sábado, 28 de dezembro de 2013

Guiné 63/74 - P12516: Tabanca Grande (416): Armando Teixeira da Silva, ex-Soldado Atirador da CCAÇ 1498/BCAÇ 1876 (Có, Jolmete, Bula, Binar e Ponate, 1966/67), Grã-Tabanqueiro nº 636

1. Mensagem do nosso camarada e novo tertuliano Armando Teixeira da Silva, ex-Soldado Atirador da CCAÇ 1498/BCAÇ 1876, que esteve em Có, Jolmete, Bula, Binar e Ponate, com data de 26 de Dezembro de 2013:

Santa Maria da Feira, 26 de Dezembro de 20013

Ex. Senhor Luís Graça
Antes de tudo, quero felicitá-lo pela criação do seu magnífico Blogue, destinado aos ex-combatentes na guerra da Guiné, e enviar-lhe os meus mais sinceros parabéns.

Sou ARMANDO TEIXEIRA DA SILVA, ex-soldado da CCAÇ 1498, que serviu na Guiné no biénio 1966-67. Companhia pertencente ao BCAÇ 1876, mobilizado pelo RI2 de Abrantes.

Permita-me uma breve introdução:
Desde há muito tempo que o seu Blogue me vem fascinando. Vezes sem conta senti o desejo de participar, mas (…) até que impulsionado pelo camarada Joaquim Vidigueira (ex-furriel) dispus-me a colaborar, facultando o nosso crachá, o qual, lhe fora enviado por Ricardo V. Ferreira, filho do camarada supracitado, com o pedido de publicação.

Entretanto, constato, com muito prazer, que a CCAÇ 1498 já faz parte do seu excelente blogue, cujo acesso se faz pela referência P12391, com data de 05/DEZ/2013. Aí se encontra não apenas o crachá, mas um breve resumo histórico da Companhia. Resumo porém, a precisar de ser emendado, para o que, desde já, solicito todo o seu habitual empenho.

Assim:
Onde se menciona que a CCAÇ 1498 esteve em Có, Binar e Bissau, deverá acrescentar-se: Bula, Ponate e Jolmete.
Ou seja, logo no dia do seu desembarque, ramificou-se em três grupos, distribuindo-se por três Quartéis, onde permaneceu, tripartida, durante o seu primeiro ano de comissão, com um grupo em Có (onde instalou a secretaria e comando), outro em Jolmete e o terceiro destacado nove meses em Ponate e três em Bula.

Ficara “adida” durante, doze meses, ao BCAV 790, pertencente ao Tenente-coronel Henrique Calado. 
Decorridos os primeiros doze meses - então sim, ao serviço do seu próprio BCAÇ 1876 - agregou seus Pelotões e partiu para Binar, aí ficando até ir para Bissau acabar a comissão.

Quanto ao comandante do Batalhão 1876, deverá o seu nome ser emendado, dado que, o verdadeiro CMDT fora o Tenente-coronel de Infantaria Jacinto António Frade Júnior.

Sr. Luís Graça, dada a condição imposta pelo blogue, tomo a liberdade de enviar-lhe duas fotografias (uma daquele tempo e outra actual) que poderá usar como entender. Se, porventura, me for permitido participar no blogue - através do registo de acontecimentos ou do envio de fotografias - estou totalmente à sua disposição.

Desejando os maiores êxitos ao blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné” – apesar de já serem enormes – despeço-me do seu autor com os meus respeitosos cumprimentos.
Armando Teixeira da Silva

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2. Comentário do editor:

Caro camarada Teixeira da Silva
Sê bem-vindo a esta tertúlia de ex-combatentes, onde cabe sempre mais um, porque muitos não seremos demais para a persecução desta missão de aqui relatar memórias e deixar testemunhos fotográficos da guerra da Guiné.

1 - Vamos agora combinar um procedimento simples que devemos seguir enquanto camaradas e tertulianos deste Blogue:

Devemo-nos tratar todos por tu, independentemente dos antigos (e actuais) postos militares, aqui referidos apenas para mais fácil identificação, das nossas habilitações literárias, profissão, idade, etc.
O nosso editor Luís Graça não vai tomar a mal que o tivesses tratado por Exmo. Senhor, mas não é para repetir. Estamos combinados.

2 - Acho que já fiz referência a todas as localidades por onde estiveram "espalhados" os Pelotões da 1498. Alterei a tua ordem para agrupar os destacamentos pelas Cartas onde se encontram. Se clicares, lá em cima, no início do poste, nos nomes das localidades, na cor laranja, abrirás as respectivas Cartas. Talvez relembres nomes de outras tabancas.

3 - Para acederes aos postes da tua Companhia, esquece o Poste 12391 e entra antes pelo marcador "CCAÇ 1498" que vais encontrar no lado esquerdo da página, nos "Marcadores/Descritores".
Experimenta estes endereços: CCAÇ 1498 e BCAÇ 1876. É só clicar.
Também vai ser criado um marcador "Armando Teixeira da Silva" que só funcionará depois de eu publicar este teu poste de apresentação.

4 - Quanto ao Comandante do teu Batalhão, já procedi às respectivas correcções. Foi na verdade o TCor  Jacinto António Frade Júnior. Houve uma confusão qualquer já reparada.

Acho já ter focado os pontos que queria, restando-me enviar-te um abraço de boas-vindas em nome dos editores e da tertúlia em geral, esperando que te tornes um membro activo, já que estamos a precisar de histórias novas. Não esqueças a tua responsabilidade como único representante da 1498.

Abraço
Carlos Vinhal
Co-editor
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Nota do editor

Último poste da série de 16 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12456: Tabanca Grande (415): Júlio Martins Pereira, sold trms, CCAÇ 1439 (Enxalé, Missirá e Porto Gole, 1965/67), grã-tabanqueiro nº 635

Guiné 63/74 - P12515: O que é que a malta lia, nas horas vagas (25): Li tudo o que era possível apanhar e estudei no Liceu Honório Barreto (José Francisco Borrego)

1. Mensagem do nosso camarada José Francisco Robalo Borrego, Ten Cor Ref (GA 7, Bissau e 9.º Pel Art, Bajocunda, 1970/72), com data de 26 de Dezembro de 2013:


O QUE É QUE A MALTA LIA NAS HORAS VAGAS

Embora atrasado, aqui fica o meu comentário.

Ocupei os meus tempos livres a escrever, ler e principalmente a estudar:
- Escrevi a madrinhas de guerra, familiares e amigos;
- Li tudo o que era possível apanhar;
- Li livros que levei comigo;
- Li e estudei o programa para furriel do quadro permanente da Arma de Artilharia que era muito extenso;
- Estudei e fiz o Ciclo Preparatório na Escola Preparatória Marechal Carmona;
- Estudei e fiz algumas disciplinas do 5º ano no Liceu Honório Barreto.

Como estava colocado em Bissau, foi-me possível desenvolver todas as acções acima referidas com muita força de vontade e determinação!
Quando alguns camaradas me perguntavam, como conseguia eu estudar tanto, num ambiente tão difícil, eu costumava responder na brincadeira que estava a seguir à risca o lema do Senhor General Spínola “ POR UMA GUINÉ MELHOR E ENQUANTO SE LUTA, CONSTRÓI-SE".

Ex-Liceu Honório Barreto
Foto: © José Francisco Robalo Borrego (2012). Direitos reservados.

Por tudo o que consegui no campo pessoal e profissional, estou grato à Guiné, daí a minha forte ligação emocional àquele País.

Desejo a todos e às excelentíssimas famílias, continuação de Boas Festas e um 2014 o melhor possível.

Um abraço amigo do
José Borrego
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Nota do editor

Último poste da série de 26 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12509: O que é que a malta lia, nas horas vagas (24): Leon Uris, entre outros, e muita música (Abílio Duarte)

Guiné 63/74 - P12514: Bom ou mau tempo na bolanha (41): "Contra-guerrilheiro"

Quadragésimo primeiro episódio da série Bom ou mau tempo na bolanha, do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do Cmd Agru 16, Mansoa, 1964/66.


Há dias o companheiro combatente José Dinis, exemplificando um episódio que se passou no seu aquartelamento, que estava situado em zona de combate, menciona umas palavras, que nós, os antigos combatentes, creio que nunca usámos quando lembramos a nossa passagem por aquele conflito. A certa altura ele descreve: "À minha frente, empunhando a espingarda automática G3, com o cinturão a pender da cintura, mas sem lhe tapar o órgão genital, apresentava-se um contra-guerrilheiro”.

Para quem lá andou, este cenário era normal em qualquer aquartelamento, em qualquer localidade onde estavam militares aquartelados, pois o clima era sobretudo quente e húmido, portanto muito diferente da Europa, de onde quase todos os militares eram oriundos, usando, naquela altura das suas vidas, o mínimo de roupa sobre o corpo. Mas as palavras “contra- guerrilheiro”, sim, contra-guerrilheiro, são novas quando nós antigos combatentes, mencionamos algumas passagem por aquele conflito, pelo menos para mim, e agora pensando bem, o que éramos nós naquele cenário e na voz dos guerrilheiros?


