sábado, 26 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P13050: Convívios (587): XIX Encontro do pessoal do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71), dia 17 de Maio de 2014 em Ançâ - Cantanhede (César Dias)

Aquartelamento de Mansoa, sede do BCAÇ 2885 (1969/71)


1. Mensagem de César Dias (ex-Fur Mil Sapador da CCS/BCAÇ 2885, Mansoa, 1969/71), com data de 26 de Abril de 2014:

Amigo Carlos
Venho mais uma vez pedir-te, que se assim o entenderes publiques o convívio do BCAÇ 2885, que terá lugar mais uma vez na Quinta Do Pingão em Ançã - Cantanhede, em 17 de Maio, data que mais se aproxima da nossa chegada à Guiné.
Envio-te o o folheto que me foi facultado pelo Ventura da organização, e duas fotos de Mansoa.
Mais uma vez grato pela atenção

Um forte abraço
César Dias


Mansoa - Ponte sobre o rio Mansoa na longa estrada alcatroada que ia de Bissau até ao Rio Geba, fronte a Farim

Fotos: © César Dias. Todos os direitos reservados
Edição e legendas: Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 25 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P13037: Convívios (586): VIII Encontro/Convívio do pessoal da CCS do BART 2917, dia 24 de Maio de 2014 em Torreira (Benjamim Durães)

Guiné 63/74 - P13049: Blogpoesia (379): A morte passou por mim (José Teixeira)



1. Mensagem do nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux. Enf.º da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70), com data de 15 de Abril de 2014:

Como este tema tem dado que falar, eu resolvi escrever um pouco.

Votos de Boa Páscoa para todos os camaradas e familiares
J.Teixeira



A morte passou por mim

Perguntaste-me um dia: Pai tiveste medo?
Filho, eu tive medo. Sim!
Sempre que a morte passou por mim,
Naqueles longos anos em que não vivi
O tempo para que nasci.
E mil vezes eu morri de saudade,
Perdido numa guerra que nunca entendi,
E foram apenas dois anos, uma eternidade –
Mil vezes eu morri quando as balas passavam a meu lado a assobiar,
Mil vezes eu morri, quando os canhões cantavam a canção da morte,
E quantos camaradas partiram, talvez por má sorte -
Mil vezes eu morri com as crianças a chorar
E as granadas a rebentar, mesmo a seu lado.
Mil vezes eu morri com as mulheres a fugir
Com o filho às costas, amarrado,
E se escondiam num buraco, na terra vermelha, escavado.
Mil vezes eu morri com os camaradas em sofrimento e dor.
Mil vezes eu morri nas lágrimas da mãe que viu sua filha morrer
No meio daquele horror.
Mil vezes eu morri na vida jovem que se perdeu a meu lado
Sem lhe poder valer, quando era tão cedo para partir –
Mil vezes eu morri quando o sopro da mina me projetou,
Longos segundos de espectativa –
Mas ainda não tinha chegado ao fim, a minha vida.
Mil vezes eu morri, no silêncio que me enchia a alma
À sombra do frondoso poilão,
E me perguntava, sem esperança de resposta
De que lado estava a razão.
Como se fosse possível uma justificação,
Para a guerra.

José Teixeira

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Nota do editor

Último poste da série de 25 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P13038: Blogpoesia (378): Em Abril... (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P13048: Bom ou mau tempo na bolanha (53): "Cristo", o Carpinteiro (Tony Borié)

Quinquagésimo terceiro episódio da série Bom ou mau tempo na bolanha, do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGRU 16, Mansoa, 1964/66.



Mansoa, aquartelamento, arroz e peixe da bolanha, o cheiro da terra vermelha em algumas madrugadas quentes e húmidas, e o companheiro Manuel Cristo, que era habilidoso, mesmo muito habilidoso, “rapava o cabelo” a alguns, fazia aquelas tatuagens a quem lhe pedia, com aquelas legendas “Amor de Mãe”“Guiné - 1964”, “Guiné - Bat. Art. 645”, ou “Guiné - Comp. Caçad. 654”, mas o nome por que era mais conhecido era “Cristo”.

Recebeu este nome de guerra, porque além de todas aquelas habilidades também gostava de trabalhar na madeira e, de uma certa vez, de um tronco pequeno e seco de uma árvore, que o avanço das obras do aquartelamento mataram, com um canivete, que por acaso tinha num dos lados uma legenda dizendo qualquer coisa como “Recordação de Fátima”, fez uma imagem que se parecia com Jesus Cristo.

A sua tarefa e o seu posto na guerra era soldado com a especialidade de “atirador”, não sei se havia outra designação, mas era o que se dizia de alguém que carregava a G3 às costas e, lá ia para as patrulhas e emboscadas. Era magro, caminhava com as pernas tortas, em arco, como alguns jogadores de futebol, gostava de tudo o que envolvesse madeira e, quando segurava uma tábua que tinha tirado de uma caixa de munições, passava com a palma da mão pela sua superfície, como que a acariciá-la e, com um serrote, um martelo e alguns pregos, que às vezes aproveitava, já tortos, mas com algum cuidado endireitava, fazia as gaiolas para os macacos e piriquitos, mesas de cabeceira, bancos, algumas caixas de diversos formatos, a que nós chamávamos armários e algum equipamento para a cozinha do Arroz com Pão, que era o cabo do rancho. Como habilitações literárias tinha a segunda classe, que depois de receber um questionário, vindo de Portugal, que completou, com a ajuda e algumas instruções do furriel miliciano que andava sempre a fumar um cigarro feito à mão, e que comprovou e assinou diversos documentos, em como lhe tinha dado classes e, por fim recebeu um diploma oficial da quarta classe, que orgulhoso guardou, dizendo:
- Quando regressar à minha aldeia, se regressar, já não sou o Manuel, filho do Zé Lavoura, sou o senhor Manuel, que sabe ler e escrever, com diploma e tudo, e quer um emprego à altura.


O “Cristo” era “pau para toda a obra”, ou seja era habilidoso e ajudava em tudo o que fosse madeira e não só. Como lá no aquartelamento, assim que algumas paredes estavam erguidas e cobertas com telhado, eram logo “ocupadas”, precisava-se de tudo, aproveitava-se tudo. Roubavam-se as tábuas que tinham servido de molde para o cimento da base dos pavilhões, sujas de cimento seco e com pregos, que o “Cristo” nos dizia para limpar e tirar os pregos e para depois o chamar. Enfim, em pouco tempo o “Cristo” já não chegava para as encomendas, como é costume dizer-se.

