sábado, 2 de novembro de 2013

Guiné 63/74 - P12242: Blogpoesia (358): Ele ensinou-nos a viver a sua ausência, / mas nunca com a saudade que temos dele (Juvenal Amado)


1. Mensagem do Juvenal Amado, com data de ontem:


Luis , Carlos, Virginio, Eduardo:  escrevi em memória do meu pai mas,  não querendo ultrapassar os limites em que cada um preste homenagem aos seus, dedico este texto a todos os nossos ausentes, Juvenal Amado.
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Nesta altura das nossas vidas em que  colecionamos retratos do passado, cumpre-se um ritual de ausência e saudade. Hoje é dia dos nossos que já partiram, mas que nunca poderemos esquecer.

Transmitir aos outros os nossos sentimentos,  sem pudor e sem reservas, é prolongar as memórias e não permitir que a sua passagem pelas nossas vidas se perca para sempre debaixo dos desafios do futuro.


Ali está para sempre  imóvel no meio de nós. 
Olhamo-nos numa pergunta muda, como é possível?
Esta dor indescritível, 
esta ausência que se anuncia, 
este vazio, 
este silêncio quase já sem lágrimas,
era o prelúdio da vida inteira sem ele.

Na casa ainda dele, 
arrancaram-se as portas dos lemes, 
subiram-no a pulso pelas escadas íngremes 
para que se cumprisse a sua última vontade. 
Velamos o seu corpo, 
na sua casa e no meio dos seus.

Dezenas de amigos passaram as portas escancaradas, 
subiram as escadas naquela noite fria de Janeiro, 
olharam o meu pai 
e cada um de nós 
como tudo se passasse de forma irreal, 
como se fosse uma pantomina trágica, 
em que cada um ocupava o lugar deixado vago 
com a sua partida desta vida.

Quantas conversas ficaram por acabar?
-Foi melhor assim! -
diziam-nos à laia de consolo.

Cada abraço que recebíamos 
era como uma prensa, 
esmagava-nos com a realidade, 
porque não há,  e nunca pode haver, 
conforto para o irremediável.

Tínhamos assistido ao último acto heroico daquele homem.

Conhecíamos as lutas, 
os seus sacrifícios, 
o seu amor, 
o seu profissionalismo, 
o seu acreditar inabalável, 
a sua enorme capacidade de pôr os outros primeiros, 
e acabamos por conhecer a sua capacidade de partir 
sem uma queixa, 
sem uma revolta, 
sereno 
e com a altivez de quem sabia há muito 
que aquele era um tempo que findava 
e sem retorno.

Estava com ele quando o médico desenrolou o verídico. 
Recebeu a terrível notícia como quem já sabia 
e, a sós, disse-me “isto fica entre nós”, 
como se fosse possível eu calar-me 
e carregar sozinho o peso da enorme desgraça 
que se abatia sobre nós.

Nós ainda tínhamos esperança, 
ele queria que nós a tivessemos 
e nunca estivemos tão unidos.

Ele ensinou-nos a viver a sua ausência, 
mas nunca com a saudade que temos dele.

Juvenal Amado 

[Fixação de texto: L.G.]
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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P12241: In Memoriam (166): Manuel Silvério, ex-2.º Sargento Miliciano da CCAÇ 2382 (Idálio Reis)

1. Mensagem do nosso camarada Idálio Reis (ex-Alf Mil At Inf da CCAÇ 2317 / BCAÇ 2835 Gandembel e Ponte Balana, Nova Lamego, 1968/69), com data de 1 de Novembro de 2013:

Já é muito raro, não deixar de ler diariamente o “Diário de Coimbra”. O do dia de hoje, na parte dedicada à necrologia, refere a notícia do falecimento do Manuel Silvério.

Mas de quem se trata? Para além de tudo, a de um ex-combatente da Guiné, que vim a conhecer em circunstâncias bastante fortuitas e que só a guerra sabia gerar.

Estava a minha Companhia sediada em Nova Lamego (2.º semestre de 1969), e por onde passava muita gente daquela zona do Gabú. Por lá, entre tantos, havia de passar o Manuel Silvério, provindo não sei donde, com destino a Bissau. Relembro que nos encontrámos na messe de oficiais, vinha fardado o alferes Silvério, e só esperava oportunidade de ter ingresso numa aeronave.

Passados alguns dias, porventura menos de uma semana, estando sentado no quartel à sombra de um poilão, ouço um cumprimento militar. Tentando indagar da sua proveniência, qual o meu espanto ao reconhecer o Silvério, mas na qualidade de 2.º sargento. Procurando tomar conhecimento da trama que lhe acontecera, foi lacónico, só me referindo que fora sujeito a um processo por indisciplina, e que o Comandante-Chefe o punira daquela forma.

Do seu destino próximo, nunca mais tive qualquer conhecimento.

Um dia, nos finais da década de 70, numa das principais ruas da cidade de Coimbra, casualmente encontro o Silvério. Tinha-se radicado nesta cidade, onde exercia as funções de delegado de informação médica.

Poucas vezes mais nos havíamos de reencontrar, e por escusa sua, nunca me deu a conhecer o que então lhe aconteceu na Guiné. Referiu-me já se ter esquecido desses tempos.

No Blogue, constato que o José M. Cancela, da CCaç 2382 (P6184 de 18 de Abril de 2010) procurava o paradeiro de antigos companheiros, entre os quais mencionava o 2.º Sargento Manuel Leitão Silvério, que fora substituir o Furriel Joaquim Gonçalo, ferido gravemente num ataque ao aquartelamento de Buba. Curiosamente, este Gonçalo é natural e vive no meu concelho - Cantanhede -, e que muito alegremente viria a reencontrar nessa Buba, onde a minha Companhia permaneceria de 8 de Fevereiro a 14 de Maio de 1969.

O tear da vida tecendo um destino, faz desaparecer prematuramente o Silvério. Nesta sua partida, talvez alguns de nós saibam aportar mais alguns pormenores deste seu fadado itinerário militar.

Notícia triste quanto brutal. Eis que uma folha de Outono tomba para sempre, deixando-nos mais pobres, pois a perda de um amigo é sempre uma fatalidade pesarosa. Curvo-me em silêncio à perenidade da sua memória.

Até sempre.
Idálio Reis
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Nota do editor

Último poste da série de 30 DE OUTUBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12223: In Memoriam (165): Sargento-Chefe na Reforma Fernando dos Santos Rodrigues, ex-2.º Sargento "Gato Preto" (José Martins / Arménio Estorninho)

Guiné 63/74 - P12240: Blogpoesia (357): Bendito sejas, meu paizinho (J. L. Mendes Gomes)


A Ti lembro…

por J.L. Mendes Gomes

[foto à esquerda, ex-alf mil, CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66; jurista, reformado]


De quem me havia eu lembrar
Senão daquele que um dia
Me deu meu ser.
Me pegou pela mão
E me ensinou a caminhar.

Me explicou o que era isto tudo
Neste mundo que se me abria.

Uma coisa linda!...

Foi sua mensagem.
Ficou-me gravada
E vive sempre até morrer.

Bendito sejas,  meu paizinho.
A força que me dás,
Ainda é fogueira acesa,
Sem apagar.
Que me aquece.
Neste hora de tanto gelo.
Tanto fumo negro…
Onde meus olhos
Ficam quase cegos.

Ouvindo Ó Mio Bambino caro [, de Giacomo Puccini], por Carmen Monarca [cantora lírica brasileira, n. 1979]

Berlim, 18 de Fevereiro de 2013 – 6h19m

[Fonte: Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes - Baladas de Berlim. Lisboa: Chiado Editora, 2013, p.224. Coleção Prazeres Poéticos] 

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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de outubro de 2013 > Guiné 63/74 - P12131: Blogpoesia (356): Foi no tempo... (António Graça de Abreu, ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74)

Guiné 63/74 - P12239: Os nossos seres, saberes e lazeres (59): Passagens da sua vida - 7000 milhas através dos Estados Unidos da América (6) (Tony Borié)

1. Em mensagem do dia 19 de Outubro de 2013, o nosso camarada Tony Borié (ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66), enviou-nos o 6.º episódio da narrativa da sua viagem/aventura de férias, num percurso de 7000 milhas (sensivelmente 11.265 quilómetros) através dos Estados Unidos da América, na companhia de sua esposa.





7000 milhas através dos USA - 6


Dissemos que dormimos em Deadwood, sim, fomos para a cama já passava da meia noite, e dormimos qualquer coisa, quando o barulho das festas e das motas acabou, já era alta madrugada.

O nosso destino a partir daqui era o Mount Rushmore, no mesmo estado de Dakota do Sul, assim tomámos o rumo do sul, atravessando a cidade de Rapid City, no mesmo estado de Dakota do Sul, que lhe chamam a “Gateway to the Black Hills”, ou “City of Presidentes”, onde habitavam os índios da tribo “Lakota Sioux”, antes da cultura do oeste ter chegado aquela área, que inicialmente era o nosso destino, pois estrategicamente situava-se quase no centro de todos os nossos locais de visita, e dizem que devido à sua localização, recebe milhares de turistas ao ano que se dirigem para Deadwood, Crazy Horse Memorial, Mount Rushmore, Devils Tower ou mesmo as Badlands.