Nós estávamos lá a lutar “contra” o inimigo, que neste caso eram os guerrilheiros que compunham o grupo organizado e armado que lutava pela independência dos seu território, ele, o inimigo, que neste caso eram os guerrilheiros, talvez não dissessem essas palavras, quando se referiam a nós, os militares, pois tinham outros adjectivos, mas no fundo éramos uns “contra-guerrilheiros”, sofredores, sem condições de alojamento, vivendo debaixo de abrigos, dentro de uma cerca de arame farpado, com uma dieta fraca, e quase sempre igual, a nossa higiene, quando praticada era deficiente, alguns, algumas partes do seu corpo só via água quando chovia ou quando atravessavam as bolanhas e os canais, quando iam em patrulha, que era quase todos os dias, e então aí sim, molhavam-se, calcando bolanhas e savanas, carregando material de guerra, algum obsoleto, procurando um inimigo que não conheciam, a quem nunca tinham falado, com quem nunca se tinham zangado, e no tempo em que lá estive, vivi dois anos nesse cenário, embora não estivesse sujeito às tarefas dos companheiros de acção, mas via o que esses homens sofriam, com o camuflado e as botas rotas, cara de angústia, alguns dizendo mal de tudo, outros não querendo falar, muitos procurando na bebida e no cigarro, entre outras coisas, esquecer onde estavam acantonados, e os que não usavam a bebida ou o cigarro, nem sempre feito de tabaco, pelo menos no meu tempo, procuravam um espaço para poderem ter uns momentos de sossego debaixo dos mosquiteiros, isto tudo, quando regressavam das diversas tarefas a que quase todos os dias estavam submetidos, pois alguns, infelizmente não regressavam.


Estou a falar de todos, soldados, milicianos e militares de carreira, que se desdobravam pelos diversos cenários de guerra, com que o governo de Portugal estava envolvido, que era a muitos quilómetros da Europa, onde quase todos tinham nascido, e iam para combate, num espaço ambiental completamente diferente, ao que estavam acostumados, sem o treino, material de guerra, e preparação psicológica, para se poderem defender.


O José Dinis, trouxe até nós umas palavras, que talvez fossem ditas com alguma graça, mas fazem muito senso.

Tony Borie, Julho de 2013
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Nota do editor

Último poste da série de 21 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12481: Bom ou mau tempo na bolanha (40): Não era o Pai Tónio (Tony Borié)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Guiné 63/74 - P12513: Memórias da CCAÇ 2616 (Buba, 1970/71) (Francisco Baptista) (3): Ataques com armas pesadas ao quartel

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), com data de 20 de Dezembro de 2013:


Ataques com armas pesadas a Buba

No primeiro ano que estive na CCAÇ 2616 em Buba sofríamos normalmente um ataque de armas pesadas por mês. O quartel de Buba comparado com a maioria dos quartéis da Guiné poderia ser considerado uma praça forte. Tinha uma Companhia de Caçadores, um Destacamento de Fuzileiros, uma Secção de Morteiros, e uma Secção de Obuses comandados por um alferes.
Tinha três obuses 14 e alguns morteiros. Tinha muitas valas e bastantes abrigos.
O inimigo tinha já a pontaria bem afinada para o perímetro do quartel pois as granadas rebentavam com frequência dentro dele. A nossa artilharia respondia com muito barulho mas pouca eficácia.

O alferes Baptista dos obuses, outro Baptista que não eu, nunca conseguia atingir o alvo. Era um camarada com bom carácter, calmo, cheio de bonomia. Tinha pouco trabalho e ainda bem porque ele era mais do género meditativo do que activo, pois só tinha que orientar o fogo dos obuses uma vez por mês. Mas era tão bom nisso como eu a fazer tiro de a G3, sempre fora do alvo.

Foto: © Benito Neves

Já na CART 2732, em Mansabá, havia dois obuses 8,8 com o tiro bem afinado segundo me pareceu. Em parte não admira porque era uma Companhia de Artilharia e todos percebiam um pouco dessas armas. Recordo-me de conversas do capitão Abreu, na altura comandante do COP 6, do Bento e do Rodrigues, ambos alferes sobre a regulação do tiro dos obuses.
Lá fui uma vez surpreendido por uma flagelação tendo procurado uma vala ou abrigo que não encontrei. Se me recordo bem, acho que esse ataque durou pouco tempo porque o inimigo foi alvejado ou esteve perto disso. Mas apesar dos palpites do capitão e dos alferes o mago da regulação dos obuses seria o furriel Branco, comandante dos mesmos que eu saúdo se ele me puder ouvir.

Foto: © José Teixeira

Em Buba o Baptista mandava para lá bojardas só barulhentas como quem faz girândolas de foguetes morteiros em dias de festa. Cumprimentos de cá e de lá porque felizmente da nossa parte também nunca houve feridos graves. Os ataques eram bastante intensos, durante largos minutos as granadas de morteiros e de canhões rebentavam com estrondo bem perto de nós. Quando o ataque acabava todos nós suspirávamos de alívio. Tínhamos sobrevivido a mais um e não havia mortos nem feridos a lamentar.
A tensão acumulada desde o último ataque, baixava e todos nós relaxávamos. Apesar do perigo relativo que representavam eram também um acontecimento que quebrava um pouco a monotonia da rotina diária do quartel.
Havia por vezes até episódios bizarros como aquela vez em que um alferes periquito ao ouvir o estrondo da primeira granada, com a pressa de se proteger, apareceu na vala próxima dos quartos dos oficiais tal como veio ao mundo, todo nu, sem uma parra a cobri-lo.

Habituados à periodicidade mensal desses ataques todos nós começávamos a ficar mais nervosos se algum ataque se atrasava demasiado. Isso seria sinal que estariam a preparar um ataque maior que os anteriores. Aconteceu a primeira vez que fomos bombardeados com misseis terra-terra. O ataque em si não terá sido muito maior que os outros mas trazia essa nova arma que além de provocar mais deslocação de ar fazia também um estrondo maior, mais aterrador.
Antes desse ataque o capitão recebeu uma mensagem cripto a avisar que o quartel seria atacado com armas pesadas no dia seguinte. Na manhã desse dia chamou um alferes a quem comunicou o teor da mensagem e disse-lhe que de tarde antes das cinco, hora provável do ataque, teria que estar com o pelotão num local donde supunha que o inimigo atacaria. Os ataques do inimigo eram normalmente depois das cinco da tarde, pois a partir dessa hora os Fiat's já não descolavam para os alvejar.

Lisboa > Museu Militar > O foguetão 122 mm ou a arma especial Grad (na terminologia do PAIGC). Era uma arma de artilharia, de bater zona e não de tiro de precisão, com alcance máximo de 11.700 metros para 40º de elevação. Segundo um relatório do PAIGC a distância maior a que se efectuou tiro, teria sido contra Bolama, em 4 de Novembro de 1969, a 9800 metros. O foguete dispunha de um perno (assinalado a vermelho) que, percorrendo o entalhe em espiral existente no tubo, imprimia uma rotação de baixa velocidade a fim de estabilizar a vôo. As alhetas só se abriam depois do foguete sair do tubo.

Foto (e legenda): © Nuno Rubim (2007). Todos os direitos reservados.

Soube-se depois que o alferes não cumpriu essa ordem porque às cinco da tarde o quartel estava a ser atacado com canhões, morteiros e misseis pela primeira vez. Atacado precisamente do local onde devia estar o pelotão a essa hora. Nunca compreendi muito bem essa ordem do comandante da companhia pelas seguintes razões: os ataques de armas pesadas a Buba tinham sempre um potencial de fogo muito razoável. Ora isso implicava da parte do inimigo muitos homens para o transporte das armas e munições. Para fazer segurança a esse importante transporte naturalmente teria que haver muitos combatentes pois o inimigo não gostava de se arriscar a perder armas pesadas.
Terá o alferes feito estes cálculos? É provável.

Penso que este episódio terá sido conhecido por muita gente mas pouco comentado. Que eu saiba o capitão nunca confrontou o alferes pelo não cumprimento dessa ordem. Seria muito mau para ele se lhe fosse levantado um auto disciplinar, provavelmente seria a despromoção e a prisão.
Pelo reconhecimento feito no dia seguinte calculou-se que teriam vindo cerca de cem guerrilheiros ou mais, uns para o transporte das armas pesadas e outros para fazer a segurança. Ora o pelotão já com 15 meses ou mais de Guiné, estava bastante reduzido, talvez com 15 homens mais 5 milícias africanos. Se o alferes tivesse cumprido a ordem o confronto seria inevitável e dada a superioridade numérica o pelotão seria destroçado.

Segundo me apercebi e aceito o contraditório de outros camaradas, havia uma cadeia de comando operacional no terreno, na zona de combate, que era o alferes, miliciano quase sempre, o furriel também miliciano e o primeiro cabo. A responsabilidade da condução da maior parte das acções ofensivas ou defensivas fora dos quartéis era deles. Acima havia os que davam as ordens, boas ou más, equilibradas ou prejudiciais porque o perigo e a responsabilidade da execução nunca era deles, resguardados nos gabinetes dos quartéis ou no ar condicionado de Bissau.

Os traumatizados no corpo e na alma, os que tiveram a sorte de voltar e hoje se juntam para fazer terapia em grupo e para coçar feridas que demoram a cicatrizar são os que passavam dias e noites, nas florestas e bolanhas, ao calor, à chuva e ao frio noturno. Não é justo generalizar esta critica porque houve alguns capitães e outros oficiais acima que eram verdadeiros operacionais.
No outro prato da balança também há a considerar as vidas familiares e afectivas dos militares do quadro, por vezes com vários anos de ultramar e com filhos com pais ausentes e casais separados pela distância. Quando os filhos precisavam também do pai para os ajudar a crescer e o casal do convívio quotidiano para manter vivo o seu projeto de vida em comum.
Em 1974 quem resolveu acabar com a guerra foram as mães dos milicianos que não quiseram ter mais filhos mortos e as mulheres dos capitães que estando casadas se recusaram a viver mais como viúvas.

