sábado, 11 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17041: "Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp) - Parte I: Mobilização do batalhão e composição das companhias (1)


Cabo Verde > Ilha do Sal > Vista de Santa Maria (1)


Cabo Verde > Ilha do Sal > Vista de Santa Maria (2)
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Capa da brochura, "Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp. inumeradas, il.)








Brochura digitalizada a partir de cópia pessoal do Augusto Silva Santos




1. O nosso camarada e grã-tabanqueiro Augusto Silva dos Santos (que reside em Almada e foi fur mil da CCAÇ 3306/BCAÇ 3833, Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73)  [. foto à direita,] teve o pai, na II Guerra Mundial, como expedicionário em Cabo Verde: o Feliciano Delfim Santos (1922-1989) era 1º cabo da 1ª companhia do 1º batalhão expedicionário do RI 11, que esteve na ilha do Sal, entre junho de 1941 e dezembro de 1943 [, foto à esquerda].

Do seu espólio,  o filho aproveitou 33 fotos que, depois de digitalizadas, foram enviadas para publicação no nosso blogue, bem como  um exemplar da brochura que agora vamos apresentar...  O Augusto mandou-nos cópia em pdf e faz gosto em partilhá-la com todos os amigos e camaradas da Guiné que se sentam à sombra do mágico poilão da Tabanca Grande.

Trata-se de um conjunto de crónicas publicadas originalmente no jornal "O Distrito de Setúbal", e depois editadas em livro, por iniciativa da Assembleia Distrital de Setúbal, em 1983, ao tempo do governador civil Victor Manuel Quintão Caldeira. A brochura, ilustrada, tem 76 páginas, inumeradas. É seu autor José Rebelo, antigo expedicionário e na altura, em 1983,  capitão SGE. Não sabemos se ainda hoj3 é vivo, mas oxalá que sim, tendo então a bonita idade de 96 ou 97 anos. Em qualquer dos casos, este nosso velho camarada merece, onde quer que esteja, as melhores manifestações do nosso apreço e gratidão.

O Augusto Silva Santos e os editores do blogue defendem  que é um "dever de memória"  e uma obrigação salvaguardar e divulgar esta brochura, já rara, da qual se fizeram 1000 exemplares. A execução gráfica esteve a cargo da Setulgráfica, de Setúbal.

Recorde-se que os "expedicionários do Onze" partiram do Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa, no vapor "João Belo", a 16 de junho de 1941, com desembarque na Praia, ilha de Santiago, a 23 do mesmo mês. O navio transportava igualmente os materiais de construção indispensáveis para a edificação das instalações para o pessoal de dois batalhões (do RI 11 - Setúbal e do RI 2 - Abrantes)  e de mais uma companhia (de comando e serviços do RI 11,  composta por 312 homens), além de serviços de saúde e intendência, tudo num total de 2244 militares: foram colocados na Ilha do Sal, e ali permanceram dois anos e meio (junho de 1951 / dezembro  de 1943).

Pelo relato do José Rebelo, sabe-se que:

 (i) o 1º Batalhão do RI 11, que esteve do Sal, era composto por 852 homens, a grande maioria oriundo do distrito de Setúbal;

(ii) a ilha era escassamente era povoada ("meia dúzia de casas"...);

(iii) as únicas atividades produtivas, além da pesca artesanal, eram a exploração de uma mina de sal e um fábrica de conservas de peixe (atum);

(iv) tiveram que recrutar lavadeiras de outras ilhas (Boavista, São Vicente e Santiago), que não as havia na ilha do Sal;

(v) nem sequer havia padre na ilha, apenas uma professora, na vila de Santa Maria, a "capital";

(vi) o aquartelamento era na Pedra de Lume, perto das minas de sal, no nordeste da ilha;

(vii) a água potável era racionada, tomando-se banho e lavando-se a roupa com água salgada;

e, por fim, (viii) cerca de duas dezenas de homens do 1º batalhão do RI 11 morreram de doença, ficando sepultados na ilha.

A par dos Açores, Cabo Verde (e muito em particular a ilha do Sal e a  ilha de São Vicente) tinha um papel estratégico na defesa contra eventuais ataques das potências envolvidas na II Guerra Mundial: a ilha São Vicente, por causa do porto de Mindelo; a ilha do Sal por causa das suas infraestruturas aeroportuárias... (E, no caso dos Açores, por ser um verdadeiro "porta-aviões" natural, no meio do Atlântico, tendo vindo a revelar-se decisivo para o desfecho, a favor dos Aliados, da guerra do Atlântico Norte).

A ilha do Sal, mais especificamente,  tem também um papel na história da aviação comercial e nomeadamente no desenvolvimento das ligações transatlânticas (entre a Europa e América do Sul)... Sabe-se que por volta de 1935/36 os italianos estavam muito empenhados em construir um aeródromo, em Cabo Verde, que permitisse à sua aviação comercial  fazer uma escala, a meio do Atlântico,  na longa viagem entre Roma e as capitais dos países da América do Sul onde viviam importantes comunidades de origem italiana.

