sábado, 19 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15510: Memória dos lugares (326): Fui destacado várias vezes para o Depósito Disciplinar no Forte de Elvas. Subia e descia o morro a cavalo e dormia lá quando calhava ser oficial de serviço (Marques Leandro, ex-Tenente Miliciano, 1953/55)

1. Comentário, deixado no Poste Guiné 63/74 - P10734: Memória dos lugares (197): Elvas, património mundial da humanidade - Forte de Nossa Senhora da Graça (ou Forte Lippe) - A barrilada (António José P. da Costa), pelo nosso leitor, José Manuel Marques Leandro1, ex-Tenente Miliciano, que entre outros quartéis conheceu, nos anos 50, o Forte de Elvas.

CAROS AMIGOS
Não fiz parte do vosso batalhão, mas admiro-vos. Prestei serviço militar como oficial miliciano de cavalaria no ex-Regimento de Lanceiros 1 em Elvas nos anos de 1953, 1954 e 1955.
Fui destacado várias vezes para o Depósito Disciplinar no Forte de Elvas. Subia e descia o morro a cavalo e dormia lá quando calhava ser oficial de serviço.
Há dias enviei um texto2 sobre essa minha experiência ao Senhor Presidente da CM Elvas que muito amavelmente me respondeu que esse texto seria integrado no site do Forte da Graça. Ali conto peripécias no Forte, na barrilada, na cidade e em Badajoz onde folgávamos a nossa juventude. Vi a vossa fotografia da barrilada. Confirmo.
Peço-vos que me cedam essa foto o que desde já muito agradeço3.
Solicito resposta para o endereço que indico.

Desejo a todos Boas Festas com um abraço.
JM Marques Leandro

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2. Entretanto recebemos o texto que agora publicamos


Trunfo era espadas

O Exército não me dispensou logo que terminei o curso em 1953. Eu e a maior parte dos meus colegas fomos incorporados nas Forças Armadas, na Escola Prática de Cavalaria, então em Torres Novas, para ali frequentarmos o curso de oficiais milicianos. Depois, já como oficial, mandaram-me para o Regimento de Lanceiros 1, em Elvas. Nesse tempo, Elvas ficava muito longe de meus pais e a tropa não concedia facilidades, de modo que raramente ia a casa. Contudo, foi um período de que guardo boas recordações. O Alentejo ficou para mim a região de eleição. O Alentejo, Badajoz e as espanholas. A guerra civil em Espanha tinha terminado havia menos de vinte anos, tempo insuficiente para curar feridas e nós bem sentimos isso. Sentimos quando nos contavam os horrores dessa guerra, principalmente, a queda de Badajoz perante as tropas de Franco, em Agosto de 1936. Nessa altura, centenas de habitantes de Badajoz, fugindo aos bombardeamentos e à irracionalidade da guerra civil, atravessaram a fronteira e espalharam-se pelas planícies do Caia. Deste lado, essa gente foi internada no Forte da Graça, fortaleza no cimo de um morro que domina a cidade. Entretanto, o regime de Salazar entendeu-se com o regime de Franco e as pessoas internadas no Forte da Graça foram devolvidas a Badajoz. As camionetas espanholas que as transportavam despejavam-nas na praça de touros e ali eram fuziladas. Um major do meu regimento era nesse tempo alferes e fora encarregado de ir a Badajoz colher informações. Assistiu a fuzilamentos, mas nada podia fazer para evitar o massacre. No meu tempo de tropa, muitos habitantes de Badajoz não esqueciam isso e, sabendo que nós éramos militares, recebiam-nos com alguma animosidade. O que nos valia eram os militares da cavalaria espanhola sediada em Badajoz, os jovens espanhóis e principalmente as espanholas, que nós presenteávamos com pacotes de café, produto muito apetecido em economia depauperada pela guerra. O Forte da Graça, no meu tempo, era uma prisão militar e os oficiais do quadro permanente não paravam lá quando destacados para a guarnição, de modo que o comando territorial ordenava o destacamento de oficiais milicianos do meu regimento para ali prestarem serviço. Fui sujeito a esse destacamento várias vezes. Subia e descia a cavalo o morro íngreme do forte. Dormia lá quando me calhava ser o oficial de serviço. À tardinha, chegavam novos militares presos que marchavam a pé durante vários quilómetros a partir da estação do caminho-de-ferro, cada um deles escoltado por um cabo e dois soldados.

Forte da Graça - Elvas

Os militares marinheiros tinham mais sorte, eram transportados em viaturas da Marinha. Também havia oficiais e sargentos presos no Forte. Os oficiais e só esses, mantinham o direito a continências e honras militares. No Forte não havia água canalizada. Todos os dias, de manhã e à tarde, organizava-se uma coluna de vinte ou trinta soldados e marinheiros presos, com barril de madeira de vinte litros às costas e escolta à vista. Desciam o morro, enchiam os barris em fonte improvisada e regressavam ao Forte, carregando a água. Trabalho penoso, trabalho forçado! Alguns dos militares integrados nessas colunas tentavam fugir e vários conseguiam. A escolta dava muitos tiros, mas não acertava em ninguém. Confidenciavam-me que não acertavam porque não queriam. Cada fuga ou tentativa de fuga era uma carga de trabalhos para o oficial de dia que era obrigado, imediatamente, a tomar providências para a captura, lavrar autos, fazer inquérito, eu sei lá!

A barrilada

Nesse tempo, trunfo era espadas. Os militares é que suportavam o regime, de modo que tudo era mais ou menos militarizado. A Cidade de Elvas era um modelo dessa cultura. Centro urbano sem grande expressão demográfica, mas com grande concentração de tropas, por causa do inimigo espanhol, troçávamos nós. A cidade tinha um estatuto especial na orgânica do Exército. Designava-se Praça Militar de Elvas. Tinha um governador militar, integrava vários regimentos e serviços. O Forte de Elvas, então prisão, tinha também alguma autonomia honorária, como Governo Militar do Forte de Elvas, no meu tempo personalizado por coronel de cavalaria na reserva, bem conhecido na cidade pelo seu aprumo militar e farda permanente e integrava uma prisão militar designada Depósito Disciplinar. Organização militar sobrante das preocupações de Salazar durante a 2ª guerra mundial, 1939 – 1945, quando se tomaram providências em face de iminente invasão por Espanha aliada à Alemanha, o que, felizmente, não aconteceu. Havia o culto das fardas e os civis iam adoptando essa cultura. Recordo que eu e os meus colegas, quando chegamos a Elvas, entramos sem farda no Clube Elvense para o visitarmos, porque sabíamos que ali era o local de frequência das elites da terra. Fomos bem recebidos por um director que nos convidou a associarmo-nos aquela instituição. Como nos interessava frequentar os bailes e outras diversões, aceitamos os impressos-propostas para associados, mas o tal director perguntou se todos nós éramos oficiais. Dissemos que todos menos um, esse era sargento miliciano, embora com curso superior. Então ele esclareceu que os oficiais poderiam ser sócios, mas não o nosso companheiro sargento. Perante isso, recusamos a inscrição e manifestamos a nossa surpresa pelo facto de um clube civil adoptar praxes militares. Ficamos queimados naquela sociedade elvense e fomos criticados, já no quartel, por alguns oficiais do regimento. Foi bom assim, porque isso soube-se na cidade, o que levou o Grémio, instituição não elitista, a eleger-nos amigos e frequentadores especiais. E gozamos bem essa facilidade.

Terminei o serviço militar em Abril de 1955.

Marques Leandro
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Notas do editor

1 - Licenciado em Gestão e Administração Pública pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, trabalhou em Angola, onde nasceu, e continuou a sua carreira na Administração Pública até se reformar na Inspecção Geral de Finanças. Foi Secretário de Estado da Administração Regional e Local dos III e IV Governos Constitucionais chefiados, respectivamente, pelos Eng.º Alfredo Jorge Nobre da Costa e Prof Dr Carlos Alberto Mota Pinto. Foi ainda dirigente da ARCIL (Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados da Lousã).

3 - O editor enviou em devido tempo a foto da "barrilada" ao Dr. Marques Leandro

Último poste da série de 7 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15453: Memória dos lugares (325): Cabo Verde, Ilha de São Vicente, Mindelo: o N/M Uíge em janeiro de 1967, no meu regresso a Lisboa (Virgínio Briote, ex-alf mil cav, CCAV 489, Cuntima; e ex-alf mil comando, cmdt do Grupo Diabólicos, Brá, 1965/67)

Guiné 63/74 - P15509: Parabéns a você (1003): Humberto Reis, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 12 (Guiné, 1969/71) e João Melo, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAV 8351 (Guiné, 1972/74)


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Nota do editor

Último poste da série de 16 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15494: Parabéns a você (1002): António Paiva, ex-Soldado Condutor Auto do HM 241 (Guiné, 1968/70)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15508: Tabanca Grande (480): Virgílio Valente, ex-alf mil CCAÇ 4142, Gampará, 1972/74; vive em Macau há duas dezenas de anos e procura camaradas do seu tempo... É o grã-tabanqueiro nº 709.

1. Mensagem do nosso leitor e camarada Virgílio Valente que vai finalmente entrar para a nossa Tabanca Grande, sob o nº 709:


 Data: 20 de julho de 2015 às 08:01

Olá,  Luis Graça & Camaradas,

Consultei a lista dos 696 Amigos & Camaradas da Guiné e o meu nome não consta.