Houve mais ataques ao quartel de Buba.
Houve um grande ataque, foi o maior de todos, possivelmente em princípios de Maio de 1971. Esse ataque tal como mais dois outros um ao quartel de Tite e a um outro quartel que não recordo, comandados segundo se constou pelo Nino Vieira, que era o comandante militar da zona sul do PAIGC, antecederam o ataque fantasma a Bissau em que o Nino ou algum subordinado dele disparou alguns misseis que foram cair no mar ainda longe do cais.
Terá sido feito a pedido dos nossos guerreiros burocratas de Bissau, para justificar os tais 100% de zona de guerra?
Temos que ter também em atenção que muitos combatentes do PAIGC também iam passar férias a Bissau.

Nesses ataques infelizmente morreram dois alferes em Tite, apanhados por uma granada no quarto ou perto dele. Esse grande ataque de Maio a Buba teve uma duração excessiva, talvez mais de meia hora e um potencial de fogo enorme. Explosões sucessivas e em simultâneo das granadas de morteiro, canhões e dos misseis. Ouvíamos os rebentamentos e víamos os clarões bem perto das valas e abrigos. O ataque foi subindo de intensidade e por alguns minutos Buba esteve debaixo de uma autêntica trovoada de bombas que atordoavam os céus com clarões que iluminavam tudo em redor. Parecia até que o Nino além das armas já referidas tinha também os famosos katiusha ou órgãos de Estaline, essa arma terrível que fez tantos estragos aos alemães durante 2ª Guerra Mundial.

Durante esses minutos a nossa artilharia calou-se por falta de condições de alguma segurança para ripostar. Por fim o ataque terminou porque as munições do inimigo se terão acabado. Meios atordoados depois daquele festival de bombas saímos das valas e abrigos e fomos verificar os estragos. Houve apenas alguns feridos ligeiros, sem necessidade de evacuação para Bissau. A caserna dos fuzileiros tinha dois grandes buracos sem mais consequências.
Fomos beber umas cervejas aos bares e brindar, a vida continuava.

Por algum tempo continuaríamos à espera de outros ataques, enquanto ouvíamos diariamente os ataques aos quartéis do sul, sobretudo de Guilege essa terra martirizada junto à fronteira que em 1971 sofreu 35 ataques durante um mês, uma pressão enorme que praticamente obrigava esses camaradas a viver quase sempre como toupeiras dentro dos abrigos.

Por ter falado nos milicianos, de repente veio-me à memória o poema "Canto às mães dos milicianos mortos" de Pablo Neruda que não sei se enquadraria bem neste texto que já vai longo, nem se a sua reprodução seria autorizada. Recomendo a sua leitura a quem me ler assim como recomendo a leitura de outros poemas.
Um poema é como uma oração que alimenta e purifica a alma.
Os poetas são os mortais mais próximos dos deuses.

Um grande abraço camaradas
Francisco Baptista

OBS: Selecção e inclusão de fotos da responsabilidade do editor
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Nota do editor

Último poste da série de 26 DE NOVEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12347: Memórias da CCAÇ 2616 (Buba, 1970/71) (Francisco Baptista) (2): Aníbal: um inadaptado, um marginal ou um anarquista?

Guiné 63/74 - P12512: O nosso livro de visitas (174): Camarada não identificado, pertencente ao Pel Caç Nat 61 de Cutia, comandado pelo ex-Alf Mil Simeão Ferreira que hoje é médico nas Termas de Monte Real

1. Um camarada não identificado (por que há tanta relutância na identificação completa?) deixou este comentário, no dia 22 de Dezembro passado, no Poste 2881:

O capitão Picado não era o que se teve que fazer uma cama especial (dado sofrer da coluna)?

Fui furriel do Pel. Caç. Nat. 61 de Junho de 70 a Junho de 72 sob comando do alferes Simeão, juntamente com os furríéis Amorim e Sá e com o cabo Luís Cordeiro Anastácio, do qual bem como do alferes nada sei deles.

Um abraço para eles todos, bem como para aqueles de quem não recordo o nome e que tenham um Santo Natal e que o Ano Novo lhes traga as maiores felicidades.

Sei que o Batalhão a que estava ligado operacionalmente realiza um almoço convívio no 1º sábado de Maio e que pela 1ª vez espero estar presente para poder reviver os maus e bons momentos (mais estes do que aqueles).


2. No dia 23 o ex-Cap Mil Jorge Picado, CMDT da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, respondeu:

Em resposta ao Anónimo que colocou este comentário, espero que volte ao Blog e tome conhecimento destes meus esclarecimentos.

Por exclusão de partes tratar-se-á do ex-Fur Mil João Luís dos Santos Pimenta que desembarcou em Bissau em 14JUN70 chegou ao Pel Caç Nat 61 nesse mês, então sediado em Cutia e na dependência da CCaç 2589/BCaç 2885, para substituir o camarada João António Pina que terminou a comissão em 20JUL70.

Os Fur Mil José António Rodrigues Amorim (desembarcou em Bissau no mesmo dia e apresentou-se possivelmente no mesmo dia que o Pimenta), substituiu o camarada José Rosa Matos França (fim de comisão em 02JUL70) e Armando Barbosa de Sá (desembarcou em Bissau em 20JUL70, apresentando-se nesse mês) que substituiu o camarada Mário Jorge Fernandes (fim da comissão em 02LUJ70).
O Alf Mil Simeão Duarte Martins Ferreira (desembarcou em Bissau em 17AGO70 apresentando-se nesse mês), substituiu o camarada Rodrigo Lopes, de quem não tenho recordação, (fim de comissão em 29JUL70).

Sobre o Cabo Luís Cordeiro Anastácio não possuo elementos, possivelmente teria chegado depois de 14FEV71, já com as novas unidades que nos renderam.

Quanto à cama não foi para mim, já que enquanto estive a "saborear os prazeres daqueles saudáveis ares de Cutia no Resort que a foto mostra e de que o camarigo fermero Tisseira ainda viu os vestígios que restam quando desta última passagem por aquelas terras", como digo a cama era uma igual a tantas outras de ferro, apenas com o "privilégio" de que não o tinha "beliche", como todas as outras possuíam, para "armazenar" todos aqueles homens naquele abrigo.

Destacamento de Cutia
Foto: © Jorge Picado

Talvez o Cap da CCaç que rendeu a 2589 tivesse optado por uma mais confortável. Sobre o pessoal deste Pel, apenas tenho tido contacto com o ex-Alf Simeão, nos almoços de Monte Real, onde ele aliás é médico das Termas.

Quanto aos almoços do BCaç 2885 eles são normalmente no 1.º sábado de Março. Apenas este ano a data foi em Maio, por razões anómalas. Serás bem-vindo a estes almoços e já agora porque não te juntas a esta Grande Tabanca e contas as tuas lembranças? Aqui fica o convite.

Abraço
Jorge Picado
ex-Cap Mil da CCaç 2589 e não só.


3. Comentário do editor:

Continuamos a ver publicados comentários de camaradas que não se identificam.
Por uma questão de cordialidade para connosco, devidamente identificados, com foto e tudo, deveriam os postadores de comentários deixarem o seu nome, posto e unidade, e se possível, o contacto electrónico.

Terão estes camaradas vergonha da sua condição de ex-combatentes?

Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 22 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12486: O nosso livro de visitas (173): C. Carmelino, da CCAÇ 2701 (1970/72), a companhia do Saltinho... Esteve sempre no QG, em Bissau, na Amura, onde foi condutor do major Carlos Fabião

Guiné 63/74 - P12511: Notas de leitura (547): "Portugal em África", por Richard Pattee (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Julho de 2013:

Queridos amigos,
Enquanto o governador Sarmento Rodrigues se preocupou em convidar estudiosos portugueses para alargar os horizontes da investigação e fazer crescer o interesse pelos estudos guineenses (veja-se Orlando Ribeiro, Mendes Corrêa e o melhor que dispúnhamos a tempo na medicina tropical, agronomia, zoologia, etc.) agora se fazia sentir a pressão internacional hostil ao colonialismo, os convites eram endereçados a professores e jornalistas convictos da missão colonizadora do governo português.
Richard Pattee era um professor com pergaminhos que acreditava na missão colonizadora portuguesa, todo o seu texto é muito temperado e procura justificar as inércias do passado. E vê-se que se tratava de um intelectual convicto na missão portuguesa em África.

Um abraço do
Mário


Richard Pattee na Guiné, em 1957

Beja Santos

Quando Richard Pattee chegou à Guiné, era já um conceituado professor de história e ciências políticas em universidades como Puerto Rico, Cidade do México, Friburgo e Quebec, era considerado um especialista da história moderna e contemporânea dos países ibero-americanos. Dedicava-se igualmente ao jornalismo sobretudo na imprensa católica. O seu filho, Samuel, acompanhou-o nesta digressão que compreendia a Guiné, Cabo Verde, S. João Batista de Ajudá, Angola e Moçambique.

A Agência Geral do Ultramar deu à estampa, em 1959, a tradução do seu livro “Portugal and the Portuguese World”, a quem foi conferido, em 1958, o prémio Camões, instituído para galardoar a melhor obra publicada no estrangeiro sobre Portugal.

