sábado, 6 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16364: Inquérito 'on line' (65): em outubro de 1963, quando parti para o CTIG, deram-me um kit de sobrevivência: canivete de bolso com saca-rolhas, abre-latas e abre-cápsulas; copo, prato, marmita, colher e garfo, tudo inox (José Botelho, ex-sold trms, CCAÇ 557, Cachil, Bissau, Bafatá, 1963/65)













 Parte do kit de sobrevivência 

Fotos: © José Colaço (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



De: José Colaço | Data: 1 de agosto de 2016 às 22:53 | Assunto: kit de sobrevivência


Foto à esquerda_osé [Botelho] Colaço ex-soldado trms da CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65), membro da nossa Tabanca Grande desde 2 de junho de 2008: tem 70 referência no nosso blogue.


Luís,  depois do inquérito sobre a faca de mato (*), parece-me que seria  interessante saber como é que foi evoluindo a percepção da hierarquia relativamente às necessidades dos militares no mato e como se foi melhorando o  kit de sobrevivência.

Se te parecer que tem interesse debater este tema,  fica à tua consideração.

Na minha partida para a guerra da Guiné em outubro de 1963  entregaram-me como kit de sobrevivência as seguintes peças: 

(i) um  canivete de bolso, marca Icel,  inox,  com oito cm, provido de saca-rolhas, abre latas e abre cápsulas;

(ii) um copo inox; 

(iii)  e um prato inox .


Têm gravado no  fundo: INOX,  o escudo de Portugal e as letras E.P.,  o  que se pode 
confirmar aumentando o zoom na foto do fundo do copo parte exterior [Imagem á direita].

Deste kit  envio fotos, em anexo. O prato está muito mal estimado pois serviu de assador de castanhas e  vai daí as suas mazelas. As restantes peças, que passo a enumerar,  ao  longo destes 53 anos desapareceram:  colher, e o garfo de cabo anão e  uma marmita.

Este kit de sobrevivência era oferecido e fazia parte dos bens  próprios do militar sem direito a espólio.

Mas notei que em referência à faca de mato foi evoluindo e até fazia  parte do equipamento militar, aqui fico com algumas dúvidas se seria ou não  devolvida,  se fazia parte do equipamento militar, ou do kit de  sobrevivência. 

Houve casos de oportunismo. inclusive eu que, quando fiz o resto do espólio no RI 16 em Évora,  disse ao sargento que  eu não tinha recebido boina mas sim um bivaque que entreguei em  troca da boina. Porque se o sargento não comesse a peta, eu na minha  mente, e  para não arranjar problemas, o que tinha a fazer  era pagar a boina.

Um Ab, Colaço

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Guiné 63/74 - P16363: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (3): Os prisioneiros

1. Dramática narrativa das condições em que foram encontrados 4 prisioneiros, enviada ao nosso Blogue pelo nosso camarada Adão Pinho da Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68), em mensagem do dia 25 de Julho de 2016:


MEMÓRIAS DE UM MÉDICO EM CAMPANHA

3 - Os prisioneiros

No tempo de sem janelas e sem vistas para o mar, eu dormia a madrugada dessa noite igual a tantas outras. Igual, não seria. Dois gritos lancinantes atravessaram a noite, degolando o silêncio. Como ecos do inferno. Os ataques não explodem assim! Nenhum homem grita do fundo do tempo! Nenhum animal selvagem ruge tão perto!

Virei-me para dentro do medo e verguei-o à razão. A razão das sobras do medo.
Passos na picada. Voz de sentinela apunhalando o escuro.
- Sr. Doutor, Sr. Doutor.

Dei um salto da cama levando de rosto a rede mosquiteira. Não dei com a luz, mas o raiar da madrugada permitiu que eu visse a silhueta do soldado.
- Algum problema?
- Um prisioneiro.
- Prisioneiro? Que prisioneiro?
- O Sr. Doutor não sabe?

Entre a minúscula enfermaria e a pista térrea de aviação havia um bloco de cimento com meia dúzia de metros por outra meia. Uma porta, duas sentinelas, outra porta. Esta última era uma barragem de tábuas pregadas e entrelaçadas, com uma frincha no meio por onde enfiavam restos de comida.
Dentro do ventre de cimento, disseram que eu iria encontrar quatro pessoas, três homens e uma mulher. Da garganta de uma delas haviam rebentado os gritos que arrepiaram os soldados. Maior este medo do que o medo das balas. Soava a algo do outro mundo, a almas penadas.

Tínhamos chegado ao mato há poucos dias. Os soldados sabiam de quatro prisioneiros deixados pela companhia anterior. Mas não sabiam o que continha aquela enxovia. Que seres havia para lá daquela porta. Entrei. Ia desmaiando. Devo ter inalado o cheiro mais nauseabundo que algum dia a minha imaginação concebeu. Misto de excrementos putrefactos, de fetidez condensada e de gangrenosas decomposições liquefeitas em suores, lágrimas e merda. Nem um buraco. Nem uma nesga de luz.

Arrastámos para o pequeno átrio o corpo que gritava. Um monte de trampa invadido de convulsões epilépticas. A boca espumava sangue. As carnes eram de pedra.

Já o sol enchia a entrada. Mandei retirar os prisioneiros daquele túmulo de cimento e deitei-os sobre a terra seca. Abri os olhos. Em toda a minha vida nunca vi tal coisa. Na explosão da luz, todos aqueles pares de olhos se injectaram de sangue como se houvessem rebentado. Uma violenta conjuntivite, reacção imediata a uma luz que não viam há muitos meses. Não é fácil descrever este quadro mesmo a anos de distância. Ainda sinto o espírito retorcido como pano de limpar o chão. Perguntava-me eu, ao olhar aqueles corpos dilacerados, o que teria acontecido. Um deles tinha um pedaço de lábio fendido cicatrizado por segunda intenção, a par de inúmeros golpes na face e no pescoço. Outro tinha parte da orelha colada à cara e um sobrolho caído. Outro era apenas um velho. Os cabelos cresceram e formavam uma pasta de alcatrão agarrada à cabeça. Restos de trapos colavam-se aos corpos. Um deles parecia uma mulher. Era uma mulher. A não ser que lhe tivessem cortado o pénis. Pela vagina escorria pus esverdeado e chamava-se Maria. Provavelmente era virgem, apesar de tantos soldados terem violado a sua podridão.

Atravessei num vómito a parada e fui falar ao capitão. Ele não assumia a responsabilidade da libertação. Assumi-a eu, como médico.

Foram tratados e alimentados. O epiléptico, que era o mais novo, fugiu. Atravessou a pista, galgou o arame farpado, e desapareceu na selva. A sentinela ainda engatilhou uma rajada que não chegou a disparar. Outro foi integrado. Quando vim embora cultivava arroz e algum medo pela minha ausência. O velho, recuperadas as forças, gastou-as a cortar a garganta com os vidros de uma garrafa. Poupados os vasos do pescoço, vi que valia a pena pedir uma evacuação “Y”, ou seja, emergente. Duas semanas depois o helicóptero trouxe-o de regresso, curado. A Maria foi cuidadosamente tratada durante meses, de todas as infecções físicas e psíquicas. Teve um filho nascido do amor de um soldado. Quando a deixei, não consegui ver o que havia por detrás do mar de lágrimas dos seus olhos.
Penso que era vida.
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16356: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (2): Cadi suma outra mulher

Guiné 63/74 - P16362: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XII Parte: Cap VII: Guerra I: O nosso primeiro prisioneiro, o Calaboço



Guiné > Região de Tombali > Cufar > CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67 > Abrigos em Cufar. Da esquerda para a direita: Fur mil trms Tomás Afonso, fur mil Bernardino Pinto e fur mil op esp Mário Fitas.


Texto,. foto e legendas : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados.