O comandante, numa visita de rotina ao centro cripto, perguntou se não havia uma mesinha a mais, pois precisava de uma nos seus aposentos, que não eram aposentos nenhuns, aquilo parecia mais uma “toca”, para os seus livros que andavam pelo chão. O Cifra logo lhe disse para falar ao “Cristo”, que lhe faria uma, sem qualquer problema e, bem feita. O comandante, depois de ver a mesinha, com uma pequena gaveta e tudo, mas improvisada, com muita imaginação e, como se estava a improvisar tudo no aquartelamento, retira-o do seu lugar de soldado atirador, manda vir da capital da província algumas ferramentas de carpinteiro, uma pequena banca em madeira, e num pequeno espaço do aquartelamento, que o mesmo “Cristo” construiu, monta uma pequena carpintaria, onde o “Cristo” era o carpinteiro.
Passou a receber um prémio monetário mensal, e não tinha tempo para mais nada. Ia à capital buscar tábuas, pregos, cola e outros materiais com as quais fazia pequenas obras: arranjava portas que fechavam mal, fazia mesas, cadeiras e vasos dos barris de vinho, alguns bancos para o refeitório, etc. Em resumo, depois da sua promoção a carpinteiro, o aquartelamento passou a ter outro aspecto, e o “Cristo” era das pessoas mais apreciadas no aquartelamento. Quando via o Cifra dizia:
- Tens que vir ver a mesa secretária que estou a fazer para o sargento da messe, que tu talvez vás usar para fazer as suas contas, porque ele é burro. Mas o Cifra não queria saber de nada, pois só pensava em vir embora daquele inferno, pensava em Portugal, na sua aldeia e, talvez na menina Teresa, que era uma “solteirona”, que escrevia as cartas à mãe Joana, que lhe tinha mandado numa dessas cartas, uma nota de vinte escudos, para lhe trazer da Guiné, um “Falo”, ou seja um “Phallus”, ou mais propriamente um “Pénis” em madeira de pau preto, talvez de ébano, para lhe dar sorte na vida, e até explicava o tamanho e alguns pormenores!

Tony Borie, Abril de 2014.
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Nota do editor

Último poste da série de 12 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P12971: Bom ou mau tempo na bolanha (52): Pelo Arizona e Nevada - Grand Canyon (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P13047: 10º aniversário do nosso blogue (22): Mensagens de parabéns (Parte I): Virgílio Valente (Macau, China), Albano Costa (Guifões, Matosinhos), Joaquim Luís Fernandes (Maceira, Leiria) e Felismina Costa (Agualva, Sintra)

1. Seleção de mensagens enviadas para a caixa do correio da Tabanca Grande ou comentários a postes anteriores (*):

(i) Virgílio Valente [Wai Tchi Lone, em chinês], Macau [ ex- alf mil, CCAÇ 4142, Gampará, 1972/74.] [, foto atual à esquerda]

Parabéns à Tabanca Grande pelo 10.º Aniversário.

Parabéns também aos seus mentores e um grande abraço pelo trabalho que vêm fazendo.

É de facto uma Tabanca Grande onde cabem todos os que vêm por bem.

Diariamente acedo ao blogue e diariamente me culpo por ainda não ter contribuído com algo.

Mas tudo virá a seu tempo.

Daqui, de Macau, do longe Oriente, vai um abraço muito especial, neste 10.º Aniversário da Tabanca Grande, para todos os que diariamente constroem e mantém vivo este ponto de encontro.

Para todos os que passaram, viveram e sentiram a Guiné-Bissau um grande abraço.

Para os camaradas da minha CCaç 4142, que estiveram em Gampará, de 1972 a 1974, que lá viveram o 25 de Abril e o primeiro 1.º de Maio, que lá tiveram os primeiros encontros, em paz, com os camaradas do PAIGC e para aqueles que sendo da Guiné se lembram ou estiveram também nesses momentos, um grande Abraço.

Força, ainda há muito para escrever nesse blogue.

Obrigado Luís Graça e restantes Camaradas.
Virgílio Valente
Macau, China.

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(ii) Albano Costa [ ex-1.º Cabo da CCAÇ 4150, Bigene e Guidaje, 1973/74] [., foto à direita  no nosso II Encontro Nacional, Pombal, 2007]

Caros amigos

Não queria deixar passar este dia sem vos agradecer a todos o prazer que me têm dado de vos acompanhar ao longo destes anos todos.

Parece fácil mas não o é, só com pessoas empenhadas como todos os que fazem mover este blogue, desde já os meus agradecimentos, e que Deus vos dê saúde e paciência para continuarem nesta luta que tem feito muitos bem aos ex-combatentes, que os aproximou e fez com que nós todos tenhamos sacudido o pó e que ainda possamos continuar a fazer despertar as nossas mentes para mais estórias.

Um bem haja para todos,
Albano Costa

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(iii) Joaquim Luís Fernandes, Maceira, Leiria [ex-alf mil, CCAÇ 3461/BCAÇ 3863, Teixeira Pinto, 1973 e Depósito de Adidos, Brá, 1974] [, foto à direita]

Caro Luis Graça, Caros Camarigos

24 de abril de 2014; De manhã visitei o blogue e deparei-me com este Post 13030. Apressado li o poema (que já tinha lido noutro post) "Hoje tenho pena de nunca ter escrito a uma madrinha de guerra". Então, senti um tremor e comovi-me até às lágrimas. Senti o impulso de logo comentar e enviar o meu abraço fraterno e os parabéns ao Luís, mas as obrigações profissionais exigiam de mim que saísse do blogue e adiasse o comentário, como tantas vezes acontece.

Foi um dia intenso, exigente. A minha sensibilidade esteve à flor da pele, pelo poema, pelo que me fez sentir, pelo dia em que estava, no muito que me recordava e me fazia reviver em fortes emoções.

Agora já é dia 25, 40 anos depois desse outro dia 25 de abril que me apanhou na Guiné. Apetecia-me escrever muito, exteriorizar os meus sentimentos, registar os meus pensamentos e reflexões sobre esta data e o que ela encerra e me diz, neste confronto de esperanças e desilusões, de interrogações e conclusões, mas não é este o lugar apropriado e também já estou cansado, pelo que vou ser breve.