No início da sua viagem pela Guiné, recorda o leitor a má reputação da região: sepulcro do branco. Depois reflete sobre os maus juízos proferidos por pessoas que sobre elas escreveram, dizendo, entre outras apreciações absurdas, que a Guiné não tinha importância para Portugal nem qualquer significado internacional, era um exemplo pavoroso de colonialismo decadente, ser o exemplo vivo da parte mais atrasada do continente africano; mas também que a Guiné tinha muito poucos portugueses e que a penetração económica portuguesa tinha sido insignificante, etc., etc. Ora acontece, diz Pattee, que o governo da Guiné está nas mãos de uma administração competente e imparcial e que o progresso económico marcha a um ritmo considerável. Inicia a sua viagem em S. Domingos, tomara um avião de Dakar a Ziguinchor, foi acolhido pelo administrador da circunscrição o goês Alfonsinho Gomes Pereira. Passou a primeira noite em Varela, uma praia com uma extensão de 40 quilómetros de areia, ele classifica-a como uma beleza alucinante. Até Varela, viu Felupes armados de arcos e flechas e na segunda noite, no posto de Susana, assistiu a uma exibição de desporto pelos lutadores Felupes.

De seguida, faz a apresentação da Guiné Portuguesa e observa: “A pequena capital da Guiné Portuguesa começa já a tomar o aspeto de cidadezinha. Eu, antes da minha visita, tinha formado no meu espírito uma ideia de Bissau como de uma aldeia de palhotas com alguns edifícios à maneira europeia. Mas a realidade é bem outra: cidade de lojas e hotéis, construções sólidas e até de estabelecimentos de luxo onde não falta a patisserie e lembro-me com surpresa de uma formidável joalharia”.

A grande impressão que ele tem da Guiné é a sua aquosidade, refere regiões, marés, o clima, as estradas que, adianta, são perfeitamente transitáveis na época seca. Deslumbra-se igualmente com os Bijagós. Anota que os funcionários vestem uniforme branco de rigor, “o que dá à vida oficial e administrativa portuguesa uma nota de dignidade e de respeito pelas formas de civilização que contrasta com o desmazelo de outras partes de África".

Lança seguidamente sobre os antecedentes históricos e socorre-se das obras de Teixeira da Mota e Mendes Corrêa, que ele conhece na perfeição. “A Guiné ocupa um lugar de posto avançado do lusitanismo na África Ocidental. Comparando a extensão colonial da Guiné no passado com as fronteiras atuais, dá a seguinte explicação: “O expansionismo francês durante o século XIX muito contribuiu para abalar o regime português na Guiné. A situação precária da Metrópole refletiu-se na longínqua colónia: incerteza na política a seguir; incapacidade de Portugal, depois da invasão napoleónica, para restabelecer a sua autoridade eficazmente em África, e os distúrbios e dissensão na mesma Guiné com as revoltas das guarnições, lutas entre fações opostas e divisões de toda a espécie”. Mais adiante, cita com detalhe a Memória sobre o estado atual da Senegâmbia portuguesa, causas da sua decadência e meios de a fazer prosperar, de Honório Pereira Barreto.

Para Pattee, a situação mudou radicalmente. “Agora, não só há governantes, mas há um governo, e a eficiência com que funciona e o prestígio absoluto de que goza dão uma forte impressão aos que visitam a província. E exalta o trabalho do pessoal administrativo: “Servir no mato isolado dos centros de cultura e sociabilidade, mesmo quando as condições materiais não são intoleráveis, exige um grande espírito de missão e um profundo sentido de vocação”. Está deliciado com as festas populares a que assiste, nos Bijagós, no Gabu. E lança-se a fundo nas considerações políticas que levantam a religiosidade guineense. A missionação, em termos históricos, mostrou-se um fracasso. Interpreta o êxito do islamismo como a resposta que os africanos encontraram para não serem escravizados.

Colecionou opiniões de vários administradores sobre o totemismo e as dimensões do animismo, sobretudo das populações litorâneas. Confirma que não há praticamente portugueses na Guiné, o comércio é exercido sobretudo por sírios e libaneses. E retorna à questão islâmica que lhe acicata a curiosidade, caso do sincretismo entre o Islão e o animismo. Do que viu, as escolas corânicas pouco estavam a contribuir para o desenvolvimento da Guiné. E aproveita para referir que o Islão vive na Guiné pelo estabelecimento confrarias e pela influência dos marabus, à semelhança do que se passa na África Ocidental Francesa.

Sente-se encantado com a assimilação praticada pelos portugueses. Ele sabe das objeções que decorrem sobre o valor dessa assimilação, pois não devem passar de dois ou três mil os pretos ou mestiços que podem ser considerados como assimilados ou incorporados na vida portuguesa. Ele sabe que é verdade haver poucos assimilados, sob o ponto de vista social. Mas refere outros dados que, na sua ótica, são conducentes à assimilação: a obra de saúde, de higiene, dos melhoramentos em todos os domínios. É também verdade que a ausência de colonos europeus pesa no número de assimilados. Mas há dados animadores, é a sua maneira de ver, pois não há elites africanas repelidas pelos europeus e forçadas a achar expressões violentas para obterem o poder. E mais, escreve: “A atitude do português para com o mestiço, que é única no mundo moderno entre as nações europeias, evita o que é muito mais importante em áfrica do que a questão de níveis sociais ou de progresso material – o choque psicológico entre as raças”. E dá uma explicação para o papel civilizador em marcha: “É preciso convencer o indígena a renunciar, quando for o momento oportuno, ao seu sistema de vida; de compreender as vantagens indiscutíveis da vida civilizada e de vir para ela com a consciência tranquila. É preciso na Guiné, antes de tudo, criar os organismos, combater as doenças, ensinar a viver com saúde e com decência. Quando penso que na Guiné só o número de indivíduos observados como possíveis vítimas da doença do sono aumentou entre 1946 e 1951 de 15689 a 214000, compreendo que o governo português não faz isto em benefício dos europeus, que são apenas um punhado no território”. Para Pattee, havia ainda situações coloniais que era preciso continuar a eliminar. E no final da sua visita considera que a Guiné é uma terra de esperança e de confiança, a Guiné é uma revelação para as pessoas de boa vontade que lá foram com o fim de conhecer este maravilhoso microcosmo de raças, culturas e costumes. E termina agradecendo a hospitalidade ao governador, Álvaro da Silva Tavares, ele personificaria o tipo de alto administrador ao serviço do Portugal moderno.
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Nota do editor

Último poste da série de 23 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12492: Notas de leitura (546): "O Conhecimento Etnológico da Guiné-Bissau. Uma Perspectiva de Género", de Manuela Borges e "Perspectivas para o Estado da Evolução das Representações dos Africanos nas Escritas Portuguesas de Viagem: O Caso da Guiné e Cabo Verde - Séculos XV a XVII", por José da Silva Horta (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P12510: Parabéns a você (671): José Pedro Neves, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 4745 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 24 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12497: Parabéns a você (670): João Rebola, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2444 (Guiné, 1968/70)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Guiné 63/74 - P12509: O que é que a malta lia, nas horas vagas (24): Leon Uris, entre outros, e muita música (Abílio Duarte)

1. Mensagem do nosso camarada Abílio Duarte, ex-Fur Mil Art da CART 2479 (que em JAN70 deu origem à CART 11 que por sua vez em JUN72 passou a designar-se CCAÇ 11), Contuboel, Nova Lamego, Piche e Paunca, 1969/70), com data de 13 de Dezembro de 2013:


O que se lia, o que se ouvia e o que se via

Não me recordo o que estava a ler nesta foto, mas de certeza era qualquer tema relacionado com a criação do estado de Israel, e as guerras que tiveram em especial a guerra dos 6 dias.

Talvez influenciado pelos livros de Leon Uris, como Êxodus e Mila 18, era grande fã do general Moshe Dayan.
As reportagens e artigos sobre a guerra dos 6 dias eram as minhas preferidas.
E lendo-as, as minhas noções de estratégia e táctica, ficaram mais claras.
Para mim aquele general era um herói.

O que se ouvia era muita música italiana (Modugno, Cellentano, Milva, Morandi, etc.), brasileira (Sérgio Mendes+Brasil 66, Gilberto Gil, Caetano, Roberto Carlos) e norte-americana (Nina Simone, Ella, Ottis Reding, Beatles, Tijuana Brass, James Last, etc.)

Vem esta conversa a propósito do "bicho" gravador-leitor de cassetes que está na mesa.
Eu nunca tinha visto na metrópole tal aparelho, conhecia os gravadores de fita horizontais e verticais, os de cartuchos, e fiquei de olho naquilo numa das vezes que fui à Casa Pintosinho em Bissau, e na primeira oportunidade comprei um, salvo erro era um Sharp.
Depois era só aproveitar através do "Pifas" gravar as músicas preferidas. Era um espectáculo. Este aparelho ficou em Paunca, que ofereci à Rádio Lacrau.

Esta foto é de 1970 e foi captada, em Pirada, aquando uma das nossas deslocações para operar naquele sector, e vieram-me à memória algumas situações a que assisti e vi naquela localidade.

Para mim era estranho que a casa da delegação da PIDE, onde estava o tal agente Mário Soares, era fora do arame farpado, onde este recebia alguns soldados do Senegal e outros informadores.

Também estranho era a quantidade de gente que vinha ao posto de saúde de Pirada, a maior parte vinham do Senegal, e nunca me apercebi de ver alguém a controlar aquela gente.