[À direita: capa do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", da autoria de Mário Vicente [Fitas Ralhete], mais conhecido por Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67. Foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô. Foto à abaixo à esquerda, março de 2016, Oitavos, Guincho, Cascais]



Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > 
Parte XII - Cap VII: Guerra 1: O nosso primeiro prisioneiro, o Calaboço (pp. 40-42)

por Mário Vicente 

 Sinopse:

(i) Depois de Tavira (CISMI) e de Elvas (BC 8),

(ii) o "Vagabundo" faz o curso de "ranger" em Lamego;

(iii) é mobilizado para a Guiné;

(iv) unidade mobilizadora: RI 1, Amadora, Oeiras. Companhia: CCÇ 763 ("Nobres na Paz e na Guerra"):

(v) parte para Bissau no T/T Timor, em 11 de fevereiro de 1965, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa.;

(vi) chegada a Bissau a 17:

(vii) partida para Cufar, no sul, na região de Tombali, em 2 de março de 1965;

(viii) experiência, inédita, com cães de guerra.




Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > VII - Guerra 1: O nosso primeiro prisioneiro, o Calaboço (pp. 40-42)

2 de Abril de 1965, com o 2º. Grupo de Combate em 1º. Escalão e os Vagabundos à frente, a CCAÇ sai para tentar o primeiro contacto a sério, tendo como guia o velho “capitão” Albino, da Milícia 13 do Alferes de segunda linha João Bacar Jaló.

Vagabundo sente algo de especial e escreve a Picolo e Tânia em género de despedida, conhece o medo mas… há que dominá-lo.

Pelas 24H00, a Companhia enfia pela mata de Cufar Novo. Até às seis da manhã andam às voltas na mata e quase não saem do mesmo sítio. Grande parte do percurso é feito gatinhando e mesmo rastejando ou levando chicotadas dos ramos projectados pelo companheiro da frente. O velho Albino que em 1963 tinha combatido corpo a corpo apenas com uma navalha como arma, está perdido numa mata que conhecia como as próprias mãos. Será da idade ou do medo? Incógnita!

Carlos [, o cmdt da CCAÇ 763,] manda parar. O pessoal está completamente extenuado. Chamando o comandante do grupo de combate e da secção que progridem em primeiro escalão e, prescindindo dos serviços do guia, orienta a saída da mata onde se encontravam praticamente perdidos.

Pelas 7H00 os homens da frente conseguem chegar à orla da mata, alcançando a estrada para Catió. Carlos manda enfrentar a mata de Cufar Nalu em plena luz do dia. Na descida é avistado um grupo de guerrilheiros armados, fardados de calção e camisa de caqui, saindo da mata de Cufar Nalu e atravessando a estrada para o lado esquerdo. É pedido fogo de morteiro sobre a lala que separa aquela posição, da mata prolongamento do ilhéu de Cantone, no sentido de evitar o envolvimento pelo IN. Progredindo pela bolanha a oeste da estrada que foi abandonada, a CCAÇ consegue atingir a mata de Cufar Nalu atingindo o seu objectivo atravessando a estrada, ocupando posições dentro da mata, instalando-se em linha com elementos de apoio em segundo escalão até meio da tarde, sem haver qualquer contacto com o IN.

Já entrámos em terreno proibido. Cufar Nalu já não é um mito, a sua mata foi desflorada. Aos poucos torna-se inevitável, teremos de nos encontrar a sério.

Regresso ao Aquartelamento. Vagabundo relê as cartas para Picolo e Tânia e resolve rasgá-las, pois nunca mais entrará no negativismo que lhe pode ser perigoso, afectando-lhe o moral. Sursum Corda, o Destino está escrito!... Se for de ficar aqui que seja, o militar prepara-se psicologicamente para a guerra. Ou se mata ou deixamo-nos matar. Alternativa zero.

O grande dia está próximo, respira-se essa atmosfera. Mais dia, menos dia vamos lá, ou eles ou nós!...

Aproximamo-nos de Maio. As obras do novo aquartelamento caminham em bom ritmo. O treino operacional é intensivo: patrulhas, emboscadas, golpes de mão etc… etc… passo a passo a CCAÇ., vai atingindo os objectivos da sua missão. O trabalho psicossocial, junto das populações a sul, Iusse, Inpungueda, Mato Farroba e Cantone começa a dar uns ténues resultados. Estamos a ultrapassar o PAIGC neste aspecto, destruindo-lhe aos poucos a rede de controladores e apoio, e cativando cada vez mais os elementos das populações não totalmente identificados com a guerrilha. Já houve uns leves contactos em que conseguimos envolvimentos e resultados positivos. A moral é óptima e a fruta está praticamente madura. Carlos com pleno conhecimento da anti-guerrilha e profundos conhecimentos da Guiné, transmite aos seus subalternos as melhores técnicas e tácticas, de forma que a missão da C.CAÇ. tenha o melhor êxito.

Já temos informações de muita coisa que se passa nas tabancas controladas pelo IN, e embora o acampamento do PAIGC tenha sido reforçado, já somos nós que reunimos e conversamos com as populações embora sabendo que eles andam por lá e que já nos evitam.

Maio!... Maduro Maio. Bebiam-se os últimos copos da noite de 6 de Maio, na improvisada messe de sargentos, na velha fábrica de descasque de arroz, quando aparece o Bugio condutor de Carlos e informa determinados furriéis para se apresentarem no Comando. Era assim habitualmente para determinadas operações, Carlos chamava determinados militares independentemente da patente ou do grupo de combate a que pertencessem. Chegando ao Comando, olhando uns para os outros e identificando-se, pensaram logo que cirurgia melindrosa e urgente deveria estar para acontecer na sala de operações. Paolo informou Carlos de que todos os cirurgiões, anestesistas, instrumentistas e enfermeiros se encontravam a postos para se proceder à intervenção.

Carlos, agora uma espécie de director clínico começou então a explanação: Explorando a mensagem confidencial 364/M de 6/5/65 do BCAÇ 619 estaria um elemento desertor do PAIGC na tabanca de Iusse, de seu nome Calaboço, pelo que havia que fazer esta pequena intervenção com o máximo sigilo. Queria a todo o custo o homem vivo, dada a sua importância e os órgãos que ele poderia disponibilizar para futuros transplantes. Operação a efectuar de madrugada, que seria apoiada ao romper do dia com um cerco e limpeza à referida tabanca por dois grupos de combate que sairiam uma hora depois dos operadores.

Primeiro passo: contactar o chefe de tabanca para este informar o local onde estaria escondido o dito cujo. Segundo passo: abafar o homem para não apanhar nenhum resfriado. O Almeida comanda a cirurgia, ele determinará a ordem de comando. Até logo rapazes!

Às três da manhã os quinze homens estavam preparados e arrancaram com a admiração das sentinelas. Onde iriam aqueles loucos àquela hora!?...

Caminhando sobre o talude que formava a lagoa, depressa chegaram às imediações de Iusse, começando cautelosamente a progressão para a morança do chefe de Tabanca. Pequena alteração nos procedimentos, pois o chefe informa que o indivíduo não se encontraria escondido na bolanha, mas sim numa morança onde se presumiu estaria a dormir no momento. E como se veio a verificar posteriormente não se tratava de um desertor, mas sim de um elemento do PAIGC em descanso na povoação por motivo de doença.

Refazem-se os procedimentos e identifica-se a morança. Almeida orienta a acção, Vagabundo e Chico Zé controlam os dois grupos de segurança, Gibi dá um encontrão e rebenta com a porta, enquanto Jata salta para dentro e aplica um gancho com a esquerda e o primeiro vulto regressa ao reino de Morfeu, o Trinta atira-o para fora para controle. Há mulheres e crianças que são mandadas abandonar a morança rapidamente em silêncio. Já dentro também, António Pedro liga uma pilha para melhor visualização, Calaboço a um canto, rende-se. Embora de etnia balanta, não apresenta as suas características, pois a sua média estatura e fragilidade física não têm nada a ver com um balanta. Revistados os compartimentos da morança os seus habitantes são reunidos em silêncio absoluto.

-Águia um! Águia um! Aqui, Águia dois transmito!

-Aqui Águia um escuto!