A escolha acabou por recair no Sal (uma ilha plana com 30 km de comprimento e 12 km de largura, no sentido leste-oeste), com o beneplácito de Salazar:   a 13 de agosto de 1939, os italianos fazem desembarcar material destinado ao início das obras de construção do aeródromo (oficinas, central eléctrica, posto de rádio, camiões, etc, além de chefes, técnicos e operários). Em escassos meses foram montados os pré-fabricados, foi construída uma pista de terra batida, e  instalaram-se  os  indispensáveis serviços de apoio (hangares para os aviões, oficinas de manutenção, rádio, posto de meteorologia, armazéns, escritórios, hotel, locais de habitação, hospital)...

A linha Roma-América do Sul vai funcionar até maio de 1940, ou seja, até à entrada da Itália na guerra, ao lado da Alemanha. O  aeroporto fica desativado até ao final do conflito,  altura em que as suas infraestruturas são adquiridas pelo governo português... No pós-guerra, foram feitos bastantes melhoramentos, com destaque para a  construção de uma pista asfaltada de 2200 metros. O novo aeroporto internacional  (hoje batizado Amílcar Cabral)  foi inaugurado em  15 de maio de 1949.

Percebe-se melhor agora a "missão de soberania" que foi confiada aos "expedicionários do Onze" (mas também do RI 2)... De resto, o esforço de guerra do país, nessa época, não é conhecido (ou é muito mal conhecido) de muitos de nós: em outubro de 1943, eram mobilizados no continente 60 mil homens, juntando-se aos 40 mil espalhados pelos Açores, Cabo Verde e colónias.

Estima-se que, entre 1940 e 1945, o nº de homens em armas ascendesse aos 180 mil. Por sua vez, a modernização do exército, neste  período, implicou uma despesa extraordinária com rearmamento que, a par da mobilização,  auumentou 12 vezes e meia em escassos anos, passando dos 90 mil contos (em 1937) para os 1124 mil contos (em 1943) (Quadro a seguir).



Fonte: Portugal. Assembleia Nacional. Diário das Sessões. IV Legislatura, Sessão nº 11, em 14 de dezembro de 1945, p. 130. Intervenção do deputado Sá Viana Rebelo.


Até agora sabemos da existência de dois familiares de camaradas nossos que fizeram parte do 1º batalhão do RI 11: além do pai do Augusto Silva Santos, o 1º cabo Feliciano Delfim Santos (1922-1989), temos o tio do Benjamim Durães, o soldado atirador António Joaquim Durães. É possível que haja outros... (LG)





"Expedicionários do Onze a Cabo Verde (1941/1943)", da  autoria do capitão SGE José Rebelo (Setúbal, Assembleia Distrital de Setúbal, 1983, 76 pp. inumeradas, il.) 


Parte I (pp. inum, 1 a 5)



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Nota do editor:

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17040: Notas de leitura (928): “O PAIGC perante o dilema Cabo-Verdiano (1959-1974)”, por José Augusto Pereira, Campo da Comunicação, 2015 (1) (Mário Beja Santos)

Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Novembro de 2015:

Queridos amigos,
Trata-se de uma edição recente e não hesito em recomendar a sua leitura. Enfrentando o tabu da unidade Guiné-Cabo Verde, este mestre em História aparece bem preparado e com a bibliografia em dia. Lamento que Pedro Pires continue monolítico e ponha em Momo Turé e alguns outros militantes de pouco relevo a conceção e a execução de um complô que levou ao assassínio de Cabral e à prisão relâmpago de centenas de cabo-verdianos em Conacri, é uma explicação tão absurda, um bom anestésico para usar até à independência e no qual só os fanáticos da unidade Guiné-Cabo Verde têm coragem em propalar. É um livro, como iremos ver, em que a história dos dois povos e a sua presença na luta são medidos passo a passo, nos dois níveis. É uma vertente aliciante que poucos investigadores querem explorar, com os dados possíveis, já que há muitos silêncios que provavelmente nunca serão decifrados.

Um abraço do
Mário


O PAIGC perante o dilema Cabo-Verdiano (1)

Beja Santos

Eis aqui uma boa oportunidade para ver as diferenças entre o PAIGC da luta armada na Guiné e o PAIGC clandestino em Cabo Verde, sonhando com desembarques que nunca aconteceram e até mesmo numa guerrilha do tipo cubano. “O PAIGC perante o dilema Cabo-Verdiano (1959-1974)”, por José Augusto Pereira, Campo da Comunicação, 2015, é uma dissertação que o autor apresentou para obter o grau de Mestre em História dos séculos XIX e XX. Tem prefácio do Comandante Pedro Pires. Trata-se de uma investigação rigorosa e muito cuidada, o leitor não irá encontrar aqui nada de surpreendente, mas é um trabalho bem elaborado onde o investigador contextualiza as economias e as estruturas sociais da Guiné e de Cabo Verde, historia a vida do PAIGC e aprofunda a questão da unidade entre a Guiné e Cabo Verde e releva os múltiplos obstáculos que foram dificultando o sucesso da consigna, bem como os inúmeros obstáculos que se puseram à propaganda do PAIGC nas ilhas de Cabo Verde. Temos aqui trabalho sério, que merece recensões aprofundadas.

