sábado, 17 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16842: Manuscrito(s) (Luís Graça) (104): uma boa oferta de Natal o livro do José Ferreira da Silva, "Memórias Boas da Minha Guerra" (Chiado Editora, 2016, 216 pp.)... Um bom antídoto contra o stress natalício e a tristeza que nos invade ao cair da última folha do calendário...


Capa do livro. Cortesia de Chiado Editora



O Zé mais o neto (Foto de Juvenal Amado,
Serra do Pilar, V.N. Gaia, 2016)
1. Mensagem do José Ferreira da Silva com data de 10 de novembro passado:

[Foto à direita: José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), mais o neto, em Vila Nova de Gaia]

Caro Tabanqueiro Mor

Como é bem do teu conhecimento, o lançamento do meu livro "Memórias boas da minha guerra" tem corrido pelo melhor. Devo-te muito e ao nosso Blogue, este sucesso. Gostaria de te enviar um exemplar autografado. Para isso, preciso que me indiques o endereço. OK?

Depois do lançamento no Salão Nobre da Serra do Pilar e da apresentação na Tabanca de Matosinhos, vejo-me na obrigação de fazer uma apresentação cá na terrinha de Crestuma. Por isso, e antes de novos eventos, marquei para o dia 17 de Dezembro (11 horas) essa apresentação no edifício da Junta da Vila de Crestuma.

Como me palpita que virás para norte, para a Quinta do Douro, passar a quadra natalícia, gostaria de saber se poderás dar-nos a honra de ser o Apresentador do livro. O ambiente será porreiro, até porque já está assegurada a presença do Bando [do Café Progresso], que já marcou um almoço convívio na Casa dos Leitões.

Aguardo boas notícias.
Grande abraço,
José Ferreira


2. Comentário de LG:

Meu caro José:

É uma honra o teu convite. Como logo te respondi, apeteceu-me aceitá-lo, de imediato, mesmo não tendo a certeza de aí poder estar, em Crestuma, hoje, dia 17...  Na realidade, não pude mesmo estar aí, hoje, de manhã, mas sei que estive bem representado pelo meu camarada, amigo e coeditor Carlos Vinhal, na companhia  do pessoal do Bando do Café Progresso. O Carlos, coadjuvado pela Dina (que também é nossa grã-tabanqueira e talentosa  fotógrafa), irá por certo fazer a devida reportagem, completíssima, do evento.

Já viste também, seguramente., a "nota de leitura" que de imediato fez, do teu livro, o nosso camarada Mário Beja Santos.

Obrigado, Zé,  pela tua gentileza, simpatia, amizade e camaradagem,  ao mandares-me pelo correio o teu livro com a dedicatória que acima reproduzo e que não podia deixar de me sensibilizar. Mas não tens que agradecer o que temos feito por ti, já que tu tens feito muito mais pelo blogue que é de todos nós.

Convenhamos que a altura é  tramada, esta quadra natalícia, em que as solictações são muitas e o tempo é sempre curto. Não é por acaso que se fala do... "stress de Natal" ... Mas, enfim, também é uma boa altura para divulgares o teu livro e, se possível, recuperares alguma da  massa empatada no negócio... Como é sabido, também não há livros grátis... Os camaradas da Guiné pagam para editar os seus livros nas editoras comerciais... De borla, só no nosso blogue, em formato digital... E aqui já se revelaram dezenas e dezenas de camaradas com talento para a escrita... Por isso  fazes muito bem em aproveitar esta quadra festiva, em que  as pessoas, mesmo empobrecidas por estes últimos anos de austeridade cega,  estão mais calorosas, afetuosas e dispostas a abrir o cordão à magra bolsa,,,

Sou o pirmeiro a promover o teu livro: em papel ou em ebook, é uma boa oferta de Natal,  o teu livro ,,, Eu continuo a preferir o papel, leva-se para todo o lado, do comboio ao WC, da cama à esplanada, da praia ao banco do jardim... E eu ainda sou do tempo em que se tomavam notas e se sublinhava, a lápis, as páginas dos livros em papel... Sou incapaz de ler um livro sem sublinhar, sempre a lápis... Mais: eu ainda sou do tempo em que se lia livros, e livros em papel...

Como te disse, abri o exemplar autografado que me ofereceste, num sítio algo insólito, inesperado, senão mesmo inapropriado, o consultório... do dentista. E as histórias que reli, enquanto esperava a minha vez, confesso que não perderam "o encanto da primeira vez"... Mais do que isso, já li ou  reli, deliciado, divertido, quase metade das tuas "memórias boas da guerra" (27 ao todo, se não erro). E começo por louvar o título que escolheste (e que o mesmo da tua série no blogue)... "Memórias boas da minha guerra" é saudavelmente provocatório... Mas tu és o próprio a avisar, citando o Pablo Neruda, que "só um louco pode desejar guerras", já que a "a guerra destrói a própria lógica da existência humana"...

Essas histórias, é bom entretanto  relembrá-lo, foi o nosso blogue que teve o privilégio de começar a publicá-las,  muito antes de tu, em boa hora, teres pensado em passá-las para papel.

Contrariamente ao que te havia prometido, não consegui arranjar tempo para escrever um "nota de leitura", mais pessoal (e ... "transmissível"),  como tu mereces e o teu livro merece. Fica prometida, então, uma análise crítica mais detalhada do livro. Teremos que aguardar melhor ocasião, quiça até ao fim do ano.

Até la, recebe um, abraço festivo, natalício e fraterno do Luís.
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Nota do editor:

Último poste da série > 1 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16785: Manuscrito(s) (Luís Graça) (103): E no 1º de dezembro, a banda a tocar o Ti Zé da Pera Branca...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16841: Estórias do Zé Teixeira (43): O meu Natal perdeu todo o encanto no dia em que o Menino deu lugar a um velho de barbas brancas que trazia um saco às costas, a quem chamavam o Pai Natal mas não era o pai do Menino

1. Uma "prenda de Natal" que nos mandou o Zé Teixeira, ex-1.º cabo aux enf,  CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , 1968/70, com data de 11 do corrente:

Meus caros camaradas.

O Natal está a chegar. Por todo o lado “chovem” flashes comerciais a lembrar o Natal e a injetar convites para o consumismo.

Há outro Natal, talvez mais verdadeiro – o Natal de cada um – Um convite a viver a amizade e a partilha do sorriso, do abraço que aquece o coração.

Gostava de transmitir a todos os camaradas que de algum modo “passeiam o olhar pelo nosso 

blogue os meus votos de que tenham um Santo Natal, com muito amor e carinho.  E para entreter, junto um pequeno conto num regresso aos meus tempos de criança.


2. Estórias do Zé Teixeira (44 > O meu Natal perdeu todo o encanto no dia em que o Menino deu lugar a um velho de barbas brancas que trazia um saco às costas, a quem chamavam o Pai Natal mas não era o pai do Menino


O Natal era aquela noite santa em que o Menino nascia no presépio, mas que antes passava lá por casa. Chegava de noite, quando o João estava a dormir. Trazia-lhe uma prendinha que a madrinha comprava na manhã seguinte. Mas era um segredo muito bem guardado. Até a padaria, nesse dia, abria antes da missa, para que as madrinhas fossem para casa, logo após o “ite missa est”, acordar os afilhados levando-lhe a prendinha para colocar no tamanco, que as crianças deixavam junto à lareira. Era apenas uma pequena regueifa em forma de pomba, mas tinha o valor de todo o ouro do mundo.

O João admirava aquele Menino, tão pequenino, cheio de frio que nascia no presépio naquela noite, prenhe de magia. Vinham os tios, da longínqua cidade junto ao mar, para contar as suas histórias; vinham os primos de sapato engraxado e tudo! Era uma festa.