-Águia dois informa, cirurgia efectuada com êxito, mantemos posições.

Águia um informa:

-Correcto, ao romper d´aurora sai o pastor da choupana.

-OK, Águia um, entendido!

Noite luarenta, os quinze homens fazem um círculo em volta do pessoal retirado da morança. Passado aproximadamente uma hora, começa a clarear e nota-se a bruma do Cumbijã, na bolanha entre Iusse e Impungueda. Ouvem-se cães a ladrar. Os cães da tabanca farejaram os nossos pastores alemães pois o Cadete a Carhen e o Punch de Boane, vão entrar em acção. A povoação já está cercada pelos grupos de combate da CCAÇ de Cufar. É feita a reunião e identificação da população sendo feita acção psicossocial activa. Sabemos que a malta de Cufar Nalu anda pelo meio da população. Com cuidado vamos devagar, temos de conquistar a população.

A meio da manhã, a CCAÇ. regressa a Cufar com o prisioneiro Calaboço.

Patrulhando o tarrafo junto ao Cumbijã, um grupo de combate, destruiu duas pirogas de grande dimensão, tendo sido abatidos dois indivíduos que fugiram tentando atravessar o rio.

A prisão do Calaboço, embora com trabalho e paciência, deu alguns frutos e no dia seguinte a mulher chefe de Partido em Iusse e o seu marido foram presos. Passados dois dias, foram feitos prisioneiros o chefe do Partido e mais dois indivíduos, estes dois foram abatidos ao tentarem a fuga junto à Lagoa de Cufar.

(Continua)
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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16361: Notas de leitura (866): “A minha jornada em África”, por António Reis, Palavras e Rimas, Lda, 2015 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 14 de Agosto de 2015:

Queridos amigos,
Estou ciente de que já falei deste livro, há alguns anos. É um testemunho sincero de alguém que durante dois anos trabalhou no HM 241 e viu toda a sorte de dores. Procurou ajudar, e sente orgulho por certos expedientes a que recorreu. Assistiu a grandes desgraças, não esquece o Dr. Fernando Garcia, que ele classifica como médico ímpar. A todos os títulos, um testemunho sem rival. Só tenho pena nestas edições de autor não haja o propósito de incluir o trabalho de um revisor, de uma mão amiga que nos esclareça como é que se escreve Cacine, Guileje ou Corubal. Não nascemos ensinados, não custa nada pedirmos ajuda.

Um abraço do
Mário


O meu dia-a-dia era ver morrer ou chegar os feridos à grande plateia

Beja Santos

O livro intitula-se “A minha jornada em África”, por António Reis, Palavras e Rimas, Lda, 2015. O autor apresenta-se: António Ramalho da Silva Reis nasceu em Avintes, em 1944 e com 21 anos embarcou para a Guiné onde exerceu funções de enfermagem no HM 241. Dá o seu testemunho dizendo que não andou a combater mas viveu a guerra intensamente todos os dias: “volta e meia ainda sonho que lá estou”. Passou 24 meses no Hospital Militar, passou a comissão dividido entre o Posto de Socorros, a Sala de Observações e a Cirurgia 1, “a enfermaria onde ficavam os casos mais graves, até melhorarem e serem transferidos para outras enfermarias ou evacuados para a metrópole”. Toda esta narrativa é dedicada aos netos e lembra-lhes que também tratou crianças no hospital.

Rememora a sua infância, lê-se e sente-se que é autêntico na sua simplicidade cortante: “Ir para a escola com 7 anos, chegar ao meio-dia, esperar a Ti Laura, que devia chegar com o tabuleiro à cabeça, com a panela da sopa e uma saca de nacos de pão. Levar meia-dúzia de reguadas por dia, meia-dúzia de canadas, fazer a terceira classe – pois poucos eram os que faziam a quarta – e ir trabalhar com 11, 12 anos”. E, mais adiante: “Confessarmo-nos todas as últimas sextas-feiras de cada mês, cumprir a penitência do confessor, que era rezar de joelhos, uma dúzia de padres-nossos e ave-marias em cada altar, tudo pelo pecado de ter ido roubar fruta à Quinta do Pedrosa. Se o Pedrosa não me via a roubar a fruta, Deus tinha-me visto. Foi criado no meio disto, com todos estes medos. Das bruxas, do lobisomem, das santíssimas trindades, da guarda, da PIDE, etc”.

Descreve a sua preparação militar a partir do momento em que assentou praça no RI 7. Em 13 de Março de 1966, embarca para a Guiné no Rita Maria. Entra rapidamente na rotina: “A chegada dos mortos ou feridos era feita normalmente por helicópteros que aterravam na frente do hospital. Ainda o helicóptero não tinha aterrado e já o piquete estava junto à pista, de macas na mão. Eles chegavam de todas as formas, mortos, inanimados, esfacelados, queimados, estilhaçados, baleados, com sangue, com plasma, com talas, com garrotes”. O seu acordar era a maior parte das vezes violento, com o ruído dos bombardeiros a partir ou a chegada dos helicópteros a trazer mais feridos.

E havia os dias muito negros, como aquele 5 de Outubro de 1967, chegaram muito perto de 40, todos queimados e estilhaçados. “Encheram tudo, desde as enfermarias ao corredor. Dentro e até fora do hospital era um cheiro intenso a carne humana queimada; nove ou dez já chegaram mortos. Os outros foram transformados em múmias. Sempre que pode, quando aparecem amigos e conterrâneos para a consulta, recorre a vários expedientes para os manter mais algum tempo em Bissau. Caso do Feiteira que chegou ao pé dele e disse: Tono, estou a ficar marreco e sem dentes”. Com a colabora do cabo da estomatologia, pediu um boletim carimbado com assinatura falsa onde escrevia: observado e consultado, volta no dia tal. De oito em oito dias ia repetindo as carimbadelas. O Feteira esteve um bom tempo em consulta externa sem ter visto o médico estomatologista.

Havia os prisioneiros que chegavam feridos, muitas vezes eram interrogados à cabeceira da cama quando chegavam. Não havia enfermaria-prisão. E vem uma recordação: “Recordo um dia em que chegou uma quantidade de mortos e feridos. Um daqueles dias em que as macas foram repartidas pelo Posto de Socorro, Sala de Observações e ao longo do corredor. Juntamente com eles vinha um turra que tinha sido feito prisioneiro antes e que tinha ido servir de guia ao objetivo das nossas tropas, e essa operação foi um desastre porque ele nos atraiçoou. Todos diziam que viram logo que estavam perdidos, porque ele tinha andado às voltas. Pois este, nem por ter feito o que fez, deixou de ser um ferido igual aos demais. Foi o último, mas também foi tratado e não morreu”.

Não esconde que aproveitou todas as circunstâncias para ser prestável, e conta: “O Chico da Laura estava em Catió, apareceu-me um sábado depois do almoço e vinha muito sujo e muito revoltado, foi só mais um que não aguentou o clima da guerra. Li o relatório dele, onde constava que estava há quinze dias sem dormir. Falei com o Dr. Castelão, que era o psiquiatra. Lá ficou internado. A alimentação dele era o rancho geral, mas ele não comia e queixava-se também do estômago. Todo o tempo que lá esteve alimentou-se com sumos e com leite que eu lhe desenrascava. Veio evacuado para Lisboa e escreveu-me a dizer que era mais bem tratado na Guiné do que cá. Acabou por ser dado como incapaz”. Tem recordações indeléveis, caso do Dr. Fernando Garcia, que ele considera médico ímpar. Tem histórias brejeiras para contar como a única gorjeta que recebeu. Chegou ao hospital um chefe de tabanca com sonda gástrica, recebia muitas visitas: “Um dia vi-os juntar dinheiro entre si, e o nosso doente chamou-me, estendeu-me a mão com dinheiro. Eu não aceitei. Ele insistiu, foi então que o Sargento Marcos se aproximou e disse-me que aceitasse. Não me lembro quanto foi, mas foi uma boa quantia”. E mais outra história brejeira: “Enquanto uns passaram parte do tempo fazendo fôlego para não morrer, eu apenas dei um tiro e foi para o ar. Estava de serviço de escala quando recebi ordens para ir de helicóptero fazer a evacuação do enfermo do mato para o hospital. Quem desempenhava estas funções eram enfermeiras paraquedistas, mas por qualquer motivo não podiam ir. Era a primeira vez que pegava na minha G3. Havia que a experimentar e experimentei-a dando um tiro para o ar. Houve rebuliço”.