O Comandante Pedro Pires perdeu mais uma oportunidade de fugir aos jargões da propaganda e de nos trazer, com propriedade e de acordo com a experiência que teve na luta armada, uma reflexão séria sobre os entraves de viu na dita unidade Guiné-Cabo Verde. Preferiu passar em revista alguns dos episódios bem conhecidos do público sobre as lutas de libertação nacional, tudo com emoção e carga apologética. Em certos momentos, cede à demagogia dizendo enormidades como a de que uma das razões maiores dos assaltos às bases do PAIGC no interior da Guiné tinha a ver com a alta qualidade das mercadorias comerciadas pelos Armazéns do Povo… Estamos mesmo a ver os Estados-Maiores a desenhar operações conhecendo a localização deste e daquele Armazém do Povo, dando instruções para apanhar à mão bens não disponíveis nas lojas de Bissau e víveres desinteressantes para a Manutenção Militar. Igualmente quando se refere ao assassinado de Amílcar Cabral, o Comandante Pedro Pires socorre-se de uma lengalenga de intrigas, deturpações e maquinações montadas pelos colonialistas e um punhado de traidores. Acontece que o Comandante prefacia um livro onde há o cuidado de registar os enormes diferendos entre guineenses e cabo-verdianos no início dos anos 1960 e que tinham a ver com estratégias de uma Guiné para guineenses e um Cabo Verde para cabo-verdianos. Voltamos ao magro refrão de Momo Turé e outros libertados em 1969, aos corruptos da Marinha do PAIGC e às manobras deletérias da PIDE, isto anos depois de Aristides Pereira ter dito ao jornalista José Vicente Lopes que havia gente graúda da Guiné, em lugares de topo, que sabia da conjura, caso de Osvaldo Vieira e até de Nino Vieira. É lamentável.

Falando de Cabo Verde, reconheça-se que a sua argumentação é ajustada, ele próprio foi preparado em Cuba para esse tipo de operações, não havendo condições estes militantes cabo-verdianos foram desviados para a guerrilha guineense onde tiveram desempenho da maior importância, caso de Silvino da Luz, Agnelo Dantes e Osvaldo Lopes da Silva, este último foi o estratego do fogo de artilharia sobre Guileje. Ele diz que o PAIGC incluiu na sua estratégia de luta contra o colonialismo e pela independência nacional a probabilidade do desenvolvimento da luta armada em Cabo Verde. É verdade, são situações bem documentadas.

Estamos agora entrados no trabalho de José Augusto Pereira. Dá-nos um quadro do funcionamento das duas economias, das migrações cabo-verdianas, das respetivas estruturas sociais dos dois territórios. Refere igualmente a presença portuguesa e cabo-verdiana nos “Rios da Guiné”, presença diluída, é certo, mas com marcas. Os cabo-verdianos são mercadores, velejadores, traficantes de escravos, como mais tarde serão os escolhidos para representar o poder português depois das guerras de pacificação. Entre os séculos XV e XIX, os cabo-verdianos eram negreiros, envolveram-se na colocação de mão-de-obra escrava em Cuba e no Brasil, e goste-se ou não, aos olhos dos autóctones eles eram os representantes do poder colonial. A animadversão entre os dois povos tem esta base estrutural. E há mais, como o autor sublinha: os cabo-verdianos combatiam os africanos, a derrota infringida em Bolor pelos Felupes às forças portuguesas foi concretamente a um contingente de tropas cabo-verdianas. Os cabo-verdianos estiveram igualmente ligados às explorações agrícolas, a partir de meados do século XIX. Eram os cabo-verdianos e alguns africanos cristianizados que estavam à frente das pontas, feitorias agro-comerciais que se vulgarizaram nas margens do rio grande. Tudo se separa e algo aproxima a Guiné de Cabo Verde. Veremos adiante que o lema da unidade foi excelente para animar a luta, encontrar quadros preparados para as relações externas e para a delicadeza de certas operações militares. Mas as desconfianças e os ressentimentos teriam um dia de vir ao de cima. Como vieram.