Estar acordado, para ver o Menino chegar com as prendinhas, era o sonho do João. Mas Ele era maroto. Chegava à meia noite e o soninho vinha mais cedo. Bem tentava resistir, mas as pestaninhas teimavam em fechar-se. Então encostava a cabeça no colinho da mãe e adormecia. A mãe depositava-o no leito com carinho. Aconchegava-lhe o cobertor e cantava a cantiga

“O meu menino é doiro.
 é doiro o meu menino,
hei-de levá-lo ao céu
 enquanto for pequenino."

O João, tolhido pela sonolência, tentava opor-se e balbuciava: não quero ir para o céu, quero ficar à tua beira! Depois adormecia e só acordava quando a madrinha o chamava, já o sol tinha chegado para iluminar o céu e o Menino se tinha ido embora.

Como era lindo o céu do Natal! Tinha o aspeto de uma grande abóbada azul, onde o sol se plantava de manhãzinha para derreter a fria neve que cobria a noite, e levar calor às crianças que esperavam o Menino.
– Bom dia Joãozinho! – dizia-lhe a madrinha com uma voz muito meiguinha. – O Menino já nasceu e depositou uma prendinha no tamanquinho que deixaste na lareira. Queres ir ver?

O João saltava-lhe para o colo, porque a neve era fria, muito fria. Abraçados, corriam para a cozinha e encontravam no tamanco a pombinha de regueifa.

O Natal do Menino desapareceu, para nossa frustração. Perdeu-se o encanto daquela criança que nascia pobrezinha na manjedoura, e tinha sempre uma prendinha de amor para a todas as crianças da terra.

Era assim o Natal dos pobres. Mas era tão rico!

Deu lugar à noite do velho de barbas brancas que traz um saco às costas, a quem chamam o Pai Natal, mas não é o pai do Menino.ã

Ah! Como eu gostava que o Natal do Menino voltasse todos os dias e não só nas noites frias. Ele tinha o condão de deixar as pessoas muito felizes.

José Teixeira
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Nota do editor:

Último poste da série > 30 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16541: Estórias do Zé Teixeira (42): Tempestades

Vd. os últimos cinco postes:

8 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16176: Estórias do Zé Teixeira (41): O sonho do João

(...) A noite chegara cedo. Extenuado de um dia de trabalho, o João adormeceu no sofá, deixando-se abraçar suavemente pelo Morfeu que o transportou rapidamente ao país dos sonhos… Caminhava com uma sombra à sua frente. Parecia-lhe o pai vergado por um dia de trabalho.As árvores da floresta verdejante impediam a sua passagem. O sol penetrava por entre a folhagem, aquecendo-lhe o corpo de forma impiedosa. O zumbido estridente de um mosquito perturbava-o. Parecia um comboio a apitar, quando se aproximava dos seus ouvidos. Então, parou e olhou em redor. (...)


(...) O Cascais sentiu-se perdido no alto mar. A amargura penetrava-lhe na alma. O ondular das ondas que faziam dançar a velha e desgastada carcaça do Niassa, recordavam-lhe que há muitas marés. Há marés baixas e marés altas. No circuito da sua vida passada, assim tinha acontecido, mas as nuvens que ao longe escondiam o azul dos céus, varriam-lhe a mente, escondendo-lhe o futuro. Sabia de onde vinha, não sabia para onde ia. Vagueava como um autómato no convés do barco. (...)

3 de dezembro de 2010 Guiné 63/74 – P7373: Estórias do Zé Teixeira (39): O medo do terrífico telegrama (José Teixeira)

(...) Naquele dia 8 de Fevereiro de 1970, uma mãe esquecida do quadragésimo oitavo aniversário, preparava o almoço para os três filhos. Um quarto estava ausente na Guiné. Este, tinha feito 23 anos dois dias antes. Era comum juntar-se a família no dia oito e cantarem-se os parabéns em duplicado. Apenas se mudavam as velas no bolo que aquela mãe, analfabeta, cozinhava com todo o carinho. (...)

(...) No dia 24 de Julho de 1968, uma mina A.C. (Anti-Carro) roubou a vida a um camarada que ia em cima da viatura de rádio a comunicar com a base em Buba. Foi o meu primeiro encontro no mato com o IN e o primeiro camarada que vi morrer sem lhe poder valer. Nunca soube o seu nome. Apenas sei que pertencia à Companhia dos Lenços Azuis, que estava estacionada em Aldeia Formosa e nos foi buscar a Buba para de seguida partilharmos aventuras em comum durante mais de meio ano. (...)

11 de agosto de 2009 > Guiné 63/74 – P4808: Estórias do Zé Teixeira (37): “A vala, salva vidas” (José Teixeira)

(...)  Chegado a Buba, toda a gente correu para os poucos chuveiros existentes, formando fila. Enquanto uns se molhavam, outros esfregavam o sabão, fazendo um rodopio. Os restantes, completamente nus, esperavam pacientemente uma vaga, quando o IN apareceu a baptizar a Companhia atacando de canhão sem recuo, morteiro e "costureirinha". De repente um estrondo lá longe. Logo se ouviu a frase mágica que eu nunca mais vou esquecer - “Aí estão eles” - vinda de vários lados. Numa fracção de segundos, o tempo da vida ou da morte, toda aquela gente desapareceu da vista. (...) 

Guiné 63/74 - P16840: O nosso querido mês de Natal de 2016 e Ano Novo de 2017 (2): Boas festas, de Macau, tão longe e afinal aqui tão perto (Virgílio Valente, ex-alf mil, CCAÇ 4142, Gampará, 1972/74)

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"Ama-me quando menos o mereça, pois é quando mais o necessito."
"Love me when I least deserve it, because that's when the more need."(Chinese proverb) 






.Postal de boas festas enviado ontem pelo nosso camarada Virgílio Valente [Wai Tchi Lone, em chinês], que vive e trabalha em Macau, há mais de 2 décadas; foi alf mil, CCAÇ 4142, Gampará, 1972/74; é o nosso grã-tabanqueiro nº 709.


Estamos-lhe gratos e tomamos esta mensagem como a competente "prova de vida" anual... Fazemos votos, por nossa vez,  que o Virgílio continue a sentir-se em casa em Macau, território da República da China onde ainda se fala a nossa língua e onde há portugueses da diáspora a  viver e a trabalhar lá, dando o seu melhor e servindo Portugal e a China.

Temos esperança que em 2017 o Virgílio Valente vá conseguir, por fim, surpreender-nos com o envio da tão desejada sua foto da tropa, de preferência do tempo de Gampará. Esperamos também que nos vá dando conta dos  contactos que tem feito no sentido de localizar, aqui em Portugal,  os seus antigos camaradas da CCAÇ 4142.

Da CCAÇ 4142 temos ainda poucas referências, cerca de dezena e meia..
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Guiné 63/74 - P16839: Notas de leitura (911): “Revolução na Guiné”, edição e tradução de Richard Handyside, 1969 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Dezembro de 2016:

Queridos amigos,
É bem agradável sermos surpreendidos por uma oferta de um livro que totalmente desconhecíamos como edição, as publicações mencionadas numa brochura do CESO - Centros de Estudos, Economia e Sociedade, uma relação que se iniciou em 1976 e vem até à atualidade.
Tudo começou com uma viagem de curso do meu amigo José Neto que em Nova Iorque comprou numa livraria de Panteras Negras o livro, e que agora mo ofereceu. Foi um serão cheio de memórias dos tempos em que trabalhámos próximos, depois do 25 de Abril, à saída deu-me este comunicado com data de 13 de Novembro, que espelha os tempos tremendamente difíceis que atravessa a Guiné-Bissau.

Um abraço do
Mário


Textos de Amílcar Cabral numa livraria de Panteras Negras, Harlem, 1972

Beja Santos

Há talvez três anos, andava num passeio matinal numas ruas transversais da Avenida Rio de Janeiro, vejo parar um carro e dele sair o José Neto, que não via há anos. Cumprimentos efusivos e dele vem uma notícia agradável: “Tenho lido o que escreves sobre a Guiné, há uma surpresa para ti, um dia destes telefono-te”. E assim se passaram três anos, até que se acertou na data de um serão para a entrega de surpresas.