Ainda hoje sente tristeza pela ingratidão de um alferes a quem ele chama o alferes sem memória. Apareceu no hospital um alferes que vinha paralisado, procurou ajudá-lo, friccionava-o com álcool, tudo fazia para que ele não ganhasse escaras. Ficaram amigos. Quando regressou, foi visitá-lo, como estava prometido, ele lá estava numa cadeira de rodas, pareceu gostar de o ter visto. Os anos passaram, e um dia proporcionou-se voltar a passar onde vivia o alferes. Disseram-lhe que já lá não morava o melhor era procura-lo num determinado café depois de almoço. Procurou-o. “Não me reconhecia e não se lembrava de nada. Fiquei estupefacto. Ainda lhe recordei que o tinha ido visitar quando cheguei, mas também não se lembrava. Soube mais tarde que este alferes era muito ativo e influente, muito provavelmente, diz ele, o alferes não se queria dar com gente que lhe podia pedir coisas”. Não se conforma com tal ingratidão.

É este o testemunho de António Reis, dois anos inteiros no HM 241.
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Nota do editor

Último poste da série de 1 de Agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16352: Notas de leitura (863): "África Misteriosa, Crónicas de viagem", de Julião Quintinha, Editora Portugal Ultramar, 1928 (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16360: Memória dos lugares (341): UDIB, Bissau, II Jogos Florais, Programa, 28 de junho de 1974 (Augusto Mota)




1.  Mensagem de Augusto Mota, nosso leitor (presumivelmente a viver no Brasil, a avaliar pelo seu endereço de email):

Assunto - Programa UDIB  29.06.1974

Data: 2/8/2016)

Caríssimo Luís Graça,

Remexendo em coisas antigas, que em casa guardo ciosamente, encontrei o "PROGRAMA" em anexo que, no mínimo, é uma raridade. Como ignoro onde encontrar o Valdemar Rocha, mas estou seguro de que gostará de receber, agradeço lhe remeta o referido documento.

Antecipadamente grato.

Atentamente,
augusto mota

2. Comentário do editor:
Edifício da UDIB, em Bissau (2015).
Foto de Adelaide Barata Carrêlo.


Obrigado, Augusto, pela sua atenção.

É realmente uma preciosidade este programa dos II Jogos Florais da UDIB donde constam os nomes de dois poetas nossos conhecidos, Valdemar Rocha e Atanásio Miranda, dos cadernos de poesia "Poilão". Gostaríamos  de saber algo mais sobre si e as suas atividades na UDIB. No programa que reproduzimos aparece como "diretor artístico" do espetáculo. Era civil ou militar ? Aonde vive agora ?

Prometemos, entretanto, fazer chegar este documento ao Valdemar Rocha e pô-lo em contacto consigo, o mais breve possível.

Mantenhas.
LG
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Nota do editor:

Último poste da série >9 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16287: Memória dos lugares (340): Café Império, Praça dos Heróis Nacionais, Bissau, em novembro de 2000 (Albano Costa, ex-1.º cabo da CCAÇ 4150, Bigene e Guidaje, 1973/74, o fotógrafo de Guifões, Matosinhos)

Guiné 63/74 - P16359: Parabéns a você (1114): José Nunes, ex-1.º Cabo Mec. Electricista do BENG 447 (Guiné, 1968/70) e TCor Inf Ref Rui Alexandrino Ferreira, ex-Alf Mil da CCAÇ 1420 (Guiné, 1965/67) e Cap Inf, CMDT da CCAÇ 18 (Guiné, 1970/72)


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Nota do editor

Último poste da série de 31 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16348: Parabéns a você (1113): Manuel Augusto Reis, ex-Alf Mil Cav da CCAV 8350 (Guiné, 1972/74)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16358: Os nossos seres, saberes e lazeres (166): Ai, se Bocage soubesse ou visse… (3) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2016:

Queridos amigos,
Gosto de antemão conhecer os aspetos capitais do que me espera esta ou aquela visita, mas confesso que o melhor da viagem são os encantos do que não estava previsto nem era suposto.
Passei muitas vezes por Setúbal, quase sempre confinado a ir ou a vir da Arrábida, à procura de uma comezaina de peixe e a visitar os monumentos concelebrados, como é o caso do incontornável Convento de Jesus. Desta vez, meti-me lá para as vísceras do casco histórico, e até a casa de Bocage visitei, aprendi que na juventude foi andarilho, foi uma viagem ao proscénio e quanta e quanta surpresa.
Oxalá vos tenha sido útil para os vossos passeios.

Um abraço do
Mário


Ai, se Bocage soubesse ou visse… (3)

Beja Santos




Há casarões bem remodelados e com diversa aplicação. Por exemplo, a espampanante delegação do Banco de Portugal converteu-se em galeria municipal, há casas que transpiram fartura e proprietários ciosos dos imóveis que lhes couberam e os mantêm a preceito. Há aquele slogan turístico que muitas cidades exploram, mas aqui não é desadequado dizer que Setúbal tem tudo o que se prende com qualidade de vida, espaço de recreio, educação e cultura, é evidente que há altos e baixos, vi gente andrajosa e sem trabalho, ali à volta de espaços onde se presta serviço social; e surpreendeu-me a comunicação omnipresente, ali ainda se para na rua para dar dois dedos de conversa e quem não nos conhece não deixa de procurar a faísca da comunicação, dá os bons dias e as boas tardes, é um valor acrescentado que hoje não tem preço.


Aqui temos a Sé, austera, possui harmonia mas é pesadona, bem lhe podiam ter posto torres mais esguias, mas foi assim na Contra-Reforma. Há algumas preciosidades no seu interior, como não dispunha de luz nada se gravou, mais uma razão para voltar. Os céus toldavam-se, a noite seria de intensa chuva, ou era agora ou nunca. E aqui está, um frente a frente pouco iluminado, mas dá para ver como se erguem toneladas de pedra.




A manhã foi ensolarada, o mau tempo começa a apresentar a sua fatura, o céu escurece, sigo pela Baixa setubalense e não resisto a certos pormenores, uma porta pintada a capricho que dá mais relevo e elegância às formas, cativou-me um edifício Arte Deco sóbrio mais cheio de caráter e esta porta lateral da Igreja de S. Julião, bem perto do Bocage que domina Setúbal do alto de uma coluna é irresistível, tem um rendilhado que lhe dá uma singular leveza.



Numa outra era, os armadores de pesca tinha o seu clube, no tempo em que clube se escrevia sem e, agora é um espaço comercial bem aprazível, um kitsch bem controlado, vê-se que procurava ostentar riqueza, entre dourados e rosados e azulados. Está bem preservado, ali fiquei a beberricar café e a agradecer aos céus, em fim de dia, como foi bom ter vindo demoradamente a Setúbal, descobrir novidades, até deambulei por um mercado de velharias, apercebi-me que há muitas coisas a ver no Fórum Luísa Todi, esta noite aqui cantará o nosso melhor soprano, Elisabete Matos. A contragosto, dou por finda a viagem, dando graças por ter sido cumulado por tanta surpresa.
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Nota do editor:

Postes anteriores de:

20 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16320: Os nossos seres, saberes e lazeres (164): Ai, se Bocage soubesse ou visse… (1) (Mário Beja Santos)
e
27 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16338: Os nossos seres, saberes e lazeres (165): Ai, se Bocage soubesse ou visse… (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16357: Notas de leitura (865): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos (1966-1969) - Parte V: o caso do clínico geral Amado Alfonso Delgado (I): queria ir para o Vietname foi parar ao Fiofioli...