Sou um assíduo leitor e seguidor do vosso blogue onde encontro muita informação estimulante e enriquecedora e ainda não participei seriamente apenas por falta de tempo.

O que devo fazer para o meu nome também constar? É que me parece uma forma de conseguir reencontrar amigos do meu tempa na Guiné-Bissau (1972-1974, CCaç 4142, Gampará).

Uma grande abraço para todos,  em especial para aqueles que tão dedicadamente mantém este bolgue.

VIírgílio Valente

"A wise man makes his own decisions; an ignorant man follows public opinion."
"Um homem sábio decide por si próprio; um homem ignorante segue a opinião pública."
(Chinese proverb)


2. Resposta do editor LG, em 20 de julho transato:

Virgílio, tens toda a razão... Estava só à espera de uma foto tua, antiga, do tempo da tropa (de preferência, da Guiné) e de duas linhas sobre a tua pessoa (uma breve apresentação)... Manda-nos isso o mais rápido possível... Se tiveres mais fotos de Gampará e de outros sítios, manda, digitalizafadas, com boa resolução...

Quando vens à santa terrinha ? Ab. grande. Luis


3. Já em 8 de abril de 2015, o Virgílio Valente nos tinha escrito nestes termos:
 Caro Luís Graça, olá!

Também me comprometi contigo e ainda não cumpri.

Tenho fotos dos "Herdeiros de Gampará" [, CCAÇ 4142, 1972/74,] que vou tentar enviar, depois de fazer um scan. Também tenho a história oficial da Companhia, do arquivo militar, donde constam os nomes dos camaradas que por lá passaram!

Infelizmente estes últimos dois anos teem sido árduos e o tempo tem escasseado, mas vou cumprir o que te prometo.
Mais vale tarde que nunca.
Abraço de Macau.
Virgílio Valente

«Se quer ir depressa, vá sózinho! Se quer ir longe, vá junto!» (Provérbio Africano)
«If you want to go fast, go alone! If you want to go far, go together!» (African Proverb)


4. Em 23 de setembro de 2014, ele tinha escrito  ao seu camarada e nosso grã-tabanqueiro Joviano Teixeira o seguinte:

Olá, Joviano Teixeira,


Sou o Virgílio Valente e pertenci à CCaç 4142 onde fui alferes (alferes Valente), responsável pelo 4.º pelotão.

Acabei de ler um poste teu no Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné.

Tanbém perdi o rasto a muitos dos camaradas da nossa Companhia. Agora, aos poucos e poucos, vou conseguindo restabelecer os contactos.

Este ano ainda me encontrei com o Dálio de Carvalho (furriel) e com o Manuel Fernandes (alferes). Falei ao telefone com o Fernando Duarte (capitão), com o Palma (cabo) e com o Eurico Dias (alferes).

É bom rever aqueles com quem passámos bons e maus momentos na vida e com quem ganhámos experiência de vida.

Aqui ficam os meus contactos:
Virgílio Valente
Macau, China, telefone (+853) 66808034

email: oumunlinfa@gmail. com
facebook: Wai Tchi Lone

Este ano estive em Tavira. Espero receber algum feedback da tua parte.
Manda os teus contactos. Abraço
Virgílio Valente

«Quem fica na ponta dos pés, tem pouca firmeza»
«He who tiptoes cannot maintain equilibrium»


4. Comentário do editor:

Um dia o Virgílio Valente vai, finalmente, arranjar tempo para satisfazer o nosso pedido de envio de uma foto da tropa, de preferência do tempo de Gampará. onde ele foi alf mil da CCAÇ 4142, 1972/74... Até lá vamos ter a paciência de chinês e contornar um pouco as regras do nosso blogue... Ele tem vindo a manifestar o desejo de integrar as "nossas tropas"... E nunca se esquece de mandar, todos os anos, o postalinho de boas festas. 

A partir de hoje, ele passa a ser, de pleno direito, membro da nossa Tabanca Grande, com o privilégio (vitalício) de ser o régulo da Tabanca de Macau!...

Sê bem vindo, Virgílio! E bom ano para ti e para os macaenses!

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Nota do editor:

Último poste da série > 18 de dezembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15502: Tabanca Grande (479): José Fernando Estima, de Aguada de Cima, Águeda, ex-fur mil, CCAÇ 3546 / BCAÇ 3883 (Bissau, Bolama, Piche, Cambor, Canquelifá, Dunane, Ponte Caium, Camajabá, 1972/74)... Grã-tabanqueiro nº 708... quase cinco anos depois de um primeiro (e único) contacto telefónico

Guiné 63/74 - P15507: Ser solidário (190): Gostaria de doar televisão, telemóveis, vestuário, medicação e brinquedos aos meus conterrâneos da Guiné-Bissau, meu berço que não conheço (Indira Monteiro Corte-Real, tetraneta de Honório Pereira Barreto, que vive em Lagos)

Indira Monteiro Corte-Real, foto do
Linkedin
1. Mensagem da nossa leitora Indira Monteiro Corte-Real:


De: Indira Corte-Real

Data: 18 de dezembro de 2015 às 11:35

Assunto: Gostaria de doar televisão, telemóveis, vestuário, medicação e brinquedos...


Bom dia, gostaria de ajudar, como faço para entregar o que tenho?

Vivo em Lagos [, Algarve], adoraria imenso poder contribuir, afinal é a minha terra, sou tetraneta de Honório Pereira Barreto, infelizmente não conheço o meu berço mas adoraria poder ajudar no que posso os meus conterrâneos.

Desejo de um bom dia.

Indira Monteiro Côrte-Real
Enviado do meu Windows Phone

2. Mensagem enviado à Indira e à ONGD Ajuda Amiga, a/c Carlos Fortunato, Carlos Silva e Manuel


Amigos e camaradas:

Contactem este "tetraneta" do Honório Barreto que tem material para doar para a gente da terra dos seus antepassados... 

Sei, pelo Manuel Joaquim, que a Ajuda Amiga está a preparar dois contentores para mandar, muito proximamente, para a nossa querida Guiné-Bissau...

Para a Indira: clique aqui, para saber mais sobre esta ONGD portuguesa que tem feito um trabalho exemplar em termos de solidariedade com os  nossos amigos e irmãos da Guiné-Bissau:

http://ajudaamiga.com.sapo.pt/

Boas festas. Luis Graça

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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P15506: Feliz Natal / Filis Natal / Merry Christmas / Feliz Navidad / Bon Nadal / Joyeuz Noël / Buon Natale / Frohe Weihnachten / God Jul / Καλά Χριστούγεννα / חַג מוֹלָד שָׂמֵח / عيد ميلاد مجيد / 聖誕快樂 / С Рождеством (4): Virgílio Valente [Wai Tchi Lone, em chinês], que vive e trabalha em Macau, há mais de 2 décadas; ex-alf mil, CCAÇ 4142 (Gampará, 1972/74)

1. Mensagem de Virgílio Valente [Wai Tchi Lone, em chinês], que vive e trabalha em Macau, há mais de 2 décadas; foi alf mil, CCAÇ 4142, Gampará, 1972/74;


Feliz Natal e Próspero Ano Novo
聖誕快樂,新年進步
Merry Christmas and Happy New Year


Para todos os meus familiares e amigos,
To all family and friends,
我的家人和朋友


Virgílio Valente
韋子倫

"A wise man makes his own decisions; an ignorant man follows public opinion."
"Um homem sábio decide por si próprio; um homem ignorante segue a opinião pública."
(Chinese proverb)

Guiné 63/74 - P15505: Feliz Natal / Filis Natal / Merry Christmas / Feliz Navidad / Bon Nadal / Joyeuz Noël / Buon Natale / Frohe Weihnachten / God Jul / Καλά Χριστούγεννα / חַג מוֹלָד שָׂמֵח / عيد ميلاد مجيد / 聖誕快樂 / С Рождеством (3): Com a Guiné no coração (Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Dezembro de 2015:

Numa destas manhãs de sábado, propiciadoras de incursão na Feira da Ladra, ia já a manhã alta quando fui apresentar mantenhas ao nosso confrade Eduardo Martinho (furriel em Bissorã, ali conviveu com o Armando Pires), e ele disse-me: 
“Tenho aqui coisas para si, é seguramente uma Guiné que não conhece”.

Arrumei os sacos, e entrei por ali adentro, morto de curiosidade, é sempre assim quando se fala em livros, revistas, fotografias e outros, onde haja palmeiras, a Guiné do passado remoto ou mais próximo. E gostei a valer destes dois desenhos aguarelados, não sei quem é Manuel Júlio, mas sensibilidade não lhe falta com aquela mãe a mostrar a sua prole frente às moranças, de uma tabanca algures; e num rio algures uma canoa navega para determinado destino, é possível imaginar uma família que vai para uma festa, o canoeiro leva espetado nos lábios um canhoto e mira as aves que também buscam destino.

São cenas tocantes, imagens que conhecemos, até podia ser gente da nossa gente, algures, no ponto obscuro de onde nunca iremos desviar a memória, as coisas passaram-se assim, acompanhar-nos-ão até ao limite das nossas forças. E pensei que estes dois desenhos coloridos podiam ter lugar à mesa da nossa consoada, falando Fula, Manjaco, Balanta-Mané ou Mansoanque, o que aprouver, para quem nos ler e olhar, neste dia de Natal em que a Guiné está nosso coração, com o mesmo entusiasmo com que todos os dias vimos ler ou conversar no blogue, a nossa catedral onde concelebramos este dever de memória. 