Umas milhas mais, e chegámos ao Mount Rushmore National Memorial, que está localizado em Keystone, no estado da Dakota do Sul, e é uma montanha onde estão esculpidos os rostos de quatro presidentes dos Estados Unidos, sendo eles, George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Rosevelt e Abraham Lincoln, a ideia do pintor e escultor Gutzon Borglum, inicialmente, era para ser feito apenas um busto, mas houve muita indecisão em relação a qual deveria ser construído. Após a decisão do primeiro busto a ser construído, foram montados os primeiros andaimes em 1927, tendo demorado 15 anos para a obra ser terminada. O monumento é uma das atracções turísticas mais conhecidas do mundo, rendendo ao estado de Dakota do Sul, o cognome de “The Mount Rushmore State”, os gigantes rostos, medem de 15 a 21 metros de altura, e foram construídos com modernos instrumentos de engenharia, dinamite e martelos mecânicos, tudo isto a 150 metros de altura, na região de “Black Hills”.


Tem na frente da base da montanha uma pequena praça, com pilares e as bandeiras de todos os estados dos Estados Unidos, assim como salas onde é exibido filmes explicando a obra, museu das peças de ferramenta usadas na escultura e outras atracções.

Antes de entrar no Mount Rushmore National Memorial, atravessamos uma pequena ponte, considerada uma obra de arte, pois a sua construção é em madeira, mas com um arco gigante, que desperta a atenção do visitante.


O Crazy Horse Memorial, não fica muito distante, é na mesma área, com o GPS ligado, em pouco tempo estávamos no local. O Memorial consiste numa escultura na pedra da montanha, em homenagem ao famoso índio “Crazy Horse”, quando terminarem vai ser um monumento gigante, com planos para uma grande vila ou cidade na sua base, o autor da escultura Korczak Ziolkowski, que trabalhou na escultura de Mount Rushmore, depois de chegar ao entendimento com a pessoa que lhe sugeriu a escultura que era o chefe em vida dos índios Sioux, que sempre quis que a escultura fosse feita nas “Black Hills”, terra sagrada de Lakota, começou a escultura por volta de 1948, morreu em 1982, a sua esposa e os seus filhos continuaram a obra, vai com algum avanço. Dizem que todo o dinheiro realizado nas visitas e venda no local de artigos de artesanato são em favor da construção da escultura, neste local existem mesmo algumas oficinas de artesanato, onde algumas pessoas, oriundas de diferentes tribos de índios, vindas de outras regiões com por exemplo, do estado do Texas, do Arizona, do Novo México, do Nevada, do Wyoming, até de Montana, que ali trabalham, construindo objectos, fazendo esculturas, pintando quadros, com motivos que essas tribos usavam no dia a dia, centenas de anos atrás.



Ninguém sabe quando esta grandiosa escultura e toda a base, que será uma vila ou cidade acabará, mas prevêem mais de trinta, quarenta ou cinquenta anos, até ficar completa.

É uma visita que o Tony recomenda.


Ainda era de tarde, o sol ia alto, rumámos em direcção ao leste, a caminho do Atlântico, pela estrada número 90, parando no “Badlands National Park”, onde encontrámos pessoas que connosco se cruzavam em Mount Rushmore, no Crazy Horse ou até em Deadwood, e que tinham vindo de diferentes estados, já nos conhecíamos, e claro, falávamos palavras de circunstância, pedindo para tirar fotos juntos, e qual o melhor trajecto para chegar ao lugar tal, o que por ali havia mais para ver e outras coisas, que quem viaja gosta de saber. Aqui percorremos o parque, onde a terra tem uma dupla origem, por um lado o povo Lakota, chamava de “más terras”, e os caçadores franceses que habitavam a região diziam que “eram terras difíceis de atravessar”, estas terras são formadas por áreas raras mas intensas chuvas e escassa vegetação, que é uma perfeita receita para a erosão devastadora.


A paisagem é caracterizada por encostas inclinadas, terra solta e argila, facto que impede viajar confortavelmente por elas.

Continuámos rumo ao leste, viajando umas centenas de milhas, parando e dormindo na cidade de Mitchell, ainda em Dakota do Sul, onde havia dificuldade em arranjar hotel, onde a amizade criada em viajem com as tais pessoas conhecidas, e encontradas por diversas vezes nos mesmos locais, nos facilitou a informação para alojamento e comida, pois estando os hotéis, naquela cidade totalmente cheios, um desses casais, que viajavam naquelas potentes motos, e que já tinham reserva num hotel, para eles e para uns tantos casais companheiros, acomodaram-se como puderam em alguns quartos, cedendo-nos um desses quartos, que para eles estava reservado.

Boas pessoas, o pessoal das motos, regressavam a Chicago, partilhámos muita informação, comemos carne de búfalo grelhada e bebemos cerveja juntos, chamavam-nos de “Floridians”, porque éramos oriundos da Flórida, e nós depois de saber que eram oriundos da região de Chicago, chamávamos a essas simpáticas pessoas, “Al Capones”, e eles riam-se de contentes.

Tony Borie, Agosto de 2013.
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Nota do editor

Último poste da série de 19 DE OUTUBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12169: Os nossos seres, saberes e lazeres (58): Passagens da sua vida - 7000 milhas através dos Estados Unidos da América (5) (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P12238: Estórias cabralianas (82): Quando cabeças e rabos não são equivalentes, e nem sempre dois mais dois são igual a quatro: O Sitafá, as fracções e as sardinhas (Jorge Cabral)



Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Fá Mandinga > Pel Caç Nat 63 (1969/71) > Um bando de estômagos esfomeadas e sedentos para saciar...


Foto: © Jorge Cabral (2006) . Todos os direitos reservados [Edição de L.G.]


1. O alfero Cabral está quase a fazer anos!... A seis corrente...

E em vez de ser eu a dar-lhe uma prenda, foi ele quem, antecipando-se, ma deu a mim e a todos os demais leitores, seus fãs. E sempre foi a assim, desde que o conheço: generoso, desmedido perdulário, capaz de dar o corpinho a uma bajuda e ficar de tanga [, como se comprova na foto  à direita, retirada do seu álbum de recordações da vida castrense].

E já que faz anos, espero bem que este não seja mais um annus horribilis,  que é coisa que ele deveras não merece de todo... E que no próximo, finalmente, ele (e com ele todos nós) possa  ver a famigerada  luz ao fundo do tonel (ou, melhor, da garrafa)... Sim, por que quem viveu em Finete e em Missirá, a medida de todas coisas só podia a ser a garrafa (ou o bidão): a garrafa de uísque com água de Vichy ou de Perrier (nos bares seletos de Bambadinca) ou com a  água do Geba em bidão  (nas tascas do Cuor)... E quem não bebeu a água do Geba, nunca poderá entender a vida, o conteúdo e o continente das estórias cabralianas.

Pela minha parte, já tenho um prefácio, escrito há quatro anos, à espera que saia o livro das Estórias Cabralianas, tão ou mais desejado que El-Rei Nosso Senhor Dom Sebastião... Percebe-se a ansiedade dos seus fãs: afinal, na Guiné,  Cabral só havia um, o de Missirá e mais nenhum!... (LG)


2. Estórias cabralianas > O Sitafá, as Fracções e as Sardinhas
por Jorge Cabral

Em Missirá durante dois meses, estivemos sem abastecimentos. Época das chuvas, o sintex e os dois unimogues avariados .Ainda tínhamos conservas,mas faltavam as batatas, o vinho e o arroz para os africanos.

Um dia porém, o Pechincha (**) conseguiu fazer dos dois burrinhos, um, que andava. Fomos a Bambadinca, deixando a viatura, à beira da bolanha de Finete, que atravessámos até ao rio, o qual cambámos na piroga do Fodé. 

No Batalhão, lá nos abastecemos do essencial, tendo como de costume o Alfero matado a sede, no Bar dos Soldados, no Bar dos Sargentos e no Bar dos Oficiais… 

Pelo fim da tarde quando nos preparávamos para o regresso, apareceu o vaguemestre da CCS com uma oferta para o Alfero. Um petisco, seis sardinhas... Chegados a Missirá, o Alfero chamou o Sitafá (**), puto que vivia connosco desde Fá, entregou-lhe as sardinhas e disse-lhe:
–  Agora é que vou ver se aprendeste as fracções. Somos nove. Quero que todos comam a mesma quantidade. Depois de assadas, repartes  pelos pratos. Mas diz ao Teixeirinha (o cozinheiro), que as sardinhas são um aperitivo, uma entrada. Ele que coza batatas para comer com atum. 

Dito isto, o Alfero retirou-se para o seu abrigo, deitando-se na cama a ver se dissipava “alguns vapores”.  Nem cinco minutos passados, surgiu o Teixeirinha, pois não percebera o recado do Sitafá. 
– As sardinhas eram um aprovativo para comer na entrada? Mas em que entrada?