Mapa das regiões [frentes e bases] do PAIGC. Os símbolos azuis correspondem aos itinerários percorridos pelo médico Diaz Delgado (de julho de 1966 a dezembro de 1967). Os verdes correspondem ao médico Alfonso Delgado (de abril de 1968 a setembro de 1969). Infogravura adapt. de Supintrep nº 31, fevereiro de 1971, por Jorge Araújo.



Quinta parte, enviada a 13 de julho último, das "notas de leitura" coligidas pelo nosso camarada e grã-tabanqueiro, Jorge Alves Araújo. Trata-se de um extenso documento, que está a ser publicado em diversas partes (*), tendo em conta o formato e as limitações do blogue. 


 
Foto à esquerda:

O nosso grã-tabanqueiro Jorge Araújo: (i) nasceu em 1950, em Lisboa; (ii) foi fur mil op esp / ranger, CART 3494 / BART 3873 (Xime e Mansambo, 1972/1974); (iii) fez o doutoramento pela Universidade de León (Espanha), em 2009, em Ciências da Actividade Física e do Desporto, com a tese: «A prática Desportiva em Idade Escolar em Portugal – análise das influências nos itinerários entre a Escola e a Comunidade em Jovens até aos 11 anos»; (iv) é professor universitário, no ISMAT (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes), Portimão, Grupo Lusófona; (v) para além de lecionar diversas Unidades Curriculares, coordena o ramo de Educação Física e Desporto, da Licenciatura em Educação Física e Desporto].



1. INTRODUÇÃO

Caros tertulianos. Concluímos no P16304 (*) a publicação da primeira de três entrevistas realizadas pelo jornalista e investigador Hedelberto López Blanch a médicos cubanos que estiveram na Guiné Portuguesa [hoje Guiné-Bissau] em missão de “ajuda humanitária” ao PAIGC, na sua luta pela independência.

Estas três entrevistas, associadas a outras doze missões africanas ocorridas em situações e momentos  diferentes, como foram os casos de Argélia, Congo Leopoldville, Congo Brazzaville e Angola, estiveram na origem do seu livro, escrito em castelhano, com o título «Histórias Secretas de Médicos Cubanos» [La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2005, 248 pp. ].[Disponível "on line"em formato pdf, numa versão de pré-publicação].

Recordo que o primeiro entrevistado foi o cirurgião Domingo Diaz Delgado, elemento do primeiro grupo de clínicos chegados à Guiné em 1966, a quem foram formuladas vinte e oito questões relacionadas com a sua missão, desde a tomada de decisão pessoal [finais de 1965] e chegada a Concri,maio de 1966, até ao regresso a Havana, em janeiro de 1968.

Considerando que ela decorreu durante vinte meses, dos quais dezasseis nas matas das frentes Norte e Leste da Guiné [1966-1967], as respostas às questões formuladas dão-nos conta, com bastante detalhe, do modo como foi feita a preparação para a missão, da viagem (secreta) de barco e do processo de inclusão na estrutura do PAIGC.

 O depoimento deste homem é interessante para quem quiser conhecer melhor o contexto da guerra de guerrilha, as condições logísticas vividas em bases improvisadas, precárias e com escassos recuros recursos, bem como as misérias e as grandezas da medicina que se podia praticar naquelas condições, cvom o médico opra socorrendo os guerrilheiros feridos nos combates, ora prestando  cuidados àss populações sob o seu controlo. Descreveu, também, as actividades operacionais no interior de um bi-grupo durante os primeiros três meses de 1967, na frente Norte [Sambuia], até ao momento em que adoeceu, por paludismo, sendo transferido para Conacri aonde permaneceu durante mais três meses em recuperação. Faz, ainda, referência ao modo como foram passados os últimos seis meses de 1967 na frente Leste, acompanhando os guerrilheiros em actividades operacionais nos corredores entre Madina do Boé e Beli. Regressou a Cuba em janeiro de 1968.

Quanto à segunda entrevista, que agora se inicia, tem como principal interlocutor o médico de clínica geral, com experiência em cirurgia, Amado Alfonso Delgado. A sua missão teve início na véspera de Natal de 1967, na companhia de outro médico, voando de Havana até Conacri, com escala em Gander [Canadá], Praga, Paris e Senegal. A sua chegada a Boké, na Guiné-Conacri, aconteceu nos primeiros dias de 1968, aonde se manteve durante três meses, prestando serviço médico no Hospital local, na companhia de mais quatro clínicos cubanos: o cirurgião militar Almenares, um ortopedista, um analista de laboratório e um técnico de raio X.

Em abril de 1968 segue para a frente Leste substituindo o seu companheiro Daniel Salgado, na base de Kandiafara, por este se encontrar doente com uma forte crise palúdica. Nesta base encontravam-se vinte combatentes cubanos. Entre maio de 1968 e setembro de 1969 [dezassete meses], movimentou-se nas matas do Unal e Fiofioli [com passagens e histórias de locais míticos que marcaram a minha vida e a de muitos de nós, como foram os casos do Xime, Ponta Coli, Ponta Varela, Poindon, Ponta do Inglês e Enxalé].[vd. infogravura acima].

É de tudo isto, e de algo mais, que o médico Amado Alfonso Delgado aborda no seu depoimentos.

Porque se trata de uma tradução (com adaptação livre e fixação do texto em português, da minha responsabilidade), não farei juízos de valor sobre o conteúdo desta e das outras entrevistas: apenas coloquei entre parênteses rectos algumas notas avulsas de enquadramento sócio-histórico ao que foi transmitido, com recurso a imagens desse contexto retiradas da Net e dos arquivos do nosso  blogue.

2.  O CASO DO MÉDICO AMADO ALFONSO DELGADO [I]

Nesta longa entrevista, Amado Alfonso Delgado fala da sua família e dos seus estudos, bem como da decisão, amadurecida, de se oferecer para uma missão internacionalista em apoio à luta do PAIGC. Fala da sua longa viagem de Havana a Conacri, de Conacri a Boké, na fronteira Norte com a Guiné. Recorda as caminhadas longas de sete dias por matas e bolanhas, estas às vezes cheias de sanguessugas, dos terríveis suplícios que eram os mosquitos e as abelhas, enfim, das ofensivas das tropas portuguesas…

A entrevista tem com 25 questões. Hoje apresentamos a resposta (em itálico) às cinco primeiras, com adevdia vénia ao autor, conhecido jornalista cubano Hedelberto López Blanch (n. 1947).

“Cirurgias com a ténue luz de fachos de palha ardendo” (Cap XI, pp. 136 e ss)

“Para Alfonso Delgado foram dias aziagos, de sacrifícios, e por que não, de heroísmo, para servir um movimento de libertação que em meados da década de sessenta [do séc. XX] era o mais organizado e combativo de África”.

Nasceu em 1940 na cidade de Santa Clara [local da última batalha na Revolução Cubana, cujos combates foram liderados pela dupla do Exército Rebelde: Ernesto Che Guevara (1928-1967) e Camilo Cienfuegos Gorriarán (1932-1959), realizada no último dia do ano de 1958, levando ao exilio, nessa data, o então presidente de Cuba, Fulgêncio Batista (1901-1973), primeiro rumando à República Dominicana, depois até à Ilha da Madeira (Portugal) e, por último, a Espanha, onde morreu em Marbella, em 6 de Agosto de 1973, de enfarte do miocárdio].

Até à entrada para a universidade, estudou em colégio particular, dos antigos Maristas, não sem sacrifício opara a família, de origem modesta: a mãe era professora e i pai militar, “Os seus pais fizeram grandes esforços para lhe pagar, que frequentou desde o primeiro grau até ao quinto ano do bacharelato. Com a Universidade de Havana fechada, em 1957, pela ditadura de Fulgêncio Batista, teve procurar os seus pr+óprios meiso de subsistência, tendo trabalhado nomeadamente numa pequena fábrica de tubos em Cotorro [um município situado a sudoeste da Província e cidade de Havana].

