quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17036: FAP (99): Alerta aos FIATs (António Martins de Matos, Ten Gen Pilav)

Caça-bombardeiro, subsónico, Fiat G-91, da FAP. Desenho de Nelson Teixeira (2011). Imagem do domínio público. 
Cortesia da Wikipedia.


1. Mensagem do nosso camarada António Martins de Matos, Ten General, (ex-Tenente Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74), com data de 8 de Fevereiro de 2017, narrando uma aventura matinal nos ares da Guiné.


ALERTA AOS FIATs

Guiné 1973, há já alguns meses que a guerra estava assanhada mas o dia anterior até fora bem tranquilo, apenas uma missão ao inicio da tarde, à noite tinha ido jantar ao Pelicano, a ementa habitual, pão e azeitonas, um “ninho de camarão”, seguido de um tornedó, arroz de acompanhamento (o barco da metrópole não tinha chegado com as batatas), a refeição regada com um Dão de 13º, nada de café (que me podia dar alguma insónia), de sobremesa e para facilitar a digestão mais um (ou dois?) Old Parr, em balão e sem gelo.
O regresso à Base também tinha sido normal, a minha bela e roxa Yamaha 200 a dois tempos até devia ter piloto automático, já conhecia o caminho de cor, pés “alevantados” não fosse atropelar alguma jibóia, durante a viajem apenas um ou dois moscardos a esborracharem-se no capacete.
O dia tinha corrido bem, foi bastante mais tarde que as coisas se complicaram.

Ainda o sol não tinha nascido e já alguém me batia à porta do quarto.
- “Sr Tenente, acorde, ALERTA AOS FIATs”.
Caramba, escusava de gritar, muito estremunhado lá me levantei, um pouco de água pela cara, enfiei-me no fato de voo, calcei as botas e deixei que me levassem até ao Land-Rover estacionado em frente aos alojamentos, o qual, numa imediata corrida que mais parecia do tipo “ Emergência do 112”, logo me transportou até à “linha da frente” dos aviões de alerta.
À chegada, o mecânico de serviço apontou-me um dos Fiat G-91 estacionados na placa, com um gesto do polegar garantiu que a máquina estava 5 estrelas, entregou-me o capacete e, sem mais conversas e até mesmo com uma certa brusquidão, logo me empurrou para dentro da aeronave.
Não gostava nada destas missões, irem-me buscar à cama e partir à alvorada, ainda meio a dormir, sem ter a mínima ideia de para onde ia ou o que ia encontrar, sem o mapa da zona, sem o obrigatório equipamento de sobrevivência e, ainda por cima, sem nada no estômago, nem uma simples bolachinha ou café que me pudessem reconfortar, era um astral muito, mais que muito… negativo.
Pensamentos sombrios a invadirem-me a cabeça, na minha nomeação para o Ultramar até podia ter escolhido Luanda, uma bomba ao meio-dia (dos dias pares), praia e ski cinco dias por semana, um dolce fare niente… certamente que lá ninguém me vinha acordar à cama, que raio de ideia ter preferido esta terra de calor, humidade, mosquitos e… guerra.
A esta distancia reconheço que a escolha foi mal esgalhada, tinha preferido a Guiné por uma razão simples, começar pelo pior, depois era sempre a melhorar, que, não era preciso ser um grande estratega e até um ceguinho via, aquelas guerras em África iam-se prolongar por muitos e longos anos…