Vem esta conversa a propósito de que em meados de 1970, onde por acaso não havia ninguém da minha Companhia, Pirada foi atacada a partir do seu interior. As noticias que nos chegaram foi que o PAIGC se misturou com a população que ia ao posto, instalou-se na tabanca e, ao anoitecer, atacou principalmente os abrigos e valas onde estavam soldados da companhia residente, salvo erro eram madeirenses, e se viram atacados pelas costas.
Dizem que foi um alvoroço dos antigos, penso que houve mortos e alguns nossos camaradas foram apanhados à mão.

Se algum membro da nossa tabanca tem melhores conhecimentos deste ataque, gostaria que o relatasse.

Não te roubo mais tempo, um grande abraço, boas festas para ti tua família e restante equipa do blog, assim como para todos os "piriquitos" desta nossa tabanca.

Abílio Duarte

OBS:- Ilustrações e links para o Youtube da responsabilidade do editor
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Nota do editor

Último poste da série de 24 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12499: O que é que a malta lia, nas horas vagas (23): Escrevia, estudava, ouvia música e jogava cartas (Manuel Moreira)

Guiné 63/74 - P12508: Ser solidário (156): Assembleia-Geral Ordinária (Eleitoral) e Almoço de Reis da Tabanca Pequena, ONGD, dia 4 de Janeiro de 2014 na Cantina da Refinaria de Matosinhos da Petrogal, em Leça da Palmeira

1. No próximo dia 4 de Janeiro de 2014, a Tabanca Pequena-Grupo de Amigos da Guiné-Bissau, ONGD vai realizar dois eventos nas instalações da Cantina da Refinaria da Matosinhos da Petrogal, sita na Rua Belchior Robles, em Leça da Palmeira, com entrada junto ao Farol da Boa Nova.

O primeiro, a ter lugar pelas 12,00 horas, é a Assembleia-Geral Ordinária (Eleitoral) com um ponto único, a eleição dos Órgãos Sociais para o biénio 2014/2015.

O segundo, pelas 13,00 horas, é o Almoço de Reis, cujo programa se publica mais abaixo.


CONVOCATÓRIA PARA A ASSEMBLEIA-GERAL ORDINÁRIA (ELEITORAL)



CONVITE PARA O ALMOÇO DE REIS

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Nota do editor

Último poste da série de 29 DE NOVEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12363: Ser solidário (155): Tabanca Pequena de Matosinhos apoia Associações de Costureiras da Guiné-Bissau (José Teixeira / AD)

Guiné 63/74 - P12507: In Memoriam (175): António Carlos de Oliveira Machado, o Machadinho, 1º cabo especialista MARME da FAP, falecido em 12/7/1969, em Bafatá, na queda do helicanhão de que era apontador... Homenagem de Viseu, sua terra natal (Luís Nascimento)


Viseu > Abrevezes > Placa toponímica de homenagem ao nosso malogrado camarada da FAP, António Carlos de Oliveira Machado, falecido em desastre aéreo em Bafatá, em 12/7/1969.


Foto: © Luís Nascimento  (20). Todos os direitos reservados.



1. Mensagem enviada por Luís Nascimento, 
através da sua neta Jessica, com data de 24 do corrente:

 Assunto - In Memoriam (*)

Homenagem a António Machado (Machadinho), 1º Cabo Especialista da FAP,  falecido em 12 de Julho de 1969 em Bafatá,  na queda do helicanhão. (**) [Foto à direita]

Avenida com o seu nome,  em Viseu. [, foto acima]

Fui seu amigo, amigo dos seus irmãos e pais.

Bom Camarada, descansa em Paz.

Bom e Feliz Natal para todos os nossos tabanqueiros.

Sir Assassan,

Luís Nascimento [foto à esquerda]

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 23 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12493: In Memoriam (174): "Toni, Sempre!", homenagem singela e comovida a um grande amigo e camarada, o António Teixeira (1948-2013), pelo Joaquim Pinto Carvalho (ex-alf mil, CCAÇ 6, Bedanda, 1972/73)


(**) Vd. poste de 12 de julho de  2012 >  Guiné 63/74 - P10144: In Memoriam (121): António Machado, 1.º Cabo Especialista MARME, e António Rodrigues, Capitão Pilav, que pereceram num acidente de helicóptero no dia 12 de Julho de 1969, em Bafatá (Jorge Narciso)


(...) 1. No regresso de uma operação com tropas paraquedistas, com base em Galomaro, os 6 helis participantes (5 de transporte + 1 canhão) dirigiram-se a Bafatá para reabastecimento, antes do regresso a Bissau.

2. Neles viajavam, como habitualmente nestes casos, para além dos 6 Pilotos, uma equipa de manutenção composta por 4 mecânicos da linha, um apontador de canhão e uma enfermeira paraquedista.

3. As condições atmosféricas, que já não eram boas à saída de Galomaro, agravaram-se entretanto significativamente, nomeadamente com forte chuva.

4. Chegados a Bafatá, aterraram normalmente cinco dos helis, enquanto o do canhão, na manobra de aproximação, embateu com o rotor numa das espias de aço da antena de comunicações implantada junto à pista, tendo-se despenhado e sequentemente incendiado no embate com o solo.

5. Nele assim pereceram os: 

Cap Pilav Rodrigues, comandante da Esquadra 122 (Alouette III) e o
1º Cabo Especialista MARME António Machado, apontador do canhão. (...)

Guiné 63/74 - P12506: Boas festas 2013/14 (14): Merry, Merry Christmas!... Daqui de Brestanica, Eslovénia, a pequena Suiça da União Europeia (João e Vilma Crisóstomo)

1. Mensagem, em inglês, enviada pelo casal João e Vilma Crisóstomo, em 23 do corrente, com tradução (livre) de L.G.:


Assunto: Olá, daqui da Eslovénia!

Saudações de Brestanica, cidade natal de minha Vilma, na Eslovénia

A todos os meus amigos,  com quem eu gostaria de estar,  ou de ter comigo, ou pelo menos poder telefonar : FELIZ,  FELIZ NATAL!

Que todos vocês possam desfrutar desta quadra festiva, tal como nós o fazemos nestes últimos dias. Começámos as nossos três semanas de férias em 13 de dezembro, partindo de Nova Iorque para a Europa. Os primeiros três dias passámo-los em Portugal, onde,  na impossibilidade de fazer visitas, reservámos um dia para uma festa com todos os meus parentes e amigos em Torres Vedras, minha cidade natal.

Foi maravilhoso compartilhar essa tarde com muitos bons amigos, alguns dos quais  tiveram que viajar algumas horas para "um abraço apertado ". Entre eles,  um amigo que eu não via desde o meu tempo de serviço militar em África (1965 /67).

Partimos depois para   Paris onde, como em Portugal , fizemos questão de passar uma tarde com alguns amigos. E agora estamos na Eslovénia, um país bonito,  legitimamente chamado a pequen n Suíça da União Europeia.

Gostaria muito de vos telefonar a todos, em vez de usar o e-mail, mas é quase impossível. Então,  se cada um de vocês está  receber  este e-mail, é porque é  muito especial para nós, já que somos "exigentes" quando se trata de "escolher" os amigos ). A todos e a cada um de vocês, os nossas calorosas saudações nesta quadra natalícia. Queremos que saibam que a vossa  amizade significa muito para nós. Sentimo-nos privilegiados e estamos muito gratos.  Obrigados, mesmo.

Um abraço grande, João e Vilma

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Date: 2013/12/23
Subject: Hello from Slovenia!

Greetings from Brestanica, my Vilma's hometown in Slovenia

to all my friends, whom I would like to be with or have with me or at least be able to call on the phone: MERRY MERRY CHRISTMAS. May you all enjoy this holiday season as much it as we have enjoying the last few days.

We started our three week vacation on Dec 13 and left New York to Europe. First three days in Portugal (where , since we had no time for visits we reserved one day for a party for all my relatives and friends in Torres Vedras, my hometown) . It was wonderful to share that afternoon with many good friends (,some of them had to travel some hours time for "um apertado abraço", among them a friend whom I had not seen since my military service in Africa ( 1965/67).

Then we left for Paris l, where, like in Portugal, we were able to spend a afternoon with some friends. And now we are in Slovenia, a beautiful country rightfully called Europe's little Switzerland.

I would love to be able to use the phone, rather than this E mail, but it is almost impossible. So... (and if you are receiving this E mail it is because you are very special to us as we are "choosy" when it comes to "choosing" friends).... to all and single one of you..., our heartfelt BEST WISHES in this holiday season. We want you to know that your friendship means a lot to us. We feel privileged and are very grateful. Thank you indeed.

Um abraço grande,

João e Vilma.
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Nota do editor:

Último poste da série > 25 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12502: Boas festas 2013/14 (13): Natal em Berlim (J. L. Mendes Gomes)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Guiné 63/74 - P12505: Inquérito online: Como é que a malta ocupava os 'tempos livers' no mato... Resultados finais (n=90): mais de metade dos respondentes "lia e escrevia cartas/aerogramas" (55%)... e apenas 5% refere a existência de pequenas bibliotecas...



Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > c. 1969 >  Bar de sargentos: o fur mil armas pesadas inf, Luís Manuel da Graça Henrique, lendo um dos livros que trouxe consigo, da metrópole. Também assinava duas revistas, o "Comércio do Funchal" e, se não erro, o "Notícias da Amadora" ou "O Tempo e o Modo"...