Em 1959, a Universidade reabre e o nosso futuro médico começa a estudar medicina..

Na altura da entrevista, era cirurgião do Hospital Docente Clínico-Cirúrgico Dr. Salvador Allende, em Covadonga, Calçada del Cerro, em Havana. [A nova designação de Hospital Dr. Salvador Allende (1908-1973) verificou-se em 1973 em homenagem ao presidente chileno, também ele médico – morto em 11 de setembro de 1973, na sequência do golpe de estado liderado pelo seu chefe das Forças Armadas, Augusto Pinochet (1915-2006). Este estabelecimento de saúde chamava-se originalmenmte Casa de Saúde «Quinta Covadonga», tendo sido inaugurado em março de 1897.

“O início desta casa de saúde «Quinta Covadonga» é atribuído a acção desenvolvida, a partir de 1896, pelo emigrante asturiano (província espanhola) Manuel Valle, contando esta com vários pavilhões sanitários e onde existiam as tecnologias mais avançadas da época. A comunidade asturiana em Cuba passou a contar, desde o seu início, com apoio médico qualificado a preços simbólicos. De referir que esta instituição de saúde dependia do «Centro Asturiano de La Havana», uma sociedade de beneficência que promovia a solidariedade e a assistência entre os naturais das Astúrias e que no início do século XX chegou a ter cem mil sócios. Durante a década dos anos noventa, o governo do Principado decidiu apoiar a reconstrução e modernização deste centro, considerado o maior do sistema sanitário público cubano. Desde 2001 o edifício actual, reconstruído em 1927 por efeito de um incêndio em 1918, serve de sede a colecções de arte universal do Museu Nacional de Belas Artes Cubano]".




Cuba > La Habana > Cerro > Quinta Covadonga  > Hospital Docente Clínico Quirúrgico "Dr. Salvador Allende"

[Imagem da respetiva página no Facebook, reproduzida com a devida vénia[








(i)  Como eram os estudos de medicina 

nesses primeiros anos?

Em setembro de 1959 reiniciaram-se as aulas e eu pertencia ao primeiro grupo de estudantes de medicina depois do triunfo da Revolução. Nessa altura, inscrevíamo-nos sem fazer exame de ingresso. Antes, praticamente não tínhamos de assistir às aulas todos os dias, bastava ir a algumas sessões. Tinham-me dito que para ser bom médico tinha que trabalhar em hospitais, e no primeiro dia perguntei a um estudante se conhecia algum médico.

Levou-me, então, ao Hospital Kourí, actual Oncológico, aonde me apresentou a um médico que por sinal era cirurgião, e graças a essa coincidência continuei nessa área desde o início do trabalho como estudante de cirurgia no Kourí. Depois consegui outros locais para praticar, em particular a Clínica Cirúrgica de Havana. Este primeiro grupo de médicos graduou-se em 1965, no Pico Turquino [mapa abaixo], com a presença de Fidel de Castro (n-1926.08.13). Estivemos cinco dias a andar pelas colinas. Apesar de não ser muito desportista eu gostava de andar, e acabei por ser o segundo a chegar ao Pico Turquino entre os mais de trezentos que subimos.

Após a graduação perguntaram-me se queria fazer o Serviço Médico Rural nalgum local específico e perguntei-lhes aonde é que faria falta. Indicaram-me o de Realengo 18, em Guantánamo [enquadramento histórico em http://www.ecured.cu/Ejercito_ Rebelde], um dos lugares mais complicados.

Fui nomeado director da policlínica e depois transferiram-me para o Hospital de Gran Tierra de Baracoa. Ali trabalhava de manhã, à tarde e à noite, e praticamente não descansava para prestar apoio à população. Em Gran Tierra [município do oriente] passei oito meses e quando estou a terminar o Serviço Médico Rural, por volta de agosto de 1967, o director municipal dá-me conta de que existia a oportunidade de cumprir uma missão internacionalista.



(ii) Alguma vez levantou a hipótese 
de fazer essa missão?

Num determinado momento tinha expressado ao director do hospital a minha disposição de cumprir uma missão, sobretudo no Vietname pelo heroísmo desse povo, e na verdade sentia-me uma certa pena de não ter participado na guerra contra Batista. Estive afastado da acção política nesses primeiros anos. Creio que houve duas razões que me fizeram mudar, a primeira porque trabalhava com um grupo de cirurgia que ganhava muito dinheiro e quando operavam as pessoas no hospital nem falavam com o paciente. Em contrapartida, quando iam operar numa clínica privada, conversavam com a pessoa, a adulavam, e, por isso, desliguei-me do grupo. A outra teve a ver com “Crise de Outubro” (Crise dos Mísseis), em que fiquei indeciso sobre a posição a tomar.

[O princípio da crise dos misseis em Cuba, nome atribuído ao conflito entre os Estados Unidos, a União Soviética, ex-URSS, e Cuba em outubro de 1962, tem a sua origem na descoberta, por parte de espiões americanos, de bases de mísseis nucleares soviéticos em território cubano. De imediato, os Estados Unidos bloquearam a costa cubana e durante treze dias esteve eminente o início, em Cuba, de uma guerra nuclear, ou seja, a III Guerra Mundial, só ultrapassada pelo acordo a que chegaram as duas superpotências. Mesmo assim os Estados Unidos decidem bloquear totalmente a Ilha, impondo um embargo ao comércio com Cuba e proibindo os seus aliados de estabelecerem relações comerciais com aquele país [vd. enquadramento histórico aqui ].

Aí, as pessoas, ao conversarem sobre este episódio, diziam-me que havia que acordar, uma vez que uns pensavam no socialismo e outros no capitalismo, mas se ocorresse algum conflito, havia que estar do lado dos americanos. Esses dois factos levaram-me a cortar com as relações que tinha. Estive em Santa Clara e Guantánamo e quando regressei conclui a formação, embora os meus colegas de curso praticamente não me conheciam.

Voltando ao tema de partida, acrescento que o director municipal de saúde de Gran Tierra de Baracoa comunica-me que José Ramón Machado Ventura, então ministro da Saúde Pública, necessitava de alguém para uma missão, mas que devia ter absoluta garantia de que a cumpriria. Disse-lhe que iria até onde fosse necessário, perguntando-lhe se seria para o Vietname, mas apenas me foi dito que seria uma missão dura.



(iii) Encontrou-se com Machado Ventura 
[, ministro da saúde]?


De Guantánamo apanhei um avião até Havana para me encontrar com Machado Ventura, o qual já conhecia do tempo da pós-graduação, pois esteve no hospital aonde fui director. Um dia ele apareceu por lá, quando estava cheio de utentes. Porque soube que ele vinha, pensando que era uma inspecção, preparei-lhe um quarto, e pus-lhe uma coberta limpa na cama. Mas, em vez de nela se deitar, fê-lo no chão. Perguntei-lhe porquê? Respondeu-me se eu gostaria que ele sujasse a coberta.

Após a entrevista, o dr Machado Ventura despediu-se e pediu-me que estivesse contactável. Três ou quatro dias depois, fui contactado para que comparecesse no Ministério onde dois funcionários se reuniram comigo e disseram-me que a missão era para a Guiné Portuguesa [hoje Guiné-Bissau]. Comecei a preparar-me, pois deram-me roupa, fiz uma carta de despedida e recebi um passaporte como engenheiro agrícola
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(iv) Teve algum treino militar? 


Não. Por sorte, quando estive na pós-graduação havia uma companhia serrana, constituída por combatentes que participaram no Realengo 18 [enquadramento histórico identificado acima], e cada vez que acontecia uma mobilização, deslocava-me com eles e sabia já manejar perfeitamente as espingardas: a AK [sigla da arma automática «Kalashnikov», de fabrico soviético] e outras armas, imnagem à esquerda].

(v) Como e quando fez a viagem?