O Alfero explicou, frisando que deixasse o Sitafá distribuir as sardinhas. Depois adormeceu. Após duas horas de sono, dirigiu-se ao pequeno refeitório, não tendo  já encontrado ninguém, salvo o Sitafá a chorar;
–  Que aconteceu ? – perguntou o Alfero.
– Eu acertei, mas os Cabos começaram a discutir. Disseram que não podia ser,  que duas cabeças não eram iguais a duas barrigas, nem a dois rabos. Estragaram as contas, Alfero! (Ele dividira cada sardinha em três partes,  cabeça, barriga e rabo,  cabendo duas a cada um).
– Deixa lá,   Sitafá! Passaste a prova das fracções. Mas olha que eles também  tinham razão. Cabeças e rabos não são bem a mesma coisa…

Jorge Cabral
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 30 de outubro de  2013 > Guiné 63/74 - P12222: Estórias cabralianas (81): Em Vendas Novas, de ronda, na Tasca das Peidocas (Jorge Cabral)

(...) Em Janeiro de 1969, eis-me garboso aspirante na E.P.A. [Escola Prática de Artilharia], em Vendas Novas. Ao contrário dos outros aspirantes, encarregados da instrução no C.S.M. [, Curso de Sargentos Milicianos], eu fui colocado na Secção de Justiça e na Acção Psicológica, sendo ainda nomeado árbitro de andebol da Região Militar. (...) 

(**) Vd. postes de:

18 de dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9223: Estórias cabralianas (69): Onde mora o Natal, alfero ? (Jorge Cabral)

(...) Também houve Natal em Missirá naquele ano de 1970. Na consoada, os onze brancos e o puto Sitafá, que vivia connosco. Todos iam lembrando outros Natais.
Dizia um:
– Na minha terra…

E acrescentava outro:
– A minha Mãe fazia… (...)


5  de junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1816: Estórias cabralianas (23): Areia fina ou as conversas de Missirá (Jorge Cabral)

(...) Conheci muito bem o Alferes que esteve em Missirá nos anos de 1970 e 1971. Diziam que estava apanhado, mas penso que não. Era mesmo assim. Quem com ele privou em Mafra e Vendas Novas certamente o recorda, declamando na Tapada:
No alto da Vela
Fui Sentinela
de coisa nenhuma
Quem hei-de guardar
Quem irei matar…(...)

Guiné 63/74 - P12237: Convívios (547): Uma jornada de confraternização de ex-aspirantes milicianos que integraram o 3.º Curso de Rangers de 1967 (Idálio Reis)

1. O nosso Camarada Idálio Reis, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2317 / BCAÇ 2835, Gandembel e Ponte Balana, 1968/69, enviou-nos a seguinte mensagem.


Uma jornada de confraternização de ex-aspirantes milicianos que integraram o 3.º Curso de Rangers de 1967

Caríssimos camarigos e editores da Tabanca Grande. 

O pretérito sábado, dia 26, resplandeceu soalheiro, propiciando um dia bem ameno e agradável para que alguns elementos de um curso de Operações Especiais, do longínquo ano de 1967, havido em Lamego no CIOE, convergissem para a viriata cidade de Viseu, onde o nosso anfitrião e companheiro António Albuquerque, radiantemente nos havia de acolher na sua terra natal.

Foi o curso então formado por 70 garbosos militares, já mobilizados, e que após o seu término, se partiria para a Unidade mobilizadora. Por um inextricável conjunto de motivos de generosidade, que a estada num curso daquelas características sempre incute nos formandos, criou-se uma comunhão de afinidades imperecíveis, que haveria de determinar que soubéssemos notícias de cada, aquando do cumprimento da comissão nas 3 frentes da guerra.

Efectivamente, que haveria de sobejar em alguns, mesmo depois do ciclo da tropa, laços de amizade que não se esvaeceram.

A guerra de África haveria de ceifar 3 deles, e o determinismo da Lei da Vida já terá excluído brutalmente muitos por perecimento antecipado, e que atingirá muito próximo as três dezenas. Um ror de saudades que se nos afaga. E por isso, o Albuquerque tomou o belo gesto de fazer incluir no programa, a celebração de uma missa em preito de homenagem desses que se apartaram bem cedo do nosso seio.

E da igreja de S. José, demandámos um restaurante da cidade, onde seria servido um suculento almoço. Aqui juntámo-nos mais para convivermos de perto, e em que a guerra de há 45 anos e o indagar do paradeiro dos não presentes, foram temas principais das conversas. E as esposas de muitos, embevecidas, iam tomando conta das nossas transmissões.

O Hernâni apareceu pela primeira vez, e como sempre atrasado. Chegou bem, está com bom aspecto, tendo sido premiado com uma salva de palmas.

O Soares, um duriense de gema, tomou a gentileza de nos trazer um grande bolo que encomendara em Lamego, e que vinha decorado com a fotografia de cada um de nós. Final doce, para o repasto bem terminar.

Também teve a gentileza de estar presente, um dos instrutores de então, o coronel Paiva Bastos. Bem-haja.

Seguiram-se alguns momentos de maior partilha. O prestimoso Albuquerque, que nos prometera que não choveria nesse dia e que haveria de merecer justo reconhecimento, ainda nos haveria de ofertar um bonita garrafa do milenar Dão. Agradecendo a nossa presença, tecendo loas merecidas ao António Brandão, o principal impulsionador destes encontros, comoventemente pediu-nos recolha de 1 minuto de silêncio em memória dos que irreversivelmente já se apartaram, que foi maviosamente acompanhado pelo toque de silêncio, brilhantemente interpretado por uma jovenzinha, a filha do Camilo. Momento alto, que nos embeveceu sobremaneira.

Eu próprio, acabei por ter a oportunidade de ofertar o meu livro-narrativa da história da minha Companhia, tecendo considerações sucintas sobre o mesmo.

O Soares, fez-nos uma divagação de fragmentos da sua vida. Os desenfianços possíveis durante Curso, a sua comissão em Angola, a sua actual vida de reformado tomando como lema o trabalho, e principalmente tentou definir azimutes que nos cativem guarida para a próxima confraternização.

019 - Cumprimentando 4 velhos companheiros: o pedrasrubrense Enes, o anfitrião Albuquerque, o lousadense Silva e o castelovidense Fernando

073 - A celebração da missa na igreja de S. José, sita ao Parque de S. Mateus

079 - No fim da missa, o Albuquerque agradece a nossa presença

088 - Os convivas em conjunto

107 - Os homens da Guiné ficaram juntos. O Manuel Francisco da CCaç.2313/BCaç.2834 e eu (CCaç.2317/BCaç.2835)

108 - E o ranger de vermelho é o Rocha Duarte, do meu Batalhão e da CCaç.2315

121 - O delicioso bolo oferecido pelo Soares, postado à direita do Rocha Duarte, e que andou por Angola

129 - A filhota junto ao pai Camilo, executando o toque de silêncio

Um forte abraço a toda a Tertúlia do
Idálio Reis.
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Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: 


Guiné 63/74 - P12236: Notícias dos nossos amigos da AD - Bissau (32): Segurança alimentar: aposta na produção da tapioca em substituição do arroz está a ser um sucesso


Vídeo (7' 39''). Alojado em You Tube > ADBissau [Reproduzido com a devida vénia; repare-se na música, que é do grande, promissor e malogrado músico José Carlos Schwarz  (Bissau, 1949-Havana, 1977)]



A TVK foi premiada no Festival Internacional Agrofilm 2013, realizado na Eslováquia, de 30 de Setembro a 4 de Outubro de 2013, com o Osiris FAO Prize, pela realização do filme "Tapioca, fonte de nutrição e apoio na economia familiar".

Apresentaram-se a concurso 158 filmes, dos quais foram pré-selecionados apenas 50. O júri internacional considerou que se tratava de "um filme bem estruturado em termos pedagógicos, simples e com boa mensagem",  concebido na perspectiva do desenvolvimento sustentado.

Segundo se pode ler na página dos nossos amigos da AD - Acção para o Desenvolvimento, com sede em Bissau, "o prémio Osíris, patrocinado pela FAO, é uma estatueta do Deus egípcio que representa a 'encarnação das forças da terra e das plantas' ".

 Os jovens técnicos da TVK, assim como os seus formadores (Tina Lobo, formadora em guionismo; Andrzej Kowalski, que esteve na origem da criação de todas as televisões comunitárias da Guiné-Bissau, formador de operadores de câmara; e  Assimo Baldé, que assegurou a formação em jornalismo televisivo) são um motivo de orgulho para a ONG AD  que está de parabéns, juntamente com os seus colaboradores: 

"Para a AD é um orgulho ter apostado nestes jovens e ter contribuído para levantar alto o nome da Guiné-Bissau, no meio dos outros países premiados, como a Alemanha, China, Israel, Polónia, Espanha, Irão, Hungria, Eslovénia, Eslováquia e Republica Checa".