O autor, bem municiado pela bibliografia mais adequada, fala das origens do PAIGC e lembra que hoje um ramo da historiografia contesta a criação do PAI em 19 de Setembro de 1956. Um dos argumentos mais exibidos é que os militantes africanos que estiveram na génese de organizações como o Movimento de Libertação Nacional das Colónias Portuguesas e do Movimento Anticolonialista, entre os quais se encontrava o próprio Amílcar Cabral, desconheciam a alegada fundação do PAI em 1956. Dado seguro é que Cabral participa na reunião de 19 de Setembro de 1959, aí apareceu uma estratégia e aí se definiu quem partia para a clandestinidade e quem lutaria no interior do território, desencadeando a fase da subversão. Embora nada haja de novo na exposição, é extremamente útil recordar a atmosfera de Conacri, onde inicialmente o PAIGC encontrou hostilidade e a posição do Senegal, onde fervilhavam movimentos nacionalistas que pugnavam pela independência da Guiné e Cabo Verde. Só o talento de Cabral é que permitiu superar as animosidades e relegar para a sombra os concorrentes que jamais se souberam impor no campo das armas e na organização da luta. Dá-se importância ao que aconteceu no Congresso de Cassacá, em Fevereiro de 1964, e o autor explana detalhadamente a ação do PAIGC na frente diplomática, como é de todos sabido quem dirigia os contactos era Cabral embora tivesse vários apoios como Onésimo Silveira na Escandinávia. Até ao seu assassinato, e particularmente nos anos de 1971 e 1972, Cabral apareceu sempre como a voz autorizada e o azimute da política externa.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17027: Notas de leitura (927): Fundação João XXIII - “Férias solidárias”: o espírito de cuidado com a Guiné-Bissau (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P17039: Meu pai, meu velho, meu camarada (51): Feliciano Delfim dos Santos (1922-1989), ex-1.º cabo, 1.ª Comp /1.º Bat Exp do RI 11, Cabo Verde (Ilhas de Santiago, Santo Antão e Sal, 1941/43) (Augusto Silva Santos) - Parte IV: Ilha do Sal, Feijoal


Cabo Verde > Ilha do Sal > Feijoal > 1942 > O Feliciano é o quarto, sentado, da direita para a esquerda. [Foto 19A]


Cabo Verde > Ilha do Sal > Feijoal > 1942 > O Feliciano é o quarto, de pé, da direita para a esquerda. [Foto 17 A]


Cabo Verde > Ilha do Sal > Feijoal > 1942 > O Feliciano, na última fila, o mais alto, de mão no ar [Foto 18 A]


Cabo Verde > Ilha do Sal > Feijoal > 1942 > O Feliciano, na última fila, assinalado com uma seta. [Foto 20 A]


Cabo Verde > Ilha do Sal > Feijoal > 1942 > O Feliciano, o primeiro da esquerda [Foto 21 A]


 Cabo Verde > Ilha do Sal > Feijoal > 1942 > O Feliciano, sentado no burro [Foto 22 A]


Cabo Verde > Ilha do Sal > Feijoal > 1942 > O Feliciano, primeiro da esquerda.[Foto 23 A]

Fotos (e legendas): © Augusto Silva Santos (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Feliciano Delfim Santos (1922-1989)
1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do pai do nosso camarada e grã-tabanqueiro Augusto Silva dos Santos (que reside em Almada e foi fur mil da CCAÇ 3306/BCAÇ 3833, Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73). 

O Augusto disponibilizou-nos 33 fotos, digitalizadas, do seu pai, Feliciano Delfim Santos (1922-1989), e dos seus camaradas da 1ª companhia do 1º batalhão expedicionário do RI 11, que esteve na ilha do Sal, entre junho de 1941 e março  de 1943 e deposi na ilha de Santo Antão (até dezembro de 1943) [, foto à direita].

Os "expedicionários do Onze" partiram do Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa, no vapor "João Belo", a 16 de junho de 1941, com desembarque na Praia, ilha de Santiago, a 23 do mesmo mês (8 dias de viagem).

Estiveram cerca de vi nte meses na então inóspita e pouca habitada ilha do Sal, em missão de soberania, como se podem perceber por estas fotos. As instalações (barracas de madeira) eram em Pedra Lume, a nordeste da ilha. A capital era então Santa Maria, a sul.

As fotos que publicamos hoje são do sítio do Feijoal, onde havia alguma raquítica  vegetação e provavelmente haveria mesmo uma pequena horta (a avaliar pela presença de um burro, de um moinho de vento, em ferro, dos muros de pedra e de algumas, poucas, árvores, nomeadamente palmeiras)... O sítio ainda hoje existe, fica entre Espargos (hoje a capital, que se desenvolveu com o aeroporto internacional Amílcar Cabral e o turismo...)  e Pedra Lume, onde estavam aquartelados os militares do Onze. [Vd aqui  o mapa do Google.]
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Nota do editor

(*) Último poste da série > 2 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17016: Meu pai, meu velho, meu camarada (51): Feliciano Delfim dos Santos (1922-1989), ex-1º cabo, 1º Comp /1º Bat Exp do RI 11, Cabo Verde (Ilhas de Santiago, Santo Antão e Sal, 1941/43) (Augusto Silva Santos) - Parte III: Fotos de Pedra Lume, Morro Curral e Espargos, na ilha do Sal

Guiné 61/74 - P17038: Militares mortos na 1.ª Guerra Mundial e Guerra do Ultramar do concelho de Torre de Moncorvo (Armando Gonçalves) - Parte IV: TO de Angola, Guiné e Moçambique, a Primavera Marcelista e o fim do Estado Novo


Torre de Moncorvo: logo da câmara municipal (cortesia da página do município). 
O município erigiu, em 2013, um monumento aos combatentes da guerra do ultramar.