Desejo-vos do coração mil alegrias natalícias, dobradas e redobradas, e um 2016 com mais saúde e menos austeridade. 
Um abraço do 
Mário



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Nota do editor

Último poste da série > 18 de dezembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15504: Feliz Natal / Filis Natal / Merry Christmas / Feliz Navidad / Bon Nadal / Joyeuz Noël / Buon Natale / Frohe Weihnachten / God Jul / Καλά Χριστούγεννα / חַג מוֹלָד שָׂמֵח / عيد ميلاد مجيد / 聖誕快樂 / С Рождеством (2): José Carlos Mussá Biai, o nosso "mininu" do Xime, hoje engenheiro florestal, na Direção-Geral do Território (DGT), em Lisboa

Guiné 63/74 - P15504: Feliz Natal / Filis Natal / Merry Christmas / Feliz Navidad / Bon Nadal / Joyeuz Noël / Buon Natale / Frohe Weihnachten / God Jul / Καλά Χριστούγεννα / חַג מוֹלָד שָׂמֵח / عيد ميلاد مجيد / 聖誕快樂 / С Рождеством (2): José Carlos Mussá Biai, o nosso "mininu" do Xime, hoje engenheiro florestal, na Direção-Geral do Território (DGT), em Lisboa


1. Mensagem,  com data de hoje,  do José Carlos Mussá Biai, o nosso "mininu do Xime", membro da nossa Tabanca Grande, desde longa data, mas de quem não temos uma única foto, salvagurando o seu direito à reserva de intimidade:

[Sobre o Zé Carlos já aqui dissemos o essencial:  (i) as companhias que marcaram a sua infância foram a CART 2715 e a CART 3494; (ii) um camarada nosso ficou na sua memória para sempre por ter sido o seu professor na única escola que havia no Xime: a PEM (Posto Escolar Militar) n.º 8,  e que foi o José Luís Carvalhido da Ponte, ex-fur mil enf, da CART 3494], natural de Viana do Castelo;  (iii) ficou emocionado com as primeiras fotos que viu da sua terra e das suas gentes.publicadas no nosso blogue;  (iv)  depois da PEM nº 8 (Xime), o  percurso académico proesseguiu, já  na Guiné-Bissau independente, primeiro como aluno e depois como docente em Bissau, tendo rumado a Lisboa, onde concluiu a sua formação superior em Engenharia Florestal;  (v) vive, trabalha e tem família em Portugal.]

O nosso camarada Jorge Araújo, em 1972,
com "mininu" do Xime
Meu Caro Luís e Camaradas,

Boas Festas!


José C. Mussá Biai
Engº. Florestal

Direção-Geral do Território (DGT)
Direção de Serviços de Informação Cadastral (DSIC)
Divisão de Cadastro Geométrico da Propriedade Rústica (DCG)
Rua Artilharia Um, nº.107 
1099 - 052 Lisboa

Guiné 63/74 - P15503: Notas de leitura (789): “Esculturas e objetos decorados da Guiné Portuguesa no Museu de Etnologia do Ultramar”, Edição da Junta de Investigações do Ultramar, 1971 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Fevereiro de 2015:

Queridos amigos,
Recordam-se certamente das esculturas, panos e artigos de couro que se vendiam no mercado de Bandim e imediações, isto no caso de Bissau. Havia o ourives de Bafatá e seguramente outros em diferentes localidades. Os colecionadores e os museus disputam objetos escultóricos dos Bijagós e dos Nalus.
Numa visita que fiz ao Museu Metropolitano de Nova Iorque, nas salas reservadas à arte africana li um documentário de um Rockfeller que andara pela África Ocidental e que deixara escrita a sua apreciação sobre a escultura Nalu, considerou-a a mais genial de todas. Foi uma opinião, mas há que reconhecer que nestas esculturas vibra a inspiração e muitos séculos de artífices espantosos.
Fica aqui uma oportunidade para rever imagens dessa opulência.

Um abraço do
Mário


Esculturas e objetos decorados da Guiné Portuguesa

Beja Santos

Fernando Galhano é um nome importante na etnologia e etnografia guineense a par de António Carreira e Rogado Quintino, no período colonial. Este seu trabalho “Esculturas e objetos decorados da Guiné Portuguesa no Museu de Etnologia do Ultramar”, Edição da Junta de Investigações do Ultramar, 1971, atesta o esmero e o rigor do seu trabalho. Concentra-se essencialmente na arte Bijagó e Nalu porque foram sempre aquelas que deram provas de maior originalidade e criatividade.

Apesar dos seus particularismos culturais, os Bijagós dão provas de uma unidade cultural verificada há séculos. São dotados de uma exuberante fantasia. As suas esculturas são cobiçadas por colecionadores e museus de todo o mundo, ávidos por estas máscaras de pelicano e de hipopótamo que revelam um espírito muito livre e aberto. Estas máscaras de animais que podem ser uma cabeça de boi ou a cabeça de um peixe-serra, de um búfalo, as máscaras que representam cabeças de tubarão ou de porco, adornadas de fitas, tranças, ranjas, borlas e adornos são muitas vezes peças excecionais.

Escreve Fernando Galhano: “O boi, o tubarão e o tubarão-martelo, e também o hipopótamo, em corpo inteiro ou apenas numa das suas partes – cabeça ou barbatanas – entram com grande frequência na composição de vários objetos rituais e de uso corrente. Pegas de tampas, cabos de colheres, os bastões dos iniciados, certos chapéus de dança, são em muitos casos enriquecidos com figuras daqueles animais. É nos adornos de dança – de cabeça, costa e braços – que a fantasia deste povo mais francamente revela a sua exuberância e a sua liberdade de escolha de motivos”. O autor faz larga referência a outros elementos escultóricos que aparecem em colheres, taças, cabaças, fechaduras, bancos e machados cerimoniais, lanças-bastões e para demoradamente nas máscaras e adornos de cabeça para dança.

Vejamos alguns desenhos por ele apresentados, quanto à arte Bijagó.

Figura cultual, Ilha de Caraxe, Bijagó


Adorno de costas para dança do peixe-verga Ilha Formosa, Bijagó 

A cultura Nalu é muito antiga. Deslocados em tempos recuados, pela expansão do império Mandinga, da região do curso superior do Niger em que habitava, os Nalus já ocupavam no século XV, à data da chegada dos portugueses o território onde hoje se encontra. A sua cultura foi fortemente influenciada pela dos Bagas, outro povo que devido à pressão dos Mandingas foi forçado a tomar o caminho do litoral. A expressão mais conhecida e procurada pelos colecionadores é o Nhinte-kamachol, a representação da cabeça de uma ave, e a estilização da ave, na qual aparecem também traços de um rosto humano. Segundo os estudiosos esta ave será o pelicano, tida por ave mítica. E Fernando Galhano adianta: “O Nhinte-kamachol estava presente em todas as cerimónias relacionadas com a Simô, e presidia aos ritos da iniciação à puberdade dos rapazes. Nessa ocasião, são metidos chifres de gazela nos orifícios abertos no crânio da escultura entre as cerimónias, o Nhinte-kamachol fica guardado dentro de uma espécie de caixa circular feita de pauzinhos postos a prumo, ligados por duas cintas, do fundo da qual, junto às paredes, se erguem picos de porco-espinho. Mas há também outras máscaras Nalus de grande importância e veneração animista: o ‘Mrime, que dá boa sorte às casas e às colheitas, a máscara Numbé, que guarda a casa e combate os maus feitiços, a máscara Bandá, usada na cabeça dos dançarinos, e a máscara Koni que aprece encarnar os espíritos benfazejos".

Nhinte-kamachol


Fernando Galhano realça também os trabalhos dos Fulas e Mandingas na decoração do couro e no trabalho dos metais. As manifestações do trabalho em couro são as bainhas dos sabres e as almofadas. Os ourives trabalham ouro e a prata, pulseiras, colares, anéis, amuletos, etc. E recorda a bela olaria dos Balantas e dos Manjacos, bem como a panaria Manjaca oriunda dos teares de Cabo Verde. Para terminar, fala-nos dos Sônôs, disputados pelos grandes museus. Segundo o Teixeira da Mota, os Sônôs são constituídos por hastes de ferro de cerca de 1,2 metros de altura, com vários braços laterais terminando em esculturas de bronze, geralmente pequenas cabeças humanas. Eram os símbolos da realeza, sobretudo dos régulos Beafadas e eram também objeto de formas culto animista. O Nhinte-kamachol fascina-me pela singularidade dos perfis e pelo génio da escultura em madeira. São tão importantes para mim que pedi a um dos meus editores para o pôr na capa de um livro em que a minha heroína tinha vivido na Guiné entre os anos 1950 e 1960. Acho que ficou uma beleza
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15486: Notas de leitura (788): “Geração de 70”, por A. Santos Silva, Euedito, 2014 (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P15502: Tabanca Grande (479): José Fernando Estima, de Aguada de Cima, Águeda, ex-fur mil, CCAÇ 3546 / BCAÇ 3883 (Bissau, Bolama, Piche, Cambor, Canquelifá, Dunane, Ponte Caium, Camajabá, 1972/74)... Grã-tabanqueiro nº 708... quase cinco anos depois de um primeiro (e único) contacto telefónico


Foto nº 1





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Fotos:  © José Fernando Estima (2015). Todos os direitos reservados [Edição: LG]



1. Mensagem do nosso leitor e camarada José Fernando Estima, com data de 13 do corrente:

Sou ex-combatente,  fur mil José Fernando Estima,  da CCaç 3546 / BCaç 3883 [, 1972/74].  E,  como prometi ao Luis Graça há tempos,  sou a enviar algumas fotos da minha passagem por terras da Guiné, nomeadamente, Bissau, Bolama, Piche, Cambor, Canquelifá, Dunane, Ponte Caium, Camajabá.