Já sentado na máquina e ainda a tentar despertar, muito a custo lá descortinei o botão da bateria, logo inúmeras luzes e ponteiros acordaram, demasiada luminosidade e informação para aquela hora matinal, olhei-os sem os conseguir ver, se o mecânico disse que tudo estava bem, … certamente que estava.
Ainda a bocejar fiz sinal ao mecânico que ia “pôr em marcha”…
Dei ao starter (ao cartucho, para os mais entendidos destas coisas), não pegou, segunda tentativa, nada,.., a máquina continuava silenciosa, também devia estar ensonada e recusava-se a arrancar. - “Deve ter o motor de arranque xanado, vamos tentar de empurrão”, logo gritou o Sargento Chefe da Linha, homem anafado, façanhudo e de poucas palavras mas batido nestas coisas da aviação.
Dito e feito, destravei a máquina, engatei a segunda e fiquei à espera que o empurrão em esforço do pessoal me desse algum balanço para tentar aquela manobra alternativa.
Arrancou, muito aos soluços e aos ratéres… mas lá arrancou, numa nuvem de fumo preto e malcheiroso.
Depois nem tive tempo de aquecer o motor (o chamado ponto fixo), saída do estacionamento de rompante, com a manete a fundo e respectivo “burnout”, os pneus a chiarem no alcatrão e ala que se faz tarde até ao destino que, entretanto, alguém pelo rádio, me tinha sussurrado.
O sol ainda a nascer, não fosse a guerra e aquela terra até era bonita.

Apenas chegado ao local da contenda logo verifiquei que alguma confusão estava instalada lá pela zona, havia demasiados pedidos, requisitos e solicitações (tudo coisas diferentes), uns queriam que bombardeasse todas as matas da região, outros queriam saber do correio, um terceiro armado em rambo assegurava não precisar de ajuda, dizia que se tivesse mortos ou feridos os trazia às costas, um outro queria boleia para Bissau, ia de férias e tinha medo de perder o TAP.
Com algum esforço e palavreado a condizer, muito a custo lá consegui que se calassem e, depois de umas voltas para estudar a zona, conclui que, a existir, o inimigo devia estar emboscado por detrás de umas árvores de cor verde, numa área de mata de cor verde e bem para lá do risco verde que, no chão, demarcava a fronteira.
Há muito que o Gen. Spínola nos proibira de ultrapassarmos aquele risco verde mas, como ele não estava a ver, tal restrição não me impedia de lhes dar umas bordoadas, bastava, à posteriori, meter no relatório da missão umas quaisquer coordenadas do lado de cá do risco, certamente que o pessoal do CTIG não ia topar a marosca, já que liam sempre a papelada em viés e, desejosos de acabar com a guerra, há muito que só sublinhavam os feitos e o potencial do IN, sempre que possível realçando a sua crescente frota de MIGs e de carros de combate (que nunca ninguém viu).

Larguei as bombas no local que me pareceu mais suspeito mas logo tive uma surpresa já que o inimigo, em vez de se manter quieto e calado (como era suposto), ripostou, atirando-me com um Strela.
Não gostei nada daquela reacção, não estava prevista, já que na esquadra só havia um piloto autorizado a levar com strelas, dei uma volta larga para tomar balanço e logo voltei à carga ou como agora se diz, fiz um re-ataque, desta vez despejei-lhes as metralhadoras, todas as 800 munições num único passe, eu sei que o manual diz que não se pode fazer, que dá cabo dos canos, mas sabe bem, …, tinha aprendido esta técnica com um outro piloto mais velho que, qual cereja no bolo, ainda costumava abanar o avião para, dizia ele, espalhar melhor a metralha.
Levei com outro Strela.
De repente fez-se-me luz, aquela vontade de me acertar só podia ser do turra Manuel Santos, o “Manecas dos Strelas”, já que, conforme muito mais tarde acabou por confidenciar em entrevista ao Joaquim Furtado, só ele sabia disparar aqueles foguetes.
Já não tinha mais munições mas a vontade de o calar era grande, se lhe acertasse já não iria escrever aquelas bocarras do tipo “I love me, You stupid” que, uns anos mais tarde conseguiu meter à má fila, lá nas últimas páginas do livro do Major (Cor) Calheiros…
Voltei ao local do confronto e, à falta de melhor… atirei-lhe com os droptanks, no mínimo partia-lhe a cabeça.

