sábado, 11 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14865: Os nossos seres, saberes e lazeres (105): Sou reformado a tempo inteiro, mas... nas horas vagas escrevo, pinto, aperfeiçoo o Inglês e sou secretário geral da Anetta – Associação Nacional das Empresas e Técnicos de Trabalhos em Altura (José Melo)

1. Conforme ficou dito no poste de apresentação(1) do nosso camarada José Melo (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1498/BCAÇ 1876, Có, Jolmete, Ponate, Bula e Binar, 1966/67), publicamos hoje a parte referente à sua faceta de escritor e artista plástico.

O que faço hoje?

Sou reformado a tempo inteiro, mas... nas horas vagas escrevo, pinto, aperfeiçoo o Inglês e sou secretário geral da Anetta – Associação Nacional das Empresas e Técnicos de Trabalhos em Altura.

Como escritor publiquei seis livros cuja leitura recomendo.
São eles:


Título - Um País de Floreanos 
Volume I - Sonhos de Emerenciana

Comentário:
Em Ponta Delgada, nos princípios dos anos 30, Guilherme trabalha afincadamente para ter uma vida desafogada e para conservar a sua liberdade de expressão. Num ambiente de miséria social e de forte contestação contra a repressão de um governo ditatorial, Guilherme, entre a amizade de um fantástico grupo de amigos e as preocupações com os familiares, encontra o seu verdadeiro e grande amor. Porém a inveja, a soberba e o orgulho rapidamente tecem a teia de intriga que os separará...

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Título - Um País de Floreanos 
Volume II (Romance) - Ver Santa Maria por um Canudo

Comentário:
Um convite para uma viagem aos Açores dos Princípios dos anos 30 do Séc. XX: as paisagens, a cultura, as festas, as ruas, os interiores e o exterior de uma arquitectura que se anima, as modas e a vida social, a electricidade no ar que precede a Guerra, numa trama amorosa invulgar. 

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Título - Um País de Floreanos 
Volume III (Romance) - As Bocas do Mundo

Comentário:
A escrita é mordaz, mas o autor consegue a proeza de a fazer oscilar entre o sério e o burlesco, numa história que é, toda ela, perpassada por pródigas e minuciosas descrições que, a par do enredo central, enriquecem este III Volume...

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Título - Registo de Viagem : Rota Moçambique e África do Sul (Relato de viagem, romance e crónica)

Comentário:
Este livro é um misto de relato de viagem, de romance e de crónica.
O relato de viagem mostra um ritmo alucinante numa sede de percorrer em poucos dias o maior número possível de lugares e de viver situações exóticas. O romance é bom. É a parte com mais brilho e que tempera os relatos de viagem.
As crónicas relatam factos perecíveis, verdades do dia que amanhã serão mentiras. Tais como os acontecimentos políticos vivem das aparências, são verdades temporárias que se desfazem porque o que parecia ser já não é.
Registo de Viagem: Rota de Moçambique e África do Sul, é um livro controverso tanto no campo político, económico, financeiro, banca, médias, etc., como no campo do seu valor literário intrínseco.

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Título - Sem Rumo e Sem Rima

Comentário:
Um hino à existência. Não aquela que, por vezes, parece ser colorida, quente, ensolarada...
Sem nada pedir em troca, o poeta doa a alma ao leitor.
É uma alma doida, que sofre. Mas que deseja ser entendida e acarinhada.
E poderá, assim, Rimar e encontrar o seu Rumo...

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Título - Antes que me esqueça

Comentário:
Os vinte e dois contos que a obra abarca, convidam à eterna descoberta com que José Jorge de Melo já habituou os leitores. Mesmo os mais incautos não poderão ficar indiferentes à escrita que (atrevidamente, apelidarei de pictórica), brota da pena, hoje já caída em desuso... Algumas das histórias, apesar de, naturalmente, menos longas do que outras, contêm pormenores que lembram minúcias de um estudo etnográfico. Revelam vantagens e contradições. A qualidade de vida de que se pode desfrutar numa terra pequena, choca com o problema de todos conhecerem tudo de todos, manancial soberbo para as coscuvilheiras. Há relatos de uma tal riqueza que só o ato de ouvir e de não preservar no cofre da escrita, equivalerá, por certo, não ao olho por olho, dente por dente como plasmado no conto Terreiro da Forca, mas a uma espécie de outro crime não menos grave: o da perda e o do esquecimento das tradições, dos usos, dos costumes, enfim, da vida noutras eras. Outros contos fazem refletir sobre a bondade, a mentira, o engano, o julgamento dos homens, de tal sorte que provocarão, em cada leitor, as mais variadas emoções. Quantos de nós não vivenciámos já situações análogas a uma das passagens do conto Bem Fazer mal haver? “Eu que te alimentei quando eras pequena e estavas adoentada. Isso é uma enorme ingratidão! Tu não tens coração”. Ler Antes que me esqueça é mergulhar num mundo de peripécias, onde se entrecruzam a memória e a voz de quem relata e a perícia e a elegância de quem escreve.

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No respeitante a Pintura

Tenho um “blog” denominado Atelier José Melo ou Atelier José Jorge de Melo (http://atelierjosejorgemelo.blogspot.pt/), que por falta de tempo está desatualizado, mas se estiver interessado no campo da pintura, poderá observar no “blog” alguns dos meus quadros. Para ficar ciente do meu tipo de pintura, envio duas fotos de quadros da minha autoria.


Presunção

Lago Lemont

José Melo
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Notas do editor

(1) Vd. poste de 4 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14834: Tabanca Grande (468): José Jorge de Melo, ex-Alf Mil da CCAÇ 1498/BCAÇ 1876 (Có, Jolmete, Ponate, Bula e Minar, 1966/67)

Último poste da série de 8 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14849: Os nossos seres, saberes e lazeres (104): Tomar à la minuta (7) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14864: Álbum fotográfico de Jaime Machado (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046, Bambadinca, 1968/70) - Parte VI: Mulheres e bajudas (III)


Foto nº 1->   Bambadinca > Bambadincazinho, dezembro de  1969 (1)



Foto nº 2>  Bambadinca > Bambadincazinho, dezembro de  1969 (2)


Foto nº 3 > Bambadinca > Bambadincazinho, dezembro de  1969 (3)


Foto nº 4  Bambadinca, dezembro de 1969: mulheres embriagadas com aguardente de cana



Foto nº 5 Bambadinca > Nhabijões fevereiro de 1970 (1)


Foto nº 6 > Bambadinca > Nhabijões fevereiro de 1970 (2)

Guiné > Zona leste > Setor L1 > Bambadinca > Pel Rec Daimler 2046 (maio de 1968/fevereiro de 1970).

Fotos: © Jaime Machado (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: LG]

1. Continuação da publicação do álbum fotográfico de Jaime Machado (*):


[Jaime Machado, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2046 (Bambadinca, 1968/70); vive em Senhora da Hora, Matosinhos: mantém com a Guiné-Bissau a forte relação afetiva e de solidariedade (através do Lions Clube); voltou `Guine-Bissau em 2010 (, foto atual à esquerda)]

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Guiné 63/74 - P14863: Tabanca Grande (470): Carlos Manuel Baptista Nunes, ex-Marinheiro Fuzileiro Especial do DFE 8 (Ganturé, Cacheu e Gampará, 1971/73)

1. Mensagem do nosso camarada e novo amigo, Carlos Manuel Baptista Nunes, Marinheiro Fuzileiro Especial do DFE 8, Ganturé (Begene), Cacheu e Gampará, 1971/73, com data de 29 de Junho de 2015:

Camarada
Aqui estou, a juntar-me a este - já vasto - grupo!

Carlos Manuel Baptista Nunes
Marinheiro Fuzileiro Especial N.º 288/70
Unidade: Destacamento n.º 8 de Fuzileiros Especiais
Guiné 1971/1973
Ganturé (Begene), Cacheu e Gampará

Atualmente aposentado.
Servi no Corpo de Fuzileiros, de Janeiro de 1970 a Setembro de 1980.
Polícia Marítima: De Setembro de 1980 a Junho de 2006

Com um abraço
Carlos Baptista


2. Comentário do editor:

Caro camarada Carlos Baptista
É uma subida honra receber nesta tertúlia um combatente da nossa muito honrosa Marinha de Guerra Portuguesa. Em maioria, por aqui, somos combatentes do Exército, pelo que alguém do ar ou da água é especialmente bem recebido. Aqui tens a vantagem de não precisares de colete salva-vidas ou paraquedas porque a nossa Tabanca está sediada em terra firme.

Como sabes, este Blogue tem como finalidade o registo, na primeira pessoa, de memórias de ex-combatentes da Guiné. Depoimentos de pessoal da Marinha há relativamente poucos, uma vez que além dos camaradas Manuel Lema Santos e Pedro Lauret, ex-Imediatos da LFG Orion,  não me lembro de outras colaborações. Será que tu estás disposto a relembrar e a escrever sobre a actividade da Marinha de Guerra naquela terra de chão vermelho e águas turvas, especialmente sobre os nossos valorosos Fuzileiros?
Já agora, quero pedir-te que me esclareças o seguinte: referes Ganturé (Begene). Este Begene é algum local próximo de Ganturé ou quererás dizer Bigene? Vê as localizações nas respectivas Cartas, é só clicares em cima.

Para veres o que temos sobre o DFE 8 clica neste link.
Como podes verificar temos só 5 entradas pelo que tu poderás aumentar o registo de memórias da tua Unidade neste Blogue. Grande responsabilidade te propomos..

Disponibilizando-nos desde já para qualquer informação adicional, deixo-te, em nome da tertúlia e dos editores Luís Graça, Eduardo Magalhães Ribeiro e eu próprio, um abraço de boas-vindas.

O teu camarada e novo amigo
Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 8 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14850: Tabanca Grande (469): Tibério Borges, ex-Alf Mil Inf MA da CCAÇ 2726 (Cacine, Cameconde, Gadamael e Bedanda, 1970/72)

Guiné 63/74 - P14862: Agenda cultural (416): "Dinossauros de Portugal & Friends", de Simão Mateus...Lançamento, hoje, sábado, dia 11, às 16h00, na Lourinhã... A ciência ao alcance de todos, do neto ao avô, dos oito aos oitenta anos... Uma boa sugestão de leitura para estas férias de verão, completada com a visita ao Museu da Lourinhã, a antiga "terra da loba", hoje a orgulhosa "capital dos dinossauros" (Luís Graça).






Capa, índice e contracapa do livro "Dinossauros de Portugal & Friends", de Simão Mateus. Cortesia do autor.



1. Vai ser lançado hoje, sábado, dia 11, às 16h00, na Lourinhã, nas instalações da União das Juntas de  Freguesia de Lourinhã e Atalaia, mesmo junto ao Museu da Lourinhã, o livro "Dinossauros de Portugal & Friends", de Simão Mateus (ed. de autor, Lourinhã, 2015, 46 pp.).

Trata-se de uma edição bilingue. em português e inglês, com dezenas de belíssimas ilustrações (originais) do autor. A competente tradução para inglês é da luso-canadiana Sandra Fonseca,  amiga do autor, devidamente validada por um especialista . Foi feita uma tiragem de 1000 eemplares. O preço de capa, é 9 €. O livro pode ser adqurido em vários pontos do país, a começar pelo Museu da Lourinhã.