E lá fomos seroar na noite de 14 de Novembro. O primeiro presente tinha a ver com a sua viagem de curso, em 1972, à Costa Leste dos Estados Unidos e cidades do Canadá. Em Nova Iorque, meteu-se num autocarro na Broadway e foi até ao Harlem, foi aqui, numa livraria de Panteras Negras que adquiriu “Revolução na Guiné”, edição e tradução de Richard Handyside, 1969. Trata-se de uma antologia de discursos, conferências, declarações do fundador do PAIGC: numa conferência no Cairo, em 1961, caraterizando o colonialismo português e definindo os seus aliados; junto do comité especial das Nações Unidas, em Conacri, 1962, desmontando a nova legislação portuguesa sobre os chamados territórios ultramarinos, revelando as formas de repressão, o número de presos e guineenses mortos pelas tropas portuguesas, salientando as fórmulas de cooperação entre os movimentos de libertação das colónias portuguesas; a declaração de não alinhamento do PAIGC numa conferência no Cairo, em 1964; análise da estrutura social da Guiné, texto muito divulgado sobre o pensamento de Amílcar Cabral, apresentado no Centro Frantz Fanon, Milão, 1964; ponto de situação apresentado numa conferência em Dar-Es-Salaam, em 1965 sobre o trabalho dos movimentos nacionalistas nas colónias portuguesas; algumas das palavras de ordem constantes das diretivas do partido, 1965; estrato da sua célebre comunicação na conferência Tricontinental de Havana, Janeiro de 1966, ficaria conhecida como “a arma da teoria”; a declaração preparada para a OSPAAAL, Dezembro de 1968, contextualizando o desenvolvimento da luta na Guiné-Bissau e suas perspetivas; declarações produzidas em Dakar em Março e Dezembro de 1968, na entrega à Cruz Vermelha de militares portugueses presos pelo PAIGC; exposição sobre problemas práticos e táticas, entrevista para a revista Tricontinental, Setembro de 1968; mensagem para o povo português, declaração na rádio Voz da Liberdade, Cartum, 1969; em direção à vitória final, entrevista concedida durante uma conferência em Cartum, 1969; mensagens de Ano Novo, Janeiro de 1969; em apêndice o programa do PAIGC.

Esta publicação estava associada a uma importante revista da Esquerda norte-americana, a Monthly Review, editada por Paul Sweezy e Harry Magdoff, socialistas independentes.


Nota curiosa: suponho que o guerrilheiro que está à esquerda de Amílcar Cabral é Arafan Mané, muito falado nos últimos tempos no blogue.


35 anos da história da Guiné-Bissau

O CESO – Centros de Estudos, Economia e Sociedade (ceso.pt), editou em 2015 uma brochura com a relação de todos os projetos da empresa com a Guiné-Bissau entre 1976 e a atualidade. Esses projetos incluíram cursos sobre planeamento, seminários, assistência técnica, estudos de viabilidade, avaliações económicas e financeiras, e algo mais. O rol de publicações é elucidativo em artigos, materiais relacionados com cursos de formação, estudos, análises económicas. Qualquer estudioso da Guiné-Bissau tem tudo a ganhar em conhecer estes materiais.

 


A crise política atual na Guiné-Bissau

Nos dias que correm, a Guiné-Bissau mantém-se em profunda instabilidade. No passado dia 13 de Dezembro, o Espaço de Concertação Política dos Partidos Democráticos (que congrega o PAIGC, PCD, UM, PUN, PST e MP) produziu um comunicado a repudiar os procedimentos políticos do Presidente da República, considera este espaço que o Presidente da República se afasta perigosamente da ordem democrática e constitucional do país, avançando com a nomeação do seu governo, o que é uma violação do acordo de Conacri, e escreve-se: “O espaço manifesta seu profundo repúdio perante a flagrante e persistente violação dos direitos constitucionais, humanos, políticos e sociais, que se consubstanciam no sequestro dos órgãos públicos de comunicação social e na proibição de manifestações públicas. Registe-se a propósito as mais recentes declarações em que o Presidente da República assume o poder do uso da força para tudo fazer, incluindo mandar prender, espancar e mesmo matar”. É um alerta para que a comunidade internacional acompanhe a evolução dos acontecimentos, e o espaço reafirma que aguarda a clarificação sobre o Consenso de Conacri, que se considera a única via alternativa à imediata convocação de eleições.
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Nota do editor

Último poste da série de 12 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16827: Notas de leitura (910): “Guiné-Bissau: Nação Africana Forjada na Luta", por Amílcar Cabral, Publicações Nova Aurora, 1974 (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16838: Parabéns a você (1177): António Paiva, ex-Soldado Condutor Auto do HM 241 (Guiné, 1968/70)

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Nota do editor

Último poste da série de 15 de Dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16836: Parabéns a você (1176): Francisco Santos, ex-1.º Cabo TRMS da CCAÇ 557 (Guiné, 1963/65) e Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494 (Guiné, 1971/74)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16837: Blogues da nossa blogosfera (75): rumo ao norte, de Luanda a Pangala, "sinais de civilização": uma velha placa com o sinal de aproximação de estrada sem prioridade e os dizeres “Gasolina Sphinx” e por baixo “Vacuum Company”... [Ângelo Ribau Teixeira (1937-2012), ex fur mill, op esp, CCE 306 / BCE 357, Angola, 1962/64]


Aveiro e Cultura > Arquivo Digital > Prof2000 > Ângelo Ribau Teixeira > Retalhos das Memórias de um ex-Combatente > Rumo ao Norte

Ângelo Ribau Teixeira (1937- 2012) foi fur mil at inf, op esp, Companhia de Caçadores Especiais 306 (CCE306) / Batalhão de Caçadores Especiais 357 (Angola, 12/5/962- 22/6/964). Deixou um notável conjunto de textos, em formato digital, sob o título "Retalhos das Memórias de um ex-Combatente", alojados no portal Prof2000 que é descrito como "um projecto com serviços de suporte a formação de professores a distância e de apoio às TIC [tecnologias de informação e comunicação] nas escolas".

Um dos sítios alojados nesta plataforma, e que eu gosto de consultar,  é "Aveiro e Cultura - Arquivo Digital", superiormente coordenado por Henrique J. C. Oliveira, a quem mando os meus parabéns, em nome da Tabanca Grande. Foi aqui que encontrei, entre outros antigos  combatentes da guerra colonial,  as memórias do Ângelo Ribau Teixeira, natural da Gafanha da Nazaré, filho de marnoto e já casodo e com filhos, quando foi  mobilizado, em 1962,  para a "guerra do ultramar" .

Na sua ida para  o Norte de Angola,  em maio de 1962, a caminho de Pangala, uma  sanzala perdida no mato, a companhia sofre uma primeira flagelação, sem consequências, e antes de chegar ao seu desolador destino, o fur mil Ribau Teixeira encontra um "indício de civilização"...

Vale a pena transcrever,  com a devida vénia, este bocado de prosa... e ler o resto: é um testemunho valioso de um camarada que pertenceu à geração do início da guerra no norte de Angola... E que infelizmente não teve tempo nem oportunidade, em vida,  de editar em livro,  as suas memórias de ex-combatente. 

Pode ser entretanto que o nosso camarada e amigo António Rosinha, um dos nossos "mais velhos", queira acrescentar, na caixa de comentários, algo mais da sua própria experiência como operacional em Angola, nesse tempo(**)... 