Eduardo Mondlane (1920-1969)

"Fundador e primeiro Presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), arquitecto de Unidade Nacional, nasceu em Manjacaze, Província de Gaza, a 20 de Junho de 1920 e faleceu a 3 de Fevereiro de 1969, vitima de um livro armadilhado com bomba que ao explodir pôs termo a sua vida.

"Filho de um chefe tradicional, Mondlane estudou na missão presbiteriana suíça, próxima de Manjacaze, terminou os seus estudos secundários numa escola da mesma igreja na África do Sul, depois de uma curta passagem pela Universidade de Lisboa, foi ainda financiado pelos suíços para fazer os estudos superiores nos Estados Unidos da América, onde se doutorou em sociologia".

(Foto e e legenda > Fonte: Frelimo, com a devida vénia)



1. Continuação do trabalho de pesquisa do nosso amigo Armando Gonçalves, professor de História, do Agrupamento de Escolas Dr. Ramiro Salgado, em Torre de Moncorvo, e que aceitou integrar a nossa Tabanca Grande, passando a ser o nº 733 (*)

Parte IV (pp. 16-19)

Guiné 61/74 - P17037: Parabéns a você (1207): José Brás, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 1622 (Guiné, 1966/68)

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Nota do editor

Último poste da série de 8 de Fevereiro de 2017> Guiné 61/74 - P17031: Parabéns a você (1206): Constantino (Tino) Neves, ex-1.º Cabo Escriturário do BCAÇ 2893 (Guiné, 1969/71)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17036: FAP (99): Alerta aos FIATs (António Martins de Matos, Ten Gen Pilav)

Caça-bombardeiro, subsónico, Fiat G-91, da FAP. Desenho de Nelson Teixeira (2011). Imagem do domínio público. 
Cortesia da Wikipedia.


1. Mensagem do nosso camarada António Martins de Matos, Ten General, (ex-Tenente Pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74), com data de 8 de Fevereiro de 2017, narrando uma aventura matinal nos ares da Guiné.


ALERTA AOS FIATs

Guiné 1973, há já alguns meses que a guerra estava assanhada mas o dia anterior até fora bem tranquilo, apenas uma missão ao inicio da tarde, à noite tinha ido jantar ao Pelicano, a ementa habitual, pão e azeitonas, um “ninho de camarão”, seguido de um tornedó, arroz de acompanhamento (o barco da metrópole não tinha chegado com as batatas), a refeição regada com um Dão de 13º, nada de café (que me podia dar alguma insónia), de sobremesa e para facilitar a digestão mais um (ou dois?) Old Parr, em balão e sem gelo.
O regresso à Base também tinha sido normal, a minha bela e roxa Yamaha 200 a dois tempos até devia ter piloto automático, já conhecia o caminho de cor, pés “alevantados” não fosse atropelar alguma jibóia, durante a viajem apenas um ou dois moscardos a esborracharem-se no capacete.
O dia tinha corrido bem, foi bastante mais tarde que as coisas se complicaram.

Ainda o sol não tinha nascido e já alguém me batia à porta do quarto.
- “Sr Tenente, acorde, ALERTA AOS FIATs”.
Caramba, escusava de gritar, muito estremunhado lá me levantei, um pouco de água pela cara, enfiei-me no fato de voo, calcei as botas e deixei que me levassem até ao Land-Rover estacionado em frente aos alojamentos, o qual, numa imediata corrida que mais parecia do tipo “ Emergência do 112”, logo me transportou até à “linha da frente” dos aviões de alerta.
À chegada, o mecânico de serviço apontou-me um dos Fiat G-91 estacionados na placa, com um gesto do polegar garantiu que a máquina estava 5 estrelas, entregou-me o capacete e, sem mais conversas e até mesmo com uma certa brusquidão, logo me empurrou para dentro da aeronave.
Não gostava nada destas missões, irem-me buscar à cama e partir à alvorada, ainda meio a dormir, sem ter a mínima ideia de para onde ia ou o que ia encontrar, sem o mapa da zona, sem o obrigatório equipamento de sobrevivência e, ainda por cima, sem nada no estômago, nem uma simples bolachinha ou café que me pudessem reconfortar, era um astral muito, mais que muito… negativo.
Pensamentos sombrios a invadirem-me a cabeça, na minha nomeação para o Ultramar até podia ter escolhido Luanda, uma bomba ao meio-dia (dos dias pares), praia e ski cinco dias por semana, um dolce fare niente… certamente que lá ninguém me vinha acordar à cama, que raio de ideia ter preferido esta terra de calor, humidade, mosquitos e… guerra.
A esta distancia reconheço que a escolha foi mal esgalhada, tinha preferido a Guiné por uma razão simples, começar pelo pior, depois era sempre a melhorar, que, não era preciso ser um grande estratega e até um ceguinho via, aquelas guerras em África iam-se prolongar por muitos e longos anos…