Quero dizer-te Luís, que gostei muito deste teu poema, em que dizes tanto, naquilo que sentes e expressas e de que comungo. Nesta confissão, vejo a grandeza da tua alma e o teu grande talento. Mas permite-me que te diga: Não tenhas medo do Sagrado. Ele está perto de ti. Ele está em ti e nada te rouba, apenas te engrandece e te devolve em ti, a plenitude do teu Ser.

Postal de aniversário. Autor: Miguel Pessoa
Eu também nunca tive uma madrinha de guerra, mas tinha uma namorada/noiva/mulher. Tinha deixado também a rezar por mim, mãe, pai, futura sogra, irmãs, irmãos. Escrevi e recebi centenas de cartas e aerogramas. Eles foram para mim um bálsamo. Ler e escrever era o meu momento de encontro comigo próprio, livrando-me da alienação da guerra. Momento de interiorização e de equilíbrio emocional.

Por fim quero manifestar mais uma vez o meu apreço pelo Blogue. Endereçar-te os parabéns pelo seu 10º aniversário, que torno extensivos aos camaradas co-editores a a todos os camarigos de tertúlia. Peço compreensão pela minha parca participação. Quando tiver mais tempo disponível, escreverei mais. Há muitas reflexões e vivências que gostaria de partilhar e perguntas a fazer. Há enormes hiatos na minha compreensão do que foi aquela guerra, que gostaria de esclarecer. Haja tempo para isso.

E por aqui me fico por hoje.

Um forte abraço
JLFernandes

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(iv) Da nossa amiga tertuliana Felismina Costa de Agualva, Sintra

Ao seu criador Luís Graça,
Aos Editores Carlos Vinhal e Eduardo Magalhães Ribeiro, e à tertúlia em geral.

É com muita amizade que saúdo o Décimo Aniversário da existência deste Blogue, seu criador e editores, e bem assim quantos que, com o seu testemunho, fazem com que o propósito da sua criação tenha atingido um nível tão alto e tão diverso, tal como foram as vivências aqui relatadas, suas ideias, suas convicções, suas dores, mágoas e alegrias...

Ele, é a página que relata, treze anos de vida da Juventude Portuguesa, perdida numa luta sem sentido, por terras da Guiné entre 1961/1974, e onde os participantes sobreviventes dão testemunho da sua experiência, do seu crescimento e amadurecimento, e o palco do reencontro de velhos camaradas e amigos!

Ele, o Blogue, reuniu uma grande família, que cresceu e se multiplicou nos anos de ausência, na análise do passado, do vivido e aprendido, nos valores da fraternidade que toda a vivência produz!

Aqui, eu mesma, reencontro o tempo, a ligação ao passado, a amizade coexistente num tempo em que também fui "espectadora" ausente e preocupada. Com ele, julgo, também tenho crescido um pouco na compreensão do tema uno.

Ganhei amigos que fazem parte do meu presente, que preenchem as minhas horas, que são tema das minhas referências, com quem partilho vivências, ideias, alegrias e tristezas, pois que é de tudo isso que a vida se faz!

Felicito o tempo de vida desta Página, a Grande Obra, onde se regista muito do vivido "Naquele Tempo"! 

Felicito o seu Criador na Pessoa do Dr. Luís Graça.

Felicito os seus editores, nas Pessoas de Carlos Vinhal e Eduardo Magalhães Ribeiro.

Todos os seus Colaboradores, todos os que participam com o testemunho da sua vivência e da sua amizade e suas respectivas famílias. Eu, sou-vos devedora, da vossa amizade e do orgulho que sinto por tudo o que atrás refiro.

Desejo a continuação deste Diário, desta Obra-Prima de Organização e testemunho, por muitos anos, que é o relato em primeira mão de uma grande página da História dos Povos.

Bem-hajam Amigos! Obrigada!
Felismina Mealha

Guiné 63/74 - P13046: O segredo de... (18): O ato mais irresponsável nos meus dois anos de serviço como soldado de artilharia (Vasco Pires, ex-alf mil art, cmdt do 23.º Pel Art, Gadamael, 1970/72)

1. Mensagem, com data de ontem, de Vasco Pires (ex-alf mil art, cmdt do 23.º Pel Art, Gadamael, 1970/72; membro da Tabanca Grande, a viver na diáspora, Brasil]


Assunto: Raspando o fundo do baú..

Caríssimos,

Quando li o desafio do Luis, para "raspar o fundo do baú", nada me ocrreu, contudo, há dias, fazendo um comentário num post, "veio à memória":


O ATO MAIS IRRESPONSÁVELDOS MEUS DOIS ANOS DE SERVIÇO COMO SOLDADO DE ARTILHARIA!

Decorria o ano de 1970, quando cheguei a Bissau, no BAC1  (ou já seria GA7?), que era Comandado por um controverso Oficial Superior de Artilharia, a quem a caserna dera o codinome de "Paizinho", entre outros, que vou me abster de mencionar.

Circulavam "estórias" por Bissau, algumas falsas, outras verdadeiras, como o facto de ter "saído no Braço" com o Segundo Comandante, o que acarretou a ruína da carreira do desdito Oficial. Esse comportamento do Comandante, digamos errático para ser generosos, contaminou as relações dos Oficiais do Comando, e consequentemente, se foi alargando (como as pragas).

Após a chegada, foi feita uma apresentação ao material em operação nos Pelotões (10,5,  11,4, e 14); já quanto á situação operacional do TO, apesar de desde a recruta, vermos cartazes "gritando", "O boato fere que nem uma lâmina", as "infomações" vinham mais do "Jornal da Caserna", que propriamente um "briefing" consistente.

Alguns dias após a chegada, mandaram-me, por um curto período, para um Pelotão no Bachile, acredito, que para cobrir férias do Comandante.

Lembro bem, que no entusiasmo de "periquito", aceitei o convite do Comandante de uma patrulha, para ter uma ideia, de como seria um pedido de apoio; errado, porque a ordem expressa do Comando do BAC1, era de que o Pelotão (material e militares), só poderia sair dos quartéis, com uma ordem escrita do Comando do Aquartelamento.

