quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17052: Tabanca Grande (426): Sílvia Torres, filha de ex-combatente, doutoranda em ciências da comunicação pela NOVA, autora do livro "O jornalismo português e a guerra colonial", nossa grã-tabanqueira nº 736


1. Mensagem da nossa grã-tabanqueira Sílvia Torres, doutoranda em ciências da comunicação pela Universidade NOVA de Lisboa, autora da obra "O jornalismo português e a guerra colonial” (Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2016, 436 pp.) (*)


De: Sílvia Torres <silviammtorres@gmail.com>
Data: 15 de fevereiro de 2017 às 18:12


Professor Luís Graça,

O meu pai, António Torres,  esteve em Angola de 1972 a 1974. Foi mecânico de armas.

Comecei a interessar-me pela guerra e por Angola por influência do meu pai que todos os anos, em maio, se reunia (e continua a reunir) com os camaradas de Angola, que no dia-a-dia recordava (e continua a recordar) episódios de Angola e que sempre que podia ia visitar (e continua a ir) camaradas da guerra espalhados pelo país – no carro, havia sempre um conjunto de folhas com nomes, moradas e números de telefone de ex-combatentes (esta lista continua a ser consultada com
frequência pelo meu pai).

As muitas fotografias que trouxe de Angola, que a minha mãe tão bem organizou em álbuns, ilustravam as suas palavras.

O interesse pela Guiné Portuguesa e por Moçambique surgiu mais tarde.

Sou licenciada em Jornalismo e Comunicação e iniciei a minha vida profissional no Diário de Coimbra, como jornalista, em 2005. Em 2007, chamou-me à atenção um anúncio no jornal Expresso: a Força Aérea estava a recrutar uma pessoa com formação em jornalismo. Candidatei-me, fiz os testes (médicos, psicotécnicos e físicos) e fui a selecionada para a vaga em causa. Fui colocada na Rádio Lajes (Terceira - Açores), passei pelo Centro de Recrutamento da Força Aérea (Lisboa) e cumpri também uma missão de cooperação técnico-militar em Timor-Leste. Estive na Força Aérea entre outubro de 2007 e maio de 2014, como oficial, com a especialidade Recursos Humanos e Logística.

No âmbito do Mestrado em Jornalismo, que conclui na Universidade Nova de Lisboa, escolhi estudar a cobertura jornalística da Guerra Colonial/do Ultramar feita pela imprensa de Angola. Agora, como
doutoranda, centro o meu estudo no mesmo tema, mas alargado também a Moçambique e à Guiné. O jornalismo português, pelo menos até ao 25 de abril de 1974, alcançava também os meios de comunicação social das então províncias ultramarinas e, assim sendo, é nossa obrigação não o
ignorar, porque faz parte da nossa história e porque, tal como o jornalismo da metrópole, também teve a sua importância.


Quanto à minha apresentação, aqui vai uma pequena nota biográfica:

(i) Sílvia Torres nasceu em Mogofores, Anadia, em 1982;

(ii) licenciada em Jornalismo e Comunicação e mestre em Jornalismo;

(iii)  começou por ser jornalista do Diário de Coimbra;

(iv) entre 2007 e 2014, como oficial da Força Aérea Portuguesa, trabalhou na Rádio Lajes (Terceira – Açores) e no Centro de Recrutamento da Força Aérea (Lisboa), cumprindo ainda uma missão de
cooperação técnico-militar em Timor-Leste;

(v) atualmente é doutoranda em Ciências da Comunicação pela Universidade NOVA de Lisboa e bolseira de investigação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT);

(vii) a sua pesquisa centra-se na cobertura jornalística da Guerra Colonial feita pela imprensa portuguesa de Angola, da Guiné Portuguesa e de Moçambique, entre 1961 e 1974;

(viii) o facto de ser filha de um ex-combatente justifica o interesse pessoal e académico pelo conflito.

Cumprimentos, Sílvia Torres



Capa do livro "O jornalismo português e a guerra colonial" (Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2016). Organização de Sílvia Torres. Foto de capa do Facebook da autora (com a devida vénia...)