Participarão na sessão de apresentação, para falar do livro e do seu autor,  Luís Graça, Octávio Mateus,  Sandra Fonseca e e o próprio Simão Mateus.

É um livro original, extremamente acessível, de fácil leitura, destinado á população portuguesa (e aos que nos visitam, daí a edição bilingue), sobre alguns dos mais espectaculares dinossauros e outros aninais vertebrados fósseis (do crocodilo à tartaruga) que viveram em Portugal (, em especial na região da Estremadura, entre a Lourinhã e Leiria,)  há cerca de 150 milhões de anos, ou seja, no Jurássico Superior... (Bons tempos, porque houve uma altura em que ainda se podia ir a pé da Lourinhã a Nova Iorque!)...


Um exemplo da qualidade do texto e da ilustração, a pp. 27 (MATEUS, Simão . Os dinossauros de Portugal & Friends,  edição bilingue, português-inglês. Lourinhâ, ed. de autor, 2015, 46 pp).

Um livrinho, feito com rigor, criatividade, muito amor  e bom humor, ideal para se ler na praia, e que põe a ciência  (as ciências da vida e da terra) ao alcance de todos, do neto ao avô...

Simão Mateus é um jovem lourinhanense  talentoso e generoso, colaborador do Museu da Lourinhã, mestre em paleontologia pela Universidade Nova de Lisboa, com créditos firmados na ilustração científica e na escrita de livros, destinados sobretudo aos mais novos, sobre o mundo fascinante da paleontolagia e arqueologia,

Fica aqui um convite aos nossos leitores para passarem mais logo pela Lourinhã. Estarei lá também para participar na festa do lançamento deste livrinho que eu recomendo vivamente, aos leitores do nosso blogue, como  boa sugestão de leitura para as férias de verão. Ideal para se ler na praia ou até a esplanada enquanto se bebe uma bejeca e um simples copo de água e imaginando o mundo de há 150 milhões anos como um grande e dramático palco da vida onde o Homo sapiens sapiens pura e simplesnmente não existia, nem sequer como simples figurante... Os atores eram outros, LG

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Nota do editor:

Último poste da série > 7 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14842: Agenda cultural (413): Vimeiro, Lourinhã, 17 a 19 de julho: recriação histórica da batalha do Vimeiro (1808) e mercado oitocentista... Com apoio da, entre outros parceiros, Associação para a Memória da Batalha do Vimeiro (AMBV) (Eduardo Jorge Ferreira, ex-alf mil, PA, BA 12, Bissalanca, 1973/74)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14861: História da CART 3494 (8): O 1.º ano da CART 3494 no Xime (Janeiro de 1973 – mês de mais recordações) (Jorge Araújo)


1. O nosso camarada Jorge Araújo (ex-Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/1974), a seguinte mensagem com data de 3JUL2015, na continuação do poste P14749. 

Camaradas, 

Com este novo texto pretendi fazer uma pequena síntese ao que foram os primeiros quatrocentos dias [treze meses] passados no Aquartelamento do Xime pelo contingente da CART 3494, destacando o sentido das nossas diferentes missões/acções naquele contexto de elevado risco, e suas consequências, num tempo em que a esmagadora maioria do seu colectivo tinha 21/22 anos. 

Agora temos duas vezes mais. É a vida em movimento acelerado. 

A este propósito, aproveitei para referir mais alguns detalhes de outras ocorrências em que participámos, com um só objectivo: ampliar o quadro historiográfico da nossa passagem pelo CTIG. 


O 1.º ANO DA CART 3494 NO XIME

(JANEIRO DE 1973 – MÊS DE MAIS RECORDAÇÕES)

- As acções do PAIGC que antecederam o 1.º Aniversário -

1.- INTRODUÇÃO

Chegados ao Aquartelamento do Xime, na margem esquerda do Rio Geba, a 27JAN1972, depois de um mês de I.A.O. cumprido em Bolama, o contingente daCompanhia de Artilharia 3494 [CART 3494] aí permaneceria, como primeiro destino, até 03MAR1973, data em que, por estratégia militar, foi transferido para Mansambo por troca com a CART 3493, a segunda unidade operacional do BART 3873, esta por haver recebido “guia de marcha” para Cobumba, sito na Região do Cantanhez.

Durante os primeiros treze meses da sua missãoultramarina naquele contexto de elevado risco, certamente semelhante a tantos outros lugares espalhados pelo território do CTIG, forammuitas e diversificadas as ocorrências aí contabilizadas poreste colectivo metropolitano formado em Vila Nova de Gaia [RAP2], algumas de cariz excepcional, pela ausência de registos anteriores, levando-nos a classificá-las de experiências únicas e marcantes para o resto desta nossa passagem terrena [lá e cá], por nos suscitarem permanente apelo à natureza humana que tem como elemento fundante e filosófico o conceito de transcendência ou superação.

Foto 1. Cais do Xime - Jun/1972. Margem esquerda do Rio Geba, local carregado de simbolismo para a CART 3494. Aqui encostou, em 27JAN1972, vindo de Bolama, a LDG que transportou o contingente da CART 3494. Daqui saiu o Sintex com o grupo decatorze militares envolvidos naquele que ficou conhecido por «Naufrágio do Geba», em 10AGO1972, de que resultaram três mortos.

Foto 2. Xime - Ago/1972. Viagem de Sintex no Geba efectuada uma semana antes do «Naufrágio», onde o fenómeno «macaréu» é a sua maior armadilha. 

Se aceitarmos que a Guerra no CTIGuiné [como qualquer outra] tem uma dimensão macro, ou seja,uma totalidade cronológica globalizada através das suas práticas de treze anos consecutivos e circunscrita a um conjunto diferenciado de espaços físicos, logo o seu itinerário historiográfico acaba por ficar marcado pelas influências que a natureza da vida social encerra, pois o Ser Humano e a Sociedade não são seres estáticos, dela fazendo emergir distintas problemáticas resultantes das interacções estabelecidas entre os seus semelhantes.

O movimento permanente entre as escalas de mutações então verificadas [porque os fenómenos da guerra não são neutrais] foi evoluindo influenciado pelas acções [atitudes], pelo sentido das mesmas [objectivos, finalidades e políticas]e pelasformas de acção [individuais e colectivas]levadas à prática pelos seus actores durante cada um dos períodos de tempo em que actuaram, independentemente das hierarquias ou das suas posições no conflito, internas e/ou externas.

Porque nela participámos, e sabendo-se que é por via da descrição dos factos e feitos que ajudamos a fazer a sua história, o sentido da nossa acção tem sido quase exclusivamente de informante privilegiado, narrando na primeira pessoa as principais ocorrências ainda disponíveis na memória, todas com mais de quatro décadas [1972/1974], fazendo-as acompanhar, sempre que possível, com imagens com elas relacionadas, visando deixar testemunhos para os que nelas se venham a interessar - asgerações vindouras.

2.- AS PRINCIPAIS OCORRÊNCIAS DURANTE O 1.º ANO NO MATO

Tendo por cenário a situação geográfica do Aquartelamento do Xime [mapa 1], desde a sua chegada que o colectivo da CART 3494constatou que as suas principais missões/acções estavam relacionadas com o conceito de SEGURANÇA, tarefas prioritárias a incluir na agenda diária dos diferentes Grupos de Combate. 

A primeira, considerada «Rainha» no conjunto de todas as outras, teria de ser cumprida com o máximo rigor, uma vez que tínhamos de garantir a segurança possível em parte do troço que ligava o Xime a Bambadinca, por causa/efeito do tráfego rodoviário que aí ocorria, uma vez que a possibilidade mais exequível para chegar à capital [Bissau], ou desta ao extremo leste do território, de que são exemplos: Bafatá, Contuboel, Nova Lamego, Piche, Canquelifá, Paunca, Galomaro, Mansambo, Xitole, Saltinho, …, só poderia acontecer por via marítima [Rio Geba].

Porque o cais do Xime [foto 3] era utilizado diariamente, quer como ponto de chegada e/ou de partida, por onde circulavam semanalmentecentenas de militares e civis e uma vasta panóplia de produtos e equipamentos, este assumia-se como local político-militar-económico estratégico por excelência.

Foto 3. Cais do Xime – 1974. Imagem do camarada António Rodrigues [P14797], com a devida vénia, tirada do Aquartelamento do Xime. 

Para garantir a máxima segurança a todos os que dela necessitavam naquele troço, os milicianos da CART 3494 cumpriam essa missão diária entre as 07.00/07:30H até ao pôr-do-sol (ocaso) ou, em situações particulares, até que ficassem concluídas as actividades portuárias, no local designado por Ponta Coli, onde, por duas vezes, o grupo escalado foisurpreendido por bigrupos de guerrilheiros do PAIGC, em 22ABR1972 e 01DEC1972, daí resultando baixas de ambos os lados. 

Sobre estas duas ocorrências ver P9698 + P9802 + P12232 + P13494.

Outro tipo de segurança que realizávamosestava relacionada com a protecção às embarcações que navegavam no Geba, onde os GComb da CART 3494, algumas vezes reforçados por GComb da CCAÇ 12, percorriam os itinerários ícones do Xime, como sejam os exemplos de «Ponta Varela», «Medina Colhido», «Gundaguê Beafada» e «Poindon», em patrulhamentos ofensivos, montagem de emboscadas e outras missões/acções mais específicas, verificando-se em alguns deles contactos mas sem baixas nas NT, em oposição com o IN, destacando-se entre outros casos o de Mário Mendes, CMDT do PAIGC na zona, mortona Ponta Varela,em 25MAI1972.

Mapa 1. Zona Leste > Sector L1 > Xime: território onde, durante treze meses, os efectivos da CART 3494 desenvolveram a sua actividade operacional.

Como consequência do método utilizado neste conflito, classificado por «guerra de guerrilha», a estratégia do IN era esquivar-se ao contacto com as NT, optando por agir de surpresa, ora através de emboscadas ora por via de ataques ao(s)Aquartelamento(s) e Destacamento(s), realizados quase sempre à noite, recorrendo a armas pesadas [canhões sem recuo e morteiros 82].

Entre 19 Março e 25 de Novembro de 1972 [o último naquele ano] o Aquartelamentofoi atacado por oito vezes, A/D de Amedalai duas e o Destacamento do Enxalé uma vez, equivalente a uma média de um ataque por mês. Esta facilidade e a frequência com que o PAIGC passou a realizar, naquela época, os seus ataques contra as NT aquarteladas no Xime,eram resultado das condições objectivas de que dispunham, do ponto de vista da mobilidade, uma vez que os seus efectivos destacados na Zona [no Poindom, no Baio, Rio Buruntoni, na Ponta Luís Dias ou no Fiofioli], tinham total liberdade de circulação, bem como da gestão de toda a sua logística incluindo, entre outras, a construção de esconderijos para camuflagem do material pesado e o controlo da população aí residente, conforme se dá conta no mapa 2.

Mapa 2. Zona Leste > Sector L1 > Xime: o alvo de todos os ataques perpetrados pelo PAIGC. O território a Sul era percorrido com total liberdade pelos guerrilheiros, permitindo-lhes escolher, optar e/ou variar o local da colocação das suas armas pesadas, bem como definir a quantidade de munições a despejar e a duração temporal de cada um.