Eu e outro médico voamos do Aeroporto de Havana, fazendo escala em Gander (Canadá), Praga, Paris, Senegal e Guiné-Conacri. Embarcámos no dia 24 de dezembro de 1967, chegámos a Praga a 25 e seguimos para Paris, onde permanecemos dois dias. Na República da Guiné ninguém nos esperava. Recorremos a um carro de aluguer e pedimos para nos levarem até à embaixada cubana. Levaram-nos, então, a uma casa, tocámos e apareceu um companheiro que nos informou que havia uma reunião em casa do embaixador. Dirigimo-nos até lá. Estava a decorrer uma festa e pensei: “Disseram-me que isto era duro e quando chego encontro as pessoas comendo porco e bebendo rum”. A festa, afinal, tinha a ver com a despedida do primeiro e segundo grupos de internacionalistas que regressavam a Cuba [aonde estava, certamente, o cirurgião Domingo Diaz Delgado, o primeiro entrevistado neste trabalho].

O médico que viajou comigo era militante da Juventude [Comunista] e disseram-nos que um de nós iria para um pequeno hospital junto à fronteira com a Guiné-Bissau e o outro iria acompanhar a guerrilha. Pensei que muito provavelmente esta situação seria para o outro, mas foi para mim e que aceitei.

Porém, antes da nossa partida de Havana, tinha viajado por barco um outro grupo de trinta combatentes e seis médicos [final de novembro ou início de dezembro’1967] que, quando cheguei a Conacri, já estavam no interior da Guiné-Bissau.


Continua…

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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16356: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (2): Cadi suma outra mulher

1. Mensagem do nosso camarada Adão Pinho da Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887, (Canquelifá e Bigene, 1966/68), com data de 22 de Julho de 2016:

Amigo Carlos
Aí vai mais um conto, rigorosamente verdadeiro, de alguns que escrevi e publiquei há vários anos, e que considero um dos mais belos poemas que me aconteceram na vida.

Adão Cruz


MEMÓRIAS DE UM MÉDICO EM CAMPANHA

2 - Cadi

Cadi era uma mulher esbelta. Uma verdadeira Balanta-Bravo. Não tão bonitas como as Futa-Fulas, as balantas tinham um corpo de fazer inveja a quaisquer outras. A Cadi era o ver-dos-olhos de soldados, sargentos e oficiais. Mas apenas o ver-dos-olhos. Mais do que isso Cadi não permitia. Nós vivíamos dentro de uma cerca de arame farpado, de onde só se podia sair, praticamente, de avioneta. Uma companhia militar e uma população rondando os mil e oitocentos negros. Não é de admirar que qualquer mulher pusesse “os olhos em bico” aos militares. Cadi sabia-o muito bem, e, com uma postura digna e distanciada, contrabalançava a sua condição de negra. Cadi sabia que todos gostariam de “fazer conversa gira” com ela (fazer amor), mas tinha grande orgulho em não deixar que lhe tocassem. Eu admirava muito a maneira de ser da Cadi, que assim se valia do que a natureza lhe dera para impor a sua dignidade de mulher, ainda que negra, faminta, e rudemente colonizada pela “supremacia” branca.

Um dia, começou a constar na tabanca que Cadi não era normal. Cadi “ca tem catota, Cadi ca suma outra mulher”. Na mais rudimentar tradução à letra, isto queria dizer que Cadi não era igual às outras mulheres, pois não tinha “buraquinho”, e, por conseguinte, não podia “fazer conversa gira” nem ter filhos. O boato explodiu como uma granada, e, em pouco tempo, a Cadi transformou-se em “avis rara”, vítima da vingança dos que nunca puderam tocar-lhe e da chacota dos que, mesmo assim sendo, gostariam de o comprovar pessoalmente.

Como as neuroses e as depressões não são apenas doenças de brancos e ricos, Cadi começou a andar muito triste e cabisbaixa. Não parecia a mesma, aquela que todos os dias atravessava a picada com ar garboso, peitos erectos, cabeça erguida e um menear de ancas capaz de provocar desmaios

O meu amigo e Chefe de Posto, cabo-verdiano, numa daquelas conversas que nos ajudavam a matar as intermináveis horas que faziam o eterno tempo de guerra que éramos obrigados a viver nestas paragens do norte da Guiné, disse-me com ar pesaroso:
-Doutor, ando chateado com aquele problema da Cadi. Coitada da moça, quer ir embora, quer ir viver para Binta. Sente uma grande vergonha por aquilo que dizem. Não seria possível fazer alguma coisa por ela? Por exemplo o doutor examiná-la? Ela aceitaria imediatamente. Apesar dos seus vinte anos e de nunca ter saído daqui, é uma rapariga com mentalidade evoluída e uma personalidade admirável.

Combinámos o dia e a hora do exame. Exigi a presença do Chefe de Posto e do meu enfermeiro, o qual, apesar de ser electricista de profissão, foi dos melhores enfermeiros que tive na Guiné.

O exame ginecológico da Cadi era absolutamente normal. Tinha “buraquinho” no mesmo lugar do buraquinho das mais famosas artistas de cinema, e com todos os demais apetrechos com que a natureza dotou as mulheres, brancas ou negras. Cadi podia fazer “conversa gira” com quem quisesse e podia ter filhos.

No dia seguinte, o Chefe de Posto reuniu, debaixo do mangueiro que ensombrava o pátio da sua pequena casa, todos os “Homens Grandes” da tabanca. Eram mais de dez, vestindo a túnica branca de cerimónia, e ostentando o turbante que a sua origem muçulmana impunha. Com ar grave, compenetrados da importância da sua presença, ouviram a comunicação em crioulo que o Chefe de Posto lhes fez.

Não sou capaz de reproduzir na íntegra, e tenho pena, mas posso dizer que foi das coisas mais bonitas que ouvi na minha vida de médico e de homem:
- Homem Grande de tabanca, toda gente conhece Doutor. Doutor ser aquele homem que cura meningite de tanto menino, que ensina maneira certa de parir, que faz fanado limpo de infecção, que levanta de noite toda hora para acalmar sezões. Doutor ter palavra sagrada. E Doutor disse: "Cadi suma outra mulher, Cadi ter catota suma outra mulher, Cadi pude fazer conversa gira e ter filho”.

Os “Homens grandes” da tabanca desfizeram-se em vénias e Cadi foi reabilitada. Ganhou até uma certa auréola de heroína, não só entre a população negra como entre os militares.

Eu tinha um jipe muito velho, quase só rodas e chassi. Com ele costumava ir ver o pôr-do-sol na orla da floresta, junto do arame farpado. Embora a distância não fosse grande, cerca de oitocentos metros, dava uma certa ficha e era motivo para entreter a pequenada em gincanas à volta da tabanca.

Já o sol se havia posto há muito. Demorei-me um pouco mais com a ternura desta gente negra e com as carícias que um velho cego de noventa anos me fazia, todos os dias, à volta da cara e nos cabelos, quando desligava o motor frente à sua palhota, onde me esperava sempre à hora do crepúsculo. Na pequena subida para a povoação, já fora da zona das palhotas, em contraluz, vi um vulto de mulher em estilo de aparição, com os pés na terra mas bem desenhado no céu, que parecia querer falar-me. Aproximei-me o mais possível e parei. Com o seu rosto de diamante negro espelhado de orgulho balanta, envolto num lenço negro como ele, eu tinha na minha frente a Cadi.

- Cadi, que surpresa!
- Dôtô, Cadi manga de satisfação, Cadi feliz, Cadi ca sabe como agradecê, dôtô tudo merece. Cadi mist conversa gira.
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de junho de 2016 Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene

Guiné 63/74 - P16355: Tabanca Grande (492): Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689/BART 1913 (Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

1. Mensagens do nosso camarada e novo tertuliamo Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689/BART 1913, Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá (1967/69), com data de 29 de Julho de 2016:

Caro Carlos Vinhal.
Conforme combinado, segue o material relacionado com o texto enviado em separado. Diz-me se recebeste em boas condições. Logo à noite, com mais vagar, faço a minha apresentação e outros esclarecimentos pertinentes.
Estive no inferno de GANDEMBEL, a comandar, sozinho (era o único graduado) um pelotão na terrifica, brutal e desumana operação BOLA DE FOGO. Falta-me tempo para contar a brutalidade das acções e do quotidiano dos arrepiantes e tenebrosos 38 dias vividos dentro dum bafiento, insalubre e consporcado buraco que nos serviu de "hotel" durante a tenebrosa operação BOLA DE FOGO.
O resto fica para depois.
Peço desculpa desta informalidade, mas acontece que não sou um "finório" na forma de lidar com estas modernices das novas tecnologias.