A ativadade operacional do Pelotão era nula. Deslocava-me a Teixeira Pinto com alguma regularidade, um dia no Bar do CAOP1, fui abordado pelo Major de Operações, que, após se certificar da minha identidade de soldado de Artilharia, desferiu:
- Amanhã, terá uma grande operação, forças especiais e tropa regular vão atacar uma base IN na Mata X [da qual não lembro o nome, e que na altura, como recém-chegado, pouco ou nada dizia para mim]. Nós ( eu e ele) vamos regular o tiro. Amanhã às Y horas, esteja no lugar Z!!!

No auge da minha "periquitice", sem nada perguntar, limitei-me a dizer:
- Sim, senhor, meu Major!

Na minha fantasia, iríamos regular o tiro, a bordo de um helicóptero; na hora e local determinado, como não poderia deixar de ser, me apresentei devidamente "armado" com a minha tabela de tiro. Qual não foi a minha surpresa, quando subimos numa Dornier!

Por lá andamos ás voltas, ele identificando os alvos, e eu,  tabela de tiro no colo, calculando, e transmitindo a ordem de fogo para o Pelotão!!! Felizmente nada ocorreu de anormal.

Quando descemos, me faltaram as palavras e a coragem, para transmitir o meu espanto do ato que tínhamos acabado de cometer.

Ainda hoje, mesmo que tenha cometido outros erros, considero este como o ato mais irresponsável, dos meus dois anos de serviço na Guiné, como soldado de Artilharia.

E siga a Artilharia...

Forte abraço a todos

Vasco Pires

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Guiné 63/74 - P13045: Homenagem póstuma, na sua terra natal, Areia Branca, Lourinhã, 11 de maio próximo, ao sold at cav José Henriques Mateus, da CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67), desaparecido em 10/9/1966, no Rio Tompar, no decurso da op Pirilampo. Parte III: A certidão de óbito nº 594/967, da Conservatória do Registo Civil da Comarca da Guiné (Jaime Bonifácio Marques da Silva)

1. Mensagem de ontem, do nosso camarada Jaime Bonifácio Marques 
da Silva [, natural de Seixal, Lourinhã, e residente em Fafe, onde foi professor de educação física e autarca (com o pelouro da cultura, e onde é mais conhecido como Jaime Silva), ex-alf mil paraquedista, BCP 21 (Angola, 1970/72), membro da nossa Tabanca Grande]:

Caro Luís

Estive a ler a Certidão de óbito do Mateus., Diz que vai ser sepultado mas não se percebe a palavra porque a fotocópia está em muito mau estado. Vou tentar voltar ao Arquivo do Exército.

No entanto lê e passa ao pessoal para ver se sabem explicar a sua existência!

Eu não a vou divulgar nos cartazes da exposição
Jaime

2. Reprodução da certidão de óbito nº 594/967, referente ao sold at cav José Henriques Mateus,  CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67), desaparecido no Rio Tompar, em 10/9/1966, no decurso da Op Pirilampo, e cujo corpo nunca foi encontrado.

Recorde-se que em Novembro de 1966 fora já abatido ao efetivo do Regimento  [ RC 7] e da Companhia de Cavalaria n.º 1484 e um ano depois, em novembro de 1967, "por despacho de 24.10.67 foi confirmado como ocorrido em e por motivos de serviço o acidente referido, e de que lhe resultou a morte. (O.S. 265)." (*)


CONSERVATÓRIA DO REGISTO CIVIL DA COMARCA DA GUINÉ
CERTIDÃO N.º 594/967
------- PEDRO GOMES DIAS, TERCEIRO AJUDANTE INTERINO, DA CONSERVATÓRIA DO REGISTO CIVIL DA COMARCA DA GUINÉ,  EM BISSAU, E COMO TAL SUBSTITUTO LEGAL DO CONSEVADOR, EM EXERCÍCIO: -------------------------------------------------------------------------------------------------------
------ CERTIFICO que as folhas sessenta e cinco verso do livro do registo de óbito arquivado nesta Conservatória, e referente aos anos de mil novecentos e sessenta e seis a mil novecentos e sessenta e sete, se encontra um registo de teor seguinte: ----------------------------------------------
À MARGEM.- Averbamentos. – Registo número setenta e cinco “HENRIQUES MATEUS” (JOSÉ). Certificado de óbito nos termos do artigo duzentos e oitenta e um e duzentos e oitenta e dois do Código do Registo Civil. – NO TEXTO. -  Registo de óbito.  No mês de Janeiro do ano de mil novecentos e sessenta e sete, nesta Província, faleceu em combate um indivíduo do sexo masculino  de nome José Henriques Mateus, de vinte e três anos de idade, de profissão soldado do Exército, natural da freguesia de Lourinhã, Concelho do mesmo nome, domiciliado nesta [_____________], filho de Joaquim Mateus Júnior, e de Maria Rosa Mateus. O falecido era solteiro. O falecido ignora-se deixou descendentes menores, ignora-se deixou bens, não deixou testamento e o seu cadáver vai ser transladado, digo, sepultado no cemitério do [_____________].
A declaração de óbito foi feita de conformidade com o ofício número sessenta e quatro traço sessenta e sete, Processo número sete traço sessenta e sete do tribunal Judicial da Comarca da Guiné que acompanhou a certidão de sentença proferida pelo Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz [?], em Bissau, digo em vinte e três de Janeiro de mil novecentos e sessenta e sete. Depois deste registo ser lido e conferido com o seu extrato vai ser assinado por mim Carlos Dinis de Figueiredo Júnior,  conservador do Registo Civil. Conservatória do Registo Civil da Comarca da Guiné em Bissau, aos trinta dias do mês de Janeiro  de mil novecentos e sessenta e sete. (Assinado) Carlos Dinis de Figueiredo Júnior.----------------------------------------------------------------------------- Por ser verdade mandei passar apresente certidão que vai por mim assinada e autenticada com o selo branco em uso nesta Conservatória, depois de revista e conferida.-----------------Isenta de selos e emolumentos por se destinar única e (?) (?) (?) militares (?) (?) (?). (**)-------------- Conservatório do Registo da Comarca da Guiné (não se percebe a data, escrita por extenso, nem a assinatura)

ESTÁ CONFORME
O CHEFE DA 1.ª REPARTIÇÃO
SOUSA MONTENY

Guiné 63/74 - P13044: (Ex)citações (227): A guerra vista de Bafatá. O edifício-sede do batalhão (António Bernardo, CCS / BART 2920, Bafatá, 1970/72)

1. A propósito da mensagem: Guiné 63/74 - P13034: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (88): O senhor Camilo da Bafatá, da autoria do nosso Camarada Fernando Gouveia, que foi Alf Mil Rec e Inf, em Bafatá, 1968/70), com data de 24 de Abril de 2014, recebemos do Sr. António Bernardo a seguinte mensagem:


Caro Fernando,

Permite-me emendar-te na legenda das fotos. O edifício-sede do batalhão é o assinalado na foto que envio em anexo e defronte do qual, situava-se a casa do Sr. Camilo. De estilo colonial, composta de dois pisos. No rés-do-chão, o estabelecimento comercial; no piso superior, a residência.