3.- AS ACÇÕES DO PAIGC QUE ANTECEDERAM O 1.º ANIVERSÁRIO

- Janeiro de 1973 – mês de mais recordações 

Janeiro de 1973 foi considerado um mês atípico, no contexto da CART 3494, pela relevância que alguns episódios tiveram no seu quotidiano. Desde logo por tratar-se do primeiro mês de um novo ano, aquele que poderia bem ser o do regresso… mas não foi. Depois, porque em 27JAN1973comemorava-se o 1.º Aniversário da presença do seu contingente no Xime, encerrando-se este ciclo temporal de vivências no mato com quatro baixas mortais [uma em combate e três por afogamento no Geba], números que felizmente se mantiveram até final da comissão.

Em complemento ao acima referido, os guerrilheiros do PAIGC em actividade na Zona fizeram questão de contribuírem como mais alguns eventos, adicionando-lhes mais três ataques ao Aquartelamento, respectivamente, em 17, 24 e 29.

Ainda mais relevante foi o facto de em 20JAN1973, Amílcar Cabral,principal líder do PAIGC, ter sido assassinado por dois membros do seu próprio partido, em Conacri.

A História do BART 3873 a eles se refere nos seguintes termos:

9.º Fascículo – Janeiro/1973

67. Inimigo

d) Subsector do Xime

- Nos dias 17 às 21H05, 24 às 18H38 e 29 às 19H40, o XIME sofreu sucessivamente 03 flagelações, por grupos não calculados que empregaram canhão S/R e morteiro 82. Não há a contar danos pessoais ou materiais em qualquer delas.

e) Conclusões

- É arriscado concluir-se se as flagelações ao XIME a 24 e 29 são ou não resultado da directiva emanada dos elementos preponderantes do Partido, reunidos em CONAKRI e referida no n.º 65, após a morte do seu SECRETÁRIO-GERAL, no dia 20 do corrente mês [pp 93-94].

3.1 – OS ATAQUES DE 24JAN1973 

Em 24JAN1973, uma 4.ª feira, a actividade interna e a operacional estavam, como sempre, a serem cumpridas de acordo com o programado. Por via da minha função de «sargento de dia», naquela ocasião cabia-me responder pelas primeiras – as internas, nomeadamenteno controlo da distribuição de água pelos diferentes depósitos e abrigos, refeições, distribuição de correio e postos de vigia, e outras tarefas menores.

Por volta da hora do almoço, uma mensagem era recebida no emissor/receptor de Transmissões do Quartel do Xime, dando conta que um barco civil estava a ser atacado pelo PAIGC, na confluência entre o Corubal e o Geba, flagelação realizada da margem da Ponta Varela, mas sem consequências. 

Mais tarde, à hora habitual, ou seja, por volta das 18:30H, deslocámo-nos para o refeitório dos praças [foto 4] com o objectivo de supervisionar a distribuição do jantar, confeccionado pelos nossos mestres de restauração, o João Machado e o João Torres.Aementa era sopa de [?] e «arroz de estilhaços», de uma vaca que fora esquartejada no nosso centro de abate [foto 5].

Foto 4. Xime – 1972. Refeitório dos praças.

Foto 5. Xime – 1972. Espaço entre o refeitório e a cozinha [barraco de chapas], onde se fazia, de dois em dois dias, o abate dos animais para a alimentação. 

Iniciada a refeição, e quando nada fazia prever, os discos de inox, com o arroz de estilhaços no seu interior, transformaram-se em discos voadores circulando em vários sentidos.Estávamos a ser atacados com armas ligeiras [kalashnikov’s], para nosso espanto, ali tão perto [mapa 3], fazendo subir numa curta fracção de tempo a adrenalina daquele colectivo.

Ao grito inicial de «os gajos estão cá dentro…», eis que nos transformámos em gazelas do mato [imagem simbólica] saindo do refeitório, completamente desprotegidos, em direcção aos diferentes abrigos para podermos comunicar na mesma linguagem – a militar.

Os camaradas artilheiros do 20.º Pelotão de Artilharia, sedeado no Xime, fizeram naquele contexto e uma vez mais o seu competente trabalho, ajudando-nos a ultrapassar aqueles momentos muito especiais e de grande tensão.

Mapa 3. Zona Leste > Sector L1 > Aquartelamento do Xime. Legenda relacionada com o ataque de armas ligeiras em 24JAN1973.

Lentamente as armas dos dois lados foram-se calando.Mas mais estava ainda para acontecer. Algum tempo depois entrava em acção ohabitual armamento pesado IN [canhão sem recuo e morteiro 82] prolongando por mais quinze minutos o combate.Caladas definitivamente as armas ligeiras e pesadas de ambos os lados, e sem consequências para as NT, o alerta manteve-se até ao início da manhã seguinte, altura em que foi efectuado o reconhecimento à zona a cargo do GComb de serviço.

Constatámos que o arame farpado onde se tinham emboscado os guerrilheiros, não mais de cinco, posicionados no enfiamento da padaria do Fialho [o nosso especialista de panificação que nos servia, quando em serviço nocturno, uns casqueiros saídos do forno besuntados com manteiga acompanhados de um balde de água escura, vulgo café] estava cortado, existindo no terreno circunvolvente muitas dezenas de invólucros das suas armas. 

Foi também localizado um guerrilheiro ferido com gravidade. Transportado para a enfermaria aí foi tratado com toda a dignidade, até à sua evacuação para Bissau, pelo meu/nosso camarada ex-Furriel Enfº. Carvalhido da Ponte. A certa altura perguntei-lhe se queria comer? A sua resposta foi positiva. Trouxe-lhe, então, uma terrina de batatas cozidas [o acompanhamento do almoço daquele dia] tendo ingerido uma dúzia de metades, até que chegou o Heli e o levou para o Hospital Militar.

Nunca mais soubemos o que lhe aconteceu… morreu ou sobreviveu?

Foto 6. Xime – Jun/1972. O edifício da imagem, da esqª/dtª, refere-se ao bar dos praças, arrecadação de géneros e à enfermaria [porta + janela]. Na rectaguarda desta estava situado o refeitório [foto 4]. 

As árvores à esquerda sinalizavam as paragens obrigatóriaspois serviam de sombra aos camaradas de outras unidades que nos visitavam, nomeadamente aqueles que faziam segurança às colunas que se deslocavam ao Cais, e que aproveitavam estas ocasiões para matar a sede…

Cinco dias depois da tríade de ocorrências no mesmo dia, ou seja, em 29JAN1973, 2.ª feira, por volta das 20:00H, um novo ataque ao Aquartelamento do Xime foi perpetrado pelo PAIGC, agora sem a ousadia anterior, tendo recorrido somente à utilização de armas pesadas: canhão sem recuo e morteiro 82, mas sem consequências, uma vez que todas as granadas caíram no exterior do perímetro do aquartelamento.

Ainda na mesma semana, no sábado dia 03FEV1973, realizaria a minha última missão/acção no Xime, ao participar na Operação «Guarida 18» [P13839 + P13844].

Nove dias depois deste episódio, ou quinze dias após o último ataque, eis que em 12FEV1973, 2.ª feira, o quartel da CART 3494 voltaria a ser atacado durante os quinze minutos da praxe com as mesmas armas pesadas: 2 canhões sem recuo e morteiros 82, igualmente sem consequências, ficando este na história como o derradeiro ataque contabilizado no período em que estivemos aquartelados no Xime.

Eis mais um pequeno contributo historiográfico da presença do contingente da CART 3494 no CTIGuiné.

Com um forte abraço de amizade.
Jorge Araújo.
Fur Mil Op Esp / Ranger, CART 3494
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Nota de M.R.: 

Vd. Também o último poste desta série em: 


Guiné 63/74 - P14860: Efemérides (195): Os 50 anos da partida, para o CTIG, da madeirense CCAÇ 1439 (Enxalé, 1965/67), celebrados no Funchal, em Faro... e no Porto Dinheiro, Lourinhã (João Crísóstomo / Eduardo Ferreira)




Portugal > Região Aiutónoma da Madeira > Funchal > Julho de 2015 > Pessoal da CCAÇ 1439, uma companhia toda madeirense (com exceção dos graduados e especialistas; o Frettas era o único alferes madeirense> "Orlando Vieira; Antonino Freitas, Gabriel Gomes Garanito; José Manuel Mota Barbosa; João Baptista de Nóbrega; José Honorato Silva; Danilo Peneta; José Manuel Gouveia Fernandes; Heliodoro Freitas Branco e eu, junto com minha esposa,Vilma Kracun (agora também Crisóstomo há dois anos e picos!…)"



Algarve > Faro > Julho de 2015 >  "Vilma e eu encontrmo-nos com o Chico, Henrique Matos, Teixeira e Viegas".

[Recorde-se que o Henrique Matos, açoriano a viver bo Algarve,  foi alf mil, cmdt do Pel Caç Nat 52 (Enxalé, 1966/68),e que o  José António Viegas, algarvio, foi fur mil do Pel Caç Nat 54 (Enxalé e Ilha das Galinhas, 1966/68). Ambos são membros da nossa Tabanca Grande].


Fotos (e legendas) : © João Crisóstomo  (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. Imagens enviadas pelo João Crisóstomo, o nosso grã-tabanqueiro mais famoso de Nova Iorque... Está de férias, com a sua simpatiquíssima esposa, de origem eslovena Vilma.

Recorde-se alguns dados sobre o João:

 (i) é natural de A-dos-Cunhados, Torres Vedras; 

(ii) foi alf mil, na CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole, Missirá, 1965/66); 

(iii) vive em Nova Iorque desde 1975, onde foi mordomo, de gente ilustre, rica e influente, até ao início de 2015 (reformou-se agora); 

(iv) é um mediático ativista comunitário, tendo estado ligado à defesa de três causas que tiveram repercussão internacional e que nos dizem muito, a nós, portugueses (gravuras de Foz Coa, independência de Timor Leste e memória de Aristides Sousa Mendes); 

(v) foi um dos fundadores do "Luso-American Movement for East Timor Autodetermination" (LAMETA); e, não menos importante, 

(vi) é casado em segundas núpcias com a nossa muito querida amiga Vilma [, Kracun], natural de  Brestanica, Eslovénia] e, por fim, 



As fotos acima são para "lembrar e reviver" os 50 anos da partida da CCAÇ 1439 para o TO da Guiné, em 2 de agosto de 1965.  O João e a Vilma estiveram há dias na Madeira e estão hoje no Algarve.  No próximo domingo vão estar com os grã-banqueiros do litoral estremenho, e nomeadamente com o Horácio Fernandes (e esposa Milita, que estão a passar férias em Peniche; o casal vive habitualmente no Porto); Luis Graça, Alice Carneiro e João Graça; Eduardo Jorge Ferreira (e esposa, a São, que viveu em Bissau, o pao era dos CTT); o ex-furriel Lopes (, do pelotão do João que vem de Lisboa, com a filha)... Vem ainda um casal-surpresa... O Beja Santos não pode vir, tem a festa dos tabuleiros, domingo, na sua nova terra, que é Tomar.

O mordomo desta vez, ou mais uma vez, é o  Eduardo Jorge Ferreira, que joga em casa e tratou das caldeiradas para 12 ou 13. É no Porto Dinheirom, Lourinhã, domingo, dia 12, por volta das 13h.

