quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Guiné 63/74 - P13850: (Ex)citações (246): Ainda o rebentamento de uma granada no meio da população de Ganturé, durante um batuque (Mário Vitorino Gaspar)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Vitorino Gaspar (ex-Fur Mil At Art e Minas e Armadilhas da CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68), com data de 31 de Outubro de 2014:

Camarada Luís Graça e Carlos Vinhal,
Não fui, não sou, nem nunca serei uma pessoa de guardar rancores. Não tenho, felizmente, inimigos, mas sim amigos, alguns a quem costumo designar “amigos à distância”, isto porque vivem longe. Eles estão bem presentes no dia-a-dia na minha vida. Recordo-os sempre.

Como exemplo dou o Lançamento do meu Livro, num dia chuvoso, no Forte do Bom Sucesso, local lindo mas distante, e a um horário (17H30) não convidativo. A sala estava repleta de amigos que vieram até do Porto.

Sucede que no Livro “O Corredor da Morte” – no Capítulo 9, com o título “O Rebentamento durante o Batuque”, descrevo esse acontecimento. Sucedeu que foram poucos os camaradas do Blogue que leram o Livro. Em Monte Real vendi 24 exemplares, e fizeram-me mais umas 12 encomendas. Vendi portanto 36 livros aos Camaradas.

[Capa do  livro "O Corredor da Morte", edição de autor, Lisboa, 2014; encomendas através do endereço: 
mariovitorinogaspar@gmail.com ].


Esse capítulo foi um dos mais difíceis que tive quando pensei passar para o papel esse drama, iniciado pelas 20h00 do dia 4 de Julho de 1967, até às 09H00 do dia 5. Minutos antes abandonei o batuque e fui jogar poker.

Foi um dos dias mais terríveis da minha Comissão.

Segundo consta na História da Unidade: “Trata-se do atentado cometido em Ganturé, contra a população, em 4 JUL67, através do lançamento de uma granada que explodiu durante um batuque de que resultaram dez mortos e cerca de vinte feridos”.

Quanto a mim o número é superior. Disseram-me que o Tenente de 2.ª Linha, o Régulo Abibo Injasso, afirmou que eu tinha planeado esse atentado em reuniões com os meus camaradas do Pelotão e uma Secção, junto ao cemitério de Ganturé. Íamos para esse  local de vez em quando onde dava instrução. Nem sequer tínhamos conhecimento tratar-se de um cemitério.

Respondi a dois Processos:  um Processo Civil, executado pela PIDE (eram uns três Agentes), e outro Militar a cargo do Comandante da Companhia de Sangonhá, penso que Capitão Cardoso.
Nos dois casos afirmaram logo no início do inquérito que sabiam que eu estava inocente.

Depois deste atentado fomos substituídos e destacados para Gadamael Porto. Devido às mortes que assisti nessa longa noite, e às mortes de camaradas – estou em guerra com a sociedade e comigo – e costumo dizer: “A Guerra Continua Dentro de Mim”.

Fui à Torre do Tombo, ao Arquivo do Salazar e da PIDE, quatro vezes, e nada, embora possua Processos que nada têm a ver com o caso. Fui ao Arquivo Geral do Exército, até solicitei o meu Processo Individual, onde nada consta, e o próprio Arquivo informou-me não existir sequer indicações de ter respondido a um Processo Militar. Fui ao Arquivo Histórico-Militar e coisa nenhuma e ao Balcão Único da Defesa e continuei na mesma.

Mas no meu Processo Individual vem algo que me intriga. Onde consta: “As Condições para o Posto Imediato”, julgo que a 28 de Junho de 1967 está escrito que reúno as condições para a promoção a 2.º Sargento Miliciano. Isto devido a ter sido Monitor no RI 14, em Viseu, e ter dado várias recrutas e uma Especialidade igualmente como Monitor e inclusive ter dado uma pequena Instrução de Minas e Armadilhas a uma CART que foi para a Guiné. O Oficial e três Cabos Milicianos por terem chumbado no XX Curso de Minas e Armadilhas recusaram fazê-lo.

Foi pena que o Carlos Vinhal não me tivesse enviado um mail a contar-me esta situação, porque gostaria muito de ter o contacto do Camarada Luís Guerreiro. (1)

Sucede que podem ver,  no Blogue, num dos textos em falo desse atentado. E mais não avancei na conversa porque é um capítulo grande do Livro “O Corredor da Morte”.