Há anos que eu não revia esta foto dos meus tempos de Bambadinca... Ainda tinha uma vaga esperança de que este armário, atrás de mim, pudesse ser uma estante com livros... Mas, não: revendo-a, e analisando-a agora com mais atenção, verifico, desapontado, que se tratava de móvel de apoio ao bar... A parte de cima servia para guardar a parte mais preciosa da garrafeira do bar de sargentos:  garrafas de uísque velho, conhaques... Livros, revistas e jornais, só os havia nos nossos quartos... Neste bar, passávamos uma boa parte dos nossos tempos livres: uns jogavam às cartas (king e lerpa, geralmente a dinheiro); outros preferiam, como eu, ficar nas horas mortas da noite a tocar e/ou a ouvir música, cantar, conversar, conviver, beber uns copos... As paredes deste bar, se falassem, teriam muitas histórias para contar... Era também a nossa sala de visitas... (LG)

Foto: © Luís Graça (2005). Todos os direitos reservados.


1. Resultados finais da sondagem sobre a ocupação dos tempos livres no mato (*), que decorreu de 18 a 24 de dezembro, e teve um total de 90 (noventa respostas). A pergunta admitia mais do que uma resposta: aliás, havia 20 hipóteses de resposta.
SONDAGEM >  NO QUE DIZ RESPEITO À OCUPAÇÃO DOS 'TEMPOS LIVRES', NO(S) AQUARTELAMENTO(S) ONDE ESTIVE, LEMBRO-ME QUE... (PODES DAR MAIS DO QUE UMA RESPOSTA)

Formas de ocupação dos tempos livres  no mato (n=90)... 

Mais frequentes...

Lia e escrevia cartas e aerogramas > 50 (55%)

De preferência convivia com os meus amigos > 46 (51%)

De preferência petiscava e/ou bebia uns copos > 42 (46%)

Eu lia livros com alguma regularidade > 40 (44%)

De preferência ouvia música > 39 (43%)


Eu lia jornais/revistas com alguma regularidade > 37 (41%)

De preferência jogava às cartas > 36 (40%)


Levei livros para a Guiné > 29 (32%)

De preferência jogava à bola > 27 (30%)

De preferência convivia com a população da tabanca > 27 (30%)


Menos frequentes (n=90)...


Assinava revistas/jornais > 16 (17%)

Não tinha disposição para ler > 13 (14%)

Tinha um diário onde escrevia > 13 (14%)

De preferência dormia (por ex., a sesta) > 12 (13%)


Não tinha nada para ler > 9 (10%)

Fazia trabalho comunitário (escola, saúde, igreja...) > 9 (10%)

Não tinha tempo para ler > 7 (7%)

De preferência ia à pesca ou caça > 6 (6%)

Havia uma pequena biblioteca com livros > 5 (5%)

Não sei / não me lembro > 1 (1%)

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Nota do editor:

Vd. postes de:


18 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12470: Sondagem: ocupação dos tempos livres no mato... A decorrer até à véspera de Natal... Os primeiros depoimentos: J.F. Santos Ribeiro, Francisco Palma, Xico Allen, João Martins

Guiné 63/74 - P12504: Conto de Natal (18): "Uma Luz de Natal no alto do Monte", por Adriano Miranda Lima - Cor Inf Ref

1. Mensagem do nosso tertuliano e camarada Adriano Miranda Lima (Cor Inf Ref, que cumpriu as suas comissões de serviço em Angola e Moçambique), com data de 24 de Dezembro de 2013:

Amigo, agradeço e retribuo os votos natalícios e desejo a si e sua família, assim como a todos os tabanqueiros, um Santo Natal e um Feliz Ano Novo.

Escrevi nesta quadra um conto de natal inspirando-me no imaginário cabo-verdiano (nasci em Cabo Verde) e situando a mensagem natalícia nas pessoas humildes que, embora a sua condição, sentem-na com a mesma intensidade que o comum das pessoas. E em alguns casos a autenticidade se reforça na simplicidade dos sentimentos.
Cabo Verde tem também raízes guineenses na génese da sua população, embora da miscigenação étnico-cultural e da religião predominantemente católica tenha resultado uma fisionomia identitária muito própria. E é por isso que entendo que o conto interessará aos amigos tabanqueiros.

Grande Abraço
Adriano Lima


Cabo Verde Safari - São Vicente – Foto de São Vicente, Cabo Verde
Foto de São Vicente - Cabo Verde. Com a devida vénia a TripAdvisor


UMA LUZ DE NATAL NO ALTO DO MONTE (1)

Conto de Natal, em homenagem à mulher anónima cabo-verdiana que ao longo dos tempos lutou arduamente para criar os seus filhos, e às vezes até netos, com honradez e dignidade

Nha Sabina, mulher de rija têmpera, tinha da vida uma experiência agridoce, na sua maneira peculiar de sofrer as agruras do quotidiano sem hipotecar todas as reservas do seu ânimo. Os seus cinquenta e cinco anos de idade ensinaram-lhe desde cedo que o poder da imaginação logra por vezes autênticos milagres no encontro de novos estímulos para a vida. Por vezes, bastava-lhe a simples contemplação das luzes que bruxuleiam à noite nos mastros das embarcações estrangeiras fundeadas na baía para logo sentir o palpitar do mundo que se abre para lá da imensidão líquida do oceano. E é quando lhe vêm à lembrança os filhos da terra que saíram para longe a bordo de vapores estrangeiros. Por onde andariam, que destino deram às suas vidas? Este e outros devaneios do género transformam-na, com frequência, em avatar da vida fervilhante das grandes cidades que uma ou outra vez viu estampadas em coloridos postais. Mas ela logo se devolve, satisfeita consigo própria e com o pouco que tem, à pobreza honrada do lugar em que exerce a soberania do seu viver. A sua pequena casa, modesta, fica naquela zona do Monte junto à Muralha (2), permitindo-lhe um convívio permanente com a visão do mar. Não se poderá dizer que a sua habitação seja um tugúrio porque ela sabe mantê-la caiada e asseada, digna na elementaridade do seu recheio, e até mesmo o seu quintalinho atrás, palco da sua labuta diária, é um primor na arrumação do fogão de carvão de pedra, do pilão e do tambor de água de Madeiral.

Este dia é véspera de Natal e seria mais um igual aos outros, não fosse o sonho que ela vinha acalentando e que graças ao seu Deus queria ver realizado logo à noite. Como sempre, levantara-se aos primeiros alvores da madrugada para pilar o milho destinado aos bindes de cuscuz que garantem o seu sustento, mais o do seu netinho Daniel de seis anos. Afora isso, concorrem também para o seu magro orçamento familiar os pastéis de milho e peixe com malagueta que fornece à mercearia de nho Ventura. Este, que aprecia o seu cuscuz, costuma exclamar mal ela franqueia a porta da mercearia segurando o recipiente com a ainda fumegante iguaria: "Sabina, o aroma do teu cuscuz lembra-me sempre um campo de milho em flor". Esse piropo deixa-a feliz e satisfeita com o que faz.

Foi precisamente numa prateleira daquela mercearia que o sonho de Sabina começou a ganhar forma. Há muito que desejava ver-se livre daquela lamparina que mal lhe alumiava a casa à noite. Pensava ela: “isto é coisa com fraco jeito, fumega exalando um cheiro que já não suporto, e ainda por cima não me dá aquela luz que entra pela alma dentro".

E por isso aquele candeeiro de vidro brilhante como cristal, exposto no estabelecimento de nho Ventura, desafiou-a durante os últimos dois meses. Mulher de imaginação viva, seduzia-se com as figurinhas gravadas a estilete de aço no vidro do candeeiro, que no seu entender só podiam ser obra de mão carinhosa.

E foi assim que começara desde há algum tempo a amealhar um escudo hoje, outro amanhã, e por vezes valores mais avultados quando o dia lhe corria de melhor feição. Arranjara uma antiga lata de conserva com uma ranhura e dela fez o cofre que haveria de realizar o milagre do seu sonho natalício da noite. Mas não seria só isso. A Sabina queria dar um “bedje” (3) de Natal ao seu Danielim, o neto cuja mãe a morte levou a seguir ao parto. Mãe solteira que foi da sua saudosa filha, passou a sê-lo também do seu netinho, com um desvelo extremo, prometendo criar e fazer dele um homem de bem, com a ajuda de Deus e do seu trabalho honesto.

O Danielim, de seis anos de idade, vinha, pois, olhando embevecido, desde há tempos, para os carrinhos de arame que saíam das mãos habilidosas de nho Sarafe Funileiro. Com formato de automóvel ou de camioneta, aqueles carrinhos eram um deslumbre para a meninada e até os mais velhos se quedavam a admirar a perfeição da sua construção. Reduzidos a arame vulgar, de espessura variável com a natureza de cada um dos seus componentes, pareciam quase transparentes na sua vaga substância material, e a funcionalidade das suas rodas de uma circunferência precisa, com o respectivo mecanismo articulado de direcção, emprestava ao brinquedo a aparência de um estranho e enorme insecto animado. Pois, o Danielim ia ter logo à noite um “bedje” de Natal que ia regalá-lo...