Ontem o João escreveu-nos, a ele e a mium;

(...) Neste momento estou em Faro, numa esplanada , esperando alguns dos nossos colegas, ( Henrique Matos, Teixeira, Chico e Viegas)… Não pode ser doutra maneira, mas a quantos posso,  não posso deixar de dar um grande abraço, a melhor maneira ao meu alcance de mostrar a amizade que nos une como irmãos.

"[Quanto à caldeirada em Porto Dinheiro, no domingo, dia 12], tenho uma adição a fazer: o Lopes, furriel do meu pelotão (CCaç 1439) a quem não vejo há dezenas de anos e que agora, graças ao Freitas,  consegui contactar... Vem (com sua filha) de Lisboa para estar connosco neste momento tão grande para todos nós".

O Horácio Fernandes [ex-alf mil, capelão, BART 1913, Catió, 1967/69, e BCAÇ 2852, Bambadinca, 1969] foi e é um grande amigo de infância do João Crisóstomo,,,




Lourinhã > Ribamar > Praia do Porto Dinheiro > Restaurante O Viveiro > Tomem boa nota: o restaurante O Viveiro, de Henrique e Cristina Silvério, telef. + 261 422 197... Escrevi eu em 28/6/2012; "Uma caldeirada que enche o corpo e a alma, diria o nosso gourmet Eça de Queirós, quer dizer satisfaz os seis sentidos: gosto, tato, olfato, vista e ouvido (comida ao som do mar)... além do pecado da gula!"...  O mestre de cerimónias, no domingo, dia 12 do corrente, vai ser o senhor professor Eduardo Jorge Ferreira, como é conhecido nestas terras de gente brava, que é a freguesia de Ribamar, Lourinhã, e que noutras encarnações foi combatente e herói da batalha do Vimeiro (21 de agosto de 1808) e alferes miliciano da Polícia Aérea, Guiné, Bissalanca, BA 12, 1973/74. 

Fotos (e legendas) : © João Crisóstomo (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


2. Por sua vez. o Eduardo Jorge Ferreira, ex-alf mil PA [, Bissalanca, BA 12, 1973/74], e também membro da nossa Tabanca Grande, é natural do Vimeiro, mas mora em A-dos-Cunhados. É o mestre de cerimónia deste encontro,,,

Esccreveu-nos ele, a mim, ao João e ao Horácio,  esta madrugada, às 1h52:

Meus caros: Já é tarde mas só agora tive a opurtunidade de ler a correspondência e passo a responder. Folgo muito em saber que os meus amigos estão todos bem dispostos, com as agendas bem preenchidas e isso é que é importante.

Pois, como disse o Luís, eu ando numa roda viva, assim como as restantes forças vivas do Vimeiro e algumas da Lourinhã, a preparar o fim de semana de 17, 18 e 19 para que as comemorações da Batalha do Vimeiro e o mercado oitocentista decorram a preceito. 

Vou apenas tirar duas folgas - a manhã e parte da tarde de hoje para ir ao Montejunto conviverver com muitos amigos, a pretexto da etapa de ciclismo do Grande Prémio Joaquim Agostinho que ali vai ter uma passagem e no final a meta e para estar com muita alegria e amizade convosco no domingo a pretexto de uma caldeirada no mesmo restaurante de há anos atrás.

Está tudo combinado, falei com o João, aliás foi ele que marcou a data, com o Luís e com o Horácio e já reservei a mesa e encomendei a ementa, só faltava mesmo o número de pessoas.

Pelas vossas palavras deduzo que somos 11 - eu e a São, João e Vilma, Luís, Alice e o filho João, Horácio e Milita, o Lopes (furriel do pelotão do João) e a filha. Podemos ser 12 ou mais se o Beja Santos vier também pelo que fico a aguardar a sua resposta.

O almoço está marcado para as 13h00 mas nada impede que lá estejamos um pouco antes para se pôr a prosa em dia.




Montejunto > 38º Grande Prémio Internacional de Torres Vedras e Troféu Joaquim Agostinho > 10 de julho de 2015 > "Isto é que é qualidade de vida!"

Foto (e legenda) : © Eduardo Jorge Ferreira (2015). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]



A propósito da ida ao Montejunto,  gostaria de vos levar lá de uma próxima vez. Para além da beleza natural, das vistas maravilhosas e bem extensas (desde o Tejo,à concha de S.Martinho, ao sítio da Nazaré, à serra de Sintra e de Peniche à Berlenga) há o convívio com centenas de pessoas que lá vão fazer uma autentica romaria, com o bom vinho e petiscos que levam para fazer lá. Vejam bem que até o restaurante Braga [, do Vimeiro,] há uns anos a esta parte desloca para lá mesas e cadeiras, o barril da imperial, um lanche a meio da manhã e o almoço à maneira (feijoada, ou mão de vaca, carne assada e outros pratos), café e digestivos - tudo por um preço bem módico.. O pessoal entretem-se na conversa, a passear pela serra, a apanhar oregãos, a jogar à sueca, a petiscar e depois, claro, vè-se os ciclistas [do troféu Joaquim Agostinho] a passar, bem devagarinho que a serra é dura..

Um grande abraço a todos,  Eduardo

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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14854: Efemérides (194): No passado dia 20 de Junho, em São Miguel, foram inauguradas as obras de conservação e renovação do Museu Militar Militar dos Açores e impostas ao nosso camarada Carlos Cordeiro, a Medalha Comemorativa das Campanhas e a Medalha de Cobre de Comportamento Exemplar (José Câmara)

Guiné 63/74 - P14859: Notas de leitura (735): “Guerra d’África, 1961-1974, Estava a guerra perdida?”, por Humberto Nuno de Oliveira e João José Brandão Ferreira, Fronteira do Caos, 2015 (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Junho de 2015:

Queridos amigos,
Voltemos à questão dita fraturante da guerra colonial que estaria perdida, ganha ou controlada.
Como se sabe, é um dos arremessos e pontos de honra dos nacionalistas radicais, que alegam ter havido traição, e com a retirada emergiram dramas sem conta a juntar a guerras civis extremamente sanguinárias, caos económico, tratamento iníquo com aqueles que tinham sido fiéis à bandeira portuguesa.
Todas estas tiradas emocionais de vez em quando passam a escrito, estamos diante de autores impreparados, aqui até se diz que Amílcar Cabral era mestiço e que fundou um partido em 1952 (deve ter sido por via digital, antes de chegar à Guiné nessa data, onde procedeu ao recenseamento agrícola com a mulher...).
Antes de vociferarem, leiam o livro de uma ponta à outra, é preciso abonar a idoneidade destes novos fanáticos, que nem à guerra foram.

Um abraço do
Mário


Mitos e enganos sobre o fim do Império Colonial português (1)

Beja Santos

Entre as chamadas questões fraturantes da sociedade portuguesa, o fim do Império Colonial português e a descolonização subsequente têm um peso desmesurado, entrechocam-se fatores emocionais, ideológicos e político-culturais por vezes extremados. Há os que pretendem alegar que o MFA, movido por uma questão corporativa, arrastou, de colaboração com forças da esquerda e esquerdistas, o país para negociações precipitadas e um abandono desalmado do que consideram apelar das nossas províncias ultramarinas. Este grupo, se bem que minoritário, porque constituído por nacionalistas-radicais que até desprezam a direita euro-satisfeita, argumenta que os teatros de operações ainda possuíam sustentabilidade, houve traição no abandono do Império que não era de pura exploração económica, que tratava muito bem os autóctones, esses descolonizadores foram os responsáveis diretos por guerras civis, assassinatos bárbaros e catástrofes económicas que se seguiram à retirada dos portugueses. Há, por seu turno, os que procuram estudar a guerra no contexto da situação internacional do seu tempo, acompanhando a evolução das elites africanas e a formação dos movimentos de libertação, dissecando as peculiaridades de cada um dos teatros de operações, o armamento e sustento, o comportamento da insurreição e da contrainsurreição, procurando descodificar o estado desses teatros de operações nomeadamente a partir de 1973. Foram precisas décadas depois da quebra do regime ditatorial para se conhecer como Marcello Caetano procurou negociar o cessar-fogo e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau e acirrou vários responsáveis para instaurar independências brancas em Angola e Moçambique. Pelo caminho, desvelou-se que o teatro guineense caminhava para o caos, perdera-se a iniciativa, a guerrilha possuía um armamento incomparável e o reconhecimento do Estado da Guiné-Bissau estava a preparar cenários que anteviam a humilhação das forças portuguesas. E estamos nisto, são pontos de vista irredutíveis.

É na sequência desta escrita dogmática dos nacionalistas radicais que se deve entender o livro “Guerra d’África, 1961-1974, Estava a guerra perdida?”, prefácio de Jaime Nogueira Pinto, por Humberto Nuno de Oliveira e João José Brandão Ferreira, Fronteira do Caos, 2015.

Jaime Nogueira Pinto que já escreveu a dizer que depois de muita reflexão descobrira que uma mais justa solução para a descolonização não andaria muito longe daquela que se viveu entre 1974 e 1975, vem agora exaltar esta iniciativa e até com inocência diz uma bojarda: “Até ao 25 de Abril de 1974, nunca se registou um caso de uma povoação ou um aquartelamento importante que tivesse sido tomado ou ocupado pelo inimigo”.

Trata-se de uma investigação sem contraditório, as duas premissas já trazem a conclusão, e descurando regras elementares da lógica dos textos, o leitor vai ter que suportar uma resposta detalhada, ainda que redigida na maior das indigências argumentativas aos comentários de dois coronéis a propósito de um seminário que ocorreu em Abril de 2012 no Instituto de Estudos Superiores Militares. Os ditos coronéis ter-se-ão insurgido a uma frase que no seu todo era falaciosa: “A situação nos três teatros está controlada pelas Forças Armadas portuguesas e era sustentável em termos militares”. Nunca se viu dar réplica num livro sem publicar o texto original. Um dos autores revela a sua compulsão em se falar de guerra colonial quando na verdade o que houve foi guerra em África, pelo caminho faz comparações terminológicas com guerra do ultramar e guerra de libertação, e tem uma saída para a designação de Guerra de África que ultrapassa o delírio: “A designação apresenta vantagens de caráter historiográfico. Na realidade, não existindo nenhum outro momento na História de Portugal, desde 1415, que designemos por Guerra de África parece, pois evidente que nenhuma outra classificação que lhe assenta de modo tão objetivo, claro e abrangente”.