Até já.
Um grande abraço.
Fernando Cepa
Ex-Furriel Miliciano
Cart 1689

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Caro Carlos Vinhal
Cá estou novamente para terminar esta “operação” que teve origem no tema lançado na Tabanca Grande, sobre as facas de mato, objecto multifacetado que servia para tudo, inclusive para limpar as unhas. Já te disse que não sou nenhum prendado a lidar com as novas tecnologias (sou da velha guarda, e, como burro velho não toma andadura …) por isso, não sei o que vai sair desta primeira tentativa de chegar ao convívio da fantástica família da Tabanca Grande. Vamos ver a pessegada que a minha ignorância nos reserva.

Esta minha abordagem resulta do facto de as FACAS DE MATO serem objecto de análise no nosso blogue. Então, lembrei-me, caramba, a minha faca de mato tem direito a figurar no livro de honra da guerra colonial da ex-província da Guiné. E assim, seguiu para a tua superior apreciação, o extrato que retirei da história da CART 1689, registo que já comecei, mas que ainda não acabei.

Perguntarás! Mas porquê, escrever um livro sobre a história da CART 1689? Muito simples, Já fiz um filho, já plantei uma árvore, e, agora, sem grande jeito, para completar a trilogia, vou tentar escrever um livro.

Não gosto muito de falar da minha pessoa, mas para cumprir os “regulamentos” da Tabanca, aqui vai a apresentação da praxe.


2. Combati, forte e feio, na Guiné, de 1967 a 1969, como Furriel Miliciano, integrado na CArt 1689, BArt 1913.
Participei em toda a intensa actividade operacional da CArt 1689, com especial destaque na mítica operação BOLA DE FOGO (Abril e Maio de 1968) que decorreu no Corredor de Guileje para construir (não sei para quê?) o famigerado aquartelamento de GANDEMBEL, muito a propósito batizado de INFERNO DE GANDEMBEL. Para mal dos meus pecados, na ausência (férias e baixas por doença) de todos os graduados do meu pelotão, foi-me entregue o comando do mesmo, por só restar eu, disponível, dentre o alferes e os quatro furriéis. Não foi fácil.

Num ambiente infernal de stress permanente, com o inimigo a atacar todos os dias, consegui levar o barco a bom porto, aliás, na linha do excelente comportamento em combate, evidenciado por toda a CArt 1689, que já anteriormente tinha sido galardoada com a FLÂMULA DE HONRA. Só quem esteve em GANDEMBEL é que pode contar como foi. Foi demasiado mau, violento, vexante, imprudente, desumano, sem respeito pela dignidade dos soldados portugueses, reduzidos sem dó nem piedade, à condição de bichos do mato, encafuados durante 38 dias em buracos bafientos, escavados no chão, de pá e pica na mão.
Bem já me perdi, Gandembel fica para outras calendas.
Na Guiné, com a CArt 1689, estive estacionado em Fá Mandinga, Catió, Cabedú, Buba, Gandembel, Canquelifá, Dunane e Bissau.

Voltemos à minha apresentação.
Vivo em S. Bartolomeu do Mar (terra da secular e badalada romaria do banho santo, candidata a património imaterial da humanidade), concelho de Esposende e Distrito de Braga.
Depois de devolvido à vida civil, fiz carreira na área financeira (banca) passando à reforma com o posto de gerente bancário. Andei muitos anos na politica, exercendo funções como presidente de junta, vereador na câmara municipal e adjunto do presidente da câmara.
O que faço agora? Muita coisa!
Actualmente, continuo a dar o meu contributo à sociedade. Sou presidente duma IPSS – instituição particular de solidariedade social – que para além das causas sociais, também tem um fantástico e bem sucedido projecto desportivo, na área do andebol feminino. Para além de cento e muitas atletas, em todos os escalões, acabamos de ser campeões nacionais da 2.ª Divisão, em Seniores, e, para a próxima época, estaremos junto da elite do andebol feminino, a disputar o campeonato nacional da 1.ª Divisão.
Falo do Centro Social da Juventude de Mar – Esposende. Eh pá, esqueci-me do tempo. Já chega.


3. Vamos as fotos que te mandei.

A actual, é fresquinha, tem 30 dias. Já agora, nasci a 23 de Agosto de 1944.

Faca de mato que foi baleada na operação Inquietar - Caneta Parker, Rádio Sharp 7Transistor e ventoínha
 
Testando a poderosa bazooka em Gandembel.

A meus pés, a entrada do buraco que me serviu de alojamento durante 38 dias em Gandembel

Em Buba, fisicamente debilitado, passados três dias sobre o fim da operação Bola de Fogo em Gandembel.

Nota: Mantenho frequentes contactos com os tabanqueiros Alberto Branquinho e José Ferreira da Silva.

Tens carta branca para fazeres o que bem entenderes sobre o material que te enviei.

Um rijo abraço do
Fernando Cepa
Ex-Furriel Milicaino
CArt 1689/BArt 1913
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4. Operação Inquietar


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5. Comentário do editor

Mas que bela apresentação. Caríssimo camarada Fernando Cepa, sê bem-vindo à nossa caserna virtual, ou Tabanca Grande, tertúlia, essencialmente de ex-combatentes da Guiné, onde temos como missão deixar material escrito e fotografado que sirva, um dia, para ajudar a contar a história da guerra naquela pequena parcela de África onde tanto sangue se derramou.

Escusado será dizer-te para escolheres um bom lugar à sombra do nosso poilão, pois já nos conheces através dos teus especiais amigos e camaradas Alberto Branquinho e José Ferreira da Silva, ambos bons contadores de histórias, aos quais devemos as melhores páginas deste blogue.
Se o Branquinho já publicou, o Zé e tu estarão para fazê-lo também muito em breve. O Ferreira já sabe, e tu ficas agora a saber, que estamos ao vosso inteiro dispor para fazermos a divulgação dos vossos livros.

A Op. Inquietar poderia ter sido para ti a primeira e a última. Olha se não tinhas saído da "casca"?

A situação que nos contas, de estares tu a desembarcar e o teu irmão a embarcar, foi infelizmente mais vulgar do que à partida possa parecer. Houve inclusive caso de irmãos ao mesmo tempo na mesma província.
Estou a lembra-me, assim de repente, de um caso semelhante ao teu, o do meu amigo Veiga Pereira da CCAÇ 2405 (1968/70), que sendo de Matosinhos é teu vizinho aí em Esposende, que chegado da Guiné em Junho, viu o seu irmão André embarcar em Julho, na 27.ª CComandos, também para aquele TO.
Lembro ainda os 6 Irmãos Magro que serviram nos três Teatros de Operações, talvez o caso mais emblemático da nossa guerra.
Pobres mães, o quanto sofriam naquele tempo. Elas sim foram as verdadeiras heroínas da Guerra do Ultramar.

Uma vez que és do norte, tens pelo menos duas Tabancas que poderás visitar, a de Matosinhos, todas as quartas-feiras, e a dos Melros, em Fânzeres-Gondomar. Esta última, como saberás, é frequentada pelo Zé da CART. E por mim, de vez em quando. Não esqueças também a nossa reunião anual onde teremos muito prazer na tua companhia.

Muito obrigado por te juntares a nós.
Termino, deixando aqui, para ti, um abraço de boas-vindas em nome da tertúlia e dos editores.
CV
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Nota do editor

Último poste da série de 26 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16335: Tabanca Grande (491): Adão Pinho da Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)