S. Pedro do Sul, pertencia à CCAÇ 1419. Nos dias seguintes anda por Mansoa e presta serviço no quartel da Amura. Os seus registos decorrem num tom de acalmia mesmo com idas ao Olossato e a Farim. Nesta localidade, em 25 de Outubro, ele observa: “Fomos jantar batatas com bacalhau, regadas com uma pinga para nos anestesiar das picadas dos mosquitos. E então os nossos soldados, todos oriundos do norte, habituados aos trabalhos das vinhas, onde o garrafão está sempre à mão, não se faziam esquisitos”. Em 20 de Novembro, deixa-nos uma nota de embevecimento pelo trabalho de um artista: “Aqui na Amura está instalada a CCS do meu batalhão, a ele pertence o furriel miliciano Eduardo Magalhães e Silva, que é de Lisboa. É um moço franzino, de baixa estatura, cabelo preto, ligeiramente ondulado e penteado para trás, de boas falas e correto nos atos que pratica. O moço é um artista. Admiro o seu trabalho e dou-lhe muita atenção. Gosto de o ver pintar. Sentamo-nos cá fora, próximo dos nossos quartos, e aí o Magalhães que trouxe a paleta, papel, tintas e pincéis de Lisboa, rapidamente pinta três aguarelas lindas. Disse-lhe que as guardarei para sempre e um dia as terei em lugar de relevo em minha casa”.

Chegou a hora da partida para o Ingoré. Em 29 de Novembro, refere-se aos seus homens: “Quando falo com os homens da minha secção, que são 10 e da minha idade, rapazes altamente voluntariosos, prontos a dar tudo por tudo, tento sempre incutir-lhe algum ânimo, coragem, disciplina e respeito pelo próximo”. Continua profundamente observador: “Fiquei a saber que à saída de Ingoré para o Sedengal, do lado direito, há um comerciante branco chamado Ferreira da Silva, que compra e vende de tudo. Vive com a mulher e tem duas filhas a estudar em Lisboa. Tem por hábito sentar-se num cadeirão de bambu, no alpendre da residência, junto à loja, com os pés dentro de uma bacia com água e um preto sentado num banco à sua frente, a lavar-lhe os pés. Hoje tive a oportunidade de lhe confirmar isso mesmo”. Vão começar as andanças à volta de Ingoré. Em 16 de Dezembro, o comandante da companhia informa-os que tinha recebido cartas de vários colégios de Lisboa a incentivar os militares a passarem o Natal feliz e quem respondesse em quadras habilitava-se a um prémio no valor de 100 escudos. Luís de Matos irá ganhar esse prémio. As operações, as picagens, os patrulhamentos, sucedem-se. Envia cartas muito ternas à namorada. Em 28 de Janeiro, o diário é farto, é a descrição de uma batida e assalto à base de Sano, situada dos dois lados da fronteira. À entrada do acampamento o guia foi atingido com um tiro numa das pernas, travou-se um intenso tiroteio, passa-se a fronteira, na perseguição dos guerrilheiros: “No rescaldo da operação, apreendemos uma metralhadora, várias granadas de mão, cunhetes de munições, relógios de despertador e outro material, nomeadamente caixas de injeções de fabrico russo e chinês. Vou guardar uma carteira de injeções como recordação. Enquanto fazíamos uma pequena pausa, surgiu inesperadamente da mata um elemento inimigo armado de catana. Vinha direito a mim. Valeu-me o soldado Gomes, da minha secção, que estava atento e agiu com grande rapidez, foi a catana daquele guerrilheiro que ofereci ao capitão”. É informado de uma emboscada na estrada de S. Domingos/Suzana, onde morreu um furriel miliciano sapador, Dinis Viegas, que ele considerava um dos seus melhores amigos. Luís de Matos cobiçava a Canon de Dinis. E comenta: “Quando a notícia da sua morte chegou ao Ingoré, recebi-a com muita tristeza, consternação e lágrimas”. O diário do dia 2 de Fevereiro será reservado à exaltação desta amizade.