Este percurso de Luanda até São Salvador, passando por Carmona, foi feito por milhares e milhares de camaradas nossos. [Ver aqui mais  fotos do Ângelo Ribau Teixeira em Pangala, que ficava "a poucos quilómetros de Cuimba e Buela, na zona de S. Salvador". Pangala era o nome de "uma sanzala que ficava no desvio da 'estrada' de Cuimba a S. Salvador do Congo e ia até à Buela", sendo o sector em S. Salvador do Congo, e a sede do BCE 357 em Cuimba... (LG)


"Um sinal de civilização" (foto e legenda de Ângelo Ribau Teixeira. com a devida vénia)


(Excerto, com a devida vénia)

(...) O primeiro ataque do IN

Sem o menor aviso, começaram a ouvir-se rajadas de metralhadora do outro lado do riacho. A mata que ficava à nossa direita!

Cornos no chão, foi o que fizemos sem esperar qualquer ordem. Eu tive azar porque a minha aliança ficou presa num dos ganchos que seguram o toldo da viatura. Aflito lá consegui desenrascar-me. Ainda não tinha chegado ao chão quando uma bala cantou – segundo mais tarde observei – exactamente no gancho onde eu tinha ficado preso. Tive sorte...

Respondemos àquela metralha durante algum tempo, até que da frente veio a ordem de parar o fogo. Ficou um silêncio de morte. Ninguém se mexia.
– Embarcar e avançar – foi a ordem ouvida.

Assim fizemos. Um de cada vez tomou cautelosamente o seu lugar no Unimog, com a arma apontada, pronta a fazer fogo. As viaturas avançaram e continuámos viagem. Quando o nosso carro passou pelo riacho, uma fresquidão saborosa assaltou os nossos corpos suados. Aqui as árvores eram altas e frondosas. Havia canas da Índia com seis ou sete metros de altura, e um diâmetro igual ao da minha coxa. Neste sítio a natureza foi pródiga, talvez por a zona ser pouco habitada. Faltavam aqui os maiores destruidores da natureza, os homens!

Prosseguimos o nosso caminho. Sempre a mesma paisagem: mata, capim, capim, mata. Hei! O que é aquilo?! Finalmente um indício de civilização. Um sinal de aproximação de estrada sem prioridade e os dizeres: “Gasolina Sphinx” e por baixo “Vacuun Company”, isto no meio de uma imensidão de terreno, onde já tínhamos desistido de encontrar qualquer sinal da dita “civilização”. Era impensável. Aproximação de estrada sem prioridade!

Provavelmente seria aqui o desvio para Pangala, onde iríamos ficar aquartelados. Mas aproximação de estrada no país onde nos encontrávamos não nos dizia muita coisa. De maneira que o melhor era ir andando e esperando.

Pangala, finalmente...

Fomos avançando às cegas e, às tantas, lá apareceu um desvio para a direita, por onde seguimos até ao nosso destino. Um pouco antes de chegarmos a uma sanzala chamada Pangala, encontrámos uma casa comercial abandonada que em tempos pertencera a um branco. Era nessa casa que iria ficar instalado o Comando da nossa Companhia.

Tínhamos chegado ao local onde se dizia que iríamos ficar mais ou menos um ano. Que tristeza! Que desconforto! Havia outras Companhias que, destacadas em fazendas, tinham instalações que comparadas com o nada que encontrámos, eram um luxo. Era preciso construir de raiz as instalações que nos iriam acolher. O capim era alto, quase da altura de um homem. Tivemos que começar logo a descapinar a zona para arranjar espaço para montar as tendas já nessa noite. (...)
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Guiné 63/74 - P16836: Parabéns a você (1176): Francisco Santos, ex-1.º Cabo TRMS da CCAÇ 557 (Guiné, 1963/65) e Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494 (Guiné, 1971/74)


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Nota do editor

Último poste da série de 14 de Dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16832: Parabéns a você (1175): José Vargues, ex-1.º Cabo Escriturário do BCAÇ 733 (Guiné, 1964/66)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16835: Fotos à procura de...uma legenda (78): velhas placas com sinais de trânsito... encontradas no mato (António Murta, ex-alf mil linf, MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513, Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74)



Foto AA


Foto A


Foto B

Guiné > Região de Tombali > Nhala > 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74) > O "achamento"  de uma velha placa de trânsito, nas imediações de Nhala, presumivelmente em finais de 1973.


Fotos (e legenda): © António Murta   (2016). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Canaradas da Guiné]


1. Comentário ao poste P16828 (*) do nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74),


Data: 13 de dezembro de 2016 às 02:05

Assunto: Placa triangular Aviso de Minas


Olá,  Luís Graça.


Quis responder à tua questão colocada no Poste 16828 (`*) sobre as fotos do camarada Luís Mourato, mas, mais uma vez não consegui. Ocorre o "Erro  404". Pensava que já tinha resolvido a questão, mas afinal está na  mesma.

A tua questão era sobre a placa triangular que se vê na foto nº 2A.  Colo aqui o comentário que já tinha feito mas que não consegui enviar.



Foto nº 2 A > Guiné >Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Mato Cão > Pel Caç Nat 52 (1973/74) > Destacamento de Mato Cão > Junto ao arame farpado, os "tugas" jogam à bola... O destacamento não estava armadilhado à volta, assegura-nos o comandante..  Mas, ao fundo, à direita, depois de ampliada a foto, parece-nos ver, reconhecer ou adivinhar uma tabuleta com triângulo vermelho e os conhecidos dizeres "Perigo Minas!"... (Devia tratar-se de um placa quialquer, humorística, uma brincadeira da rapaziada, diz-me o Luís Mourato Oliveira, ao telefone.). [Vai assinalada com um retângulo a amarelo, para os leitores mais curiososque gostam de decifrar estes pequenos mistérios]. (*)


Foto (e legendas): © Luís Mourato Oliveira (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



Aquela placa triangular, vermelha e branca, não é um aviso de campo de  minas. Tenho umas fotos com uma igual e diz, na parte branca, mais  larga, "Gazolina SPHINX" (Foto A). Ou era publicidade antiga, ou era daquelas bombas de gasolina que havia à beira das estradas, em que atendiam os  clientes a dar à bomba… [Repare- que "gazolina" está escrita de acordo com a ortografia antiga, anterior a 1945.]

Essa placa foi encontrada num passeio à volta  de Nhala,  numa pista que tinha sido a estrada Buba-Xitole, em desuso há  tantos anos que já não se destacava do mato. Reconhecemo-la,  por nalguns troços ainda ter séries de postes com cabos telefónicos (!).

A placa foi colocada por alguém no ramo de uma árvore ainda jovem, no  meio daquilo que fora a estrada. A árvore entretanto crescera muito e, agora neste passeio, o soldado que teimou na retirada da placa, depois  levada enfiada na cabeça, foi partindo os ramos mais finos até  conseguir desenfiá-la. (Foto B).

Quase levou menos tempo a retirar a placa do que agora a explicar…

Um grande abraço e BOAS FESTAS.

António Murta

















Foto C (Cortesia do sítio Restos de Coleção > Mobil Oil Portuguesa )

2. Resposta do António Murta a uma mensagem enviada pelo editor:


Camarada Luís Graça:

Obrigado pela tua pronta e completa resposta ao meu e-mail.

Afinal, esclareci-te apenas em parte acerca da placa triangular porque, usando o link com a história da Mobil em Portugal (que me indicaste) e o relato daquele camarada de Angola, também eu só agora fico a saber que se tratava de uma verdadeira placa de trânsito (estrada sem prioridade) como outras que existiam então, patrocinadas pela Vacuum Oil Company, como se pode ver na pequena foto (C) que tirei do link referido acima.

[A Mobil teve várias designações em Portugal, começou por chamar-se Vacuum Oil Company, em 1896; em virtude várias fusões, era conhecida por Socony-Vacuum Oil Cpmapny a partir de 1941; a designação Mobil Oil Portugal remonta a 1971.]

Anexo ainda a foto B  em que se vê o soldado a separar a placa da árvore, como expliquei antes, e a foto A com o pessoal de Nhala posando em grupo para a fotografia, provavelmente ainda em 1973, e onde se pode ver um elemento (furriel miliciano) a ostentar a placa triangular como moldura. 