Quando o Sol se pôs, a Sabina já estava em casa a esfregar as mãos de contente por ter realizado um dia de venda lucrosa. Compôs a sua mesa com especial esmero e nela dispôs os ingredientes da ceia natalícia, não coisa de gente rica, mas algo sempre melhor e mais composto do que no comum dos dias. Depois, quando já escurecia, foi buscar o candeeiro dias antes comprado a nho Ventura, seu “bedje” de Natal. Atestou-o de petróleo, aguardou que a torcida se embebesse do combustível, nivelou-a o suficiente, riscou um fósforo e chegou-lhe a chama. O compartimento foi subitamente inundado de uma luminosidade nunca antes vista na sua casa de único compartimento. Ela elevou a torcida ainda um pouco mais, na ânsia de atingir o máximo da incandescência, e de repente todo o interior da habitação pareceu ganhar tons caleidoscópicos, realçando-se os pormenores antes ocultados pela luz baça da antiga lamparina. Convidou a sua amiga e vizinha Josefa, viúva e a viver só, para a ceia. E a Josefa teve logo este espontâneo desabafo, mal entrou: “Sabina, isto hoje está outra coisa, mulher. É como se a luz deste candeeiro lavasse e renovasse tudo, incluindo os nossos corações”. A Sabina não coube em si de contente com o reparo da sua amiga.

Cearam e conversaram longamente sobre o seu passado de raparigas novas, relembrando a dureza da vida de “mulher fêmea” em Cabo Verde, com as suas artimanhas e traições, mas também com as ilusões que se douram e renovam com a luz do sol nascente de cada dia. A cumplicidade entre a duas mulheres prosseguiu noite dentro até que o Danielim começou a dar sinais de sono. Foi quando a Sabina lhe fez a surpresa com o seu “bedje” de Natal, que o petiz não esperava dado o sigilo bem guardado. O menino deu um pulo de satisfação e fez-se logo chofer exímio da sua viatura, pois já se tinha habilitado com carta de condução mediante a simples observação do que vira fazer a um outro menino dono de idêntico produto saído das mãos de nho Sarafo. Começou a rodar o volante em curvas e mais curvas no chão da habitação, buzinando vez por outra: aguuuga, aguuuga. Radiante com a felicidade do seu neto, a Sabina a esmo foi observando as curvas que o brinquedo ia delineando nas suas mãos, umas mais largas e outras mais apertadas. E então comentou para a Josefa: “Vê tu, amiga, que a vida das pessoas é feita de curvas e mais curvas, como as que faz este carrinho de arame; tanto vale ser pobre ou rico, que a vida é, assim mesmo, feita de curvas, mas convenhamos que as do pobre são as que riscam mais fundo e deixam marcas inapagáveis”. A Josefa concordou, conhecedora das divagações do espírito da sua amiga, que muitas vezes não conseguia decifrar.

Horas depois, o Danielim já dormia o sono da inocência e a sua amiga se tinha despedido. Lá fora silenciaram-se finalmente os ruídos da noite festiva, sempre mais pródiga de eflúvios do que o normal, mas para os lados da Praça Estrela ainda se ouvia estalejar um ou outro foguete natalício. Sabina ficou acordada mais algum tempo, sozinha com os seus pensamentos, inalando sofregamente a luz do seu novo candeeiro, sentindo um renovo de alma, como que banhada por outra luz, a luz divina.

Tomar, Dezembro de 2013
Adriano Miranda Lima

(1) - A palavra Monte reveste aqui um duplo significado, simultâneamente real e metafórico. É que, para quem não saiba, Monte era, ao tempo recuado em que se quer situar este conto, um bairro periférico e pobre do Mindelo, e a designação se deve ao facto de ser uma zona de cota alta relativamente ao núcleo original da cidade.
(2) - Muralha foi o nome por que ficou conhecida a parte do lugar do Monte separada das antigas instalações da Companhia Miller’s por uma encosta alta e abrupta cuja consolidação foi solucionada com a construção de uma enorme parede.
(3) - “Bedje” é o termo em crioulo de S. Vicente com o significado de prenda.
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Nota do editor

Último poste da série de 23 de Dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12500: Conto de Natal (17): O Natal em Brunhoso, Mogadouro

Guiné 63/74 - P12503: "Memórias da Guiné", por Fernando Valente (Magro) (13): A Economia da Guiné - A Feira de Amostras de 1971

1. Continuação das "Memórias da Guiné" do nosso camarada Fernando Valente (Magro) (ex-Cap Mil Art.ª do BENG 447, Bissau, 1970/72), que foram publicadas em livro de sua autoria com o mesmo título, Edições Polvo, 2005:


MEMÓRIAS DA GUINÉ

Fernando de Pinho Valente (Magro) 
 ex-Cap Mil de Artilharia

13 - A ECONOMIA DA GUINÉ

A Feira de Amostras de 1971

Para um observador pouco informado, como eu era, sobre a economia da Guiné, não foi difícil constatar que, nos princípios dos anos setenta, o território possuía muito poucas indústrias.
Os principais estabelecimentos industriais situavam-se em Bissau e resumiam-se às actividades de descasque de arroz, extracção de óleos vegetais, fabrico de sabão, gelo, refrigerantes e construção naval.

Em Farim, principalmente, também a actividade de serração de madeira tinha algum significado.

Era a agricultura a base económica da Guiné. E a sua prática desenvolvia-se segundo dois tipos:
- Sedentária, de bolanha, no litoral, dedicada principalmente à cultura do arroz.
- A de mato, com queimadas e rotação de culturas, no interior, cultivando-se mancarra (amendoim), milho, mandioca, cana sacarina, feijão....

A Guiné, à excepção dos terrenos de Boé, dispõe, do ponto de vista agrícola, de solos ricos, que oferecem condições para a intensificação das culturas tradicionais e outras, porventura mais rentáveis como, por exemplo, a cultura intensiva de banana, de acordo com Vasco Fortuna (Estruturas económicas da Guiné).

No aspecto da exploração das florestas, trata-se de uma actividade de futuro pois existem na Guiné espécies valiosas em matas relativamente homogéneas.
A exportação de madeiras, como o bissilão, o pau-sangue, o pau-preto, o pau-ferro e outros poderá contribuir no futuro para a melhoria da balança comercial do território.

De acordo com Celes Alves, a criação de gado tinha um papel secundário, embora a criação de gado bovino fosse a de maior importância, seguindo-se-lhe o gado caprino, suíno, ovino e asinino.

No que se refere à actividade piscatória, alguns povos do litoral dedicam-se a essa actividade, como os Manjacos e os Bijagós, mas de um modo artesanal.
Os mares da Guiné encerram, no entanto, um bom potencial no capítulo da pesca.

Quanto ao subsolo, a Guiné também não é rica em minérios. Apenas as bauxites e a ilmenite são susceptíveis de exploração.

No mar alto há perspectivas da existência de petróleo.

Nos primeiros anos de setenta a agricultura era a fonte principal da riqueza da Guiné, embora muito prejudicada devido ao conflito armado existente no território.
O arroz (base da alimentação das populações guineenses) cultivava-se nos terrenos mais baixos e nas margens dos canais de fácil irrigação e a sua produção chegou a ser excedentária, antes da guerra, fazendo parte dos produtos exportados tal como a mancarra (amendoim), o coconote, couros, madeira, óleo de palma, cera e borracha.

No tempo em que vivi na Guiné, Bissau era uma cidade com uma actividade comercial significativa.
O território importava quase tudo, pois as suas indústrias eram praticamente inexistentes. A Guiné importava: tecidos, tabaco, vinhos e cerveja, gasolina, ferro e aço, óleos e combustíveis, cimentos, medicamentos, ferramentas, maquinismos e todos os bens de consumo e apetrechos que as sociedades desenvolvidas fabricam.
Este comércio era feito com o interior, principalmente através dos cursos de água como os rios Cacheu, Mansoa, Geba e Cacine e ao longo da ria de Bissau, embora também se pudesse efectuar por estradas principalmente na época seca, antes da guerra.
Também existiam algumas ligações aéreas entre a capital e o interior.

Bissau, com o exterior, tinha ligações aéreas e marítimas com Cabo Verde e Portugal continental.

No espaço de dois anos que permaneci em Bissau pudemos satisfazer todas as necessidades a que eu e a minha própria família estávamos habituados.
As casas comerciais de Bissau eram abastecidas regularmente praticamente de tudo.

Como a água de consumo público muitas vezes se não apresentava nas melhores condições, sendo aconselhável que, além de filtrada, fosse fervida, em nossa casa tomámos uma atitude radical: nunca a utilizámos. Saciámos a nossa sede com água do Luso, que adquiria aos garrafões sempre que um barco chegava da metrópole e água Vichy que sempre se encontrava com facilidade, possivelmente vinda do Senegal, país francófono, vizinho da Guiné.
Para juntar ao whisky, a água que usávamos era também a francesa Perrier.

O comércio, como disse, era significativo em Bissau.
Na parte baixa da cidade as casas comerciais proliferavam e algumas delas eram propriedade de libaneses, como a de Taufik Saad e a de Azis Harfouche.

Medalha comemorativa da II Feira de Amostras da Guiné - 1971

No mês de Maio de 1971 realizou-se a II Feira de Amostras de Bissau, com trinta stands expositores.
Além da amostragem das actividades económicas, onde era possível rapidamente conhecer os artigos comerciáveis em Bissau e os seus preços, também no decorrer da II Feira foi organizado um programa de recreio e cultura, sendo divulgados o artesanato e o folclore da Guiné.
Durante cerca de vinte dias decorreu o certame que se realizou defronte do Palácio do Governo, na Praça na altura designada por Praça do Império.