Só depois desta terceira investida é que caí em mim.
Suspeitava que o Manecas se tinha ficado a rir e a comentar com os seus amigos cubanos que os aviadores tugas eram de uma nulidade confrangedora, por mais que tentassem nunca acertavam em nada, ainda estava para nascer o primeiro guerrilheiro que levasse com uma bomba nos… pés.
Triste, acabrunhado e um pouco a contragosto lá resolvi pedir pelo rádio que outros pilotos viessem tentar desatar aquele nó górdio que não tinha conseguido resolver.

Depois foi o regresso à Bissalanca, só então me percebi do novo problema que, sem querer, acabara de criar, deitara fora os droptanks e agora, luz da reserva acesa, mal tinha combustível suficiente para chegar a Bissau.

Era sempre nestes momentos de stress que as frustrações vinham ao de cima.
Alguém reconheceria o esforço que nos era pedido no cumprimento das missões?
Em tempos anteriores um aviador tinha-se ejectado, tinha olhos azuis, logo alguém se apressou a dar-lhe uma Cruz de Guerra, por estes dias o meu amigo Kurica também se tinha ejectado, castanhos, deram-lhe… um molho de brócolos (dos pequeninos).
Alguns meses antes um outro piloto tinha levado com uns tiritos, como demonstração e prova da sua grande operacionalidade, no fio ao pescoço ostentava orgulhosamente uma bala, quando mais tarde ouviu falar nos Strelas logo desistiu de voar, que um Strela ao pescoço não era exequível.
Outras ideias negras e (muito) recalcadas a emergirem, só chatices, encrencas e merdices, que diabo, por que razão não conseguia ser um piloto bem esgalhado do tipo “Major Alvega” ou “Top Gun”, ou de outros iluminados que faziam parte dos “La Crema de La Nata”, como um outro que, sozinho, conseguia resolver toda a guerra?

Embrenhado nestes pensamentos, o tempo foi passando e a coisa até acabou por correr bem, sem males maiores lá consegui chegar a Bissau.
Ainda não eram 07:00 e a missão estava quase completada, já imaginava o pequeno almoço e o que iria escrever no tal relatório que os do CTIG não iam ler, quando o Princípio de Murphy me voltou a lixar com nova emergência, ao fazer-me à pista o trem de aterragem não saiu, o alarme sonoro de “trem não bloqueado” começou a tocar, …
Tudo me acontecia…
Já com pouco combustível e sem trem, preparei-me para o pior, certamente o que me iria acontecer seria uma aterragem de barriga, ou papada, como é habitual dizer-se nos meios aeronáuticos, nada a ver com outras situações ou figurinos.
Cintos bem apertados, lá me mentalizei o melhor que pude para o contacto e raspanço pelo asfalto da pista, aquela estória do pássaro ui ui a vir-me à mente.
Inexplicavelmente, consegui aterrar normalmente.
Só então me apercebi que algo não estava conforme a lógica das coisas, o combustível já se tinha esgotado mas o motor continuava a trabalhar, estava a rolar na pista e no entanto o alarme do trem não bloqueado continuava a tocar, cada vez com maior intensidade…

Acordei.
Desliguei o despertador.

PS. Dedicado a todos os Malteses, Rambos e Alvegas deste país.
____________

Nota do editor

Último poste da série de 16 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16496: FAP (98): "Pedaços das nossas vidas" - "Marte, saia a Força Aérea, o Pirata ejetou-se em Gandembel", por TGeneral PilAv José Nico - II Parte (Miguel Pessoa)

5 comentários:

antonio graça de abreu disse...

Excelente meu caro António Martins de Matos, a guerra a brincar, a guerra mais do que a sério.

Abraço amigo,

António Graça de Abreu

António José Pereira da Costa disse...

Oh Tóino!
Tázescrever umas coizas!
Continua.
Um Ab.
PK

Tabanca Grande disse...

António, já tínhamos saudades da tua prosa...Mais um texto "(e)strelado" que fica bem no céu da Tabanca Grande onde todos somos iguais, e ninguém é mais igual do que os outros...

Moral da história: não deves jantar tarde, e muito menos, beber dois "Old Parr", em balão, sem gelo, depois do jantar e antes de ir para a caminha... Na nossa idade, dá pesadelo, pela certa!...