É uma foto de baixa qualidade com um grupo que integrava vários furriéis, um alferes (fardado) e outro a tirar a fotografia, que era eu, vários cabos e soldados, todos em missão de relaxamento nas imediações de Nhala, mas no lado virado para Oeste onde era raro pormos os pés.

Desculpa voltar a usar esta via mas estou sem condições de responder na caixa de comentários.

Grande abraço.


3. Comentário do editor:

Eureca, António!...Tens olho clínico: "Gazolina Sphinx", é isso mesmo!... Era uma marca ligada à Vacuum Oil Company / Mobil Oil,,, É um achado "arqueológico" uma placa destas: o "triângulo", vermelho: não era de facto um sinal de "minas perigo!", tens toda a razão, devia ser um sinal de trânsito ou uma placa a  sinalizar um posto de gasolina à beira da estrada,,, neste caso a antiga estrada Bissau-Mansoa-Bafatá que passava em Mato Cão! (!)...

Vamos disponibilizar, para os nossos leitores, o link com a história da Mobil em Portugal (e colónias)...bem como o limk para o sítio onde se pode ler  um relato de um ex-combatente em Angola que encontrou no mato, no cu de Judas, uma placa como esta.... (vd. foto de grupo com o sinal de trânsito encontrado).

De acordo com o teu palpite, trata-se mesmo de um sinal de trânsito,. um dos primeiros a serem colocados nas nossas estradas (em Portugal continental, ilhas adjacentes e colónias), sendo esta iniciativa patrocionada, no final dos anos 20,  pela Vacuum Oil Company.

Obrigado pelas tuas,  sempre preciosas,  fotos de Nhala!... Dou conhecimento do teu "achado" ao camarada Luís Mourato Oliveira (que é do teu tempo e que veio de Cufar para comandar o Pel Caç Nat 52!...), que me garantiu ontem, ao telefone, não haver  campos de minas em Mato Cão... E partilhamos, naturalmente, também com os nossos leitores,  estes nossos "achados" (**).

Um alfabravo fraterno (.. e natalício!). Luís




Foto nº 225 A > Bombas de gasolina da Mobil / Mobilgas  na Casa Barbosa [, Bafatá, s/d, c. finais anos 50/princípios de 60 ]

Foto (e legenda): © Leopoldo Correia (2013) Todos os direitos reservados. [Edição:Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Guiné 63/74 - P16834: In Memoriam (273): Clara Schwarz da Silva (1915-2016): hoje, 4ª feira, dia 14 de dezembro de 2016, às 15h30, vamos despedir-nos, no crematório de Barcarena, Oeiras, da nossa querida amiga, a decana da Tabanca Grande


Uma das últimas fotos de Clara Schwarz (Lisboa, 1915- Paço d'Arcos, Oeiras, 2016):  uma (e)terna imagem de despedida para os seus filhos, netos, bisnetos e demais família e amigos... A foto é da Catarina Schwarz,  a neta que  nos últimos anos esteve mais próxima. da avó paterna, afetiva e efetivamente, tendo-lhe dado  inclusive a alegria de mais uma bisneta,

A Clara era carinhosamente conhecida no seio da família  e dos amigos mais íntimos pelo "nickname"  Calinhas.

Para além dos amigos e admiradores, mais recentes, da Tabanca Grande, deixa muitos amigos também entre os antigos alunos e professores  do Liceu Honório Barreto, em Bissau, de que foi cofundadora, com o marido, jurista e escritor, o dr. Artur Augusto Silva (1912-1983), e onde foi também professora de francês... Deixou uma marca indelével nos seus antigos alunos, alguns dos quais são membros da nossa Tabanca Grande (recordo-me de canaradas nossos como o  António Estácio e o Manuel Amante da Rosa).

(Cortesia da Catarina Schwarz,  Página no Facebook, disponível aqui),



Alcobaça > São Martinho do Porto > "Casa do Cruzeiro" > 13 de agosto de 2011 > Convívio da "Tabanca de São Martinho do Porto", sob a batuta do Pepito

 " Ela é uma pessoa linda, inteligente, sempre com um sorriso, sempre com vontade de se rir, mesmo quando as coisas estão mal. Tenho imenso orgulho de ter uma avó tão fantstica como a Calinhas! Obrigada por ter escrito isso tudo sobre ela [, no blogue]!"




Alcobaça > São Marinho do Porto > "Casa do Cruzeiro" > Convívio da Tabanca Grande > 13 de agosto de 2011 > A Clara com os filhos do Zé Teixeira. o Tiago (que é médico, especialista em doenças infectocontagiosas, e que já trabalhou na Guiné-Bissau como  voluntário). Ao longo destes anos, na Tabanca de São Martinho do Porto, a Clara conviveu também comn os filhos do nosso editor,Luís Graça, e com as filhas e os netos da Júlia Neto... Adorava falar com (e ouvir) os mais novos. E a sua jovialidade era contagiante, como se comprova pelo vídeo a seguir.



 

Alcobaça > São Martinho do Porto > "Casa do Cruzeiro" > Convívio da Tabanca Grande > 11 de agosto de 2012 > Divertidíssima, a Joana Graça tenta manter um diálogo em "russo", com a anfitriã, a amiga Clara, a quem já tinha "pregado a partida" dois anos antes, com a cumplicidade do Pepito...Não se viam desde então, mas a Clara reconheceu-a e divertiu-se imenso  com esta cena...tal como ficava muito sensibilizada quando o João Graça lhe tocava, no violino, temas da música klezmer. Clara era filha de pais de origem judia, pai polaco, e mãe russa, de Odessa..

Vídeo 1' 55'' > Alojado no You Tube  > Luís Graça (2012)



Alcobaça > São Marinho do Porto > "Casa do Cruzeiro" > Convívio da Tabanca Grande > 13 de agosto de 2011 > O José Eduardo Oliveira (JERO) mais a filha, fazendo a entrega,  aos anfitriões,   de um livro sobre São Martinho do Porto. Outros camaradas, que ocioso mencionar aquii de maneira exaustiva, também passaram pela Tabanca de São Martinho, tendo o privilégio de conhecer a "mulher grande", a grande senhora que era a Clara



Alcobaça > Martinho do Porto > Casa do Cruzeiro > 21 de Agosto de 2010 >  A Clara recebendo mais uma amiga, de origem guineense (se não erro)... Talvez uma antiga aluna,,,
..

Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > "Casa do Cruzeiro" > 7 de Agosto de 2008 > Casa de verão de Carla Schwarz da Silva, mãe do nosso amigo Carlos Schwarz (Pepito).  Mãe e filho tinham um relação de grande respeito, admiração, ternura e cumplicidade... Pepito escolheu a Guiné como paixão da sua vida. Uma vida intensa e solidária...A usura (física e mental) do trabalho levou-o à morte prematura...Foi um, duro golpe, em 2014,  para uma mãe à beira de celebrar o seu centenário natalício, no ano seguinte ... Foi uma mãe-coargem... Em 2016, foi a sua vez se juntar ao filho... Falando com ela ao telefone, eu ia sentindo, cada vez mais, que ela estava a desistir da vida... Achava que era um disparate continuar a fazer anos... Viveu e morreu com grande dignidade!...



Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > "Casa do Cruzeiro" > 7 de Agosto de 2008 >  Uma vista fabulosa da baía de São Martinho do Porto, a partir da janela do quarto do Pepito e da Isabel.   A casa, cuja construção remonta ao ínício dos anos 30, é uma das mais antigas daquela fantástica estância de veraneio, pertencente ao concelho de Alcobaça. O pai do Pepito exerceu advocacia em Alcobaça e Porto de Mós,  antes de ir para a Guiné,  com a família no final dos anos 40 do século passado.



Fotos (e legendas) do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

1.  Lembrete: a família e os amigos da dra. Clara Schwarz (1915-2016) realizam  hoje, às 15h30   no crematório da Barcarena, Oeiras, uma pequena cerimónia de despedida. Todos os amigos e camaradas da Guiné que se queiaam associar,  serão bem vindos. Recorde-se que esta grande senhora foi também, até à hora da sua morte, aos 101 anos, a decana da nossa Tabanca Grande.  