O mês de Fevereiro não dá tréguas: pela estrada de Barro até ao cruzamento de Canja e daqui a Uanquili e Maca; o destacamento de Sedengal é flagelado; patrulhamento das regiões de Carabane Balanta, Corombol e Santa Maria; patrulhamento ofensivo até Canchungo, junto à fronteira do Senegal; operação à base de Surance, a meio caminho entre Ingoré e Barro; batida à área de Sinchã Mamadu, Saiancototo, perto de Bigene. Em Março, vai a caminho de S. Domingos, pernoitam no destacamento do Cacheu. Escreve: “Assisti a um interrogatório feito pela PIDE a elementos inimigos. Tanta brutalidade feita a um ser humano, meu Deus. Sai daquela sala com vontade de vomitar e todo suado”. Descreve S. Domingos: “Ao fundo o cais, e ao cimo, à saída, a estrada para Ziguinchor. Na rua principal, à direita, fica a casa do administrador e do lado esquerdo o edifício dos correios. O quartel fica do lado esquerdo junto à mata e a pista de aviação". Seguem para Sonco, uma antiga tabanca abandonada, ali não existe nada, apenas uns buracos escavados que poderão servir de abrigos. A seguir vão fazer patrulhas entre S. Domingos e a fronteira do Senegal. O Sonco torna-se rotina, ele descreve o inferno. Nos intervalos, anda à procura de petiscos e diverte-se com os camaradas no Rio Grande S. Domingos.

“Lenço de seda com cerca de um metro quadrado, com uma flor em cada canto e uma ao meio “estampadas” e quadrados brancos e verdes. Era nestes quadrados que tomava alguma das minhas notas”

(Continua)
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Nota de CV.

Vd. último poste da série de 24 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10857: Notas de leitura (442): Três estudos sobre a Guiné Portuguesa: A população de Cacine, a cestaria e o totemismo (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10871: Pedaços de um tempo (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CART 3493) (5): O whisky não era para todos

1. Mensagem do nosso camarada António Eduardo Ferreira (ex-1.º Cabo Condutor Auto da CART 3493/BART 3873, Mansambo, Fá Mandinga e Bissau, 1972/74), com data de 23 de Dezembro de 2012:

Amigo Carlos Vinhal
Envio-te este pequeno texto que publicarás se entenderes conveniente, caso contrário tudo bem. Aproveito também para desejar a todos ex-camaradas e família boas festas e, particularmente, para aqueles que se encontrem em dificuldades com problemas de saúde, que o próximo ano seja melhor. Desejo extensivo, a todos quantos visitam o blogue.


PEDAÇOS DE UM TEMPO

5 - O WHISKY NÃO ERA PARA TODOS

Por razões várias nem todos podiam frequentar restaurantes ou pensões, e o uísque também não chegava a todos…

Este texto vem a propósito de uma conversa que tive há dias com um amigo meu, que sendo ainda jovem, de vez em quando também faz uma visita ao blogue tentando perceber um pouquinho daquilo que foi a nossa passagem pela guerra algures, em terras da Guiné.

Dizia -me ele: "Vocês quando vinham a Bissau ou a Bafatá tiravam a barriga da miséria e, mesmo no mato também parece que não faltava o uísque". Procurei dizer-lhe que não era bem assim. Havia também aqueles, que quer fosse no Império, no Ronda, no Bento ou outros, isto em Bissau, a sua bebida ficava-se por uma bica e um copo de água. Mas aquela observação feita por alguém que não conheceu o que por lá se passava e, vivendo nos tempo de agora também não será muito fácil de perceber.

Levou-me a refletir um pouco sobre aquilo que por vezes aparece em alguns postes no blogue a respeito do uísque, de tirar a barriga da miséria, ou até de uma visita às meninas generosas, por isso, decidi falar sobre os mesmos.

Efetivamente parece que havia quem em algumas companhias tivesse acesso a várias garrafas de uísque a bom preço ao longo da comissão. Pela parte que me toca, tive direito a uma, ou duas… Quando acontecia por razões várias alguns irem ou passarem por locais onde existiam os ditos restaurantes ou pensões, a maioria fala em Bissau e Bafatá, mas havia outros sítios, onde isso de facto acontecia. Só que os frequentadores desses locais eram quase só furriéis, sargentos e oficiais. Ou então, aqueles que iam recebendo umas cartas com umas notas em escudos que lhes eram enviadas da Metrópole, porque os outros… mesmo os mais ”poupados” raramente juntavam dinheiro que lhe permitisse grandes aventuras.