Mas, olha, bendito pesadelo, foi heurístico, afinal não precisas de ir fazer esses "workshops" que agora há por aí, e estão na moda, de "escrita criativa" (...ofereceram-me um, há dias, pelos anos, lá tenho que gramar um domingo destes, fechado numa sala, para "gozar" o "workshop")...

É um texto bem humorado, como sempre, sobre as misérias e grandezas da nossa guerra por terra, ar e mar, em que não te esqueceste dos heróis e dos vilões... Para o leitor distraído, refira-se que Kurica era (é) o "nome de guerra" do nosso querido amigo e camarada Miguel Pessoa...

Um alfabravo, Luís

Anónimo disse...

Caro Sr. General António Matos,
Um sonho ou uma realidade (?)contado com o humor típico a que onos habitou. Felizmente nunca precisei da ajuda dos FIATs, mas lembro de os ver passar passar muitas vezes sobre o canal de Bolama em direcção ao sul, zonas de Empada e Cacine, Gadamael, Guiledge.
Quem estaria a embrulhar, perguntáva-me?
Deixo-lhe aqui um desafio, até porque desconheço, e muitos dos nossos tabanqueiros certamente que tiveram a ajuda dos FIATs, quanto tempo mediava entre o alarme e o levantar voo de um FIAT e qual o processo normal que os nossos pilotos seguiam até chegarem ao local de ajuda. E mais, qual a maior dificuldade que os pilotos sentiam na aproximação e desencadeamento do ataque aéreo?
Abraço transatlântico.
José Câmara

Hélder Valério disse...

Caro amigo AMMatos

Bem 'esgalhado"!
Uma 'estória' imaginária repleta de 'fundos de verdade'.
Quem conhece, minimamente, o conjunto de episódios, de situações, de figuras e figurões e outras situações, 'descodifica' perfeitamente o conteúdo do 'sonho'.
Claro que há pelo meio do 'relato' alguns 'casos' ainda mal resolvidos mas, também pelo meio, há algumas situações interessantes e susceptíveis de serem motivo de comentário.
O repasto no Pelicano é uma delas.
A descrição da refeição (bem completa...) merece reflexão. Para começar, o local. O Pelicano, para quem não sabe, era um local bem localizado, com alguns aspectos de modernidade (para a época e para o local) funcionando maioritariamente como cervejaria mas com um restaurante com frequentadores mais 'exigentes' em termos de qualidade e diversidade. A ementa que é referida, o 'ninho de camarão' excelente (já se sabe que a criação do mesmo foi do nosso 'tabanqueiro' Mário), o pormenor do Dão de 13º (calculo que tenha sido um "Grão Vasco"), o tornedó (calculo também que tenha sido com 'molho tártaro'), a sobremesa não especificada e para finalizar o Old Parr com a 'novidade' e o requinte de não ter gelo nem Perrier a acompanhar, tudo isso mostra não só o bom gosto (e um respaldo em 'pesos' correspondente...) como serve para mostrar que, mesmo na Guiné que tanto atemorizava (e com razão, vá lá!) as mentes de muitos portugueses na Metrópole, era possível viver o dia-a-dia com qualidade.
Depois, o pormenor de conduzir a motorizada com as pernas "alevantadas" por causa do possível atropelamento de alguma cobra, também deve servir para mostrar aos que não tiveram a ventura de demandar terras da Guiné quanto era vivido em cima do 'fio da navalha' no dia-a-dia e como a forma de encarar essas pequenas contrariedade e 'surpresas' nos foram fazendo crescer.
Também refiro que fiquei muito interessado na explicação que foi dada para a escolha da Guiné, como opção para o desempenho do serviço da missão, em vez de Angola, por exemplo. Muito interessante.

Mais algumas coisas poderiam ser motivo de observações mas estas já chegam.
Ah, é verdade, mesmo tendo em conta a "realidade ficcionada" acho que valeu a pena o esforço da escrita, da narrativa.

Hélder Sousa