Presentemente, estou reformado tendo trabalhado sempre na indústria,  ora como desenhador, ora como encarregado geral (Portugal e África do Sul).

Cumprimentos a todos os camaradas. Sempre ao dispor.

PS - Luis, sou aquela pessoa que te contactou por telefone há uns tempos (*)  e falamos acerca do teu amigo e meu camarada Jacinto Cristina, padeiro em Ponte Caium. Se quiseres,  na próxima mando mais fotos , pois tenho muitas (**). Um forte abraço.


2. Resposta do editor LG:

Camarada Estima, és bem vindo à Tabanca Grande!... Vou fazer a tua apresentação. Passas ser o nosso grã-tabanqueiro nº 708...

Como vês, já somos mais do que um batalhão. Vou dar conhecimento da tua presença à malta da tua companhia, registada no nosso blogue:

 (i) Jacinto Cristina, de Ferreira do Alentejo (representado pela sua filha, a engª Cristina Silva, que vive na Madeira; o Jacinto não tem email); 

(ii) Carlos Alexandre, de Peniche (, aliás, era conhecido pelo "Peniche", a última vez que falei com ele ao telefone, trabalhava nos estaleiros navais da sua terra); 

e (iii) Florimundo Rocha, de Alagoa, Algarve (também representado pela filha, Susana Rocha)...


Todos eles eram do 3º Gr Comb, "os fantasmas do leste"... Vão, por certo, ficar felizes por terem notícias tuas...

Quanto ao teu telefonema, já tem uns aninhos (*): deve ter sido em fevereiro de 2011... Na altura disseste-me que eras natural de Águeda, e que  trabalhavas em Aguada de Cima, mesmo junto ao Restaurante Vidal, um dos restaurantes de referência dos apreciadores de leitão. Deves conhecer os nossos camaradas da tua terra, Paulo Santigo e Victor Tavares...

Também, me pediste, nessa ocasião,  a tua entrada formal na nossa Tabanca Grande. Ficaste de pedir ajuda, a um dos seus filhos ou filhas, para digitalizar fotos do seu álbum. Pediste-me t6ambém para mandar um abraço à malta da tua companhia e do seu batalhão, extensivo a toda a Tabanca Grande. Demoraste uns aninhos, mas aqui estás!... Que sejas bem vindo!

Quanto às fotos do teu álbum, que dizes ter muitas, vai mandando, de preferências com legendas (data, local, etc.). Os créditos fotográficos serão sempre teus. Mandam as fotos digitalizadas com boa resolução. As que mandaste não estão más, mas podiam ter o dobro da resolução... E vieram sem legendas... Nas fotos nº 1 e 2, deves estar tu... Será que eras de arnas pesadas de infantaria ?  As fotos nº 4 e 5 dizem respeito ao obus 14... Estava em Piche ?... As fotos nº 6 e 7 parecem-me ser da ocasião em que a TECNIL, que estava a fazer a estrada de Piche-Buruntuma, sofreu um ataque com mortos e destruição de viaturas... As fotos nº 8 e 9 dizem respeito a um canhão sem recuo, montado num jipe, que foi à vida... Qual a razão ? Rebentamento de mina A/C ? RGP 2 ou 7 ? Autoexplosão ?.. A foto nº 10 deve ser sido tirada num destacamento, depois de um ataque...

E diz-nos algo mais sobre ti e a tua companhia... De que grupo de combate é que eras, quando passaste pela Ponte Caium, o que fazes atualmente, etc. Ah!, e não te esqueças de me mandar um foto atual, tipo passe, e outra, do tempo da Guiné, para a malta te reconhecer... Já são muitos anos de distância...  Serás o nº 708, em termos de antiguidade na Tabanca Grande: és o último que acaba de entrar...

Desejo-te boas festas para ti e toda a família. Muita saúde, feliz Natal. Luís Graça e demais editores e colaboradores.

3. Saudação da Cristina Silva, em nome do pai, Jacinto Cristina, com data de ontem:

Olá, meu amigo, Luís Graça!!

Espero que esteja bem, junto de toda a família!

Que bom ter notícias de mais um camarada da Guiné! Espero que em breve nos juntemos todos, a uma mesa portuguesa. com certeza, para estarmos e recordarmos...

Um grande beijo.

Cristina
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 8 de fevereiro de 2011 > Guiné 63/74 - P7742: O Nosso Livro de Visitas (106): José Fernando Estima, natural de Águeda, ex-Fur Mil, CCAÇ 3546/BCAÇ 3883, Piche, Cambor (1972/74)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15501: Blogoterapia (273): Notícias do nosso camarada António Paiva, ex-Soldado Condutor Auto do HM 241 (Carlos Vinhal)

Como sabem, ontem 16 de Dezembro, o nosso camarada António Paiva [foto à esquerda] fez anos e, como é usual, publiquei o habitual postalinho de aniversário. À noite, recebi dele uma chamada telefónica a pedir desculpa por não ir agradecer, pelos meios informáticos, as manifestações de parabéns a ele dispensadas, porque se encontra bastante doente, notava-se pelo falar, e não sentia o mínimo de ânimo para escrever sequer uma mensagem.

Pediu-me que fosse testemunha e portador do seu agradecimento a quem a ele se dirigiu através do Blogue e do facebook.

Não tendo eu recebido autorização para entrar em pormenores quanto à sua doença, e respeitando a reserva de vida a que qualquer ser humano tem direito, posso afirmar no entanto que o achei muito doente e desamparado. Como alguns de nós saberá, ele vive só. O seu apartamento é num 4.º andar e sem elevador, pelo que lhe adivinho tempos difíceis. Incentivei-o a, junto da Segurança Social e unidades hospitalares a que recorre, solicitar apoio domiciliário ou um internamento temporário até recuperar a saúde que lhe permita viver sozinho sem sobressaltos.

Ao António Paiva desejamos que se restabeleça rapidamente e votos de que tempos melhores regressem ao seu dia-a-dia. Ultrapassado este momento menos bom, poderá voltar a ver a vida com esperança e regressar ao nosso convívio tão depressa quanto possível.

Caro António, até Monte Real, onde te esperamos como novo.

Em nome da tertúlia recebe um abraço
Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 31 de julho de 2015 Guiné 63/74 - P14953: Blogoterapia (272): Segredos... de confessionário, precisam-se!... Neste nosso querido mês de agosto, baixa a G3, camarada, e conta-nos uma daquelas histórias que só se costumam contar na véspera da morte, para "alívio da consciência"....

Guiné 63/74 - P15500: (De)caras (26): Os homens grandes da Tabanca Grande saúdam a entrada do nosso ''mininu' Adilan (nome balanta)... e cuja autorização de embarque para a metrópole foi dada, ao "padrinho" Manuel Joaquim, em Bissau, em 29/4/1967, por certificado emitido pelo administrador de concelho Manuel da Trindade Guerra Ribeiro



Curioso documento, passado pelo administrador do concelho de Bissau, o célebre Guerra Ribeiro (que tinha vindo de Bafatá), de seu nome completo Manuel da Trindade Guerra Ribeiro, com data de 29 de abril de 1967, e que reza assim:

(...) Certifico, em face dos documentos que ficam arquivados nesta Administração, que o menor José Manuel Sarrico Cunté, de seis anos de idade, natural de Cunté, concelho de Bissorã, filho de pais desconhecidos, residente nesta cidade [de Bissau], está em condições e autorizado a embarcar para a Metrópole num dos navios da Companhia Colonial de Navegação, cuja saída deste porto está prevista para o dia 4 do próximo mês de maio, afim de fixar residência [ilegível], onde ficará sob inteira responsabilidade de Manuel Joaquim, de 26 anos de idade, furriel miliciano [ilegível], 1966, conforme termo de compromisso e responsabilidade assinado pelo mesmo e que fica arquivado nesta Administração (...)

O administrador Guerra Ribeiro, mais tarde superintendente no tempo de Spínola, era pai do nosso camarada Rui Guerra Ribeira (. Segundo ele me confidenciou,  há tempos, foi levado com escassos meses para Guiné onde o pai, transmontano,  fez a carreira de administrador; estudou na metrópole, da 4ª classe ao 5º ano do liceu, voltou à Guiné, voltou de novo  a Portugal para fazer a academia militar, foi capitão da 15.ª CCmds, em Angola, onde foi ferido num braço; regressou  à Guiné, para se recuperar; foi ajudante de campo do Governador e Comandante-Chefe Bettencourt Rodrigues, e assistiu à sua prisão, em 26 de abril de 1974,  quando o MFA de Bissau tomou de assalto a fortaleza de Amura e o destitui; o Rui foi, há muito convidado para integrar o nosso blogue; amigo do António Estácio tem participado nalguns dos nossos encontros anuais).