Os amigos portugueses da Guiné-Bissau e da AD - Acção para o Desenvolvimento, reunidos sob o poilão da Tabanca Grande, ficam também orgulhosos desta distinção e solicitam ao Pepito que faça chegar à jovem equipa da TVK uma palavra de apreço e de incentivo!


A ONG AD iniciou há dois anos o processo de vulgarização de transformação da mandioca em tapioca, com a colaboração da UICN (National Committee of the Netherlands) na zona norte e a SOLSOC (Solidarité Socialiste) na zona sul.

"A simplicidade de procedimento de transformação e sobretudo a qualidade do alimento que deixa os consumidores de 'barriga cheia', explica o aumento da sua produção agrícola e a opção por este produto em vez do arroz. Depois de uma fase inicial de teste para a apreciação da resposta dos agricultores à tecnologia e às qualidades nutritivas da tapioca, a AD passou à fase de difusão em pequena escala em polos espalhados em certos locais".

Garantido o sucesso,  passa-se agora a outra fase, a da vulgarização em larga escala em todas as zonas onde a AD intervém.

Belo trabalho, Pepito e colaboradores. Vocês merecem as nossas palmas!
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Nota do editor:

Último poste da série > 25 de setembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12083: Notícias dos nossos amigos da AD - Bissau (31): testemunho gravado em Gadamael, a história do Oh! Alexandre, que conheceu o alf mil Manuel Vaz, da CCAÇ 798, bem como o pessoal da CCAÇ 1659, os Zorba

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Guiné 63/74 - P12235: Filhos do vento (21): Apelo da jornalista do Público, Catarina Gomes, para a ajudar a descobrir uma "história de reencontro" (de um pai ex-combatente que tenha encontrado ou ido à procura de um destes filhos da guerra, ou de um destes filhos que tenha encontrado o seu pai)


1. Mensagem da jornalista Catarina Gomes, com data de hoje, 19h01:

Professor Luís Graça, como está?

Eu continuo a tentar escrever sobre os filhos do vento (*), penso que o tema não se pode esgotar naquele meu artigo (**). Estou a tentar escrever um outro artigo e precisava da sua ajuda. Será que poderia pôr no vosso blogue o apelo que também estamos a divulgar no Público:

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-procura-de-um-reencontro-entre-excombatente-e-filho-do-vento-1611074

Entretanto os ditos filhos criaram uma associação e hoje deixaram uma coroa de flores no cemitério de Bissau “ao pai desconhecido”.

Mando-lhe também o link: 


[Foto à esquerdas, o José Saúde com a menina do Gabu que, em vida,  nunca chegou a conhecer o pai branco]


2. Recorte de imprensa > À procura de um reencontro entre ex-combatente e “filho do vento”

Catarina Gomes, Publico, 01/11/2013, 17h39

[Reproduzido com a devida vénia]

Para esta segunda parte do trabalho, gostávamos muito que nos ajudassem a descobrir uma história de reencontro: de um pai ex-combatente que tenha encontrado ou ido à procura de um destes filhos da guerra, ou de um destes filhos que tenha encontrado o seu pai.

Já contámos a história de alguns dos “filhos do vento” que ficaram pela Guiné, crianças que nasceram durante e depois da guerra colonial (1961-1975), fruto de relações entre ex-combatentes portugueses e mulheres guineenses, e que procuram pais que não conhecem. O PÚBLICO está a fazer um novo trabalho sobre esta realidade, mas agora procura uma história de reencontro.

Durante a guerra colonial foram mobilizados cerca de um milhão de homens. Do conflito, acabou por nascer um número indeterminado de crianças, fruto das relações de ex-combatentes com mulheres africanas. O PÚBLICO fez uma grande reportagem sobre esta realidade na Guiné, intitulada Em busca do pai tuga, com vídeos e uma página especial, a que chamámos Filhos do Vento, onde estão algumas das histórias de filhos que andam à procura dos seus pais portugueses que nunca conheceram. Na sequência da reportagem, recebemos dezenas de e-mails de pessoas que continuam à procura, de filhos que vieram para Portugal mas continuam a não encontrar o pai, mas também de irmãos que sabem que os pais deixaram um filho em África e dizem que gostavam muito de o conhecer.

Para esta segunda parte do trabalho gostávamos muito que nos ajudassem a descobrir uma história de reencontro: de um pai ex-combatente que tenha encontrado ou ido à procura de um destes filhos da guerra, ou de um destes filhos que tenha encontrado o seu pai. Para que se continue a falar de um tema que foi demasiado tempo tabu. Se tiverem alguma informação que possa ser útil para este projecto, o e-mail é filhosdovento@publico.pt.

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Notas do editor:


Guiné 63/74 - P12234: 9º aniversário do nosso blogue: Os melhores postes da I Série (2004/06) (20): Memórias de Guileje ao tempo da CART 1613 (1967/68), por José Neto (1929-2007) - Parte VII: Homenagem sentida ao Francesinho, o sold at António de Sousa Oliveira, natural de Lamelas, Ribas, Celorico de Basto, e emigrante em França, que morreu heroicamente em combate em 28/12/1967


Guiné > Região de Tombali > Guileje > 1967 > CART 1613 (1967/68) > Ao centro, o Francesinho, alcunha do sold at António de Sousa Oliveira,  transbordando de energia e de alegria.



Guiné > Região de Tombali > Guileje > 1967 > CART 1613 (1967/68) > Foto da placa de homenagem ao Soldado António Lopes (de alcunha, o Sargento, "devido aos seus modos bruscos" ) e ao Soldado António de Sousa Oliveira (de alcunha, o Francesinho, por ser franzino e emigrante em França). Os dois morreram em combate em 28/12/1967, juntamente com o alf mil Nuno da Costa Tavares Machado. Eram ambos, aqueles dois soldados, naturais de Celorico de Basto, embora de freguesias diferentes: o Lopes era de Bouça, Fervença; o Oliveira, era de Lamelas, Ribas.
Fotos: © José Neto (2006) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


1. Continuação da republicação das memórias do 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (, falecido em 2007, com o posto de capitão reformado), relativas à sua comissão na Guiné, quando exerceu funções de 1º sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), sob comando do cap Eurico Corvacho (também já falecido, em 2011).

[José Neto: Foto, à esquerda, de 2006]


VII parte das memórias do primeiro-sargento da Companhia de Artilharia nº 1613 (Guileje, 1967/68), o então 2º Sargento José Afonso da Silva Neto (e hoje, capitão reformado) > O Francesinho 


O Zé Neto, que foi,  enquanto vivo, o patriarca da nossa tertúlia, quis partillhar connosco uma parte "muito significativa" das memórias da sua vida militar. Enviou-nos "trinta e três páginas retiradas (e ampliadas) das 265" que foi escrevendo,  "ao correr da pena" para responder a milhentas perguntas do seu neto Afonso, um jovem de 17 anos, "que pensava que o avô materno andou em África só a matar pretos enquanto que o paterno, médico branco de Angola, matava leões sentado numa esplanada de Nova Lisboa (Huambo)"... "Coisas de família", comentava o Zé com o seu proverbial sentido de humor... Infeliezmente, ele já não está cá, entre nós, há 6 anos... Ficam as suas memórias, passadas a computador, e já publicadas, na I Série do nosso blogue. 


Com pouco mais de metro e meio de altura, franzino, quase imberbe, era um poço de força, energia e boa disposição que a todos espantava.

Geralmente, quando o pessoal regressava das duras caminhadas pelas matas e bolanhas vinha estafado e atirava-se para cima do catre para descansar. Essa não era a prática do Francesinho. Tomava um duche, ficava como novo e, com a sua concertina algo desafinada, espalhava alegria por toda a tabanca e arredores.

Era emigrante em França, para onde foi com os pais ainda criança e pela nossa Lei não estava sujeito ao serviço militar, mas quando atingiu a idade própria veio apresentar-se e foi incorporado.

Constava nos seus documentos que era analfabeto e agricultor e, no entanto, falava correctamente francês e era operário especializado da indústria metalomecânica.

O mais surpreendente, se é que o Francesinho não fosse ele uma permanente surpresa, era a correcção com que falava português com a pronúncia e os ditos da sua região, as terras do Basto.

A sua única preocupação era a de que, quando acabasse a tropa, as nossas autoridades lhe passassem um papel para apresentar no birú da fábrica onde trabalhava, justificando que esteve ao serviço da sua Pátria.

Desgraçadamente não foi preciso o papel, mas julgo que o tal birú bureau, escritório] da fábrica decerto deu por falta do portuguesinho, alegre e diligente, nascido na freguesia de Ribas, concelho de Celorico de Basto e falecido heroicamente em combate na Guiné Portuguesa.(**)

As últimas mãos que afagaram aquele rosto de menino, antes de se soldar a urna de chumbo que o trouxe de volta, foram as do Capitão Corvacho e a minha. Não é vergonha dizer que não contivemos as lágrimas que nos correram pela cara abaixo.