Era do conhecimento geral, os "lautos jantares à oficialidade lá do sítio", tanto assim, que foi no lauto almoço do domingo de Páscoa de 1972 (2 de abril) que o cmdt do BART 2920, tomou conhecimento do acontecido na CART 2742 em Fajonquito e relatado no poste 5932. 




Cumprimentos.


António Bernardo

[ CCS / BART 2920, Bafatá, 1970/72]



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Nota de M.R.: 

Vd. Também o poste em referência: 


Vd. último poste desta série em: 


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P13043: No 25 de abril eu estava em... (22): Cafal Balanta, Cantanhez... (António A. Quintela, ex-alf mil, CCAÇ 4544/73, 1973/74)




Lisboa > Av Berna > Muro da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH / NOVA)> Destaque para a figura do cap cav Salgueiro Maia (comandante da CCAV 3420, Bula, 1971/73), nosso camarada da Guiné e que eu conheci pessoalmente no ano letivo de 1975/76 no então ISCPS - Instituto Superior de Ciências Políticas e Sociais, na Rua da Junqueira, onde fomos colegas, por um ano, no curso de licenciatura em Ciências Sociais e Políticas, embora sem qualquer relacionamento pessoal [, tendo eu seguido depois, em 1976/77 para o ISEG e, no ano seguinte, para o ISCTE, onde terminei o cruso de Sociologia, em 1980; o Salgueiro Maia tinha duas licenciaturas pelo ISCSP, Ciências Políticas e Sociais (1979) e Ciências Antropológicas e Etnológicas (1980)]. Tamto quanto me recordo dele, as vezes que nos cruzámos, era um típico militar, distante, reservado, e equidistante dos diferentes grupos estudantis de esquerda e extrema-esquerda que imperavam no ISCSP.



"Cinco artistas mostram a sua visão sobre o passado, o presente e o futuro da Revolução de 74 através da pintura do muro da FCSH. A iniciativa enquadra-se no 40.º aniversário do 25 de Abril. Vhils, co-fundador da plataforma Underdogs, respondeu ao desafio lançado pelo Instituto de História Contemporânea (IHC), unidade de investigação da FCSH/NOVA, e convidou Miguel Januário, Frederico Draw, Diogo Machado e Gonçalo Ribeiro para, em conjunto, pintarem o muro da Faculdade. O objectivo é “mostrar como esta nova geração de artistas interpreta o 25 de Abril e como esta data influenciou as suas vidas”, afirma Vhils, também conhecido por Alexandre Farto. " 

(Fonte: FCSH/UNL Vd. mais fotos na página do Facebook).


Fotos: © Luís Graça  (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. Mensagem do nosso leitor (e camarada) António A Quintela cm data de hoje:

Assunto: Uma estória do 25 de Abril na Guiné

Caro Amigo


Ainda não me associei à Tabanca Grande mas em breve irei formalizar essa situação.

Fui alferes de infantaria da CCAÇ 4544 em Cafal Balanta desde outubro 73.

Lá passei o 25 de Abril e lembrei-me de contar uma estória talvez curiosa mas que relata o sentimento então já vivido sobre a queda iminente do regime de então.

Esta estória antecede o relato já feito pelo António Agreira sobre a maneira como soube do que se passava em Lisboa.

Um abraço para ti e para todos os camaradas da Tabanca Grande.

António Quintela



2. Uma pequena estória do 25 de Abril de 74 em terras da Guiné

por António Quintela


Antes de mais ressalvo desde já alguns lapsos de memória que a 40 anos de distância se entenderão.

Estava então em Cafal Balanta na CCAÇ 4544 desde Outubro de 1973.

Poucos dias antes do 25 de Abril e após termos ouvido, como era hábito, o noticiário em português da BBC, o comandante da companhia, Cap Salgado Martins e os alferes ficamos a conversar sobre a situação que, pelo menos desde o 16 de março.  estava instável, situação de instabilidade essa que a BBC retratara.

A conversa desenvolveu-se e de repente estávamos a planear uma tomada do poder em Lisboa com as tropas estacionadas na Guiné.

Definiram-se objectivos estratégicos e foi necessário mandar manter o gerador em funcionamento mais horas para que o "planeamento" fosse concluído.

No dia 25 logo de manhã soubemos o que se passava em Lisboa,  graças ao [fur mil António] Agreira das transmissões (**) que tinha apanhado a informação via rádio, nomeadamente, da "Maria Turra", que a partir desse momento passou a transmitir música portuguesa do Zeca e de outros oposicionistas ao regime até então vigente, pese embora referir a necessidade de se confirmar a orientação política da acção revolucionária. Temia-se de facto que pudesse ser a facção Kaulza [de Arriaga] a actuar.

O Capitão Salgado Martins que se tinha deslocado à sede do batalhão em Cadique, não acreditou de imediato na informação que lhe foi transmitida, referindo depois que pensara ser gozo na sequência da noite do "planeamento" da acção. Só regressado ao aquartelamento pôde confirmar a verdade e o sentido político do golpe de Lisboa.

Nessa noite contudo e ao contrário de todas as anteriores, não se ouviu um único disparo de armamento pesado do PAIGC.