É pena os autores não terem tido tempo para estudar a fundo a nossa gloriosa presença em África. Caso da Guiné, por exemplo, onde aportámos em meados do século XV e cuja independência, em 1974, irá marcar o fim do Império. Essa presença, até ao século XIX, confinava-se a praças, feitorias e presídios, uma meia-dúzia, pagando tributo de arrendamento. Fomos cedendo a Senegâmbia aos franceses e ingleses, a atual Guiné, que decorre da Convenção Luso-Francesa de 1886 acabou por ser um enclave no protetorado do Futa Djalon. Nas constituições portuguesas do século XIX nunca se fala na Guiné, fala-se me “Bissau e Cacheu”. Em simultâneo com o fim do tráfico dos escravos, móbil comercial dominante da presença portuguesa, assomam conflitos brutais entre Fulas e outros grupos, e como não havia ocupação portuguesa no interior as guarnições militares viram-se confrontadas com sucessivas guerras, não vale a pena enumerá-las, foram muitas. A acalmia só chegou com as campanhas militares do capitão Teixeira Pinto, de 1913-1915. A situação muda radicalmente com a chegada de Sarmento Rodrigues, ele aspirou transformar a Guiné numa colónia-modelo e teve sucesso. A economia da região era dominada por duas grandes empresas, a CUF e a Ultramarina, pertencente ao Banco Nacional Ultramarino. De Teixeira Pinto em diante, formaram-se alianças, conseguiram-se neutralidades. Se os autores se tivessem decidido a estudar a guerra da Guiné a fundo, teriam descoberto que ao longo de 1962 a insurreição abateu-se no Sul e quando em Janeiro de 1963 começou a luta armada, a posição portuguesa tornou-se periclitante, e assim foi até ao fim da guerra. Mas são coisas que os fanáticos pretendem iludir, exploram as emoções daqueles combatentes que viveram noutros cenários de guerra e que se deixam embalar por estas meias-verdades de que havia sustentabilidade para continuar o esforço de guerra, o que se passou foi a tal traição dos oficiais mancomunados com as forças de esquerda e esquerdistas. Como o livro é uma manta de retalhos, aproveitando até textos elaborados com outros propósitos, apanhamos com as acusações à retirada de Guileje. O autor não esconde o seu espírito onzeneiro: “O comandante do COP 5 (major Coutinho e Lima) voltou ao quartel apenas para saber pelos seus subordinados – em quem segundo o jornal da caserna não tinha grande comandamento – que o último ataque sofrido tinha destruído o posto de rádio e parte da artilharia. A retirada fez-se nessa noite, sendo feita em boa ordem de marcha e com todos os cerca e 500 elementos da população” e daí a questão sibilina: “Até que ponto haveria ação subversiva feita por eventuais infiltrados simpatizantes, idos da Metrópole?”.

Segue-se o documento do comando-chefe, reunião dos comandos de 15 de Maio de 1973, não há nenhum blogue que não tenha já reproduzido, mas dá para encher 60 páginas do livro.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14840: Notas de leitura (734): A Guiné Portuguesa em 1928: Segundo o anuário da Escola Superior Colonial de 1929 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P14858: (De)caras (23): José António Canoa Nogueira (1942-1965), natural da Lourinhã, sold Pel Mort 942... Não morreu em Ganjola, mas numa operação para a instalação das NT em Cufar, da qual também fiz parte... Estranhamente tinha por alcunha o "Bombarral"... (João Sacôto, ex-alf mil inf, CCAÇ 617 / BCAÇ 619, Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66)






Lourinhã > Cemitério local > 6 de maio de2012 > Lápide funerária referente ao José António Canoa Nogueira (1942-1965), o primeiro militar lourinhanense a morrer em terras da Guiné, em 23/1/1965... Era sold ap mort Pel Mort 942 / BCAÇ 619 (Catió, 1964/66).

Era meu primo, em terceiro grau, pelo meu lado materno. Foram vinte os meus conterrâneos, mortos na guerra do ultramar. O seu funeral, três meses e meio depois, tocou-me muito. Tinha 18 anos e na altura, eu era o redactor-chefe do quinzenário regionalista "Alvorada"... E devo ter publicado uma das últimas cartas que ele escreveu (datada de Ganjola, 10/1/1965, e dirigida ao diretor do jornal). Sempre pensei que tivesse morrido nalgum ataque ao destacamento de Ganjola,

Os seus restos mortais estão em jazigo de família, não no novo talhão criado para os antigos comabtentes (I Guerra Mnudial e Guerra Colonial).

Fotos (e legendas): © Luis Graça (2012) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


1. Trocando emails,  há dias, com o João Sacôto sobre Ganjola, destacamento de Catió (*), vim a a tomar conhecimento de factos novos, que eu desconhecia, sobre as circunstâncias da morte  do meu primo, mais velho do que eu cinco anos, José António Canoa Nogueira (1942-1965), o primeiro lourinhanense a tombar em combate na Guiné...

Prometi ao João publicar um poste sobre o assunto... Também lhe disse que achava   estranho  o facto do Canoa Nogueira ter a alcunha de "Bombarral" (já que ele era natural da Lourinhã, concelho vizinho...) ,Em contrapartida,  o  João Fernandes Almeida, soldado do pelotão do João Sacôto, tinha por alcunha o "Lourinhã"...

Aqui vai a nossa troca de mensagens. (Também vim a descobrir que o João Sacôto andou na aviação comercial e foi comandante da TAP, além de ter ligações, afetivas, com a minha terra!... Na realidade, o Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande!).


2. Mensagem do João Sacôto, de 30 de junho e de 1 de julho de 2015:


[foto à esquerda, João Sacôto, ex-alf mil da CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66), em  Ganjola, 1965, tendo por detrás a LDM 309, a manobrar para atracar;  João Gabriel Sacôto Fernandes,  que tinha já a frequência da licenciatura em ciências ecoonómico- financeiras  do ISCEF, hoje, ISEG,  (que não completou depois de vir da Guiné), foi piloto da aviação comercial e comandante da TAP, estando hoje reformado]


(i) Quanto ao teu primo José António Canoa Nogueira (1942-1965), natural da Lourinhã, sold do pelotão de morteiros 942 do BCaç 619, com sede em Catió, que tinha por alcunha o "Bombarral" e era muito amigo de um soldado do meu pelotão, o João Fernandes Almeida, alcunha o "Lourinhã", não morreu em Ganjola, mas sim, em combate, numa das operações para a instalação das NT em Cufar, da qual também fiz parte (CCaç 617) numa altura em que, estando a municiar o morteiro, saiu do abrigo para ir buscar granadas, foi atingido, na cabeça, por um estilhaço de granada do IN.

Ainda foi evacuado por helicóptero mas infelizmente, não sobreviveu aos ferimentos.

Sei também que se encontra sepultado no cemitério da Lourinhã, num talhão próprio de antigos combatentes, mortos em combate.

(ii) Realmente também achei estranho, sendo o Canoa da Lourinhã, ter a alcunha de "Bombarral". Acabei de ter o esclarecimento por telefone com o João Almeida (o "Lourinhã"): entre o pessoal havia, por vezes,  a tendência de gozarem com o pessoal da Lourinhã, velhas estórias que conhecerás.  Daí, o Canoa ter feito crer que era do Bombarral e não da Lourinhã, para não ser chateado. 

O João Almeida que era um grande amigo do Canoa, brincava, na altura, dizendo que ele era o "Lourinhã", muito embora não fosse exactamente de lá, da vila, mas sim de uma aldeia do concelho, ao passo que o Canoa,  sendo mesmo da Lourinhã. não tinha essa alcunha mas sim a de "Bombarral". (**)


3. Resposta de LG, com data de 1/7/2015:

Obrigado, João,  pelos teus completíssimos esclarecimentos... Tenho que descobrir o paradeiro do Almeida... Vou todos os fins de semana à Lourinhã... A tua explicação faz todo o sentido: na época a malta do norte (, mesmo sem saber de geografia...)  tinha uma expressão curiosa: "Mas tu julgas que eu sou da Lourinhã?!"... Ou seja: não me tomes por parvo!...

A terra era sinónimo de gente parva por causa da história da loba (que remonta aos anos 30) ... Confundiram uma loba da Alsácia, de uma quinta das vizinhanças (Quinta do Perdigão)  com uma loba selvagem que andaria a dizimar os galinheiros do pessoal e a espalhar o terror (na Lourinhã e no Bombarral)...

Chegaram a pedir a intervenção militar, os parolos!... Feita uma batida, o animal foi morto e levado em triunfo para um pátio camarário (onde é hoje o museu da Lourinhã, dedicado aos dinossauros), e até a banda local veio para a rua, a  tocar festivamente...

Um chico esperto qualquer lembrou-se inclusive de cobrar dinheiro aos mirones que, de longe e de perto, se deslocaram vere o bicho... Quando foi descoberto o engano, a Lourinhã passou a ser conhecida, depreciativamente, como a "terra da loba"... E a banda filarmónica como a "banda do toca ao bicho"... Dois insultos juntos para as gentes da mesma terra!...

Enfim, os vizinhos de Peniche também têm a história dos "amigos de Peniche", expressão depreciativa (que remonta a 1580 e ao prior do Crato, um dos pretendentes ao trono), os Rio Maior, mais acima,  têm a história do "leão de Rio Maior", os de Pombal , no distrito de Leiria,  não gostam que a gente diga que vai "ao" Pombal... (Tal como em Cuba, no Alentejo,  nunca digas que vais a Cuba, mas sim "à" Cuba)... Enfim, histórias da nossa terra e suscetibilidades das gentes de cada terra... 

Eu, quando era puto, também não  gostava nada de dizer aos de fora que era da Lourinhã, com medo de ser gozado... Hoje, a Lourinhã é orgulhosamente a "capital dosdinossauros" (e o seu museu merece uma visita, se lá fores apita...). Enfim, a história da loba só ficou na memória dos mais antigos... Mas nos anos 60 estava ainda muito viva... 

E tudo isto a propósito do infeliz camarada (e primo) Canoa Nogueira. Coitado do Nogueira, era um rapaz simples e bom!... Fui eu que lhe fiz a notícia necrológica, na altura era o redator principal do jornal local, o "Alvorada"...

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(**) Último poste da série > 29 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14810: (De)caras (22): Quando os autocarros (de Bafatá e de Gabu) chegavam ao porto fluvial do Xime com população e até com provocadores, simpatizantes do PAIGC... Um dia, já depois do 25 de abril, ía havendo uma tragédia: estava eu a montar segurança na Ponta Coli e os meus homens, fulas, quiseram fazer fogo de bazuca, em resposta às provocações da malta do autocarro (António Manuel Sucena Rodrgues, um dos últimos guerreiros do império, ex-fur mil, CCAÇ 12, Xime, 1973/74)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14857: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (V Parte): Brá, SPM 0418

1. Parte V de "Guiné, Ir e Voltar", enviado no dia 5 de Julho de 2015, pelo nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489 (Cuntima), e Comando do 2.º curso de Comandos do CTIG (Brá), CMDT do Grupo Diabólicos (1965/67).


GUINÉ, IR E VOLTAR - V

Brá, SPM 04181

Inferno na mata em frente a Brá. O sol queimava ainda não eram 9 da manhã.
Quicos à legionário pelo pescoço abaixo, trinta e tal tipos desapareciam pelo chão.
A cento e tal metros, Saraiva, Miranda, Moita, Mário Dias e outros, estrategicamente colocados, vigiavam-lhes os movimentos.
Um rabo mais levantado, pau pau nos troncos das palmeiras. Aqueles filhos da puta quase que me acertavam, viste? Cuidado com os gajos, pá! E vim eu de Guileje, grita o Vilaça! Pau pau, para o gajo que piou. Sai, sai daí, Vilaça, os tipos agora não te largam! Saio como, pá? Que merda!