Se houvesse que configurar num homem só, a raça, o patriotismo e o espírito de sacrifício do valoroso soldado português, eu escolhia o Francesinho, sem hesitação.
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Notas do editor:

(*)  Último poste da série > 8 de outubro de 2013 > Guiné 63/74 - P12126: 9º aniversário do nosso blogue: Os melhores postes da I Série (2004/06) (19): Memórias de Guileje ao tempo da CART 1613 (1967/68), por José Neto (1929-2007) - Parte VI: A morte do comandante dos Lordes, o gr comb especial do alf mil Tavares Machado, em 28/12/1967

(*ª) António de Sousa Oliveira, sold at, nº mec. 06399965, natural de Lamelas, Ribas, Celorico de Basto, morreu em 28/12/1967, em combate. Está sepultado em Vale de Bouro.

Guiné 63/74 - P12233: Historial das Escolas Práticas do Exército (José Marcelino Martins) (5): Escola Prática de Transmissões do Porto




1. Historial da Escola Prática de Artilharia, localizada em Vendas Novas, trabalho de compilação do nosso camarada José Marcelino Martins (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), integrado na sua série Historial das Escolas Práticas do Exército.











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Nota do editor

Último poste da série de 29 DE OUTUBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12218: Historial das Escolas Práticas do Exército (José Marcelino Martins) (4): Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas

Guiné 63/74 - P12232: A CART 3494 e as emboscadas na Ponta Coli (Xime, Bambadinca), 1972: A verdade dos números... (Jorge Araújo, ex-fur mil op esp, CART 3494 / BART 3873, Xime e Mansambo, 1972/74)

1. Mensagem,  de 26 de outubro, do Jorge Araújo (ex-fur mil op esp,  CART 3494 / BART 3873, Xime e Mansambo, 1972/74):

Assunto - A CART 3494 e as Emboscadas na Ponta Coli

Caríssimo Camarada Luís Graça, os meus melhores cumprimentos.

A consulta do espólio do Arquivo Amílcar Cabral, pertença do Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares, que em boa hora,  fizeste o favor de nos dar conta neste espaço plural da "Tabanca Grande", onde, diariamente, os ex-combatentes da/na Guiné partilham diferentes vivências/experiências ocorridas em locais diferentes e em tempos diferentes, vem-nos permitir abrir um novo caminho de reflexão e debate.

No nosso caso, e independentemente de a ela [consulta] todos terem acesso, não deixou de nos influenciar para a elaboração do presente texto, na justa medida em que, como testemunha ocular de muitos dos episódios que marcaram a historiografia da minha companhia [CART 3494], defendo, em tese, de que nos deveremos aproximar da verdade, ainda que não seja no imediato, pois esta Guerra já acabou.

Com efeito, os comunicados mensais consultados referentes aos principais eventos que conduziram ao confronto nos palcos da guerra de guerrilha entre os elementos da CART 3494 e os do PAIGC, particularmente as emboscadas à Ponta Coli, e que já tive a oportunidade de vos dar conta em duas narrativas [Abril/2012], demonstram e confirmam a importância do valor quantitativo [os números] como factor propagandístico.

Assim, para corrigir as discrepâncias  entre os documentos ditos oficiais,  a que a estes episódios
dizem respeito, segue uma nova narrativa  melhorada e aumentada.

Obrigado pela atenção. Um forte abraço, Jorge Araújo.
2. A CART 3494 e as emboscadas na Ponta Coli (Xime, Bambadinca), 1972: A verdade dos números

por Jorge Araújo

Há pouco mais de ano e meio [Abril/2012] tomei a iniciativa de narrar aqui no blogue da nossa «Tabanca Grande» [postes: 9698 e 9802] (*), bem como no da minha companhia «CART 3494 & camaradas da Guiné» [postes: 148 e 152], na primeira pessoa, o que ainda estava bem presente na minha memória referente às ocorrências observadas nas duas emboscadas sofridas pelo 4.º GComb da CART 3494, na fatídica e sempre arriscada segurança à Ponta Coli.

Relembro que esta segurança era organizada num «ponto X», dito estratégico, entre a bolanha de Taliuará e a tabanca de Amedalai, na Estrada Xime-Bambadinca [ver mapa], estrada que tinha o seu início vs fim no Cais do Xime e que era a única via que dava acesso ao extremo leste do território, nomeadamente às localidades de: Bafatá, Nova Lamego, Piche, Canquelifá, Galomaro, Mansambo, Xitole, Saltinho, entre outras.


Pelo elevado grau de dificuldade, à qual se adicionou o historial de confrontos com os guerrilheiros do PAIGC anteriores à nossa companhia, como são os sucessivos exemplos da CCAÇ 1550 (1966/68), CART 1746 (1967/69), CART 2520 (1969/70) e CART 2715 (1970/72), a segurança diária à Ponta Coli era sempre uma acção/ missão única, dando lugar continuamente a novos desafios, por estar carregada de interrogações onde emergia o conceito «surpresa», principal característica na guerra de guerrilha.

Por esse motivo, e em função das inúmeras experiências que aí vivi (vivemos), decidi chamar-lhe: «palco de jogos de sobrevivência», já que a única regra desse “jogo” era a eliminação física do opositor ou dos opositores por antecipação e perícia, independentemente dos argumentos e motivações que a cada qual pudessem assistir, à época.

Para identificação desse «palco» e caracterização do seu contexto, eis algumas imagens:


Foto 1 – Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca> Xime > Ponta Coli > Maio de 1972 > Espaço onde se concentravam e distribuíam os nossos militares em serviço de segurança à estrada Xime-Bambadinca.


Foi exactamente no local representado na imagem que um bigrupo do PAIGC, comandado muito provavelmente por Mário Mendes, constituído por mais de cinco dezenas de guerrilheiros, se instalou no dia 22Abr1972, sábado, e donde emboscou o nosso GComb.

O baptismo de fogo da CART 3494 [ao vivo e a cores] aconteceu, assim, ao trigésimo nono dia depois de ter assumido na plenitude o controlo do seu território de intervenção – o XIME –, na sequência de ter finalizado o tempo de sobreposição com a CART 2715, do BART 2917 (1970/72), que decorreu entre 28Jan e 14Mar1972.

De referir, a propósito do nome de Mário Mendes, que este CMDT do PAIGC viria a morrer no dia 25 de Maio de 1972, 5.ª feira [um mês depois da emboscada], na acção «GASPAR 5», realizada por 6 GComb [3 da CART 3494 e 3 da CCAÇ 12]. O “encontro” com Mário Mendes aconteceu na Ponta Varela, tendo-lhe sido capturada a sua Kalashnico, bem como 3 carregadores da mesma e documentos que davam conta das “acções” a desenvolver na zona de que era responsável.

Sabendo-se que era um líder temido e um guerrilheiro experiente, conhecedor dos terrenos que pisava e consciente dos riscos que corria, estas dimensões conjugadas não foram suficientes para garantirem estar a salvo e sobreviver, mais uma vez, aos muitos sustos que certamente apanhou ao longo dos anos que viveu no mato.

Depois de alguns elementos (5/6) do seu grupo terem sido detectados pelas NT na acção sobredita, e que não se sabia, naturalmente, de quem se tratava, um daqueles elementos [Mário Mendes] liderou uma estratégia de fuga que não lhe foi, desta vez, favorável, por via de lhe(s) ter sido movida perseguição, obrigando-nos a serpentear várias vezes os mesmos trilhos, entre itinerários de vegetação e clareiras.

Por isso, estou crente que Mário Mendes, a partir do momento em que ficou sem rumo certo e sem portas de saída, movimentando-se em várias direcções, sem sucesso, tomou consciência de que aquele seria o último dia da sua vida. E foi … por intervenção de elementos da CCAÇ 12, no mesmo dia em que se comemorou o 9.º aniversário da fundação da Organização de Unidade Africana (OUA), criada em Adis Abela, na Etiópia, em 1963. Que coincidência …



Foto 2 – Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca> Xime > Ponta Coli > Maio de 1972 >  O  mesmo espaço anterior, onde se observa um trilho à esquerda. Este trilho ligava o itinerário entre várias árvores, em que cada uma delas era utilizada como posto de observação e protecção.




Foto 3 – Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca> Xime > Ponta Coli > Maio de 1972 >  O  mesmo espaço anterior, vendo-se a base de um tronco da árvore "bissilão" (ou "poilão" ?), de grande porte, situada mais ou menos a meio da linha de segurança, numa frente de aproximadamente cem metros, e onde se fixava o comandante do GComb.




Foto 4 – Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca> Xime > Ponta Coli > Maio de 1972 >   O mesmo contexto e o mesmo tronco da árvore da imagem anterior, agora num plano mais elevado.




Foto 5 –Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca> Xime > Ponta Coli > Maio de 1972 >  O mesmo espaço anterior com a observação de um «bagabaga», que funcionava como posto de vigia.


Fotos (e legendas): © Jorge Araújo  (2013). Todos os direitos reservados.