António A Quintela

3. Comentário de L.G.:

António, camarada, és bem vindo à Tabanca Grande. Manda as duas fotos da ordem, que a história, essa,  já contaste. Depois do Carlos Prata,  do António Agreira e do João Nunes, passarás a ser o quarto  representante dos bravos da CCAÇ 4544/73. Julgo que vivas nos Açores, não ? Um alfabravo. Luís Graça

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Notas do editor:

Guiné 63/74 - P13042: Manuscrito(s) (Luís Graça (26): Revisitar Bissau, cidade da I República, pela mão de Ana Vaz Milheiro, especialista em arquitetura e urbanismo da época colonial (Parte III): Sarmento Rodrigues, o seu palácio e a sua praça do império (fotos de Benjamim Durães, julho de 1971)


Foto nº 1 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > O palácio do Governador (Gabinete de Urbanização Colonial / Arquitetos João António Aguiar e José Manuel Galardo Zilhão, 1945)


Foto nº 2 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > O  monumento ao "esforço da raça"


Foto nº 3 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > Praça do Império



Foto nº 4 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > Av da República, ao fundo a Praça do Império



Foto nº 5 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > Estátua de Diogo Gomes


Foto nº 6 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > Estátua de Honório Barreto


Foto nº 7 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > Estátua de Teixeira Pinto

~
Foto nº 8 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > Rua de Bissau 



Foto nº 9 > Guiné, Bissau, julho de 1971 >  Zona ribeirinha de Bissau


Foto nº 10 > Guiné, Bissau, julho de 1971 >  Forte da Amura


Foto nº 11 > Guiné, Bissau, julho de 1971 > Aeroporto de Bisslanca... O avião da TAP


Guiné > Bissau > julho de 1971 > Fotos de Bissau, tiradas por Benjamim Durães (fur mil op esp, Pel Rec Info, CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/72), aquando da sua ida de férias à metrópole. 


Fotos: © Benjamim Durães (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. Manuscrito(s), por Luís Graça

Nota de leitura > Ana Vaz Milheiro – Guiné-Bissau: 2011.  Lisboa, Circo de ideias, 2012, 52 pp. (Viagens, 5)


Parte III

Recorde-se o que já dissemos em dois  postes anteriores sobre esta brochura da investigadora e professora do ISCTE -IUL, Ana Vaz Milheiro. Este livrinho, profusamente ilustrado com fotografias da autora, a cores, resulta de uma singular viagem à Guiné-Bissau, de 2 arquitetos (entre as quais a autora) e de 1 sociólogo (Eduardo Costa Dias, nosso grã-tabanqueiro), durante 10 dias, de 2 a 10 de outubro de 2011.

Continuação das notas de leitura:

Em 1919, em nome da I República, o engenheiro de minas João Guedes Quinhones já tinha imaginado e planeado  o sítio onde mais tarde se ergueria o Palácio do Governador da Colónia da Guiné (hoje Palácio da Presidência da República da Guiné-Bissua). Éo memso sítio, num ligeiro promontório, onde a partir do qual se irá rasgar a Praça do Império (hoje, Praça dos Heróis Nacionais).

Segundo a cicerone que nos guia pelas ruas (esburacadas) de Bisssau, em outuro de 2011, à procura das marcas da arquitetura portuguesa, colonial, estado-novista, Ana Vaz Milheiro, o edifício (e o seu espaço envolvente) é “uma arquitetura de representação política”, ligada à nova cartografia do Portugal imperial que vai “do Minho a Timor”, desenvolvida pelo Estado Novo e que terá o seu apogue nos anos 40/50.

O edifício, que remonta aos anos 30, conheceu muitas vicissitudes e contrariedades. O projeto definitivo foi (re)desenhado em 1945 (, já que havia uma pré-existência), pelo Gabinete de Urbanização Colonial (GUC), pelos arquitetios João António Aguiar e e João Manuel Galhardo Zilhão. Recorde.se que o GUC tinha sido criado em finais de 1944, em Lisboa, dependente do Ministério das Colónias, cuja titular era então Marcelo Caetano.

O palácio vai ficar pronto em 1946, por ocasião do 5º centenário do desembarque de Nuno Tristão no território, graças a um nova intervenção da brigada de Paulo Cunha. E faz parte de um vasto conjunto de obras públicas, indelevelmente associado ao mandato do governador Sarmento Rodrigues (1945-1948)

(…) “Manuel Maria Sarmento Rodrigues, oficial da Marinha portuguesa, é destacado por Marcelo Caetano para governador da Guiné, antes ainda do final da Segunda Guerra, num tempo muito próximo à formação do GUC. Durante o seu governo, a província conhece uma época de desenvolvimento, servindo de “campo de ensaio” aos “novos rumos da política colonial portuguesa.” (…). Este período progressista tem a sua expressão mais emblemática na revogação do “Diploma dos Assimilados” que valerá a Sarmento Rodrigues ser visto como tendo responsabilidades na formação de uma “nova escola de política ultramarina” (…).

“O perfil empreendedor de Sarmento Rodrigues, revelado enquanto governador da Guiné e confirmado mais tarde aquando da sua passagem como ministro pelo MU [, Ministério do Ultramar,], reflecte-se também na promoção de obras públicas. Coincidindo o seu governo com o arranque do Gabinete, a sua actuação permite analisar como se exercem as relações, nesta primeira fase, entre o poder colonial – que está no terreno – e os técnicos que permanecem em Lisboa. Entre os seus “discursos e afirmações”, que reúne em livro um ano depois de deixar o cargo, há menções a edifícios públicos projectados no âmbito do GUC. Estas referências surgem, p.e., no discurso à primeira sessão do Conselho de Governo, logo a 3 de Julho de 1945, onde apresenta a estratégia que pretende implementar para a região e não apenas na capital Bissau. Nela afirma figurar “no primeiro plano das realizações, como mais visível, o trabalho de obras públicas”, adiantando possuir “uma vasta lista de obras projectadas para um período… bastante curto” (…). Desta lista fazem parte construções em andamento, como o “Palácio, Sé, capelas de Catió, Bafatá, Canchungo, Mansoa e Gabu, moradias projectadas para os funcionários em Bissau, o monumento ao Esforço da Raça, edifício da Praça do Império… e outras tentativas dispersas pela Colónia” (…). Para lá da reorganização dos serviços que a possibilidade de novos edifícios proporciona, as suas preocupações principais são as infra-estruturas de transportes (…), a assistência sanitária (…) e o saneamento básico (…). (Milheiro e Dias, 2009, pp. 89/90) (**).


A fachado do edifício é arte deco. Foi bombardeadoem 7/6/1998, na sequência da guerra civil. Resistiu, graças a sua cnstrução sólida e aos materiais de baixo custo de manutenção usados na época nas obras do Estado Novo.. Esteve estes anos todos em ruínas. Foi reconstruído recentemente pelos chineses.