O Abibo também era uma bela peça, “jogava com um pau de dois bicos”. Controlava os informadores que eram pagos (é verdade que essas informações eram verdadeiras, exceptuando um caso ou outro). Parecia mais a guerra do Raul Solnado: “Fiz um prisioneiro mas ele não quis vir!”.... Quando íamos ao “corredor da morte”, depois da informação que o PAIGC passaria pelas tantas horas, seguíamos para Guileje, dormíamos um pouco e seguíamos para a zona indicada pelo informador.

E lá estava o PAIGC a passar à nossa frente, e nós a deixarmos passar os primeiros, e depois de estar a maioria à frente era carregar em força. Todos os anos o Régulo Abibo Injasso, Tenente de 2.ª Linha ia a Meca pago pelo nosso Exército. Conheci-o bem, e no caso do rebentamento da granada no batuque ele tem toda a razão, em denunciá-lo.

Como era Atirador e Especialista de Minas e Armadilhas, ia quase sempre com as Praças “U” e Caçadores Nativos montar minas e armadilhas. Depois de montadas e ao fim de pouco tempo já o PAIGC sabia a sua localização. Cheguei a dizer o que deveríamos fazer mas não me ouviram, dei uma solução. Sucede que nos casos em que montei armadilhas, por exemplo nas imediações de Gadamael nem as Praças “U” nem os Caçadores Nativos conheciam a localização e o PAIGC, nunca lá foi.

Em Mejo o PAIGC chegou ao ponto de levantar as minas “bailarinas” da NT na zona onde iam à água, que conheci bem, e montarem-nas noutro local.

Camarada Luís Guerreiro, segundo dizes o Abibo focou a gravidade do rebentamento da granada durante o batuque, nisso com toda a razão. Mas essa de “Segundo o régulo, um ataque ao destacamento foi simulado por esse grupo de combate, e uma granada de mão”, nem sequer tive conhecimento dessa afirmação, que me acusou disseram-me, mas também não sei se é verdade.

Não existe uma simulação, porque nesse caso eu sabia-o. Quem cometeu o atentado fê-lo sozinho ou acompanhado por um ou outro. O 2.º Pelotão, e uma Sessão da CART 1659 não o fez, fique claro. Que a granada foi “lançada para o meio da população”, antes dizia batuque, é verdade. Mas quem foi o causador do atentado? Considero que houve um atentado, gostava de saber quem foi, e é isso mesmo que me leva a viver nessa dúvida. “Faleceram algumas bajudas, ferindo outras que foram evacuadas para Bissau devido à gravidade”. Essa da “cavilha da granada foi encontrada no local do Batuque”, é mentira, andámos a vasculhar tudo. Não tenho conhecimento de tal. O que se encontrava no solo eram estilhaços.

Espero que o camarada Luís Guerreiro, até porque pertenceu a uma Companhia que rendeu a CART 1659, entre em contacto comigo. Nos mails que ontem enviei indirectamente falei desta catástrofe.

Não posso ficar calado, e conheço outros casos graves. Aliás, na manhã das evacuações apareceu um suspeito negro, não conhecido que foi apanhado, e o que se passou a seguir, o Régulo Abibo sabia de certeza. Eu queria muito conhecer a verdade.


A granada rebentou à esquerda, continuando em frente havia um abrigo e uma “barraca” onde eu dormia. Ao fundo, à direita o palácio do régulo Abibo. Quando lá estava à esquerda era a “tasca” e a seguir do mesmo lado a Messe


Recordo estas bajudas

Fotos: © Jorge Guerreiro

Cumprimentos do Ex-Furriel Miliciano de MA da CART 1659, Mário Vitorino Gaspar
Mail: mariovitorinogaspar@gmail.com


2. Aqui vai um cheiro de parte do Capítulo 9 – "O Rebentamento Durante o Batuque” do meu Livro “O Corredor da Morte”.

(…) Sacudi o copo e lancei os dados…

- Uma sequência!

E era uma sequência que via sobre a mesa quando os dados estremecem, ouvindo-se um forte rebentamento.

- São eles…

- Disseram todos, quando saltámos dos bancos, cada um na direcção do abrigo do qual era responsável. Ouviam-se gritos angustiantes acompanhados por gemidos. Em corrida, passei junto do local donde há pouco se dançava.

Nem um tiro escutara. As nossas armas estavam caladas quando cheguei ao meu abrigo. Alinhadas as camas do lado direito e esquerdo, com quatro paus do mesmo tamanho, dois à cabeceira e dois nos pés que seguravam um mosquiteiro cada.
Ninguém estava nas camas, todos estavam junto da vigia do abrigo, empunhando as G3. Só o apontador de armas pesadas se encostava à “sua menina”, como ele lhe chamava.

- O que é que se passa, meu furriel?