Porque isto de igualdade na tropa naquele tempo (em algumas coisas) ficava-se só pela cor da farda. Um soldado se não estou errado ganhava 960$00, o cabo que era o meu caso 1.200$00, (eu tinha mais 150$00 o chamado prémio de viatura) dessa verba alguns mandavam pelo menos metade para a Metrópole. Depois seguiam-se os outros, um furriel ganhava várias vezes mais que o soldado, e os oficiais sempre em crescendo. Daí a razão de não serem muitos os soldados que frequentavam esses sítios. Chegou a acontecer a alguns, descuidarem-se e acumularem dívidas na cantina (com a complacência do cantineiro), passado poucos meses de lá estarem, parte do ordenado na altura de receber, era logo descontado para amortizar a divida.

O facto de várias vezes o nome de restaurantes e pensões mais frequentados assim como das marcas de uísque, aparecerem em alguns postes, deve-se à esmagadora maioria dos que escrevem para o blogue terem pertencido ao grupo de sargentos e oficiais. Quanto ao número de ex-soldados que vamos escrevendo somos uma minoria. É minha intenção com este pequeno texto tentar contribuir, dentro do possível, para esclarecer aqueles que nasceram no tempo em que não é obrigatório ir à tropa, mas que, por influência de ex-combatentes de vez em quando fazem uma visita ao blogue, só que mesmo assim, continuam com grandes dificuldades em perceber como foi possível resistir durante tantos anos, às terríveis condições que a esmagadora maioria de nós passou na Guiné, e também nas outras províncias, o que é normal. Pois quem quiser perceber minimamente o porquê das coisas terem acontecido assim, terá que estudar o assunto cuidadosamente recuando no tempo e “ver” como era o nosso País e a sua gente por essa altura.

Existiam algumas condições “naturais” que em muito contribuíam para que isso tenha sido possível. A começar pelo atraso cultural da esmagadora maioria da população em consequência do analfabetismo que se fazia sentir, mesmo alguns dos considerados cultos… Depois a história, que da forma como nos era contada levava muitas vezes as pessoas a construir ideias que não raramente tinham pouco a ver com a verdade… Outra e a não menos importante, a religião, que de algum modo baralhava ainda mais as coisas. E claro, a situação política que em grande parte, era consequência das primeiras… Esta é a minha opinião, haverá outras, mas ainda bem que é assim, sinal que cada um se pode expressar livremente.

Permitam-me, “um pequeno desvio dos tempos de Guiné” a propósito de igualdade na tropa, o que me faz ainda hoje olhar com alguma desconfiança quando oiço falar em igualdade. No dia a seguir a ter assentado praça, estávamos todos meio desalinhados junto daquele que viria a ser o comandante do nosso pelotão, o então alferes Lourenço Rosa, isto no Trem Auto em Lisboa, quando um dos rapazes do grupo, dirigindo-se ao oficial em questão tratou-o por senhor alferes, a que este respondeu, qual senhor, aqui não há senhores somos todos camaradas! Eu ouvi e registei a conversa, só que no dia seguinte fomos começar a aprender a conhecer as divisas, galões, e por ai acima, depois a forma de tratar os tais que não eram senhores mas sim camaradas. Foi então que fiquei a saber, que um soldado com mais três meses de tropa que eu, já era tratado por nosso pronto, seguindo-se o nosso cabo, o meu furriel, meu sargento, vossa senhoria e por ai acima. Aí eu pensei… mas que igualdade é esta em que todos mandam em mim? Por isso quando oiço falar em igualdade penso sempre. Será como a da tropa?…

Já agora aproveito para desejar Boas Festas aos meus superiores do pelotão no tempo da recruta, estejam eles onde estiverem… Não mais os voltei a ver. Eram todos bons camaradas: alferes Lourenço Rosa, Furriel Chumbinho, e os soldados Almeida e Policarpo Gomes.

António Eduardo Ferreira
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 14 de Agosto de 2012 > Guiné 63/74 - P10262: Pedaços de um tempo (António Eduardo Ferreira) (4): Hoje vais pagá-las todas!!!

Guiné 63/74 - P10870: Os melhores 40 meses da minha vida (Veríssimo Ferreira) (19): 20.º episódio: Memórias avulsas (1): Eu, turista em Mansabá

Guiné > Região do Oio > Mansabá > Setembro de 1965 > O fur mil Veríssimo Ferreira, CCAÇ 1442, 1965/67.