Já sentado na máquina e ainda a tentar despertar, muito a custo lá descortinei o botão da bateria, logo inúmeras luzes e ponteiros acordaram, demasiada luminosidade e informação para aquela hora matinal, olhei-os sem os conseguir ver, se o mecânico disse que tudo estava bem, … certamente que estava.
Ainda a bocejar fiz sinal ao mecânico que ia “pôr em marcha”…
Dei ao starter (ao cartucho, para os mais entendidos destas coisas), não pegou, segunda tentativa, nada,.., a máquina continuava silenciosa, também devia estar ensonada e recusava-se a arrancar. - “Deve ter o motor de arranque xanado, vamos tentar de empurrão”, logo gritou o Sargento Chefe da Linha, homem anafado, façanhudo e de poucas palavras mas batido nestas coisas da aviação.
Dito e feito, destravei a máquina, engatei a segunda e fiquei à espera que o empurrão em esforço do pessoal me desse algum balanço para tentar aquela manobra alternativa.
Arrancou, muito aos soluços e aos ratéres… mas lá arrancou, numa nuvem de fumo preto e malcheiroso.
Depois nem tive tempo de aquecer o motor (o chamado ponto fixo), saída do estacionamento de rompante, com a manete a fundo e respectivo “burnout”, os pneus a chiarem no alcatrão e ala que se faz tarde até ao destino que, entretanto, alguém pelo rádio, me tinha sussurrado.
O sol ainda a nascer, não fosse a guerra e aquela terra até era bonita.

Apenas chegado ao local da contenda logo verifiquei que alguma confusão estava instalada lá pela zona, havia demasiados pedidos, requisitos e solicitações (tudo coisas diferentes), uns queriam que bombardeasse todas as matas da região, outros queriam saber do correio, um terceiro armado em rambo assegurava não precisar de ajuda, dizia que se tivesse mortos ou feridos os trazia às costas, um outro queria boleia para Bissau, ia de férias e tinha medo de perder o TAP.
Com algum esforço e palavreado a condizer, muito a custo lá consegui que se calassem e, depois de umas voltas para estudar a zona, conclui que, a existir, o inimigo devia estar emboscado por detrás de umas árvores de cor verde, numa área de mata de cor verde e bem para lá do risco verde que, no chão, demarcava a fronteira.
Há muito que o Gen. Spínola nos proibira de ultrapassarmos aquele risco verde mas, como ele não estava a ver, tal restrição não me impedia de lhes dar umas bordoadas, bastava, à posteriori, meter no relatório da missão umas quaisquer coordenadas do lado de cá do risco, certamente que o pessoal do CTIG não ia topar a marosca, já que liam sempre a papelada em viés e, desejosos de acabar com a guerra, há muito que só sublinhavam os feitos e o potencial do IN, sempre que possível realçando a sua crescente frota de MIGs e de carros de combate (que nunca ninguém viu).

Larguei as bombas no local que me pareceu mais suspeito mas logo tive uma surpresa já que o inimigo, em vez de se manter quieto e calado (como era suposto), ripostou, atirando-me com um Strela.
Não gostei nada daquela reacção, não estava prevista, já que na esquadra só havia um piloto autorizado a levar com strelas, dei uma volta larga para tomar balanço e logo voltei à carga ou como agora se diz, fiz um re-ataque, desta vez despejei-lhes as metralhadoras, todas as 800 munições num único passe, eu sei que o manual diz que não se pode fazer, que dá cabo dos canos, mas sabe bem, …, tinha aprendido esta técnica com um outro piloto mais velho que, qual cereja no bolo, ainda costumava abanar o avião para, dizia ele, espalhar melhor a metralha.
Levei com outro Strela.
De repente fez-se-me luz, aquela vontade de me acertar só podia ser do turra Manuel Santos, o “Manecas dos Strelas”, já que, conforme muito mais tarde acabou por confidenciar em entrevista ao Joaquim Furtado, só ele sabia disparar aqueles foguetes.
Já não tinha mais munições mas a vontade de o calar era grande, se lhe acertasse já não iria escrever aquelas bocarras do tipo “I love me, You stupid” que, uns anos mais tarde conseguiu meter à má fila, lá nas últimas páginas do livro do Major (Cor) Calheiros…
Voltei ao local do confronto e, à falta de melhor… atirei-lhe com os droptanks, no mínimo partia-lhe a cabeça.