Ouvi, não respondendo, quando me aproximava da vigia. Não conseguia entender o que realmente se estava a passar quando chega o corpo de uma mulher grande, que gritava, nas mãos de um civil negro, com algumas dificuldades em transportá-la.

Três militares seguraram-na e o vermelhão do sangue tingia as cores também garridas do vestido. As vísceras soltavam-se-lhe do corpo quando a colocaram sobre uma cama. Via-se o sangue brotar cada vez mais abundantemente, fugindo do corpo, como numa correria. Cobria já os lençóis brancos para a terra batida do abrigo, aumentando a mancha do líquido viscoso que mais parecia uma nascente. Sem querer pisei aquela poça e, sem pensar nascem pensamentos.

- Está morta!

Estava mesmo morta. Tudo continuava na mesma, não existindo o mínimo sinal físico do PAIGC, quando o soldado que transportara aquela mulher se afastava, gritei para os onze elementos da minha secção. 

- Só fazem fogo se virem algo de anormal! Ouviram?

Chegam mais dois corpos, uma mulher e uma criança que são levados para as primeiras camas. Saber o que realmente se passava era difícil se não desse uma volta. Alguém com uma voz angustiante, olhando a miúda que ainda há pouco dançava, diz:
- Esta miúda está morta!

- Ponham os dois corpos fora do abrigo, junto da enfermaria! Se é que aquilo era alguma enfermaria, era antes uma barraca.

Disse tão baixinho que julgava ter falado para mim, mas ouviram-me. Só depois, olhei a outra mulher grande e corri para o exterior, sem estar convicto se ela estaria ou não com ferimentos graves. O enfermeiro não parava…
Escutava vozes de todo o lado, súplicas que me afundavam. Uma amálgama de sofrimento e angústia. Um mar de sangue a meus pés à saída do abrigo, empurrou-me para o centro do aquartelamento para obter as respostas, e apoio.
Deparei junto da enfermaria, após ter ultrapassado a zona do batuque, com uma velha preta e, na linguagem que não entendia, mas mirando a depois de parar, percebi. Segurava com ambas as mãos os intestinos, que escorriam do corpo, pretendendo nada perder daquele corpo que era o seu. A vida bem segura nas mãos e eu quase a vomitar tudo o que tinha no estômago.

Presa à vida, quando a via morta, ou quase morta, amparo-a e noto estar pior ainda que julgava. O sangue colou-se-me às mãos sentindo o cheiro e a presença da morte. Necessitava de algo que lhe acalmasse as dores. Um comprimido?

Os gritos, qual buzina das fábricas, a chamarem pelos operários, rompiam daquele ser. Eu não estava preparado para tal missão. Comecei então a ver negros saídos de vários pontos do aquartelamento, nascidos de abrigos e da paliçada onde se haviam escondido. Um civil segurava a negra. Ajudámos a transportá-la para a enfermaria.

– Temos aqui um caso! – Temos aqui mais um caso.

O enfermeiro, cansado, deve ter pensado não ser um caso, mas mais um caso.
Apercebi-me entretanto ser a situação mais complicada ainda, quando olhei para o enfermeiro, e a enfermaria com muito más condições, e vejo umas sete macas improvisadas, com uns tantos feridos. Os mortos à parte.

- Meu furriel, retirei dois corpos!

- A miúda está morta!

- Ponham-na junto da outra mulher que já morreu! – Disse-lhes afastando-me para fora do abrigo.

Cá fora ouvia os gritos de todo o lado. Uma amálgama de sofrimento e de angústia, era um mar de sangue que se enfiava numa fresta de terra batida. Era sangue de vida, sangue que cheirava a morte. E interroguei-me, enquanto corria para a enfermaria: 
- O que se teria passado realmente?

Uma mulher velha mirou-me e falou-me. Não entendi o que dizia mas senti o sofrimento.

Vi uma imagem que jamais vou esquecer. Uma “mulher grande”, muito velhinha, segurava com ambas as mãos as vísceras que escorriam do corpo. Pretendia não perder nada daquilo que segurava. Pregava-se à vida, e a vida estava presa em ambas as mãos. Encostou-se a mim. Segurei-a e vi a morte e senti-lhe o cheiro. Ela necessitava de muito mais, de algo que a aliviasse das dores. Comprimidos? Dei-lhe vários LM’s (Laboratório Militar), que aliviam todas as dores. Sou um estúpido, dar um comprimido, não serve de nada! Os indivíduos da “banha da cobra”, que tão bem conhecia, diziam nas Praças Públicas: – “Não estou aqui para enganar ninguém, estou aqui porque a casa quer e a casa manda”. E a casa, a Pátria mandava, e nós obedecíamos. Os gritos saídos daquelas goelas, misturavam-se com os choros convulsivos de mulheres e crianças. Aquilo mordia-me o corpo. O enfermeiro disse-me havia feito bem em dar à velhinha os comprimidos.