Guiné > Região de Cacheu > Mapa de Bigene (1953) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Cunté, entre Barro (a noroeste) e Bissorã (a sudoeste)... É a terra do Zé Manel, que tem o apelido "Sarrico" do 2º sargento Casimiro Sarrico, da CCAÇ 1419 (BissauBissorã e Mansabá, 1965/67),  veterano da guerra de Angola, que o trouxe do mato, na sequência de um operação militar, em janeiro de 1966, e que cuidou dele até ao acidente grave com granada de fumos que o vitimaria um a mês depois; e ainda o apelido da terra onde supostamente nasceu (Cunté). (*)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015)


1. Seleção de alguns comentários de ao poste P15493 (**)

(i) António Murta:

Querido amigo Manuel Joaquim:

A história da ligação da tua vida à daquele que viria ser o teu "mininu", é das páginas mais tocantes e bonitas de todas as que enriquecem o nosso blogue. Por isso nutro por ti a maior admiração e consideração. E pela grandeza que te conforma, tão bem disfarçada na tua simplicidade desarmante. Emociono-me sempre ao lembrar-me da tua corajosa atitude, sempre que te vejo numa foto ou numa referência. Tanto assim é que em março de 2014 criei uma “pasta” para onde descarreguei os postes completos da tua história com o José Manel, para ter à mão e reler quando quisesse. Mas nunca mais li a história completa devido à emoção. Chama-se a pasta "Adilan – Uma história emocionante". Não teço estes elogios de forma gratuita, mas pelas razões já apontadas e porque sei que poucos teriam a tua coragem e responsabilidade, mesmo atendendo às circunstâncias que descreves. Nessas circunstâncias, eu, que não me considero propriamente um bruto, passe a imodéstia, posto perante tal responsabilidade, (responsabilidade para comigo próprio, para com a criança, para com a minha mãe e para com a minha futura mulher), acho que se me evaporavam os álcoois num ápice e não assumia nada sem muita ponderação. Na verdade, acho que nunca seria capaz...Deixo-te um abraço fraterno e desejo-te as maiores felicidades, bem como às tuas meninas e ao “mano”, a quem também dou as boas vindas à Tabanca Grande, se me é permitido.A. Murta.


(ii) J. Gabriel Sacôto M. Fernandes:


Manuel Joaquim, sabes bem como admiro a história humana, magnífica que envolve a tua pessoa e família e o teu menino, o José Manuel Cunté. Claro, portanto, que pela minha parte, só é tardia a adesão dele à Tabanca Grande, pois que, para além do envolvimento directo e suas circunstâncias entre ti e o José Manuel, ele é na verdade um símbolo de muitas situações porque todos nós passamos na Guiné, num misto estranho de sacrifício e nostalgia, com más, mas também muito boas memórias de vária índole.

Um forte abraço aos dois, JS

PS - Quanto aos meios informáticos de que ele carece para se envolver no Blog, talvez possa resolver com um computador e respectivo monitor que não estou a utilizar.


(iii) Francisco Baptista:

Amigo Manuel Joaquim:

De ti espero sempre o melhor porque tu em generosidade e humanidade superas a maioria de todos nós. Eu, relativamente novo no blogue, desconhecia este teu gesto tão nobre e confesso que fiquei muito emocionado ao ter conhecimento dele. Uns apregoam o amor ao próximo, outros praticam esse amor. Bem-aventurado tu que o praticas,

Um grande abraço para ti e para o José Manuel Cunté. Francisco Baptista


(iv) Luís Graça:

Há histórias (humanas) que nos reconciliam com a humanidade... Esta é uma delas... Uma grande história de solidariedade e de amor, a de um grande "minino", o Zé Manel, e de um grande homem, o Manuel Joaquim, e de uma grande família, de 4 grandes mulheres... Merece ser aqui recordada neste Natal...

Sé bem vindo à Tabanca Grande, Zé Manel!... LG

Sê bem vindo, Zé Manel,
"Hha mininu" da Guiné,
Foste mascote de quartel,
Apanhado em Cunté.

Apanhado em Cunté,
Mas salvo por gente boa,
Tua tabanca agora é
A nossa querida Lisboa.

A nossa Lisboa querida,
Sede da Grande Tabanca,
Onde se brinda à vida
E a amizade é sempre franca. (***)



(v) Manuel Joaquim:
O Zé Manel mais as "manas", filhas do Manuel
Joaquim, a quem ele trata por "padrinho"


Ora cá temos o "nha mininu Adilan" como membro desta Tabanca!

Dei-lhe a notícia ao princípio desta noite, logo que cheguei a casa vindo do armazém da Ajuda Amiga~,  sito no quartel de Lanceiros 2, na Amadora (o antigo quartel dos Comandos), onde estamos a selecionar e a embalar bens para encher dois contentores com destino à Guiné e com embarque marcado para daqui a um mês.

Estou comovido com o teor dos comentários supra. Muito obrigado, meus caros camaradas.

O Zé Manel está bem. Poderia estar melhor se a grande empresa (que já foi) onde trabalha não andasse cheia de problemas económicos e financeiros. Mas ele ainda não foi despedido, resta-lhe de lá esta consolação.

João Sacôto, meu estimado amigo, muito obrigado pela tua intenção de ajuda. A resposta do Zé Manel à tua possível oferta foi de regozijo imediato. Temos de combinar o modo de processarmos a entrega, se for caso disso.

Luís Graça, irei exercer alguma pressão para o Zé colaborar diretamente neste blogue. Também eu gostava que o fizesse. Capacidades tem ele para o fazer, agora querer fazê-lo ... não sei. O "low profile" é marca sua quanto aos seus assuntos da Guiné-Bissau (refiro-me ao tempo que lá viveu e trabalhou, dos 17 aos 30 anos). Tenho esperança em que algo se há-de arranjar.

Um grande abraço global para os membros deste blogue, de que tanto gosto independentemente de concordar ou não com o que nele se publica.

Festas Felizes para todos!

Manuel Joaquim
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  10 de novembro de  2010 > Guiné 63/74 - P7261: História de vida (32): Adilan, nha minino. Ou como se fica com um menino nos braços - 1ª Parte (Manuel Joaquim)

(...) Bissorã, 11/ 01/ 1966. Ordem operacional para a CCaç 1419: "limpeza” da tabanca de C[unté], trazendo a sua população para Bissorã. Ao meu grupo de combate cabe-lhe ficar em casa, aguardando o dia seguinte com a missão de organizar a recolha de toda a gente na ponte (destruída) sobre o rio Blassar, limite transitável da estrada Bissorã/Barro. (...)

(**) Vd. poste de 15 de dezembro de  2015 > Guiné 63/74 - P15493: Tabanca Grande (477): José Manuel Sarrico Cunté - "mininu" Zé Manel do nosso camarada Manuel Joaquim - 706.º Grã-

Guiné 63/74 - P15499: Tabanca Grande (478): Armando Silva Alvoeiro da Costa, ex-Fur Mil Mec Auto da CCAV 3366/BCAV 3846, Susana, 1971/73 - 707.º Grã-Tabanqueiro

1. Mensagem do nosso camarada e novo tertuliano Armando Silva Alvoeiro da Costa (ex-Fur Mil Mec Auto da CCAV 3366/BCAV 3846, Susana, 1971/73), com data de 14 de Dezembro de 2015:

Camarada Luis
Apresenta-se ao serviço, do blogue e para o que for preciso, Armando Silva Alvoeiro da Costa, Furriel "Rodinhas", servi na CCAV 3366 de 1971 a 1973 em Susana no pelotão de manutenção auto, furriel miliciano do Serviço de Material.

Um abraço para ti e para todos os camaradas que tenham acesso ao blogue, e felicito-te pela ideia e pelo trabalho realizado no blogue.
Fico feliz pelo reencontro e estou disponível para partilhar fotos deste período histórico de que fizemos parte.

Armando Costa

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Susana, extremo noroeste da Guiné. Chão Felupe.

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2. Comentário do editor

Caro Armando Costa
Sê bem-vindo à nossa tertúlia.
És a prova de que, ao fim de 12 anos, este Blogue ainda tem muito para dar. Como tu, há muitos camaradas que demoram a juntar-se a nós e a dar o seu contributo para refrescar esta página que está necessitada de mais fotos e textos que retratem, e registem, os acontecimentos vividos por nós em terras da Guiné, nos diferentes anos e chãos. Cada um de nós foi uma forma de ver e sentir aquela guerra pelo que todos somos únicos.
Ficamos então receptivos às tuas memórias escritas e fotográficas.
Nesta tua apresentação faltou a jóia de inscrição, uma pequena história passada contigo, ou não, e uma ou outra foto, legendada, daquelas que tens por aí e julgavas já não ter utilidade, mas que podem ser de novo apreciadas pelos teus pares e, quem sabe, reavivar memórias.
Na tertúlia podes encontrar três ilustres camaradas do teu Batalhão, a saber: Luís Fonseca e Delfim Rodrigues da tua Companhia, assim como o Joaquim Cruz da CCS.
Antes de terminar deixo-te um abraço de boas-vindas em nome da tertúlia e dos editores desta página.
O teu camarada e novo amigo
Carlos Vinhal
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Nota do editor

Poste anterior da série de 15 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15493: Tabanca Grande (477): José Manuel Sarrico Cunté - "mininu" Zé Manel do nosso camarada Manuel Joaquim - 706.º Grã-Tabanqueiro

Guiné 63/74 - P15498: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XXVI Parte): Uns continuaram nessas guerras, outros noutras - 2

1. Parte XXVI de "Guiné, Ir e Voltar", série do nosso camarada Virgínio Briote, ex-Alf Mil da CCAV 489, Cuntima e Alf Mil Comando, CMDT do Grupo Diabólicos, Brá; 1965/67.