Considerando o historial dos dois confrontos contabilizados pela CART 3494, [22Abr e 01Dez1972], de que resultaram baixas de ambos os lados, importa dar-vos conta da «verdade dos números», agora por contraditório com os divulgados pelo opositor da contenda – o PAIGC.

Sei [ou sabemos] que esses números, agora que estão decorridos mais de quatro dezenas de anos, pouca relevância têm entre nós, ou seja, não interessam nada. Mas, porque a eles continuaremos ligados emocionalmente, importa, do ponto de vista histórico [que é a ciência dos factos reais], corrigi-los, em nome da verdade por oposição à ficção.

Para o efeito, foi consultada a História da Unidade do BART 3873, em particular a da companhia CART 3494, bem como o arquivo Amílcar Cabral disponível na Net com o endereço http://casacomum.org/cc, pertença do Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares, em contraponto com o que foi a nossa observação naquele contexto.

1. – EMBOSCADA DE 22 DE ABRIL DE 1972 – Os números

a) – O que aconteceu …

Naquele dia, o grupo escalado para cumprir a missão de efectuar a segurança à Ponta Coli era o 4.º GComb, constituído por vinte operacionais, entre sargentos e praças, uma vez que não havia nenhum oficial adstrito, e mais dois condutores e um Guia, no caso o Malan, o que totalizava vinte e três elementos.

Estes elementos seguiram em duas viaturas [12+11] Unimog.

Na sequência do confronto, o balanço da primeira emboscada sofrida pela CART 3494 foi de um morto, o camarada furriel Manuel Rocha Bento [a única baixa em combate ao longo dos mais de vinte e sete meses de comissão], dezassete feridos entre graves e menos graves, e, por exclusão de partes, cinco dos militares saíram ilesos, sendo eu um deles. As viaturas não sofreram qualquer dano significativo.

b) – O que consta na História da Unidade – BART 3873

- Em 220600ABR72 grupo IN emboscou a segurança da PTA COLI (01 GRCOMB da CART 3494). As NT e a Artilharia do XIME pôs [puseram] o IN em fuga. Sofremos 01 morto (Furriel), 07 feridos graves e 12 feridos ligeiros [p.59].

c) – O que consta no Comunicado do PAIGC sobre as acções militares do mês de Abril (1972)


Transcrição do comunicado do PAIGC em língua francesa, sobre as acções militares do mês de Abril (1972) e assinado por Amílcar Cabral.

Tradução do parágrafo em que é referida a emboscada à Ponta Coli.

(…) “As emboscadas mais mortíferas para o inimigo foram as que ocorreram nos itinerários do Saltinho/Kirafo [CCAÇ 3490/BCAÇ 3872 - 72/74 #] (a 17 de Abril, 2 viaturas destruídas, 20 mortos e vários feridos) e a do Xime/ Bambadinca (a 22 de Abril, 4 viaturas destruídas e 12 mortos).” (…)

Data: 8 Junho 1972
Amílcar Cabral
Secretário Geral

Fonte: Casa Comum
Instituição: Fundação Mário Soares
Pasta: 07/197.160.014
Título: Comunicado do PAIGC sobre as acções militares do mês de Abril
Assunto: Comunicado do PAIGC sobre as acções militares do mês de Abril (66 operações), com destaque para o ataque a Mansoa e Bolama. Denuncia a destruição de escolas, hospitais e vilas, a utilização de napalm e os bombardeamentos aéreos efectuados pelo exército português. Comunicado assinado por Amílcar Cabral.
Data: Quinta, 8 de Junho de 1972
Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Documentos.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Documentos

(#) Blogue: Luís Graça & Camaradas da Guiné: Vd. 22 de Março de 2009 > Guiné 63/74 - P4068: Recordando a tragédia do Quirafo, ocorrida no dia 17 de Abril de 1972 (Luís Dias).

– A VERDADE DOS NÚMEROS

Perante os elementos acima referenciados, em particular os números oficiais das NT e do PAIGC, deixo-os à V. consideração.

Um forte abraço para todos, com muita saúde e energia.

Jorge Araújo.

Outubro/2013.

Guiné 63/74 - P12231: Notas de leitura (530): "Atlântida", por João Augusto da Silva (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Junho de 2013:

Queridos amigos,
Não é a primeira vez que aqui se fala de João Augusto Silva, um administrador colonial que conheceu bem a Guiné, Angola e Moçambique.
Toda a sua prosa esmaltada reverbera fauna e flora, os silêncios dos cursos de água, o empolgamento das caçadas, o retrato a cinzel da dignidade africana. Acresce que ele foi irmão de Artur Augusto Silva, um português que faleceu na Guiné como terra da sua devoção e é tio do nosso confrade Pepito.
“Atlântida” é um livro fascinante, parece capaz de acolher a geografia, a sensualidade e as vindictas mortais do passado e do presente. Não percam a sua leitura, asseguro-vos que é prosa muito boa e que o que se escreve da Guiné é muitíssimo belo.

Um abraço do
Mário


João Augusto Silva, um caçador lendário que viveu na Guiné

Beja Santos

João Augusto Silva (1910-1990) foi funcionário da Administração Colonial na Guiné, em Angola e Moçambique. Desenhador, naturalista, decorador e escritor, foi galardoado em 1936 com o Prémio de Literatura Colonial da Agência Geral das Colónias. Foi também caçador, tendo abandonado a espingarda em troca da máquina fotográfica, com a qual se dedicou a capturar imagens de uma das suas paixões: os animais. Nasceu em Cabo Verde, passou parte da infância na Guiné, terra a que regressará entre 1928 e 1936. As suas obras maiores são: “África: Da Vida e Amor da Selva” “Animais Selvagens: Contribuição para o Estudo da Fauna de Moçambique”. Administrador do Parque da Gorongosa, será mais tarde Curador do Jardim Zoológico de Lisboa. Sobre a Gorongosa deixou um livro da maior importância “Gorongosa: Experiências de um Caçador de Imagens”. Foi recentemente homenageado pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Foi irmão de Artur Augusto Silva, um investigador e poeta luso-guineense, aqui já várias vezes auferido, e tio do nosso confrade Pepito.

Acaba de ser dado à estampa “Atlântida, romance de D. Salomé e outras histórias, histórias e contos da Guiné, Angola e Moçambique”, por João Augusto da Silva, Edições Vieira da Silva, 2013. Estranhamente, a obra não vem contextualizada e bem merecia um prólogo que enquadrasse as atividades profissionais e culturais deste administrador colonial plurifacetado, culto e com vários olhares para a etnologia, a etnografia e mesmo as ciências naturais. Do mesmo modo, a edição não está cabalmente revista, o que é manifesta injustiça para a memória do autor. Mas dá para perceber a riqueza vocabular, o amor entranhado a África, os superiores conhecimentos da fauna e da flora. O seu conteúdo propende para um maior número de histórias passadas em Moçambique e muito menos em Angola e na Guiné.

Onde reside a originalidade desta escrita? Se é facto que tem implícita a matriz de uma literatura colonial que fala do suicídio da nativa abandonada, da nativa sujeita a mil vilezas mas de muito nobre carácter, das superstições, da magia das florestas, onde João Augusto Silva é imbatível é na descrição envolvendo animais, atos de cobiça implacável entre colonos, peripécias em torno da valentia do caçador e da mestria do pisteiro.

Moçambique é o prato forte desta literatura de João Augusto Silva, mas a Guiné da sua infância e do adulto jovem merecem-lhe páginas belíssimas. Logo no conto Nhâ Bonita: “Eu adorava Nhâ Bonita e, naquele dia, como sempre, ao passar-lhe à porta da palhota de grossas paredes de adobe, caiadas de branco, dei-lhe os bons dias com todo o respeito. Ela respondeu-me na sua voz melodiosa, perguntando por meus pais e convidando-me a sentar um nadinha. Nhâ Bonita sabendo que eu ansiava por ver os bichos do seu pequeno jardim zoológico, ergueu da tripeça o seu imenso corpanzil e levou-me a esse mundo de maravilhas. Depois de visitar o jabiru, o periquito-rabo-de-junco, o papagaio-bijagó, a íbis sagrada, o pato-ferrão e tantas outras bichezas, mostrou-se um novo pensionista vindo da granja – uma gazelita cor de tijolo com o corpo sarapintado de listas e bolas brancas, que se aproximou, a passo cauteloso, com o narizito de ónix, fermente e húmido”. O menino vai à caça com Nho Gaetano, foi um dia de prodígios, o menino não queria que o seu pai soubesse daquela ida à caça, de onde tinham trazido uma pele de leopardo e assim termina a história: "Há pouco, ao remexer uma velha arca que me acompanhou nas infindáveis andanças pelas Áfricas, deparei com certa pele de leopardo já muito surrada – único troféu de caça que conservo da longa vida de sertanejo”.