Só depois desta terceira investida é que caí em mim.
Suspeitava que o Manecas se tinha ficado a rir e a comentar com os seus amigos cubanos que os aviadores tugas eram de uma nulidade confrangedora, por mais que tentassem nunca acertavam em nada, ainda estava para nascer o primeiro guerrilheiro que levasse com uma bomba nos… pés.
Triste, acabrunhado e um pouco a contragosto lá resolvi pedir pelo rádio que outros pilotos viessem tentar desatar aquele nó górdio que não tinha conseguido resolver.

Depois foi o regresso à Bissalanca, só então me percebi do novo problema que, sem querer, acabara de criar, deitara fora os droptanks e agora, luz da reserva acesa, mal tinha combustível suficiente para chegar a Bissau.

Era sempre nestes momentos de stress que as frustrações vinham ao de cima.
Alguém reconheceria o esforço que nos era pedido no cumprimento das missões?
Em tempos anteriores um aviador tinha-se ejectado, tinha olhos azuis, logo alguém se apressou a dar-lhe uma Cruz de Guerra, por estes dias o meu amigo Kurica também se tinha ejectado, castanhos, deram-lhe… um molho de brócolos (dos pequeninos).
Alguns meses antes um outro piloto tinha levado com uns tiritos, como demonstração e prova da sua grande operacionalidade, no fio ao pescoço ostentava orgulhosamente uma bala, quando mais tarde ouviu falar nos Strelas logo desistiu de voar, que um Strela ao pescoço não era exequível.
Outras ideias negras e (muito) recalcadas a emergirem, só chatices, encrencas e merdices, que diabo, por que razão não conseguia ser um piloto bem esgalhado do tipo “Major Alvega” ou “Top Gun”, ou de outros iluminados que faziam parte dos “La Crema de La Nata”, como um outro que, sozinho, conseguia resolver toda a guerra?

Embrenhado nestes pensamentos, o tempo foi passando e a coisa até acabou por correr bem, sem males maiores lá consegui chegar a Bissau.
Ainda não eram 07:00 e a missão estava quase completada, já imaginava o pequeno almoço e o que iria escrever no tal relatório que os do CTIG não iam ler, quando o Princípio de Murphy me voltou a lixar com nova emergência, ao fazer-me à pista o trem de aterragem não saiu, o alarme sonoro de “trem não bloqueado” começou a tocar, …
Tudo me acontecia…
Já com pouco combustível e sem trem, preparei-me para o pior, certamente o que me iria acontecer seria uma aterragem de barriga, ou papada, como é habitual dizer-se nos meios aeronáuticos, nada a ver com outras situações ou figurinos.
Cintos bem apertados, lá me mentalizei o melhor que pude para o contacto e raspanço pelo asfalto da pista, aquela estória do pássaro ui ui a vir-me à mente.
Inexplicavelmente, consegui aterrar normalmente.
Só então me apercebi que algo não estava conforme a lógica das coisas, o combustível já se tinha esgotado mas o motor continuava a trabalhar, estava a rolar na pista e no entanto o alarme do trem não bloqueado continuava a tocar, cada vez com maior intensidade…

Acordei.
Desliguei o despertador.

PS. Dedicado a todos os Malteses, Rambos e Alvegas deste país.
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16496: FAP (98): "Pedaços das nossas vidas" - "Marte, saia a Força Aérea, o Pirata ejetou-se em Gandembel", por TGeneral PilAv José Nico - II Parte (Miguel Pessoa)

Guiné 61/74 - P17035: Inquérito 'online' (105): "Estás reformado? E sentes-te bem?"... Total de respostas: 114. Resultados: 93% (n=106) estão reformados; e destes, cerca de 38% (n=40) sente-se "muito bem" e cerca de 45% (n=51) sente-se "bem"...


Viseu > Rua Formosa (frente ao antigo mercado municipal 2 de Maio) > Escultura do escritor Aquilino Ribeiro (Sernancelhe, 1885 - Lisboa, 1963) >  O monumento, em bronze, de homeagem ao escritor beirão, autor de Terras do Demo (1919), A Casa Grande de Romarigães (1957) e Quando os Lobos Uivam (1958), entre outras obras relevantes da literatura portuguesa da 1º metade do séc. XX  O trabalho é da autoria de Yuraldi Rodríguez Puentes (2013). Na foto, o nosso editor Luís Graça e a sua cunhada Nitas, ambos da mesma colheita de 1947... O nosso editor acaba de se reformar...mas eapera poder continuar a ser um artesão da palavra e da imagem...


Foto (e legenda): © Luís Graça 2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A. Inquério 'on line':


"Estás reformado ? E sentes-te bem ?"