Foto: © Veríssimo Ferreira (2012). Todos os direitos reservados


1. Mensagem do nosso camarada Veríssimo Ferreira (ex-Fur Mil, CCAÇ 1422/BCAÇ 1858, Farim, Mansabá, K3, 1965/67), com data de 22 de Dezembro de 2012, com a sua primeira memória avulsa, a segunda sub-série que assim começa, integrada nos melhores 40 meses da sua vida, que nós continuamos a acreditar que foram:

Primeiro que tudo, votos de Boas Festas e desejos que sejam passadas com alegria e famílias presentes.

Aí vai uma brincadeira mais, pois que apesar de tentar, ainda não chegou a altura para enveredar por coisas sérias, embora todos os locais e ocorrências sejam verdadeiros. Contados assim vou conseguindo recordar, todavia e porque na realidade, se afastam, tais escritos daquilo que o Blogue deseja para memória futura, caberá aos amigos editores, decidirem sobre a publicação ou não.
Publicando, penso conseguir mais seis ou sete episódios mas sem prazos definidos, porque também o tempo vai rareando e o intelecto reduzido, mais não permite.

Abraços
Veríssimo Ferreira


OS MELHORES 40 MESES DA MINHA (20)

GUINÉ 65/67 - MEMÓRIAS AVULSAS (1)

EU, TURISTA EM MANSABÁ - SETEMBRO DE 1965

Chegado da Metrópole há 10 dias e poisado que estava, confortavelmente convenhamos, no Forte da Amura em Bissau, correram comigo dali p'ra fora e a fim de não me sentir só, acompanhou-me também a Companhia 1422.

Parámos para almoçar numa adega típica em Mansoa e o repasto ...o recheio das latas da ração de combate.

Lá seguimos depois lenta e vagarosamente, admirando a paisagem circundante à estrada enlameada e esburacada, e também porque ali deveria ser, ao que pensei então, a carreira de tiro da auto-metralhadora Daimler, que seguindo à frente da coluna, se ia exercitando fazendo intermitentes disparos para a floresta.

Até que... e quando já perto daquela que reconheci mais tarde, ser uma bela terra para o turismo rural, conhecida por Mansabá City, deparámos com uma ponte, ou melhor, com o que dela restava, já que agora tinha apenas o rio e um pilar em cada margem. A destruição do restante havia sido há pouco e nós, assarapantados e inexperientes tivemos que puxar pela moleirinha para resolver o caso.

Fumegando ao lado, estava uma serração parcialmente a arder, onde requisitámos umas grossas tábuas, e lá se desenrascou a coisa, pese embora a pressão duma emboscada com que entretanto nos começaram a brindar.

Repelida foi, com o apoio dos aquartelados donos do local, que e ao ouvirem o tiroteio e sabendo que estávamos para chegar, apareceram e lá nos safaram do aperto.

Não gostei, lá isso não, da maneira como nos olhavam. É que nós íamos e eram os primeiros aprumados militares, que viam com a última moda das passerelles de então, ou seja de camuflado (blusão, camisa, calça e capacete na cabeça evidentemente) e eles de caqui amarelo e sujo, calções rotos e camisa com buracos, uns com bivaque enfiado no local onde se deviam usar as divisas, outros sem camisa nem bivaque, enfim uma autêntica rebeldaria do caraças.

A razão do seu espanto, olhando-nos, era pois por via dos nossos paramentos coloridos, onde sobressaía o verde asseportingado, resultando saí que me chamaram "periquito" o que me enervou bastante e só não dei, logo ali, início a uma sinfónica luta urbana e com muita pancadaria à mistura, porque entretanto me apareceu um velho amigo lá do meu povo (por acaso eu até lhe tinha namorado uma prima, à data ela com 13 e eu 14 anos) o Manel de Mora, com quem ainda hoje convivo na almoçaral reunião anual dos Combatentes na Guiné, nascidos e criados na Ponte de Sôr.

Depois já no hotel, bebemos uns púcaros, mostrou-me as instalações e o SPA, os canhões e o WC e até o campo de futebol no meio do aeroporto e riu-se quando lhe perguntei se aqueles buracos com escadas para baixo eram as entradas do "Metro", mas não..., respondeu: "são os abrigos pá".

Recordámos a santa terrinha... as miúdas que nos esperavam ansiosamente... deu-me uma das suas fardas velhas que usei vaidosamente logo no jantar e o menu dessa noite ali no rancho geral, foi a delícia duma massa de cotovelo com uma espécie de carne rija que nem cornos e só possível d'esmoer se bem regada com tinto... mais tinto e ainda tinto.