2. Comentário dos editores:

Sílvia, fica apresentada, e muito bem,  à Tabanca Grande. É, em termos cronológicos, a grã-tabanqueira  nº 736 (**)... Todos os lugares são sentados, à sombra do nosso mágico, secular, protetor e fraterno poilão... Não há tabanca que se preze que não tenha um secular poilão... É uma árvore sagrada: é lá que repousam os bons irãs... e as memórias daqueles dos nossos amigos e camaradas que "da lei da morte já se foram libertando"... (E já são 52 num total de 736.)

Obrigado por abrir um pouco mais o seu "livro da vida". Ficamos a saber a razão da sua "ligação" a esta temática, incluindo a sua  relação com a Guiné e o seu trabalho na FAP... Como já lhe dissemos, temos vários camaradas da FAP, incluindo um tenente general que foi um bravo "pilav" do Fiat G-91, em 1972/74, António Martins Matos, antigo chefe do Estado Maior da Força Aérea

Ficamos também a saber que o seu pai esteve em Angola, entre 1972 e 1974 e tinha uma especialidade, relativamente rara, "mecânico de armamento"... Devia haver um por batalhão, pelo menos  na Guiné...

Como sabe, o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné é essencialmente um espaço de partilha de memórias (e de afetos)... Embora centrado na Guiné, o blogue fala de outros territórios que são teatros de operações da guerra colonial ou onde marcámos presença (histórica) enquanto portugueses...

Também termos, como já sabe, um "livro de estilo":  ver aqui as 10 regras da política editorial do blogue...Os antigos camaradas de armas, por exemplo, tratam-se por tu...

Disto isto, desejamos-lhe os maiores sucessos pessoais e profissionais. Um alfabravo (abraço) para o seu pai e nosso camarada António Torres. (Se quiser partilhar connosco algumas das suas histórias e fotos de Angola, diga-lhe que as portas da Tabanca Grande estão abertas para ele...).
_______________

Notas do editor:

(*) Vd. postes de:

14 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17048: Recortes de imprensa (85): O nosso camarada Armor Pires Mota no lançamento do livro da investigadora Sílvia Torres ("O jornaliismo português e a guerra colonial", Lisboa, Guerra & Paz, 2016, 432 pp.) na sua terra natal: Anadia, 2 de julho de 2016 (Excerto do "Correio do Vouga")

3 comentários:

Tabanca Grande disse...

Merece destaque,na aprssentação da Sílivia, ela vir-nos dizer que "o facto de ser filha de um ex-combatente justifica o interesse pessoal e académico pelo conflito" [, referência à guerra do ultramar / guerra colonial]... O caso desta jovem não é o primeiro nem será o único... São cada vez mais elas, as filhas, a vir ter connosco, a bater à porta da Tabanca Grande, com ou sem procuração dos paus, antigos combatentes... Alguns, muito simplesmente à procura de restos do passado... São mulheres de grande sensibilidade e generosidade... Regista-se o exemplo de amor filial!... LG

Sílvia Torres disse...

A guerra não termina quando se limpam as armas e quando o último combatente abandona o teatro de operações. Assim sendo, a guerra que ainda vive dentro do ex-combatente, por vezes, passa para quem com ele convive. Conheço alguns casos. Quem pensa que a Guerra Colonial/Guerra do Ultramar é passado, engana-se!

José Marcelino Martins disse...

Parabéns, pela adesão a este espaço de antigos combatentes.

Parabéns, pelo trabalho já produzido e colocado à disposição dos leitores que queiram informar do que se passou por aquelas terras, apesar da nossa presença "oficial" ter sido registado em 15 de Agosto de 1415, em Ceuta.

A frase acima sintetiza, o que na realidade se passa com quem passou por um teatro de guerra. Mesmo aqueles que "dizem" não querer saber nem receber, a medalha a que têm direito, mais não fazem que revelar o que lhes vai na alma, resultante da sua estadia naquelas terras.

Parabéns e que os esforços, agora desenvolvidos, possam ser coroados de êxito.

Se:
"Ditosa Pátria que tais filhos teve", eu acrescento:
"Ditosos pais que tais filhos têm".