Respostas definitivas (n=114)


1. Estou reformado e sinto-me muito bem > 40 (35,1%)

2. Estou reformado e sinto-me bem  > 51 (44,7%)

3. Estou reformado e sinto-me assim-assim, 
nem bem nem mal > 8 (7,0%)

4. Estou reformado e sinto-me mal  > 5 (4,4%)

5. Estou reformado e sinto-me muito mal  > 2 (1,8%)

6. Ainda não estou reformado  > 8 (7,0%)

Total de respostas > 114 (100,0%)


O inquérito terminou em 9/2/2017, às 7h52


2. Comentários dos nossos leitores:

(i) Henrique Cerqueira (*):

Então é assim: Eu estou reformado e na maior parte das vezes eu não me sinto bem.
Explicando: Para mim a situação de reforma foi das piores coisas que me aconteceu .Isto porque quando estava na situação de trabalho eu tinha muita actividade e embora eu não tivesse necessidade de grande actividade e devido ao meu feitio era muito presente junto do meu pessoal visto que estava a chefiar e administrar uma equipe de manutenção industrial multidisciplinar (Electricidade, mecânica e serralharia mecânica). 

Inicialmente a minha actividade estava ligada à industria da biotecnologia e nos últimos anos da minha carreira passei a laborar na industria da fundição de ferro.Nesta ultima actividade todo o equipamento era de alto desgaste a todos os níveis e daí muito exigente em termos técnicos. Por esse motivo eu acompanhava muito de perto o meu pessoal.

Ora assim sendo,  quando me vi na situação de reforma, eu fui afastado de toda essa actividade e ainda hoje eu não sei o que fazer ao tempo extremamente longo que é o dia a dia . Já experimentei muitas actividades de ocupação de tempo mas nada tem sido capaz de me dar o gosto pelo dia a dia que tinha quando estava no activo.
Bom e para já fico por aqui na esperança que este sentimento de inutilidade passe um dia destes . Até lá vou me arrastando "feliz e contente por ainda estar vivo".
Um abraço e ainda fico a pensar qual o propósito deste tema.

PS - Na realidade eu não tive grande tempo de planear a minha reforma,porque de certo modo fui empurrado para essa situação, já que fui obrigado por insolvência da firma onde trabalhava a optar por essa situação de reforma antecipada.
No aspecto monetário até que não tenho que me queixar muito, pese embora o facto de ser mais um dos reformados que tem contribuído principescamente com os desaires económicos do nosso "pobre"país.
Na verdade eu até ia pensando nos meus devaneios enquanto estava no activo o que gostaria de fazer um dia que fosse reformado,mas,como bom Português que sou,  fui deixando esses planos para a última da hora. Até que mais ao menos de um momento para o outro a "crise" instala-se na empresa e foi uma "pressinha" a tomar decisões de reformas-te ou não. E as opções foram :então vamos lá e logo se vê.
Alguns planos que eventualmente tinha foram por água abaixo e a vontade de reagir demora a aparecer e vai-se sempre arranjando desculpas para adiar algumas das opções e que até coincidem um pouco com as que descreveste. No entanto eu creio que virá o dia que se há-de dar a volta.

(ii) Beja Santos (**):

Queridos amigos, percebo a inquietação do Luís Graça, de um dia para o outro quebraram-se rotinas, desapareceram horários, compromissos, estabeleceu-se uma nova relação entre o passado e o presente, procuram-se novas continuidades e incomodo as recentes descontinuidades.

No meu caso, preparei cenários com uma certa previsão: quis manter-me ativo num trabalho que fazia há várias décadas, com um elevado sentido de realização, na política dos consumidores. Ofereci-me para voluntário, dão-me uma sala e um computador, todos os dias viajo por muitíssimos sites em vários continentes para saber se ainda existem consumidores organizados e reivindicativos; mantive os meus compromissos com uma organização ligada à saúde e aos direitos dos doentes, continuo a aprender muito, até porque é indispensável procurar atualização sobre o que se passa em novos conhecimentos quanto a envelhecimento bem-sucedido nos quadro da multimorbilidade; não abrandei o meu interesse pelos estudos guineenses, a minha presença no blogue atesta-o, continuo um infatigável devorador de papel, alavanca para um conjunto de livros que já escrevi e outros que quero escrever; na atualidade, introduzi elementos novos, uns que chagaram com um enorme acolhimento, estou a escrever um romance, outros que andam associados ao apoio a familiares que subitamente adoeceram e que precisam do meu amparo, é o caso da aminha única irmã. Quanto ao resto, zelo para que não se degrade a saúde, convive com os amigos, sempre que posso invisto aos sábados na Feira da Ladra, e com assinaláveis sucessos.

E olho para o meu passado sem remorsos, procuro comportar-me dentro dos princípios do Cristianismo onde mantenho a minha fé, procuro respeitar a dignidade de toda a gente, não molestar ninguém, não denegrir ninguém e não perder tempo a comprar guerras. É assim que eu vivo, e estou feliz porque não vivo em desacordo com o que penso, tendo ainda o privilégio, após 50 anos de trabalho, de ter feito concursos para subir na carreira, de não ter atropelado ninguém, de ter uma reforma condigna em que posso ajudar os meus.

Não sei se me exprimi bem, é este o depoimento que vos entrego com o mesmo abraço de estima de sempre.

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Notas do editor;