A Guiné da infância de João Augusto Silva continua a estar presente no conto “O Javali Ferido”, agora vai-se falar de Ussene, um caçador Mandinga que trazia perdizes, galinhas do mato, patos-ferrões ou gazelas: “Serafim, o moleque, retirava de um barrilzito, nova provisão de pólvora grumosa com reflexos de chumbo, que o caçador embrulhava num trapo encardido, amarrando-lhe as pontas. Meu Pai dava-lhe então algumas moedas de prata que ele recebia com ambas as mãos, em sinal de respeito. Depois, com uma vénia de agradecimento, retirava-se para o quintal, sentando-se numa tripeça de pau-sangue à sombra do grande tamarindeiro, cujas florinhas amarelas atraiam uma multidão de irrequietos beija-flores”. E daí outra recordação da infância: “Ouvindo o bom do Ussene discorrer sobre os bichos da selva, o real e o fantástico casavam-se na minha imaginação infantil, emprestando-lhe um sortilégio inebriante. Eu sonhava acordado na felicidade de poder acompanhá-lo, de viver a seu lado aquela vida de aventura e mistério. Chegada a hora de abalar, Ussene, esguio e elegante como uma palmeira brava, erguia-se, ajeitava o turbante em redor das têmporas e despedia-se com um adeus amigo. Então, eu via-o seguir, digno, ereto na sua compostura de atleta, nado e criado ao sol, ao vento e à chuva”.

A prosa deste multifacetado artista é sensorial, contrai-se e expande-se de acordo com a necessidade de nos fazer vibrar com a hora do dia, a luminosidade, as cores da floresta, entre o real e o fantástico. Repare-se só nesta descrição: “O rio Farim que desce do longínquo Senegal como simples ribeiro ladeado de matagais, vai engrossando a pouco e pouco, até entrar no Atlântico, largo e majestoso, perto de Cacheu, vetusto burgo na decadência.
As viagens de canoa, ao longo do seu curso médio e superior são deliciosas no tempo fresco. À maneira que se navega, rio acima, as margens, ricamente arborizadas, estreitam-se e, de certa altura em diante as águas cobrem-se com um dossel de verdura onde circulam macacos-fidalgos e aves de todas as cores.
Nhô Manel Cambuca, mestiço cabo-verdiano, seguia à popa, agarrado ao leme, muito compenetrado do seu papel de piloto. Nos trechos em que o rio era largo, quando descobríamos numa das margens bandos de garças ou colónias de tecelões, cujos ninhos pendiam dos ramos como frutos, dirigíamos ao timoneiro um olhar suplicante e ele, com um sorriso cúmplice, mudava o rumo, de modo a passar rente ao arvoredo. Os remadores, por sua vez abrandavam o ritmo das remadas e nós, atirávamos às garças a meia dúzia de metros mas, para nosso desespero, as pedrinhas das fisgas não abalavam as aves que se limitavam a levantar voo, soltando o seu grito enervante de cana-rachada”.

A Guiné estará igualmente presente no conto “A aventura do amigo Soares” que assim começa: “A esse tempo vivia eu na Guiné, Babel das tribos mais nobres da África Negra. Falava correntemente dois dialetos – o crioulo e o mandinga – línguas francas, usadas desde o Senegal até à Serra Leoa. Passava então meses a fio sem ouvir uma palavra de português”. É em Bissau que faz amizade com um Soares, que tinha o dobro da sua idade, ele era magro e esgalgado e o Soares pesava uma boa centenas de quilos. Mas essas dissemelhanças não foram suficientes para arrefecer a amizade. Voltaram a encontrar-se, muitos anos depois em Lourenço Marques. O autor terá sido um dia profundamente desagradável com o Soares e ele aproveitou o reparo para lhe falar das atribulações da sua juventude em que conheceu os horrores da fadiga e da sede. Voltaram a despedir-se e nunca mais saíram. Um dia soube que o Soares morrera. Morrera um amigo que na hora certa lhe dera uma boa lição.

João Augusto Silva merecia ser mais conhecido: porque escreve muitíssimo bem e não esconde o seu amor por África, toda a sua prosa emana aquilo em que ele foi talentoso: as caçadas e o amor aos animais, a paixão pela fotografia e o lindo traço modernista do seu desenho e os sentimentos contidos que ele capta nas suas imagens fotográficas de que a capa deste livro é um mero exemplo de felicidade e orgulho.
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Nota do editor

Último poste da série de 28 DE OUTUBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12211: Notas de leitura (529): "Finhani, O Vagabundo Apaixonado", por Emílio Lima (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P12230: Parabéns a você (646): José Carlos Gabriel, ex-1.º Cabo Op Cripto do BCAÇ 4513 (Guiné, 1973/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 29 DE OUTUBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12215: Parabéns a você (645): Mário Vasconcelos, ex-Alf Mil TRMS do BCAÇ 3872 (Guiné, 1973/74)

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Guiné 63/74 - P12229: A guerra vista do outro lado... Explorando o Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum (5): Relatório de 22/12/1966, assinado por Brandão Mané, sobre a situação militar na região Xitole-Bafatá, reportando importantes perdas em homens e material

1. Transcrição de documento, manuscrito, de 4 páginas, numeradas de I a IV, assinado por Brandão Mané, com data de 22/12/1966, com referência á situação militar na região de Xitole-Bafatá (pp. I a III).

Em anexo (p. IV), vem um comunicado do Comando Regional Xitole-Bafatá sobre o ataque à Base Central do Sector de Xime (que era então em Baio / Buruntoni, a sudoeste do aquartelamento e tabanca do Xime). Fixação de texto: L.G.(*)

____________

Relatório

Região de Xitole Bafatá, 22/12/1966

Situação militar

I

Por falta de não reunir [sic] condições – falta de atiradores de canhão, obuzes de bazookas [sic], e de “morteiro”, além de medicamentos – , não foi realizada operação nenhuma desde o mês de Novembro [de 1966] até à presente data. (**)

Somente efectuaram-se sabotagens com minas nas estradas e outras nas áreas controladas pelo inimigo, das quais ainda não obtemos [obtivemos] informação concreta.

Durante este período sofremos quatro ofensivas do inimigo das quais segue o comunicado.

II

Nas duas últimas tivemos perdas de armas.

Contra a Base Central do Sector de Corubal, no dia 22 de Novembro, o inimigo apanhou uma pistola P.A. 7, 65 mm nº 220526.

Contra a Base Central do Sector do Xime, no dia 15 do corrente mês, numa ofensiva de surpresa pela sua forma mas causada peal falta de vigilância dos n/ [nossos] camaradas, o inimigo conseguiu apanhar duas carabinas semi-autom[áticas] nºs 2773, 42.708, duas pistolas P.M. [, Pistola Metralhadora,] Patchanga 7,62 mm, nºs 2042 [e]  318, duas carabinas de repet[ição], nºs 887 [e] 3578, um[a] Gurianov [, Metralhadora Pesada Goryounov 7,62 mm M-943] nº 131, uma pistola P.A. 7,62 mm, nº 22526. (**)

Foram gastas, da nossa parte, nestas quatro ofensivas as seguintes quantias de munições: 475 balas de carabina de semi-autom[ática] (carabina) 7,62.

III

1188 balas de (Patchanga) [Shpagin, cal. 7,62 mm M-941 (PPSH)], 239 balas de carab[ina de] repet[ição], 140 balas de P.M. (rico jazz) [, Pistola Metralhadora Thompson, cal. 11,4 mm], 300 balas de mauser semi-autom[ática], 30 balas de mauser de repe[tição], 2 obuzes de baz[ooka] 40 mm, 4 obuzes de bazooka P.A. 27 [Pancerovka]  , 4 obuzes de bazooka mod[elo] americano, 4 obuzes de morteiro 60 mm.

[Assinado:] Brandão Mané

IV

Comando Regional Xitole Bafatá

22/12/1966

Comunicado

O Comando Regional comunica que no dia 15 do corrente [mês de Dezembro] houve uma ofensiva inimiga, desencadeada pela infantaria inimiga, contra a Base Central do Sector de Xime (Baio), onde conseguiram destruir uma meia dezena de barracas depois de capturarem oito armas. (Citadas no relatório). Tivemos onze feridos, dos quais cinco graves.

Seguindo os vestígios deixados pelo inimigo, mostram [sic] que tiveram baixas.

[Assinado:] Brandão Mané


Fonte: (1966), "Relatório sobre a situação militar na região Xitole-Bafatá", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40103 (2013-10-31)



Instituição: Fundação Mário Soares

Pasta: 07200.170.012

Título: Relatório sobre a situação militar na região Xitole-Bafatá

Assunto: Relatório sobre a situação militar na região de Xitole-Bafatá, assinado por Brandão Mané. Em anexo um comunicado do Comando Regional Xitole-Bafatá sobre o ataque à Base Central do Sector de Xime.
Data: Quinta, 22 de Dezembro de 1966
Observações: Doc. incluído no dossier intitulado Diversos. Guias de Marcha. Relatórios. Cartas dactilografadas e manuscritas. 1960-1971.
Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral
Tipo Documental: Documentos

2. Comentário de L.G.:

O que surpreende neste documento é a qualidade do português... E ao mais tempo o detalhe e o rigor da informação, que vai ao ponto de identificar uma por uma as armas capturadas pelas NT.