Ainda sobre o palácio do Governador, escrevem Milheiro e Dias (2009):

(...) "Em 1947, Sarmento Rodrigues refere-se à situação da obra do “Palácio de Bissau”, peça emblemática da presença portuguesa no plano da representatividade, que “continuará ainda com maior intensidade, de modo que a sua conclusão já não leve anos, mas apenas meses” (…). O palá­cio do governador, localizado no topo superior da antiga Avenida da República, hoje Avenida Amílcar Cabral, posiciona-se como centro simbólico do poder. A sua implantação faz sobressair a estrutura urbana assente em quadrícula e hierarquizada através de um sistema de ruas rectilíneas que tem nesta avenida semi-arborizada o seu eixo monumental e onde se irão situar os principais serviços públicos (…). É adaptado por João Aguiar, ainda em 1945, seguindo um esquema “clás­sico” de composição tripartida e simétrica e recorrendo a elementos decorativos historicistas que reforçam a sua filiação numa arquitectura nacional, figurativamente próxima do que Marcelo Caetano apelida de “português suave”. Não considerada no desenho original é a galeria térrea que protege a entrada e providencia uma estadia superior sobre a avenida. “ (Milheiro e Dias, 2009, p. 94) (**).

Ainda sobre Sarmento Rodrigues (o melhor governador da Guiné em tempo de paz, sendo o Spínola o melhor em tempo de guerra)… Com ele, o Estado Novo vai aproveitar os 500 anos da chegada de Nuno Tristão para dar início a um plano de embelezamento do espaços públicos em Bissau e noutras localidades (Bafatá, Catió, Cacheu…). No essencial, esse programa que se porolonga pelos anos 50, consistiu na colocação de estátuas aos “heróis da colonização”, de Nuno Tristão a Teixeira Pinto, de Honório Barreto a Diogo Gomes, sem esquecer Oliveira Muzanty (Bafatá)…

Os pedestais são obra dos homens do Gabinete de Urbanização do Ultramar (que sucedeu ao GUC, em 1951). As estátuas serão desmanteladas depois da independência e o que resta delas encontra-se no forte do Cacheu, para um futuro museu da colonização. Símbolos de regime, muitas das estatátuas não sobrevivem à queda desses regimes. Veja-se o que se passou com Salazar, Portugal no pós 25 de abril, com Estaline, em muitos países do leste europeu, depois da queda do muro de Berlim, em 1989.

É a roda da história. De qualquer modo, portugueses e guineenses têm interesse (e obrigação) em conhecer, divulgar e proteger este património ligado à sua história comum…

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Notas do editor:

(*) Vd. postes anteriores:

14 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P12980: Manuscrito(s) (Luís Graça (25): Revisitar Bissau, cidade da I República, pela mão de Ana Vaz Milheiro, especialista em arquitetura e urbanismo da época colonial (Parte II): o Pavilhão de Tisiologia, mais tarde HM 241

29 de março de 2014 > Guiné 63/74 - P12911: Manuscrito(s) (Luís Graça (24): Revisitar Bissau, cidade da I República, pela mão de Ana Vaz Milheiro, especialista em arquitetura e urbanismo da época colonial

(**) Vd. Milheiro, Ana Vaz, e Dias, Eduardo Costa - A Arquitectura em Bissau e os Gabinetes de Urbanização colonial (1944-1974). usjt - arq urb , nº 2, 2009 (2º semestre), pp.80-114 [Disponível aqui em pdf ]

Guiné 63774 - P13041: Mafra, EPI, COM: Instruções para os instruendos (Mário Vasconcelos): Parte II: Averbamentos; Serviço interno; (...); Salas de estudo; Comportamento; Saídas do quartel; Passaporte de dispensas ou licenças; Cartas de recomendação, pedidos feitos por interpostas pessoas, etc.. etc., [vulgo, "cunhas"].




Planta do EPI, Mafra


(Faltam páginas, correspondentes à continuação do ponto VI, e aos pontos VII, VIII e  IX (no todo) e ainda parte do ponto X)












Reprodução da segunda parte do guia do instruendo do COM (Curso de Oficiais Milicianos), usado na EPI - Escola Prática de Infantaria, em Mafra (*):  V- Averbamentos; VI - Serviço interno; (...) XI - Salas de estudo; XII - Comportamento; XIII - Saídas do quartel; XIV - Passaporte de dispensas ou licenças; XV - Cartas de recomendação, pedidos feitos por interpostas pessoas, etc.. etc., [vulgo, "cunhas"].

Imagens: © Mário Vasconcelos (2014). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. O documento original, sem data, chegou-nos, devidamente digitalizado, por mão do nosso camarada Mário Vasconcelos [ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, COT 9 e CCS/BCAÇ 4612/72. Mansoa, e Cumeré, 1973/74; foto atual à direita].

Recorde-se que já publicámos o guia do instruendo do CSM - Curso de Sargentos Milicianos, documento que nos chegou por mão da parelha Fernando Hipólito / César Dias, e que é claramente mais "ideológico" do que o guia que  estamos agora a publicar.  Comparando os dois guias, há claramente um tratamento mais "classista", de maior deferência, em relação ao instruendo do COM, futuro "oficial e cavalheiro"...

Não encontro este documento na Biblioteca do Exército nem sei de que data será.

Estas "indicações" ( e não "instruções") dadas aos instruendos dos COM remetem, por sua vez, para o Regulamento Geral de Instrução do Exército (RGIE). É pena que nos faltem algumas páginas, lapso que o Mário Vasconcelos poderá eventualmente corrigir.


Mafra  (ou "Máfrica") > Escola Prática de Infantaria (EPI) > 1968 > COM > Cerimónia do Juramento de Bandeira > Desfile dos cadetes,  onde se integrava o Paulo Raposo, frente ao Convento de Mafra.

O Paulo Enes Lage Raposo foi al mil inf,  com a especialidade de Minas e Armadilhas, na CCAÇ 2405, pertencente ao BCAÇ 2852 (Guiné, Zona Leste, Setor L1, Bambadinca, 1968/70).

Durante a sua comissão, passou esteve em Mansoa e sobretudo na zona leste (Galomaro e Dulombi), a sul de Bafatá. A sua companhia perdeu 17 militares na travessia do Rio Corubal, na sequência da retirada de Madina do Boé, em 6 de fevereiro de 1969 (Op Mabecos Bravios).