A esta heróica Companhia "OS ÁGUIAS NEGRAS", faltava apenas um mês para que regressassem a casa e o contentamento pela nossa presença, para que os substituíssemos, era bem visível, ao mesmo tempo que nalgumas, duras e repletas de sofrimento, faces se notasse contudo o sentimento de não saber ainda se "quero ou não partir".

O seu combate era agora: mostrar-nos as zonas limítrofes das quezílias; apresentarem-nos aos antagonistas e indicarem-nos como lhes tratar da saúde e sobreviver.

Tudo indicava pois, que seria a minha CCAÇ a assentar arraiais por ali e pacificar as hostes e eu até já sabia manobrar e bojardar com aquela espécie de canhangulo mas muito maior e que tinha duas rodas de pneu, enormes com'ás dos tractores e a que chamavam "O Obus". Só que não...

Quando já tínhamos como nossos, os bens doados incluindo o bar e seus bojudos garrafões cheios com 14 litros, os Whisky's, coca-colas, águas tónicas e gin's, cervejolas e afins... eis que chegam novas ordens e foi a 1421* a ficar na posse de tudo isso (tudo não... que metade mandei eclipsar) e mais das freguesias suburbanas.

E para não destoar da vestimenta que eles também usavam, voltei a vestir o camuflado "made in Legião Estrangeira", comprado na Feira da Ladra, em vez de no Casão Militar, onde custava o dobro dos escudos. Era bestial... bolsos por todo o lado... éclair's que fechavam mesmo e à prova daquela desalmada chuva.

Três ou 4 dias depois, convidam o meu pelotão a visitar Bissorã, terra de boas castas como comprovei nos dois dias em que me deixaram por ali estar, após o que me requisitam, pedindo atenciosamente, que vá provar a colheita do ano em Manhau.

Tanta mudança de código postal, começava a chatear-me e disso fiz menção a quem de direito.

Surgida que foi, a absoluta necessidade da existência em permanência, dum experimentado atirador enólogo de Infantaria com G3, sou então destacado e apenas com a minha Secção, para a Cooperativa do Pelundo.

Instalados ficámos na Tabanca, em casa do Ti Vicente, o Homem Grande, que muito bem nos tratou, obsequiando-nos com tudo o que de melhor tinha... "ele" foram galinhas... fracas... mé-més... porcos e vacas e nem sequer nos faltaram os... líquidos com ou sem álcool... com ou sem gás.

Ali conheci as famosas lavadeiras, que tudo lavavam e engomavam por apenas 30 pesos e se lhes dispensássemos o quinino das 5ªs feiras, elas até nos deixavam assistir... o que era porreiro mesmo pá... já que ver aquela "mama firme" a ir... a vir... a ir... a vir, era lindo... estimulante e fazia-me cá umas cuscusrrilhas que nem vos digo nem vos conto.

Eram jovens bonitas, que respeitei feito parvo e que me respeitaram infelizmente.

Mas eu seria lá capaz de trair a minha Caderneta Militar? qu'a páginas 14 e 15 diz isto: (quando leio até me comovo, pois embora não pareça, sou muito sensível) Diz isto, repito: "Nos termos do artigo 187 do R.D.M." PRIMEIRA CLASSE DE COMPORTAMENTO


Neste recorte da Carta da Província da Guiné (1961) vemos a RTO (Região de Turismo do Oio) com o seu principal empreendimento, o Morés SPA. Podemos ver ainda os diversos percursos turísticos tão do agrado da juventude dos anos sessenta e setenta.

(continua)
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Notas de CV:

- Legenda do recorte da carta publicada da responsabilidade do editor

- A CCAÇ 1421/BCAÇ 1857 substituiu em 15AGO65, em Mansabá, a CART 644/BART 645 - "Águias Negras"

Vd. último poste da série de 9 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10776: Os melhores 40 meses da minha vida (Veríssimo Ferreira) (18): 19.º episódio: Viva a peluda

Guiné 63/74 - P10869: Retomando o meu percurso no Pel Caç Nat 54 (José António Viegas)

1. Mensagem do nosso camarada José António Viegas* (ex-Fur Mil do Pel Caç Nat 54, Guiné, 1966/68), com data de 19 de Dezembro de 2012:


Retomando o meu percurso na Guiné

Depois dos 45 dias em Mansabá eis o Pel Caç Nat 54 de volta a Bissau. Já agora a composição do Pelotão:

Alferes:
Carlos Alberto de Almeida Marchã

Furriéis:
Arlindo Alves da Costa (Ferido em Combate)
Álvaro Valentim Antunes (Morto em Combate)
José Antonio Viegas

Cabos:
Coelho (Ferido em Combate)
Manuel (Ferido em Combate)
João Simão - Telegrafista

A restante composição era feita por Fulas, Mandingas, Papel e Olof.