Mata em frente a Brá

Quico a espreitar por um lado da palmeira, pau pau, outra vez no tronco.
Vão ali dois gagos aos esses, não os largue, assape-lhes, o Saraiva para um dos outros. Projécteis a bater no chão, lascas da terra a saltar, buum buum, granadas ofensivas a cair-lhes aos lados.
Olhos a cuspirem ódio no meio da poeirada. Estes cabrões não me largam! Um dos desesperados, localiza a palmeira onde se abrigava o capitão. Levanta suavemente o cano da G3 e tira a folga ao gatilho lentamente até a bala ir por ali fora e desaparecer no tronco, a pouco mais de dois metros do chão, talvez.
Um silêncio a durar minutos, ninguém se mexia.
Estão à espera de quê, meninas? Nada, nem um pio.

Tinha acabado de jantar no hotel Portugal com o Toni, com quem matara saudades do Porto. O Toni Ramalho tocava no conjunto do Toni Hernandez que fizera e ainda fazia furor entre a malta nova, a animar as festas em Santo Tirso, Riba d’Ave, Vizela, Guimarães, um pouco por todo o Norte. Viera de férias, e claro, falava da metrópole. Ora então, Toni, abre lá!

Hotel Portugal, Bissau

Com os olhos brilhantes, ouvira-o cantarolar o "Calhambeque" e "E que tudo o mais vá pró inferno", do Roberto Carlos, Love me Tender do Elvis the Pelvis, a Sylvie Vartan, pá, o Johnny Holliday, Les garçons et les filles da Françoise Hardy, já ouviste? Les Quattre-cents coups, grande filme do Truffaut! Qual filme de guerra, pá, é a história de um miúdo, de 14 ou 15 anos para aí, que passa a vida no desenrascanço, os pais não querem saber dele, passa a vida a golpar para ir ao cinema. Duas horas para aí, sempre a ouvir!

O curso de comandos chegara ao fim. Segunda-feiraeira começava a preparação dos novos grupos. Os nomes já estavam escolhidos, os Centuriões herdavam os sobreviventes dos Fantasmas do Saraiva, os Apaches os dos Camaleões do Godinho, os Vampiros o 4.º grupo que não existia anteriormente e os Diabólicos ficavam com o pessoal dos Panteras do tenente Pombo.
Quatro semanas cheias, com muita emoção, actividade física até mais sim, andar na mata de noite e de dia como deve ser, aprender a assobiar de noite, como pôr a arma a olhar, tentar distinguir os sons à noite e de dia, ligar disparos a armas, sentir ricochetes, chicotadas altas e baixas, projécteis a bater nas árvores, exercícios, repete, outra vez, táctica no terreno, sempre com fogo real. Trabalho nocturno todas as noites, granadas a toda a hora e em todo o lado, até debaixo da almofada da cama, montagem e desmontagem de minas e armadilhas, travessia de bolanhas, tiro de todas as posições, instintivo para alvos móveis, tiro-a-tiro, rajadas curtas de 3 a 5, disposição para emboscadas e golpes de mão, uso e manutenção dos rádios AN PRC/10, AVF, Hitachi, National, prática de primeiros socorros, injecções nas veias, intramusculares, intradérmicas até.
Nos intervalos da instrução no mato faziam por praticar uma alimentação rica em proteínas. Pão, se tivessem, e se não tivessem mais nada que se desenrascassem, que arranjassem na natureza. Apanhavam moscas e gafanhotos, tiravam-lhes as asas, pão fechado depressa, para aproveitar tudo.
As tribos da Guiné, Fulas, Balantas, Mandingas, Papeis, Manjacos, Felupes, Bijagós e o que se sabia da posição deles face ao conflito, utilização de guias, tudo embrulhado com muita mentalização, tanta que quando estavam a dormir eram acordados pela Voz, precedida de música alta, ritmada, intensa. Depois da Voz, música suave ajudava-os a adormecer.
Ao fim de semana descansavam. Iam para o mato executar golpes de mão a acampamentos do PAIGC que o Saraiva tratava de lhes arranjar nas 2.ª e 3.ª Repartições
De uma das vezes voaram num Dakota para leste, Canquelifá, foram procurar uma base da guerrilha no Piai, na fronteira com a Guiné-Conacri e em duas outras vezes foram para o triângulo do Oio, um na área de Bissorã, o outro entre Mansoa e Mansabá. O pessoal, à volta de 20 oficiais e sargentos enquadrados por comandos naturais da Guiné, Mamadú Jaló, Marcelino, Kássimo, o Tomás Camará e poucos mais, portara-se bem.
Sentia-se bem preparado, tinha a consciência que estava mais forte, já que tinha que ser, podia fazer uma guerra como devia ser.

Porta de armas do quartel de Brá. 
© Foto do autor.

O quartel de Brá era enorme. Era melhor que estivessem sós, mas repartiam sem grandes problemas as instalações com os Adidos e com o Batalhão de Artilharia 733. As instalações eram boas, limpas todos os dias. Os quartos seguidos, num edifício térreo de frente para a messe, uma rua de alcatrão bem tratado no meio, um campo de volei ao lado.

O interior do aquartelamento de Brá. Messes em frente, à direita. 
© Foto de Mário Dias.

No edifício à direita pernoitavam os oficiais dos comandos. Para lá da mata em frente ficava a base aérea e o aeroporto de Bissau.

As traseiras davam para terra batida, capinada uns dias antes que ainda cheirava a fresco, o arame farpado a pouco mais de 200 metros, junto à estrada alcatroada que ligava Bissau a Mansoa e que se ramificava depois em estradas de terra batida, picadas como lhe chamavam, para Bissorã uma, para Mansabá a outra, formando os dois lados do famoso triângulo do Oio, albergando pequenos mas numerosos acampamentos Inimigos em volta da base de Morés, destruída e logo de novo levantada noutro lugar próximo.


O aeroporto de Bissalanca a escassos quilómetros era um entretimento, iam lá tomar café, ver as chegadas dos voos semanais da TAP, as hospedeiras de saia travada a descerem as escadas do avião, o pessoal novo a chegar, chamavam-lhes maçaricos, periquitos meses depois, quase todos em rendição individual, as caras deles, coitados, e as jovens mulheres recém-casadas ao encontro dos maridos, corações descontrolados, mortos por as apertarem, beijos envergonhados, os olhares invejosos dos outros nas pernas delas.
No bar do aeroporto, o Paul Anka, às vezes, fazia o fundo, Only you.
No quarto que repartia com o Vilaça, herdado do Saraiva e do Godinho, adormeceu embalado com a música ritmada da ventoinha do tecto.
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Nota:
1 - Serviço Postal Militar e nome de código atribuído à CªCmds.

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Incidentes em Bissau

Nada de admirar, estamos na época das chuvas. O chumbo do céu a bater no alcatrão, até fumo subia! Voltou ao quarto a correr, no gravador a Rita Pavone "Perché, perché, la domenica mi lasci sempre sola"... Vilaça na cama, olhos no tecto, cantava com ela, oh Rita, grande Rita, canta, sua desgraçada, abre-me bem essas goelas!
Sem saber o que fazer, voltou a deitar-se, os Centuriões2 outra vez na mão.
As coisas não andavam famosas em Brá, nem tudo estava a correr bem. O capitão Rubim ameaçava demitir-se, pirar-se deles. Acima de tudo estava farto, cansado de ver por um canudo as promessas do Comando Militar.

Do Porto nada de notícias. A última carta que tinha recebido não lhe deixara muitas esperanças. Que não sabia se a coisa ia dar certo, que estava com dúvidas, que se calhar era melhor fazer uma pausa na escrita. A retaguarda ameaçava ruir, sentia falta de pé. Nestes meses todos, habituara-se a vê-la como se fosse a boa consciência que tinha deixado lá. Recebia cartas regulamente, todas as semanas, era um ritual pegar nelas, retirar-se para o quarto, abri-las, cheirá-las, pô-las por data, deitar-se na cama, ouvi-la.
Já há tempos que mantinham essa correspondência. Escreve para aqui, escreve para acolá, conheceu-a já nem se lembrava bem como. Gostou dela desde o início. A figura batia com o que escrevia. Foi para os Açores até que acabou por ser mobilizado.
Nos dias de férias da mobilização, antes do embarque, foi despedir-se. Daquele turbilhão de acontecimentos em tão poucos dias recordava o momento em que se separaram na Avenida dos Aliados, na paragem dos eléctricos, frente à Arcádia. Se um dia viesse a casar, era com ela que gostaria. Interessado, escrevia-lhe com regularidade, dava-se a conhecer melhor. Ela dava-lhe notícias, geralmente optimistas, do trabalho, da faculdade, da vida no Porto.
Mantinha-o ligado à vida real.

A Guiné estava a ser uma coisa estranha, um trambolhão de acontecimentos absurdos, uns atrás dos outros. Ia abatendo os dias para as férias cada vez mais próximas, mantinha-se mais ou menos equilibrado, parecia ter ganho até uma imagem de bom senso naquela barafunda.
Escrevia para alguns amigos e para um conhecimento de Angra. Esporádicos, do género como tens passado, vai correr tudo bem, o tempo passa depressa, nós por cá vamos andando.
De Angra, a correspondência era diferente, trazia-lhe recordações daquela liberdade, daqueles meses loucos, de Setembro quase até ao Natal do ano passado. Tanta liberdade, meu Deus, tanta asneira, nem sabia como saíra dali incólume, manchado saíra de certeza.
Todos, mas todos os regulamentos do Exército tinham ido para o tecto. O trabalho que teve para arranjar aquele conhecimento, quase que desistira, chegou até a pensar oferecer-se voluntário para sair dali, nem que fosse para a Guiné. O tempo que gastou atrás dela, a chuva que apanhou à noite a subir a pé para o Monte Brasil3, sem nada, nem uma esperança. Mais de 15 dias seguidos, ela sempre com cara de pau, conversa só se fosse para chamar a polícia. Amanhã é dia de última tentativa, andava a repetir há dias.

Ao fim de duas semanas, o tempo que se perdeu, ela lá se dispôs a conhecer o quartel. Ele, feito burro, acreditou que estava perante uma santa, mostrou-lhe a relíquia da capela do quartel, uma igrejinha dos tempos de um Filipe de Espanha, as muralhas, até o dístico "Antes mortos livres que em paz sujeitos", tão ingénuos como ele afinal.
Finalmente conseguiu convidá-la para uma partida de bilhar na sala de oficiais.
As portas fechadas, que o comandante ainda não saíra, taco na mão, puseram-se a jogar bilhar livre.
Ela, quase do tamanho dele, mas muito melhor proporcionada, que vistosa nem se fala, a cor da pele que as açorianas têm, quando pegava no taco, o vestido a subir por ali acima. Meu Deus. As bolas difíceis, então aquele tripé ou lá como se chama, não está aí? Nem associava nada, aquela maravilha toda estendida em cima do pano verde, e ele definitivamente arrumado no jogo.
O taco na mão dela, o cabelo comprido em cima dos olhos. Perdeu o sentido do jogo, de oficial de dia também, ia até perdendo a compostura se ela não lhe diz, hoje não. Hoje não, porquê?
Ora porque não, nem hoje nem amanhã, depois de amanhã vamos a ver, ele sem perceber, mais burro que nunca, ela a sorrir. Nem um beijo, nem nada? E ela, mas quem pensas tu quem sou? Tudo a ruir, o castelo também se calhar, tanto esforço para nada. Hit the road, Jack, o Ray Charles a estrear a grafonola comprada dias antes no PX4.