Houve uma exposição de arte, diversas sessões de folclore, variedades, conjuntos musicais, uma tarde de juventude e uma noite das Forças Armadas.

Os Serviços públicos também expuseram as suas actividades com a divulgação de:
- Realização de cursos;
- Planeamento de obras futuras;
- Dados estatísticos.

E as Entidades Administrativas tais como Administrações de Bafatá, Bijagós, Bissau, Bolama, Cacheu, Catió, Farim, Fulacunda, Gabú, Mansoa e S. Domingos apresentaram vários aspectos das suas actividades, dos seus usos e costumes e do artesanato das áreas que administravam.

Pude aperceber-me na II Feira de Amostras de Bissau, da actividade artesanal do povo daquele território.
Constatei que os Manjacos e os Balantas sobressaíam na olaria; os Brames, os Fulas, os Mandingas e os Nalus na cestaria; os Manjacos e os Papeis na tecelagem; os Fulas e os Mandingas em ourivesaria e trabalhos de pele e couro.

Os Fulas eram famosos também na feitura de chinelos, almofadas, bolsas, sacolas, bainhas de alforges e de punhais, guarnição e vasilhas, selins e outras peças de couro.

Eu próprio adquiri alguns punhais Fulas, uma espada Mandinga, cestinhos Bijagós, uma colecção de cachimbos Bijagós, pulseiras e anéis de Bafatá, uma bilha de Catequese, pinguelins, rodas de ráfia, um tambor e um corá, além de algumas peças esculturais em pau-preto.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 18 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12469: "Memórias da Guiné", por Fernando Valente (Magro) (12): Férias da Páscoa em Bubaque - Bijagós

Guiné 63/74 - P12502: Boas festas 2013/14 (13): Natal em Berlim (J. L. Mendes Gomes)


Natal em Berlim

por J. L. Mendes Gomes

[ex-alf mil, CCAÇ 728, Cachil, Catió e Bissau, 1964/66; jurista, reformado; foto à esquerda com os netos em Berlim; autor do livro de poesia "Baladas de Berlim", Lisboa, Chiado Editora, 2013, 232 pp., preço de capa;: € 14]




Acabei de receber o sorriso do sol,
Neste amanhecer de Natal!...
Estava nimbado de cor,
Uma anilina entre o vermelho doce e o rosa...
Numa moldura azulínea de cobre.

Uma cortina de castanho esverdeado pálido,
Desta floresta gigantesca
De árvores semi-nuas.
Com rameiras sem penas,
Pela frieza do inverno.

Batem nas janelas em jorros de luz,
Chamando à vida
Quem lá dorme feliz...

Se bamboleiam as copas mais altas,
Sacudindo as folhas,
Das poeiras da madrugada.

Bebendo do sol,
O café da manhã...
E um corvo negro,
De bico comprido,
Poisou no topo dum lampião,
Preparado para a luta
De ter de viver,
Por si só,
Sem ajuda de ninguém...
Bateu as asssas,
Disse-me adeus.
Desejou bom natal
E foi...Feliz dia de Natal!

Ouvindo Raposódias de Rachmaninoff

Berlim, 24 de Dezembro de 2013, 8h46m

 Versos de Natal...

Nesta noite há luar,
E muitas estrelas brilham no céu.
Todas voltadas para a nossa Terra,
Onde é noite de Natal...

Chovam torrentes,
De alegria e paz,
Por essas casas benditas,
De pobre e rico,
Onde há presépio aceso,
Pinheirinho de Natal.

Andam anjos correndo o mundo,
Cantando hinos
De louvor...

Nasceu o Deus Menino,
Lá na Terra, em Belém...
Para salvar a Humanidade!...

Aleluia! Aleluia!
Haja paz!...
Haja Amor!...

Ouvindo Brendan Perry

Berlim, 25 de Dezembro de 2013, 4h13m

Joaquim Luís Mendes Gomes

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Nota do editor:

Último poste da série > 24 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12501: Boas festas 2013/14 (12): Amig@s:Sintam-se todos contemplados, / Por estas quadras natalícias, / E nelas vão embrulhados / Meus abraços, beijos e carícias (Luís Graça)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Guiné 63/74 - P12501: Boas festas 2013/14 (12): Amig@s: Sintam-se todos contemplados, / Por estas quadras natalícias, / E nelas vão embrulhados / Meus abraços, beijos e carícias (Luís Graça)





 Marco de Canaveses, Paredes de Viadores, Candoz, Quinta de Candoz > 21 de dezembro de 2013 > Despedida do outono, e saudação ao inverno... À lareira, a nossa grã-tabanqueira Alice Carneiro, com a cadela lá de casa, a Nina...


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados.


As janeiras da Madalena, 2013

Aí vão as últimas quatro quadras das vinte e quatro que fiz esta tarde para dizer logo à noite na consoada do natal da Madalena, Vila Nova de Gaia... numa mesa cheia de amigos e familiares (cerca de 20). Os votos de alegria, música, boa disposição, saúde e esperança são  extensivos a todos os meus/nossos amigos e camaradas da Guiné, pensando nomeadamente naqueles que estão longe da Pátria, em viagem ou na diáspora, os que estão doentes e os que estão sós, os que estão em luto, os que estão tristes e desconsolados... Camaradas e amigos, não deixem morrer a esperança... E usem, também, neste Natal a arma do humor... (LG)


Manda a Troika comer pouco
E, ainda menos, beber,
O Pai Natal está taralhouco,
Vão-se todos mas é f…

Comam e bebam sem IVA,
Diz o dono, com todo o gosto,
Tenho escrita criativa,
Meu Natal não paga imposto.

E a ter que pedir, neste ano,
Algo à Troika e ao Pai Natal,
É que volte a ser soberano
O nosso querido Portugal.

Sintam-se todos contemplados,
Por estas quadras natalícias,
E nelas vão embrulhados
Meus abraços, beijos e carícias.


Luís Graça

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Nota do editor:

Último poste da série > 23 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12495: Boas Festas (2013/14) (11): António Paiva, Albino Silva, Abel Santos, António Eduardo Ferreira, Sousa de Castro e Júlio Abreu

Guiné 63/74 - P12500: Conto de Natal (17): O Natal em Brunhoso, Mogadouro

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), com data de 22 de Dezembro de 2013:


O Natal em Brunhoso

No dia 24, dia de Consoada, segundo as leis da Santa Madre Igreja, que a terra acatava era dia de jejum e abstinência.
Por ser o tempo da apanha da azeitona, levantávamo-nos bem cedo, logo ao alvorecer e andávamos 3 ou 4 quilómetros até às arribas do Sabor onde se situavam os olivais, plantados em socalcos como as vinhas do Douro.

Dias frios, desagradáveis por vezes, pela humidade, pelo nevoeiro com as oliveiras cobertas de sinceno. Aguentávamos, que remédio, a colheita da azeitona tinha que ser feita fizesse calor ou frio.
Não havia almoço ou merenda, era dia de jejum e abstinência.

Olival no Douro - Foto Olhares, com a devida vénia

Nesse dia o regresso à aldeia era uma hora antes que o habitual. O jantar da consoada era cedo, logo depois do sol-posto. Normalmente constava de batatas cozidas, tronchos de couve e polvo. A sobremesa era pouco variada, rabanadas, bolas fritas de trigo e laranjas se houvesse.
Pela meia-noite, nalguns anos, havia a missa do galo com muitos cânticos de Natal a que todos assistíamos, pois éramos todos muito religiosos e tementes a Deus, ou aos pais, para nos atrevermos a faltar.

Antes disso os rapazes da terra já tinham acendido uma enorme fogueira, a fogueira do galo, no adro da igreja com toros que tinham pedido ou roubado aos lavradores. No fim da missa homens e rapazes íamos aquecermo-nos para junto da fogueira e beber um copo de vinho que os rapazes tinham levado em cântaro ou garrafão e que serviam em 3 ou 4 copos que iam circulando de mão em mão e boca em boca.

Quando mais novo, a minha mãe algum tempo depois de nos deitarmos percorria os quartos dos filhos e filhas pé-ante-pé, disfarçada de Menino Jesus. O menino Jesus era simpático mas pobre, umas meias, um chocolate pequeno eram estas ou algo parecido as prendas que deixava no sapato.

O Pai Natal, esse milionário americano, esse velho de barbas brancas, de aspecto bondoso mas provavelmente acionista da coca-cola ou agente da CIA não se aventurava por estradas de montanha, com curvas, neve ou gelo.

Em minha casa éramos felizes, prendas não conhecíamos melhores, o polvo e as rabanadas eram únicos, autênticos manjares de consoada, a festa na igreja ou no adro era grande, cabia nela a aldeia inteira.
Mesmo em criança nunca fui muito religioso, aqueles terços obrigatórios dos longos serões de inverno de Avés-Marias e Santas-Marias tão repetitivos, devem ter contribuído para isso. Porém da missa de Natal até gostava com cânticos próprios e mais alegres e com a própria cerimónia do beijo ao Deus Menino.

Felgar - Fogueira do Galo
Foto do espólio fotográfico do Dr. Santos Júnior em Farrapos de Memória, com a devida vénia

Gostava também muito da fogueira do galo, c'os diabos camaradas eu sou um filho daquela terra.

Um grande abraço a todos e um Bom Ano
Francisco Baptista
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Nota do editor

Último poste da série de 23 DE DEZEMBRO DE 2013 > Guiné 63/74 - P12496: Conto de Natal (16): Oh nosso Cabo, o que é o Natal? (Juvenal Amado)