Os poucos dias que estive em Bissau, foi para tomar contacto com a cidade, um dos sítios de encontro era o Café Bento, conhecido pela a 5ª Rep, onde encontrei amigos que nem pensava que estavam por aqueles lados.
Neste café sabiam-se as novidades todas do mato e também as histórias que contavam aos piriquitos.

Havia um pouco de tudo, aqueles que diziam que estávamos ali na guerra para defender os interesses da CUF que era representada pela Casa Gouveia, outros que diziam que ainda iam voltar situações piores que a Ilha do Como.

Os frequentadores assíduos do Café aconselharam-me logo que se quisesse bons livros era falar com o Sr. Bento, pois que certos livros a Pide ia lá buscar, mais tarde tive ocasião de presenciar.

Passados que foram estes curtos dias em Bissau, lá fomos embarcados nos barcos da Casa Gouveia, que iam levar abastecimentos a Bambadinca, e navegando rio Geba acima durante a noite, aconchegados da humidade no meio da carga.

Chegámos ao Enxalé pela manhã. As barcaças encostaram, não havia cais, fomos recebidos pela Companhia 1439 e pelo Pel Caç Nat 51 que já estava naquele aquartelamento.

Fui encontrar o pessoal da CCAÇ 1439 um pouco desmoralizado pois um mês antes, em Outubro, tinha rebentado uma mina em Mato Cão, na ida houve um primeiro rebentamento que pulverizou um soldado açoriano, e na volta outro rebentamento que resultou na morte do Furriel Mano.
Esta Companhia era comandada pelo Capitão Pires, um grande homem e um bom operacional.

A nossa primeira saída foi para ir a Bissá onde o BCAÇ 1888 queria fazer um destacamento.
Fomos direito a Porto Gole e depois seguimos para Bissá, era impressionante ver aquele aldeamento, no chão balanta, no meio de uma grande clareira com bastante gado e celeiros de arroz enormes.

Lembro-me do Cap Pires dizer:
- Um destacamento aqui, no meio de um dos principais fornecedores do IN? Vai correr muito sangue.

E foi verdade, entre 1967 e 1968 muitos morreram e muitos ficaram feridos.

Regressámos com gado comprado para a Companhia.

Nesta mês de Novembro a nossa missão era fazer colunas a Missirá e a Porto Gole e umas operações na zona. Lembro-me do Alferes Zagalo de Matos que quando saía para as operações o seu ordenança trazia o camuflado impecável e as botas a brilhar, tinha que estar todo a rigor. Ainda há dois para três anos, quando o encontrei nas suas andanças teatrais, lhe falei nisto que ele recordou com saudade. (Já partiu).

Havia na Companhia um Furriel que era professor, o Farinha, dava aulas aos militares, a maior parte madeirenses, alguns analfabetos, e dava aulas numa escola improvisada no aldeamento, não esqueço a fome de aprender daquelas crianças.

1966 > A caminho do Enxalé

Cais do Enxalé > Eu, o Alf Mil Marchã e o Fur Mil Enf da CCAÇ 1439

Operação Vaca
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 23 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10852: Efemérides (113): Lembrando o ataque a Missirá em 22 de Dezembro de 1966 (José António Viegas)

Guiné 63/74 - P10868: Memória dos lugares (202): Cacheu, Natal de 1964 (António Bastos)

1. Mensagem do nosso camarada António Bastos (ex-1.º Cabo do Pel Caç Ind 953, Teixeira Pinto e Farim, 1964/66), com data de 22 de Dezembro de 2012:

Boa noite a toda a tabanca , e Boas Festas.
Sou o Antonio Paulo ex-1º Cabo do Pelotão Caçadores 953.
Companheiro Carlos as fotos são da noite de Natal de 1964, no Cacheu e o edificio é o que mais tarde ficou para os Fuzileiros.