E subitamente, dois dias depois, ficou a saber quem ela era, o jogo todo aberto. Uma loucura dali para a frente. Por acréscimo, nem é bom falar nisto, pusera-se a poupar dinheiro à tropa, dando prémios aos melhores recrutas. Quem fizer 20 flexões, quem correr os 100 metros antes dos 20 segundos, quem se apresentar melhor, quem fizer isto tudo, dois dias de dispensa!
Num dia, lá para as 11 da manhã, estava a despachar o pequeno almoço e o expediente, tudo ao mesmo tempo, o 1.º sargento disse-lhe, talvez não seja má ideia, meu aspirante, avisar o pessoal do rancho, quase metade da companhia de recrutas está de licença estes dias todos.
Uma vergonha, nem lembrar quanto mais para contar. Tributo à gente boa daquelas ilhas, que terra tão abençoada!
As cartas desse conhecimento traziam-lhe os cheiros da Ilha, o capacete da humidade daqueles dias em Setembro, a vontade de preguiçar, os banhos sem roupa no mar dos Biscoitos5, naquelas manhãs e tardes em que as ondas iam e vinham, mansas, embrulhadas na bruma. O gosto da areia na boca, as mordidas naqueles seios minúsculos, os bicos enormes, o beijo até sentir as coxas dela a apertar-lhe o pescoço. Cartas perturbadoras, claro, de esquecer.

"Morreu um tipo de um país qualquer6, o Salazar decretou 3 dias de luto e lá estamos nós a ouvir música de mortos com a nossa bandeira a meia haste.
Custa-me engolir estas histórias quando os nossos mortos estão a ser ignorados.
Fala-se no próximo baile de finalistas, que vai ser uma festa de arromba. Alguns dos nossos vão roncar com as namoradas ou com os arranjinhos. O Parreira anda todo satisfeito, até o Quintanilha, aquele alferes dos páras mandou vir da metrópole um fato de cerimónia! Quando estive de férias em Lisboa logo a seguir à formação dos grupos, os Fantasmas accionaram uma mina e foi o que se sabe, 9 dos nossos já lá estão. Entre eles o meu grande amigo Artur. Morrem-nos 9 homens e a Emissora Nacional continua a twist e a ié-ié. É isto que me custa engolir. E ainda por cima, cabo-verdianos e alguns guineenses não vêem com bons olhos a nossa presença nas festas deles”, descarregava o Miranda, mais que irritado.

Mas que raio estava aqui a fazer? A Guiné não lhe estava a dizer nada, não a sentia como sua, sentia-se um intruso. Até com os civis brancos, poucos, talvez três dúzias, se calhar nem tanto, para além da cor da pele, de comum não sentia nada. E até lhe parecia que a sua presença era bem vinda como comprador, só isso.
Na esplanada do Bento7, a 5.ª rep. como também era conhecida, bebia cerveja com mancarra, num grupo de meia dúzia de alferes e furriéis comandos. Um terá dito, depois, que naquela noite, na Associação Comercial de Bissau, havia o baile dos finalistas da Escola Técnica. Outro lembrou-se de perguntar se alguém recebera convite. Eu não, tu não, aquele também não. Ninguém se lembrou de nós, como pode ser? Queres ir? Vamos.

Edifício da Associação Comercial e Industrial de Bissau. 
© Foto do autor.

Dentro da Associação, no enorme salão de baile, finalistas e professores da Escola Técnica de Bissau, familiares e convidados, todos animados a dançarem ao ritmo da orquestra do maestro Reis Pereira, viram alterado o programa por volta da meia-noite.
Os poucos elementos policiais, que se espalhavam pelas escadas de acesso ao andar de cima, tentaram barrar-lhes a entrada. Não conseguiram. Quando os dançantes os viram entrar em fila, fizeram alto e o baile parou. Depois, ninguém soube bem como tudo começou.
A princípio, as frentes pareciam bem delimitadas, a maioria dos participantes em festa de um lado e a meia dúzia de intrusos do outro. Com o decorrer das hostilidades, as duas partes em confronto clarificaram-se ainda mais. Quando se começaram a ouvir vivas ao camarada Presidente Amílcar o conflito alargou-se para a via pública, até que um pelotão da PM entrou em acção. Trinta e tal tipos com escoriações para o hospital, a polícia civil e a PIDE também metidas, vidros e loiças em cacos, cadeiras e mesas partidas, uma noite que nunca mais acabava.
Mesmo em frente ao Palácio do Governo, onde, soube-se depois, da janela, o Governador via aqueles gajos darem-lhe cabo da psico. Uma vergonha!
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Notas:
2 - Jean Lartéguy, escritor panfletário das acções da Legião Estrangeira na Indochina e na Argélia Francesas.
3 - Castelo de S. João Baptista, antiga fortaleza, onde estiveram presos muitos oposicionistas ao regime que vigorou em Portugal até ao 25 de Abril.
4 - Armazém da USAF na Base Aérea da Terceira.
5 - Freguesia do Concelho da Praia da Vitória
6 - John Kennedy, presidente dos E. U. América.
7 - Cervejaria com esplanada na baixa de Bissau, muito frequentada por militares.

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Nino? Sentido!

Nove horas da noite, grupos em sentido na parada. Porta fechada num gabinete. O capitão pergunta aos comandantes dos grupos os porquês de tanto atraso da formatura. Para que horas estava marcada a instrução dos grupos? Às 21? E que horas têm? 21h02? Às 21h00, 1 ou 2 minutos depois são outras horas, ou não? Um minuto, meu capitão, resmunga baixo um! Uns bardamerdas é o que vocês são, os gajos fazem o que querem de vocês!
O meu grupo estava pronto às 5 para as nove, diz-lhe outro.
Saraiva pára, vira-se de frente, olha-o de baixo para cima, dispara, ouça lá seu alferesinho de merda, você acha que não sou capaz de o pôr daqui para fora ao murro e pontapé?
Não devia ter falado, meu capitão, agora já estou avisado.
Saraiva tira a boina, o alferes não lhe larga os olhos. O capitão passa a mão pelo cabelo, três afastam-se ligeiramente a olharem para o lado, o outro segue-lhe os movimentos.
Esta, suas meninas, esta, martela o capitão, com a mão virada para o tal, é a única, a única atitude que um comando pode ter! Falamos mais tarde, alferesinho, agora todos à minha frente, 20 flexões para cada um, grupos incluídos.

Capitão Maurício Saraiva, com os "Apaches" ao fundo. Brá, Setembro de 1965.

O capitão Maurício Saraiva, promovido a capitão por distinção, até então o único vivo com a Medalha de Valor Militar em Ouro, depois de duas cruzes de guerra, tinha metido o chico8, estava em Lisboa na Academia Militar.
Aproveitara as férias para vir a Bissau dar-lhes instrução operacional, e sair com eles para o mato durante o curso de comandos para oficiais e sargentos do CTIG.
Foi um dos fundadores dos comandos da Guiné. Tinha estado em Angola, com o Godinho, os irmãos Roseira Dias, o Miranda e outros. Depois formou o grupo dos Fantasmas e com ele percorreu a Guiné de uma ponta a outra.
Deixou fama pela forma como fazia a guerra, por vezes parecia encará-la como se fosse uma brincadeira. Fazia que retirava, dava às vezes até sinais de fuga descontrolada, como se quisesse animar o IN a mostrar-se confiante. Escondia-se com o grupo, paciente, uma ou duas horas se fosse preciso. E depois, Fantasmas ao ataque! Uma série de êxitos coroavam-no e era objecto de mal disfarçada homenagem, numa altura em que a regra era ver as NT recolhidas a posições defensivas.

Mas nem sempre as coisas correram bem. Tanta intrepidez e desafio também lhe trouxeram sérios problemas.
Novembro de 64, dia 28. Perto da fronteira com a Guiné-Conacri, na estrada de Madina do Boé para Contabane, a uma escassa centena de metros do pontão sobre o rio Gobige, os Fantasmas detectaram uma mina anti-carro.
Levantaram a mina e simularam o rebentamento. Ficaram emboscados nas proximidades cerca de 2 horas. Viram um grupo IN aproximar-se e afastar-se logo que deram pela presença de mulheres na estrada. Uma hora depois viram um elemento IN a fugir. Afinal, estavam em igualdade de circunstância, todos sabiam da presença uns dos outros. No dia seguinte voltou com o grupo ao local. Meteu-se com alguns soldados no Unimog mais pequeno à frente, e encaixou o resto do grupo no Unimog maior atrás. A primeira viatura passou, a outra, uma dezena de metros atrás, não. Pisou uma mina. A viatura incendiou-se, as munições explodiram como foguetes num arraial minhoto e do depósito de combustível saía fogo. Quase todos os homens foram projectados a arder. Sete mortos logo ali e três feridos graves. Regressaram doze a Bissau. Com o grupo dizimado, poucos dias depois arrancou com os restantes para uma operação.