A dona Clara Schwarz foi sempre tratada com grande carinho e admiração por todos nós (*). Durante anos lia inckusive o nosso blogue com regularidade.  Ficava sempre muito sensibilizada com os postes que publicámos sobre ela, em dia de aniversário (*), sobre o trabalho do sue seu filho Carlos na Guiné-Bissau e os nossos convívios em agosto, em São  Martinho do Porto (que remontam a 2008, por convite do seu filho),

Na sua casa de praia, realizámos pelo menos 3 convívios anuais, passando a "Casa do Cruzeiro" a ser mais uma extensão da Tabanca Grande, pelo menos por um daia.  O 1º convívio da Tabanca de São Martinho do Porto realizou-se em 2010. Houve mais duas edições, em 2011 e 2013. Em 2013 não se conseguiu arranjar uma  data conveniente e em 2014 deu-se, a 18 de fevereiro, a inesperada morte do Pepito, em Lisboa  (1949-2014).

Clara Schwarz tem mais de 40 referências no nosso blogue. Vamos sentir a sua falta (como sentimos  a falta do seu filho, Pepito) mnas continuaremos a honrar a sua memória. O seu nome passrá a figurar na coluna do lado esquerdo do nosso blogue na lista dos 51 amigos e camaradas da Guiné que "da lei da morte já se foram libertando". 

Metaforicamenmte falando, acreditamos que, lá do alto do nosso mágico e fraterno poilão, a nossa amiga Clara Schwarz vai continuar a inspirar-nos, a proteger-nos e a iluminar-nos pelo seu exemplo e história de vida.



2. Publicam.se a seguir as mensagens de alguns dos nossos camaradas e amigos deixadas na caixa de comentários do poste P16825  (**)




(i) António Carvalho


Aqui expresso o meu pesar pelo acontecimento, à família e amigos.

Carvalho de Mampatá


(ii) Jorge Picado

Envio os meus sentidos pêsames à sua família.

JPicado


(iii) Carlos Vinhal

As minhas homenagens a uma grande senhora que agora nos deixa.

Carlos Vinhal
Leça da Palmeira


(iv) Hélder Valério

Caros amigos Pelo avançar da idade a sua "partida" seria coisa expectável, mais ano menos ano.
Esse 'avançar na idade' também nos contempla..... Mas, na verdade, por muito que se pense nessa inevitabilidade, estamos sempre prontos a surpreender-nos com a chegada das 'más notícias'.

E lamentamos a perda. E lamentamos sinceramente.

O que o Luís, em seu nome e também em nome desta "Tabanca" escreveu e descreveu (e que subscrevo) sobre a Senhora Clara Schwarz da Silva é bem justo e demonstra bem como entre nós os afectos suplantam a rudeza que por vezes também aparece.

À família e amigos deixo aqui a minha homenagem a tão exemplar Senhora.

Hélder Sousa


(v) José Teixeira


A D.Clara que eu conheci quando já tinha 96 anos, foi para mim como que uma avó, com quem não nos cansamos de estar. A sua forma de acolher cativou-me e "prendeu" os meus filhos. Foi um prazer vê-los em amena cavaqueira numa bela tarde de Agosto em S. Martinho do Porto.Que presença e clareza de espírito! Que sorriso a envolver as suas palavras!

Era um prazer profundo estar com a D.Clara, conversar com a D. Clara.

Há dois anos viu partir o seu filho, meu bom e grande amigo. Agora foi a sua vez de partir. Sei que partiu em paz. Controlou a vida dela até ao fim e decidiu que tinha chegado a sua hora.

Descanse em paz minha boa amiga.

José Teixeira


(v) João José Alves Martins

Paz à sua alma e o nosso profundo pesar pela sua partida com a certeza de que, pelo muito que fez em prol dos outros, nomeadamente em terras da Guiné, se encontra em lugar de destaque ao lado dos que muito contribuiram para um Mundo Melhor com muito amor no serviço do próximo.

Terá sido, sem dúvida, um exemplo para todos nós. Bem haja e o nosso muito obrigado.

João Martins


(vi) José Eduardo Oliveira (JERO)

Sentido texto, que partilho da primeira à última palavras.

As minhas homenagens à grande senhora que tive o privilegio de conhecer na sua casa de São Martinho do Porto e que tantas ligações tinha à minha Alcobaça..Sentidas pêsames à família.


(vii) José Marcelino Martins 


Condolências à família, e num sentido lato a todos nós, que vemos desaparecer membros da Tabanca.


(viii) Manuel Augusto Reis

 Luis, conheci a D. Clara em S. Martinho do Porto. Não vou ter oportunidade de estar presente na cerimónia de despedida. No Blogue já exprimi os meus sentimentos aos familiares.A ela desejo-lhe que repouse em Paz, uma vez que em vida nem sempre teve a paz que merecia.

Um abraço.

(ix) Virgínio Briote

Belo texto, Luis!

V Briote

(x) Carlos Silva

É com pesar que tomo conhecimento do falecimento da Dra Clara que tive o prazer de a conhecer pessoalmente.

As minhas condolências a toda a família e que a Dra Clara repouse em paz

Um abraço de solidariedade
Carlos Silva


(xi) AD - Acção para o Desenvolcvimento, Bissau

O sítio da AD - Acção para o Desenvolvimento de que o nosso Pepito foi cofundador e seu diretor executivo até à data da sua morte, em 2014, deu a triste notícia, citando como fonte o nosso blogue:

http://www.adbissau.org/faleceu-este-fim-de-semana-em-lisboa-a-mae-do-pepito

Faleceu este fim de semana em Lisboa, a mãe do Pepito

Dez 12 2016

clara-da-silva 1915-2016 (foto)

Fonte: Luis Graça e Camaradas da Guiné


(xiii) Eduardo Costa Dias [, na  respetiva página do Facebook]

Clara Barbash Schwarz, 14 Fevereiro 1915 – 11 Dezembro 2016

A Doutora Clara Schwarz, mãe de velhos amigos, deixou-nos esta manhã.

A Doutora Clara, jurista de formação (FDUL), cofundadora e durante muitos anos professora no então Liceu Honório Barreto em Bissau, teve uma vida longa e recheada de "cruzamentos próximos" com grandes acontecimentos do mundo. O fim da Mitteleuropa dos seus antepassados, o holocausto, o nascimento de Israel, o 25 de Abril, a independência da Guiné.

Todas as homenagens lhe são merecidamente devidas, todas as suas grandes qualidades humanas e intelectuais devem ser enaltecidas e recordadas por todos quantos com ela privaram

Recordo, a grande cultura, a memória fantástica, a perspicácia das análises, a rectitude à prova de bala e a enorme perseverança. E a amizade

Curvo-me perante a sua memória. Envio os meus pêsames ao Henrique, ao João e a toda a família. Recordo o seu filho mais novo, o meu amigo Carlos Schwarz.

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Notas do editor:

(*) Vd. entre outros os postes de:



(...)

No dia dos namorados,
Temos um grande aniversário,
Noventa e nove, abençoados,
Falta um pró centenário!

Fez da vida maratona,
A nossa grã-tabanqueira,
Clara, senhora e dona,
É atleta de primeira.

É um mix de culturas
A nossa aniversariante,
Passou por muitas agruras,
Mas foi sempre adiante.

De polaco pai e russa mãe,
Tem alma rubra e verde,
Apaixonou-se também
Por um filho de Cabo Verde.

Artur foi o seu cretcheu,
Que lhe deu três belos filhos,
Pepito é o guinéu,
Sempre metido… em sarilhos!

Quem anda, tropeça e cai,
Parte braço, mas recomeça
Mais vale dizer ai!,
Do que perder… a cabeça!

Há festa no Tabancal,
Os seus anos celebramos
De Lisboa ao Corubal,
Nossa decana saudamos.