GUINÉ, IR E VOLTAR - XXVI

Uns continuaram nessas guerras, outros noutras (II)

O Capitão Rubim fez 4 comissões, num total de 9 anos em África. Nos anos de brasa envolveu-se ou foi envolvido pelos acontecimentos do 25 de Novembro, esteve preso em Custóias e em Caxias. Depois de ter passado à reserva dedicou-se àquilo que sempre o interessou, o estudo da história militar. Foi professor na Academia Militar, deu aulas a mestrandos nas Faculdades de Letras de Lisboa (Universidade Clássica) e Coimbra, montou vários projectos museológicos, como a Artilharia da Fragata D. Fernando, o Museu da Escola Prática de Artilharia, o Forte de Oitavos em Cascais, foi colaborador da Comissão Nacional dos Descobrimentos e do IPPAR num estudo que realizou sobre a Torre de Belém e tem feito palestras e conferências para alunos de Escolas Primárias, professores universitários, idosos iletrados. Tem vários trabalhos publicados, a maioria como separatas da Revista de Artilharia. E continua a investigar e a escrever enquanto para isso se sentir com forças.

O Neves da Silva, depois de regressar à metrópole, pensou acabar a licenciatura, a necessidade do sustento imediata não lhe deu tempo, decidiu ingressar num corpo militarizado e passar ao quadro permanente. Como capitão foi destacado para a Presidência da República, forneceu a segurança a dois presidentes, acompanhando-os para todo o lado, deu a volta ao mundo mais que uma vez, viu muita coisa, até um em cima de uma tartaruga. Esteve lá mais tempo que o Almirante Américo Tomás, só abandonou o Palácio de Belém quando, como Coronel, passou à reserva.

A guerra foi-lhe madrasta, a morte e o sofrimento andaram sempre com ele. A primeira vez que saiu a comandar os "Vampiros" o Vilaça passou por uma mina anti-pessoal, não a pisou, caiu a rifa ao Soldado Florêncio Terêncio. O Vilaça e os que estavam próximos voaram sem terem asas.
Quando deram pelo que tinha acontecido, faltava uma perna ao Florêncio. Não gemia, mas ainda disse umas palavras: "Meu alferes, isto não é nada, para a semana já estou operacional..."
A partir daí sempre que o Vilaça ia para o mato, por isto ou por aquilo, as coisas nunca correram bem.
Já na metrópole, o pai deitou-lhe a mão, trouxe-o para a loja de acessórios de automóveis que tinha em Braga. Com a psiquiatria sempre atrás, passaram-lhe uma receita, que arranjasse namoro, o que fez com uma linda bracarense, teve filhos, vendeu rolamentos, desodorizantes, casquilhos, óleos, pastilhas para os travões.
Separou-se da mulher, o pai morreu-lhe, passou a loja. Continuou a trabalhar em acessórios de automóveis nos arredores do Porto, ia passar os fins-de-semana a Braga com os filhos, já adultos e encarreirados. Passava largos períodos de tempo sem dar notícias, depois surgia outra vez como se tivesse interrompido a conversa no dia anterior.
A única coisa que o atrapalhava ultimamente era uma poliartrite, que quase o imobilizava. Até que um dia deu outras notícias. Que afinal por trás do tal reumatismo se escondia um cancro no pulmão. Em meia dúzia de meses, tirou um pulmão, fez quimioterapia, desapareceram as dores, passou umas belas férias em Caminha num Setembro tranquilo, voltou outra vez todo entusiasmado até às vésperas do Natal de 2006. "Olha pá, estou a falar-te para me despedir! Estou nas últimas. Um abraço, pá!".
Ainda conheceu a neta dias antes de ser enterrado no cemitério de Monte de Arcos, Braga.

O Rainha foi viver para a sua terra à beira-mar, no regaço da família, o pai influente meteu-o numa multinacional de papel. Um abraço muito apertado à sua mais que tudo reiniciou o processo, rumo ao altar, filhos a seguir, atirado para a frente como sempre. Tal como muitos outros, envolveu-se no trabalho, deixou de dar notícias, até o nome desapareceu das listas telefónicas. Soube-se depois que deu umas voltas à vida. Separou-se, casou outra vez, reformou-se, separou-se e voltou a casar, mudou-se para o Algarve, regressou à Figueira.
Vamos lá a ver se desta é de vez! Com estes imbróglios todos foi ganhando peso, chegou aos 170 quilos. Pensa em dietas e em gatos persas e também não esquece a pistola que apanhou, em Catungo, ao Pansau Na Isna e que, muitos anos mais tarde, serviu para ser julgado em Tribunal por ter uma arma de guerra em casa. Como se soube? A mulher, aquando do divórcio não lhe perdoou, pegou na arma e levou-a à Polícia.

A maior parte dos soldados desapareceu das vistas. Uns foram para França, um ou outro para o Brasil, Canadá, Estados Unidos, espalharam-se quase todos pelo estrangeiro, na construção civil e comércio. Dos que se sabe terem cá ficado, um ou outro foi sendo visto em Guimarães, Castelo Branco, num lado qualquer por aí.

O Alferes Godinho, um dos Comandos da Operação Tridente no Como, e mais tarde o chefe dos "Camaleões", embalado com a velocidade dos últimos tempos na Guiné, estampou-se com gravidade numa recta do seu Alentejo e recuperou muito devagar. Empregou-se a seguir num banco da baixa lisboeta onde trabalhou até morrer há alguns anos com uma cirrose hepática.

O Valente pequeno, o Mário Valente, continuou na tropa nos dois primeiros anos, no Ministério do Exército ali ao Terreiro do Paço, depois trabalhou quase até à idade da reforma em Lisboa, no representante de uma das maiores marcas alemãs de automóveis até ser apanhado também pela onda das fusões e das rescisões de contratos.
Com tempo disponível apesar de ser avô, ainda geriu durante uns anos, graciosamente, um canil para cães abandonados, perto da casa onde cuida da mulher, quase inválida, na margem sul.

Cerimónia do 10 de Junho de 1963
Imagem pertença do autor

O Saraiva mal acabou o curso da Academia Militar, formou uma Companhia de Comandos em Lamego, a 9.ª. Foi para Moçambique, à procura da Frelimo, uma mina anti-pessoal encontrou-lhe um pé, era uma vez um Comando, desfez-lhe a carreira num segundo1. Depois veio o 25 de Abril e os tempos turvaram-se. Presença habitual nas cerimónias do 10 de Junho na Praça do Comércio em Lisboa, não se sentiu confortável com a turbulência que se seguiu e ausentou-se do país.
Meses depois, a Associação de Comandos recém-formada quis fazer um inventário de todos os Comandos, descobriu-lhe o paradeiro em Madrid e enviou uma carta dirigida ao Excelentíssimo Senhor Capitão Comando Maurício Leonel de Sousa Saraiva. Duas ou três semanas depois recebeu a carta de volta metida dentro de um envelope que dizia “Não sou Exmº Sr., sou Capitão Comando na reforma extraordinária compulsiva do ex-Exército Português”.
Depois desta breve troca de correspondência deixou de se ouvir falar dele uns tempos, os Abris abertos não eram propícios a um guerreiro como ele.
Anos mais tarde reintegraram-no. Não que o tivesse pedido. Passou à reserva como Coronel em Setembro de 1987 e viveu mais uns anos até um cancro na laringe tomar conta dele, em Março de 2002.

O Capitão Garcia Leandro depois da Guiné foi para Timor como Chefe de Gabinete do Governador e já depois do 25 de Abril foi Governador de Macau entre 1974 e 1979.
Foi professor do IAEM e professor convidado do ISCSP entre 1999 e 2005, para o Mestrado de Estratégia, sendo actualmente professor da U.C.P., da U.N.L. e da U.A.L., para Mestrados relacionados com a Segurança, Defesa, Paz e Guerra.
Desempenhou várias funções. Conselheiro Militar da Delegação de Portugal junto da OTAN (PODELNATO) Bruxelas, Comandante Operacional das Forças Terrestres, Comandante da Componente Militar da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO), Director do IAEM, Vice-CEME, Director do I.D.N. e Presidente do Conselho Coordenador do Ensino Superior Militar. Representou Portugal em múltiplas reuniões internacionais e tem publicado vários trabalhos e artigos e participou em conferências em Portugal e no Estrangeiro no âmbito da Estratégia, das Relações Internacionais, da Gestão de Crises, dos Sistemas Colectivos de Segurança e das Missões de Apoio à Paz. Foi ainda Presidente do OSCOT (Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo), Membro do “Academic Council on the United Nations System”, Académico Correspondente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e Membro da Assembleia Estatutária da Universidade Aberta.