Já quase no final da comissão, em Cameconde, lá para o sul. No diário do furriel João Parreira, um deles, podia ler-se:  
“6 Maio 65. Saímos às 15h00 para a operação “Ciao”, num Dakota até Cacine e depois em viaturas até Cameconde, onde já se encontrava um pelotão à nossa espera. O Capitão Rubim foi connosco. Saímos às 19h00 em direcção ao objectivo. Segundo as informações que nos foram fornecidas, a base IN era composta por cerca de 80 homens bem armados, comandados por Pansau Na Isna, chefe militar, adjunto do João Bernardo Vieira, de etnia Papel, mais conhecido pelo Comandante Nino.
Já na madrugada do dia 7, a poucos quilómetros do objectivo demos indicações ao pelotão para permanecer ali e esperar pelo nosso regresso, com a missão de proteger a nossa retirada ou dar-nos apoio, caso fosse necessário. Assim, seguimos silenciosamente até perto do acampamento, situado na mata a sudoeste de Catunco. Apesar de termos feito uma aproximação cuidadosa, fomos detectados por uma sentinela. Tentámos assaltar o acampamento. Mas eles estavam bem preparados, reagiram ao nosso fogo e o tiroteio prolongou-se. Quando o fogo deles abrandou, entrámos por ali dentro e vimos material abandonado durante a fuga. Oito armas, cunhetes de munições, granadas, petardos, equipamentos, minas, fardas, e muitos documentos, entre os quais um caderno que pertencia a um tal Armindo Pedro Rodrigues, com elementos importantes da Ordem de Batalha do PAIGC.
Carregados com o nosso material e com o que tínhamos capturado, regressámos para junto do pelotão de recolha. Juntámo-lo e começamos a vê-lo em pormenor. Faltava o aparelho de pontaria de um morteiro, até então ainda não apreendido na Guiné.
O Morais afiançava tê-lo visto lá. O tenente Saraiva chamou o Amadú e o Morais e disse-lhes para voltarem ao acampamento. Embora estivéssemos conscientes do perigo, arriscámos, partindo do princípio que o IN se tinha retirado após as baixas sofridas. O Morais perguntou quem é que queria ir com ele e com o Amadú. Ofereci-me bem assim como o capitão Rubim, o furriel Matos e mais 7 camarada, 10 no total.
De novo no interior do acampamento a arder. Vi uma árvore gigante, com umas cavidades enormes. Espreitei para dentro de uma, o Morais para a outra, à procura de material, e o restante pessoal, por ali perto, fazia o mesmo. Subitamente, rajadas de metralhadora e granadas de bazuca caíram-nos em cima. Uma destas rebentou entre nós. Um pequeno estilhaço partiu a coluna do Morais, que caiu sobre uma fogueira. Eu fui atingido no lado direito das costas, mas na altura nem localizei o ferimento.
Vi o Morais a morrer quando o olhei de relance. Um vago murmúrio, depois mais nada, um ar sereno no rosto, pareceu-me. Deitei-me e reagi ao fogo, mas passado pouco tempo fiquei sem força no braço, a G-3 ficou muito pesada, e depois já nem o gatilho conseguia apertar. Passei a espingarda para o braço esquerdo e fiz fogo, mas julgo que não fui nada eficaz. Os outros 8 camaradas, embora ligeiramente, foram todos atingidos. Depois os restantes elementos do Grupo foram lá buscar-nos. Junto do pelotão de apoio, injectaram-me morfina. Tinha perdido muito sangue. Prestaram-me os primeiros socorros em Cacine.
Fomos evacuados para Bissau. Eu de barriga para baixo, bem atado, com mais uma injecção de morfina, e o Morais, morto, cada um em macas de lona, encaixados no exterior do heli9. Durante o trajecto, e em duas localidades diferentes, na minha sonolência ouvi rajadas de metralhadora que me pareceram passar rente ao helicóptero. Pareceu-me uma eternidade a viagem até ao hospital de Bissau, onde, depois de me terem operado, fiquei internado.
8 Maio. O Marcelino foi o primeiro a vir ver-me ao Hospital. O crucifixo que eu trazia ao peito era uma crosta, uma grande cruz de sangue seco. Pedi-lhe que o lavasse.
9 Maio. Muitos camaradas me visitaram hoje, o major Dinis, o tenente Saraiva, o alferes Pombo, os furriéis Matos, Moita e o Miranda, claro. Da parte da tarde vieram a D. Beatriz Sá Carneiro, mulher do Comandante Militar e a D. Mariana do MNF10.
O Morais era órfão de pai. No caso dele correu tudo no mesmo sentido. Mal. Não era necessário a presença dele nesta operação, já tinha acabado a comissão. Em Brá tentaram persuadi-lo, mais que uma vez, a não ir. Tantas vezes, que diferença vai fazer sair mais uma, insistia. Não embarcou com o Batalhão a que pertencia, por ter combinado que esperava que o tenente Saraiva e os furriéis Matos, Moita e Ilídio acabassem a comissão. A estes faltavam-lhes apenas 15 dias. Imaginava o regresso à Metrópole, todos juntos num navio, como se regressassem de um cruzeiro de férias.
O Miranda recebeu o corpo no Hospital. Foi ele com o Mário Dias, o Fabião e o Ilídio que o lavaram, vestiram e deitaram no caixão. Fizeram uma colecta para a compra do caixão de chumbo. E coincidência, morreu no mesmo dia em que o seu Batalhão de origem desfilava em Lisboa, com a missão cumprida.”
Claro que, fosse para onde fosse, o Saraiva trazia com ele esses e outros acontecimentos, como se uma auréola o enfeitasse.

Quando reentrou em Brá, para passar o tal mês de “férias”, apresentaram-lhe os novos que estavam a frequentar o curso e pessoal já bem conhecido dele, o capitão Rubim, o sargento Mário Dias, os furriéis Miranda, Moita, Matos, Fabião, o João Parreira, o cabo Marcelino, os soldados Kássimo, Tomás Camará, o Adulai Jaló e outros.
Dos novos conhecia um ou outro, e aos que não conhecia tinha algum tempo à frente para os ver trabalhar no mato e depois veria a quem entregaria o crachá.
Passava a vida a pô-los em sentido. Uma volta na conversa e lá vinha o Nino à baila. O Nino, estão a olhar para mim?
O Nino11, que porra, estes gajos são todos surdos? O Nino, ele a insistir e os alferes com falta de entendimento. Sentido, porra! Aqui nos comandos quando se fala no Nino, toda a macacada, vocês também, saltam como uma mola, estejam onde estiverem, não interessa, põem-se a pé! Em sentido!
E foi assim que se fez escola, dali para a frente, sempre que alguém pronunciava o nome do Nino, os outros punham-se em sentido.

Uma vez, em Biambe, na zona do Oio, uma tempestade como não havia na memória deles, tinha partido o grupo em dois, aí pela uma da madrugada, noite negra como só em África quando o céu está todo tapado. Um, sozinho, lá encontrou o trilho depois de andar a tactear o chão. Daqui não saio, vou-me mas é sentar!
A chuva não parava, pareciam pedras a cair, faziam tanto barulho no camuflado que receou que o denunciassem. Ainda bem que só tinha as cuecas debaixo, menos peso para carregar. Nada de sinais, nem de trás nem da frente. Esta é boa, onde é que os gajos se meteram, que merda, assobiou baixo, a imitar o pássaro que afinaram no curso. Nada de respostas, minutos a passar, chuva em barda. Estou frito, estou mesmo perdido, o coração como um cavalo a galope, até sentia calor, olhava para todo o lado e só via escuridão, pirilampos nem vê-los, nada, só ouvia o barulho da água a bater. E agora, o que faço? Eles hão-de dar pela minha falta, não me vão deixar aqui. E se não derem?
Calma, esperas pelo nascer do dia, viras as costas ao Sol, cortas mato, nada de trilhos, sempre em frente, até à estrada Mansoa-Bissorã, escondes-te, há-de aparecer uma coluna um dia destes, quase todos os dias passam. Depois é só saltar para a estrada e pronto. E se a guerrilha te vê, o que é que fazes? Pois. Minutos a durarem horas, o coração outra vez.
Um pequeno som, pareceu-lhe, serão eles, ou estarei a sonhar? Um assobiar baixinho. É isso, são eles, nunca mais vinham, assobia também, assobio cada vez mais próximo, uma mão, o Kássimo, o Saraiva atrás. Então e os outros? O capitão, danado, a bufar, e os outros? Kássimo à frente a assobiar, dentro do trilho, foram andando para trás, mãos no cinturão do da frente. Encontraram o capitão Rubim e o alferes Vilaça, os dois sentados, costas com costas. A dormir na forma, ah?

No outro sábado o Saraiva encontrou os quatro alferes sentados, tinham acabado de almoçar na messe de Brá. E o programa para hoje, qual é, perguntou. Vou até Bissau espairecer, diz um, outro vou mas é dormir com a cama, a correspondência a preocupar o terceiro, o quarto, sei lá? Ele arranjava um melhor, têm 5 minutos para se equiparem para sair.
Levou-os para o aeroporto, os motores já quentes do Dakota pronto para descolar. Foram para leste, Nova Lamego até Canquelifá, perto da fronteira com a Guiné-Conakri. Chegaram com o Sol quase a ir-se. Esperaram fechados dentro do avião, os motores parados.
Abriram-lhes as portas, entraram directos para uma GMC com as lonas corridas. Meteram-lhes lá dentro queijo partido aos bocados e pão. O Saraiva, gargalhada baixa, a pedir os cantis, para encher de água fresca, disse. O meu não precisa, está cheio até cima, nem se ouve, mesmo que o abane, diz um. Passe, o capitão a insistir. Que a marcha ia ser longa, cerca de 20 km, e a água vai ser decisiva.
Ouçam bem, só bebem quando eu der sinal, todos a beber ao mesmo tempo.

© Foto do Júlio Abreu. Com a devida vénia.

Carvão negro na cara e nos braços, pareciam manjacos e mandingas. Pôs-se o sol, meteram-se no mato, dois a dois, trilhos fora, quilómetros e quilómetros, a noite toda.
Comandos ao ataque, o Saraiva desalmado a gritar, como gostava de começar o dia. Fizeram-se a eles, por ali dentro, as casas de mato com 2 ou 3 gajos que nunca lhes tinham sido apresentados a pisgarem-se. Depois, um dos intrusos passou à história. Da gargalhada. Quando sentiu os projécteis de uma metralhadora pesada inimiga a bater lá em cima nas árvores, até disse para os outros, olha a NT a apoiar! Os outros a rirem-se, uma força danada dentro deles. No caminho do regresso lembraram-se da genica que sentiram, estamos numa forma do caraças, não estamos?
Nunca souberam de onde tinha vindo tanta gana, se calhar tinha sido quando o capitão, finalmente, autorizou meterem água, devia ter vitaminas. A certa altura do caminho de retirada, começaram a ficar sem forças. Estranharam, nunca lhes tinha acontecido, não acertavam com o trilho, não era só um, eram todos. Menos o capitão. Alguns paravam, encostavam-se às árvores, queriam sentar-se, os olhos para cima. Quem parar fica para trás, o Saraiva lá à frente, na esgalha. Em pequenos grupos foram chegando. Em Canquelifá, uma cerveja gelada, boca abaixo, duma vez só. Alguns só acordaram com os motores do Dakota e um ou dois nem assim. A caminho do avião, pareciam zombies, em coluna por um, pelo campo fora.

Da outra vez, mandou tapar-lhes os olhos com algodão, fita adesiva e um lenço negro por cima. Só tiram os lenços e o adesivo quando eu mandar. É para ver se adivinham para onde vamos passar o fim-de-semana. Viaturas pela estrada fora, para onde havia de ser, para o Oio. Quando entraram em Mansoa, pararam. Então, quem é amigo? Para onde vamos então? Toca a tirar os lenços, olhos e ouvidos bem abertos agora. Foram por ali fora até Bissorã. A mesma história do queijo e do pão, uma cerveja para cada um, cantis cheios de água, por aqueles trilhos, a noite toda.
Um cigarro agora é que sabia bem. Pois, também a mim me apetecia estar na praia de Carcavelos, ao sol com a miúda, os ouvidos dele em todo o lado. Fumas no fim do fogo. O dia clareou, estavam no sítio certo, as casas de mato em frente. Os guerrilheiros é que faltaram à chamada naquela altura. Não saímos daqui enquanto os gajos não aparecerem, o capitão a provocá-los. Vieram mais tarde, quando já não dava muito jeito, mas arranja-se sempre qualquer coisa, que remédio. Um daqueles alferes integrado na equipa do furriel Moita, apanhado num campo de mancarra, com nada para se abrigar, ou estava com pressa de regressar a Bissau, ou tinha visto no cinema uma cena parecida, chateou-se, aqui vou eu, quem quiser que venha. Quis lá saber da parelha e da equipa, meteu-se por aquelas casas de mato dentro. Depois ficou lá dentro sozinho, sem saber bem o que fazer. Os companheiros daquele fim-de-semana encontraram-no a olhar para o ar, para os ramos das árvores a abanarem com as balas. Estes gajos nunca mais aprendem, porra, 20 flexões aí já, o Saraiva oportuno como sempre. Agora sim, podem fazer fogo com o isqueiro, toca a fumar!
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Notas:
8 - Dizia-se dos milicianos que passavam ao Quadro Permanente.
9 - Allouette II
10 - Movimento Nacional Feminino.
11 - Considerava o Nino como um verdadeiro chefe militar e, apesar de inimigo, merecedor de respeito.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14845: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (IV Parte): Comandos do CTIG