Luis Graça,
em nome de toda a Tabanca Grande
e dos seus bons irãs,
acocorados no alto do seu poilão,
mágico, fraterno e protetor. (...)


14 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5813: Parabéns a você (79): Clara Schwarz da Silva, 95 anos, uma grande senhora, viúva de Artur Augusto da Silva, mãe do nosso amigo Pepito, leitora do nosso blogue, novo membro da Tabanca Grande (Luís Graça)



Guiné 63/74 - P16833: Os nossos seres, saberes e lazeres (190): De novo em Bruxelas e a pensar nas Ardenas (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 13 de Julho de 2016:

Queridos amigos,
Por vicissitudes que nem eu próprio sei esclarecer, voltei em menos de um ano ao interior das Ardenas. E voltei com imensa satisfação, se gosto da floresta à volta de Pedrógão Pequeno, aquela imensidade florestal que começa na região de Avelar, passa por Figueiró dos Vinhos, Pedrógão Grande, atravessa o Zêzere e interna-se por uma Beira em progressivo abandono até Castelo Branco. Vive cada vez menos gente, mas despontam sobreiros, pinheiros, castanheiros, eucaliptos e acácias, daí o poder da indústria madeireira, não posso ficar insensível à floresta das Ardenas que apanha uma vasta área que vai da Lorena ao Luxemburgo.
Férias de descoberta e de redescoberta. Com diz Saramago, o que se vê na Primavera não é o que se vê no Outono, e há dias ensolarados e há dias nebulados e há momentos em que o nosso coração colhe e recolhe, misteriosamente permeável às coisas do húmus. E houve aquela circunstância de dormir numa casa que ela própria é fronteira entre a França e Bélgica.
Podem ver as imagens.

Um abraço do
Mário


De novo em Bruxelas e a pensar nas Ardenas (3)

Beja Santos

Há diferentes vias de atingir as Ardenas a partir da capital. O itinerário escolhido é de seguir, na região de Namur, junto ao belíssimo rio Meuse, foi sugerido uma paragem na Abadia de Hastière, nunca ouvi falar em tal, e a verdade é que por ali andarei de boca à banda, com a grandeza e a espiritualidade. Ao que parece, por aqui andaram no século XI, monges irlandeses e instalaram-se. A abadia foi construída no estilo arquitetónico românico mosan, e construções e destruições foram a regra: escavacaram a abside romana, aumentaram com um coro gótico e abóbada de cruzeiro. Depois vieram os Huguenotes no século XVI e os revolucionários em 1793, as destruições do costume. Impressiona pelas dimensões, as pedras tumulares, uma estatuária excecional. E a cripta também tem muito que se diga, com os seus sarcófagos merovíngios. Abençoado condutor que escolheu este trilho. Vamos então até ao fundo das Ardenas!



Quem é que não quer ter uma experiência turística excecional? Entenda-se por excecional dormir numa casa que faz fronteira entre a Bélgica e a França, não é figura retórica, esta casa, até ao dia em que apareceram as Comunidades Europeias tinha para aqui um posto alfandegário, marcos, policiamento, caça aos contrabandistas, foi edifício da maior importância para o mercado negro, nos anos trágicos da guerra e da ocupação. A casa foi café, no passado servia de mala-posta e de albergaria. Um casal adquiriu o edifício, refê-lo integralmente, desapareceram os estábulos, a zona de taberna, emergiu uma casa com dois andares e o visitante se já vinha arrelampado com o que vira em Hastière sentiu-se lisonjeado pelo convite de aqui pernoitar e percorrer uma casa insólita, com vistas desafogadas com divisões interiores de traça arrojada. Bendita fronteira, parabéns a quem aformoseou um antigo lugar de pouca permanência, associado a contrabandos, fugas de resistentes, passagem de informadores. E o viandante adormeceu a ficcionar uma novela passada nesses tempos convulsos de escapadelas pela fronteira, qualquer guerra servia.




Hoje vamos calcorrear veneranda terra belga, o viandante regressa à Abadia de Orval, quem lhe diria quando em anos pretéritos saboreava uma cerveja de Orval que visitaria a unidade fabril duas vezes em menos de um ano? Pois foi exatamente o que aconteceu, Orval é a poucos quilómetros desta bela casa de fronteira e tem muito para ver e até uma comparação radical a fazer. A abadia medieval foi destruída pelos revolucionários, deixou-se a brutalidade à vista, é uma testemunha muda a quanto leva o fanatismo. É impossível visitar Orval sem sentir uma espiritualidade ambiente, são essas as impressões que procuro deixar ao leitor, registo do que foi Orval e como se manteve até ao século XVIII, aqui se vivia sobre o lema beneditino de trabalhar e rezar, buscando a autossuficiência, tal como aconteceu, tal como acontece. A cerveja da abadia tem fama internacional, e justificada.



Aqui se glorificou Deus, aqui houve hossanas, preces, aqui se sepultaram monges depois de uma vida na obscuridade, ao serviço da misericórdia e da compaixão. Alguém bem sensível misturou ruínas com a intemporalidade de valores religiosos e grandes arquétipos morais. O viandante para em recolhimento, sabe bem como são transitórias as glórias inventadas pelos homens, a olhar estas estátuas depuradas e estas ruínas de templos de paz lembra a guerra que viveu, os seus mortos e os seus vivos. E agradece do fundo do coração ter podido voltar a Orval, revê-la com outros olhos, mas sempre atónito de admiração.



(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16809: Os nossos seres, saberes e lazeres (189): De novo em Bruxelas e a pensar nas Ardenas (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16832: Parabéns a você (1175): José Vargues, ex-1.º Cabo Escriturário do BCAÇ 733 (Guiné, 1964/66)

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Nota do editor

Último poste da série de 12 de Dezembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16826: Parabéns a você (1174): Francisco Palma, ex-Soldado Condutor Auto da CCAV 2748 (Guiné, 1970/72) e Luís Dias, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 3491 (Guiné, 1971/74)

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Guiné 63/74 - P16831: Estórias cabralianas (92): Natal de 1970 em Missirá...E os Três Reis Magos Foram Adorar o Menino Braima! (Jorge Cabral)




Guiné > Zona leste > Sector L1 (Bambadinca) > regulado do Cuor > Missirá > Pel Caç NAT 63 > 1971 > O António Branquinho (simulando tocar um instrumento tradicional,talvez um "nhanheiro"...) com  uma bajuda e o Amaral (sentado). [Segundo aoportuna observação do nosso amigo e consultor permanente para as questões étnico-linguísticas,  Cherno Baldé, "o instrumento, na lingua fula, chama-se 'Hoddu', é mais antigo e, provavelmente, serviu de inspiração para a criacão do Kora dos Mandingas.]

Foto: © António Branquinho / Jorge Cabral (2007). Todos os Direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Estórias cabralianas (92) > Natal de 1970


por Jorge Cabral

[Foto à direita, o ex-alf mil art, cmdt, Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, 1969/71; jurista e professor universitário reformado; contador de estórias do antigamente e que, todos os anos,  pelo Natal,  nos surpreende com mais uma das suas jóias literárias; são "short stories", que já há muito mereciam estar editadas em papel; pode ser que haja por aí um Pai Natal, amigo da Tabanca Grande, que queira  dar uma boa  ajuda para o início de um "crowdfunding", permitindo em 2017 editar finalmente o tão desejado livrinho com as 100 estórias cabralianas que o alfero Cabral se comprometeu a escrever antes da decisão heróica de entrar, vestido de fato de amianto, no formo crematório, à procura dos Antepassados.]


Bacalhau ensaboado e os Três Reis Magos. Poucos são os Natais de que me lembro. E no entanto, já passei mais de setenta. Mas este, Missirá 1970, nunca esqueci. Tínhamos bacalhau. Tínhamos batatas, Fomos tarde para a mesa, a mesma de todos os dias, engordurada, sem toalha. Chegou o panelão fumegante e começámos.
–  Caraças!, o bacalhau sabe a sabão! – disse o Branquinho. 