Alguma população civil ia surgido, assim como alguns militares. Encolhiam os ombros, como que a perguntarem o que se passara. Segurei a velha, já muito velha, ajudando a transportá-la para uma maca. 
- Temos mais aqui um caso! – Ouviu-se.

Olhei para o interior daquela barraca a que denominavam de enfermaria. Estavam seis ou sete pessoas. Foi algo que aprendera naquela guerra, surgia o número na mente sem contar. Um outro sentido. O enfermeiro contara, eu tinha razão.

-  Isto é uma calamidade. Ainda há bem pouco, que dançavam.

Fui dar uma espreitadela ao local onde se efectuara o batuque, perguntando a mim próprio: – O que se teria passado?

Alguém fez a mesma pergunta novamente.

- No meu abrigo também há mortes e feridos.

O enfermeiro mirou-me com os seus olhos de 21 anos, enquanto chegavam mais corpos. Entre eles, um já sem vida.

(Continua no Livro “O Corredor da Morte”)

No final do Capítulo 9 – “O Rebentamento Durante o Batuque”

Na História da Unidade consta:

“Não queremos também deixar de assinalar neste Relatório um facto que nos causou profunda impressão e desgosto, já pelas consequências que dele resultaram, já porque apesar de todos os esforços desenvolvidos pelas autoridades militares e civis, não lográmos vê-lo esclarecido inteiramente para apuramento das responsabilidades e aplicação da Justiça. Trata-se do atentado cometido em Ganturé, contra a população, em 4 JUL 67, através do lançamento de uma granada que explodiu durante um batuque de que resultaram dez mortos e cerca de vinte feridos”.
____________

Notas do editor

(1) Vd. poste de 21 de Outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13777: Em busca de... (249): A verdade sobre um ataque simulado por um Grupo de Combate da CART 1659 a Ganturé (Luís Guerreiro)

Último poste da série de 1 de Novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13835: (Ex)citações (245): Dia dos Fieis Defuntos: o povo sabe que nas campas no final fica só terra sobre terra mas para ele essa terra é sagrada (Francisco Baptista, Brunhoso, Mogadouro)

5 comentários:

Luís Graça disse...

(...) "Chegámos a Ganturé, sede do regulado, e o Régulo é Abibo Injasso, beafada. E viviam em Ganturé cerca de 200 indivíduos (beafadas e fulas).

Ficámos portanto junto da fronteira com a República da Guiné, Guiné ex-Francesa." (...)

(Vd. poste 8 DE DEZEMBRO DE 2013

Guiné 63/74 - P12412: Tabanca Grande (413): Mário Vitorino Gaspar, ex-Fur Mil Art, MA da CART 1659 - Zorba (Gadamael e Ganturé, 1967/68)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2013/12/guine-6374-p12412-tabanca-grande-413.html
_________________

Mário, a descrição que fazes, no poste de hoje, do socorro às vítimas inocentes deste horroroso atentado, é de antologia.

De modo alguma este trecho poderia ter sido escrito pelo autor ou coautor, moral ou material, do atentado... A menos que fosse uma refinado e perigoso psicopata!...

De qualquer modo, não devemos desistir de apurar a verdade. Tu que conheceste Ganturé, e o régulo beafada, o Abibo Injasso, que, como insinuas, jogava com um pau de dois bicos (e não morria de amores por ti...), poderás descrever-nos melhor como eram as relações interétnicas em Ganturé... Tu e o Luis Guerreiro (que vive no Canadá).

Deixa-me fazer-vos algumas pergumtas:

(i) A maioria da população era beafada ?

(ii) Como eram as relações entre as duas etnias, sabendo-se que havia beafadas no mato, do lado PAIGC ?

(iii) Os fulas aceitavam a autoridade do régulo beafada ?

(iv) O batuque era fula ?

(v) As vítimas do atentado eram fulas ?

(vi) Há outras +istas para explicar o "absurdo" deste antentado ?

(vii) Podemos, em teoria, imaginar um brincadeira de mau gosto, com álcool à mistura, e que acaba em tragédia ?

(viii) Ou - por que não ? - um acto frio, calculista, terrorista, premeditado, da cúpula local do PAIGC (ou de algum militante "de motu proprio", por revanchismo ultrapassando a hierarquia...,), para lançar fulas contra beafadfas, ou fulas e beafadas contra os tugas ?