O Alferes de Barro, o Toilas, entrou para a Refinaria da Petrogal em Leça. Farto de trabalhar por turnos de 8 horas seguidas ingressou no ensino e em 2005 ainda dava aulas.
Depois de um grave acidente na auto-estrada Lisboa-Porto nunca mais foi o mesmo, traumatismo craniano, pneumonia, depressões, umas coisas atrás das outras. Como se soube? Coincidências! Num curso de formação na Curia, ao jantar de um desses dias, sentou-se num lugar vago, no meio deles, trinta e tal. Palavra puxa palavra, o jovem sentado em frente era filho do Toilas. Não perdeu tempo, pegou no telemóvel e ligou para o pai. Depois passou-lhe o telefone. Toilas, sabes quem está em frente ao teu filho? Lembras-te do tarrafo de Buba, de Barro e Bigene, de Sano? Não pode ser! Pode, pode, Toilas!

O Coronel Nobre Silva, o de Teixeira Pinto e de Catió, o tal do capacete, terminou a comissão da Guiné antes do tempo, regressou à metrópole amargurado, sem nunca saber quem foi ou quem foram os engraçadinhos que lhe encostaram o tal pau à cabeça. Pouca gente reparou no anúncio que, há uns anos, a Servilusa pôs no Diário de Notícias comunicando o seu óbito.

O Carlos Morais, o Carlos da Helena, quando chegou a Lisboa, tinha o pai internado nos cuidados intensivos do serviço da cardiologia do Santa Maria. O médico acabara de lhe dizer que o enfarte não fora de grande extensão, uma vida regrada, mais calma e tudo se iria compor, quando a coisa se complicou. Enterrou-o na semana seguinte. Tomou conta dos negócios, abriu uma pequena fábrica de lanifícios para os lados de Portalegre, casou-se com a secretária um ano depois na Estrela, os filhos vieram a seguir.
Muito dinheiro ganho nos tempos da bolsa, antecipou-se à crise da têxtil, vendeu as fábricas, mudou de ramo, enveredou pela restauração primeiro, depois alargou-se ao comércio da noite, muitas brancas depois passou tudo para os filhos. A última vez que ouviu falar dele foi que vivia num monte para os lados de uma barragem no Baixo Alentejo.

A bela Helena do Carlos Morais regressou mais cedo do que o contrato estabelecia. Mas o pai do Carlos, reconhecido, liquidou-lhe tudo, como se tivesse feito a comissão inteira, 60.000 escudos, na altura uma fortuna para uma moça tão nova, mais o Austin Sprite quando chegasse no navio. Abriu uma loja de pronto-a-vestir para crianças.

O Capitão Marques, o artilheiro das boites, prosseguiu na carreira militar. Quando acabou a comissão tinha à espera a família e um MG verde-escuro com capota de lona preta. Foi colocado no Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Gaia, antes de voltar a ser mobilizado. O 25 de Abril também o apanhou, calhou virar-se para a resistência às mudanças, foi para o Brasil primeiro, depois para Madrid, fez-se colaborador do General Spínola, até tudo acalmar. Até morrer, amante da boa vida, andou sempre calçado com os últimos modelos que faziam capa dos Automobiles.

O Furriel Valente de Sousa passou à peluda, 28 dias depois de ter chegado a Lisboa. Casado, com um filho de berço, optou pela vida civil. A ideia de ir para o Biafra, a mania das guerras, desapareceu tudo, mais depressa ainda quando os apertou nos braços. Nunca mais vos deixo! Arranjou logo trabalho nas Páginas Amarelas, andou que se fartou pelo país todo, entusiasmou-se, foi promovido. Nunca se soube porquê, depois dos verões quentes dos meados da década de 70, foi até ao Brasil, deve ter gostado porque ficou por lá.
Nunca mais deu notícias. Há poucos meses alguém disse que já tinha morrido.

O General Schulz governou a Guiné de Maio de 64, altura em que o PAIGC começou a intensificar a luta armada, até Maio de 68, quando foi substituído pelo General Spínola. Na metrópole era o Director do Instituto dos Altos Estudos Militares quando o Major Fabião, o tal de Tite, denunciou publicamente, logo no início de uma aula, que estava a ser planeada uma intentona da extrema- direita liderada pelo General Kaulza que tinha em vista a eliminação física dos Generais Spínola e Costa Gomes. Depois do 25 de Abril foi preso em 14 de Janeiro de 1975, acusado de, entre 1958 e 1961, ter sido ministro de Interior da ditadura, e, como tal, responsável político pela PIDE/DGS.
Na cela, confessaram antigos responsáveis pela prisão, deram-lhe uma colher como talher. Esteve detido até Janeiro de 1976, vindo a ser julgado no 3.º Tribunal Militar Territorial de Lisboa e absolvido em sentença de 5 de Abril de 1982. Curiosamente nada sucedeu aos civis que desempenharam funções como ministros da mesma pasta.
Retirou-se para a avenida dos Estados Unidos da América, para um andar que tinha, ali para os lados dos cinemas Quarteto até morrer em 1993.

O conhecimento da praia dos Biscoitos, da Terceira, viu-a muitos anos depois em Lisboa, numa rua a descer para a Avenida da Liberdade, quem diria, tão mau aspecto, velha, gorda, um perfume tão vulgar.
A Dora veio para Lisboa logo depois do 25 de Abril. Quando chegou à Portela, disse ao taxista que queria ir para Cascais, com a rua e o número na mão. Em frente a uma vivenda de muro alto amarrou-se à campainha. Uma criada com farda abriu o portão grande e viu-a, boina verde inclinada na cabeça, dois malões no chão. Zé Andrade2 está? Abriram-lhe a porta, a mãe do Andrade aproximou-se, hesitou, não pôde fugir com o rosto. Telefonou para Lisboa para o emprego do filho, contou-lhe a novidade, e agora o que queres que faça? A seguir, aberto o sorriso, sentou-se com ela, fez-lhe companhia no chá com torradas.
Depois foi viver para Odivelas, a seguir mudou-se para Birre, perto de Cascais. Durante alguns anos, poucos, trabalhou num jardim-de-infância. Com olho para o negócio, tornou-se sócia de uma pequena empresa de limpezas, onde deu emprego a jovens africanas, brasileiras, ucranianas e moldavas. Nunca foi muito de se deixar perder por homens, que se saiba. O único amor que se lhe conheceu foi tiro e queda. Numa montra de um stand de viaturas usadas da Mercedes, sem rugas, prateado, novinho em folha. Um SLK.

O Vasco Correia3, o pai da Teresa, ficou viúvo dois anos antes da independência. Depois do golpe do Nino, retirou-se para Cabo Verde.

O Capitão dos Comandos novos, o Alves Cardoso, estava em Angola quando se deu o 25 de Abril. Envolveu-se, ao que se diz, na luta contra o MPLA e foi ferido com gravidade.
Depois, deu corda aos sapatos para o sul de África, onde se manteve uma dezena de anos até regressar. Um olhar conhecido dele, encontrou-o muitos anos depois, arrefecidas as brasas, na praça de Londres, em Lisboa. Cara para o lado, sempre a cultivar o mistério. Mas sempre um grande capitão. Morreu em 2014.

Nino, sentido, porra! Uma lenda da guerra da independência. No PAIGC desde 1960, responsável por zonas de guerrilha, preso em Catió por um acaso fortuito pelas autoridades, circulava sem o recibo comprovativo do pagamento do imposto de circulação, não o das viaturas, claro.
Um cabo cipaio, por sinal casado com uma irmã de um tal João Bacar Jaló, que, poucos anos depois, a guerra viria a tornar uma figura mítica, libertou-o. Membro do bureau político do Partido logo em 64, chefiou a resistência no Como ao famoso 490 de cavalaria e foi no Como que os Comandos mais antigos experimentaram a sua têmpera, de tal forma que sempre que se falava no nome do Nino, fosse na instrução, no Hotel Portugal, na casa da Dora, nas casas de meninas, fosse onde fosse, punham-se todos em pé, calados, em sentido. Uma praxe como qualquer outra, claro!
Nino Vieira continuou a subir na hierarquia. Responsável político-militar da frente sul, responsável nacional das operações militares, mais tarde, foi ele próprio, em pessoa, quem comandou os ataques ao aquartelamento de Guileje. Se alguém tinha que ser, ao menos que fosse ele.
Após a independência foi Comissário de Estado das Forças Armadas, 1.º Ministro, Presidente do Conselho da Revolução, até correr com o Luís Cabral, o irmão de Amílcar, e matar a união política entre Cabo Verde e a Guiné.
Anos depois, na sequência dos acontecimentos de Casamansa, outro golpe, mas agora contra ele. Retirou-se para Portugal, Gaia, onde oficialmente residiu uns anos até se decidir por nova candidatura à Presidência da República da Guiné-Bissau, desmentindo assim as previsões dos que defendiam que a sua carreira político-militar tinha acabado. Mas as coisas não correram bem. Nem para a Guiné-Bissau, nem para o Nino. Em mais uma crise político-militar, já depois de se ter visto ameaçado em finais de 2008, Nino foi morto numa sangrenta madrugada de Março de 2009.

O Capitão Valente da CCS do QG passou à reserva pouco tempo depois, a saúde já não era a mesma, retirou-se para o seu Ribatejo, para a sua roda de amigos, uma patuscada de vez em quando, um copo de tinto ao lado que só fazia bem. O orgulhoso casapiano não gozou muito tempo esses dias, uma alma tão boa merecia estar viva ainda, ou se calhar foi melhor para ele, depende.