E eu para o cozinheiro Teixeirinha:
–  Quanto tempo esteve de molho?
 – Esqueci-me,  meu Alferes, mas o Pechincha, disse que na terra dele, costumavam lavá-lo com sabão e que ficava bom.
– Porra,  Teixeirinha! Se não fosse Natal, estavas lixado! Assim, vais à cantina buscar cervejas para a malta toda e pagas a meias com o Pechincha… 

Batatas, umas latas de conserva e cerveja morna, pois a arca frigorífica tinha explodido na semana anterior, foi a nossa ceia de Natal.

Meia hora depois apareceu o soldado Alfa Baldé aos gritos:
Alfero! Alfero! Já nasceu! É macho! É macho!
– Eu não te tinha dito?! 

A alegria do Alfa era legítima. Já tinha três filhas e duas mulheres, mas há uns meses fora à sua Tabanca buscar outra mulher, herdada do irmão que havia morrido. Mas não trouxera só a viúva, mas também uma velha, muito velha, a bisavó, que se chamava Maimuna, mas que o Alfero alcunhou logo de a Antepassada. Meia cega passava os dias à porta da morança, dormitando de boca aberta…Nunca falou comigo, mas quando eu passava, sorria mostrando o único dente que conservava:
– Vou ver o teu filho, Alfa! Não lhe vais chamar Alfero Cabral. Vai ser Jesus! 
– Desculpa,  Alfero! Tem que ser Braima! 

 E fui com o Branquinho e com o Amaral. Só lá estavam mulheres e o  Bebé, todo enfaixado. Logo que entrámos, o Amaral, que estava um pouco tocado, exclamou:
– Nós somos os Três Reis Magos e viemos adorar o Menino Braima! 

 Vai fazer 46 anos! Dos Três Reis Magos,  um morreu e os outros dois estão velhos…Como a Maimuna, já parecem Antepassados… 

 Jorge Cabral

Lisboa, 7/12/2016




Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > Missirá > Pel Caç Nat 63 > c. 1970/71 > O "alfero Cabral" mais o seu pequeno amigo Malan. "Regressado de uma operação, tinha sempre à minha espera o meu amigo Malan".


Foto (e legenda): © Jorge Cabral (2005). Todos os direitos reservados.[Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) / CCAÇ 12 (1969/71) > O fur mil at inf Arlando Roda, fotografado no presépio montado em Bambadinca, possivelmente no Natal de 1969, no primeiro ano da CCAÇ 12 (que, de julho de 1969 a agosto  de 1974, esteve ao serviço de 4 batalhões, sediados no setor L1:  BCAÇ 2852 (1968/70),  BART 2917 (1970/72), BART 3873 (1972/74) e BCAÇ 4616/73 (1974). O "alfero Cabral" é contemporâneo da "primeira geração" de graduados da CCAÇ 12.

Foto: © Arlindo Roda (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Nota do editor:

Ùltimos cinco postes da série > 

9 de janeiro de  2016 >  Guiné 63/74 - P15598: Estórias cabralianas (91): Alfero Obstetra, mas também Dentista de Balantas... (Jorge Cabral)

(...) Numa noite, aí pelas três horas, fui acordado pelas Mulheres Grandes, que me pediram para levar uma parturiente a Bambadinca.

Embora a bolanha de Finete estivesse transitável, seria impossível atravessar o rio, acordando o barqueiro. Claro que os partos eram assunto de mulheres e foi com muita relutância que me deixaram observar a situação. Não só observei, como colaborei activamente no nascimento de uma menina. (...) 



22 de dezembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15526: Estórias cabralianas (90): A Pátria é um Natal, e o Natal é uma Pátria (Jorge Cabral)


(...) Foi no dia 25 de Dezembro de 1970.

Talvez porque o Spinola nos havia visitado há pouco,  o Sitafá, o puto que vivia connosco, interrogou-me:
– Alfero, o que é a Pátria? (...)


3 de setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15070: Estórias cabralianas (89): Os filhos do sonho (Jorge Cabral)

(...) Grande escândalo em Missirá. A bela bajuda Mariama, apareceu grávida. Sobrinha do Régulo e há muito prometida a um importante Daaba de Bambadinca, era preciso averiguar..,

Reuni com o Régulo e chamámos a rapariga, Após um interrogatório cerrado, ela, muito a medo, esclareceu:
– O pai era o Alfero…
– Mas quando e onde?
– É que uma noite sonhei com ele. (...)



29 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15054: Estórias cabralianas (88): A bebé de Missirá (Jorge Cabral)

(...) Só no início de julho de 1969, quando o Pelotão se preparava para ir para Fá é que descobri que além dos vinte e quatro soldados africanos, contava com as respectivas mulheres, filhos, cabras e galinhas… Instalados, o quartel virou tabanca, animada com as brincadeiras das crianças e os risos das mulheres. Todos os soldados fulas eram casados e alguns com mais de uma mulher, pelo que existiam sempre grávidas e partos. (...)


18 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14761: Estórias cabralianas (87): O Espanhol, o alferes Sá de Miranda e a Borboleta que sonhava que era rapariga (Jorge Cabral)



(...) Em Missirá, jantávamos cedo. Éramos apenas onze brancos e rápidamente despachávamos o pé de porco com arroz ou a cavala com batatas. Depois ficávamos à mesa conversando. Alguns mais resistentes permaneciam noite dentro. Um deles era o novo cozinheiro, o Espanhol, soldado básico, que mancava. (...)



Outras estórias cabralianas de temática natalícia:


16 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14037: Estórias cabralianas (85): uma floresta de árvores de Natal... (Jorge Cabral)

(...)  A 24 de Dezembro pela manhã, fomos a Bambadinca. Trouxemos bacalhau e o correio.  Para mim chegou uma carta dos meus sobrinhos, escrita pela minha irmã. Dentro dela, um desenho do Pai Natal. Barba branca e uns óculos na ponta o nariz. Tal e qual eu ,agora…

À noite consoámos. Nem tristes, nem alegres. (...)


18 de dezembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9223: Estórias cabralianas (69): Onde mora o Natal, alfero ? (Jorge Cabral)


(...) Também houve Natal em Missirá naquele ano de 1970. Na consoada, os onze brancos e o puto Sitafá, que vivia connosco. Todos iam lembrando outros Natais. Dizia um:
– Na minha terra…

E acrescentava outro:
– A minha Mãe fazia… (...)



16 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2354: Estórias cabralianas (29): A Festa do Corpinho ou... feliz o tuga entre as bajudas, mandingas e balantas (Jorge Cabral)

(...) Porque estamos no Natal, recordas o teu de 1969 e um ataque a Bissaque. Eu passei o meu em Fá, e dias antes, noite dentro, quando já o comemorava por antecipação, acorri a defender a Tabanca de Bissaque, guiado pelo Marinho.Este era um velho, seco e pequenino, guardião das instalações de Fá, desde os anos 50(...).

21 de Dezembro de 2007 >. Guiné 63/74 - P2369: Estórias cabralianas (30): Um Natal em Novembro (Jorge Cabral)

(..) Amanheceu igual, só mais um dia em Missirá. Para o Mato Cão, vai o Alferes, uma secção, e o maqueiro Alpiarça. É lá chegar, esperar, ver o barco e voltar. Não há tempo para o sonho – do outro lado nem Gaia, nem Almada…Já estamos de regresso, ouvimos restolhar. Vem aí gente. Neste lugar só podem ser os turras. Claro que, como sempre, o Alferes empunha apenas o seu pingalim e, em vez do camuflado, enverga camisa branca e calções de banho (...).

13 de março de 2006 > Guiné 63/74 - P605: Estórias cabralianas (6): SEXA o CACO em Missirá


(...) Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.

– Alfero, Alfero, é Spínola! –  gritam os meus soldados (...).