... Há muitas perguntas sem resposta, ao fim destes anos todos. Mas, apesar do desconforto que esta tragédia ainda nos traz, só nos faz bem tentar pôr tudo em pratos limpos... Não não incriminar ou julgar ninguém, mas apenas para compreender.

Onrigado, Mário, por teres reavivado a nossa memória, com esta dolorosa evocação... que de resto contunua amexer contigo. E não é caso para menos...

O nosso interesse ? Não, não se trata de masoquismo, maniquéismo ou voyeurismo... Temos direito a esclarecer (e a ver esclarecidas) "cenas" como estas, que deixaram um rasto de destruição e de horror... e em relação às quais há o já habitual silêncio dos arquivos...

Se não formos nós a mexer na "merda", quem é que o vai fazer ?

Daqui a uns anos, ninguém, ou então uns putos, doutores, historiadores, com EPI (Equipamento de Proteção Individual), completo, dos pés à cabeça, com luvas, máscara, protetores auriculares, comnprimidos para o enjoo, etc.

Um abraço.

Mário Vitorino Gaspar disse...

Quando digo:

“Respondi a dois Processos: Um Processo Civil executado pela PIDE (eram três Agentes) e outro Militar a cargo do Comandante da Companhia de Sangonhá, penso que Capitão Cardoso”, digo “penso” porque é a única situação que não tenho a certeza.

Este texto foi escrito há anos – e mesmo nessa altura – embora tentasse saber o seu nome completo não consegui.
Fiz tudo para encontrar a verdade deste acontecimento que me marcou para toda a vida. Desde a Torre do Tombo, ao Arquivo Geral do Exército, Arquivo Histórico-Militar e recentemente ao Departamento de Apoio aos Antigos Combatentes (julgo ser essa a nomenclatura) e hoje funcionar no Balcão Único. Os meus camaradas nem sequer falam da catástrofe. Penso que nem sequer é a distância que nos afasta. Éramos uma família, bem explicito na “Marcha do Regresso”, que enviei na íntegra para o Blogue, e comentada por quem leu o Livro “O Corredor da Morte”. Penso que dois almoços de Confraternização, mas poucos apareceram, quem sabe que o dia 4 de Julho de 1967 tem a ver com o afastamento dos nossos camaradas.
Pois dentro de dias posso acrescentar o nome do Comandante da Companhia de Sangonhá, solicitei ao Arquivo Geral do Exército tal informação.

É um dos muitos acontecimentos da História da Guerra Colonial que foram arquivados no lixo.
Há anos escrevi ema carta ao nosso camarada Padre Mário de Oliveira, isto porque acompanhei o seu julgamento e possuir dois livres sobre os mesmos, para o seu Jornal “Fraternizar”, pediu que autorizasse a publicação. Escrevi-lhe sem interesse algum. Os camaradas sabem qual o título que deu à minha carta, uma frase minha do texto: - “Querem-nos no Lixo”.

Um abraço
Mário Vitorino Gaspar

Luís Graça disse...

(...) "Dois almoços de Confraternização, mas poucos apareceram, quem sabe que o dia 4 de Julho de 1967 tem a ver com o afastamento dos nossos camaradas." (...)

Obrigado, Mário, pelos teus esclarecimentos. Mas, se puderes, souberes e quiseres, tenta responder às minhas questões sobre o relacionamento entre fulas e beafadas... LG

Luis Guerreiro disse...

Luis

Penso que a maioria da população era Beafada, alem dos Fulas também havia alguns Nalus.
Quanto à relação entre a população, no periodo em que estive lá 4 meses, pareceu-me não haver problemas.
E também penso que o regulo era aceite pela população.
Claro que o regulo não era um santo, e como o Mário diz jogava com um pau de dois bicos, quando havia ataques ao destacamento, estou seguro que sabia, e quando viamos a população junto aos abrigos sabiamos que algo se iria passar.

Um abraço

Luis Guerreiro

Hélder Valério disse...

Caros camaradas

Li os textos.
O do artigo propriamente dito e o excerto do Livro.

Dei-me ao trabalho de tentar 'contar' as vezes que aparece a palavra "Guileje". Curiosamente, nem uma única vez.

Porquê o 'incómodo' do anónimo?

A situação retratada é pouco usual. Tanto no dia-a-dia da guerra como nestes relatos que por aqui passam. Seria, talvez, mais humano, tentar entrar na pele de quem viveu os acontecimentos, tentar perceber os seus sentimentos. De quanto isso pode ter contribuído para um desgaste físico e psíquico de quem teve que lidar com a situação.

Hélder S.