Por outro lado, é intrigante o nome do comandante, Brandão Mané (que pode ser apenas um nome de guerra). Brandão é apelido portuguguês. Mané é apelido mandinga ou beafada... Trata-se de alguém escolarizado, que fala e escreve português corretamente.

Seria alguém ligado ao vasto clã dos Brandão ? O ramo mais conhecido era o dos Pinho Brandão, de Catió. O patriarca da família poderia ter sido  o velho Brandão,  de Ganjola, natural de Arouca, desterrado para a Guiné possivelmente no final dos anos 20 ou princípíos dos anos 30, uma figura  já aqui evocada diversas vezes, por  camaradas como o Mário Dias (que esteve na Op Tridente, no Como, jan/março de 1964) e o J. L. Mendes Gomes (que esteve no Como, Cachil e Catió, entre 1964 e 1966).

Mas também havia uma família Brandão em Bambadinca, com ligações a Catió. Provavelmente, eram parentes. Falando, ao telefone,  há uns anos atrás (2008) com Inácio Semedo Júnior, ex-guerrilheiro e quadro do PAIGC, ex-embaixador aposentado, apurei o seguinte:

(i) na altura com 65 anos de idade, deveria ter  nascido, portanto, por volta de 1943); 

(ii) era natural de Bambadinca; 

(iii) era filho de Inácio Semedo, um histórico do PAIGC; 

(iv) a família tinha propriedades na região; nomeadamente o pai tinha uma destilaria de aguardente de cana, tendo costume comprar arroz aos Brandão, de Catió, para alimentar os seus trabalhadores balantas de Bambadinca (possivelmente de Nhabijões, Mero, Santa Helena...); 

(v) trocava-se, naquele tempo,  aguardente por arroz, sendo o  arroz do sul, do celeiro da Guiné, o melhor; 

(vi) A Guiné era pequena e todo o mundo se conhecia. 

A família Brandão, de Catió, também deu pelo menos um militante do PAIGC, que ele, Inácio Semedo Júnior, irá conhecer na luta de guerrilha, no sul. Seria este Brandão Mané ? Em Bambadinca também havia uma família Brandão (com quem os Semedo seriam aparentados, se bem percebi...).

O pai, Inácio Semedo, agricultor, proprietário, foi um nacionalista da primeira hora, que andou a conspirar com o Amílcar Cabral e outros históricos do PAIGC, e que como tal foi preso e torturado pela PIDE e condenado a 2 anos de prisão. 

O filho, Inácio Semedo Jr, estava então, em 2008,  a ver se ainda recuperava parte do património da família em Bambadinca... .

Aos 16/17 anos[[, por volta de 1959/60,]  veio estudar para Portugal, onde fez o liceu. Deve ter aderido ao PAIGC nessa época e/ou saído de Portugal nessa época. (Segundo o Leopoldo Amado, o Amílcar Cabral foi padrinho de casamento do pai, numa cerimónia que se realizou justamente em Bambadinca, antes do início da guerra).

Em 1964 [, com c. 21 anos,] vamos encontrá-lo, ao Inácio Semedo Jr,  na guerrilha, no sul,  sob as ordens do comandante Manuel Saturnino da Costa. Nunca andou na sua terra natal, Bambadinca, zona leste. A orientação do PAIGC era,. compreensivelmente,  pôr os guerrilheiros em regiões diferentes daquelas onde tinham nascido e vivido.

Mais tarde (não percebi quando, exactamente) o jovem Inácio Semedo foi para a Hungria, onde tirou o curso de engenharia e fez o doutoramento em Ciências. A seguir à independência trabalhou no Ministério das Obras Públicas, cujo titular da pasta era o Arquitecto Alberto Lima Gomes, mais conhecido por Tino, e que viria a morrer, mais tarde, num acidente de caça, actividade de lazer de que era um apaixonado. 

Inácio Semedo vivia, em 2008, em Portugal, retirado da vida pública do seu país. Tinha um filho bancário. Confessou que não conhecia o nosso blogue, por não estar muito familiarizado com a Internet. Tinha endereço de e-mail mas era o filho que o ajudava a gerir a caixa de correio.

Continuava ligado ao seu partido de sempre, o PAIGC.  Prometemo-nos voltar a contactar  (, o que nunca mais voltou a acontecer),  quando houvesse maior disponibilidade, de parte a parte. Para falarmos da nossa Bambadinca ("hoje tão decadente, tão triste, tão morta"...), do nosso Geba Estreito ("onde já não circulam os barcos que lhe deram vida, cor e movimento"...), enfim, da "nossa Guiné" (onde o Inácio Semedo continuava a ir regularmente...).

Sobre a tipologia, designação e evolução do armamento do PAIGC temos diversos postes no nosso blogue (**).
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 23 de outubro de 2013 > Guiné 63/74 - P12192: A guerra vista do outro lado... Explorando o Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum (4): O anúncio,em 4 de janeiro de 1961, do envio para a China, para a Academia Militar de Nanquim, dos futuros dez primeiros comandantes do PAIGC, João Bernardo Vieira [Nino], Francisco Mendes, Constantino Teixeira, Pedro Ramos, Manuel Saturnino, Domingos Ramos, Rui Djassi, Osvaldo Vieira, Vitorino Costa e Hilário Gomes.

(**)  Sobre a tipologia, a evolução e a designação do armamento do PAIGC, vd. poste de 7 de julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3032: PAIGC: Instrução, táctica e logística (13): Supintrep, nº 32, Junho de 1971 (XIII Parte): Armamento (A. Marques Lopes)

(...) Tipo de Armamento > DESIGNAÇÃO

Foguetão 122 mm > GRAAD ou JACTO DO POVO

Morteiro 120 mm > BADORA

Canhão S/R B-10 > BEDIS
Canhão S/R 75 mm > TECHONGO

Lança Granadas-Foguete PANCEROVKA P-27 > BAZOOKA BICHAN, LANÇA GRANDE, PAU DE PILA, BAZOOKA CHINÊS

Lança Granadas-Foguete RPG-2 > BAZOOKA CHINA, BAZOOKA LIGEIRO, LANÇA PEQUENO

Lança Granadas-Foguete 8,9 cm (M20 B1) > BAZOOKA CUBANA

Metralhadora Pesada DEGTYAREV (DSHK) Cal. 12,7 mm M-38/56 > DEKA, DESSEQUE, DCK,

Metralhadora Pesada GORYOUNOV Cal. 7,62 mm M-943 SG > TRIPÉ, GORRO NOVO

Metralhadora Pesada ZB – 37 ZDROJOVSKA > TRIPÉ, TRIPÉ BESSA

Metralhadora Ligeira DEGTYAREV DP Cal. 7,62 mm > BIPÉ DISCO ou DISCO BIPÉ SOVIÉTICO

Metralhadora Ligeira DEGTYAREV RDP Cal. 7,62 mm > BIPÉ CHECO, BIPÉ PACHANGA

Metralhadora Ligeira M-52 Cal. 7,62 mm > BIPÉ CAUDO, BIPÉ MAQUESSEN

Metralhadora Ligeira BORSIG Cal. 7,92 mm > BIPÉ

Espingarda Automática KALASHNIKOV (AK) Cal. 7,62 mm > AKA ou ACAG3, PM SOVIÉTICO

Espingarda Automática SIMONOV (SKS) Cal. 7.62 mm > CARABINA AUTOMÁTICA ou CHIME AUTOMÁTICA, CANHE BALE (JOL), CARABINA SINECE, CARABINA CHINESA, E.S.A SIMA

Espingarda M-52 Cal. 7,62 mm > CARABINA CHECA

Espingarda MAUSER K98K > MAUSER

Espingarda Semi-automática M-52 Cal. 7,62 mm > CHIME AUTOMÁTICA, CARABINA BOMBARDEIRA

Carabina MOSIN-NAGANT M-944 > CARABINA RÔSSIA (SOVIÉTICA)

Pistola-Metralhadora M-23 > MERENGUE

Pistola-Metralhadora M-25 > MERENGUE ou RICON RICO

Pistola-Metralhadora SHPAGIN Cal. 7,62 mm M-941 (PPSH)> PA[T]CHANGA, METRO ou METAR

Pistola-Metralhadora SUDAYEV Cal. 7,62 mm M-943 (PPS) > PM de FERRO, 
DECÉTRIS, MODELO PACHANGA, PM CHINESA

Pistola-Metralhadora THOMPSON Cal. 11,4 mm > RICO JAZ[Z]-THOMPSON

Pistola-Metralhadora BERETTA N-38/42 e M-38ª> BERETTA

Pistola-Metralhadora SHMEISSER MP-38 e MP-40 > COPTER

Pistola CESKA ZBROJOVKA Cal. 7,65 mm > PISTOLA SEMI-AUTOMÁTICA


Pistola CESKA ZBROJOVKA Cal. 6,35 mm > PISTOLA SEMI-AUTOMÁTICA PEQUENA