Foto: © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados
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Guiné 63/74 - P13040: Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (34): Ramos Horta & Ana Gomes hoje na Guiné-Bissau como ontem em Timor, uma dupla guerreira, sem armas de fogo, que está a fazer um belo e corajoso trabalho pela paz e pela lusofonia

1. Mensagem de Antº Rosinha [, foto atual à esquerda; fur mil em Angola, 1961/62, topógrafo da TECNIL, Guiné-Bissau, em 1979/93]:

Data: 16 de Abril de 2014 às 15:17

Assunto: Ramos Horta/Ana Gomes, dueto guerreiro

Luís, pela boca morre o peixe, tu é que sabes se publicas ou não.

Agora que as eleições recentes guineenses terminaram, (as eleições, não as intrigas), na República da Guiné Bissau, atrevo-me a comentar o protagonismo destes dois políticos, perante os guineenses e perante todo o ambiente que rodeou os últimos acontecimentos naquele país, terra que tanto se recorda neste blog de septuagenários e sexagenários.

Ramos Horta e Ana Gomes já em Timor actuaram a nível nacional e internacional com tal intensidade que Timor poderia não ser o que é, para bem ou mal, não sei, mas saberão os timorenses, e um acaso juntou-os novamente num contexto diferente, mas muito importante para a definição do que pode vir ser o futuro próximo da Guiné Bissau.

Como procuro acompanhar o que se passa nas ex-colónias por onde passei, Angola, Brasil e Guiné e "Madeira", terras onde passei os melhores anos da minha vida, (em idade de reprodução), não podia passar em branco a acção destes personagens que eu admiro, apesar de eu me considerar um bom "ex-colonialista", e um curioso "ex-cooperante" o oposto deles, anti-colonialistas.

Mas o que estes dois nomes já ouviram e leram contra eles nos jornais e blogs etc. de alguns políticos, comentadores timorenses, antigamente e guineenses agora, é de fazer corar qualquer colonialista, imperialista e fascista do nosso tempo de guerra do Ultramar.

Embora uma parte dos guineenses, tal como tinha acontecido em Timor, não vissem com bons olhos a actuação desta duas personalidades, a força moral, política e psicológica deles é tão forte, que se conseguem impor e fazer ouvir, mesmo pelos seus opositores, e não são poucos, agora na Guiné, antigamente em Timor.

Será a força da razão, a grande força deles?

Nem todos os antigos combatentes, ou antigos retornados como eu, se preocupam mais com estas africanices, porque outros valores mais europeístas e "larachas em família" mais indigestas que as de Marcelo, se alevantam.

Mas eu como português que não passou além de Olivença, mas fui além do Cabo Bojador, e muitos de nossos jovens já vão para Luanda com "carta de chamada" como se ia há 60 anos, dou muito valor à coragem e um certo sentido lusitano que discretamente se vai mantendo, por vários processos, como neste caso concreto Ramos Horta/Ana Gomes.

Como até acho que Portugal deve apoiar os angolanos e moçambicanos na pretensão de admitir a Guiné Equatorial na CPLP, assim como os galegos da Galiza, acho que me faço compreender, sem falar de mais.

Penso que estes dois personagens têm um verdadeiro espírito "Libertador" que sem serem uns Che Guevara, ou Amílcar Cabral, tentam sem armas de fogo fazer mais pela paz do que aqueles armados até aos dentes.

Não quero transcrever o que se ouviu em rádios e blogs e jornais guineenses contra e a favor destas duas figuras.

Já em Timor quem tenha dado atenção lembra-se do que diziam certos timorenses e Ali Alatas [1932-2008],  também na Guiné alguns vizinhos e alguns guineenses não apreciaram muito a actuação destes dois políticos.

Apesar dos pesares, a maioria dos guineenses deve achar que é bom para a Guiné a presença desta dupla na sua terra.

Cumprimentos,
Antº Rosinha
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Nota do editor:

Último poste da série de 10 de março de 2014 > Guiné 63/74 - P12817 : Caderno de notas de um mais velho (Antº Rosinha) (33): O racismo mal disfarçado na África Lusófona, tão complicado e difícil de contornar como a divisão étnica tradicional

Guiné 63/74 - P13039: Agradeço aos amigos atabancados as mensagens de parabéns que me enviaram a propósito do meu aniversário (David Guimarães)

A pedido do nosso camarada David Guimarães, (ex-Fur Mil, At Inf, MA da CART 2716, Xitole, 1970/1972), publicamos o seu postal de agradecimento pelas mensagens de parabéns a ele enviadas a propósito do seu aniversário ocorrido ontem, dia 24 de Abril.

Guiné 63/74 - P13038: Blogpoesia (378): Em Abril... (José Teixeira)

1. E mensagem do dia 13 de Abril de 2014, o nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux. Enf.º da CCAÇ 2381, Buba, QueboMampatá e Empada, 1968/70), enviou-nos um poema de sua autoria alusivo à data que hoje se comemora, com especial relevo, os 40 anos da Revolução dos Cravos:


…Emergimos da noite e do silêncio
Sophia de Mello Breyner Andersen


Em Abril

O dia acordou mais cedo
Ao som da música da fraternidade,
Para acabar com a escura noite,
Que nos impedia de viver em liberdade,
E na ponta das espingardas eu vi cravos a florir,
Sinais de paz num mundo novo a sorrir.


Liberdade.
Dom precioso que o céu deu aos homens
No ato sagrado da criação,
Que nem os tesouros que a terra tem no seu ventre,
Nem os que o mar guarda na sua profundeza,
São riqueza suficiente,
Que justifique a sua alienação.

Liberdade.
Essência viva da alma. Caminho de verdade,
Razão que seduz o homem a procurar-te cada momento,
Em transportar-te sempre no pensamento,
Na esperança de contigo construir a felicidade.

E eu quero correr e pular, gritar e sorrir,
Com um frescor da brisa cheirosa das manhãs claras
Que Abril libertou.

José Teixeira
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Nota do editor

Último poste da série de 21 DE MARÇO DE 2014 > Guiné 63/74 - P12869: Blogpoesia (377): O Dia Mundial da Poesia, 21 de março de 2014, na nossa Tabanca Grande (VIII): Pepito, o construtor de sonhos (José Teixeira, ONGD Tabanca Pequena, Matosinhos)