 Boas Festas para toda a Tabanca.
António Paulo.


De óculos o falecido Tenente Pombeiro nosso comandante. Em pé o nosso ex-Furriel Alexandre, de Aveiro. Ao centro o 1º Cabo Serrão.

O pessoal a fazer as filhoses

Já no refeitório onde se vê o piriquito que foi render o Tenente (Alferes Camilo)

 No Refeitório

A fritar as filhoses na cozinha, que era na rua

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 15 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10806: Memória dos lugares (201). Bambadinca e o seu fontenário de 1948 (José Carlos Lopes / Humberto Reis / Libério Lopes / Luís Graça)

Guiné 63/74 - P10867: Parabéns a você (516): José Pedro Neves, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 4745 (Guiné, 1972/74)

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 23 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10849: Parabéns a você (515): A nossa amiga poetisa Felismina Costa

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Guiné 63/74 - P10866: Do Ninho D'Águia até África (38): ...a guerra e o amor (Tony Borié)

1. Trigésimo oitavo episódio da série "Do Ninho de D'Águia até África", de autoria do nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), iniciada no Poste P10177, desta vez dedicado a um desafortunado ex-combatente americano.


Do Ninho D'Águia até África (38)


...a guerra e o amor!

Na nossa linguagem de antigos combatentes, falamos de guerra, de pormenores, do comandante que às vezes tinha cara de comandante, do capitão que era mais comandante que o próprio comandante, do alferes e do furriel, que também eram comandantes, do soldado, que alguns comandantes pensavam que não serviam para mais nada, senão para receber ordens do comandante, do soldado Curvas, alto e refilão, que tinha algum desprezo pela vida, pois não tinha família, que a sua mãe abandonou em criança, e diziam que andava “na vida”, e revoltado, não acatava ordens e queria mandar e devia ser general, e portanto também devia de ser comandante, às vezes também falamos de coisas sem qualquer importância, até pensamos que está tudo dito com respeito à guerra que nós antigos combatentes vivemos, e quando se começa a ler um texto sobre este assunto, dizemos:
- Lá vem outra história de guerra, que eu já estou farto de saber!

Sim é verdade. E é verdade também que quem faz as guerras entre países, não é o povo, são os dirigentes desses países, o povo ama-se e compreende-se, e quer paz, um tecto para se abrigar, roupa para se agasalhar, trabalho, comida na mesa, a educação e o bem estar dos seus, mas os governos geram conflitos, contando sempre com apoio do povo, que formam os seus exércitos, para os defenderem.

E depois quem defende esse povo, que defendeu esses dirigentes, que tomando decisões, não muito acertadas, e apoiando-se sempre, nesse mesmo povo que queria a paz, um tecto para se abrigar, roupa para se agasalhar, trabalho, comida na mesa, a educação e o bem estar dos seus?
Simplesmente, ninguém.

Podemos escrever um milhão de páginas, que o resultado é sempre o mesmo, o povo luta e sofre.

E só para terminar, pois todos estamos fartos de falar de guerra, vejam as fotografias deste casal, onde este jovem do povo, que queria paz, um tecto para se abrigar, roupa para se agasalhar, trabalho, comida na mesa, a educação e bem estar dos seus, é agora um dos muitos sobreviventes e estropiados da guerra.

Perdeu as pernas e parte dos braços numa guerra que o Cifra não quer dizer, mas os amigos, antigos combatentes, quase já identificaram, pois sabem a procedência do texto, que representa o verdadeiro amor, o juntar de corações, a procura de partilhar paixões, desgostos e gostos da vida.

Ela carrega-o às costas para a praia, ajuda-o na sua reabilitação, o abraça com ar de felicidade, e lhe deu o “SIM” ao selar o seu casamento, pois ele é o seu amor, e não tem culpa de não ter parte dos braços nem pernas. Foi uma vítima de ter estado num momento menos feliz, num cenário de guerra, mas apesar de lhe terem destruído parte do corpo, tem uma coisa que ninguém lhe destruiu, nem tão pouco roubou, que é o seu coração!

Digam lá, não é bonito?
Bom ANO DE 2013 para todos, do Cifra amigo, e já agora sem guerras!










(Texto e ilustrações: © Tony Borié (2012). Direitos reservados) 
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 22 de Dezembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10844: Do Ninho D'Águia até África (37): Os Vinte Escudos da menina Teresa (Tony Borié)