O Alferes Gião fez dois meses de férias quando chegou, mudou-se do Alentejo para a capital, meteu-se nas engenharias, especializou-se em informática. Uma grande empresa do ramo chamou-o para organizar o departamento, por lá andou anos a fio, até que a onda das rescisões também o apanhou, o que lhe deu muito jeito. Instalou-se num condomínio de luxo para os lados de Carnaxide e começou a dar aulas de sistemas de informação numa escola superior em Lisboa. Mais de 30 anos depois, à porta do mercado de Alvalade, num sábado de manhã, encontraram-se, um a subir as escadas, o outro a descer, com outros óculos e ainda mais baixo que antes.
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Notas:
1 - O Capitão Maurício Leonel de Sousa Saraiva foi várias vezes condecorado. Na sua "Caderneta Militar", entre outras, constam duas medalhas de Valor Militar com Palma, a de Prata e a de Ouro, e a Torre e Espada, Grau de Oficial.
2 - Nome fictício
3 - Nome fictício

(Continua)
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Nota do editor

Poste anterior da série de 10 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15473: Guiné, Ir e Voltar (Virgínio Briote, ex-Alf Mil Comando) (XXV Parte): Uns continuaram nessas guerras, outros noutras - 1

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Guiné 63/74 - P15497: Historiografia da presença portuguesa em África (67): Na agonia da presença portuguesa em Ziguinchor (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Novembro de 2015:

Queridos amigos,
Convida a leitura do documento correspondente ao abaixo-assinado de negociantes portugueses a viver em Ziguinchor.
Todo este período correspondente à primeira metade do século XIX é de puro declínio, os franceses não se foram infiltrando na região do Casamansa guerreando, simplesmente não encontraram resistência, estamos no fim do comércio negreiro, as hostilidades dos autóctones é enorme, basta ler os livros de René Pélissier e de Pierre Mendy. E a carta diz tudo, era uma aventura atravessar de Ziguinchor até Cacheu, pelo menos três portagens.
Curiosamente, enquanto tudo isto se passa, Honório Pereira Barreto, com dinheiro do seu bolso e hábil diplomacia dilata o território da Coroa. E quando chega a Convenção Luso-Francesa de 1886 os franceses impuseram as suas condições: ficaram com o Casamansa e deram-nos a península de Cacine.
A História dita as suas regras: o Casamansa que ainda hoje ver respeitada a sua identidade Mandinga e a região de Cacine aderiu facilmente à propagando do PAIGC.
Para que conste.

Um abraço do
Mário


Na agonia da presença portuguesa em Ziguinchor

Beja Santos

Folheava os diferentes números do boletim “Ecos da Guiné”, que teve alguma importância informativa oficial no início da década de 1950, quando, no número 29 de 1 de Dezembro de 1952 encontrei um documento trazido por Alexandre Almeida, um abaixo-assinado enviado por um conjunto de negociantes de Ziguinchor ao Governador-Geral de Cabo Verde, em 13 de Abril de 1944, é este o seu teor:
“Os abaixo-assinados, negociantes e comerciantes do presídio de Ziguinchor, vão hoje levar à presença de V. Ex.ª a mais justa das queixas e esperam que V. Ex.ª os atenda como julgar merecer.
Desde há muitos anos que este Presídio vive absolutamente abandonado por Cacheu, sem providência e sem socorro, apenas é lembrado por este quando tem a enviar alguns soldados insubordinados e de péssima conduta.
Há pouco, os estrangeiros intentaram roubar o único negócio que ainda os portugueses fazem com vantagem que é o do sal, em terras de Felupes Jugubel; foi um particular e não o governo quem obstou a tal, fazendo com dispêndio contratos com o gentio de mora naquelas paragens.
Não obstante este culpável desamparo, os abaixo-assinados têm audácia de asseverar a V. Ex.ª que é o presídio mais respeitado do gentio; porque os abaixo-assinados e o povo não duvidam expor a vida para vingar o mais leve insulto feito à Bandeira Nacional.
Os abaixo-assinados não recebem nem exigem louvores por factos que são em cumprimento do dever. Mas se os abaixo-assinados não podem encómios e distinções também não querem ser ofendidos nos seus interesses já tão minguados em todo este Rio Casamansa.
Acaba de ser ordenado que os abaixo-assinados não possam comprar fazendas aos navios que aportam este presídio, devendo eles ir comprá-las a Cacheu, cuja viagem é, além de dispendiosa, perigosa. A incúria de tal ordem é fácil de ser demonstrada. Os habitantes de Ziguinchor têm já que lutar contra a ruinosa concorrência estrangeira que se apossou deste riquíssimo rio, pois em 1837 os franceses fundaram uma feitoria em Sejo; sendo de notar que são estes mesmos estrangeiros quem nos vende géneros por um preço tal que por pouco mais ou menos custam ao gentio, onde os abaixo-assinados vão negociar.
Ora, se além dos direitos já pesados que os abaixo-assinados hão de pagar acrescer as despesas de viagem até Cacheu, em canoas que pouco ou nada carregam, decerto os abaixo-assinados não poderão vender os seus géneros ao gentio, e ver-se-ão reduzidos à miséria que será a paga pelos seus sacrifícios!
A viagem de Cacheu é bastante perigosa como já se disse: porque tem de se passar um estreito, onde se pagam três impostos a três régulos gentios, demasiadamente insolentes. Conquanto esta proibição de negócio ainda não se tenha posto em vigor, contudo existe, de direito e é contra ele que os abaixo-assinados reclamam providências de V. Ex.ª.
À vista do exposto, os abaixo-assinados rogam a V. Ex.ª se digne de terminar que fique de nenhum valor a ordem que proíbe tão injustamente aos habitantes de Ziguinchor comprar fazenda aos navios que vêm a este porto.
Não pense V. Ex.ª que os abaixo-assinados se negam a pagar os direitos: eles os têm pago e continuarão a pagar”.

Segue-se uma lista de assinaturas encabeçada por Francisco Carvalho Alvarenga.

Não se desconhece que a presença portuguesa na região é débil, os conflitos com as etnias não abrandaram a despeito dos efémeros tratados de concórdia. Basta recordar o que se passa em Bissau, em que os militares e negociantes vivem dentro da fortaleza e quando saem para Bandim ou Intim são imediatamente hostilizados. Fora formalmente abolida a escravatura e não se vê a solução à vista para manter em condições a fixação de população. Fomos abandonando a região de Casamansa e os franceses infiltraram-se insidiosamente. Mesmo quando invocamos a nossa presença histórica na região do Casamansa, as autoridades de Paris não nos atenderam. Fomos libertando os escravos, a decadência atingiu tal proporção que a Coroa tomou medidas drásticas, separando a Guiné de Cabo Verde, dando um governador à região.

Atenda-se ao teor da carta: Cacheu, debilitada, praticamente ignora o presídio de Ziguinchor, só se lembra desta posição quando é necessário recambiar corrécios, os motins de tropa indisciplinada, maltrapilha, eram prática habitual; e atravessar o Norte da Guiné era uma aventura dispendiosa. Este documento é contemporâneo de dois fenómenos importantes: o aceso da resistência das etnias à presença portuguesa e o esforço admirável de Honório Pereira Barreto que cedeu propriedades e fez contratos com régulos para aumentar o território efetivo da Coroa. O investigador António Duarte Silva já se referiu a esta situação: ao começar a segunda metade do século XIX a presença portuguesa na Guiné, embora antiga, mantinha-se muito limitada. Reduzia-se a uma praça (a de Bissau), quatro presídios (Cacheu, Geba, Farim e Ziguinchor), um posto (Bolor) e a Ilha de Bolama. Todos estes estabelecimentos se encontravam sujeitos ao governo das ilhas de Cabo Verde e como refere Honório Pereira Barreto estavam permanentemente “cercados por gentios mais ou menos insolentes, mas que geralmente dominam os Portugueses (…) Dos gentios vizinhos aos nossos estabelecimentos vêm os sustentos (…) Os habitantes, à exceção dos poucos notáveis, seguem os costumes dos gentios, de que descendem (…) São preguiçosos, indolentes, inertes, e a nada se querem aplicar; podendo, se quisessem, levar a grande escala a agricultura, pois o terreno é fecundo”. É neste contexto de letargia que outro fenómeno importante irá ocorrer, importância que extravasa a Guiné: os Fulas submetem os Mandingas e entram ostensivamente no território que é hoje o Gabu. Irão ter um papel determinante na pacificação, tornar-se-ão o mais poderoso aliado da potência colonial.



Ziguinchor tem muitas parecenças com o Bissau Velho. Quem me fez esta observação foi alguém que me ajudou a preparar o contexto do meu livro “Mulher Grande”, alguém que viveu no Norte da Guiné entre 1952 e 1961 e que ia regularmente a Ziguinchor. Aqui viveu Luís Cabral no tempo da luta de libertação, era um ponto fulcral devido à presença de bastantes comerciantes cabo-verdianos e de muitos guineenses que escaparam à guerra.
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de dezembro de 2015 Guiné 63/74 - P15495: Historiografia da presença portuguesa em África (66): James Pinto Bull, deputado guineense (1913-1970), da União Nacional, comenta na Assembleia Nacional,em 10/2/1968, a visita oficial do presidente da República à Guiné (que teve início em 2/2/1968, e cujo roteiro incluiu Bissau, Bafatá, Gabu, Bolama, Bubaque e Safim)